quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Minha mãe já sabia


Em seu discurso de posse, a presidente reeleita Dilma Rousseff anunciou o lema de seu governo, Brasil, pátria educadora: "Isso significa universalizar o acesso a um ensino de qualidade em todos os níveis". O que causa admiração não é descobrir que só agora, em seu segundo mandato, a educação aparece como prioridade – mesmo porque o tema nunca interessou, de verdade, a nenhum político, nem a seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, nem, muito menos, ao tucano Fernando Henrique Cardoso. Surpreendente é a frase explicativa.

"Universalizar o acesso a um ensino de qualidade em todos os níveis" aponta para uma dessas duas interpretações possíveis: ou já atingimos um patamar de excelência na educação e o que precisamos é apenas garantir o ingresso do conjunto dos cidadãos nas escolas; ou devemos assegurar a admissão de todos num sistema que nos próximos quatro anos apontará para um grau de aprimoramento digno de Primeiro Mundo. Como o Brasil ocupa as últimas posições em testes de avaliação internacional de ensino – por exemplo: o Relatório de Capital Humano, formulado pelo Fórum Econômico Mundial nos coloca na em 88º lugar entre 122 países –, e como reputamos que a presidenta Dilma Rousseff é uma pessoa íntegra, podemos, sem sombra de dúvida, descartar a primeira hipótese de interpretação da frase explicativa.

Então, ainda que tarde, e ainda que descrentes, devemos analisar a frase de acordo com a segunda hipótese: iremos assistir, nos próximos 48 meses, um esforço para sanear as bases da educação brasileira, assentadas em um pântano de omissão, incompetência e desmando, para transformá-la em um oásis de eficiência, disseminação de conhecimento e preparação para a vida, que é o que todos ansiamos. Verifiquemos, pois, como a presidenta Dilma está se organizando para enfrentar esse desafio.

Não há mágica para resolver o gravíssimo problema da educação nacional, herança da mentalidade colonizadora, gananciosa, egoísta e predatória, que sobrevive em nossa elite individualista e burra. O Brasil dedica cerca de 5,9% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação, percentual bem próximo daquele destinado pelos países ricos que contam com ensino de qualidade. O problema, então, não reside necessariamente no montante do dinheiro aplicado nessa área, mas em como ele é gerido.

O Ministério da Educação, encarregado de levar à frente o projeto, foi entregue ao ex-governador Cid Gomes, que divide com o irmão, Ciro, o controle da política cearense. Juntos, os Gomes garantiram a vitória acachapante de Dilma no Estado: quase 80% dos votos foram dados a ela. Cid é filiado ao Partido Republicano da Ordem Social (PROS), minúscula legenda que fez, no último pleito, um governador (o do Amazonas, José Melo) e 11 deputados federais. Não consta que ele tenha relação íntima com a pasta da qual é titular, mas, a bem da verdade, isso não tem importância, pois trata-se de um cargo político.

Mas qual o saldo da administração de Cid Gomes no Ceará? Embora tenha se tornado nacionalmente conhecido por uma declaração infeliz, ele implementou algumas políticas que impulsionaram o ensino fundamental no Estado. Em 2011, durante uma greve de trabalhadores da educação, o então governador afirmou, diante das reivindicações por melhores condições de emprego, que quem entra na vida pública – e ele estava pensando nos manifestantes – deve se sentir motivado não por questões financeiras, mas por "amor e espírito público". Como essa declaração acirrou os ânimos, os grevistas se reuniram em protesto em frente à Assembleia Legislativa, tendo sido dispersados pela Polícia Militar com cassetete, gás pimenta e gás lacrimogênio. Por outro lado, o nível do ensino fundamental no Ceará avançou – as notas subiram, nos primeiros anos, de 4,4 em 2011 para 5 em 2013, e, nos últimos anos, de 3,7 para 3,9 –, embora o desempenho no ensino médio tenha caído de 3,4 para 3,3 no mesmo período, segundo avaliação do do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Escola Básica).  
 


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Aberta a temporada


Pior é quem recua


Adversários no Norte da África e depois no continente europeu, os generais George Patton, dos Estados Unidos e Erwin Rommel, da Alemanha, tinham características iguais. Para eles, o bom soldado não era o que morria pela pátria, mas o que fazia o inimigo morrer pela dele. Só admitiam uma estratégia: avançar sempre. Jamais manter posições ou aferrar-se ao terreno, mas seguir adiante, com o objetivo da vitória final.

Do discurso da presidente Dilma, na posse, ao pronunciamento do ministro Joaquim Levy, ao receber o cargo, o que se viu foi o governo abrindo trincheiras para enfrentar o adversário. Mais ainda, recuando.

Vão perder a guerra. Nenhuma administração pode aspirar sucesso quando prega apenas aumento de impostos, ajustes fiscais, corte nos investimentos, redução dos benefícios sociais, demissões e perda do poder aquisitivo dos salários.

Falta ao governo um plano para a vitória sobre a crise econômica, impossível de ser conquistada apenas com medidas de contenção. Nem é preciso citar os presidentes da República que deram certo e os que quebraram a cara. Os que ficaram nas trincheiras e os que avançaram.

Qual o objetivo do segundo mandato de Dilma? Se for apenas garantir o bolsa-família e demais programas assistencialistas, fica fácil prever o resultado: as demandas nacionais aumentarão não apenas no campo social, mas na economia. Para atendê-las não basta arrumar as contas e pagar as dívidas. É preciso avançar.

QUEM SERÁ O PRIMEIRO?

Uma aposta toma conta da Esplanada dos Ministérios: dos 39 ministros, qual será o primeiro a pedir para sair ou ser saído? As atenções se dividem entre os ministros de primeira e de segunda classe, quer dizer, aqueles que detêm os controles do processo político, econômico e social, e aqueles que apenas enfeitam o governo. Desimportantes, uns, vigiados, outros. A presidente Dilma dá sinais de que depende dela o julgamento de todos.

Saída, cadê a saída?


A crise política é inevitável. Os efeitos judiciais do processo do petrolão vão atingir em cheio o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto. Teremos, efetivamente, o grande teste das nossas instituições — o impeachment, em 1992, não passou de um ensaiozinho: chutar cachorro morto, todo mundo chuta. As antigas formas de pensar vão, como de hábito, recitar suas ladainhas, eivadas de estrangeirismo, preconceito e autoritarismo.

O desafio vai ser o de encontrar uma saída democrática, original e de acordo com a nossa formação histórica. Pode ser o tão esperado momento de ruptura que estamos aguardando desde 15 de novembro de 1889, quando a República foi anunciada, mas até hoje aguarda, ansiosamente, ser proclamada.

Ressaca brasileira

Observou-se que, com seu novo gabinete, Dilma Rousseff buscou se blindar de Lula. Mas talvez aconteça o contrário
Durante seu segundo mandato, Dilma Rousseff estará impedida de cumprir as duas promessas tradicionais da esquerda: desafiar as pretensões do mercado e refundar a política sobre procedimentos transparentes. Dilma consumirá parte de seu capital em ajustar a economia. E deverá continuar dando explicações pelo escândalo da Petrobras, com o qual conviverá durante todo o seu mandato. Lula da Silva e a cúpula do PT a observam a partir de agora com a precaução de quem olha o equilibrista caminhar com passo incerto sobre uma corda-bamba. Já escolheram a bandeira em que se envolverão até a próxima eleição: o conflito com os meios de comunicação. É uma estratégia habitual no populismo latino-americano. Já que não pode modificar a realidade, contesta sua interpretação.

Em 9 de setembro, Dilma acusou sua rival Marina Silva de pretender, caso chegasse à Presidência, entregar sua gestão econômica aos banqueiros. Na quinta-feira passada, nomeou Joaquim Levy, diretor da área de investimentos do Bradesco, o segundo maior banco privado do Brasil, como ministro da Fazenda. Levy, que se doutorou em Chicago, é chamado de Mãos de Tesoura. Ele adora esse apelido. Promete reduzir subsídios e a inflação para recuperar o crescimento. Cabe a ele, junto com Nelson Barbosa, ministro do Planejamento oriundo do Banco do Brasil, e Alexandre Tombini, que permanece no Banco Central, administrar a ressaca de uma festa de consumo.

O novo ministro do Desenvolvimento é o empresário Armando Monteiro. E a da Agricultura, Kátia Abreu, lidera a Confederação Nacional da Agricultura. É a Thatcher do campo.

Impossível duvidar da ortodoxia dessa equipe. O enigma é se Dilma a respaldará. Além de reparos ideológicos, ela poderá ter restrições temperamentais. Padece de uma propensão ao micromanagement e costuma submeter seus colaboradores a surtos de ira que eles denominam, respeitosamente, de “síndrome da tensão criativa”. Barbosa inaugurou a experiência: já precisou desmentir que, como havia prometido, vá reduzir o salário mínimo.

A Petrobras é outro manancial de dissabores. Ninguém conhece a lista completa dos políticos que se locupletaram nessa caixa preta, da qual saíram cerca de 10 bilhões de reais. A partilha do dinheiro complica a partilha de poder. Cada nomeação pode esconder um novo pesadelo. Na semana passada, o diretor de uma empresa japonesa confessou que recursos foram desviados para a campanha de Rousseff.

A Petrobras deve 135 bilhões de dólares. E a queda do preço do petróleo dificulta a exploração de sua grande jazida de águas profundas. O fundo de investimentos Aurelius pediu que seja declarado seu default. A empresa contamina a imagem geral dos negócios. E começa a se ouvir que outra tempestade pode se desencadear na Eletrobras, a maior empresa elétrica da América Latina.
Leia mais o artigo de Carlos Pagni

O Reizinho


Holanda corta serviços sociais e transfere carga a municípios

Manifestação contra os cortes do Governo, em novembro em Haia
O atendimento a idosos e dependentes passa a ser uma ‘obrigação’ familiar
Depois de quase meio século de funcionamento intensivo, o Estado de bem-estar social muda de nome na Holanda e passa a chamar-se “sociedade participativa”. A medida envolve cortes orçamentários e grandes mudanças para a população. Desde o dia 1º de janeiro o auxílio aos idosos e às pessoas dependentes de ajuda, incluindo as crianças incapacitadas, se transforma em uma “obrigação moral” das famílias, amigos e vizinhos. E o descumprimento desse novo dever não está sujeito a punição legal, pelo menos por ora.

Somente quando a situação for insustentável, as pessoas que não têm como cuidar de si mesmas poderão ter acesso a um centro subvencionado. A recém-criada Lei de Cuidados de Longa Duração estabelece que caberá às prefeituras proporcionar o atendimento, para o qual receberão financiamento estatal.

O primeiro discurso da Coroa do novo rei holandês, Willem-Alexander, introduziu em setembro de 2013 a ideia da sociedade participativa, em forma de advertência e, também, de desafio. Por um lado, mostrava a insustentabilidade de manter, com a crise, um sistema de cuidado que em 2010 custou 23.500 bilhões de euros (R$ 75,9 bilhões) ao erário público –com esse orçamento foram atendidos 250 mil dependentes em instituições públicas e outros 350 mil por meio de ajuda paga aos domicílios. Considerando o envelhecimento crescente nesse país de 16,7 milhões de habitantes, o desafio consiste em convencer os cidadãos de que têm de apoiar-se e ser responsáveis pelos que os rodeiam. A questão é saber se eles o farão espontaneamente. Porque, a partir de agora, o direito histórico de receber atendimento somente poderá ser exercido quando a pessoa não puder cuidar de si mesma e carecer de uma rede informal de apoio. Com essa mudança, o Estado pretende economizar 2,3 bilhões de euros este ano.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Conquista

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!
Miguel Torga

Verdades


Uma história sem fim

Mantenha a esperança, disse-me a esperança, e, em seguida, avançou filosofando: só quem nada espera a suas lembranças recorre. Preocupada com os jovens, contemporizou como o poeta: não queira um pão melhor do que pode ser feito desse trigo.

Todo mundo sabe que com a política não há novidade. Como seu interesse não se define em termos morais, seus mistérios são inúteis. Um ar cada vez mais rarefeito de teoria e doutrina combina muito com a parte mais visível de pessoas indiferentes a especulações abstratas ou emoções estéticas. Não é um defeito, nem incomum, a mente material e prática predominar nessa atividade que sempre cheira à dissidência. Mas, para não alimentar a sedição, é prudente evitar dar ouvidos aos que acreditam que persuasão combina com ferro e fogo. Se interessar mais pela Constituição e dar à lealdade à lei o mesmo valor da gratidão aos aliados ajudaria muito a evitar suas incertezas.

O Brasil se acostumou com a pressa e as convicções de vento dos seus partidos políticos. Tornou-se sócio de um número de facções tão espetacularmente singular que fez dessa atividade quase uma irrealidade. Nosso pluripartidarismo é exclusivamente um fato do mundo dos políticos e seus interesses. Não tem correspondência cultural, religiosa ou social como a que explica esse fenômeno na Índia, por exemplo, onde tudo é multidão. Os tipos previsíveis que nascem a cada dia nesse laboratório de siglas se deslocaram da vida da sociedade para viverem dentro dos seus 30 céus esplendorosos. Legendas e nomes com aquele ar de proprietários de seus votos dados a quem quiserem, primeiro um parente necessitado, é óbvio. Como a imensidão do oceano, cada vez mais só desponta dali um gosto de sal.

Diferentemente de Dona Baratinha, sem dinheiro na caixinha, mas com fita oficial, a presidente o que mais tem é pretendente. Com alto índice de ambiguidade diante do poder, por aqui todas as maiorias politicas se parecem. O que as distingue de tempos em tempos são os ciclos de prosperidade e contenção, as ondas ascendentes ou descendentes da esperança em que vive imersa a sociedade. Sistema eleitoral e político como o nosso, de velhas panelinhas e renovada insinceridade, lembra embarque e desembarque de navios. Não são interesses democráticos, na maioria das vezes, que decidem sucessões dentro das coalizões governistas.

Fernando Sabino riu dos provincianismos na literatura brasileira em carta a Clarice Lispector. Recordo-a, aqui, livremente aplicada à política. Devemos reabilitar o amadorismo: cada defeito a menos tem sido um pecado a mais nos profissionais. Desistir de muita inteligência e classificar os tipos a partir de categorias mais simples: políticos redondos, quadrados, políticos cônicos, políticos piramidais. Enquadrar logo aliados afoitos em subespécies: os que começam e se acabam. Os que nos acabam e não começam. Os que começam, mas não acabam. Os que nem começam nem acabam. E por fim batizar ministros com locuções correspondentes: o “Apesar de Tudo”; o “Ainda Mais”; o “Contra o Qual”; o “Ele Outra Vez”; o “Ora Bolas!”; “Ora Pro Nobis”...

Ministro esportivo


O réveillon de Dilma


Um bom governo não se faz com discursos e estardalhaço publicitário, mas com boas práticas e boas iniciativas. O primeiro governo Dilma não conseguiu ir além do discurso naquilo que mais importa: uso criterioso dos recursos públicos e desenvolvimento econômico. Por mais que o governo, a cada novo escândalo, insistisse em se atribuir méritos pelas investigações, o fato é que as denúncias sempre vieram de fora do governo. E sempre foi ele, governo, o investigado. Mérito têm a PF, o MPF e o Dr. Sérgio Moro.

É desalentador saber que enquanto a ação penal do Mensalão era julgada ao vivo e a cores, enquanto os ministros do STF não economizavam adjetivos para qualificar os crimes e desqualificar os criminosos, corria livre, leve e solto, um esquema bilionário drenando recursos da Petrobras. E são fortíssimas as suspeitas de que algo semelhante lateja noutras entranhas da máquina federal.

Do desenvolvimento econômico dependem os investimentos privados, a absorção da força de trabalho, a manutenção dos postos existentes, a elevação da renda, a arrecadação tributária, os investimentos estatais e a atenção social prestada pelo poder público. Ora, somados os dados dos últimos quatro anos, vê-se que a taxa de crescimento que deveria ser buscada como meta anual – algo em torno dos 6% – corresponde ao total atingido em todo o primeiro mandato de Dilma e equivale a pífios 1,5% ao ano. A meta de 6% pode ser considerada inatingível, mas foi alcançada pela economia brasileira em 2004, 2007 e 2010.

O primeiro mandato da presidente, portanto, extinguiu-se melancolicamente em 31 de dezembro. A festa do dia seguinte, que deveria ser o “réveillon” de Dilma, ficou devendo às expectativas. O governo esperava 100 mil pessoas, queria algo que sinalizasse a restauração da confiança abalada por escândalos e pela manipulação de dados oficiais. As estimativas mais generosas falam em 40 mil pessoas, numa comemoração nitidamente partidária, nem cívica nem espontânea, com muito vermelho, e quase nenhum verde-amarelo.

Em seu discurso, a presidente deu sequência a um artifício que se desgastou durante a campanha eleitoral. Mais uma vez escondeu a realidade. Mais uma vez apelou para a vanglória, desfiando realizações que, se verdadeiras, lhe teriam proporcionado espetacular vitória eleitoral. Simples como isso. E, ao mesmo tempo, tão assustador quanto isso. O discurso mostrou o mesmo alheamento que caracterizou a política de seu partido e de seu governo. Espero que, desta feita, a “posse” não seja confundida com propriedade ou usufruto.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Manual para fazer uma Pátria Educadora


1. Entender que o principal recurso da Pátria Educadora são as crianças, por isso, a pátria educadora nasce na escola de base, incluindo a educação infantil, desde a primeira idade.

2. Reconhecer que esta escola é formada sobretudo pelo professor e que, para a pátria ser educadora, ela deve escolher para professor de suas crianças os jovens mais brilhantes de suas universidades.

3. Saber que para atrair os melhores jovens para a atividade de magistério, esta carreira deve estar entre a aquelas com as melhores remunerações de todas as profissões.

4. Considerar que na Pátria Educadora os melhores e melhor equipados prédios públicos de cada cidade devem ser suas escolas, na qualidade e beleza de suas edificações, nos equipamentos culturais e esportivos disponíveis e no uso dos mais modernos equipamentos de tecnologia da informação para fins pedagógicos.

5. Definir nacionalmente os métodos de formação, seleção e avaliação para que os jovens atraídos devam ser escolhidos de forma cuidadosa, exigindo-se deles a mais absoluta competência, dedicação exclusiva ao magistério e sujeitos a um regime de trabalho que permita substitui-los se não participam realmente da construção da Pátria Educadora.

6. Perceber que a educação é um processo integral, com o máximo de tempo da criança em atividade escolar, complementada com o envolvimento dos pais, da mídia e de toda a sociedade pela prática cultural e pelo exemplo dos líderes. O que vai exigir um grande programa de educação de todos brasileiros, desde a erradicação do analfabetismo entre adultos, até uma educação também para os que são instruídos mas são deseducados. Esta educação de todos será necessária inclusive para que a população entenda e adote o lema de Pátria Educadora, depois de 515 anos em que a educação tem sido vista sem a prioridade merecida.

7. Assumir que, para a pátria ser educadora, a educação tem de quebrar as duas amarras que hoje aprisionam as crianças: o CPF dos pais para pagar uma boa escola privada e o CEP de onde ela mora para oferecer uma boa escola pública, por isso, para construir a Pátria Educadora, a responsabilidade pela educação terá de ser responsabilidade da nação, ou seja: financiada, normatizada e avaliada pela União, com uma carreira nacional para o professor e todas as escolas com a mesma qualidade.

8. Adotar a educação como uma responsabilidade federal e não municipal ou estadual, limitando o papel das unidades federativas à tarefa de definir a parte local do curriculum e participar da gestão descentralizada de cada escola.

9. Convencer as universidades, a mídia, o congresso, os partidos, empresários toda a sociedade de que educação é progresso e formar um pacto nacional para que isto possa ser executado ao longo das próximas décadas, em sucessivos governos.

10. Transformar o lema Pátria Educadora em realidade legal, sob a forma de leis, decretos e normas inclusive orçamentarias, além de criar a base política necessária para fazer o lema sair do marqueting inicial e entrar na história.

O boa-vida


“Lula passou, pela segunda vez consecutiva, o Réveillon na mansão de José Seripieri Junior, dono da Qualicorp, em Angra dos Reis. Lula, Marisa, filhos e noras chegaram na terça-feira e, pela previsão, ficariam até o primeiro fim de semana de 2015. Lula saiu de barco para pescar todos os dias. Fez uma pausa apenas para ir à posse de Dilma Rousseff na quinta-feira”.
(Nota de Lauro Jardim, em Veja, revela as boas amizades com os poderosos do guru petista e ex-presidente. Seripieri Jr. ficou bilionário controlando a Qualicorp, maior administradora de planos de saúde no Brasil, onde a saúde pública está cada vez pior e os preços dos planos de saúde estão altíssimos.)

O ano começou com uma boa notícia

A melhor notícia de 2015 veio nos últimos dias de 2014: a Petrobras suspendeu novos negócios com as 23 empreiteiras apanhadas na Operação Lava-Jato e abriu uma investigação nas contas da Transpetro, da BR Distribuidora e no fundo de pensão Petros. Com quase um ano de atraso, o comissariado partiu para o ataque, se é que partiu. Nesse período, a empresa perdeu 37% do seu valor de mercado e danificou sua credibilidade.

Assim como sucedeu com a seleção brasileira na Copa, a defesa da Petrobras sofreu um apagão. No início de 2014, sabia-se que estourara um escândalo nas suas operações com a companhia holandesa SBM, que lhe alugara sete navios-plataforma. Falava-se de um pagamento de comissões que chegavam a US$ 139 milhões. A doutora Graça Foster poderia ter soado algum alarme. Deu-se o contrário. Uma delegação da empresa foi a Amsterdam e concluiu que nada houvera de errado. Em novembro, a SBM foi multada, na Holanda, em US$ 240 milhões pelas propinas que distribuiu mundo afora.

As petrorroubalheiras tinham três vértices: o comissariado, funcionários corruptos e empresas corruptoras. Durante todo o ano o governo e as empresas acreditaram que prevaleceria algum tipo de código de silêncio. O “amigo Paulinho” não contaria o que sabia. Muito menos Alberto Youssef, seu operador financeiro. Empreiteiras? Nem pensar, isso jamais acontecera.

Em março, a doutora Graça Foster anunciou que a Petrobras investigaria as roubalheiras, e “não ficará pedra sobre pedra”. Parolagem. A essa época, a Polícia Federal e o Ministério Público já puxavam os fios da meada das roubalheiras, e, paralelamente, sabia-se que o fundo da Petros fechara 2013 com um rombo de R$ 7 bilhões, corrigido para R$ 2,8 bilhões. O comissariado e as empreiteiras acreditavam que ninguém desafiaria seus poderes, e seria possível conter as denúncias brandindo-se o santo nome da Petrobras. Lula chegou a marcar um fracassado ato público em frente à sede da empresa. A casa começou a cair em agosto, quando o “amigo Paulinho” passou a colaborar com as investigações. Num de seus depoimentos, ele mencionou uma propina de US$ 23 milhões da empreiteira Odebrecht. Foi rebatido pelo presidente da empresa, Marcelo Odebrecht, que classificou a afirmação como “denúncia vazia de um criminoso confesso”. O ano terminou com pelo menos nove “criminosos confessos”, entre os quais, pela primeira vez, havia uma empreiteira, a Toyo Setal.

Documentos apreendidos pela polícia revelaram a estratégia de defesa dos envolvidos. Tratava-se de conseguir um acordo com o Ministério Público e de tirar o processo das mãos do juiz Sérgio Moro. Afinal, mexer com as empreiteiras significaria “parar o país”. Um escritório fixou seus honorários em R$ 2 milhões, mais R$ 1,5 milhão caso o estratagema fosse bem-sucedido. Como no fatídico jogo do Brasil contra a Alemanha, deu tudo errado.

A doutora Dima disse que a Petrobras “já vinha passando por um aprimoramento de gestão”. Cadê? Durante todo esse tempo o governo e a Petrobras foram agentes passivos da crise. Paulinho, Youssef e Pedro Barusco, um felizardo do segundo escalão que entesourara R$ 252 milhões, eram velhos conhecidos da rede petista, mas fazia-se de conta que eram marcianos. Durante quase um ano as poucas iniciativas tomadas pela Petrobras foram provocadas por fatores externos, sobretudo depois da abertura da investigações e processos nos Estados Unidos.

A decisão de Graça Foster ao final do ano passado pode significar uma mudança de comportamento. Em vez de jogar com uma defesa bichada, a empresa partiria para o ataque contra as roubalheiras. A entrada do fundo Petros no elenco pode ser um sinal disso, desde que se coloque mercadoria na vitrine. A doutora Dilma disse que “vou investigar a fundo, doa a quem doer”. Dor mesmo, seu governo só deu aos acionistas da empresa, que perderam uma parte de de seus investimentos. Ela assumiu seu segundo mandato dizendo que é preciso defender a Petrobras dos “inimigos externos”. Doze anos de poder petista mostraram que Lula e ela cevaram “predadores internos”.

Tomara que os dois discursos de Dilma Rousseff durante as cerimônias de sua posse tenham sido os últimos lances de uma campanha eleitoral que acabou no ano passado. Se não fossem tão longos e defensivos, poderiam ser atribuídos ao marqueteiro João Santana. Prova da sua falta de assunto foi a enésima defesa de uma reforma política (há um projeto no Congresso, cuja discussão é obstruída pelo PT). “Pátria educadora” é um slogan ruim, que parece ter saído dos versos oitocentistas do Hino Nacional.

O comissariado acusa a oposição de não ter saído do palanque. Viu-se em Brasília que quem não quer deixá-lo é o governo. Repetindo o Lula de 2003, apropriou-se da agenda econômica dos tucanos, no que pode ter feito bem. Quem falou aos brasileiros como presidente da República foi a representante de uma facção, porta-voz dos “nossos governos” (o dela e o de Lula).

Tudo bem, mas a partir de amanhã ela e seus 39 ministros terão um serviço para tocar.


Elio Gaspari

Jararaca que não muda

Dividir o poder não se resume ao loteamento de cargos do governo entre partidos que o apoiam, mais ainda sabendo que tal prática favorece a corrupção acima de tudo.

Ricardo Noblat, A velha Dilma de sempre 

'Eu sou a verdade, o caminho e a vida'


O meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado
Albert Einstein

Bem longe falar aqui de um exemplo no mundo. A frase do título também poderia ser dita (ou repetida, ou copiada, ou explorada) por um canalha fantasiado de santo. Quem seria o autor de tal heresia? Louco ou bandido? Ambos. A psicopatia criminal explica.

Se há tantos séculos, alguém pôde multiplicar os pães e os peixes, porque em tempos de alta tecnologia e uma boa maquiagem nas contas não se poderia também repetir o milagre? O milagre bíblico, pois, se repetiu. Os pobres ganharam mais peixe e pão. Como outra é a era, de quebra, o divino psicopata também produziu o circo para todos.

Se não fez a transformação da água em vinho, muito melhor se saiu o deus brasileiro. Transformou o sertão em mar. Quer dizer, ainda não completou a obra, porque apesar de sua santidade ainda não conseguiu agilidade nos milagres. Naqueles anos da Galileia, era só uma magia de transformar. Agora era preciso transportar água em meio à seca secular. Convenhamos um milagre de maior porte e muito mais complexo. Mas enorme mesmo foi, com magia extra, produzir do nada tanto dinheiro para pagar a obra.

Arregimentar os pobres, pescá-los pela palavra. Isso então foi muito fácil. Bastou se tornar o salvador deles, com gesticulação apropriada de mistificador. Depois fez distribuir, santo milagre, as moedas jorrando dos céus, quer dizer, dos cofres públicos como jorrou trigo dos celeiros do faraó.

Trovejou que nada de fora atingiria o país. O tsunami que varria o mundo chegaria aqui como uma marolinha. Profeta, usou desbragadamente o consumo como barreira. E foi elevado às alturas de mestre salvador. Prodígio fácil. Saiu-se mais uma vez com o milagre que também os militares sempre fizeram na ditadura. Têm resultados rápidos e põem os milagreiros nas alturas.

Anunciou que o mundo era dos bons que sempre deviam competir contra os maus (os outros). Santa divisão. Para isso percorreu em caravana milionária, sem isso de apóstolos, mas carregado de comissariado, para divulgar o verbo da boa nova. Os pobres seriam atendidos pelo abençoado e os ricos excomungados, condenados aos infernos. “Quem me seguir será reunido no reino dos céus”. E seguiram muitos para os reinos da corrupção, da boa vida, do descanso remunerado ad eternum.

Sob suas bênçãos, prodigalizou o surgimento de uma mãe dos pobres, desvalidos, desesperançados. Conclamou a união em torno da nova santa. Atendido, se tornou deus único, a pairar no nirvana de um tríplex à beira da praia em Santos, de onde atenderá agora os mais necessitados de amparo legal para que seus milagres não sejam nunca desvendados como maracutaias de um psicopata.

Trabalhadores não são apenas os que ganham salário mínimo


Numa entrevista a Marta Beck, Cristiane Bonfanti, Gabriela Valente e Henrique Gomes Batista, publicada na edição de sábado de O Globo, o ministro Nelson Barbosa tocou na questão do salário mínimo, mas de uma forma que desagradou a presidente Dilma Rousseff, a ponto de levá-lo a rever suas declarações. O salário mínimo, pela lei em vigor, deve ser corrigido por índice acima da inflação, com base no aumento do custo de vida adicionado ao crescimento do Produto Interno Bruto nos últimos dois anos. Este é um fato. Não se sabe a razão da tempestade que atingiu o barco do Planejamento. Talvez a hipótese de seu titular ter se referidos aos jornalistas sobre a iniciativa de enviar o projeto de lei ao Congresso alterando a regra vigente. Pode ser. Afinal de contas enviar projetos ao Congresso é atribuição exclusiva da Chefe do Executivo.

Entretanto, a questão salarial como um todo possui diversos aspectos, a começar pela realidade de que os trabalhadores e servidores públicos brasileiros não são apenas os que percebem o piso básico. Estes compõem uma faixa, muito ampla, de 33%. Porém, e as outras correntes? Na verdade nenhum grupo assalariado deve ter seu reajuste menor do que a inflação do ano anterior, pois se tal ocorrer ele estará sendo reduzido em seus vencimentos, de maneira disfarçada, porém essencialmente inconstitucional, já que a Carta Magna impede a redução salarial.

Antes das urnas de outubro foi divulgada uma escala salarial em vigor no país, atribuída ao IBGE, na qual revelou-se que a metade dos trabalhadores do Brasil ganha praticamente entre 3 a 4 salários mínimos. E que 70% percebem entre 5 a 6 pisos básico. 5% somente abrangem os que ganham até 10 mínimos. E mais de 20 mínimos são apenas 0,8% da mão de obra. Mas este é um outro aspecto da questão.

O salário médio do país até dezembro alcançava em números redondos menos de R$ 2.000,00. O quadro salarial existente, como se vê, não se restringe ao salário mínimo. Dessa forma, em princípio nenhuma faixa (e não apenas a menor) deve perder para o índice inflacionário. Compatibilizar o avanço salarial com a inflação e a redistribuição de renda é que é a questão essencial. Porque, se o aumento atribuído ao mínimo for maior do que o aplicado aos demais salários, poder-se-á estar se realizando uma redistribuição de renda, mas do trabalho para o trabalho e não do capital para o trabalho. A desigualdade pode ser diminuída assim, entre as diversas classes, mas não o avanço social que depende do desenvolvimento econômico e da participação maior do rendimento trabalhista na formação do PIB. Mesmo porque existe a questão da renda per capita, que é o resultado da divisão do PIB pelo número de habitantes. É fato que a renda per capita não exprime a concentração, ela pode ser elevada dentro de um sistema muito amplo de concentração.

O desafio salarial está colocado. Ele é, na verdade a raiz de praticamente todos os problemas de forma direta ou indireta envolvem o país. Trata-se da grande questão colocada a frente dos governos e dos governantes. No momento projeta-se à frente da mesa da presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. A questão do mínimo marcou a primeira contradição ocorrida no Poder Executivo. Vamos torcer que não surjam outras, desejando-se assim, êxito e boa sorte à presidente Dilma Rousseff.

Pedro do Coutto

domingo, 4 de janeiro de 2015

Aberto o saco de maldades

O que significa a proposta anunciada pelo novo ministro do Planejamento, de novas regras para o salário mínimo? Com perdão palavra, é trolha que vem por aí. Como sempre, penalizando os pobres e os humildes, no caso, quem consegue sobreviver com 788 reais por mês. Pois vai ficar pior. Segundo Nelson Barbosa, os reajustes do salário mínimo ainda serão superiores à inflação…

Dá para traduzir ajuste fiscal como algo diferente do que aumentar impostos? É o que também se prevê, assim como cortes nas despesas sociais. Jamais, é claro, nos recursos destinados a pagar juros ou a saldar débitos externos.

Num estalar de dedos o país toma conhecimento do que será o segundo mandato de Dilma Rousseff, porque apesar das promessas de não recuar um milímetro na preservação dos direitos sociais, a presidente assinou medida provisória cortando pela metade o abono salarial, o salário-desemprego, o auxílio-doença, as pensões pela morte de um cônjuge e até os benefícios para os pescadores proibidos de pescar.

Vale aguardar mais peças do conteúdo do saco de maldades aberto pelo novo governo todos os dias, começando na véspera da posse e seguindo impávido no rumo da desconstrução de uma sociedade mais justa. Calaram as forças que poderiam opor-se a esse massacre do PT aos sindicalistas. As oposições parlamentares nada farão, pelo menos até que o esbulho se estenda às classes privilegiadas. Enquanto isso, com as exceções de sempre, os ministros recém-nomeados batem cabeça, reconhecendo nada ter a ver com os setores para os quais foram escolhidos. É constrangedor citá-los. Mais responsáveis do que eles e os partidos que os impuseram será a presidente da República, que os nomeou.

No capítulo da corrupção, com ênfase para o escândalo na Petrobras, chega a ser hilariante a explicação de que deveu-se a uns poucos maus funcionários e à pressão de forças externas. Estas sempre existiram,  aqueles integram a parte visível da quadrilha que ocupou o poder para transformá-lo na caverna do Ali Babá, não obstante os protestos do já agora ex-ministro Gilberto Carvalho em seu canto de cisne. Ladrões existem, são identificados e continuarão agindo à luz do dia, pertençam ao PT, ao PMDB, ao PP, PR e penduricalhos.

Logo depois de sua primeira posse, Dilma conseguiu livrar-se de seis ministros envolvidos na roubalheira, mas quatro anos depois eles tinham voltado a influir no governo, diretamente ou através de prepostos. Participaram ativamente da montagem do segundo ministério.

Outra vez a conta da incúria vai para os menos favorecidos e, em pouco tempo, atingirá a classe média. Trata-se de uma questão de tempo saber onde a corda se romperá.
Carlos Chagas

A presidente, os novos ministros e o samba

Seu Presidente,/ Sua Excelência mostrou que é de fato/Agora tudo vai ficar barato/Agora o pobre já pode comer/Seu Presidente,Pois era isso que o povo queria/ O Ministério da Economia/ Parece que vai resolver/ Seu Presidente//Graças a Deus não vou comer mais gato/Carne de vaca no açougue é mato/Com meu amor eu já posso viver.
(Do samba Ministério da Economia, de Geraldo Pereira e Arnaldo Passos)

Basta trocar o tratamento inicial de Senhor para Senhora Presidente e fazer algumas pequenas adaptações de linguagem para evitar os chatos de plantão no tempo do “politicamente correto”, que atravessamos, e está tudo OK. A exemplo do que rolou em Brasília na última quinta-feira, primeiro dia de 2015.

Temos até, na letra e melodia do velho e bom samba “Ministério da Economia”, sucesso popular absoluto no Brasil de 1951 (pode parecer distante, mas é quase ontem para os registros históricos), o tema musical da festa da posse para o segundo mandato da petista Dilma Rousseff. Acompanhada do coro de calouros e veteranos ministros, de múltiplas e desafinadas vozes, que ela escolheu na largada de seu segundo mandato no ano regido pelo guerreiro Oxóssi, a entidade sincrética de São Jorge nos cultos afro-brasileiros.

A garimpagem atenta e certeira, retirada do fundo do baú da MPB, da música interpretada à perfeição pelo saudoso sambista Geraldo Pereira, deve ser creditada ao jornalista baiano Claudio Leal. De São Paulo, ele postou no site blog Bahia em Pauta, o vídeo do Youtube, acompanhado da letra e informações básicas sobre a composição genial.

No título, o jornalista cravou com a inteligência e refinada perspicácia de sempre: “Seu Presidente/ Graças a Deus não vou comer mais gato”. Um samba de Geraldo Pereira para sonhar com as promessas dos discursos de posse em todo o Brasil”.

Na mosca!!!

Vejam, por exemplo, aquela foto tradicional em dia de posse, que todos os jornais fazem e quase nenhum publica na edição do dia seguinte. A chamada “foto de Arquivo” no jargão das redações, para ajudar em futuras comparações à medida que os governos vão passando e vários dos sorridentes ou circunspectos auxiliares do primeiro escalão vão se desgastando política ou tecnicamente, perdendo força e visibilidade.

No caso em tela, um amontoado de 39 figuras díspares, boa parte surge e desaparece como miragens no deserto, sem que a maioria dos brasileiros saiba de fato quem são, ou o que fazem. A não ser quando os malfeitos e escândalos explodem e se multiplicam com suas sequelas e contaminações inevitáveis.

Alguns acabam descartados. Sem sequer um “muito obrigado” do poderoso da vez. Em outros casos, simplesmente, são deixados na margem da estreita e selvagem estrada do poder, sem verbas, sem atenção, abandonados para morrer à mingua.

Neste começo do segundo governo Dilma, a “foto de Arquivo” foi publicada em alguns diários impressos, como a Tribuna da Bahia, sites e blogs. A imagem que tenho é a publicada na edição de ontem (2) do jornal espanhol El Pais (Edição do Brasil, que sempre leio junto com a TB).

Nela, uma figura se destaca no meio do bolo completo de novos e antigos auxiliares da presidente: O Ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Ele assume de fato o comando Economia na segunda-feira, 5, em cerimônia no Banco Central que promete dar o que falar. Atualmente é ele o nome do samba.

Vitor Hugo Soares

Ainda hoje


Pichavam nos muros o slogan de Marx: “Trabalhadores do mundo, uni-vos”. Mas quem pichava e quem lia não sabia o que era uni-vos.
Graciliano Ramos 

Dilma não corta nem faz bainha


Sequer um Ministério a menos entre os 39, nenhuma redução em bônus, gratificações ou pessoal. Nada. A máquina de Dilma continua igual, obesa e cara

Dilma Rousseff inaugurou o 13º ano de governo petista com o mesmo de sempre: discurso recheado de generalidades, fantasias fabulosas, autoelogios e um amontoado de mentiras. Algumas de descaramento espantoso.

Nem corou ao dizer “assim como provamos que é possível crescer e distribuir renda, vamos provar que se pode fazer ajustes na economia sem revogar direitos conquistados ou trair compromissos sociais assumidos”. Isso dois dias depois de seu governo anunciar um pacote que reduz benefícios adquiridos de trabalhadores e de os mais otimistas apostarem em 0,3% de crescimento em 2014, número próximo à estagnação, com consequências seriíssimas nas arrecadações estaduais e municipais.

Mas enquanto governadores anunciam cortes na própria carne, como fez o do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), e o de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), Dilma só desossa a carne alheia.

Sequer um Ministério a menos entre os 39, nenhuma redução em bônus, gratificações ou pessoal. Nada. Nem bainha, quanto mais corte. A máquina de Dilma continua igual, obesa e cara.

Suas escolhas expõem a fragilidade dos compromissos que assumiu no Congresso Nacional. Basta um exemplo: prefere agradar 21 deputados do PRB, nomeando para o Esporte o polêmico George Hilton, do que reduzir ministérios inúteis.
Até agora, o ajuste de Dilma limita-se a regras mais rígidas e redução de percentuais pagos aos trabalhadores na pensão por morte, auxílio-doença, abono salarial, seguro-desemprego e seguro defeso, criado para proteger pescadores.

As reformas propostas, que devem vir por Medida Provisória, até poderiam ser louváveis se constitucionais forem, mas nem de longe arranham privilégios dos aboletados no poder. Passam longe do Planalto, da Esplanada, do governo e dos seus.

Representam uma economia de R$ 18 bilhões, pouco mais do que a metade do último aporte R$ 30 bilhões do Tesouro feito para tapar rombos no BNDES. O banco de fomento financiou a construção do Porto de Muriel, em Cuba, fez a alegria de gente seleta como o ex megaempresário Eike Batista e de todas as empreiteiras enroladas com a roubalheira na Petrobras.

Os bilhões que a Petrobras perdeu para a corrupção, em negócios mal geridos e mal explicados, são apenas parte da herança de Dilma para Dilma. Há encrenca para todo lado, com faturas já preparadas para os brasileiros pagarem. Estão previstos aumentos de energia, gás, combustíveis. Mais impostos.

No caso da petroleira, Dilma atribuiu todos os males a predadores internos e inimigos externos. Nada disso. Quem matou a charada foi Paulo Ferraz, em um comentário no Facebook: são inimigos íntimos. Ou amigos íntimos. E esses são imexíveis.

Os Ninguéns


As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.
Eduardo Galeano

Por que Dilma não revela os 'inimigos' externos da Petrobras?



Até agora nenhum dos acusados denunciou inimigos externos responsáveis pelo seu colapso

A presidenta Dilma Rousseff em seu discurso de posse perante o Congresso fez uma afirmação grave, uma das mais importantes de seus 40 minutos de discurso, e que causou perplexidade. Falou que existem “inimigos externos” que conspiram contra a Petrobras, a grande petroleira brasileira hoje sofrendo grande humilhação da Justiça e da Polícia Federal por ter sido descoberto em seu interior o maior escândalo de corrupção política e empresarial da democracia. E garantiu que está disposta a combatê-los.

Não revelou, no entanto, quem são esses famosos inimigos que decidiram causar a crise na importante petroleira. Por que esse silêncio?

Fez bem, Dilma, em tecer os elogios à que já foi a joia da coroa da indústria brasileira fora e dentro do país. Fez bem em prometer que deseja extirpar o câncer que corrói a Petrobras, que tem, entre os diretores e gestores nomeados por ela ou seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, alguns que estão na prisão acusados de ter subtraído da empresa bilhões de dólares para alimentar o partido do governo ou partidos aliados, além de terem enriquecido pessoalmente, como estão revelando os interrogatórios da Justiça.

Ocorreu, porém, um lapso grave da presidenta em seu discurso, como puseram em evidência os analistas políticos, no fato de ter mantido o silêncio e suspense em relação a esses misteriosos “inimigos externos” da Petrobras.

É estranho porque a tentativa de lançar sobre inimigos externos os males de um governo costuma ser patrimônio de democracias frágeis, inseguras, dominadas por populistas ou ditadores incapazes de fazer autocrítica de seus erros.

Não é o caso do Brasil, que, como a própria presidenta destacou, goza de uma democracia onde funcionam com liberdade os três poderes e todas as instituições.

Os cidadãos brasileiros e todos os que têm ações da empresa, que perdeu 60% de seu valor, têm o direito, portanto, em respeito à democracia que desfrutam, de conhecer quem são esses inimigos de fora da Petrobras que os levaram a perder parte de seu patrimônio.

Pelo que até agora estão descobrindo tanto a Polícia Federal como os promotores e juízes federais por meio dos interrogatórios e das delações premiadas, esses inimigos ficaram aninhados durante anos dentro da empresa, foram escolhidos pelo governo, às vezes para agradar aos partidos aliados, e eles mesmos estão revelando que o demônio que tentou a Petrobras estava dentro, muito dentro, e não fora.

Nenhum deles, nem sequer os empresários opulentos que faziam seus cambalachos com a empresa para obter benefícios –altos dirigentes que continuam na cadeia –, acusou nenhum inimigo externo pelos males que prejudicaram a Petrobras e a levaram a perder valor e prestígio.

Já que a presidenta preferiu o silêncio sobre esse enigma dos “inimigos externos”, cabe imaginar que poderia referir-se, por exemplo, aos meios de comunicação que trouxeram a públicos os escândalos hoje confirmados pelos juízes.

A liberdade da mídia, porém, de trazer a público os escândalos do poder não só não pode ser vista como “inimiga” da Petrobras, mas, pelo contrário, como um estímulo a mais para ajudar o governo a corrigir os graves casos de corrupção, cada vez mais numerosos e graves.

Quantos desses escândalos teriam ficado ocultos para sempre, impunes, sem a colaboração dos meios de comunicação, cuja missão em uma democracia é a de ser uma das instituições que vigiam o poder? A experiência nos ensina que poucos, talvez nenhum, dos casos de corrupção denunciados pela imprensa brasileira nos últimos 20 anos eram falsos.

Leia mais o artigo de Juan Arias


sábado, 3 de janeiro de 2015

As duas Dilmas


Da existência de dois Brasís, o dos ricos e o dos pobres, ninguém duvida desde Pedro Álvares Cabral. O inusitado, agora, é reconhecermos também a realidade de duas Dilmas. Não deixam dúvidas seus pronunciamentos no Congresso e no parlatório do palácio do Planalto, ao tomar posse pela segunda vez. A presidente declarou: “Nenhum direito a menos! Nenhum passo atrás!” Referia-se à legislação trabalhista.

Ora bolas! Dois dias antes ela havia enviado Medida Provisória ao Legislativo, cortando pela metade o abono salarial, o seguro-desemprego, o auxílio-doença, as pensões por morte do cônjuge e até os benefícios aos pescadores impedidos de pescar. Qual das duas Dilmas será a verdadeira?

O processo de redução das prerrogativas sociais foi iniciado faz muito, nos idos de 1964, prolongando-se até o momento em que, imaginávamos, seria estancado, com a ascensão do governo dos trabalhadores. Presumia-se, até, o restabelecimento de alguns direitos trabalhistas, como a estabilidade no emprego.

Adianta pouco ou nada constatar que as supressões acima citadas estão longe de significar meros ajustes e eliminação de excessos, como quer o governo. Foi supressão mesmo, ou seja, abre-se outra vez o saco de maldades. Só que Dilma, depois de suprimir, tripudia: “Nenhum direito a menos!” “Nenhum passo atrás!” Quem garante?

O grotesco nessa farsa está no silêncio da CUT e do PT. Nenhuma voz sindical ou partidária foi ouvida daqueles que tinham por obrigação defender o trabalhador. Por ironia, foram os tucanos a protestar, eles que nos tempos de Fernando Henrique Cardoso fartaram-se de reduzir direitos sociais. A conclusão é de estar abandonada a classe operária, precisamente pelos que deveriam guardá-la.

Múltiplas contradições podem ser pinçadas no discurso da presidente da República, ficando a impressão de ser outro o país que ela governa. O que será, na concepção dela, o “menor sacrifício possível” a ser exigido pelo ajuste fiscal que vem por ai?

Pronto a explodir


Quando o cretino abre a boca...

A política é feita para servir. A imensa maioria dos nossos companheiros, ministros e assessores trabalha aqui por amor, trabalha aqui para servir. Nós não somos ladrões. (...) É verdade que há entre nós aqueles que tombaram e aqueles que caíram nos erros. Diferentemente de antes, cada um de nossos companheiros que cometeu um erro foi punido, pagou um preço doloroso para nós, mas pagou o preço e isso eu espero que sirva de fato para um novo padrão republicano

Ex-ministro Gilberto Carvalho, o mesmo que promoveu a primeira visita ao papa Francisco, em Roma, um bonde presidencial que custou quase R$ 300 mil de hospedagem em hotel de luxo. Se não roubou, abusou do dinheiro público para “abençoar” a imagem de Dilma. Com José Eduardo Cardoso, da Justiça, formou a dupla Cosme e Damião para blindar a presidente tascando o pau em uns e outros. E isso foi pouco porque a operação Pronto Emprego da PF sumiu do mapa e se faz de tudo para enterrar o caso de Celso Daniel. Agora vai desfrutar da sua “quitinete rural” (????) 

Apelo a Sua Santidade, o papa Francisco

Minha geração já assistiu a diversos milagres políticos. Um deles foi o desmonte do socialismo real no Leste Europeu, que provavelmente não teria ocorrido, naquele momento, se não fosse a liderança moral do papa João Paulo II. Com seu sentimento polonês, ele teve papel fundamental no despertar da necessidade das mudanças que as forças sociais empurravam nos países daquela área.

Nesses dias, o milagre foi a retomada das relações diplomáticas entre dois povos que viviam como inimigos a poucos quilômetros de distância, sem que um conseguisse vencer o outro. Nem os Estados Unidos estrangularam Cuba pelo uso do poder econômico, nem Cuba estrangulou os EUA com guerrilhas na América Latina.

O reatamento das relações diplomáticas entre EUA e Cuba, que um dia ocorreria pela pressão das forças sociais nos dois países, não teria acontecido agora sem a ousadia tanto do presidente Barack Obama quanto do presidente Raúl Castro, e sem, sobretudo, a força moral, aliada ao sentimento latino-americano, de Sua Santidade.

O mundo inteiro reconhece o papel de Sua Santidade na quebra do impasse de cinco décadas entre os dois países. Mesmo com a força política dos dois presidentes, as forças sociais não definiriam o momento; poderiam ficar represadas por outras décadas, até que um gesto as despertassem.

No Brasil, passamos por isso. A desigualdade que nos envergonha, a violência que nos mata, a corrupção que nos rouba recursos, a ineficiência que nos estrangula. Tudo isso pressiona para que algo ocorra e permita nosso salto para uma sociedade eficiente e harmônica. Sabemos o que é preciso fazer, sabemos como fazer, temos os recursos para isso, falta que as lideranças políticas se indignem, colocando a moral à frente da política, e a política tomando decisões decentes quanto ao uso dos recursos dos quais dispomos.

Mas parece que internamente não estamos conseguindo esse despertar. Agimos barrando a vontade das forças sociais, e não a favor delas.

Precisamos reatar as relações entre nossas classes sociais. E o caminho é colocar todas as nossas crianças em escolas com qualidade e com a mesma qualidade: os filhos dos pobres em escolas tão boas quanto as escolas dos filhos dos ricos. As forças sociais buscam isso, na ânsia de fazer com que o Brasil seja um país eficiente, justo, decente e com liberdade individual plena. Mas a política não se sensibiliza.

Aparentemente, há um divórcio entre a ansiedade das forças sociais, querendo um país melhor no futuro, e o comodismo das forças políticas, que querem apenas administrar improvisadamente o presente. Por isso, meu apelo a Sua Santidade: escreva aos líderes políticos brasileiros, do governo e da oposição, como fez para os líderes de Cuba e dos EUA, e fale da necessidade do reatamento social. Talvez Sua Santidade consiga nos despertar, como fez com os presidentes Obama e Castro.

O Ano Novo é um bom momento para isso.

A dúvida


Esse tempo seco da vida


Parafraseando o poeta, eu diria que, apesar de tudo, amanhã de manhã já será outro dia... Outro ano, melhor dizendo. O tempo está passando depressa, como se fosse um caminheiro andante seguindo num rumo certo, quem sabe, o rumo do sertão, à procura daquela cruz abandonada que o poeta maior aconselhou deixar em paz na solidão...

Divaguei, mas é sempre assim quando me deparo com o tempo. Quando me deparo... E, por acaso, pode-se viver fora dele? Nem morto... O tempo é uno, não passa, nós é que passamos por ele, repito. E, se ele passasse, para onde iria? Para a eternidade? Sim, mas onde fica isso? Isso é assunto para filósofos da categoria de um ex-Luiz, Rosemére, Erenice, Palocci, Genoino, Youssef “et caterva”...

Gosto do diálogo interior, o que, às vezes, me coloca em conflito, mas faz que eu nunca esteja sozinho, pois estou sempre conversando comigo. Quando comecei falando em tempo seco da vida, não pensei na falta de chuvas por que passamos. Até não compreendo a preocupação das autoridades públicas com uma possível falta d’água num futuro que nunca será de alguém. O mundo é água. Eu e você também. Tudo é água, inclusive a vida... Os políticos em geral e, em particular, os atuais governos criam ameaças para disfarçar sua incompetência e amedrontar o cidadão – esta a pior forma de dominação: pelo medo. O mundo pode até acabar por excesso de água – como, aliás, dizem que acabou, quando da Arca de Noé –, nunca por falta. Agora, a preocupação é com o sistema Cantareira, em São Paulo. De quem a culpa? Dos políticos, claro, não da natureza. Esquecem eles, uns mais que os outros, que a variação do clima é normal. Se fizermos um estudo sobre a média anual de precipitação, constataremos que em um ano chove muito e em outro chove menos, mas, na média, fica tudo igual. A população é que aumenta em ritmo geométrico e, como consequência, o consumo aumenta. Políticos, em geral, têm visão curta; estadistas é que enxergam distâncias, mas essa classe de gente é cada vez mais escassa.

Na vida tudo passa e tudo passará; nada fica e nada ficará, diz um cantante... Nós, brasileiros, já fomos um povo melhor e, há muito, sofremos dos males das multidões. Já somos um povão de muito mais de 200 milhões de almas. Também é verdade que são muitos os desalmados. Parece que a cada dia mais enfraquece nosso sentimento de solidariedade e nosso orgulho de ser aquele povo humilde de que fala Chico Buarque, com aquela tristeza no peito, feito despeito de não ter como lutar e que dá até vontade de chorar...

Neste último dia do ano, não vou lembrar as desgraças que tanto nos magoam. Abstraio e fico pensando como tudo poderia ter sido diferente. Enquanto isso, desejo felicidades para todos nós, ainda que sejam petralhas... Eu ficarei ouvindo a sanfona pé de bode, zoando em minha saudade, como diz o poeta no sertão.

“Ex-corde”, até mais ver...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

E ela tossiu


Dilma esqueceu de descer do palanque!


Faltaram verdades no discurso. Sobraram falácias

Eis o nó da questão: Dilma 2 tentará compatibilizar o ambicioso ajuste fiscal concebido por sua nova equipe econômica com a preservação das conquistas sociais alcançadas por Lula 1 e 2 e Dilma 1.

A certa altura do seu discurso de posse, ontem, no Congresso, disse a presidente reeleita:

- Mais que ninguém eu sei que o Brasil precisa voltar a crescer. Os primeiros passos desta caminhada passam por um ajuste nas contas públicas, um aumento na poupança interna, a ampliação do investimento e a elevação da produtividade da economia. [...] Faremos isso com o menor sacrifício possível para a população, em especial para os mais necessitados. Reafirmo meu profundo compromisso com a manutenção de todos os direitos trabalhistas e previdenciários.

Palavras ao vento...

Dilma é economista por formação. E sabe que o arranjo das contas públicas atingirá de alguma forma as contas particulares de muita gente. Dos mais pobres, inclusive. Daí... Daí que ela sofisma.

Não sei de onde os mais puros de coração tiram a certeza de que políticos que mentem durante campanhas dizem a verdade depois que se elegem. Negativo.

Faltaram verdades mesmo que incômodas no discurso de Dilma e sobraram falácias.

Dilma afirmou, por exemplo, que o Brasil é a sétima maior economia do mundo. Omitiu que era a sexta maior economia quando seu primeiro governo começou.

“Governo novo, ideias novas” cedeu a vez a “Brasil, pátria educadora”, nova palavra de ordem a orientar o governo de caras velhas e de ideias repetitivas.

Nem o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do governo Getúlio Vargas no século passado teria sido capaz de imaginar um slogan tão antigo.

Não faltou lugar no discurso para o mantra da reforma política. Nem para a quimera da corrupção que pede para ser extirpada. Mantra e quimera que frequentaram em 2011 o discurso de posse de Dilma 1.

Faltou lugar no discurso para que Dilma fizesse algum aceno à oposição. Com mais razão ainda por ter sido reeleita por uma margem estreita de votos.

Cadê o “diálogo” que pontuou uma dezena de vezes o discurso da vitória de Dilma em outubro do ano passado?

O gato comeu. Ou a arrogância de Dilma.

A presidente reeleita comportou-se no Congresso como a candidata à caça de votos. Esqueceu-se de descer do palanque.

Foi incapaz de pronunciar uma frase inspiradora. De propor um desafio instigante. De arrancar aplausos entusiasmados da assistência.

O que é “um grande pacto nacional” para combater a corrupção? Não explicou.

O que significa defender a Petrobras dos seus inimigos internos e externos? De que modo fará isso?

Blábláblá!

De fato, Dilma perdeu uma preciosa oportunidade de inspirar confiança a seus governados.

Dois em um


Não há Dilma sem Lula e até 2018 não haverá Lula sem Dilma. Eles não podem se aproximar a ponto de parecer que ela não governa, nem se distanciar a ponto de a doutora dispensar o carisma de Nosso Guia. (...)As almas intercambiáveis permitem a Lula e Dilma serem ao mesmo tempo governo e oposição.
Elio Gaspari

As máscaras no chão



As máscaras não caíram porque já estavam no chão faz muito tempo. No caso, máscaras da presidente Dilma, do PT, do Lula e até de parte da mídia. No crepúsculo do ano, o governo dos trabalhadores aproveitou para suprimir mais algumas fatias dos direitos trabalhistas. Claro que na recente campanha presidencial, foram eles que acusaram Aécio Neves e o PSDB de, se eleitos, dilapidarem o que restou da herança social um dia estabelecida por Getúlio Vargas. Pois garantido o segundo mandato, partiram para demonstrar sua desfaçatez e falta de vergonha. Com o adendo de aguardarem o recesso do Congresso para anunciar as maldades, evitando críticas.

Perderiam a eleição se tivessem afirmado durante a campanha que cortariam pela metade o abono salarial a que todo trabalhador faz jus, quando recebe até no máximo dois salários mínimos. A partir da entrada em vigência da nova Medida Provisória, ontem, não basta ao miserável haver no ano anterior trabalhado um mês em determinada empresa. Exige-se, agora, seis meses.

Destroçaram, também, o seguro-desemprego, que ampara quem foi mandado embora sem motivo justo depois de seis meses com carteira assinada. De agora em diante só recebe o seguro-desemprego quem trabalhou no mínimo 18 meses.

O auxílio-doença terá fixado um teto para quem dele precisar valer-se, não mais pela média dos oitenta últimos salários, mas algo bem menor.

As pensões por morte do cônjuge até hoje eram integrais e vitalícias, mas passam a ser cortadas pela metade, acrescendo que para recebê-las a viúva ou o viúvo precisarão provar que o ente falecido contribuiu no mínimo por dois anos para a Previdência Social. Isso se tiverem dois anos de casamento ou união estável. E mais de 35 anos. A nova regra vale para os funcionários públicos.

Mas tem mais, nesse saco de maldades: o pescador artesanal deixará de receber automaticamente um salário mínimo no período em que a pesca é proibida. Perderá o benefício se não provar três anos de profissão anteriores e se não estiver contribuindo para a Previdência Social há um ano.

É bom nem fazer as contas sobre quantos milhares de trabalhadores serão atingidos nesse patamar que a dignidade humana deixou para trás. Legisla-se para pior em torno da mentira do salário mínimo. Como Dilma, Lula, Mercadante e todo o bando jamais souberam o que é viver com o salário mínimo, lavam as mãos e dão de ombros.

O grave em mais essa investida contra os direitos do trabalhador é que a CUT não protestou. Assim como a chamada grande imprensa até aplaudiu. Sem tirar nem pôr, desde o governo Lula que o PT segue a cartilha neoliberal, ou seja, dificuldades econômicas se enfrentam às custas dos mais humildes. Estes que paguem a conta através da supressão de direitos, cortes nos projetos sociais, aumento de juros e desemprego. O perfil do segundo mandato vai-se desenhando e é horrível.

Carlos Chagas


Patética, Dilma tenta assumir 'autoria' do combate à corrupção

Não há mais dúvida. A presidente Dilma Rousseff inspira cuidados e precisa de terapia, o mais rápido possível. No primeiro pronunciamento do segundo mandato, a chefe do governo mostrou que está vivendo num mundo à parte, que nada tem a ver com a realidade da conjuntura negativa que o país atravessa.

Ela se comporta como se estivesse permanentemente em campanha eleitoral e governar fosse apenas um detalhe. Em seu longo e enfadonho discurso de posse, delirou à vontade, discorrendo sobre o que considera as grandes conquistas do “extraordinário trabalho” do ex-presidente Lula e dela própria, como se o país estivesse às mil maravilhas.

Esquecida de que não tem recursos para nada e o governo está até cortando direitos sociais dos trabalhadores, Dilma anunciou o imaginário lançamento do PAC-3, como se tivesse concluído as prometidas obras do PAC-1 e do PAC-2. Vamos então conferir as delirantes promessas da presidente:

“Agora, vamos lançar o terceiro PAC, o terceiro Programa de Aceleração do Crescimento e o segundo Programa de Investimento em Logística. Assim, a partir de 2015 iniciaremos a implantação de uma nova carteira de investimento em logística, energia, infraestrutura social e urbana, combinando investimento público e, sobretudo, parcerias privadas. Vamos aprimorar os modelos de regulação do mercado, garantir que o mercado privado de crédito de longo prazo, por exemplo, se expanda. Garantir também que haja sustentação para os projetos de financiamento de grande vulto”, disse ela, como se fosse possível obrigar os bancos a fornecerem empréstimos de longo prazo com juros baixos, como faz o BNDES.

Lendo o discurso escrito pela criatividade dos marqueteiros do Planalto, Dilma viajou ao descrever um país irreal, imaginário, em que tudo está dando certo e não existem maiores problemas. O mais grave, porém, foi tentar assumir a autoria do combate à corrupção, quando na verdade ela fez exatamente o contrário em seu primeiro mandato, reduzindo as verbas da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União, conforme ficou claro no pronunciamento com que o corregedor Jorge Hage recentemente pediu demissão, alegando impossibilidade de executar suas obrigações funcionais.

Vejam o que disse essa incansável caçadora de corruptos, que convive amigavelmente com eles e na semana passada recebeu sigilosamente no Palácio da Alvorada o mensaleiro José Dirceu para um longo entendimento:

“Democratizar o poder significa combater energicamente a corrupção. A corrupção rouba o poder legítimo do povo. A corrupção ofende e humilha os trabalhadores, os empresários e os brasileiros honestos e de bem. A corrupção deve ser extirpada.

O Brasil sabe que jamais compactuei com qualquer ilícito ou malfeito. Meu governo foi o que mais apoiou o combate à corrupção, por meio da criação de leis mais severas, pela ação incisiva e livre de amarras dos órgãos de controle interno, pela absoluta autonomia da Polícia Federal como instituição de Estado, e pela independência sempre respeitada diante do Ministério Público. Os governos e a Justiça estarão cumprindo os papéis que se espera deles: se punirem exemplarmente os corruptos e os corruptores.

A luta que vimos empreendendo contra a corrupção e, principalmente, contra a impunidade, ganhará ainda mais força com o pacote de medidas com o qual me comprometi durante a campanha, e me comprometo a submeter à apreciação do Congresso Nacional ainda neste primeiro semestre”, afirmou a criativa presidente Dilma, que mais parece o professor Pangloss imortalizado por Voltaire

Resumindo: o problema é grave. Nossa governante está mesmo necessitando de terapia, para voltar ao normal e enxergar o que está acontecendo à sua volta. Seu comportamento é tão patético que nem mesmo Freud conseguiria explicaria. Vai ser preciso convocar uma junta médica.