sábado, 3 de julho de 2021

Pesadelo de cada dia

Nestes tempos o despertar do brasileiro é um pesadelo. Pode estar uma manhã de um esplendor de luz e cores, ou nascer o dia sob um chuvisco modorrento. O sentimento será o mesmo de brumas – tristeza, angústia, mesmo desespero, mas principalmente de morte. É de manhã que a Besta desperta com todo o furor para negar a vida. A mídia despeja em jorros a pestilência contra o ser humano gerada à noite pelos diabos. E a manhã é sempre um terror.

Varreu-se do dia a esperança e a alegria, que mesmo nos piores momentos desta pandemia outros países não perderam. A governança da maldade , entronada nos palácios governamentais dos Três Poderes, dispara seus festins contra o que consideram a populaça. Cada vez mais um tiro na generosidade, na amizade, no companheirismo, na cooperação, enfim na humanidade que todo povo deve prezar.


Mais de 522 mil mortos e milhões de desempregados depois, disparam nova cortina de fumaça para encobrir o descaso com que se tratou e se trata a maior crise sanitária mundial dos últimos 100 anos. E tome declarações bestiais, desfiles eleitoreiros, inaugurações do já inaugurado, injúrias e calúnias contra outros brasileiros, que até erraram, mas nunca assassinaram.

Entre choro e ranger de dentes, a Besta impera com suas legiões, até sob algum aplauso cúmplice da escória, que infelizmente não desperta o grito geral: “Vão todos pros quintos do inferno!” Com a devida reverência a tão ilustres insignificantes.

O país necessita de Vida para não ser apenas um ossuário de miséria, morte, desespero, e de todos os sentimentos que fazem da humanidade ser uma verdadeira criação, independente de religiosos e profetas de araque.

A continuidade da polarização entre governo e Brasil mata e destrói até não sobrar nem um nem outro. Apenas uma terra de ninguém, onde se enterrarão vítimas e algozes, pronta para receber vândalos e mercenários de todo o tipo.
Luiz Gadelha

A complicada geometria política

A arte da política é produzir consensos progressivos diante das divergências presentes. Líderes como Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, FHC, Petrônio Portela, Marco Maciel se esmeravam na construção de convergências. Foi assim na anistia, na eleição de Tancredo no colégio eleitoral, na Assembleia Nacional Constituinte eleita em 1986.

No cenário atual, não. Num ambiente de radicalização extremada, os populistas autoritários, os “engenheiros do caos”, não querem o diálogo. Dentro de sua lógica, a exacerbação, a obstrução do contraditório e a anulação da legitimidade dos adversários operam em favor da manutenção do quadro de polarização radical e fidelização de suas bases sociais.


Hoje, abordo o diálogo o ex-governador e senador Cristovam Buarque, ator político comprometido com o interesse público e portador de grande inquietação intelectual. Recentemente, ele, no artigo “O PT é Centro” introduziu uma saudável provocação, reivindicando que o PT deveria ter sido convidado para a reunião dos líderes dos partidos do chamado “centro democrático”, que buscam construir uma alternativa nas presidenciais de 2022. Depois de análise onde caracteriza o PT como um partido de centro, concluí: “Por sua força e por sua posição centrista, o PT deveria ter sido convidado. Salvo se aqueles que fizeram a reunião se considerarem de direita, onde realmente o PT não se situa”. Mas como disse a ele, nem uma coisa, nem outra. Nem o PT é centro, se situando no campo da esquerda brasileira, nem os partidos reunidos são de direita.

Fato é que a geometria política contemporânea é extremamente complexa. Os conceitos de centro, direita e esquerda estão embaralhados. O debate no século XX era polarizado entre reacionarismo, liberalismo, socialdemocracia e comunismo. O reacionarismo continua presente em algumas ditaduras e ameaças antidemocráticas. O liberalismo mostrou suas debilidades na crise global de 2008. A socialdemocracia tropeçou nos limites fiscais de expansão dos Estados de Bem Estrar europeus. E o comunismo veio abaixo com a queda do Muro de Berlim e a dissolução da URSS e do Leste Europeu.

Diante disto é preciso, mais do que nunca, desprender-se dos paradigmas clássicos e dos rótulos, e se concentrar na agenda de transformações necessárias. Quais são as questões que devem unir?

Os eixos essenciais são: i. defesa radical da democracia e da liberdade, individual, política, coletiva, econômica; ii. Construção de um novo modelo econômico eficiente e inclusivo; iii. Ação contundente contra as iniquidades sociais, através da transferência direta de renda aos mais pobres e de políticas públicas sociais criativas; iv. Defesa da sustentabilidade ambiental e v. Construção do Estado socialmente necessário, enxuto, forte e moderno com intervenções calibradas coerentes com os demais objetivos.

Norberto Bobbio deu uma notável contribuição teórica a esta busca. O Partido Comunista Italiano produziu o “aggiornamento” que resultou em sua extinção e na criação do PD italiano. Biden, Merkel, Macron buscam construir alternativas às perspectivas extremadas.

Para além dos rótulos, na complexa geometria política, precisamos unir como bem resumiu o ex-governador e ministro Moreira Franco “a esquerda da direita e a direita da esquerda” em torno da agenda substantiva que realmente interessa ao futuro do Brasil.

À prova de blindagem

Nas últimas semanas, a CPI nos tem brindado com as sôfregas tentativas da tropa de choque de Jair Bolsonaro de blindá-lo da acusação de, em plena pandemia, ter feito do Ministério da Saúde um balcão de negócios assassinos. Se Millôr Fernandes estivesse entre nós, diria que, por enquanto, essa blindagem só resultou no rabo escondido, com o gato de fora. Ao ouvir isso, eu, com uma intimidade garantida por 40 anos de amizade, pediria a Millôr para não meter os gatos nessa história. Os animais que a povoam são de outra espécie —os ratos, de que o ratão-mor se cercou nos subterrâneos de seus palácios e do dito ministério.

O verbo blindar nos chegou do alemão “blenden”, através do francês “blinder”. Os ingleses o acolheram como “to blind”. Todos significam a mesma coisa: cegar, ofuscar, embaçar, desbotar. Como as línguas são vivas, blindar gerou também proteger, escudar, defender, revestir, couraçar, tapar. E, numa variante sinistra, tapear, enganar, iludir, ludibriar, entulhar —obstruir.


É no que estão se agarrando os esforçados senadores que defendem Bolsonaro, perdendo todas até agora. E como não perder? Deve ser difícil blindar alguém que, com incrível coerência, cercou-se —subitamente ficou claro— de empresários canastrões, militares suspeitos, juízes oportunistas, ministros das sombras, intermediários de mutretas e agentes de propina, sem falar nos valentões da internet e militantes do ódio, todos deixando suas digitais em tudo que tocam. Como blindar Bolsonaro se os discursos que proferem são desmentidos pelos vídeos e áudios mais comprometedores gravados pela turma do patrão?

A avalanche de suspeitas e denúncias de corrupção só começou. Em breve, não haverá blindagem que chegue, e os aliados de hoje cairão fora para salvar a vida.

Só será triste se, um dia, Bolsonaro for levado aos tribunais apenas como ladrão —não como genocida.

Pensamento do Dia

 


Você precisa definir, até a eleição do ano que vem, qual é o mal maior

O, por assim dizer, presidente Jair Bolsonaro voltou a ameaçar o país nesta quinta. Acusou um complô entre Lula e ministros do STF para fraudar eleições. Ou se aprova o voto impresso, ou ele anuncia que não vai reconhecer o resultado. E aí prevê “problemas”. O rato que ruge ameaça com a versão nativa da invasão do Capitólio. Mais um crime de responsabilidade. Depois foi à missa.

Escrevi na semana passada que tenho procurado, neste espaço, fugir às questões contingentes. Quando se tenta cobrar propina até de picareta que não tem vacina a vender, todas as musas silenciam à espera do próximo absurdo. Relatá-los e comentá-los tem sido nossa triste e necessária rotina. Tentemos avançar um pouco.

Se não há apelo à razão que possa fazer frutos nos bolsões da extrema direita, falo então àqueles que estão do lado de cá da delinquência, apesar e por causa de suas —ou das nossas— diferenças, que são imensas. Li, dia desses, um juízo torto, oriundo de quem está sinceramente interessado em que surja uma terceira via.


Confesso, diga-se, que minha utopia de curto prazo é ver Bolsonaro fora da disputa do segundo turno —ainda que eu não aconselhe ninguém a apostar a sua grana nisso. Assim, viva a terceira via, mas não escoltada pelo mau pensamento! E também não a qualquer preço.

Segundo aquele juízo torto, o maior mal que Bolsonaro fez ao Brasil foi ressuscitar um Lula elegível e hoje favorito para a disputa presidencial de 2022. Dizer o quê? Isso não está apenas historicamente errado, uma vez que despreza os fatos. Há também aí deformações morais e éticas, que precisam ser apontadas.

Mais: além de essa consideração não contribuir em nada para tornar viável um terceiro nome na disputa, traz um prejuízo adicional: normaliza uma eventual adesão a Bolsonaro no segundo turno de forças hoje a ele refratárias porque, então, o petista seria um mal oposto, mas, de algum modo, proporcional à aberração que aí está.

Deixo virtudes e defeitos de Lula para o exercício político de petistas e antipetistas. Debatam à vontade. Atribuo-me a tarefa de lembrar que o ex-presidente não ressuscitou porque nunca morreu.

Quando preso, liderava as pesquisas de opinião para a eleição de 2018. Foi condenado sem provas —isso, sustentamos eu e qualquer pessoa que tenha realmente lido a sentença— por um juiz que a mais alta corte do país considerou incompetente e suspeito.

Mantido na cadeia à revelia do que dispõe o inciso LVII do artigo 5º da Constituição,indicou um candidato, Fernando Haddad, que esteve muito longe da humilhação eleitoral. Chegou a figurar na frente ou em empate técnico com Bolsonaro em algumas pesquisas. Os fatos, não o Reinaldo Azevedo, desautorizam a tese da ressurreição.

O governo Bolsonaro não trouxe ninguém à vida. As políticas públicas e as pregações delinquentes na área de saúde mataram milhares de pessoas. Ou nos damos conta da enormidade que é estarmos na rota dos 600 mil mortos por Covid-19 ou, então, admitamos que somos também nós os degradados. Ou bem consideramos inaceitável a sua pregação golpista, ou nos tornemos servis às suas tentações autocráticas. Eis aí a combinação de dois “males maiores”.

“Ah, Reinaldo, não posso medir a eficiência de um governo só pelo número de mortos que ele produz ou por seu apreço à democracia”. Então eu nada tenho a lhe dizer. Perdeu seu tempo. Nem chegue ao fim do texto. Não quero ficar a seu lado na praia. Não trocaremos impressões dessa vida besta nem falaremos sobre ser sequestrado por serafins nos botecos da vida —cito Drummond. Não quero papo com você. “E quem disse que eu quero, articulista?” Não brigaremos por isso.

“Que intolerância! Tá vendo?” Sou intolerante com quem comete 33 crimes de responsabilidade em dois anos e meio de mandato. E tira máscara do rosto de criancinhas. Temos de nos perguntar qual é o nosso limite. Que barbaridade da ora meus colegas, repórteres diligentes, informarão na mesma edição
em que sai esta coluna?

Ah, sim: Bolsonaro comungou nesta quinta. O que tem com o “Corpo de Cristo” quem faz da ameaça e da administração da morte o seu modo de fazer política? Qual é o nosso limite?

Suspeitos de corrupção agora têm patente

O número de militares envolvidos neste episódio da corrupção na compra de vacinas chama atenção. São coronéis e tenentes- coronéis envolvidos nesta negociação suspeita. Militares levados por Pazuello para supostamente moralizar o Ministério da Saúde.

Elcio Franco, coronel e segundo no comando do Ministério da Saúde na época de Pazuello, foi citado por Luiz Paulo Dominguetti , que é cabo da PM, em seu depoimento à CPI. O tenente-coronel Marcelo Blanco, que também era do departamento de logística e participou do jantar em que se tratou da propina. Com outro coronel, ele era do Ministério, foi exonerado e abriu uma empresa de representação de medicamentos recentemente. Os fatos mostram que o coronel Blanco permanece com poderes no Ministério. O seu sócio, também coronel, deve ser o quarto elemento presente naquela mesa.

Mudaram os personagens: agora eles têm patente. E isso aumenta a mancha nas Forças Armadas, e nas corporações militares que a adesão ao Governo Bolsonaro está produzindo.

O mais importante no depoimento do cabo Dominguetti foi a confirmação da propina pedida pelo ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias. Isso confirma o depoimento do servidor Luis Ricardo Miranda, que apontou Dias como um dos supostos autores da pressão atípica que sofreu para assinar o contrato de vacina Covaxin.

A operação de sexta-feira foi claramente para tentar tirar a acusação do Palácio do Planalto, desmoralizando o deputado Luís Miranda com uma gravação. Mas não teve sucesso.

A tentativa de fazer de Domingueti um cavalo de tróia não deu certo e a bomba continua na sala do presidente. Isto porque há muita ligação com Dias, principal investigado da corrupção. Ele foi indicado pelo presidente para cargo na Anvisa e impediram que ele fosse exonerado.

Mesmo assim, em sua live de quinta-feira, Bolsonaro acusou Luís Miranda falando do áudio. O presidente só não mostrou o recuo do PM, dizendo que foi induzido ao erro.

Se eles quisessem fazer algo sério, quando aparecesse um intermediário para vender Astrazeneca, teriam que chamar a Fiocruz para participar desta reunião. A Fiocruz é a fabricante no Brasil da vacina e, em fevereiro, estava com dificuldade de ter insumos, mas já tinha um acordo, inclusive de transferência de tecnologia. Essa história é muito estranha e é importante que a CPI continue investigando e esclareça.

A CPI, contudo, não pode abandonar as outras trilhas de investigação. Ontem circulou um vídeo de Ricardo Barros admitindo com todas as letras que o presidente apostava na tese da imunidade de rebanho. Esta estratégia de como tratar a política pública de saúde é criminosa e levou a muitas mortes a mais. A comissão tem que apurar a corrupção e deixar claro que o presidente da república optou por uma estratégia como gestor e governante que levou ao aumento das mortes no Brasil.

Na lixeira, só podridão


De todos os lixos conhecidos, o da História é o que mais fede
Joel Silveira, "Guerrilha noturna"

A máquina do extremismo

O bolsonarismo montou uma máquina para disseminar o discurso de ódio, atacar as instituições e pregar um golpe contra a democracia. A engrenagem foi exposta em relatório da Polícia Federal. Ontem o Supremo abriu um novo inquérito para investigar os extremistas.

Na decisão, o ministro Alexandre de Moraes descreve a existência de uma “verdadeira organização criminosa” destinada a implodir o estado de direito. Ele afirma que o objetivo da tropa é a “imposição de uma ditadura”, eliminando “qualquer possibilidade de controle ou fiscalização” do poder presidencial.

As investigações começaram em abril de 2020, quando Jair Bolsonaro participou de um comício em frente ao Quartel-General do Exército. Os manifestantes tentaram incitar os militares a fechar o Congresso e decretar um novo AI-5.

“Nós não queremos negociar nada”, bradou o capitão, na caçamba de uma caminhonete. “Acabou a época da patifaria. Agora é o povo no poder”, arrematou, diante de uma plateia que o chamava de “Mito” e urrava contra a democracia.


O presidente não é investigado, mas seus filhos Flávio, Carlos e Eduardo são citados no relatório da PF. O inquérito aberto no ano passado também mira deputados bolsonaristas e assessores do governo. Parte deles integra o “gabinete do ódio” instalado no terceiro andar do Planalto.

A polícia ainda identificou empresários que financiam a extrema direita desde a campanha de Bolsonaro. Com a vitória do capitão, o grupo ganhou acesso aos cofres públicos. A Secom passou a liberar verbas para portais que divulgam notícias falsas e pregam ideias golpistas.

As investigações mostram como o bolsonarismo se infiltrou nas instituições para sabotá-las. Deputados eleitos pelo voto conspiram abertamente pelo fechamento do Congresso. Uma das líderes da tropa, a deputada Bia Kicis, está no comando da principal comissão da Câmara.

O aparelhamento também chegou aos órgãos de investigação. Para proteger o governo, o procurador Augusto Aras menosprezou o relatório da PF e pediu o arquivamento do caso. Moraes precisou abrir um novo inquérito para evitar que as provas fossem parar no lixo.
Bernardo Mello Franco

O fio da meada

A CPI da Covid-19 puxou o fio de uma meada cujo trajeto pode levar a um esquema de corrupção na contratação de fornecedores que nada fica a dever ao escândalo da Petrobras desvendado pela Operação Lava-Jato. Com a agravante de que, desta vez, a mercadoria posta no balcão de negócios foi (e é) a vida de milhares de brasileiros.

A coisa toda talvez não resulte na abertura de processo de impeachment de Jair Bolsonaro, mas já o enredou numa trama da qual não tem sido capaz de se desvencilhar. E, a julgar pelas tentativas mal-ajambradas de explicar as anomalias no contrato de compra da vacina Covaxin e a entrada em cena do fator propina, o presidente dificilmente conseguirá sair ileso dessa confusão que está apenas começando. De um impeachment poderia sair inocentado, mas da opinião pública não escapa.


Surgem a todo momento novas notícias de ilícitos relacionados a vacinas, a testes para detecção do vírus e outros produtos associados à crise sanitária. São problemas que ligam a conduta do presidente na pandemia a suspeitas de corrupção e o põem numa situação que vai muito além de ações e omissões negacionistas pautadas por ideologia ou distorção de caráter.

Se os exercícios da negação e da boçalidade já provocaram revolta e aumento da avaliação negativa do presidente por terem estimulado a contaminação e contribuído para o número de mortes que poderiam ter sido evitadas, a coisa tende a ficar muito mais grave quando se entra no terreno da troca de vidas por dinheiro.

A ocorrência de crimes de prevaricação, de corrupção e/ou tráfico de influência com participação direta de Bolsonaro está sob investigação e ainda não se estabelece como fato incontestável. Se o chefe da nação agiu em benefício próprio ou com intuito de proteger alguém que tenha oferecido ou recebido promessa de vantagem indevida é o ponto a ser esclarecido e que o Planalto procura contornar ao tentar circunscrever o caso ao campo dos erros meramente formais.

Depois de dez dias de puro atordoamento, o governo entrou no modo redução de danos ao anunciar o reexame do contrato da Covaxin, coisa que o susto o impediu de fazer no primeiro momento. Só havia uma maneira de desmontar a denúncia que os irmãos Luís e Ricardo Miranda levaram ao presidente em 20 de março último: a apresentação de uma imediata, concisa e muito bem contada história. Ocorreu o contrário com a série de lorotas desmentidas, uma a uma, pelos fatos.

Da acusação de fraude documental lançada sobre os denunciantes às versões de que dois auxiliares demissionários — o ministro Eduardo Pazuello e o secretário-executivo da Saúde, Elcio Franco — haviam sido encarregados de investigar e nada encontraram de errado, o governo só fez se enrolar.

O presidente ainda tentou recorrer ao velho truque de dizer que não sabia de nada, mas não colou. Diferentemente do que aconteceu com o então presidente em 2005, que sob a mesma alegação conseguiu ficar de fora da denúncia do mensalão apresentada pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro não pôde contar com o benefício da dúvida. Um deputado de sua base de apoio apontou dia, hora e local em que levou a ele a denúncia e ainda acenou com a possibilidade de apresentar provas caso fosse desmentido.

Ante a hipótese de existir uma gravação, Jair Bolsonaro preferiu não pagar para ver se era blefe e retraiu-se. Diante da notícia-crime por prevaricação apresentada ao Supremo por três senadores e de pronto encaminhada pela ministra Rosa Weber para manifestação da PGR, foi ordenada a suspensão do contrato que originou a puxada do primeiro fio, “para análises mais profundas”. Isso três meses depois do aviso de que havia gato naquela tuba.

Não foi acionada a Polícia Federal, conforme prometido inicialmente aos denunciantes nem se negou que por ocasião da visita deles ao Palácio da Alvorada o presidente apontara o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, como contumaz autor de “rolos”. O contrato da Covaxin acabará por ser cancelado e o líder, devagar, afastado à francesa, provavelmente por iniciativa própria em encenado gesto de desprendimento.

Mas, ainda que não ocorra o impeachment — o que nos bastidores o mundo político todo rejeita —, o presidente Jair Bolsonaro continuará na vitrine na desconfortável e eleitoralmente periclitante condição de vidraça.

As maiores águias do mundo estão morrendo de fome por causa do desmatamento na Amazônia

As maiores águias do mundo estão em perigo. O desmatamento na Amazônia brasileira fez com que as harpias [ave mais conhecida no Brasil pelo nome de gavião-real], que podem pesar mais de sete quilos e medir até um metro de comprimento e dois de envergadura (distância entre as extremidades das asas), não tenham presas suficientes para manterem-se saudáveis e para alimentar seus filhotes, segundo revelou uma nova pesquisa publicada na quarta-feira na Nature.


Everton Miranda, professor da Escola de Ciências da Vida da Universidade de KwaZulu-Natal, na África do Sul, e primeiro autor do trabalho, conta que quando o desmatamento do habitat destas aves ultrapassa 50%, os filhotes começam a morrer de fome. “Durante o estudo, vimos filhotes de harpia que só recebiam comida a cada 15 dias durante meses antes de morrer”, diz Miranda.

A alimentação da harpia, o principal predador aéreo da Amazônia, se baseia exclusivamente em mamíferos que vivem nas copas das árvores, especialmente preguiças, macacos-prego marrons e macacos-lanudos cinzas. “Com o corte de árvores e a queima das matas tropicais da região de Mato Grosso, estas presas se vão e as harpias não encontram o que comer nem como alimentar os filhotes”, diz o pesquisador.

Os biólogos de todo o mundo sabem com certeza que os predadores ápice, que estão no topo da cadeia alimentar e não têm outros predadores, estão seriamente ameaçados e que suas extinções locais se devem frequentemente a falhas na aquisição de presas. No entanto, até agora nenhum estudo tinha examinado o impacto da perda de floresta na ecologia alimentar destas grandes aves.Miranda e seus colegas monitoraram com armadilhas fotográficas 16 ninhos de harpia ativos no meio de paisagens da Amazônia brasileira que sofreram de 0 a 85% de perda florestal.

Descobriram que apesar da redução de possíveis presas, estas águias não puderam mudar de dieta e continuaram buscando, sem sucesso, os mesmos mamíferos que antes viviam nas copas das árvores.

Só em 2020 a Amazônia brasileira perdeu 11.088 quilômetros quadrados de árvores, de acordo com o balanço anual divulgado pelas autoridades, um aumento de 9,5% em relação ao ano anterior. Carlos Peres, professor da Faculdade de Ciências Ambientais da Universidade de East Anglia, na Inglaterra, e coautor do trabalho, explica que as conclusões do estudo demonstram que estas águias necessitam de um habitat florestal de alta qualidade para se reproduzir. “A área total da floresta ao redor dos ninhos ativos deve ser suficientemente grande”, explica Peres.

O estudo também mostrou que as presas alternativas que existem em áreas desmatadas não são adequadas para alimentação dos filhotes. “As áreas com mais de 50% de desmatamento não são aptas para que as harpias criem seus filhotes com êxito”, se lê nas conclusões do estudo. Os autores estimam que desde 1985 o desmatamento possa ter causado uma diminuição substancial no número de casais reprodutores, aproximadamente de 3.256.

Peres diz que as harpias estão muito ameaçadas e são as menos conhecidas de todas as grandes águias existentes na Terra. “O desmatamento em seu bastião da Amazônia está destruindo grande parte do habitat dentro de sua área de distribuição geográfica. Como biólogos da conservação, estes se tornam temas urgentes para investigar”, diz o pesquisador brasileiro. Além do desmatamento, Peres afirma que outra ameaça a estas aves é a caça indiscriminada. “Trabalhei durante muito tempo no norte do Mato Grosso e sei que os agricultores mataram muitas harpias ao longo dos anos.”

Os dois cientistas, que há décadas estudam os efeitos do desmatamento sobre a biodiversidade da Amazônia, concordam que os primatas e as preguiças que ainda vivem nas florestas são muito poucos para atender às demandas alimentares da harpia: “Cada adulto consome 800 gramas de carne por dia”, diz Miranda. E acrescenta: “As taxas de alimentação diminuíram substancialmente com a perda de florestas e vimos três indivíduos mal alimentados morrer de fome”.

Miranda e Peres explicam que o desmatamento no estado de Mato Grosso chega a 35% dos 428.800 km2 de floresta que existiam antes da chegada do homem. “É um percentual altíssimo se considerarmos que só foi colonizado há 45 anos”, diz Miranda. Em apenas cinco décadas, o habitat dessa espécie foi reduzido em mais de um terço.

Outra descoberta do trabalho mostrou que nas partes da floresta onde o desmatamento ultrapassou 70% as águias nem sequer podiam fazer ninhos. Os autores concluem que, como as harpias reprodutoras dependem de alimentos específicos e raramente caçam em áreas desmatadas, sua sobrevivência depende da conservação da floresta.

Nesse sentido, os pesquisadores propõem uma ação decisiva de conservação florestal. É fundamental interromper o corte de árvores e assim tentar preservar a conectividade da floresta que ainda existe, levar as águias jovens para habitats com mais árvores e fornecer suplementos alimentares aos filhotes recém-nascidos. “As estratégias imediatas são o fornecimento controlado e responsável de alimentos complementares aos filhotes em ninhos em lugares com mais de 50% de perda de floresta”, diz Miranda, e conclui: “É urgente e necessário que o Governo reprima adequadamente o desmatamento ilegal”.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Mito no lixo


Não tem que ter mito, gente em missão divina. Tem que ter uma pessoa que seja menor do que o projeto e que cumpra o projeto
Santos Cruz, general ex-ministro da Secretaria de Governo

Suspeitos de corrupção agora têm patente

O número de militares envolvidos neste episódio da corrupção na compra de vacinas chama atenção. São coronéis e tenentes- coronéis envolvidos nesta negociação suspeita. Militares levados por Pazuello para supostamente moralizar o Ministério da Saúde.

Elcio Franco, coronel e segundo no comando do Ministério da Saúde na época de Pazuello, foi citado por Luiz Paulo Dominguetti , que é cabo da PM, em seu depoimento à CPI. O tenente-coronel Marcelo Blanco, que também era do departamento de logística e participou do jantar em que se tratou da propina. Com outro coronel, ele era do Ministério, foi exonerado e abriu uma empresa de representação de medicamentos recentemente. Os fatos mostram que o coronel Blanco permanece com poderes no Ministério. O seu sócio, também coronel, deve ser o quarto elemento presente naquela mesa.


Mudaram os personagens: agora eles têm patente. E isso aumenta a mancha nas Forças Armadas, e nas corporações militares que a adesão ao Governo Bolsonaro está produzindo.

O mais importante no depoimento do cabo Dominguetti foi a confirmação da propina pedida pelo ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias. Isso confirma o depoimento do servidor Luis Ricardo Miranda, que apontou Dias como um dos supostos autores da pressão atípica que sofreu para assinar o contrato de vacina Covaxin.

A operação de ontem foi claramente para tentar tirar a acusação do Palácio do Planalto, desmoralizando o deputado Luís Miranda com uma gravação. Mas não teve sucesso.

A tentativa de fazer de Domingueti um cavalo de tróia não deu certo e a bomba continua na sala do presidente. Isto porque há muita ligação com Dias, principal investigado da corrupção. Ele foi indicado pelo presidente para cargo na Anvisa e impediram que ele fosse exonerado.

Mesmo assim, em sua live de quinta-feira, Bolsonaro acusou Luís Miranda falando do áudio. O presidente só não mostrou o recuo do PM, dizendo que foi induzido ao erro.

Se eles quisessem fazer algo sério, quando aparecesse um intermediário para vender Astrazeneca, teriam que chamar a Fiocruz para participar desta reunião. A Fiocruz é a fabricante no Brasil da vacina e, em fevereiro, estava com dificuldade de ter insumos, mas já tinha um acordo, inclusive de transferência de tecnologia. Essa história é muito estranha e é importante que a CPI continue investigando e esclareça.

A CPI, contudo, não pode abandonar as outras trilhas de investigação. Ontem circulou um vídeo de Ricardo Barros admitindo com todas as letras que o presidente apostava na tese da imunidade de rebanho. Esta estratégia de como tratar a política pública de saúde é criminosa e levou a muitas mortes a mais. A comissão tem que apurar a corrupção e deixar claro que o presidente da república optou por uma estratégia como gestor e governante que levou ao aumento das mortes no Brasil.

Brasil em cash

 


Tirar máscara de criança (ou a tirania do egoísmo)

Na quinta-feira passada, numa aglomeração eleitoreira que promoveu no Rio Grande do Norte, o presidente da República segurou um garotinho no colo e, num gesto obsceno, abaixou-lhe a máscara. A cena estarrece pelo que tem de imoral e abusivo. A mão do poder, com a displicência de um aceno, expõe um inocente ao contágio. Nota-se um quê de pouco-caso. O chefe de Estado parece à vontade para desnudar o rosto infantil, sem sinal de respeito, sem a menor cerimônia; simplesmente puxa para baixo peça que cobre a boca e o nariz da criança.

O menino, que, vestindo uma camisa amarela, saiu por aí para acabar num abraço genocida do governante, representa o Brasil inteiro. O vídeo é o atestado definitivo da miséria ética em que a Nação se deixou encarcerar. Aquilo somos nós. O País foi sujeitado pelo egoísmo autoritário – o egoísmo de quem manda. O único valor moral que esse autoritarismo reconhece é uma noção bastante primária de “liberdade”: a liberdade dos outros não existe, só o que importa é a “minha” liberdade. Os outros serão livres apenas para concordar comigo e, caso se atrevam a discordar, serão declarados “inimigos”: maus brasileiros, impatriotas, mesmo que não tenham mais do que 6 ou 7 anos de idade.


Essa fórmula de moralidade é bruta, estulta, opaca, rasa e inculta. Trata-se de um código de conduta prepotente e xucro, segundo o qual “eu sou livre para não usar máscara e qualquer pessoa que use máscara na minha frente está atentando contra a minha liberdade”. Eis por que o presidente da República recebe como um desaforo a presença de qualquer pessoa que vista uma máscara na frente dele, mesmo quando essa pessoa é uma criança frágil.

Estamos, é claro, falando da liberdade dos que não admitem a liberdade do outro – ou da liberdade daqueles que se armam para acabar com a liberdade de todos. Estamos falando da extrema direita antidemocrática, essa que no Brasil responde pelo nome de bolsonarismo, que sequestrou a palavra liberdade dos dicionários. Na cabeça desse pessoal, só eles têm o direito de falar em liberdade, pois só eles defendem a liberdade. “Eu sou livre para não usar máscara”, grita um. “Eu sou livre para não tomar a vacina”, secunda o bajulador. Não lhes ocorre que a questão possa ter outras dimensões. Eles não dispõem de aparato cognitivo para tanto. Basta ver e ouvir o presidente da República, que não alcança nenhuma outra dimensão além da encerrada no individualismo mais torpe.

Não ocorre a nenhum deles que a liberdade do brucutu que repudia a máscara não pode valer mais que o direito do outro de não ser contaminado. Eles não enxergam o sentido do respeito pela outra pessoa. Não conseguem compreender. Não percebem que, se quisermos viver em sociedade, a liberdade de um indivíduo – digamos, a liberdade de ser estúpido – não pode ser posta acima da liberdade que os outros têm de se proteger contra a pandemia. Não entendem que a liberdade individual não inclui o direito de oferecer água envenenada para os semelhantes, assim como não inclui o direito de sair por aí aspergindo coronavírus sobre o rosto de crianças indefesas.

No fundo, eles não divisam o sentido da palavra liberdade além da fumaça da pólvora. Não obstante, são eles que nos governam, arrancando de nós o pouco que temos de proteção. Que façam isso em nome da liberdade é apenas mais um capítulo da nossa tragédia imerecida.

Segundo esse jeito de pensar – que, melhor dizendo, é um jeito de não pensar, pois, se pensasse, não teria o jeito hostil que tem –, a liberdade de um começa onde termina a liberdade do outro, e isso é tudo. Segundo esse credo (cruz, credo), só é livre quem agride e confronta a liberdade do outro – e estamos conversados. Nisso consiste o primarismo atroz desse tal jeito de (não) pensar, segundo o qual o exercício da liberdade é uma guerra sangrenta de hordas contra hordas.

No entanto, se quisermos ter democracia, precisamos pensar além disso, ou não seremos capazes de compreender que a minha liberdade começa não onde a liberdade do outro termina, mas justamente onde a liberdade do outro também começa (salve, Cornelius Castoriadis). Eu só sou livre de verdade, livre além das minhas estreitezas individualistas, se o outro também for livre, na mesmíssima medida em que eu só sou saudável se este outro, ao meu lado, ou aquele outro, distante de mim, forem, eles também, saudáveis. Eu só sou livre, no fim das contas, se o mundo for livre junto comigo. A mísera dimensão individualista não dá conta da grandeza da liberdade. Aliás, o individualismo não dá conta nem mesmo de entender que, contra essa pandemia, não existe imunização individual; a imunização individual só tem valor porque realiza a imunização coletiva, que é o único patamar sanitário realmente seguro.

Se quisermos ter democracia, precisamos saber que uma sociedade não é um rebanho de engorda num pasto aberto à custa de desmatamento. Só sou livre se me libertar da ignorância. Eu só sou livre se souber que, como autoridade pública, não tenho o direito de remover uma só peça dos trajes de uma criança.

Só imbecil nega a incompetência

Acredito que falhamos. Temos um grande número de pessoas que morreram, e isso é terrível. É algo que todos nós sofremos juntos. O povo sueco tem sofrido enormemente, em condições difíceis
Carl XVI Gustaf , rei da Suécia , que tem até agora 14.630 mortos por covid 19

Não fica um, meu irmão

Foi o general Augusto Heleno quem aplicou ao Centrão a trilha sonora celebrizada pelo Exporta Samba na convenção que escolheu Jair Bolsonaro candidato a presidente da República pelo PSL. “Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”, cantou o general, todo animadinho, ao microfone. A plateia veio abaixo. Eu estava lá para fazer uma reportagem e vi, mas não seria preciso ter testemunhado para citar a cena de memória. Está no YouTube para quem quiser conferir.

É uma lembrança do tempo em que os bolsonaristas se sentiam no direito de gritar “eu vim de graça” num centro de convenções lotado, promovendo a arauto da verdade e da ética um grupo de militares que louvava a ditadura e hostilizava a imprensa, as minorias e os adversários.

No meio do povo, muitos dos que entrevistei se diziam arrependidos de ter votado em Lula e Dilma, sentindo-se traídos pelos escândalos de corrupção dos governos petistas. Achavam, então, que votando em Bolsonaro acertariam a mão.

Esses arrependidos estavam entre os que mais aplaudiam Heleno quando ele disse: “O Centrão é a materialização da impunidade. O primeiro ato do presidente que for eleito carimbado de Centrão vai ser uma anistia ampla, geral e irrestrita”.

E eis que chegamos a 2021 no seguinte cenário: o maior líder do Centrão, Arthur Lira (PP-AL), é presidente da Câmara dos Deputados com o apoio empenhado de Bolsonaro, que liberou bilhões em emendas parlamentares para elegê-lo. Há poucos dias, Lira comandou na Câmara a votação de mudanças que restringem o alcance da Lei de Improbidade Administrativa ao ponto de ela ter sido apelidada de “lei da impunidade”.


Outro chefe desse conglomerado político-fisiológico, o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR) — que já apoiou Fernando Henrique, Lula, Dilma Rousseff, foi ministro de Michel Temer e agora é líder de Jair Bolsonaro — está enredado até o último fio de cabelo nas denúncias de cobrança e oferta de propina nas negociações para compra de vacina pelo governo.

Jair Bolsonaro foi avisado há três meses da pressão mais do que suspeita que os apadrinhados de Barros e os coronéis do Ministério da Saúde faziam sobre o servidor público Luis Ricardo Miranda. Quem estourou tudo não foi nenhum oposicionista, e sim o bolsonarista inveterado, irmão do servidor e também deputado Luis Miranda (DEM-DF).

E o presidente que combateria a corrupção? Mandou apurar o caso? Chamou Ricardo Barros à fala? Demitiu seus apadrinhados? Nada disso. Mesmo deixando claro que sabia que aquilo tudo era “rolo” de seu líder na Câmara, Bolsonaro o presenteou com um mimo: a nomeação da mulher, Cida Borghetti, para um cargo no conselho de Itaipu.

Mas não acabou aí. Nesta semana, vieram à tona novas denúncias. Nelas, fica ainda mais claro que o grupo de Barros na Saúde não era composto apenas de seus apadrinhados, como o diretor de logística Roberto Dias, mas também de vários militares, fardados e ex-fardados, como Eduardo Pazuello e Jair Bolsonaro.

Segundo um intermediário que ofereceu ao governo 400 milhões de doses de AstraZeneca contou à repórter Constança Rezende, da Folha de S.Paulo, no mesmo encontro em que Dias cobrou propina de US$ 1 por vacina estava um tenente-coronel chamado Marcelo Blanco, anotando números e fazendo contas.

Os Mirandas já haviam comprometido em seus relatos outro tenente-coronel, Alex Lial Marinho, também nomeado por Pazuello para o ministério. Elcio Franco, ex-secretário executivo, se apressou a negar que houvesse qualquer irregularidade e a jogar a sujeira para debaixo do tapete.

Quanto mais a CPI avança, mais fica claro que o Centrão formou um consórcio com os militares na Saúde, agindo como se não houvesse amanhã enquanto milhares de pessoas sucumbiam à Covid-19 em hospitais Brasil afora.

O general Heleno é hoje ministro no Palácio do Planalto. O que será que pensa disso tudo? No fim de maio, ele desdisse na Câmara dos Deputados tudo o que falara lá atrás sobre o Centrão: “Naquela época era uma situação. A evolução de opinião faz parte da vida do ser humano. Isso aí faz parte do show, do show político”.

No show político de Jair Bolsonaro, é normal aceitar cheque de acusado de rachadinha, acobertar ministro investigado por autorizar exportação de madeira ilegal, fechar os olhos para denúncias de corrupção em compra de vacinas, preocupar-se mais em perseguir quem aponta o malfeito do que quem o pratica.

No show político do governo Bolsonaro, a morte de quase 520 mil brasileiros é mero efeito colateral. No show político de Jair Bolsonaro, nenhuma trilha sonora cai tão bem quanto a do general Heleno de 2018.

Não fica um, meu irmão.

Ação contra Bolsonaro avança em Haia, e indígenas querem denunciá-lo por genocídio e por ecocídio

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) apresentará em julho uma denúncia contra o presidente Jair Bolsonaro por genocídio e ecocídio perante o Tribunal Penal Internacional (TPI). “A APIB reuniu e analisou todos os atos praticados por Bolsonaro contra os povos originários desde o início de seu Governo e consideramos que existem elementos concretos para deflagrar uma investigação por parte do TPI”, afirma ao EL PAÍS Luiz Eloy Terena, advogado e coordenador jurídico da APIB. Na última quarta-feira, 23 de junho, uma comissão internacional de 12 juristas impulsionados pela sociedade civil tipificou o ecocídio como um crime contra o conjunto da humanidade, mas sobretudo contra o planeta e pretende incorporá-lo ao TPI.


Terena argumenta que Bolsonaro descumpre a Constituição de 1988, que garante a proteção dessas comunidades e o direito aos seus territórios. “Ele não só inviabiliza a demarcação de nossas terras como também a proteção das comunidades com áreas já garantidas por lei, ao incentivar a presença de grileiros, madeireiros e garimpeiros ilegais.” O especialista acrescenta que o direito ao território e a política de proteção ambiental são aspectos fundamentais para formalizar a denúncia por ecocídio, um crime no qual o Brasil se enquadra, segundo ele: “Não há como falar de proteção aos povos indígenas sem garantir o território. É isso que inviabiliza a sobrevivência física e cultural dos nossos povos. E não são apenas os indígenas os sujeitos de direito, mas os rios, os lagos, a fauna e a flora de nossos territórios e, na nossa cosmovisão, até os espíritos encantados que habitam esses espaços”, explica.

A denúncia da APIB se somará a outra feita em 2019 pelo Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos (CADHu) e pela Comissão Arns, formada por ex-ministros de vários governos e intelectuais brasileiros para atuar em defesa dos direitos humanos, que relataram à instituição estabelecida em Haia, nos Países Baixos, indícios de crimes contra a humanidade e incitação ao genocídio de povos indígenas praticados por Bolsonaro. Na ocasião, o avanço do desmatamento e os incêndios na Amazônia foram centrais para a elaboração do caso. Em dezembro de 2020, a Procuradoria do TPI informou que essa denúncia está formalmente sob avaliação preliminar de jurisdição, sendo a primeira vez que um caso desse tipo contra um presidente brasileiro avança no órgão e não é arquivada. “O cenário atual já é histórico e inédito. Na hipótese de a investigação ser aberta, seria uma revolução, porque não estamos falando de responsabilidade do Estado, mas da responsabilização de indivíduos, que podem sofrer condenação pela prática desses crimes”, comenta Eloísa Machado, advogada do CADHu.

O TPI permite que denúncias já apresentadas sejam atualizadas ao longo do processo, e é isso que o CADHu e a Comissão Arns pretendem fazer, anexando fatos referentes à “negligência na gestão da pandemia de covid-19″, doença que ameaça até os indígenas isolados, e os recentes ataques de garimpeiros a comunidades dos povos Yanomami e Munduruku, que, segundo ambas entidades, são apoiados pelo Governo Federal. “É juridicamente confortável falar em crimes contra a humanidade e genocídio da comunidade indígena quando temos esse cenário”, ressalta Eloísa Machado. De acordo com a Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde, 728 indígenas faleceram por covid-19, sem considerar os casos e óbitos entre os indígenas que vivem em zonas urbanas. Já a APIB registra 1.126 óbitos entre os povos originários.

Ainda que o processo continue avançando e que Bolsonaro tenha um julgamento e venha a ser condenado por crimes previstos no Estatuto de Roma (que institui a Corte Internacional de Justiça), isso dificilmente seria concluído durante o exercício de seu mandato na Presidência: pelo histórico do TPI, a responsabilização de chefes ou ex-chefes de Estado nessa jurisdição costuma demorar cerca de uma década. Prisão por até 30 anos, o confisco de bens e reparações, como pedidos de desculpa e indenizações estão entre as possíveis penas na hipótese de condenação.

Em julho do ano passado, uma coalizão de mais de 60 sindicatos e movimentos sociais ―a maioria deles de profissionais de saúde, sob a liderança da Rede Sindical UniSaúde― levou outra denúncia ao Tribunal de Haia, pedindo a condenação do presidente brasileiro por genocídio.

Para além do TPI, as denúncias contra Jair Bolsonaro ganham, cada vez mais, a atenção da comunidade internacional. Alice Wairimu Nderitu, assessora do secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas) para a prevenção de genocídio, citou o Brasil pela primeira vez ao falar do assunto na segunda-feira, em uma reunião do Conselho de Direitos Humanos da organização, em Genebra. “Na região das Américas, estou particularmente preocupada com a situação dos povos indígenas. No Brasil, Equador e outros países, peço aos governos que protejam as comunidades em risco e garantam a responsabilização pelos crimes cometidos”, disse Nderitu. Essa foi a primeira vez que o país foi citado na ONU atrelando-o a genocídio.

“Nunca vivemos uma situação como esta, de chegar ao triste ponto de precisar denunciar um presidente brasileiro à Justiça internacional. Sabemos que o processo no TPI é longo, mas nosso objetivo justamente era trazer o olhar da comunidade internacional para o que está acontecendo aqui”, comenta Juliana Vieira dos Santos, advogada da Comissão Arns. Ela acredita que o Governo Bolsonaro sistematizou uma “política anti-indigenista” no país.

Denúncias como as apresentadas contra Bolsonaro podem ser levadas à Justiça internacional quando se considera que as autoridades jurídicas do próprio país não têm capacidade de apurar ou julgar tais irregularidades. Para o TPI, as organizações denunciantes alegaram que “não há sinalização de responsabilização por parte dos tribunais nacionais”. A advogada Juliana Vieira dos Santos, no entanto, é mais enfática: “Acionar a jurisdição internacional porque as autoridades competentes no país não quiseram fazer seu papel. O próprio Supremo [Tribunal Federal] não tem conseguido proteger as populações indígenas, porque se tem toda a máquina do Executivo se movimentando contra elas.”

Santos lembra que qualquer denúncia contra um presidente da República deve ser encaminhada pela Procuradoria Geral da República —atualmente nas mãos de Augusto Aras, alinhado com Bolsonaro. “Há essa armadilha do presidencialismo de coalizão que contamina outras instituições. É por isso que o Congresso não consegue abrir um processo de impeachment, por exemplo”, continua a advogada.

É por isso que ela e outros denunciantes consideram que o TPI tem um desafio à frente caso decida levar adiante o caso de genocídio contra Bolsonaro: terá que voltar seu olhar para um país de renda média, com uma Constituição em vigor e sem um conflito deflagrado, quando está acostumado a investigar situações em países pobres e em guerra ou sob regimes ditatoriais. “O TPI é acusado de ser seletivo e de não investigar países grandes ou poderosos, mas essa é uma oportunidade de mostrar que não é assim”, diz Eloísa Machado. Como precedente, ela cita a decisão em 2020 de investigar a atuação de tropas dos Estados Unidos no Afeganistão. “No caso do Brasil, o ataque sistemático aos povos indígenas tem chamado a atenção”, conclui ela, esperançosa.

O governo Bolsonaro matou nosso porteiro

Adriano, 49 anos, contava os dias para se vacinar. No dia tão aguardado, semana passada, acordou mal e tomou injeção contra dor. O teste deu positivo para Covid. Foi internado e estava consciente, com máscara de oxigênio. Intubado na segunda, morreu na terça, com trombose pulmonar. O coração parou e os médicos não conseguiram reanimar o chefe dos porteiros que vivia rindo e morava com a família no prédio do Leblon desde a virada do século.

Se Adriano fosse inglês, francês, português, italiano, espanhol, alemão, americano, provavelmente estaria vivo e não teria deixado uma família repentinamente órfã, sem teto e sem chão. Em todos os países que investiram a tempo na compra de vacinas de diversos fabricantes, os cidadãos de 49 anos já foram há muito imunizados com as duas doses ou com a dose única da Janssen. O Brasil não é pobre. Tem o segundo Congresso mais caro do mundo. 

Mas Bolsonaro sempre foi contra vacinas. Contra máscaras. Contra a vida. Faz propaganda de remédios ineficazes. Propaga o vírus. Desinforma. Fez uma bagunça colossal no Ministério da Saúde. Menospreza o luto. Mesmo beneficiado por observar antes a catástrofe no mundo, o Brasil de Bolsonaro não se preparou para evitar a carnificina. Ao contrário.

A omissão fez o total de mortos explodir em 2021. É aterrador, leia e releia: em 2020, morreram 195 mil brasileiros de Covid. Nos primeiros seis meses deste ano, até ontem, morreram mais 323 mil. Esse número deveria ser suficiente para aprovar o impeachment do presidente. A cada um minuto e meio, dois brasileiros ainda morrem de Covid.

O governo Bolsonaro matou nosso porteiro-chefe. Adriano perdeu a corrida contra o tempo. No dia em que se vacinaria, começou a última semana de sua vida. Paraibano, casado com Rosa, pai de Yasmin, 25 anos, e de Pedro, 16, tricolor doente, José Adriano da Silva sabia mais servir do que chefiar. Era prestativo demais da conta. 

>Era de Araçagi, uma cidade no Agreste com 18 mil habitantes. O nome, tupi, vem do Rio dos Araçás, fruto típico da região. A mãe de Adriano morreu no ano passado de Covid. O pai, vivo, está inconsolável, não escondia que Adriano era o preferido dos oito filhos, o que mais lhe dava carinho, o que mais o ajudou na vida, enviando dinheiro todo mês.

A história de Adriano é bem brasileira e era bem-sucedida. Veio para o Rio tentar a vida, foi zelador, faxineiro e subiu a chefe dos porteiros. Aqui conheceu a piauiense Rosa, trazida de Teresina por uma família para trabalhar como babá. O casal tinha pouco mais de 20 anos quando nasceu Yasmin. Moravam no playground. Adriano gostava do Fluminense, de churrasco, cerveja no botequim com os amigos, televisão, missa. Parecia feliz. Tinha diabetes, mas nem sabia. 

Rosa e os filhos estão com Covid branda. Ela sabe que não pode chorar muito, tem pressão alta, precisa ser forte. O filho adolescente diz que ela não pode morrer, porque só sobrou a mãe. Rosa quer voltar para a Paraíba porque “aqui em casa tem lembrança forte demais do Adriano”. Ele não volta mais, repete Rosa. O prédio está de luto.

Na terra da família Bolsonaro, do general Pazuello, da médica Nise Yamaguchi, do empresário Wizard, do deputado Ricardo Barros, do diretor Roberto Dias e de tantos outros que colocaram seus interesses à frente da vida, Adriano não é ninguém. Apenas mais um morto numa pandemia que poderia ser muito menos cruel. Não fossem cruéis e inescrupulosos nossos governantes e os congressistas que os apoiam. 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Pensamento do Dia

 


Pedido de impeachment de Bolsonaro contra Dilma cai como luva para si mesmo

Enfeitiçado pelo próprio feitiço, Bolsonaro descobre da pior maneira que a Terra é plana, mas dá voltas. Em pedido de impeachment que protocolou na Câmara em março de 2015 contra Dilma, o capitão disparou balas perdidas que acertam a sua própria Presidência. Falou de despreparo, desvios éticos, más companhias e abandono da sociedade.

Decorridos seis anos, há na peça que Bolsonaro esgrimiu contra Dilma parágrafos que poderiam ser reproduzidos num pedido de impeachment contra ele próprio sem mexer numa vírgula. Bastaria fazer um ajuste de gênero, trocando "denunciada" por denunciado. Num dos parágrafos, a transposição é tão perfeita que Bolsonaro poderia dedicar a si mesmo numa leitura em frente ao espelho.

Diz o seguinte: "Mais do que despreparo, mostra-se evidente a omissão da denunciada [Dilma] ao deixar de adotar medidas preventivas e repressivas para combater o câncer da corrupção em seu governo, mantendo, perto de si e em funções de alta relevância da administração federal, pessoas com fortes indícios de comprometimento ético e desvios de conduta. Deixou de agir em defesa da sociedade da qual é responsável máxima na administração pública."


Em julho de 2015, o deputado Eduardo Cunha, então mandachuva da Câmara, desengavetou 11 pedidos de impeachment protocolados contra Dilma. Um deles era o de Bolsonaro. Cunha deu dez dias ao capitão para promover ajustes no seu documento, "adequando-o aos requisitos da Lei número 1.079/1950 e do regimento interno da Câmara dos Deputados." A lei mencionada por Cunha define os crimes de responsabilidade.

Suprema ironia: quando pegava em lanças contra Dilma, Bolsonaro era um deputado do baixo clero filiado ao PP, partido do centrão que ajudou Eduardo Cunha a puxar o tapete da então inquilina do Planalto. Agora, Bolsonaro é um presidente sem partido que se casou com o centrão e acorrentou o seu futuro aos humores de Arthur Lira, um cacique do PP que o Planalto ajudou a transformar numa caricatura de Cunha.

Escorada no centrão, a base partidária que dá suporte a Bolsonaro no Congresso é muito parecida com a de Dilma. Para ficar idêntica, faltam apenas a traição e o impeachment.

Bolsonaro espera um milagre

Encurralado por todos os lados, o presidente Jair Bolsonaro vive aquele momento de além de queda, coice. Sua aprovação vai ladeira abaixo, a imagem de conduzir um governo incorruptível foi trincada pelo escândalo da Covaxin, e a expectativa de poder escorrega entre os dedos. Para reverter este quadro e continuar a ser competitivo na eleição presidencial, aposta em uma combinação de alguns fatores: crescimento da economia, fim da pandemia e aumento expressivo da arrecadação para financiar um programa social com sua marca.

Teoricamente é possível tudo isso acontecer ao mesmo tempo e há elementos da realidade nestas expectativas. As projeções de crescimento da economia batem na casa de 5% neste ano, embora apontem uma expansão raquítica em 2022, quando disputará seu segundo mandato. Conta ainda a seu favor o cenário do mercado mundial, no qual as commodities vivem um novo “boom”.

Haverá, portanto, folga de caixa para ter um programa social para chamar de seu. Provavelmente não será como o aumento emergencial de 600 reais de 2020, mas algo mais substantivo do que o atual Bolsa Família. A Roda da Fortuna giraria ainda para o seu lado em virtude da vacinação em massa, que faria da pandemia coisa de passado.

De fato, há sinais animadores de que a vacina começa a fazer diferença. A chamada terceira onda está sendo bem menos agressiva do que a segunda, embora o patamar de mortos ainda seja alto. Provavelmente isso vem acontecendo porque já temos 34% dos brasileiros vacinados com a primeira dose.

Tudo isso geraria uma sensação de bem-estar capaz de levar Bolsonaro a repetir o milagre de Lula que, atingido pelo “mensalão”, conseguiu dar a volta por cima se reelegendo em 2006 graças ao “boom” das commodities responsável pelo bom desempenho da economia.


As realidades distintas desautorizam qualquer comparação entre as duas situações. No pior momento do governo Lula – julho de 2005 –, a aprovação do seu governo ainda era de 35% e a reprovação de 23%, bem distinto de Bolsonaro, com desaprovação beirando os 50%.

A questão é saber se a recuperação da economia reverterá o dantesco quadro social, com seus 15 milhões de desempregados, mais os subocupados e desalentados. A pandemia aumentou ainda mais a concentração de renda no Brasil. Antes dela o 1% do topo da pirâmide social detinha 44,2% da renda nacional. Em apenas um ano saltou para 49,6% da riqueza nacional em suas mãos.

As consequências estão expostas nos faróis dos aglomerados urbanos, no aumento da população de rua e nos novos contingentes de favelados. Quem era classe B virou classe C e quem era classe C desceu um degrau a mais. A fome, nas suas diversas gradações, passou a ser uma presença para mais de 60% das famílias brasileiras.

Os pobres foram duramente atingidos pela crise econômica e pela pandemia. Isso explica o sentimento detectado em pesquisas qualitativas de repulsa e ódio a Bolsonaro, por considerá-lo desumano. Reverter tal percepção será quase um milagre. Aqui, mais uma diferença substantiva entre o Lula de 2005 e o Bolsonaro de 2021. O aumento da desaprovação do primeiro se deu principalmente nas camadas mais ricas, já a de Bolsonaro ocorre nas camadas mais pobres, inclusive entre evangélicos.

Imaginar que, com o sucesso da vacinação, a pandemia não terá impacto eleitoral equivale a acreditar que um país entra em guerra, perde 500 mil vidas e mesmo assim um dos maiores responsáveis por tamanha tragédia não será punido nas urnas. Quando a campanha começar para valer Bolsonaro será bombardeado diuturnamente por fartos materiais, muitos fornecidos por ele mesmo.

O presidente enfrenta ainda o coro das ruas, cujas manifestações começam a extravasar as fronteiras da esquerda. O caldo está engrossando e tende a piorar mais com a atuação da CPI da Covid.

Não que a eleição esteja decidida, longe disso. Até mesmo em política, milagres acontecem.

Com a expectativa de poder fugindo de suas mãos, surge uma vasta avenida para uma terceira via. Movimentações como a de Gilberto Kassab em torno de Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, ou do MDB para lançar a candidatura de Simone Tebet, reforçam a ideia de que Bolsonaro pode ser um cavalo perdedor. Políticos do centro e empresários tomam consciência de que sua candidatura se tornou a via mais rápida para Lula voltar ao poder. Buscam caminhos para evitar tal situação e se livrar de um presidente que se elegeu beneficiado pela Fortuna, mas que não teve a “Virtú” na hora de governar.

O governo que sequestrou o país

Acabou. É uma questão de tempo e de processo. O governo Bolsonaro terminará pela soma imensa dos seus erros. Não foram erros de gestão, apenas. Foram crimes. E eles foram tantos, tantos que atravessam os códigos legais, a Lei 1079 do impeachment, a Constituição. Ele feriu o primeiro direito. O da vida. Quanto tempo Arthur Lira pode ignorar o superpedido de impeachment protocolado ontem? Ele tem o poder de fazer um pedido, mesmo substantivo e plural, ficar parado na gaveta, mas há forças demais se movendo na mesma direção. Um governo que quer US$ 1,00 de propina por dose de vacina está, na verdade, sequestrando o país e pedindo resgate.


Publiquei neste espaço, em 3 de maio de 2020, uma coluna com o título “Sem medo do impedimento”. Eram 7.051 mortes. Bolsonaro persistiu na mesma atitude e isso nos trouxe aos atuais 518 mil mortos. É completamente equivocada a ideia de que o Brasil “naturalizou” o impeachment e por isso ele deveria ser evitado. Esse argumento é de corar um estudante de Direito. Equivale a propor que um instrumento jurídico não seja usado porque já o foi no passado. É o mesmo que dizer que a lei não pode ser aplicada para não gastar.

Nunca foi tão justo quanto agora, diante do mar de mortos que está diante de nós, pedir o impeachment do presidente. Jair Bolsonaro tomou decisões que provocaram a morte de brasileiros. E ele também ameaça diariamente as instituições democráticas. A lista dos 23 tipos penais arrolados no superpedido de impeachment ontem apresentado por instituições da esquerda e da direita não deixa dúvidas. Há razões superlativas para que ele seja tirado do cargo que desonra diariamente.

A CPI está mostrando de forma exuberante os crimes do presidente nesta pandemia. São tantos que há pelo menos quatro trilhas de investigação. Ação deliberada para espalhar o vírus, que está tipificado como crime de epidemia; omissão e atrasos nas compras de vacinas; disseminação de remédio com ineficácia comprovada; formação de estrutura paralela ao governo. E, agora, prevaricação. Foi informado de irregularidades com dinheiro público, sabia quem era o suspeito, não mandou investigar. Em reação retardada, o governo vai mudando versões para dizer que investigou. As versões não param em pé. São tão ilógicas que os governistas na CPI leem o que vão falar. Não guardariam de memória essas mudanças constantes de enredo. E novas acusações surgem, como a que a repórter Constança Rezende, da “Folha de S.Paulo”, revelou sobre o pedido explícito de propina ouvido pelo empresário Luiz Paulo Dominguetti Pereira no Ministério da Saúde.

Na sessão de ontem da CPI, o empresário bolsonarista Carlos Wizard fez uma triste figura. “Eu me reservo o direito de ficar em silêncio.” Mas os vídeos apresentados eram arrasadores. Neles, Wizard, rindo, sustentava a tese de que os “cinco mortos” no município de Porto Feliz, no interior de São Paulo, tiveram culpa na própria morte. “Ficaram em casa, não foram em busca do tratamento precoce.” Em outro vídeo, já eram 50 os mortos. O que será que ele diria agora se não tivesse emudecido?

Wizard, a exemplo de Bolsonaro, usa a palavra de Deus como se a Bíblia fosse dele. Chegou carregando um cartaz que citava um versículo de Isaías. A senadora Eliziane Gama do Cidadania o respondeu mostrando intimidade com a Bíblia. Em uma das citações que ela fez, também do profeta Isaías, há o alerta contra líderes que são “amigos dos ladrões e amam o suborno” e “não defendem os direitos dos órfãos e das viúvas”. O Brasil é um país laico, mas tem sido abusivo ver o presidente e seus seguidores usarem a Bíblia de forma proprietária. Por isso, a resposta da senadora fazia todo o sentido.

O superpedido de impeachment produziu uma cena rara, de união no mesmo palanque de políticos da esquerda e da direita ex-bolsonarista, que discordam sobre todo o resto, mas concordam que Bolsonaro é o pior presidente da História, que ele ampliou o número de mortes com as escolhas que fez e reitera a cada dia.

Entre o pedido de impeachment e seu andamento há o presidente da Câmara. Mas os processos políticos têm dinâmica própria. Lira diz que não há votos necessários, da mesma forma que tantos diziam que não era a melhor hora da CPI. Um governo não termina quando acaba. Bolsonaro vai atacar, mentir, manipular, ameaçar, cooptar e usar os poderes da Presidência. As instituições terão de persistir em defesa da vida dos brasileiros.

A lenda do Jair honesto

É claro que Jair Bolsonaro tem razão quando diz não poder saber tudo o que acontece nos 22 ministérios de Brasília. Consequentemente, não se pode responsabilizá-lo por cada ocorrência neles. No entanto, ele é responsável pela nomeação dos ministros, pelos aliados que procura e pelo espírito reinante em seu governo.

Além disso, Bolsonaro provavelmente não está dizendo a verdade, quando afirma nada ter sabido das irregularidades na encomenda da Covaxin. Segundo testemunhas, ele foi informado, mas não agiu. Ao que parece, tolerou e acobertou a suposta corrupção.

Seja como for, chama a atenção o governo brasileiro ter imposto altos obstáculos a todos os fabricantes de vacinas com representações diretas no país. Eles foram ignorados, suas ofertas, consideradas caras demais, ou se rejeitaram suas condições contratuais. Para os fornecedores com intermediários – no caso da Covaxin, registrados sob um endereço duvidoso em Cingapura – de repente essas ressalvas deixarem de ser relevantes. É o caso de se perguntar por quê.


Após a recente acusação de que o chefe de logística do Ministério da Saúde teria coletado subornos em nome de "um grupo dentro do ministério", alguns meios de comunicação escrevem que o governo Bolsonaro está passando por seu primeiro escândalo de corrupção. Isso é uma piada de mau gosto, e quem afirma tal coisa está caindo na armadilha da lenda bolsonarista sobre o "Jair honesto", um outsider meio grosso, porém sincero e defensor da lei e da ordem.

A versão que agora vem sendo repetida nas redes bolsonaristas é a de que esse governo não é corrupto. Isso é tão equivocado quanto a afirmação de que Bolsonaro seja um patriota, zele pela família ou respeite a Deus. Assim como conseguiu monopolizar os conceitos de patriotismo, família e Deus, ele conseguiu, diante de uma oposição fraca e desarticulada, reivindicar para si a luta contra a corrupção.

Basta enumerar alguns fatos para refutar esses mitos. As últimas férias de Natal do presidente Bolsonaro custaram ao contribuinte brasileiro nada menos que R$ 2,4 milhões. Ainda não estão explicados os 27 depósitos no valor de R$ 89 mil do suspeito de corrupção Fabrício Queiroz para a esposa do presidente, Michelle Bolsonaro. Também restam dúvidas sobre a compra de Flávio Bolsonaro de uma mansão em Brasília por R$ 6 milhões – o 20º imóvel adquirido pelo filho do presidente em 16 anos.

O fato é, antes, que este governo minou sistematicamente a luta contra a corrupção iniciada durante a presidência de Dilma Rousseff. Já em fevereiro de 2020, a ONG Transparência Internacional criticava as constantes "interferências políticas nas nomeações e destituições em postos fundamentais" para a luta contra a corrupção.

Bolsonaro, por exemplo, rompeu a tradição de nomear o procurador-geral da República entre a trinca eleita pelos integrantes do Ministério Público Federal. Assim como o chefe do antigo Coaf, que persegue a lavagem de dinheiro, ele substituiu o chefe da Polícia Federal do Rio de Janeiro (justamente a cidade em que seu filho Flávio é investigado por peculato, lavagem de dinheiro e supostamente liderar uma organização criminosa).

Por diversas vezes, ainda, o presidente entregou cargos de ministro a suspeitos de corrupção, como o ex-chefe da pasta do Meio Ambiente Ricardo Salles (que no cargo aparentemente continuou a violar as leis), ou o do Turismo Marcelo Álvaro Antônio, ou o ex-secretário de Comunicação da Presidência da República Fabio Wajngarten.

Mais recentemente, Bolsonaro nomeou como ministra da Secretaria de Governo a deputada Flávia Arruda, do Partido Liberal (PL), presidido pelo ex-deputado Valdemar Costa Neto, condenado no mensalão. A lista poderia seguir adiante, aqui apenas os exemplos mais destacados: o atual líder do governo Bolsonaro na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP), foi alvo de operação do Gaeco do Paraná, suspeito de receber propina da Galvão Engenharia. E o atual líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB), é suspeito de ter recebido R$ 10 milhões em suborno de empreiteiras, quando era ministro da Integração Nacional. Esses são dois dos mais importantes apoios desse "governo honesto".

A tudo isso, somem-se os delitos e infrações pequenos e maiores do presidente para mostrar que não se pode admitir por um segundo sequer a afirmação desse governo de que estaria do lado da lei e da ordem: não respeitar a obrigatoriedade de máscara, encorajar garimpeiros e madeireiros ilegais, ofender e ameaçar jornalistas, recomendar medicamentos ineficazes à população, constantes mentiras e distorções da verdade, etc.

O bolsonarismo pode até ter algo contra a corrupção e a criminalidade – mas só a dos outros. Quem crê em outra coisa, caiu na esparrela da máquina de propaganda bolsonarista. É preciso sempre desconfiar dos moralistas.
Philipp Lichterbeck