Margaret Atwood
sábado, 18 de maio de 2024
Se soubesse o futuro...
Se você soubesse o que iria acontecer, se você soubesse tudo o que iria acontecer no futuro, se soubesse de antemão as consequências de suas próprias ações, você estaria condenado. Você ficaria arruinado como Deus. Você seria uma pedra. Você não se atreveria.
Israel não chora mais
Khirbet Khizeh, de S. Yizhar, a história ficcional da expulsão dos palestinos de seu povoado pelas forças do proto-Estado judeu, na guerra de 1948, foi publicado no ano seguinte. "Atirar –e, depois, chorar": o remorso do narrador, um jovem soldado que cumpre a ordem de remoção dos habitantes, pertence ao mito nacional de Israel. Hoje, porém, sob um governo controlado por extremistas, Israel não chora mais: atira e, depois, tortura.
Tortura não é novidade na Terra Santa. Agentes israelenses torturam prisioneiros palestinos. Policiais da Autoridade Palestina torturam prisioneiros do Hamas e vice-versa, na Cisjordânia e em Gaza. O Hamas cometeu abusos sexuais contra reféns israelenses. A novidade, porém, está na motivação.
Uma investigação da CNN, baseada em fotos e depoimentos de funcionários israelenses anônimos, lançou luz sobre o centro de detenção estabelecido na base militar de Sde Teiman. É uma Guantánamo no deserto do Neguev. Os prisioneiros, manietados em ambientes contaminados por fezes e ratos, impedidos de se locomover durante dias inteiros e proibidos de falar, sofrem abusos e sevícias intermitentes. Direito humanitário? Convenção da ONU contra Tortura? Nada disso existe naquele inferno.
A tese da bomba-relógio, um cenário que só aparece no cinema, forma a base lógica da prática estatal da tortura. Contudo, não funciona em Sde Teiman: no cárcere para supostos combatentes de campo, não há dirigentes do Hamas ou da Jihad Islâmica que possam guardar segredos sensíveis. Tortura-se, ali, por vingança.
O soldado do romance de Yizhar cumpre ordens terríveis. Sua disciplina resignada sintetiza o conceito que fabricou Israel: um país seguro para judeus expulsos de suas pátrias originais por meio século de perseguições que culminaram no Holocausto. A Nakba palestina emergiu de uma guerra, não de uma deliberação genocida. Se perdessem, os judeus é que seriam expulsos, conforme prometiam os líderes das forças árabes. Mas o soldado chora porque reconhece a humanidade de suas vítimas.
O escritor Amos Oz, autor do ensaio "Como curar um fanático", inflexível defensor da solução de dois Estados, combateu nas guerras do Sinai, dos Seis Dias e do Yom Kippur. Ele captou o dilema moral inscrito no "atirar –e, depois, chorar": "Fiz muitas coisas que lamento ter sido obrigado a fazer, mas nenhuma de que me envergonhe". O antissemita de plantão (disfarçado ou não no manto conveniente do "antissionismo") dirá que são lágrimas hipócritas –e, como sempre, estará errado.
Khirbet Khizeh entrou no currículo escolar oficial judeu em 1964, tornou-se best-seller e inspirou uma série de TV. Numa palestra a estudantes, ninguém menos que Moshe Dayan, ministro da Defesa na Guerra dos Seis Dias, recitou cada um dos nomes dos povoados palestinos destruídos e enterrados sob povoados israelenses. A mais completa descrição da extinção da paisagem material e simbólica palestina e sua substituição pela paisagem israelense deve-se não a um árabe-palestino, mas a um judeu israelense: Sacred Landscape, de Meron Benvenisti, que foi vice-prefeito de Jerusalém.
As lágrimas, porém, secaram. As provas estão em Sde Teiman e na guerra de punição coletiva conduzida em Gaza, duas faces de uma mesma moeda, coisas que envergonhariam Oz, se ele estivesse vivo para contemplá-las.
Haverá, sempre, um propagandista disponível para racionalizar os massacres de civis e as torturas de prisioneiros, atribuindo-os ao trauma criado pela barbárie do 7 de outubro. A tentativa de, por essa via, justificar as ações estatais israelenses, é historicamente falsa. O "atirar –e, depois, torturar" reflete a natureza do governo de Netanyahu e deita raízes na prolongada ocupação, que corrompe a alma do Estado judeu. Os judeus israelenses precisam da paz em dois Estados tanto quanto os árabes palestinos.
Tortura não é novidade na Terra Santa. Agentes israelenses torturam prisioneiros palestinos. Policiais da Autoridade Palestina torturam prisioneiros do Hamas e vice-versa, na Cisjordânia e em Gaza. O Hamas cometeu abusos sexuais contra reféns israelenses. A novidade, porém, está na motivação.
Uma investigação da CNN, baseada em fotos e depoimentos de funcionários israelenses anônimos, lançou luz sobre o centro de detenção estabelecido na base militar de Sde Teiman. É uma Guantánamo no deserto do Neguev. Os prisioneiros, manietados em ambientes contaminados por fezes e ratos, impedidos de se locomover durante dias inteiros e proibidos de falar, sofrem abusos e sevícias intermitentes. Direito humanitário? Convenção da ONU contra Tortura? Nada disso existe naquele inferno.
A tese da bomba-relógio, um cenário que só aparece no cinema, forma a base lógica da prática estatal da tortura. Contudo, não funciona em Sde Teiman: no cárcere para supostos combatentes de campo, não há dirigentes do Hamas ou da Jihad Islâmica que possam guardar segredos sensíveis. Tortura-se, ali, por vingança.
O soldado do romance de Yizhar cumpre ordens terríveis. Sua disciplina resignada sintetiza o conceito que fabricou Israel: um país seguro para judeus expulsos de suas pátrias originais por meio século de perseguições que culminaram no Holocausto. A Nakba palestina emergiu de uma guerra, não de uma deliberação genocida. Se perdessem, os judeus é que seriam expulsos, conforme prometiam os líderes das forças árabes. Mas o soldado chora porque reconhece a humanidade de suas vítimas.
O escritor Amos Oz, autor do ensaio "Como curar um fanático", inflexível defensor da solução de dois Estados, combateu nas guerras do Sinai, dos Seis Dias e do Yom Kippur. Ele captou o dilema moral inscrito no "atirar –e, depois, chorar": "Fiz muitas coisas que lamento ter sido obrigado a fazer, mas nenhuma de que me envergonhe". O antissemita de plantão (disfarçado ou não no manto conveniente do "antissionismo") dirá que são lágrimas hipócritas –e, como sempre, estará errado.
Khirbet Khizeh entrou no currículo escolar oficial judeu em 1964, tornou-se best-seller e inspirou uma série de TV. Numa palestra a estudantes, ninguém menos que Moshe Dayan, ministro da Defesa na Guerra dos Seis Dias, recitou cada um dos nomes dos povoados palestinos destruídos e enterrados sob povoados israelenses. A mais completa descrição da extinção da paisagem material e simbólica palestina e sua substituição pela paisagem israelense deve-se não a um árabe-palestino, mas a um judeu israelense: Sacred Landscape, de Meron Benvenisti, que foi vice-prefeito de Jerusalém.
As lágrimas, porém, secaram. As provas estão em Sde Teiman e na guerra de punição coletiva conduzida em Gaza, duas faces de uma mesma moeda, coisas que envergonhariam Oz, se ele estivesse vivo para contemplá-las.
Haverá, sempre, um propagandista disponível para racionalizar os massacres de civis e as torturas de prisioneiros, atribuindo-os ao trauma criado pela barbárie do 7 de outubro. A tentativa de, por essa via, justificar as ações estatais israelenses, é historicamente falsa. O "atirar –e, depois, torturar" reflete a natureza do governo de Netanyahu e deita raízes na prolongada ocupação, que corrompe a alma do Estado judeu. Os judeus israelenses precisam da paz em dois Estados tanto quanto os árabes palestinos.
Como lidar com a desinformação?
Vou pedir licença ao leitor para retomar o assunto da semana passada, com enfoque ligeiramente diferente. Creio que a gravidade da situação no Rio Grande do Sul justifica minha insistência.
Estamos todos chocados com a profusão de conteúdos desinformativos sobre a atuação do governo na crise humanitária no Rio Grande do Sul: informações distorcidas, exageradas, retiradas de contexto ou simplesmente falsas infestaram as mídias sociais e os aplicativos de mensagens. Segundo essas mensagens, os governos federal (PT) e estadual (PSDB) não apenas não fazem o necessário, como criam ativamente obstáculos para o auxílio às vítimas das cheias, retendo doações nos centros de distribuição e impondo entraves burocráticos à doação de remédios, à operação de barcos e jet-skis ou à chegada de caminhões com alimentos. Ao povo vítima das cheias, restaria apenas recorrer aos cidadãos brasileiros que lutam como podem para contornar os obstáculos criados pelos governos (“de esquerda”). Dados colhidos nas mídias sociais e em pesquisas de opinião sugerem que esse discurso pegou.
De onde partiram essas mensagens e como podemos lutar contra seus efeitos deletérios, que desestimulam doações e semeiam a desconfiança nos agentes públicos que promovem os resgates?
A resposta mais comum é que se trata de uma campanha orquestrada por políticos e influenciadores bolsonaristas para desacreditar os governos de Eduardo Leite e Lula e que a maneira adequada de se contrapor a essa campanha irresponsável e canalha é produzir desmentidos rigorosos, veiculados na mídia de massa.
Não está completamente errado, mas há um equívoco fundamental nessa abordagem. Ele consiste em supor que a opinião da população é puramente racional e indutiva, foi forjada a partir dos fatos apresentados: de tanto ver informações falsas ou distorcidas de que os governos atrapalham o socorro às vítimas, o cidadão adere ao discurso antigovernamental.
Há algumas décadas sabemos que não é assim que se formam opiniões e atitudes sobre temas carregados de afeto ou ligados a identidades políticas. Não formamos convicção sobre esses assuntos a partir dos fatos, mas, ao contrário, frequentemente selecionamos os fatos que respaldam as convicções que já temos. É o mecanismo conhecido como “viés de confirmação”.
Nenhuma campanha política organizada precisa convencer os brasileiros de que os governos não fazem o suficiente. Esse sentimento, geralmente justificado, certamente aumentou quando uma catástrofe de grandes proporções exigiu ainda mais ações de um governo que pouco faz ou pouco consegue fazer. É bastante razoável supor que, antes de qualquer exposição à desinformação no WhatsApp, a população já estava insatisfeita e irritada com a morosidade e a ineficiência dos governos.
Foi para respaldar essa insatisfação e indignação com os governos que os boatos se disseminaram. Não foram os fatos que formaram as convicções; foram as convicções que convocaram os fatos. E, uma vez convocados, esses fatos foram produzidos. Parte deles pela confusão e incerteza da situação, parte pela raiva do cidadão comum indignado, parte pela militância organizada bolsonarista.
Um fenômeno social dessa dimensão não pode ser inventado num gabinete de marqueteiro. Se houve uma campanha organizada pelos bolsonaristas, ela apenas ajudou a dar orientação e volume a uma disposição social que já estava lá, latente.
Por isso não devemos chegar para o povo indignado com a ineficiência da resposta do Estado e petulantemente dizer:
— Sua convicção é baseada em fake news.
Quando dizemos isso, imaginamos contestar os fatos que embasaram a convicção, mas, na realidade, apenas deslegitimamos a dor e a indignação justa. A reação do interlocutor não será mudar de ideia. Será rejeitar e afastar quem lhe desrespeita.
É preciso reconhecer a legitimidade dessa revolta e discutir com muita consideração as evidências que ela escolheu adotar. Esse respeito é devido não à liderança bolsonarista que dissemina a desinformação, mas às pessoas que a adotaram.
Não precisamos deixar de contestar a desinformação, mas precisamos contestar com postura diferente. A que temos adotado — de portadores de uma verdade rigorosamente estabelecida com critérios científicos e jornalísticos — não é apenas tremendamente ineficaz. É também arrogante, presunçosa e desrespeitosa.
Estamos todos chocados com a profusão de conteúdos desinformativos sobre a atuação do governo na crise humanitária no Rio Grande do Sul: informações distorcidas, exageradas, retiradas de contexto ou simplesmente falsas infestaram as mídias sociais e os aplicativos de mensagens. Segundo essas mensagens, os governos federal (PT) e estadual (PSDB) não apenas não fazem o necessário, como criam ativamente obstáculos para o auxílio às vítimas das cheias, retendo doações nos centros de distribuição e impondo entraves burocráticos à doação de remédios, à operação de barcos e jet-skis ou à chegada de caminhões com alimentos. Ao povo vítima das cheias, restaria apenas recorrer aos cidadãos brasileiros que lutam como podem para contornar os obstáculos criados pelos governos (“de esquerda”). Dados colhidos nas mídias sociais e em pesquisas de opinião sugerem que esse discurso pegou.
De onde partiram essas mensagens e como podemos lutar contra seus efeitos deletérios, que desestimulam doações e semeiam a desconfiança nos agentes públicos que promovem os resgates?
A resposta mais comum é que se trata de uma campanha orquestrada por políticos e influenciadores bolsonaristas para desacreditar os governos de Eduardo Leite e Lula e que a maneira adequada de se contrapor a essa campanha irresponsável e canalha é produzir desmentidos rigorosos, veiculados na mídia de massa.
Não está completamente errado, mas há um equívoco fundamental nessa abordagem. Ele consiste em supor que a opinião da população é puramente racional e indutiva, foi forjada a partir dos fatos apresentados: de tanto ver informações falsas ou distorcidas de que os governos atrapalham o socorro às vítimas, o cidadão adere ao discurso antigovernamental.
Há algumas décadas sabemos que não é assim que se formam opiniões e atitudes sobre temas carregados de afeto ou ligados a identidades políticas. Não formamos convicção sobre esses assuntos a partir dos fatos, mas, ao contrário, frequentemente selecionamos os fatos que respaldam as convicções que já temos. É o mecanismo conhecido como “viés de confirmação”.
Nenhuma campanha política organizada precisa convencer os brasileiros de que os governos não fazem o suficiente. Esse sentimento, geralmente justificado, certamente aumentou quando uma catástrofe de grandes proporções exigiu ainda mais ações de um governo que pouco faz ou pouco consegue fazer. É bastante razoável supor que, antes de qualquer exposição à desinformação no WhatsApp, a população já estava insatisfeita e irritada com a morosidade e a ineficiência dos governos.
Foi para respaldar essa insatisfação e indignação com os governos que os boatos se disseminaram. Não foram os fatos que formaram as convicções; foram as convicções que convocaram os fatos. E, uma vez convocados, esses fatos foram produzidos. Parte deles pela confusão e incerteza da situação, parte pela raiva do cidadão comum indignado, parte pela militância organizada bolsonarista.
Um fenômeno social dessa dimensão não pode ser inventado num gabinete de marqueteiro. Se houve uma campanha organizada pelos bolsonaristas, ela apenas ajudou a dar orientação e volume a uma disposição social que já estava lá, latente.
Por isso não devemos chegar para o povo indignado com a ineficiência da resposta do Estado e petulantemente dizer:
— Sua convicção é baseada em fake news.
Quando dizemos isso, imaginamos contestar os fatos que embasaram a convicção, mas, na realidade, apenas deslegitimamos a dor e a indignação justa. A reação do interlocutor não será mudar de ideia. Será rejeitar e afastar quem lhe desrespeita.
É preciso reconhecer a legitimidade dessa revolta e discutir com muita consideração as evidências que ela escolheu adotar. Esse respeito é devido não à liderança bolsonarista que dissemina a desinformação, mas às pessoas que a adotaram.
Não precisamos deixar de contestar a desinformação, mas precisamos contestar com postura diferente. A que temos adotado — de portadores de uma verdade rigorosamente estabelecida com critérios científicos e jornalísticos — não é apenas tremendamente ineficaz. É também arrogante, presunçosa e desrespeitosa.
O fio da lâmina
Alguns dos leitores que me honram com sua atenção consideram como “exagerado” o meu pessimismo sobre o Brasil atual.
Não sei se pessimismo é o termo adequado, mas reconheço a relevância do questionamento, pois, de fato, exageros (pessimistas ou otimistas) comprometem a objetividade de qualquer reflexão sobre as condições da sociedade. Assíduo leitor das publicações diárias, admito que raramente encontro nelas alguma razão para alívio. Um exemplo: na página A8 da edição de 11 do corrente mês, este jornal estampou a seguinte manchete: Com RS em crise, Lula envia texto ao Congresso que eleva salários no STF. Não ficaria chocado se entendesse que os mais altos magistrados vivem como miseráveis, mas esse não me parece ser o caso. Na edição de 16 de maio, na primeira página, o jornal voltou ao tema: No RS, Lula anuncia ajuda federal aos gaúchos com tom de comício. Por aí se vê que nosso principal aspirante a estadista não se preocupa sequer em disfarçar sua sensibilidade meramente eleitoreira.
Claro, o problema não é só brasileiro. Numa vigorosa série de ensaios, a jornalista Anne Applebaum, redatora da revista mensal norte-americana The Atlantic, tem afirmado que “as democracias estão perdendo a guerra da propaganda”. Na edição de maio passado, ela lembrou que, “na era soviética, a propaganda comunista pintava um paraíso ao alcance da mão. Hoje, ao contrário, a propaganda antidemocrática procura convencer o Ocidente de que a democracia degenerou de vez, que toda eleição é ilegítima e que a civilização está à beira da morte”. Ninguém contesta o talento da eminente jornalista, mas peço vênia para algumas ressalvas. Opino que, se os Estados Unidos e as demais democracias ocidentais se abrissem completamente à imigração (hipótese fantasiosa, claro), no mínimo metade dos cidadãos que hoje vivem sob o jugo de Vladimir Putin (Rússia), Xi Jinping (China), Viktor Orbán (Hungria), Recep Erdogan (Turquia), Narendra Modi (Índia) e outros menos votados formariam longas filas nos aeroportos, ansiosos por desembarcar em alguma “democracia degenerada”.
A questão é simples. A propaganda antidemocrática não sai da cabeça de gente que mal sabe o que vai comer amanhã, de analfabetos, ou de subcidadãos que nunca fizeram uma viagem ao exterior. Ela é produzida pelos dirigentes de países autoritários e pelos exércitos de assessores e publicitários que todo governante tem ao seu dispor.
Voltemos ao Brasil. Penso que as desgraças que corroem nossa sociedade não são propriamente um sentimento de pessimismo, mas uma mescla de três coisas: primeiro, uma observação realista do poço em que nos afundamos; segundo, uma profunda decepção com o que não fizemos em mais de dois séculos como nação independente; terceiro, uma sensação de perplexidade por não conseguirmos compreender a conexão entre os dois pontos precedentes.
A observação pode ser condensada em poucas linhas. No Brasil, um pequeno número de bilionários controla metade da renda e da riqueza; no mínimo, 30% dos cidadãos de mais de 15 anos são analfabetos funcionais; a criminalidade e o crime organizado crescem a toda brida; milionários recusam-se a pagar a anuidade de seus filhos em universidades públicas, mas não abrem mão de um breve séjour anual na Europa.
A decepção decorre da certeza de que, em última análise, somos um país fácil de governar. Recursos naturais não nos faltam. Não somos um país dividido por dezenas de idiomas oficiais e diversas tribos acidamente belicosas entre si, como ocorre, por exemplo, na África do Sul; e não vivemos (como a Ucrânia) à mercê de vizinhos grosseiramente imperialistas, como a Rússia sempre foi.
Chegamos, assim, à perplexidade. Como compreender que um país facilmente governável permaneça neste estado de miséria e malquerenças políticas estúpidas como a que teve início na eleição presidencial de 2018? Divisões ideológicas por certo não explicam esse fenômeno, pois sabemos que nossos soit-disant líderes políticos trocam de ideologia como quem troca de camisa, ou na mera expectativa de um cargo na administração pública. Penso que a resposta está na leviandade com que mediocrizamos os pilares fundamentais da democracia representativa, principalmente os partidos políticos e o Legislativo. Nessas condições – como observou no início do século o grande pensador Max Weber –, nenhum país é capaz de produzir líderes políticos que mereçam o respeito da sociedade. Atingido esse ponto, é comum surgir, mesmo nas camadas mais esclarecidas de qualquer país, a ilusão do “governo forte”, vale dizer, do populismo, do ditador benévolo, do “cesarismo”.
O maior temor de Max Weber em relação às sociedades modernas era o estiolamento da vida política pelas burocracias. O único antídoto confiável para esse mal seriam, para ele, líderes políticos de envergadura, formados nos embates parlamentares. Políticos que vivessem “para a política”, e não “da política”, ou seja, políticos por vocação, e não meros aproveitadores. Se assim é, na entressafra política que nos assola, temos lamentavelmente fortes motivos para pessimismo.
Não sei se pessimismo é o termo adequado, mas reconheço a relevância do questionamento, pois, de fato, exageros (pessimistas ou otimistas) comprometem a objetividade de qualquer reflexão sobre as condições da sociedade. Assíduo leitor das publicações diárias, admito que raramente encontro nelas alguma razão para alívio. Um exemplo: na página A8 da edição de 11 do corrente mês, este jornal estampou a seguinte manchete: Com RS em crise, Lula envia texto ao Congresso que eleva salários no STF. Não ficaria chocado se entendesse que os mais altos magistrados vivem como miseráveis, mas esse não me parece ser o caso. Na edição de 16 de maio, na primeira página, o jornal voltou ao tema: No RS, Lula anuncia ajuda federal aos gaúchos com tom de comício. Por aí se vê que nosso principal aspirante a estadista não se preocupa sequer em disfarçar sua sensibilidade meramente eleitoreira.
Claro, o problema não é só brasileiro. Numa vigorosa série de ensaios, a jornalista Anne Applebaum, redatora da revista mensal norte-americana The Atlantic, tem afirmado que “as democracias estão perdendo a guerra da propaganda”. Na edição de maio passado, ela lembrou que, “na era soviética, a propaganda comunista pintava um paraíso ao alcance da mão. Hoje, ao contrário, a propaganda antidemocrática procura convencer o Ocidente de que a democracia degenerou de vez, que toda eleição é ilegítima e que a civilização está à beira da morte”. Ninguém contesta o talento da eminente jornalista, mas peço vênia para algumas ressalvas. Opino que, se os Estados Unidos e as demais democracias ocidentais se abrissem completamente à imigração (hipótese fantasiosa, claro), no mínimo metade dos cidadãos que hoje vivem sob o jugo de Vladimir Putin (Rússia), Xi Jinping (China), Viktor Orbán (Hungria), Recep Erdogan (Turquia), Narendra Modi (Índia) e outros menos votados formariam longas filas nos aeroportos, ansiosos por desembarcar em alguma “democracia degenerada”.
A questão é simples. A propaganda antidemocrática não sai da cabeça de gente que mal sabe o que vai comer amanhã, de analfabetos, ou de subcidadãos que nunca fizeram uma viagem ao exterior. Ela é produzida pelos dirigentes de países autoritários e pelos exércitos de assessores e publicitários que todo governante tem ao seu dispor.
Voltemos ao Brasil. Penso que as desgraças que corroem nossa sociedade não são propriamente um sentimento de pessimismo, mas uma mescla de três coisas: primeiro, uma observação realista do poço em que nos afundamos; segundo, uma profunda decepção com o que não fizemos em mais de dois séculos como nação independente; terceiro, uma sensação de perplexidade por não conseguirmos compreender a conexão entre os dois pontos precedentes.
A observação pode ser condensada em poucas linhas. No Brasil, um pequeno número de bilionários controla metade da renda e da riqueza; no mínimo, 30% dos cidadãos de mais de 15 anos são analfabetos funcionais; a criminalidade e o crime organizado crescem a toda brida; milionários recusam-se a pagar a anuidade de seus filhos em universidades públicas, mas não abrem mão de um breve séjour anual na Europa.
A decepção decorre da certeza de que, em última análise, somos um país fácil de governar. Recursos naturais não nos faltam. Não somos um país dividido por dezenas de idiomas oficiais e diversas tribos acidamente belicosas entre si, como ocorre, por exemplo, na África do Sul; e não vivemos (como a Ucrânia) à mercê de vizinhos grosseiramente imperialistas, como a Rússia sempre foi.
Chegamos, assim, à perplexidade. Como compreender que um país facilmente governável permaneça neste estado de miséria e malquerenças políticas estúpidas como a que teve início na eleição presidencial de 2018? Divisões ideológicas por certo não explicam esse fenômeno, pois sabemos que nossos soit-disant líderes políticos trocam de ideologia como quem troca de camisa, ou na mera expectativa de um cargo na administração pública. Penso que a resposta está na leviandade com que mediocrizamos os pilares fundamentais da democracia representativa, principalmente os partidos políticos e o Legislativo. Nessas condições – como observou no início do século o grande pensador Max Weber –, nenhum país é capaz de produzir líderes políticos que mereçam o respeito da sociedade. Atingido esse ponto, é comum surgir, mesmo nas camadas mais esclarecidas de qualquer país, a ilusão do “governo forte”, vale dizer, do populismo, do ditador benévolo, do “cesarismo”.
O maior temor de Max Weber em relação às sociedades modernas era o estiolamento da vida política pelas burocracias. O único antídoto confiável para esse mal seriam, para ele, líderes políticos de envergadura, formados nos embates parlamentares. Políticos que vivessem “para a política”, e não “da política”, ou seja, políticos por vocação, e não meros aproveitadores. Se assim é, na entressafra política que nos assola, temos lamentavelmente fortes motivos para pessimismo.
sexta-feira, 17 de maio de 2024
Desastres institucionais
Quais os efeitos de longo prazo do desastre no Rio Grande do Sul? Sempre iluminador, Cesar Zucco me enviou um belo artigo dos economistas Guglielmo Barone e Sauro Mocetti que dá o que pensar. O paper se vale de um daqueles experimentos naturais com que as Parcas às vezes nos presenteiam.
Em 1976, um terremoto atingiu o Friul, no nordeste da Itália. Quatro anos depois, foi a vez do distrito de Irpinia, no sul do país, ser afetado por um sismo comparável. Os efeitos imediatos foram arrasadores em escala local, mas pouco significativos no plano nacional, o que permitiu aos autores criar controles para comparar o desempenho de cada uma das áreas com o que teria acontecido caso não tivessem sofrido os tremores.
A hipótese de Barone e Mocetti é que a recuperação seria afetada pela qualidade das instituições políticas e o nível de participação da sociedade civil. Eles mediram isso através de indicadores como processos por corrupção, comparecimento eleitoral e leitura de jornais.
A devastação inicial costuma ser reduzida ou até neutralizada pela ajuda financeira. Depois, se tudo funciona direitinho, a boa alocação dos recursos na reconstrução melhora a infraestrutura, o que leva a um aumento da produtividade. Se as instituições são ruins e a vigilância é baixa, o dinheiro vai para a corrupção ou é gasto em projetos que não ampliam o PIB potencial. Desanimados, moradores podem deixar a região.
Os resultados da dupla são de encher os olhos de economistas institucionalistas. Vinte anos após o sismo, o PIB per capita do Friul, que tinha instituições melhores que a média da Itália, apresentava crescimento de 23% em relação ao controle. Já em Irpinia, de baixa institucionalidade, houve queda de 12%. Mais surpreendente, os desastres parecem ter levado a uma melhora dos indicadores institucionais no Friul e a uma piora em Irpinia.
Os próximos anos dirão se o RS está mais para Friul ou para Irpinia.
Em 1976, um terremoto atingiu o Friul, no nordeste da Itália. Quatro anos depois, foi a vez do distrito de Irpinia, no sul do país, ser afetado por um sismo comparável. Os efeitos imediatos foram arrasadores em escala local, mas pouco significativos no plano nacional, o que permitiu aos autores criar controles para comparar o desempenho de cada uma das áreas com o que teria acontecido caso não tivessem sofrido os tremores.
A hipótese de Barone e Mocetti é que a recuperação seria afetada pela qualidade das instituições políticas e o nível de participação da sociedade civil. Eles mediram isso através de indicadores como processos por corrupção, comparecimento eleitoral e leitura de jornais.
A devastação inicial costuma ser reduzida ou até neutralizada pela ajuda financeira. Depois, se tudo funciona direitinho, a boa alocação dos recursos na reconstrução melhora a infraestrutura, o que leva a um aumento da produtividade. Se as instituições são ruins e a vigilância é baixa, o dinheiro vai para a corrupção ou é gasto em projetos que não ampliam o PIB potencial. Desanimados, moradores podem deixar a região.
Os resultados da dupla são de encher os olhos de economistas institucionalistas. Vinte anos após o sismo, o PIB per capita do Friul, que tinha instituições melhores que a média da Itália, apresentava crescimento de 23% em relação ao controle. Já em Irpinia, de baixa institucionalidade, houve queda de 12%. Mais surpreendente, os desastres parecem ter levado a uma melhora dos indicadores institucionais no Friul e a uma piora em Irpinia.
Os próximos anos dirão se o RS está mais para Friul ou para Irpinia.
A falta de representatividade no Brasil
A representatividade no mundo está em baixa. As teorias de democracia, que previam a eleição dos melhores, a representatividade dos grupos sociais, e a distribuição de renda, falharam. Na concentração do capital, a distância entre os ricos e os pobres inviabiliza a democracia, desterrados pela ignomínia do nada.
Vejamos o Brasil. O Brasil é a 9ª economia do mundo, com PIB estimado em US$ 2,1 trilhões em 2023. Em renda per capita, estamos na 63ª colocação, com US$ 11.073,00 anuais. No IDH, que mede a qualidade de vida em função de bens e serviços para 191 países, estamos na 87ª posição. No índice de GINI, que mede a distribuição de riqueza para 162 países, estamos na 154ª posição. No PISA, que mede o desempenho de alunos do ensino médio em 81 países, o Brasil encontra-se na 52ª posição em leitura, 61ª em ciências, e 65ª em matemática. Onde pode estar a nossa democracia?
As Emendas Parlamentares são o maior indicador da dissensão social. Em 2014, com Dilma, o valor total das Emendas Parlamentares atingiu R$ 10 bilhões; em 2017, com Temer, R$ 15 bilhões; em 2020, com Bolsonaro, R$ 35 bilhões; neste ano de 2024, com Lula, chegamos a R$ 55 bilhões.
O Orçamento da União para 2024 é de R$ 5,5 trilhões. Destes, 95% estão comprometidos com gastos correntes, como pessoal, dívida pública, e outras despesas comprometidas. O total previsto para investimentos é de R$ 279 bilhões, 5% do orçamento total. Destes, R$ 151 bilhões são para investimentos em estatais, 2,7% do orçamento total. Sobram, portanto, R$ 128 bilhões para investimentos de livre alocação, 2,3% do orçamento total. Destes, R$ 73 bilhões são para investimentos pelo Executivo, e R$ 55 bilhões em Emendas Parlamentares. Ou seja, dos R$ 128 bilhões para investimento de livre alocação, 57% são por parte do Governo, e 47% por parte dos Parlamentares. Em percentuais, no total do Orçamento da União, 1,4% é para investimentos pelo Governo, e 1,0% pelos Parlamentares. Ou seja, 1,0% do total do Orçamento da União cabe à alocação pelos 594 Senadores e Deputados no Congresso, equivalente a R$ 92,5 milhões em aplicações “per capita”. Um desvio de função. Assim, sobra pouco tempo para se pensar na população.
Caso exacerbado o do Brasil. Como se diz no dito popular, “ninguém aguenta”.
Vejamos o Brasil. O Brasil é a 9ª economia do mundo, com PIB estimado em US$ 2,1 trilhões em 2023. Em renda per capita, estamos na 63ª colocação, com US$ 11.073,00 anuais. No IDH, que mede a qualidade de vida em função de bens e serviços para 191 países, estamos na 87ª posição. No índice de GINI, que mede a distribuição de riqueza para 162 países, estamos na 154ª posição. No PISA, que mede o desempenho de alunos do ensino médio em 81 países, o Brasil encontra-se na 52ª posição em leitura, 61ª em ciências, e 65ª em matemática. Onde pode estar a nossa democracia?
As Emendas Parlamentares são o maior indicador da dissensão social. Em 2014, com Dilma, o valor total das Emendas Parlamentares atingiu R$ 10 bilhões; em 2017, com Temer, R$ 15 bilhões; em 2020, com Bolsonaro, R$ 35 bilhões; neste ano de 2024, com Lula, chegamos a R$ 55 bilhões.
O Orçamento da União para 2024 é de R$ 5,5 trilhões. Destes, 95% estão comprometidos com gastos correntes, como pessoal, dívida pública, e outras despesas comprometidas. O total previsto para investimentos é de R$ 279 bilhões, 5% do orçamento total. Destes, R$ 151 bilhões são para investimentos em estatais, 2,7% do orçamento total. Sobram, portanto, R$ 128 bilhões para investimentos de livre alocação, 2,3% do orçamento total. Destes, R$ 73 bilhões são para investimentos pelo Executivo, e R$ 55 bilhões em Emendas Parlamentares. Ou seja, dos R$ 128 bilhões para investimento de livre alocação, 57% são por parte do Governo, e 47% por parte dos Parlamentares. Em percentuais, no total do Orçamento da União, 1,4% é para investimentos pelo Governo, e 1,0% pelos Parlamentares. Ou seja, 1,0% do total do Orçamento da União cabe à alocação pelos 594 Senadores e Deputados no Congresso, equivalente a R$ 92,5 milhões em aplicações “per capita”. Um desvio de função. Assim, sobra pouco tempo para se pensar na população.
Caso exacerbado o do Brasil. Como se diz no dito popular, “ninguém aguenta”.
Ainda há só rebanho
A comunidade é uma coisa muito bela. Mas o que vemos florescer agora não é a verdadeira comunidade. Essa surgirá, nova, do conhecimento mútuo dos indivíduos e transformará por algum tempo o mundo. O que hoje existe não é comunidade: é simplesmente o rebanho. Os homens se unem porque têm medo uns dos outros e cada um se refugia entre seus iguais: rebanho de patrões, rebanho de operários, rebanho de intelectuais… E por que têm medo? Só se tem medo quando não se está de acordo consigo mesmo. Têm medo porque jamais se atreveram a perseguir seus próprios impulsos interiores. Uma comunidade formada por indivíduos atemorizados com o desconhecido que levam dentro de si. Sentem que já periclitaram todas as leis em que baseiam suas vidas, que vivem conforme mandamentos antiquados e que nem sua religião nem sua moral são aquelas de que ora necessitamos.
Hermann Hesse
Hermann Hesse
A era das catástrofes
As enchentes diluvianas que devastam o Rio Grande do Sul, somadas a outros desastres ambientais em todo o planeta, não deixam dúvida: vivemos uma era de eventos catastróficos que só tendem a se ampliar e se intensificar. Mesmo assim, os governantes e as sociedades se comportam como ébrios delirantes que caminham alegremente para o abismo.
Não existem mais dúvidas científicas de que essa era é provocada pela ação depredadora dos seres humanos. Catástrofes ambientais ocorreram no passado, mas, pela primeira vez na história do planeta, as violentas mudanças ambientais são provocadas pelas ações humanas. O antropocentrismo tem gerado o caminho de uma mudança de era geológica, caracterizada como Antropoceno. Embora o Comitê da União Internacional de Ciências Geológicas, em votação realizada em fevereiro de 2024, tenha recusado reconhecer a presente era como Antropogênica, muitos cientistas e pesquisadores argumentam que as evidências e as marcas das ações humanas no planeta legitimam a adoção da tese.A tese do Antropoceno foi formulada em 2000 pelo químico e Prêmio Nobel holandês Paul Crutzen. O Antropoceno expressa a ideia de uma nova era, na qual o ser humano tornou-se a força impulsionadora da degradação ambiental e catalisadora das condições para a catástrofe ecológica. Essa dimensão da crise é consequência da cisão que as pessoas promoveram entre o humano, a vida e o planeta. Todo o sistema de mediações socioeconômicas passou a basear-se apenas no jogo de interesses desmedidos e sem critérios de indivíduos, grupos (classes), nações e povos. A vida, a natureza, as espécies e o planeta passaram a ser considerados instrumentos e meios dos interesses socioeconômicos dos humanos.
O modo de produção capitalista, com suas variantes, é a causa principal da destruição ecológica e da degradação socioambiental. Os paradigmas teóricos, as construções do conhecimento e os padrões industriais e tecnológicos geraram modelos de desenvolvimento depredadores, orientados para a maximização do lucro no curto prazo, a expansão ilimitada do consumo, o crescimento descontrolado da mão de obra e das populações, gerando pesados custos aos sistemas sociais e naturais.
A degradação ambiental, que provoca a morte entrópica do planeta, é resultado de uma concepção de mundo, de formas de conhecimento científico, social e religioso com que a humanidade construiu um mundo no qual se destrói a natureza e mantém bilhões de indivíduos na pobreza. O parâmetro principal da medida de todas as coisas não é a vida ou o bem-estar, mas o lucro rápido.
A combinação das variantes do modelo econômico depredador, do crescimento demográfico e do modelo industrial e tecnológico gerou um processo descontrolado que rompeu os limites da sustentabilidade do planeta. Esse modelo chegou ao limite e tornou-se incompatível com os fundamentos da continuidade adequada da vida na Terra. A agressividade da ação humana sobre e contra a natureza bloqueou a capacidade de regeneração dos ecossistemas. Esse descontrole violento compromete os objetivos econômicos e sociais do próprio sistema depredador.
Vários estudos apontam um limite do crescimento econômico, que não pode mais continuar indefinido. A violência e a velocidade da transformação dos recursos naturais e os resíduos nefastos que produzem são muito mais rápidas do que a capacidade de recuperação, regeneração e reposição da natureza. Tudo isso se agrava quando nos deparamos com políticos e governantes que praticam o negacionismo, outros que se omitem em adotar as medidas urgentes e necessárias para mitigar os efeitos desastrosos das mudanças climáticas e em adotar medidas de resiliência nas cidades, no campo e na produção.
O próprio governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, tem patrocinado ações de teor criminoso contra o meio ambiente. Nos últimos anos, promoveu cortes absurdos no orçamento da Defesa Civil e nos projetos de resposta a desastres ambientais. Em 2019, propôs um projeto que alterou 480 pontos do Código Florestal estadual. A prefeitura de Porto Alegre não investiu nenhum centavo na prevenção contra enchentes em 2023. Já em Brasília, em março, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou, com 38 votos a favor e 18 contra, um projeto que permite devastar campos nativos do tamanho do Rio Grande do Sul e do Paraná juntos.
Os políticos negacionistas e aqueles que agem para afrouxar a legislação de proteção ambiental deveriam passar a ser vistos como criminosos pela sociedade. Eles devem ser denunciados de forma ampla para que paguem o preço de seus crimes contra a sociedade, contra a vida, contra as espécies e contra a natureza.
A ocasião e a maldade
É inegável que a ocasião faz o ladrão, mas não é a única coisa que a ocasião faz.
O argumento da tentação é moralmente duvidoso – não é só por encontrar uma carteira cheia de dinheiro que somos tentados a roubar – mas funciona, porque todos somos capazes de imaginar o ladrão preguiçoso que é incapaz de dar um passo para roubar, mas não resiste quando é Deus Nosso Senhor a pôr-lhe as pérolas da marquesa no caminho.
“Estava mesmo ali à mão de semear” é uma desculpa que põe os juízes de todo o mundo a bocejar. As pessoas que sorriem quando a ouvem, ou quando lêem Oscar Wilde a dizer que resiste a tudo menos à tentação, já acharão menos graça quando é o violador a dizer que a vítima estava de minissaia.
Mas o argumento é sempre o mesmo: um homem não é de ferro e a ocasião é que faz o ladrão, pelo que, no fundo, senhor doutor juiz, a culpa não é só minha!
Na minha vida, tenho-me espantado com pessoas que, não sendo sempre maldosas, são capazes de actos de grande maldade. Se calhar, também elas não resistem à tentação de ser más. A diferença é que não podem ser apanhadas, nem apresentadas a nenhum juiz – precisamente porque só são más quando pressentem que não há maneira de serem castigadas.
Estas maldosas ocasionais são moralmente piores do que as maldosas permanentes, porque estas últimas não têm remédio e é fácil detectá-las e evitá-las.
São más quando têm a faca e o queijo na mão. Não resistem à vertigem da desigualdade. Abusam sempre que o abuso é possível – e indetectável. Isto é, abusam sempre que o abuso não impede que possam continuar toda a vida a abusar.
Diriam estas pessoas, caso pudessem ser chamadas à pedra, que é a ocasião que faz a maldade? Que são como criancinhas, com a crueldade das criancinhas, mas também a inocência?
A verdade é que as ocasiões só despertam o que já lá está. Acontece a mesma coisa com o bem: há muita gente que agradece uma oportunidade de ajudar os outros. A tentação nunca tem culpa.
O argumento da tentação é moralmente duvidoso – não é só por encontrar uma carteira cheia de dinheiro que somos tentados a roubar – mas funciona, porque todos somos capazes de imaginar o ladrão preguiçoso que é incapaz de dar um passo para roubar, mas não resiste quando é Deus Nosso Senhor a pôr-lhe as pérolas da marquesa no caminho.
“Estava mesmo ali à mão de semear” é uma desculpa que põe os juízes de todo o mundo a bocejar. As pessoas que sorriem quando a ouvem, ou quando lêem Oscar Wilde a dizer que resiste a tudo menos à tentação, já acharão menos graça quando é o violador a dizer que a vítima estava de minissaia.
Mas o argumento é sempre o mesmo: um homem não é de ferro e a ocasião é que faz o ladrão, pelo que, no fundo, senhor doutor juiz, a culpa não é só minha!
Na minha vida, tenho-me espantado com pessoas que, não sendo sempre maldosas, são capazes de actos de grande maldade. Se calhar, também elas não resistem à tentação de ser más. A diferença é que não podem ser apanhadas, nem apresentadas a nenhum juiz – precisamente porque só são más quando pressentem que não há maneira de serem castigadas.
Estas maldosas ocasionais são moralmente piores do que as maldosas permanentes, porque estas últimas não têm remédio e é fácil detectá-las e evitá-las.
São más quando têm a faca e o queijo na mão. Não resistem à vertigem da desigualdade. Abusam sempre que o abuso é possível – e indetectável. Isto é, abusam sempre que o abuso não impede que possam continuar toda a vida a abusar.
Diriam estas pessoas, caso pudessem ser chamadas à pedra, que é a ocasião que faz a maldade? Que são como criancinhas, com a crueldade das criancinhas, mas também a inocência?
A verdade é que as ocasiões só despertam o que já lá está. Acontece a mesma coisa com o bem: há muita gente que agradece uma oportunidade de ajudar os outros. A tentação nunca tem culpa.
quinta-feira, 16 de maio de 2024
A liberdade ‘fake’ e o Marquês de Sade
“Mercadores do caos”. É assim que o primeiro editorial do Estado de ontem qualificou aqueles que difundem mentiras sobre as enchentes no Rio Grande do Sul. O texto vai no ponto: “Bolsonaristas andam espalhando desinformação porque, inimigos da democracia que são, a eles interessa minar a capacidade dos cidadãos de confiar uns nos outros.” Palavras precisas. Justas.
O quadro é alarmante, não só pelas águas que dizimam cidades inteiras, mas também pela propagação industrializada e intencional de desorientação. Com a cidadania submersa, a perversão do fanatismo antidemocrático jorra pelos bueiros. Há mensagens inconcebíveis circulando massivamente. Umas afirmam que não adianta fazer doações porque o governo federal está barrando caminhões que rumam para o Rio Grande do Sul. Falso. Outras sustentam que Exército e os bombeiros negam ajuda aos desabrigados. Invenção dolosa. Os exemplos de má-fé são caudalosos, tóxicos, e, embora sejam desmascarados a toda hora, deixam rastros de devastação moral e cívica.
A produção em larga escala de mais essa leva de fake news é um trabalho de organizações subterrâneas e subaquáticas que operam longe da luz do dia e consomem rios de dinheiro infecto. São usinas superindustriais que geram as falácias aos borbotões e nunca aparecem publicamente – atuam no submundo, clandestinas. Mais que soturnas e esquivas, são usinas invisíveis. Mais do que abjetas, são eficazes. Abastecem caudalosamente as multidões de idiotas inúteis que trabalham de graça, noite e dia, para fazer escoar todas as sandices asfixiantes pelas redes (anti)sociais.
Se as grandes organizações da mentira atuam nas sombras, os operários alienados e alienantes que trabalham para elas como escravos mostram sua cara sorridente. São os tios e tias do Zap, você os conhece. Quando interpelados pelo bom senso do vizinho de condomínio, protegem-se na desculpa de que apenas exercem sua “liberdade de expressão”. Estão errados em tudo, inclusive nisso. Estão errados principalmente nisso.
Em primeiro lugar, as agências camufladas de onde recebem a porcariada que distribuem não têm direito à liberdade de expressão, nem poderiam ter. A liberdade de expressão é um direito da pessoa humana, não de pessoas jurídicas ou de organizações criminosas. O Estado, as empresas e os partidos políticos não têm liberdade de expressão, pois não são pessoas. A liberdade de expressão é um direito humano, um direito de gente de carne e osso, não uma licença econômica ou corporativa.
Portanto, quando um desses grupelhos ilegais ou uma dessas big techs impulsionam falsidades que lesam a saúde pública e a integridade física de milhões de seres humanos, não é de liberdade de expressão que estamos falando, mas de um inaceitável abuso do poder econômico. A finalidade desse tipo de abuso é fazer propaganda do caos e instaurar um ambiente em que “ninguém acredita em mais nada”, como sintetizou Hannah Arendt numa célebre entrevista. Em resumo, não aceitemos mais chamar de “liberdade de expressão” o que não passa de abuso destrutivo do poder econômico.
Isso posto, falemos agora da liberdade das pessoas, as tais idiotas inúteis que se comprazem com a tarefa de disseminar as notícias fraudulentas em troca de nada – ou, melhor dizendo, em troca do gozo imaginário de se olharem no espelho e se chamarem de “patriotas”. As voluntárias do obscurantismo, por certo, contam com o direito de proferir e reproduzir tolices de mau gosto. Sim, elas são livres para pronunciar o impronunciável. Elas só não têm direito de dar seguimento a crimes.
Aí vem o ponto mais embaraçoso. Elas não sabem distinguir uma coisa da outra. A ideia que carregam de liberdade é uma não ideia: elas concebem a liberdade como uma espécie de bocarra, uma porteira aberta nas fronteiras do corpo para dar vazão aos impulsos viscerais, a despeito das convenções e das normas básicas do convívio civilizado. A liberdade seria, enfim, o triunfo do bicho sobre o humano. É como se o sujeito dissesse “eu sou livre para oprimir você e exercer contra você a minha estupidez essencial”.
E qual a origem dessa concepção pulsional de liberdade? Sigo aqui a sugestão do psicanalista Ricardo Goldenberg. Em um breve ensaio, Do cinismo ao descaramento (no livro O MalEstar na Cultura Revisitado, organizado por Lucia Santaella, publicado pela Estação das Letras e Cores), Goldenberg localiza no Marquês de Sade (17401814) fantasia de que a “liberdade individual” incluiria um suposto “direito” de “gozar do próximo sem nenhum entrave” (“gozar”, aqui, é sinônimo de abusar). Em Sade, o sujeito livre é aquele que consegue juntar o pior vício da aristocracia (dispor do corpo do outro como dispõe da terra) ao pior vício da burguesia (explorar energia do outro para acumular dinheiro e prazer). Em suma, o homem livre é amoral, assassino, pedófilo, estuprador e ditador. No meio de tamanha enchente de mentiras, a gente pode acrescentar: e fascista. A liberdade fake, a liberdade sádica, que no fundo é a negação de toda liberdade, está levando o Brasil ao naufrágio total.
O quadro é alarmante, não só pelas águas que dizimam cidades inteiras, mas também pela propagação industrializada e intencional de desorientação. Com a cidadania submersa, a perversão do fanatismo antidemocrático jorra pelos bueiros. Há mensagens inconcebíveis circulando massivamente. Umas afirmam que não adianta fazer doações porque o governo federal está barrando caminhões que rumam para o Rio Grande do Sul. Falso. Outras sustentam que Exército e os bombeiros negam ajuda aos desabrigados. Invenção dolosa. Os exemplos de má-fé são caudalosos, tóxicos, e, embora sejam desmascarados a toda hora, deixam rastros de devastação moral e cívica.
A produção em larga escala de mais essa leva de fake news é um trabalho de organizações subterrâneas e subaquáticas que operam longe da luz do dia e consomem rios de dinheiro infecto. São usinas superindustriais que geram as falácias aos borbotões e nunca aparecem publicamente – atuam no submundo, clandestinas. Mais que soturnas e esquivas, são usinas invisíveis. Mais do que abjetas, são eficazes. Abastecem caudalosamente as multidões de idiotas inúteis que trabalham de graça, noite e dia, para fazer escoar todas as sandices asfixiantes pelas redes (anti)sociais.
Se as grandes organizações da mentira atuam nas sombras, os operários alienados e alienantes que trabalham para elas como escravos mostram sua cara sorridente. São os tios e tias do Zap, você os conhece. Quando interpelados pelo bom senso do vizinho de condomínio, protegem-se na desculpa de que apenas exercem sua “liberdade de expressão”. Estão errados em tudo, inclusive nisso. Estão errados principalmente nisso.
Em primeiro lugar, as agências camufladas de onde recebem a porcariada que distribuem não têm direito à liberdade de expressão, nem poderiam ter. A liberdade de expressão é um direito da pessoa humana, não de pessoas jurídicas ou de organizações criminosas. O Estado, as empresas e os partidos políticos não têm liberdade de expressão, pois não são pessoas. A liberdade de expressão é um direito humano, um direito de gente de carne e osso, não uma licença econômica ou corporativa.
Portanto, quando um desses grupelhos ilegais ou uma dessas big techs impulsionam falsidades que lesam a saúde pública e a integridade física de milhões de seres humanos, não é de liberdade de expressão que estamos falando, mas de um inaceitável abuso do poder econômico. A finalidade desse tipo de abuso é fazer propaganda do caos e instaurar um ambiente em que “ninguém acredita em mais nada”, como sintetizou Hannah Arendt numa célebre entrevista. Em resumo, não aceitemos mais chamar de “liberdade de expressão” o que não passa de abuso destrutivo do poder econômico.
Isso posto, falemos agora da liberdade das pessoas, as tais idiotas inúteis que se comprazem com a tarefa de disseminar as notícias fraudulentas em troca de nada – ou, melhor dizendo, em troca do gozo imaginário de se olharem no espelho e se chamarem de “patriotas”. As voluntárias do obscurantismo, por certo, contam com o direito de proferir e reproduzir tolices de mau gosto. Sim, elas são livres para pronunciar o impronunciável. Elas só não têm direito de dar seguimento a crimes.
Aí vem o ponto mais embaraçoso. Elas não sabem distinguir uma coisa da outra. A ideia que carregam de liberdade é uma não ideia: elas concebem a liberdade como uma espécie de bocarra, uma porteira aberta nas fronteiras do corpo para dar vazão aos impulsos viscerais, a despeito das convenções e das normas básicas do convívio civilizado. A liberdade seria, enfim, o triunfo do bicho sobre o humano. É como se o sujeito dissesse “eu sou livre para oprimir você e exercer contra você a minha estupidez essencial”.
E qual a origem dessa concepção pulsional de liberdade? Sigo aqui a sugestão do psicanalista Ricardo Goldenberg. Em um breve ensaio, Do cinismo ao descaramento (no livro O MalEstar na Cultura Revisitado, organizado por Lucia Santaella, publicado pela Estação das Letras e Cores), Goldenberg localiza no Marquês de Sade (17401814) fantasia de que a “liberdade individual” incluiria um suposto “direito” de “gozar do próximo sem nenhum entrave” (“gozar”, aqui, é sinônimo de abusar). Em Sade, o sujeito livre é aquele que consegue juntar o pior vício da aristocracia (dispor do corpo do outro como dispõe da terra) ao pior vício da burguesia (explorar energia do outro para acumular dinheiro e prazer). Em suma, o homem livre é amoral, assassino, pedófilo, estuprador e ditador. No meio de tamanha enchente de mentiras, a gente pode acrescentar: e fascista. A liberdade fake, a liberdade sádica, que no fundo é a negação de toda liberdade, está levando o Brasil ao naufrágio total.
O fim do mundo
Nada era mais assustador do que falar naquele assunto. O fim do mundo fazia parte dos medos, na infância, mas contraditoriamente eu gostava de ouvir as histórias. Entre as brincadeiras, havia aquela das contações, eram passatempos como fossem filmes de terror. Os relatos, apocalípticos, nos faziam viajar com os pés em chão firme.
Havia um amigo cuja mãe falava do Velho Testamento em casa e ele, do alto de sua autoridade, nos repetia com os olhos esbugalhados. Dizia que o mundo se acabou com água, da primeira vez, num dilúvio que tomou conta de toda a Terra. E, da próxima, ai de nós, o planeta seria devorado por imensas labaredas. Haveria choro e ranger de dentes.
Tudo seria consumido pelo fogo. Entre apavorado e fascinado por aquelas narrativas, eu rezava minhas ave-marias, que aprendi nas aulas do catecismo, pedindo a Deus para não virar churrasco.
Paulinho recontava o fim do mundo à sua maneira e o medo dele alimentava o nosso, que éramos seus amigos. Não se sabia ao certo como seria aquele incêndio atlântico, onde ele começaria ou quando. Mas com certeza seria algo para além dos limites geográficos de nossa cidade.

Seria um castigo de Deus, segundo ele, devido à maldade das pessoas e, portanto, não era bom questionar as “profecias”. De minha parte eu cuidava de repassar os relatos e claro, ninguém aceitava aquela história de forma tranquila ou desprovido de espantos.
O fato é que o fim do mundo estava próximo e havia o precedente que era comprovado pela Bíblia. No grande dilúvio, salvaram-se somente os que pegaram carona na Arca de Noé, episódio incontestável conhecido pelos adultos e pelas igrejas. Logo, era difícil se contrapor.
Penso agora no fim do mundo, sem aquele sentimento ingênuo e dogmático da infância, quando leio e vejo notícias sobre os desastres no Rio Grande do Sul. As águas do Rio Guaíba avançam sobre cidades e o céu gaúcho dá a entender que pode despencar, a todo instante, num cenário desalentador.
O mundo acabou para muitas pessoas, infelizmente. As enchentes e tempestades são exemplos de fim de mundo, assim como o “final dos tempos” ocorre para várias populações, em diversas regiões, nas secas terríveis que agora são registradas até na Europa; na temperatura da atmosfera que está cada vez mais alta em todo o mundo; nos terremotos, ciclones, furacões e tornados que sacodem os centros urbanos; nos tsunamis, no avanço do mar e nas pandemias; entre outras dores.
Vivemos, em cada episódio, uma terrível sensação de finitude. A cada desastre estamos sendo privados da vida. A crise climática, na verdade, está nos deixando ilhados no mundo que poderia ser mais confortável para todos. Aquele temor do fim do mundo, que tínhamos na infância, é manifestado, na maturidade, com outro sentimento e com o sentido de novas realidades.
A crise do clima é também da existência humana. O fim do mundo, não é mais aquela versão de Paulinho, mas sim causado por um certo projeto de modernidade que é destrutivo demais. Desigual demais, ganancioso demais. As respostas da natureza nos chegam com a mesma intensidade do egoísmo desregrado e deixam claro a quem cabe criar leis, normas técnicas e parâmetros.
Havia um amigo cuja mãe falava do Velho Testamento em casa e ele, do alto de sua autoridade, nos repetia com os olhos esbugalhados. Dizia que o mundo se acabou com água, da primeira vez, num dilúvio que tomou conta de toda a Terra. E, da próxima, ai de nós, o planeta seria devorado por imensas labaredas. Haveria choro e ranger de dentes.
Tudo seria consumido pelo fogo. Entre apavorado e fascinado por aquelas narrativas, eu rezava minhas ave-marias, que aprendi nas aulas do catecismo, pedindo a Deus para não virar churrasco.
Paulinho recontava o fim do mundo à sua maneira e o medo dele alimentava o nosso, que éramos seus amigos. Não se sabia ao certo como seria aquele incêndio atlântico, onde ele começaria ou quando. Mas com certeza seria algo para além dos limites geográficos de nossa cidade.

Seria um castigo de Deus, segundo ele, devido à maldade das pessoas e, portanto, não era bom questionar as “profecias”. De minha parte eu cuidava de repassar os relatos e claro, ninguém aceitava aquela história de forma tranquila ou desprovido de espantos.
O fato é que o fim do mundo estava próximo e havia o precedente que era comprovado pela Bíblia. No grande dilúvio, salvaram-se somente os que pegaram carona na Arca de Noé, episódio incontestável conhecido pelos adultos e pelas igrejas. Logo, era difícil se contrapor.
Penso agora no fim do mundo, sem aquele sentimento ingênuo e dogmático da infância, quando leio e vejo notícias sobre os desastres no Rio Grande do Sul. As águas do Rio Guaíba avançam sobre cidades e o céu gaúcho dá a entender que pode despencar, a todo instante, num cenário desalentador.
O mundo acabou para muitas pessoas, infelizmente. As enchentes e tempestades são exemplos de fim de mundo, assim como o “final dos tempos” ocorre para várias populações, em diversas regiões, nas secas terríveis que agora são registradas até na Europa; na temperatura da atmosfera que está cada vez mais alta em todo o mundo; nos terremotos, ciclones, furacões e tornados que sacodem os centros urbanos; nos tsunamis, no avanço do mar e nas pandemias; entre outras dores.
Vivemos, em cada episódio, uma terrível sensação de finitude. A cada desastre estamos sendo privados da vida. A crise climática, na verdade, está nos deixando ilhados no mundo que poderia ser mais confortável para todos. Aquele temor do fim do mundo, que tínhamos na infância, é manifestado, na maturidade, com outro sentimento e com o sentido de novas realidades.
A crise do clima é também da existência humana. O fim do mundo, não é mais aquela versão de Paulinho, mas sim causado por um certo projeto de modernidade que é destrutivo demais. Desigual demais, ganancioso demais. As respostas da natureza nos chegam com a mesma intensidade do egoísmo desregrado e deixam claro a quem cabe criar leis, normas técnicas e parâmetros.
Janela do tempo
Cá estamos, no controle a granel de praticamente tudo o que existe sobre a Terra e, mesmo assim, perto de sermos a mais frágil das espécies com que dividimos a existência. À exceção de uma guerra nuclear aniquilante, continuamos a agredir com voracidade suicida o meio ambiente que permite o viver humano. Ao arrepio da ciência e do saber, tudo sofre agressão ininterrupta — oceanos, outras espécies, florestas, rios, pantanais, ecossistemas, biomas, ar, água. Tudo. Na enxurrada, lá se vão muitos sonhos, esperança, planos e expectativas de um amanhã — também essas coisas exigem um planeta habitável.
Uma década atrás o escritor e ambientalista britânico George Monbiot já alertava sobre a degradação do chão em que pisamos — tratamos feito lixo essa estrutura biológica que produz 99% das calorias de que precisamos. Mais recentemente, Monbiot publicou o premiado “Regenesis: feeding the world without devouring the planet”(em tradução livre, “Regênese: alimentando o mundo sem devorar o planeta”), em que destrincha vários caminhos ainda possíveis. Só que a janela do tempo vai se fechando, e preferimos não ver.
Nenhum bípede vive um só dia sem deixar algum impacto no mundo à sua volta, repete à exaustão a grande dama Jane Goodall, do alto de seus 90 anos. Mesmo atos comezinhos, cotidianos, fazem diferença. O que cada um precisa decidir, acrescenta ela, é que tipo de diferença no mundo quer fazer. Para honrar a jornada que nos é dada no chão da Terra, tem pouca serventia a esperança entendida como ato passivo. A esperança real não é almoço grátis — exige ação e comprometimento.
Vem à mente, nesse aparente desarranjo da natureza com seus ocupantes humanos, um trecho lindo do discurso da polonesa Olga Tokarczuk ao receber o Nobel de Literatura em 2019, em tradução de Gabriel Borowski:
— Estamos todos, nós, plantas, animais, objetos, imersos no mesmo espaço regido pelas leis da física. Esse espaço comum tem seu formato, em que essas leis esculpem uma quantidade incontável de formas mútuas e correspondentes. Nosso sistema circulatório se parece com as redes de drenagem, a estrutura de uma folha é semelhante aos sistemas da comunicação humana, o movimento das galáxias faz pensar nos redemoinhos da água que escorre na nossa pia. O desenvolvimento das sociedades lembra as colônias de bactérias. As escalas micro e macro revelam um sistema infinito de semelhanças. O modo como falamos, pensamos e criamos não é nada abstrato e desligado do mundo, mas é antes uma continuação, em outro nível, de seus processos incessantes de transformação.
Na semana passada, um cavalo de ferraduras escorregadias, equilibrado num improvável pedaço de teto ainda não tomado pelas águas, comoveu o mundo. Fotografado do alto, permanecia absurda e teimosamente de pé, imóvel, sozinho, sem chão. Éramos nós que ali estávamos. Para ser salvo, o animal precisou confiar nos humanos que dele se aproximaram — qualquer tentativa de coice ou movimento de defesa poderia lhe ser fatal. Por instinto ou impossibilidade de se mover, ele correu o risco de confiar. E deu-nos de presente um radioso momento de irmandade entre espécies. Quem não se emocionou com a entrega desse animal de 350 quilos aos braços de brigadistas que nunca vira não merece saber o que é ser humano. Nem animal.
Uma década atrás o escritor e ambientalista britânico George Monbiot já alertava sobre a degradação do chão em que pisamos — tratamos feito lixo essa estrutura biológica que produz 99% das calorias de que precisamos. Mais recentemente, Monbiot publicou o premiado “Regenesis: feeding the world without devouring the planet”(em tradução livre, “Regênese: alimentando o mundo sem devorar o planeta”), em que destrincha vários caminhos ainda possíveis. Só que a janela do tempo vai se fechando, e preferimos não ver.
Nenhum bípede vive um só dia sem deixar algum impacto no mundo à sua volta, repete à exaustão a grande dama Jane Goodall, do alto de seus 90 anos. Mesmo atos comezinhos, cotidianos, fazem diferença. O que cada um precisa decidir, acrescenta ela, é que tipo de diferença no mundo quer fazer. Para honrar a jornada que nos é dada no chão da Terra, tem pouca serventia a esperança entendida como ato passivo. A esperança real não é almoço grátis — exige ação e comprometimento.
E o Brasil de 2024, tragado pelo desastre ambiental de magnitude acachapante no Sul do país, revela toda sua gama de ações e manifestações contraditórias. Recursos que andavam desperdiçados ou adormecidos avivaram-se, formaram correntes de eficiência, enquanto fabricantes de caos aproveitam para espalhar vilanias. Somente com o baixar das águas, quando o cara a cara com a devastação se fizer mais real, se verá melhor o grau de maturidade da sociedade brasileira. Um fato, contudo, pode ser registrado desde já: sorte do país que tem liberdade de imprensa em tempos horrendos. A cobertura da grande mídia profissional está sendo um dos alicerces nessa dolorosa travessia nacional.
Vem à mente, nesse aparente desarranjo da natureza com seus ocupantes humanos, um trecho lindo do discurso da polonesa Olga Tokarczuk ao receber o Nobel de Literatura em 2019, em tradução de Gabriel Borowski:
— Estamos todos, nós, plantas, animais, objetos, imersos no mesmo espaço regido pelas leis da física. Esse espaço comum tem seu formato, em que essas leis esculpem uma quantidade incontável de formas mútuas e correspondentes. Nosso sistema circulatório se parece com as redes de drenagem, a estrutura de uma folha é semelhante aos sistemas da comunicação humana, o movimento das galáxias faz pensar nos redemoinhos da água que escorre na nossa pia. O desenvolvimento das sociedades lembra as colônias de bactérias. As escalas micro e macro revelam um sistema infinito de semelhanças. O modo como falamos, pensamos e criamos não é nada abstrato e desligado do mundo, mas é antes uma continuação, em outro nível, de seus processos incessantes de transformação.
Na semana passada, um cavalo de ferraduras escorregadias, equilibrado num improvável pedaço de teto ainda não tomado pelas águas, comoveu o mundo. Fotografado do alto, permanecia absurda e teimosamente de pé, imóvel, sozinho, sem chão. Éramos nós que ali estávamos. Para ser salvo, o animal precisou confiar nos humanos que dele se aproximaram — qualquer tentativa de coice ou movimento de defesa poderia lhe ser fatal. Por instinto ou impossibilidade de se mover, ele correu o risco de confiar. E deu-nos de presente um radioso momento de irmandade entre espécies. Quem não se emocionou com a entrega desse animal de 350 quilos aos braços de brigadistas que nunca vira não merece saber o que é ser humano. Nem animal.
Tenho vários pontos onde encostar o susto
Tenho vários pontos de vista. Alguns deles tão altos que nem eu mesmo alcanço. Outros são rasteiros e não me dou ao trabalho de me abaixar para entender. Os que alcanço facilmente não me interessam. Estão batidos e não me dão mais prazer. Dessa maneira, o que me sobra são os pontos de vista dos outros. Alcançando ou não, mudo partes ou tudo. Entendo mal, me divido na opinião final, deixo passar coisas importantes, incorporo corpúsculos digitalizados. Pobres daqueles que escrevem livros e fazem jornais ou televisão querendo passar fora do meu quintal, rente à cerca de ilusões.
Dando voltas em volta da mente, o homem que pensa é sempre contra. Voltaire nunca se vai. Ele sugeriu que o mal maior não é a desigualdade entre as pessoas. A dependência é que é. Somos tão dependentes uns dos outros que, por isso, cultivamos uma ilusão chamada sociedade. Agora sou eu divagando. Não acuse Voltaire, que não pode se defender. Que não depende mais de você. Única forma de não depender de ninguém é morrer. O cultivo da sociedade como algo inerente ao ser humano é uma balela. Quem de sã consciência ficaria dentro de um escritório por oito horas, sem ver a luz do Astro-Rei? Quem deixaria as pernas lindas das mulheres vagando solitárias pelas ruas e shoppings para se enfiar dentro da cabina de um avião a jato e ficar doze horas sobrevoando o Pacífico? Nossa fragilidade como seres é absurda.
Um beija-flor não bate na porta de outro, duas da manhã, para pedir que o escute. Precisa o belo pássaro contar suas mágoas, seus desamores, suas angústias? Um cavalo não se queixa para o outro porque perdeu um páreo pela diferença de um pelo do focinho. O lambe-lambe, os elogios rasgados, a opressão, as ameaças veladas, a indiferença, as fofocas… São apenas armas da nossa fragilidade. São armas mortais que cada um usa para sobreviver como indivíduo. O ‘salvo eu, danem-se os outros’ seria o slogan ideal do ser humano.
Dando voltas em volta da mente, o homem que pensa é sempre contra. Voltaire nunca se vai. Ele sugeriu que o mal maior não é a desigualdade entre as pessoas. A dependência é que é. Somos tão dependentes uns dos outros que, por isso, cultivamos uma ilusão chamada sociedade. Agora sou eu divagando. Não acuse Voltaire, que não pode se defender. Que não depende mais de você. Única forma de não depender de ninguém é morrer. O cultivo da sociedade como algo inerente ao ser humano é uma balela. Quem de sã consciência ficaria dentro de um escritório por oito horas, sem ver a luz do Astro-Rei? Quem deixaria as pernas lindas das mulheres vagando solitárias pelas ruas e shoppings para se enfiar dentro da cabina de um avião a jato e ficar doze horas sobrevoando o Pacífico? Nossa fragilidade como seres é absurda.
Um beija-flor não bate na porta de outro, duas da manhã, para pedir que o escute. Precisa o belo pássaro contar suas mágoas, seus desamores, suas angústias? Um cavalo não se queixa para o outro porque perdeu um páreo pela diferença de um pelo do focinho. O lambe-lambe, os elogios rasgados, a opressão, as ameaças veladas, a indiferença, as fofocas… São apenas armas da nossa fragilidade. São armas mortais que cada um usa para sobreviver como indivíduo. O ‘salvo eu, danem-se os outros’ seria o slogan ideal do ser humano.
Os negacionistas estão matando
Negacionistas não somente rejeitam a verdade. Sequer participam de disputa sincera pela verdade. Não estão interessados. Todo negacionismo é, antes, negação da responsabilidade que a verdade imputa. Estratégia diversionista, esconde causalidades entre ações e consequências. E rejeita a norma jurídica ou moral que sanciona o comportamento danoso.
Não se equiparam aos sofistas ou aos céticos, nem aos ateus ou agnósticos. Estão mais próximos ao que Harry Frankfurt chamou de "bullshiters". Diferente do mentiroso e do hipócrita, que conhecem a verdade e sabem que mentem, o "bullshiter" tem indiferença à verdade e joga outro jogo. Sua empreitada não é intelectual, mas política e sectária.
Muitos negacionismos contaminam a conjuntura brasileira: negacionismo do golpe, da ditadura, do racismo, da homofobia, dos conflitos de interesses da magistocracia, da corrupção e do autoritarismo; dos efeitos da desigualdade e da boçalidade pública; da correlação entre liberação de armas e aumento de homicídios, parecido com o da causalidade entre cigarro e câncer; do dever constitucional de manter o meio ambiente equilibrado e do direito de gerações presentes e futuras.
Não interessa ao negacionista cultivar o hábito intelectual da dúvida nem a atitude política da desconfiança. Quer apenas destruir inimigos com a melhor arma em mãos. É uma técnica sintonizada ao extremismo político, hoje armado de canhões desregulados de desinformação com alta precisão algorítmica. Financiar a fabricação de negacionismo com cara de ciência é comum a indústrias que impactam a saúde e o meio ambiente.
O Rio Grande do Sul sedia nesse momento o encontro do extremismo político com a desigualdade extrema e o evento climático extremo. Ainda não conhecemos todos os danos que uma reunião explosiva desse calibre produz, mas já somos capazes de perceber a multiplicação desnecessária e discriminatória de mortes, sofrimento e empobrecimento material.
Negacionistas têm tentado corroer o esforço da sociedade e do Estado brasileiro em enfrentar as consequências da tragédia. Sua produção torrencial de notícia falsa se dirige a bloquear e deslegitimar iniciativas estatais de ajuda aos atingidos.
Em paralelo, a solidariedade social, traduzida na dedicação voluntária de indivíduos e organizações, em colaboração com esforços públicos, é tumultuada por oportunistas que, mais do que participar, tentam individualizar os méritos do heroísmo coletivo em redes sociais.
Nesse momento, o negacionista luta dois combates: um contra o Estado, cujas instituições precisam continuar a ser evisceradas de capacidade de compreender a estrutura do desastre, de preveni-lo e de responder a ele; outra contra o conhecimento que demonstra, justamente, a relação de causalidade entre o que o negacionista faz e a consequência para a coletividade.
A tragédia precisa ser desvinculada da ação negacionista. O negacionista precisa ser exonerado de sua responsabilidade.
Exemplos recentes da responsabilidade negacionista: o governo do RS ignorou plano de prevenção a desastres desde 2017; flexibilizou regras sobre barragens em áreas de preservação permanente; enfraqueceu o código florestal; o Congresso Nacional vem desmontando a proteção ambiental nos últimos anos e tenta aprovar o "pacote da destruição" com mais de 20 projetos contra o meio ambiente. O governo federal não dá sinais de ter a causa da proteção ambiental como prioridade.
Ainda não conseguimos construir ferramentas de responsabilização de organizações, empresas e atores políticos que, desinteressados nas consequências humanas e econômicas do que fazem, e ansiosos por ganhos de curto prazo, contribuem para o desastre. Nem conseguimos construir instituições que traduzam o compromisso constitucional da precaução em prática real.
Enquanto isso, os negacionistas estão matando e vão continuar a matar.
Não se equiparam aos sofistas ou aos céticos, nem aos ateus ou agnósticos. Estão mais próximos ao que Harry Frankfurt chamou de "bullshiters". Diferente do mentiroso e do hipócrita, que conhecem a verdade e sabem que mentem, o "bullshiter" tem indiferença à verdade e joga outro jogo. Sua empreitada não é intelectual, mas política e sectária.
Muitos negacionismos contaminam a conjuntura brasileira: negacionismo do golpe, da ditadura, do racismo, da homofobia, dos conflitos de interesses da magistocracia, da corrupção e do autoritarismo; dos efeitos da desigualdade e da boçalidade pública; da correlação entre liberação de armas e aumento de homicídios, parecido com o da causalidade entre cigarro e câncer; do dever constitucional de manter o meio ambiente equilibrado e do direito de gerações presentes e futuras.
Não interessa ao negacionista cultivar o hábito intelectual da dúvida nem a atitude política da desconfiança. Quer apenas destruir inimigos com a melhor arma em mãos. É uma técnica sintonizada ao extremismo político, hoje armado de canhões desregulados de desinformação com alta precisão algorítmica. Financiar a fabricação de negacionismo com cara de ciência é comum a indústrias que impactam a saúde e o meio ambiente.
O Rio Grande do Sul sedia nesse momento o encontro do extremismo político com a desigualdade extrema e o evento climático extremo. Ainda não conhecemos todos os danos que uma reunião explosiva desse calibre produz, mas já somos capazes de perceber a multiplicação desnecessária e discriminatória de mortes, sofrimento e empobrecimento material.
Negacionistas têm tentado corroer o esforço da sociedade e do Estado brasileiro em enfrentar as consequências da tragédia. Sua produção torrencial de notícia falsa se dirige a bloquear e deslegitimar iniciativas estatais de ajuda aos atingidos.
Em paralelo, a solidariedade social, traduzida na dedicação voluntária de indivíduos e organizações, em colaboração com esforços públicos, é tumultuada por oportunistas que, mais do que participar, tentam individualizar os méritos do heroísmo coletivo em redes sociais.
Nesse momento, o negacionista luta dois combates: um contra o Estado, cujas instituições precisam continuar a ser evisceradas de capacidade de compreender a estrutura do desastre, de preveni-lo e de responder a ele; outra contra o conhecimento que demonstra, justamente, a relação de causalidade entre o que o negacionista faz e a consequência para a coletividade.
A tragédia precisa ser desvinculada da ação negacionista. O negacionista precisa ser exonerado de sua responsabilidade.
Exemplos recentes da responsabilidade negacionista: o governo do RS ignorou plano de prevenção a desastres desde 2017; flexibilizou regras sobre barragens em áreas de preservação permanente; enfraqueceu o código florestal; o Congresso Nacional vem desmontando a proteção ambiental nos últimos anos e tenta aprovar o "pacote da destruição" com mais de 20 projetos contra o meio ambiente. O governo federal não dá sinais de ter a causa da proteção ambiental como prioridade.
Ainda não conseguimos construir ferramentas de responsabilização de organizações, empresas e atores políticos que, desinteressados nas consequências humanas e econômicas do que fazem, e ansiosos por ganhos de curto prazo, contribuem para o desastre. Nem conseguimos construir instituições que traduzam o compromisso constitucional da precaução em prática real.
Enquanto isso, os negacionistas estão matando e vão continuar a matar.
quarta-feira, 15 de maio de 2024
Rousseau e o clima
Jean-Jacques Rousseau errou em quase tudo, mas, no que diz respeito a desastres naturais, suas reflexões são certeiras. Para ele, os efeitos de um cataclismo dependem não só do evento geológico ou climático que os precipita mas também da forma como humanos ocupam o solo e se comportam.
Como observou o bom Jean-Jacques na "Carta sobre a Providência", escrita após o grande terremoto de Lisboa, de 1755, não foi a natureza que, numa área exígua, "reuniu 20 mil casas de seis ou sete andares". E arrematou: "quantos infelizes pereceram neste desastre, porque quiseram pegar, um suas roupas, outro, sua papelada, outro, seu dinheiro?". Hoje as ideias de Rousseau parecem óbvias, mas não o eram no século 18. Ali, a reação das pessoas era a de acorrer às igrejas e caprichar nas rezas e penitências.
Precisaremos cada vez mais dar ouvidos ao genebrino, porque o que há de mais certo sobre a mudança climática é que ela aumentará a frequência de eventos extremos. As "enchentes do século" ocorrerão ao passo de décadas; habitar áreas de encosta, que sempre foi algo arriscado, se tornará extremamente perigoso. Como boa parte do aquecimento futuro já está contratada, muito dos nossos esforços terá de ir para a adaptação, tanto a prevenção como a gestão de catástrofes. E essas são áreas em que o Brasil vai tradicionalmente mal.
Nosso sistema político favorece o curto-prazismo (é só ver a situação do saneamento básico) e atomiza a aplicação de recursos, o que dificulta investimentos em redes de maior abrangência, como uma defesa civil integrada.
É interessante observar que Rousseau escreveu sua "Carta..." para livrar a cara de Deus de uma acusação feita por Voltaire: como poderia uma entidade benevolente e onipotente permitir tal tragédia? O genebrino não resolveu o problema da justiça divina, mas apontou para uma área de atuação em que os homens não podem fugir a suas responsabilidades.
Como observou o bom Jean-Jacques na "Carta sobre a Providência", escrita após o grande terremoto de Lisboa, de 1755, não foi a natureza que, numa área exígua, "reuniu 20 mil casas de seis ou sete andares". E arrematou: "quantos infelizes pereceram neste desastre, porque quiseram pegar, um suas roupas, outro, sua papelada, outro, seu dinheiro?". Hoje as ideias de Rousseau parecem óbvias, mas não o eram no século 18. Ali, a reação das pessoas era a de acorrer às igrejas e caprichar nas rezas e penitências.
Precisaremos cada vez mais dar ouvidos ao genebrino, porque o que há de mais certo sobre a mudança climática é que ela aumentará a frequência de eventos extremos. As "enchentes do século" ocorrerão ao passo de décadas; habitar áreas de encosta, que sempre foi algo arriscado, se tornará extremamente perigoso. Como boa parte do aquecimento futuro já está contratada, muito dos nossos esforços terá de ir para a adaptação, tanto a prevenção como a gestão de catástrofes. E essas são áreas em que o Brasil vai tradicionalmente mal.
Nosso sistema político favorece o curto-prazismo (é só ver a situação do saneamento básico) e atomiza a aplicação de recursos, o que dificulta investimentos em redes de maior abrangência, como uma defesa civil integrada.
É interessante observar que Rousseau escreveu sua "Carta..." para livrar a cara de Deus de uma acusação feita por Voltaire: como poderia uma entidade benevolente e onipotente permitir tal tragédia? O genebrino não resolveu o problema da justiça divina, mas apontou para uma área de atuação em que os homens não podem fugir a suas responsabilidades.
Prevenção zero
Todo mundo fala: 'Não poderíamos ter previsto'". Isso é categoricamente falso. Sempre há pilhas e pilhas de relatórios onde isso foi analisado. Sabemos das vulnerabilidades, mas optamos por não nos preparar.
Jeffrey Schlegelmilch, diretor do Centro Nacional de Preparação para Desastres da Universidade Columbia, em Nova York, sobre o Katlina
Roleta russa com a natureza
Em 1986, em “O relojoeiro cego”, Richard Dawkins mostrou que o darwinismo não é obra do acaso. Os seres vivos não surgem da soma de casualidades favoráveis, mas de um jogo (evolutivo) muito complexo, mas com regras bem definidas. A natureza, assim, não é o acúmulo de eventos aleatórios, e sim o contrário. A natureza não joga dados.
A ministra Marina Silva, em entrevista à Globo News no dia 3, ao falar da tragédia do Rio Grande Sul (RS), ilustrou a tese de Dawkins. Ela disse mais ou menos o seguinte: a humanidade levou séculos a transformar a natureza em dinheiro. Agora precisa gastar mais dinheiro para ajudar a natureza a superar obstáculos.
Desde junho de 2022, com o banal assassinato de Dom Phillips, jornalista britânico, e do indigenista Bruno Pereira, comecei a pensar no valor da vida. O assunto voltou ao radar em agosto passado, com o assassinato da dona Bernadete Pacífico, líder quilombola, e, agora, com a catástrofe do RS. Não parece, mas a banalização da vida, como numa roleta russa, é um dos gatilhos de eventos climáticos extremos. E a roleta russa contra a natureza é uma aposta perdedora.
O valor da vida foi tema do doutorado de Richard Thaler, Nobel da Economia em 2017. Antes dele, Thomas Schelling, Nobel da Economia em 2005, num célebre e provocador artigo de 1968 (“The life you save may be your own”), enfatizou que o empenho em salvar vidas é fortemente influenciado por duas características comportamentais: da “vida identificada” - como a de um filho baleado em assalto - e da “vida estatística” - como as milhares de mortes no trânsito.
Os jornais têm dado merecido destaque à tragédia das enchentes no RS. Mas por que o desastre assumiu tamanha proporção? A resposta mais contundente está na própria fala da ministra Marina, já sublinhada no início deste artigo. Mas isso ainda não explica por que jogamos dados com a natureza.
Veja o caso de uma atividade de risco não desprezível. Suponha ser de 5 em 1.000 (0,5%) a probabilidade de um acidente fatal para alguém que, a serpentear no trânsito numa pequena moto, faz entregas em São Paulo. Quanto vale a vida dessa pessoa? Uma conclusão é imediata: essas pessoas se arriscam uma barbaridade e se dispõem a ganhar muito pouco.
Coisa semelhante ocorre com as famílias que vivem no Vale do Taquari, no RS, onde também viveram seus pais e avós. E às vezes pagam muito para permanecer nesse ambiente de risco. Numa espécie de autoengano, pensam que estão seguras.
A explicação é muito mais psicológica que econômica ou mesmo filosófica. Na falta de opção, o entregador sente como perda os R$ 20/hora que deixa de receber se não executar o trabalho. E a aversão a perdas é maior que a aversão ao risco, o que o torna mais propenso a enfrentar situações perigosas.
Isso também pode ser explicado pelo efeito dotação - quando é valorizado em excesso o que se imagina ser um bem. Para muitos, viver no Vale do Taquari, a origem de seus antepassados, é um bem valioso. Abrir mão desse “bem” tem um razoável custo, que, veja só, também vai na direção de desvalorizar a vida.
Aqui entraria a política pública, para minimizar os efeitos dessa propensão ao risco. Admita ser também de 0,5% a probabilidade de roubos com mortes em residências no bairro da Tristeza, região de classe média alta na orla do Guaíba. Mesmo com baixa possibilidade de latrocínio, muitos buscam proteção para suas casas e famílias. Instalam sofisticadas fechaduras e outras barreiras. A família é uma vida identificada.
Admita que é novamente 0,5% a possibilidade de, a cada 80 anos, ser superada a cheia do Guaíba de 1941. Como se comportaria o responsável pelos diques e bombas d’água? Nesse cenário, as autoridades percebem os eventuais danos, mesmo que fatais, apenas como estatísticas, isto é, como vidas estatísticas (como a dos entregadores nas ruas das grandes cidades).
O mais grave ocorre quando a autoridade despreza os alertas da ciência, incentiva o relaxamento da legislação e fecha os olhos para diferentes crimes ambientais. São decisões que, não tenha dúvida, tornam a vida mais vulnerável a eventos climáticos severos, como o de agora no RS. A autoridade, então, põe mais balas na arma com que faz roleta russa com a natureza.
As mudanças climáticas são, por tudo isso, consequências de uma arquitetura de escolhas, sobretudo políticas, nem um pouco racionais. E isso tem transformado tais escolhas numa típica tragédia dos comuns, quando decisões individuais prejudicam o bem-estar da coletividade. O caso concreto são as décadas sem investimentos, manutenção e atualização do sistema de controle de cheias de Porto Alegre.
Corre-se agora para gastar bilhões de reais em medidas de contenção dos danos das escolhas estúpidas. Ok. Mas são negligenciadas as ações para evitar a estupidez. Foi iniciada a maratona para construir infraestruturas que minimizam os efeitos das enchentes, mas não para evitar os recordes de chuva nos vales do Taquari e do Itajaí, Região Serrana do Rio, Litoral Norte de São Paulo ou na Grande Recife.
A notícia relevante não deveria ser a disposição dos governos em gastar bilhões para conter os efeitos dos danos já provocados, que até soará como propaganda eleitoral, mas sim o que não fizeram para evitar a causa dos danos.
A humanidade jogou dados com a natureza. E perdeu. Apostou contra a natureza, quando jogava contra si própria. A humanidade pôs mais balas no revólver da insensatez, quando deveria retirá-las. Agora, ficou muito mais caro retirar uma bala, depois outra e outra. E esse custo é medido pela sucessão de eventos como em 2023, com recordes de calor, e, em 2024, com inéditos 250 mm de chuva em Dubai num só dia, 300 mm em Nairóbi em sete dias e mais de 500 mm no Vale do Taquari em quatro dias, o gatilho para a tragédia gaúcha.
E o revólver da insensatez segue carregado.
A ministra Marina Silva, em entrevista à Globo News no dia 3, ao falar da tragédia do Rio Grande Sul (RS), ilustrou a tese de Dawkins. Ela disse mais ou menos o seguinte: a humanidade levou séculos a transformar a natureza em dinheiro. Agora precisa gastar mais dinheiro para ajudar a natureza a superar obstáculos.
Desde junho de 2022, com o banal assassinato de Dom Phillips, jornalista britânico, e do indigenista Bruno Pereira, comecei a pensar no valor da vida. O assunto voltou ao radar em agosto passado, com o assassinato da dona Bernadete Pacífico, líder quilombola, e, agora, com a catástrofe do RS. Não parece, mas a banalização da vida, como numa roleta russa, é um dos gatilhos de eventos climáticos extremos. E a roleta russa contra a natureza é uma aposta perdedora.
O valor da vida foi tema do doutorado de Richard Thaler, Nobel da Economia em 2017. Antes dele, Thomas Schelling, Nobel da Economia em 2005, num célebre e provocador artigo de 1968 (“The life you save may be your own”), enfatizou que o empenho em salvar vidas é fortemente influenciado por duas características comportamentais: da “vida identificada” - como a de um filho baleado em assalto - e da “vida estatística” - como as milhares de mortes no trânsito.
Os jornais têm dado merecido destaque à tragédia das enchentes no RS. Mas por que o desastre assumiu tamanha proporção? A resposta mais contundente está na própria fala da ministra Marina, já sublinhada no início deste artigo. Mas isso ainda não explica por que jogamos dados com a natureza.
Veja o caso de uma atividade de risco não desprezível. Suponha ser de 5 em 1.000 (0,5%) a probabilidade de um acidente fatal para alguém que, a serpentear no trânsito numa pequena moto, faz entregas em São Paulo. Quanto vale a vida dessa pessoa? Uma conclusão é imediata: essas pessoas se arriscam uma barbaridade e se dispõem a ganhar muito pouco.
Coisa semelhante ocorre com as famílias que vivem no Vale do Taquari, no RS, onde também viveram seus pais e avós. E às vezes pagam muito para permanecer nesse ambiente de risco. Numa espécie de autoengano, pensam que estão seguras.
A explicação é muito mais psicológica que econômica ou mesmo filosófica. Na falta de opção, o entregador sente como perda os R$ 20/hora que deixa de receber se não executar o trabalho. E a aversão a perdas é maior que a aversão ao risco, o que o torna mais propenso a enfrentar situações perigosas.
Isso também pode ser explicado pelo efeito dotação - quando é valorizado em excesso o que se imagina ser um bem. Para muitos, viver no Vale do Taquari, a origem de seus antepassados, é um bem valioso. Abrir mão desse “bem” tem um razoável custo, que, veja só, também vai na direção de desvalorizar a vida.
Aqui entraria a política pública, para minimizar os efeitos dessa propensão ao risco. Admita ser também de 0,5% a probabilidade de roubos com mortes em residências no bairro da Tristeza, região de classe média alta na orla do Guaíba. Mesmo com baixa possibilidade de latrocínio, muitos buscam proteção para suas casas e famílias. Instalam sofisticadas fechaduras e outras barreiras. A família é uma vida identificada.
Admita que é novamente 0,5% a possibilidade de, a cada 80 anos, ser superada a cheia do Guaíba de 1941. Como se comportaria o responsável pelos diques e bombas d’água? Nesse cenário, as autoridades percebem os eventuais danos, mesmo que fatais, apenas como estatísticas, isto é, como vidas estatísticas (como a dos entregadores nas ruas das grandes cidades).
O mais grave ocorre quando a autoridade despreza os alertas da ciência, incentiva o relaxamento da legislação e fecha os olhos para diferentes crimes ambientais. São decisões que, não tenha dúvida, tornam a vida mais vulnerável a eventos climáticos severos, como o de agora no RS. A autoridade, então, põe mais balas na arma com que faz roleta russa com a natureza.
As mudanças climáticas são, por tudo isso, consequências de uma arquitetura de escolhas, sobretudo políticas, nem um pouco racionais. E isso tem transformado tais escolhas numa típica tragédia dos comuns, quando decisões individuais prejudicam o bem-estar da coletividade. O caso concreto são as décadas sem investimentos, manutenção e atualização do sistema de controle de cheias de Porto Alegre.
Corre-se agora para gastar bilhões de reais em medidas de contenção dos danos das escolhas estúpidas. Ok. Mas são negligenciadas as ações para evitar a estupidez. Foi iniciada a maratona para construir infraestruturas que minimizam os efeitos das enchentes, mas não para evitar os recordes de chuva nos vales do Taquari e do Itajaí, Região Serrana do Rio, Litoral Norte de São Paulo ou na Grande Recife.
A notícia relevante não deveria ser a disposição dos governos em gastar bilhões para conter os efeitos dos danos já provocados, que até soará como propaganda eleitoral, mas sim o que não fizeram para evitar a causa dos danos.
A humanidade jogou dados com a natureza. E perdeu. Apostou contra a natureza, quando jogava contra si própria. A humanidade pôs mais balas no revólver da insensatez, quando deveria retirá-las. Agora, ficou muito mais caro retirar uma bala, depois outra e outra. E esse custo é medido pela sucessão de eventos como em 2023, com recordes de calor, e, em 2024, com inéditos 250 mm de chuva em Dubai num só dia, 300 mm em Nairóbi em sete dias e mais de 500 mm no Vale do Taquari em quatro dias, o gatilho para a tragédia gaúcha.
E o revólver da insensatez segue carregado.
O amor tem que vir antes da economia e da democracia
Às vezes, as pessoas mais simples, sem excessivas pretensões científicas, são as que oferecem as verdades mais profundas. Foi o que acabou de acontecer com Satish Kumar, um antigo monge da Índia que, aos 85 anos, continua a viajar pelo mundo lembrando que nos tornámos “meros recursos humanos”. Ele apenas explicou isso em uma longa entrevista ao jornal brasileiro O Globo .
Abordando a questão atual das doenças mentais que afligem toda a humanidade, sem que a ciência seja capaz de fornecer uma explicação convincente, Kumar apresentou o seu diagnóstico. Segundo ele, não são as ansiedades da era digital, da inteligência artificial, da crise da democracia, que estão fazendo com que a dor da alma, da insatisfação universal, cresça como uma epidemia. E as receitas crescem, levando inexoravelmente às farmácias e aos seus lucros.
A filosofia do guru espiritual é mais simples. Segundo ele, a causa da ansiedade universal que nos aflige se deve ao fato de que o crescimento e o desejo pelo puramente econômico não são capazes de preencher o nosso vazio espiritual. “Não importa quanto você tenha e ganhe, nunca será suficiente, você nunca será totalmente feliz”, afirma. E pede mais. E isso até o infinito. Serão realmente os mais felizes, os menos angustiados, os mais serenos, os que menos adoecem, os que têm menos medo da morte, os que acumulam mais poder e riqueza?
O amor viria antes da democracia. “Por si só, não é sequer garantia de um bom governo”, algo que hoje vivemos com mais força do que nunca, pois se há algo no mundo da política atual é que até a democracia, que era uma espécie de religião que garantiu as liberdades individuais e sociais, está mais em crise do que nunca.
Em sua filosofia, o idoso guru que continua viajando pelo mundo espalhando sua utopia de que o amor precede qualquer possibilidade de felicidade profunda e duradoura também insiste que uma vida psíquica e feliz, por mais tecnológica e avançada que seja, é impossível sem contato físico com a natureza, junto às árvores e seus frutos, perto das flores de um jardim ou dos olhos de uma borboleta. Para ele, é incompreensível que no Brasil, um dos países com maior superfície natural virgem, continuem a existir cidades gigantescas como São Paulo ou Rio de Janeiro, com milhões de pessoas aglomeradas nas quais as crianças nunca viram um pássaro voar ou que nunca subiram em uma árvore.
A aparente simplicidade da filosofia da felicidade de Kumar, segundo a qual a solidariedade, a amizade, o amor à natureza, a compreensão da dor dos outros vêm antes da ideologia e da política, coincide neste momento com um tema que envolve o Brasil nesse mesmo mistério.
Desta vez não foi um simples e místico monge, mas o intelectual, presidente da Academia Brasileira de Letras e colunista do jornal O Globo, Merval Pereira, que em sua coluna intitulada Solidariedade aborda do ponto de vista político a força que é ter esse valor e a quebra de preconceitos políticos diante da tragédia humana das enchentes na região Sul do Brasil . Numa das regiões mais ricas do país e ao mesmo tempo mais direitista, como escreve Merval: “A dura tragédia que está a custar tantas vidas e a evacuar cidades inteiras serviu para redescobrir a importância da solidariedade”.
É naquela região onde o país está fortemente dividido entre os seguidores do progressista Lula e do ultradireitista Bolsonaro. E está a ser uma descoberta ao mesmo tempo da tragédia humana e da solidariedade que a acompanha, que leva as pessoas a sacrificarem as suas vidas para salvar outras, onde se torna tangível, como sublinha o colunista, que voltamos a ter um país que une em torno de uma causa independentemente de os voluntários que expõem suas vidas serem lulistas ou bolsonaristas. Assim como os militares que, divididos, estiveram a ponto de cair na tentação oferecida por Bolsonaro de dar um golpe de Estado, hoje estão unidos, sem rótulos políticos, na dura e arriscada ajuda para salvar vidas, sem pedir em quem votaram nas urnas.
Será ou não o amor, a solidariedade, a amizade, o respeito à natureza, uma vida simples, sem ansiedade em acumular riquezas e sem exigir rótulos políticos, não apenas a melhor receita para a felicidade, mas até mesmo o melhor remédio contra as dores da alma?
Abordando a questão atual das doenças mentais que afligem toda a humanidade, sem que a ciência seja capaz de fornecer uma explicação convincente, Kumar apresentou o seu diagnóstico. Segundo ele, não são as ansiedades da era digital, da inteligência artificial, da crise da democracia, que estão fazendo com que a dor da alma, da insatisfação universal, cresça como uma epidemia. E as receitas crescem, levando inexoravelmente às farmácias e aos seus lucros.
A filosofia do guru espiritual é mais simples. Segundo ele, a causa da ansiedade universal que nos aflige se deve ao fato de que o crescimento e o desejo pelo puramente econômico não são capazes de preencher o nosso vazio espiritual. “Não importa quanto você tenha e ganhe, nunca será suficiente, você nunca será totalmente feliz”, afirma. E pede mais. E isso até o infinito. Serão realmente os mais felizes, os menos angustiados, os mais serenos, os que menos adoecem, os que têm menos medo da morte, os que acumulam mais poder e riqueza?
O amor viria antes da democracia. “Por si só, não é sequer garantia de um bom governo”, algo que hoje vivemos com mais força do que nunca, pois se há algo no mundo da política atual é que até a democracia, que era uma espécie de religião que garantiu as liberdades individuais e sociais, está mais em crise do que nunca.
Em sua filosofia, o idoso guru que continua viajando pelo mundo espalhando sua utopia de que o amor precede qualquer possibilidade de felicidade profunda e duradoura também insiste que uma vida psíquica e feliz, por mais tecnológica e avançada que seja, é impossível sem contato físico com a natureza, junto às árvores e seus frutos, perto das flores de um jardim ou dos olhos de uma borboleta. Para ele, é incompreensível que no Brasil, um dos países com maior superfície natural virgem, continuem a existir cidades gigantescas como São Paulo ou Rio de Janeiro, com milhões de pessoas aglomeradas nas quais as crianças nunca viram um pássaro voar ou que nunca subiram em uma árvore.
A aparente simplicidade da filosofia da felicidade de Kumar, segundo a qual a solidariedade, a amizade, o amor à natureza, a compreensão da dor dos outros vêm antes da ideologia e da política, coincide neste momento com um tema que envolve o Brasil nesse mesmo mistério.
Desta vez não foi um simples e místico monge, mas o intelectual, presidente da Academia Brasileira de Letras e colunista do jornal O Globo, Merval Pereira, que em sua coluna intitulada Solidariedade aborda do ponto de vista político a força que é ter esse valor e a quebra de preconceitos políticos diante da tragédia humana das enchentes na região Sul do Brasil . Numa das regiões mais ricas do país e ao mesmo tempo mais direitista, como escreve Merval: “A dura tragédia que está a custar tantas vidas e a evacuar cidades inteiras serviu para redescobrir a importância da solidariedade”.
É naquela região onde o país está fortemente dividido entre os seguidores do progressista Lula e do ultradireitista Bolsonaro. E está a ser uma descoberta ao mesmo tempo da tragédia humana e da solidariedade que a acompanha, que leva as pessoas a sacrificarem as suas vidas para salvar outras, onde se torna tangível, como sublinha o colunista, que voltamos a ter um país que une em torno de uma causa independentemente de os voluntários que expõem suas vidas serem lulistas ou bolsonaristas. Assim como os militares que, divididos, estiveram a ponto de cair na tentação oferecida por Bolsonaro de dar um golpe de Estado, hoje estão unidos, sem rótulos políticos, na dura e arriscada ajuda para salvar vidas, sem pedir em quem votaram nas urnas.
Será ou não o amor, a solidariedade, a amizade, o respeito à natureza, uma vida simples, sem ansiedade em acumular riquezas e sem exigir rótulos políticos, não apenas a melhor receita para a felicidade, mas até mesmo o melhor remédio contra as dores da alma?
terça-feira, 14 de maio de 2024
A opinião em palácio
O Rei fartou-se de reinar sozinho e decidiu partilhar o poder com a Opinião Pública.
― Chamem a Opinião Pública ― ordenou aos serviçais.
Eles percorreram as praças da cidade e não a encontraram. Havia muito que a Opinião Pública deixara de frequentar lugares públicos. Recolhera-se ao Beco sem Saída, onde, furtivamente, abria só um olho, isso mesmo lá de vez em quando.
Descoberta, afinal, depois de muitas buscas, ela consentiu em comparecer ao Palácio Real, onde Sua Majestade, acariciando-lhe docemente o queixo, lhe disse:
― Preciso de ti.
A Opinião, muda como entrara, muda se conservou. Perdera o uso da palavra ou preferia não exercitá-lo. O Rei insistia, oferecendo-lhe sequilhos e perguntando o que ela pensava disso e daquilo, se acreditava em discos voadores, horóscopos, correcção monetária, essas coisas. E outras. A Opinião Pública abanava a cabeça: não tinha opinião.
― Vou te obrigar a ter opinião ― disse o Rei, zangado.
― Meus especialistas te dirão o que deves pensar e manifestar. Não posso mais reinar sem o teu concurso. Instruída devidamente sobre todas as matérias, e tendo assimilado o que é preciso achar sobre cada uma em particular e sobre a problemática geral, tu me serás indispensável.
E virando-se para os serviçais:
― Chamem a Opinião Pública ― ordenou aos serviçais.
Eles percorreram as praças da cidade e não a encontraram. Havia muito que a Opinião Pública deixara de frequentar lugares públicos. Recolhera-se ao Beco sem Saída, onde, furtivamente, abria só um olho, isso mesmo lá de vez em quando.
Descoberta, afinal, depois de muitas buscas, ela consentiu em comparecer ao Palácio Real, onde Sua Majestade, acariciando-lhe docemente o queixo, lhe disse:
― Preciso de ti.
A Opinião, muda como entrara, muda se conservou. Perdera o uso da palavra ou preferia não exercitá-lo. O Rei insistia, oferecendo-lhe sequilhos e perguntando o que ela pensava disso e daquilo, se acreditava em discos voadores, horóscopos, correcção monetária, essas coisas. E outras. A Opinião Pública abanava a cabeça: não tinha opinião.
― Vou te obrigar a ter opinião ― disse o Rei, zangado.
― Meus especialistas te dirão o que deves pensar e manifestar. Não posso mais reinar sem o teu concurso. Instruída devidamente sobre todas as matérias, e tendo assimilado o que é preciso achar sobre cada uma em particular e sobre a problemática geral, tu me serás indispensável.
E virando-se para os serviçais:
― Levem esta senhora para o Curso Intensivo de Conceitos Oficiais. E que ela só volte aqui depois de decorar bem as apostilas.
Carlos Drummond de Andrade, “Contos Plausíveis”
A égua no telhado
A foto é emblemática. Uma égua no alto do telhado de uma casa, olhando para a água que a cerca. Sem enxergar um palmo de terra firme que a encoraje a sair do desconforto. Na maior tragédia pluviométrica que assola o Rio Grande do Sul, o cavalo de Canoas, uma das cidades inundadas pelas enchentes, simboliza a perplexidade que toma conta não apenas dos gaúchos, mas de todos os brasileiros que nunca viram cenas tão devastadoras e intensas quanto as que lhe são expostas pela teia midiática. A cena de uma garotinha pedindo que o barqueiro pegasse uma boneca que flutuava na água é comovente. A boneca era um bebê. Realismo fantástico.
O Brasil vive um momento de triste perplexidade. Sem entender como e porque um Estado tão bem-dotado de infraestrutura, um dos mais desenvolvidos da Federação, a 5ª. maior economia nacional, seja impiedosamente destruído por precipitações pluviométricas. Como não se previu tamanha calamidade? Como tem sido possível que os danos às pessoas sejam de tal monta, que a vida de centenas de famílias seja jogada no despenhadeiro? Nietzche, o magistral filósofo, prenunciou: a ampulheta do tempo, vira e mexe, impõe o eterno recomeço como nosso conceito de devir.
A cada estação do ano, o Brasil ganha as cenas de vidas destroçadas. Vai, aqui, pequena memória.
Em 1975, um vazamento de 6 mil toneladas de óleo, do petroleiro Tarik Iba Ziyad, fretado pela Petrobras, contaminou a baía de Guanabara. O maior vazamento de óleo no Brasil. Em 1980, no Vale da Morte, em Cubatão, a liberação de gases tóxicos por indústrias do polo petroquímico, aumentou os problemas de saúde na região. Ainda em Cubatão, em 1984, na Vila Socó, um grande incêndio matou 93 pessoas. Falha na tubulação. Em 1987, foi a vez de Goiânia, com o acidente radiológico com um aparelho de radioterapia abandonado, dentro do qual estava uma cápsula de césio-137. Outro vazamento de óleo na baía de Guanabara, em 2000; responsabilidade da Petrobras. 25 praias contaminadas. Ainda em 2000, no Paraná, houve um vazamento de óleo nos rios Barigui e Iguaçu. 4 milhões de litros de óleo. Vimos, em 2001, o naufrágio da plataforma P-36, na bacia de Campos, que despejou 1500 toneladas de óleo a bordo, matando 11 pessoas. A seguir, em 2003, a indústria Cataguases, em Minas Gerais, despejou 1 bilhão e 400 milhões de lixívia nas águas da bacia hidrográfica do Paraíba do Sul. Em 2007, o rompimento de barragem Bom Jardim em MG. Em 2011, outro vazamento de óleo na bacia de Campos, RJ. No porto de Santos, em 2015, ocorreu o incêndio na Ultracargo, durante transferência de tanques de gasolina e etanol. Ainda em 2015, houve o vazamento da barragem do Fundão, em Mariana, MG, com 62 milhões de m3 de lama. Responsabilidade da empresa Samarco. Em janeiro de 2019, em Brumadinho, MG, viu-se um dos maiores desastres ambientais no Brasil, com o rompimento da barragem Mina do Feijão, sob responsabilidade da companhia Vale do Rio Doce. 270 mortos. Uma tragédia. E agora, a tragédia das tragédias, essa que conta mais de 100 mortos, atinge 83% dos municípios gaúchos e deixa mais de meio milhão de pessoas ao relento. O que essa calamidade expressa? Primeiro, a ausência de políticas voltadas para a prevenção de catástrofes. As forças naturais recebem as críticas, mas a mãe natureza não tem tanta culpa. A obra de devastação a cargo do homem, em sua incessante obstinação para apressar o fim do planeta, é a principal responsável por catástrofes. Quantos parlamentares dedicaram verbas para a prevenção de enchentes? Um, dois, três? Os homens públicos deveriam ir ao paredão da vergonha por não construírem barreiras preventivas nos espaços que administram.
O trabalho voluntário mostra a solidariedade de brasileiros na tragédia gaúcha. E serve de bálsamo para amenizar a dor de milhares de aflitos. Mas é isso que sobra ante a maré de improvisação que grassa na administração de Estados e municípios. Para arrematar o mosaico de desleixo, competências constitucionais são distribuídas de maneira irregular entre os entes federativos. União, estados e municípios repartem áreas comuns como serviços sociais, meio-ambiente e habitação etc. O resultado é uma sobreposição de ações, particularmente nos palanques midiáticos, aqueles que impressionam eleitores. Projetos escondidos, como os de saneamento, são relegados ao segundo plano. Um governo eficaz é aquele com aptidão para prever problemas e antecipar soluções.
É triste concluir que as calamidades de hoje se repetiram no passado e serão vividas no amanhã. Um eterno retorno, um eterno recomeço. O olhar da égua no telhado parece responder ao presidente Lula, que fez a provocação: o que estaria ela pensando? Ora, pensando na malandragem que dita a conduta de demagogos, oportunistas, gente que tenta tirar proveito da miséria humana.
O Brasil vive um momento de triste perplexidade. Sem entender como e porque um Estado tão bem-dotado de infraestrutura, um dos mais desenvolvidos da Federação, a 5ª. maior economia nacional, seja impiedosamente destruído por precipitações pluviométricas. Como não se previu tamanha calamidade? Como tem sido possível que os danos às pessoas sejam de tal monta, que a vida de centenas de famílias seja jogada no despenhadeiro? Nietzche, o magistral filósofo, prenunciou: a ampulheta do tempo, vira e mexe, impõe o eterno recomeço como nosso conceito de devir.
A cada estação do ano, o Brasil ganha as cenas de vidas destroçadas. Vai, aqui, pequena memória.
Em 1975, um vazamento de 6 mil toneladas de óleo, do petroleiro Tarik Iba Ziyad, fretado pela Petrobras, contaminou a baía de Guanabara. O maior vazamento de óleo no Brasil. Em 1980, no Vale da Morte, em Cubatão, a liberação de gases tóxicos por indústrias do polo petroquímico, aumentou os problemas de saúde na região. Ainda em Cubatão, em 1984, na Vila Socó, um grande incêndio matou 93 pessoas. Falha na tubulação. Em 1987, foi a vez de Goiânia, com o acidente radiológico com um aparelho de radioterapia abandonado, dentro do qual estava uma cápsula de césio-137. Outro vazamento de óleo na baía de Guanabara, em 2000; responsabilidade da Petrobras. 25 praias contaminadas. Ainda em 2000, no Paraná, houve um vazamento de óleo nos rios Barigui e Iguaçu. 4 milhões de litros de óleo. Vimos, em 2001, o naufrágio da plataforma P-36, na bacia de Campos, que despejou 1500 toneladas de óleo a bordo, matando 11 pessoas. A seguir, em 2003, a indústria Cataguases, em Minas Gerais, despejou 1 bilhão e 400 milhões de lixívia nas águas da bacia hidrográfica do Paraíba do Sul. Em 2007, o rompimento de barragem Bom Jardim em MG. Em 2011, outro vazamento de óleo na bacia de Campos, RJ. No porto de Santos, em 2015, ocorreu o incêndio na Ultracargo, durante transferência de tanques de gasolina e etanol. Ainda em 2015, houve o vazamento da barragem do Fundão, em Mariana, MG, com 62 milhões de m3 de lama. Responsabilidade da empresa Samarco. Em janeiro de 2019, em Brumadinho, MG, viu-se um dos maiores desastres ambientais no Brasil, com o rompimento da barragem Mina do Feijão, sob responsabilidade da companhia Vale do Rio Doce. 270 mortos. Uma tragédia. E agora, a tragédia das tragédias, essa que conta mais de 100 mortos, atinge 83% dos municípios gaúchos e deixa mais de meio milhão de pessoas ao relento. O que essa calamidade expressa? Primeiro, a ausência de políticas voltadas para a prevenção de catástrofes. As forças naturais recebem as críticas, mas a mãe natureza não tem tanta culpa. A obra de devastação a cargo do homem, em sua incessante obstinação para apressar o fim do planeta, é a principal responsável por catástrofes. Quantos parlamentares dedicaram verbas para a prevenção de enchentes? Um, dois, três? Os homens públicos deveriam ir ao paredão da vergonha por não construírem barreiras preventivas nos espaços que administram.
O trabalho voluntário mostra a solidariedade de brasileiros na tragédia gaúcha. E serve de bálsamo para amenizar a dor de milhares de aflitos. Mas é isso que sobra ante a maré de improvisação que grassa na administração de Estados e municípios. Para arrematar o mosaico de desleixo, competências constitucionais são distribuídas de maneira irregular entre os entes federativos. União, estados e municípios repartem áreas comuns como serviços sociais, meio-ambiente e habitação etc. O resultado é uma sobreposição de ações, particularmente nos palanques midiáticos, aqueles que impressionam eleitores. Projetos escondidos, como os de saneamento, são relegados ao segundo plano. Um governo eficaz é aquele com aptidão para prever problemas e antecipar soluções.
É triste concluir que as calamidades de hoje se repetiram no passado e serão vividas no amanhã. Um eterno retorno, um eterno recomeço. O olhar da égua no telhado parece responder ao presidente Lula, que fez a provocação: o que estaria ela pensando? Ora, pensando na malandragem que dita a conduta de demagogos, oportunistas, gente que tenta tirar proveito da miséria humana.
O jornalismo em extinção
Encontrámo-la recentemente nos títulos de dois diagnósticos desta situação nos Estados Unidos: um, publicado no final de janeiro na revista Atlantic assinado por Paul Farhi, que foi um importante repórter do Washington Post; outro, no mês seguinte, da autoria de Clare Malone, na The New Yorker.
Usando um acento catastrófico que uma prudente interrogação não consegue relativizar, ambos evocam a extinção como um horizonte plausível. O primeiro pergunta: “Is American Journalism Headed Toward an ‘Extinction-Level Event?’”; o segunda insiste quase com os mesmos termos: “Is the Media Prepared for an Extinction-Level Event?”. Não é ainda um réquiem, mas está próximo.
O que se passa nos Estados Unidos, neste domínio, não é certamente muito diferente do que se passa na Europa, só que talvez num grau mais elevado e com algum avanço no tempo. O horizonte é o mesmo.
O que ficamos então a saber acerca do estado de coisas nos Estados Unidos, informados por estes e outros artigos sobre o mesmo assunto? Ficamos a saber que a hemorragia mais forte é a da imprensa regional: em média, todas as semanas morrem duas publicações e meia (jornais diários, semanários, mensais).
Num país tão extenso como os Estados Unidos, os jornais regionais tiveram sempre um papel importantíssimo e foram um factor fundamental dos equilíbrios democráticos e da vida cultural e comunitária. Quando esse espaço é ocupado pelas redes sociais, ficam à solta as teorias do complot, as fake news, os conteúdos gerados pela inteligência artificial que multiplicam a desinformação, o caos, o convite à passagem aos actos de violência. O ambiente de radicalização e pré-guerra civil que se vive nos Estados Unidos faz parte deste panorama que promove e alimenta a divisão e os extremismos.
Há uma pergunta que começa a ser posta e que leva a pensar os caminhos que estão a tomar as tradicionais democracias liberais: “Estamos ainda em democracia?”. Esta pergunta tem uma especial incidência quando se pensa no que está a acontecer aos jornais e ao jornalismo. Alguns números fornecidos nos artigos citados: em 2023 foram eliminados nos Estados Unidos 21.400 postos de trabalho nos media tradicionais. Grandes jornais como o Los Angeles Times (que despediu mais de 20% da sua redacção) e o Washington Post não foram poupados. Este último teve no ano passado um défice de cem milhões de dólares. No entanto, tinha sido um dos que mais prosperou durante a presidência de Donald Trump. Como é sabido, o “espectáculo” Trump proporcionou aos jornais um festim permanente que lhes valeu um grande aumento de leitores.
O declínio dos meios de comunicação tradicionais já suscita esta pergunta formulada pela autora do artigo da New Yorker: “Estamos a assistir ao fim da era dos meios de comunicação de massa?”. Este declínio já começou há décadas, mas foi acelerado pela Internet, pela digitalização generalizada, pelas plataformas. As receitas publicitárias que garantiam o negócio dos jornais passaram a fluir na direcção de colossos como a Google. Quando deixa de ser possível sustentar o jornalismo como um negócio, muitas publicações usam um pseudojornalismo como operação de fachada para outros negócios e entram numa zona obscura.
De todas as “grandes regressões” que se deram desde o início deste século, esta é uma das mais velozes e contundentes. O seu efeito político é bem visível, no avanço de factores que levam à degradação do espaço público, ao enorme teor de conflito social e político, ao empobrecimento cultural. As noções de pós-verdade e pós-democracia assentam nestes terrenos onde vacila tudo o que dantes parecia seguro.
E assim estão criadas as condições para promover um mundo em que já nem serve a distinção entre o verdadeiro e o falso, nem faz apelo a uma ideologia dotada de uma coerência sistemática, como acontecia nos regimes totalitários do século XX. A mentira ideológica e a propaganda eram ainda uma peça da engrenagem da política moderna.
Aquilo a que hoje se chama pós-verdade tem que ver com a hegemonia das novas fontes de informação e dos meios de produção e circulação de notícias, dados e visões do mundo que apelam à divisão e à violência, subtraindo-se a qualquer controlo editorial.
Perante isto, o jornalismo está a revelar-se tanto mais impotente quanto está obrigado a investir a sua energia na luta pela própria sobrevivência.
Usando um acento catastrófico que uma prudente interrogação não consegue relativizar, ambos evocam a extinção como um horizonte plausível. O primeiro pergunta: “Is American Journalism Headed Toward an ‘Extinction-Level Event?’”; o segunda insiste quase com os mesmos termos: “Is the Media Prepared for an Extinction-Level Event?”. Não é ainda um réquiem, mas está próximo.
O que se passa nos Estados Unidos, neste domínio, não é certamente muito diferente do que se passa na Europa, só que talvez num grau mais elevado e com algum avanço no tempo. O horizonte é o mesmo.
O que ficamos então a saber acerca do estado de coisas nos Estados Unidos, informados por estes e outros artigos sobre o mesmo assunto? Ficamos a saber que a hemorragia mais forte é a da imprensa regional: em média, todas as semanas morrem duas publicações e meia (jornais diários, semanários, mensais).
Num país tão extenso como os Estados Unidos, os jornais regionais tiveram sempre um papel importantíssimo e foram um factor fundamental dos equilíbrios democráticos e da vida cultural e comunitária. Quando esse espaço é ocupado pelas redes sociais, ficam à solta as teorias do complot, as fake news, os conteúdos gerados pela inteligência artificial que multiplicam a desinformação, o caos, o convite à passagem aos actos de violência. O ambiente de radicalização e pré-guerra civil que se vive nos Estados Unidos faz parte deste panorama que promove e alimenta a divisão e os extremismos.
Há uma pergunta que começa a ser posta e que leva a pensar os caminhos que estão a tomar as tradicionais democracias liberais: “Estamos ainda em democracia?”. Esta pergunta tem uma especial incidência quando se pensa no que está a acontecer aos jornais e ao jornalismo. Alguns números fornecidos nos artigos citados: em 2023 foram eliminados nos Estados Unidos 21.400 postos de trabalho nos media tradicionais. Grandes jornais como o Los Angeles Times (que despediu mais de 20% da sua redacção) e o Washington Post não foram poupados. Este último teve no ano passado um défice de cem milhões de dólares. No entanto, tinha sido um dos que mais prosperou durante a presidência de Donald Trump. Como é sabido, o “espectáculo” Trump proporcionou aos jornais um festim permanente que lhes valeu um grande aumento de leitores.
O declínio dos meios de comunicação tradicionais já suscita esta pergunta formulada pela autora do artigo da New Yorker: “Estamos a assistir ao fim da era dos meios de comunicação de massa?”. Este declínio já começou há décadas, mas foi acelerado pela Internet, pela digitalização generalizada, pelas plataformas. As receitas publicitárias que garantiam o negócio dos jornais passaram a fluir na direcção de colossos como a Google. Quando deixa de ser possível sustentar o jornalismo como um negócio, muitas publicações usam um pseudojornalismo como operação de fachada para outros negócios e entram numa zona obscura.
De todas as “grandes regressões” que se deram desde o início deste século, esta é uma das mais velozes e contundentes. O seu efeito político é bem visível, no avanço de factores que levam à degradação do espaço público, ao enorme teor de conflito social e político, ao empobrecimento cultural. As noções de pós-verdade e pós-democracia assentam nestes terrenos onde vacila tudo o que dantes parecia seguro.
E assim estão criadas as condições para promover um mundo em que já nem serve a distinção entre o verdadeiro e o falso, nem faz apelo a uma ideologia dotada de uma coerência sistemática, como acontecia nos regimes totalitários do século XX. A mentira ideológica e a propaganda eram ainda uma peça da engrenagem da política moderna.
Aquilo a que hoje se chama pós-verdade tem que ver com a hegemonia das novas fontes de informação e dos meios de produção e circulação de notícias, dados e visões do mundo que apelam à divisão e à violência, subtraindo-se a qualquer controlo editorial.
Perante isto, o jornalismo está a revelar-se tanto mais impotente quanto está obrigado a investir a sua energia na luta pela própria sobrevivência.
A cosmovisão da floresta e o fim do mundo
Num país democrático e multiétnico como nosso, coexistem diferentes formas de pensar e de viver, embora nem sempre em harmonia. Uma delas merece cada vez mais atenção, pela contribuição que pode dar ao planeta, sobretudo à ciência, nesse momento de emergência climática: a cosmologia indígena. Diante da destruição das florestas e consequente aquecimento global, da frequência e escala crescentes dos desastres naturais, os saberes indígenas ancestrais começam a ganhar corações e mentes na sociedade.
Não se trata mais de um debate sobre modelos de desenvolvimento, pura e simplesmente. Trata-se da dramática condição humana que emerge nos “desastres naturais”, como a que estamos vivendo no Rio Grande do Sul. A capacidade de adaptação às mudanças, hoje focada nas relações econômicas e na inovação tecnológica, precisa voltar ao leito da relação evolutiva dos seres humanos com a natureza, porque põe em xeque a nossa capacidade de adaptação às mudanças ambientais, sobretudo climáticas.
A vida e os saberes indígenas consideram o universo em sua totalidade e inserem o ser humano em uma complexa rede de relações, que envolve o natural e sobrenatural. Embora violentamente agredidos pelos interesses de mercado e a modernização permanente das atividades econômicas, esse conhecimento não está subordinados à lógica dos interesses de mercado. Historicamente, cederam lugar à razão e a ciência, mas os fatos mostram que ainda temos muito a aprender com nossos 350 povos indígenas.
Assim como estamos aprendendo e ensinando, simultaneamente, o manejo e aproveitamento dos recursos naturais de maneira a não esgotar suas possibilidades às comunidades tradicionais. Quilombolas, pescadores artesanais, as quebradeiras de babaçu, seringueiros, castanheiros, marisqueiras, ribeirinhos, varjeiros, sertanejos, pantaneiros, geraizeiros e caatingueiros, entre outros, ficaram à margem da modernização, porém, herdaram e/ou desenvolveram saberes que garantem sua sobrevivência em condições muito desfavoráveis.
Precisamos dar mais atenção às vozes dissonantes desses setores, como a de Aírton Krenac, o filósofo indígena, recém-empossado na Academia Brasileira Letras (ABL). Ativista do movimento socioambiental, Doutor honoris causa pela Universidade Federal de Minas Gerais e pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Krenak nasceu na região do vale do rio Doce, Minas Gerais. Exerceu um papel crucial na organização e conquista dos Direitos Indígenas na Constituinte de 1988.
O nome Krenak significa cabeça (kre) da terra (nak). Os Krenak ou Borun são os útimos “Botocudos do Leste”, nome atribuído pelos portugueses no fim do século 18 aos grupos que usavam botoques auriculares ou labiais. São conhecidos também por Aimorés e se auto-denominam Grén ou Krén. Em 2015, a catástrofe de Mariana (MG), devastou toda a fauna e vegetação do Rio Doce, atingindo a principal fonte de subsistência dos Krenak, representados por pouco mais de 600 sobreviventes que ainda ocupam a região.
Lançado em 2019 pela Companhia das Letras, "Ideias para adiar o fim do mundo" é o livro mais famoso de Krenak. A obra critica a ideia de humanidade como um conceito separado da natureza. Essa premissa seria baseada no desastre socioambiental da nossa era, o Antropoceno. Somente através do reconhecimento da diversidade e da recusa da ideia do humano como superior aos outros seres, é possível dar outro significado às nossas existências e frear a caminhada para o colapso ambiental.
Sua obra filosófica sustenta-se na cosmologia indígena. O amanhã não está a venda, de abril de 2020, sobre como a pandemia de Covid 19, nos fez refletir sobre o que é a “normalidade” e o que significaria voltar para esse status após a crise social, econômica e sanitária. Publicado no final de 2020, A vida não é útil é um diálogo sobre o cenário pandêmico, no qual aponta as tendências destrutivas da civilização, durante um governo negacionista de extrema-direita.
Mais recente, seu livro Futuro ancestral confronta o senso comum ao explorar a ideia de futuro: “Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, são quem me sugerem que, se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui.” Esse raciocínio nos remete à tragédia do Rio Rio Grande do Sul. Uma árvore derrubada na Amazônia, como num efeito borboleta, impacta o clima dos pampas. Esse entendimento já tem um consenso científico, mas não tem a devida tradução nas políticas públicas, que vão na contramão.
O Congresso derrubou o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a itens da Lei dos Agrotóxicos que deram ao Ministério da Agricultura competência exclusiva para registrar agrotóxicos, esvaziando Ibama e Anvisa. Outros 25 projetos estão prontos para votação com objetivo de enfraquecer a legislação ambiental e “passar a boiada”. Os deputados Lucas Redecker (PSDB-RS) e Jerônimo Goergen (PP-RS), além do senador licenciado Luis Carlos Heinze (PP-RS), gaúchos, estão entre os autores de leis favoráveis a flexibilização de áreas de preservação ambiental.
O próprio governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), promoveu cortes no orçamento da Defesa Civil e nos projetos de resposta a desastres ambientais. Em 2019, propôs um projeto que alterou 480 pontos do Código Florestal estadual. A prefeitura de Porto Alegre nada investiu nenhum na prevenção contra enchentes em 2023. Em março, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou, com 38 votos a favor e 18 contra, um projeto que permite devastar campos nativos do tamanho do Rio Grande do Sul e do Paraná juntos.
Não se trata mais de um debate sobre modelos de desenvolvimento, pura e simplesmente. Trata-se da dramática condição humana que emerge nos “desastres naturais”, como a que estamos vivendo no Rio Grande do Sul. A capacidade de adaptação às mudanças, hoje focada nas relações econômicas e na inovação tecnológica, precisa voltar ao leito da relação evolutiva dos seres humanos com a natureza, porque põe em xeque a nossa capacidade de adaptação às mudanças ambientais, sobretudo climáticas.
A vida e os saberes indígenas consideram o universo em sua totalidade e inserem o ser humano em uma complexa rede de relações, que envolve o natural e sobrenatural. Embora violentamente agredidos pelos interesses de mercado e a modernização permanente das atividades econômicas, esse conhecimento não está subordinados à lógica dos interesses de mercado. Historicamente, cederam lugar à razão e a ciência, mas os fatos mostram que ainda temos muito a aprender com nossos 350 povos indígenas.
Assim como estamos aprendendo e ensinando, simultaneamente, o manejo e aproveitamento dos recursos naturais de maneira a não esgotar suas possibilidades às comunidades tradicionais. Quilombolas, pescadores artesanais, as quebradeiras de babaçu, seringueiros, castanheiros, marisqueiras, ribeirinhos, varjeiros, sertanejos, pantaneiros, geraizeiros e caatingueiros, entre outros, ficaram à margem da modernização, porém, herdaram e/ou desenvolveram saberes que garantem sua sobrevivência em condições muito desfavoráveis.
Precisamos dar mais atenção às vozes dissonantes desses setores, como a de Aírton Krenac, o filósofo indígena, recém-empossado na Academia Brasileira Letras (ABL). Ativista do movimento socioambiental, Doutor honoris causa pela Universidade Federal de Minas Gerais e pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Krenak nasceu na região do vale do rio Doce, Minas Gerais. Exerceu um papel crucial na organização e conquista dos Direitos Indígenas na Constituinte de 1988.
O nome Krenak significa cabeça (kre) da terra (nak). Os Krenak ou Borun são os útimos “Botocudos do Leste”, nome atribuído pelos portugueses no fim do século 18 aos grupos que usavam botoques auriculares ou labiais. São conhecidos também por Aimorés e se auto-denominam Grén ou Krén. Em 2015, a catástrofe de Mariana (MG), devastou toda a fauna e vegetação do Rio Doce, atingindo a principal fonte de subsistência dos Krenak, representados por pouco mais de 600 sobreviventes que ainda ocupam a região.
Lançado em 2019 pela Companhia das Letras, "Ideias para adiar o fim do mundo" é o livro mais famoso de Krenak. A obra critica a ideia de humanidade como um conceito separado da natureza. Essa premissa seria baseada no desastre socioambiental da nossa era, o Antropoceno. Somente através do reconhecimento da diversidade e da recusa da ideia do humano como superior aos outros seres, é possível dar outro significado às nossas existências e frear a caminhada para o colapso ambiental.
Sua obra filosófica sustenta-se na cosmologia indígena. O amanhã não está a venda, de abril de 2020, sobre como a pandemia de Covid 19, nos fez refletir sobre o que é a “normalidade” e o que significaria voltar para esse status após a crise social, econômica e sanitária. Publicado no final de 2020, A vida não é útil é um diálogo sobre o cenário pandêmico, no qual aponta as tendências destrutivas da civilização, durante um governo negacionista de extrema-direita.
Mais recente, seu livro Futuro ancestral confronta o senso comum ao explorar a ideia de futuro: “Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, são quem me sugerem que, se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui.” Esse raciocínio nos remete à tragédia do Rio Rio Grande do Sul. Uma árvore derrubada na Amazônia, como num efeito borboleta, impacta o clima dos pampas. Esse entendimento já tem um consenso científico, mas não tem a devida tradução nas políticas públicas, que vão na contramão.
O Congresso derrubou o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a itens da Lei dos Agrotóxicos que deram ao Ministério da Agricultura competência exclusiva para registrar agrotóxicos, esvaziando Ibama e Anvisa. Outros 25 projetos estão prontos para votação com objetivo de enfraquecer a legislação ambiental e “passar a boiada”. Os deputados Lucas Redecker (PSDB-RS) e Jerônimo Goergen (PP-RS), além do senador licenciado Luis Carlos Heinze (PP-RS), gaúchos, estão entre os autores de leis favoráveis a flexibilização de áreas de preservação ambiental.
O próprio governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), promoveu cortes no orçamento da Defesa Civil e nos projetos de resposta a desastres ambientais. Em 2019, propôs um projeto que alterou 480 pontos do Código Florestal estadual. A prefeitura de Porto Alegre nada investiu nenhum na prevenção contra enchentes em 2023. Em março, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou, com 38 votos a favor e 18 contra, um projeto que permite devastar campos nativos do tamanho do Rio Grande do Sul e do Paraná juntos.
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