sábado, 27 de outubro de 2018
Os próximos dias do resto da nossa vida
Como foi possível que, na segunda década do século 21, a disputa presidencial transcorresse como se o País ainda estivesse no século 20? Suas elites políticas e intelectuais ignoraram os sinais de que algo estava a fermentar nos subterrâneos da vida social. Nada se discutiu de substantivo, nenhum mapa cognitivo saiu dos debates, nenhuma luz iluminou o eleitorado, que chegou às urnas enfeitiçado por pregações mágicas e regressistas, alheias ao razoável, mudas diante dos desafios que se abrem para o futuro.
O resultado foi a ampliação dramática das divisões políticas e do desentendimento social.

Tornamos inviável o centro político, a inteligência e a moderação, em benefício da estridência reacionária, da agitação irresponsável, do apelo a um passado mitificado. O oportunismo, a demagogia e a prevalência de interesses mesquinhos tomaram o palco de assalto, marginalizando as demais candidaturas. Sobraram os antípodas, que se escolheram reciprocamente, impelidos por uma ordem social despedaçada e sequiosa de “segurança”, um o espelho invertido do outro.
Nenhuma vitória terá força suficiente para desprezar esse quadro social. O vencedor e sua oposição terão de negociar, dialogar, contemporizar. Um pacto terá de ser costurado.
Se Haddad vencer, será uma vitória da resiliência democrática e do poder das redes. Na semana derradeira, as mensagens pró-Haddad e uma militância determinada deram-lhe o gás que faltava. Não será uma vitória do PT. O partido, porém, cuidou de armar uma nova narrativa para si: sai o Lula perseguido pelo golpe, entra o “fascismo fraudulento” de Bolsonaro, impulsionado pelo pânico que impregnou a alma de muita gente.
Se o vitorioso for Bolsonaro, pode-se esperar qualquer coisa, um enigma. A nova narrativa petista encontrará ressonância numa sociedade machucada por tantas divisões políticas e partidárias. Será como acender um fósforo diante de um baú de dinamite. O governo Bolsonaro não terá sossego. Mas a esquerda que a ele se opuser desse modo também não conseguirá reorganizar-se para cumprir uma função democrática e reformadora. Permanecerá amarrada numa cultura negativa, de “resistência”, vocacionada para dividir e diferenciar mais do que agregar e unificar.
Não dá para cravar que o eventual governo Bolsonaro levará o Brasil para uma ditadura fascista. Os componentes fascistoides exibidos durante a campanha terão de passar pela prova dos fatos. Uma escolha terá de ser feita: ou jogar o País num regime de força e na histeria social desagregadora, ou buscar a reconciliação. Neste segundo caso, Bolsonaro terá de arquivar a retórica belicista e reacionária. Sem isso seu governo submergirá. Precisará dissolver sua própria folha de serviços hostil aos direitos e às liberdades civis. Terá de ser o estadista que não apareceu durante a campanha.
Uma Presidência mais democrática, como a que promete Haddad, deixará o País parecido com o que se conhece, mas não necessariamente trabalhará para qualificar a democracia. Primeiro, porque trará consigo outro “mito” igualmente nefasto – o do Lula perseguido e santificado –, que fará a balança pender mais para o Estado do que para a sociedade. Depois, porque o PT poderá voltar ao poder com sangue nos olhos e desejo de vingança, o que ensejará uma reação social ruim para a governança democrática. Também aqui o presidente terá de ser muito mais do que um homem de partido.
O Brasil do próximo ciclo não terá como ser governado sem uma pacificação geral dos espíritos, para a qual o papel do presidente será estratégico.
O novo chefe do Executivo começará a trabalhar com uma democracia de má qualidade, que funciona e tem suas instituições, mas produz poucos resultados naquilo que deveria ser seu alvo principal: educar a cidadania e satisfazer sua expectativa de que as escolhas governamentais sejam justas e eficazes.
O País está despedaçado, os nichos políticos estão “empoderados” de modo insano, cegos para o outro, sem disposição para o diálogo, as divisões ameaçam se prolongar no tempo. Nada disso ajuda a preservar e fortalecer a democracia. Os problemas econômicos, infraestruturais, educacionais, relacionados à saúde e à proteção social são desafiadores. A próxima legislatura parlamentar é uma incógnita: os partidos estão enfraquecidos e a composição do Congresso Nacional combina a manutenção de algumas famílias tradicionais com uma chusma de novas figuras de quem não se conhecem o perfil e a densidade democrática.
O País continuará surpreendendo, com sua força, sua população, suas conquistas. Foi assim durante todo o século 20. De algum modo, ainda que por vias tortas, haverá política. E nela os democratas haverão de depositar suas fichas. A “pequena política” – concentrada no jogo miúdo do poder, na destruição dos adversários, na chantagem – terá de se encontrar com a “grande política”, voltada para a recomposição da comunidade política.
O futuro será comprometido se perdermos essa perspectiva e continuarmos a alimentar as divisões perfunctórias, a competição pelas migalhas do poder, a lógica partidária que mal consegue permanecer de pé, a retórica de “guerra”.
O importante é que nossa emoção sobreviva, amanhã há de ser outro dia, dizem os poetas. Somente a perspectiva da política democrática resolverá o problema de saber quem somos, por que estamos juntos e o que queremos alcançar.
Vai passar...
A democracia está sendo desafiada, mas que não há céu tempestuoso que resista a ela. Ela não vence por nocaute, mas com toda certeza vence por pontos. Desde que bata mais na velha ordem, velha mentalidade, do que apanhe. É o que está acontecendo. Essa chuva ácida vai passar com toda a certezaCarlos Ayres Britto, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal
Redução de danos
Não podemos perder de vista o chamado espaço amostral. O mundo já produziu várias dezenas de líderes populistas e apenas um Hitler. É mais provável que o capitão reformado se revele mais um populista medíocre do que um gênio do mal.

Como já disse aqui, o tamanho da regressão que uma ainda provável administração Bolsonaro significará depende de nossa capacidade de organizarmos as linhas de defesa das instituições liberais. O futuro pode parecer sombrio, mas nem o Brasil, nem a democracia estão perdidos. A democracia, ao contrário da gravidez, não é um estado binário, que existe ou não existe. Ela pode ser mais ou menos completa e resiste a algum nível de agressão.
Em certas áreas experimentaremos retrocessos. Preocupam-me em especial o meio ambiente e a pauta dos costumes. Ainda que não tenha maioria nominal no Parlamento, Bolsonaro não encontraria dificuldades em conseguir com as bancadas ruralista e religiosa os votos necessários para relaxar controles ambientais e aprovar iniciativas legislativas de grupos conservadores.
Não penso, porém, que seria tão fácil alterar o funcionamento dos Poderes e do sistema político (deputados e senadores são beneficiários das regras vigentes) nem obliterar os direitos e garantias fundamentais, o que seria necessário para caracterizar uma escalada autoritária de fôlego.
O STF tem se mostrado dividido nos últimos anos, mas creio que se manteria unido em torno dessas questões, sobretudo se encontrar respaldo da sociedade civil.
Redução de danos é o conceito em torno do qual precisamos nos pautar.
O povo é o eterno culpado
Criada para traçar um perfil das vítimas como instrumento para explicar a motivação de um crime e o comportamento de criminosos, a técnica da vitimologia tem sido empregada na análise do comportamento político, quando se trata de explicar um resultado eleitoral inesperado: prendam-se os suspeitos de sempre.
Ora, não é razoável acusar o eleitorado pelo resultado das eleições, porque o voto não é uma escolha de livre-arbítrio do eleitor, mas, sim, uma opção limitada por uma agenda que lhe é imposta pelo sistema eleitoral, pelo sistema partidário que dele decorre e pelas cúpulas partidárias, pressionadas mais pelos interesses da classe dirigente do que pelo clamor popular. A liberdade política do cidadão brasileiro pode ser considerada uma liberdade condicionada.

O voto popular limita-se a responder a uma agenda compulsória, construída de cima para baixo, não é uma livre escolha. A pesquisa sobre comportamento eleitoral tem foco na descrição estatística, ou na interpretação “qualitativa” de variáveis presentes nas respostas dos eleitores, mas nada ensina sobre o processo político que criou o leque de escolhas que lhe são impostas. É como um experimento em que se consideram as respostas, ignorando inteiramente os estímulos que lhes deram origem.
Parte-se sempre do perfil do eleitor, pressupondo que o povo é o único fator que determina o resultado das urnas. O processo eleitoral envolve, porém, uma interação complexa entre dimensões mais ou menos independentes entre si. Entre outras, elas incluem variáveis relativas à história política, à percepção desse contexto político pelos atores envolvidos e atitudes, expectativas e reações que daí resultam, diante das candidaturas em jogo.
Minha hipótese é que o comportamento dos eleitores é determinado pela maneira como o povo percebe a evolução do processo político, isto é, para onde caminham as ameaças ao bem-estar e à liberdade do povo, em face da ganância e da paixão de poder dos Grandes (tal como as define Maquiavel). O eleitor comum escolhe entre quais candidatos, partidos, novas políticas adotadas ou revogadas são percebidos como ameaça ao bem-estar e à liberdade do cidadão – isto é, mantêm e ampliam os privilégios e a corrupção dos poderosos – e quais, ao contrário, são percebidos como barreiras contra a opressão e a exploração do cidadão comum pela classe dirigente. No presente caso, desde as revelação dos escândalos do mensalão a classe política como um todo tem encarnado, na percepção popular, toda a malignidade dessa ameaça à vida, à honra e aos parcos bens que garantem a sobrevivência da imensa maioria.
Essa percepção não é cristalina. É mediada pelos partidos e movimentos de opinião, e raramente se expressa numa imagem única – como, por exemplo, a percepção da inflação, do desemprego, do empobrecimento, da corrupção da máquina pública, da insegurança, da degradação moral. Essas “preferências” populares são tudo menos nítidas e unívocas. São, ao contrário, difusas e equívocas.
Com isso, as análises do processo eleitoral não captam o caráter único do caso presente. Não lhes vem à mente que há cinco longos e sofridos anos o povo brasileiro tem manifestado, reiteradamente, sua indignação quanto à maneira como tem sido governado.
Diante do desprezo cego, surdo e mudo dos governantes, e do silêncio envergonhado das candidaturas, continuam prometendo creches, hospitais, metrôs, que todos sabem que não serão construídos, se o forem, não vão funcionar, se funcionarem, não vão atender decentemente ao povo. Uma garantia de mudança da política e dos políticos, desde que minimamente crível, seria o único caminho para disputar a maioria do eleitorado indignado com tudo e com todos.
Defender a continuidade, embora com mais eficiência, experiência, ou vinho novo em velhas barricas foi, contudo, o caminho do suicídio dos partidos tradicionais. Nesse caminho, o PT foi mais longe, porque encarnou, como os demais, a continuidade da velha política, mas defendeu também o retrocesso, ressuscitando o velho programa radical, de 30 anos atrás, com que Lula perdeu três eleições seguidas. Seu fraco desempenho no primeiro turno não foi pior porque se beneficiou da polarização contra Bolsonaro.
Como o PT, Bolsonaro também se beneficiou da polarização e, como os políticos tradicionais, tampouco deu qualquer resposta concreta, mas foi o único a vociferar contra tudo e contra todos. Com isso, sua falta de rumo e de propostas permitiu que encarnasse a mudança a todo custo. Tornou-se um candidato-ônibus: oferece lugar para todos e vai em todas as direções. Sua candidatura pode, assim, acolher uma multidão de eleitores motivados por ameaças diversas, ignoradas ou desprezadas pelas lideranças tradicionais. Note-se, entre as ameaças percebidas por eleitores de Bolsonaro, o temor do patrulhamento que acompanhou políticas discriminatórias adotadas por governos petistas. Assim, parcela não desprezível de seus eleitores não se identifica necessariamente com ideologias extremas nem com a retórica de ódio dominante em sua campanha.
Em suma, o resultado da eleição não é determinado pelo eleitor, que apenas reage a um cenário que lhe é imposto. Tampouco o voto em um ou outro candidato cancela a indignação generalizada contra a política e os políticos e, portanto, não oferece um cheque em branco. O presidente a ser empossado no dia 1.° de janeiro não gozará uma lua de mel, mas um sursis, com curtíssimo prazo para cumprir, de mãos atadas, uma agenda tão extensa e multifacetada como suas promessas.
Às gerações perdidas
A radicalização imposta seguidamente por um esquerdismo de araque fez propalar entre os ignorantes o estigma mesmo do que não se é. Jovens agora, conforme a cartilha que lembra bem os anos de chumbo dos sovietes, nada mais parecido com a juventude hitlerista, passeiam pelas ruas imbuídos do mesmo arroubo de quem conhece o tipo de eleitor pela cara.
A polarização das últimas campanhas criou raízes e vai perdurar por muito tempo em meio à ignorância dos que têm as falhas de formação e escolar. É o legado político ou herança maldita que governos, em seus baronatos, continuam a sustentar para assegurar suas imunidades e impunidades administrativas.

Embora o senhor citado na frase nem seja bolsonarista, por não aceitar o governo de uma incógnita folclórica, nem petista, por não compactuar com o continuísmo da pilantragem explícita, foi tachado como em outras épocas os ”judeus” eram todos aqueles que não tivessem características arianas.
A violência verbal das jovens lembrou o ataque vivido por Moacir Werneck de Castro, citado em “Europa 1935 uma Aventura de Juventude”, quando o jornalista e escritor brasileiro leva uma surra de um bando de pivetes nazistas.
Os tempos, segundo apontam alguns, são nebulosos, mas a pichação verbal é a mesma. Há uma agressividade pelo ar que tem responsáveis bem conhecidos por incutir a divisão como arma de assegurar o poder acima de qualquer suspeita.
O radicalismo não tem cor, credo, partido, gênero. É apenas crime, venha de onde vier. A instabilidade política destas eleições reflete o longo período sob cretinice explícita em todos os setores, que nadaram de costas num mar de sofrimento de olho no céu de brigadeiro de garantias políticas.
O Brasil ainda terá infelizmente que conviver com essas ações criminosas por tempos, inoculada que foi para uma grande massa, em particular de jovens, por sua maior maleabilidade. É o castigo por acreditar em deuses de francaria.
Luiz Gadelha
Ao vencedor, as batatas quentes do momento
(É incrível como, de repente, ninguém mais fala de Michel Temer, Aécio Neves, PSDB, MDB e demais atores implicados com os mesmos problemas, afogados no mesmo rio e atolados na mesma lama.)
O resultado só não está definido com a vitória do bolsonarismo porque o Brasil é o país dos fatos mais improváveis. O ex-capitão e sua turma falam demais e, em virtude disto, tudo pode acontecer. O PT não jogou a toalha e ainda acredita numa virada, numa onda, numa vibração de chegada. Ao longo da semana muita gente se mobilizou, se não por amor a Fernando Haddad, em razão do medo aguçado pela retórica de Jair Bolsonaro e dos seus.
Mas, independente de surpresas, a realidade é que quem vier a vencer a disputa não vencerá de lavada, não será massacrante, nem consagrador. A quantidade de indivíduos contrariados com o resultado será enorme, nada desprezível. Improvável que se resignem imediatamente com o resultado. O país sairá dividido. E, para o eleito, não será inteligente apostar no aprofundamento dessa fratura.
Bolsonaro e Haddad tentaram expressar alguma moderação ao longo da última quinta-feira. Já perceberam que o vencedor não levará tudo. O certo é que, mais que em eleições anteriores, o discurso da vitória será de fundamental importância.
Em 2014, Aécio não ligou para Dilma, reconhecendo a derrota, se não para lhe desejar sorte, pelo menos parabenizando-a protocolarmente. Dilma, ainda mais imprudente, no primeiro pronunciamento que fez como presidente reeleita, recusou-se em ao menos citar o nome do adversário. Morreram abraçados à mesma estupidez. Em relação ao país, conhecemos as consequências da birra entre os dois.
Se a Câmara dos Deputados representa o povo e o Senado os estados, a presidência da República simboliza a nação, a unidade nacional. Jurando cumprir a Constituição, um novo presidente reafirma o pacto político. Passando a ser “o presidente de todos os brasileiros”, reparando rachaduras, reconecta os grupos e o país.
Contudo, depois de tudo o que se deu nestes últimos anos, é de supor as dificuldades do derrotado para fazer o gesto de reconhecimento, seja Fernando Haddad seja Jair Bolsonaro. Se assim for, será um péssimo recomeço, ainda que não seja inédito dado o pioneirismo de Aécio.
A tensão da campanha despertou rancores que não ficarão nos palanques, nem serão páginas viradas. Precavidos, os dois lados já construíram narrativas de fraude e trapaça do adversário. De ambos os lados, restaram desrespeito e desconfiança em relação ao outro. Há poucos (ou nenhum) operadores políticos capazes de costurar esses cortes. Embora natural a disputa, processos assim são feridas abertas e purulentas, cobertas de moscas; não somente demoram a cicatrizar, como podem se alastrar pelo corpo.
Por isso, seja quem for, ao eleito caberá a prudência, o comedimento; a humildade na conquista. Para que sua vitória não seja de Pirro — a vitória que arruína —, seu discurso na noite de domingo deverá ser entendido como sincero sinal, se não de aproximação, de convivência respeitosa e democrática. Um esforço para que a guerra eleitoral não persista, então, como outros tipos de guerra ou guerra de verdade.
Se minimante perspicaz, o vitorioso perceberá que a vitória eleitoral não implica em rendição do derrotado, não indica a desforra do ganhador. Antes, requer a consciência de novo acordo onde naturais diferenças são respeitadas. E que o árbitro de qualquer conflito será a lei, não a força.
Se não for por democracia, que seja assim por, pelo menos, a mínima inteligência. Que o próximo presidente, já na noite de domingo, estenda a mão ao invés de tripudiar. Postura de estadista, cuja ausência o país se ressente. Tampouco caberá comemorar ou questionar o resultado nas ruas, de modo triunfal ou furioso. Conveniente será baixar a bola, conter radicais exaltados, não colocar tudo a perder antes mesmo de ter começado.
Compreender que se tratou tão somente de passageira e efêmera vitória ou circunstancial derrota, como deve ser numa democracia. Apenas mais uma. Como tantas que já foram e tantas outras que, espera-se, ainda virão. Ao vencido, apenas a compaixão — sem ódio; ao vencedor, as batatas quentes que lhe cabem no momento.
Carlos Melo
Perguntas
A Covardia pergunta:
– É seguro?
A Conveniência pergunta:
– É oportuno?
E a Vaidade pergunta:
– É popular?
Mas a Consciência pergunta:
– É justo?
– É seguro?
A Conveniência pergunta:
– É oportuno?
E a Vaidade pergunta:
– É popular?
Mas a Consciência pergunta:
– É justo?
Martin Luther King
'Patriazinha'
A poucos dias da eleição que definirá quem vai presidir o Brasil a partir de janeiro de 2019, acordo mais do que nunca apaixonada pelo meu país e morta de pena dele. Há quanto tempo esperamos que o Brasil se transforme no país do futuro…
Não é, como foi imaginado pelos mais ingênuos ou desinformados, o progresso de mais carros nas ruas, mais máquinas de lavar ao lado do tanque, mais celulares nas mãos de todos, mais aviões lotados.. . O que sonhávamos, desejávamos e pedíamos aos céus era o progresso das ideias, dos pensamentos, da ética e da dedicação verdadeira de nossos políticos.
Ainda ecoa em nossos corações a carta-testamento de Getúlio Vargas, quando lá pelas tantas ele diz: “Levo o pesar de não haver podido fazer, por este bom e generoso povo brasileiro e principalmente pelos mais necessitados, todo o bem que pretendia”.
Se Getúlio, um verdadeiro estadista, não conseguiu, como fomos imaginar que o líder hoje encarcerado o faria?
Nem os dois, nem nenhum dos outros que comandaram o país o fez. Pobre Brasil que segunda-feira 29 de outubro de 2018 inicia nova viagem… O que será de nós? Para onde nos levarão? O que farão de nosso país?
Leio e releio o belo poema ‘Pátria Amada’, que Vinícius de Moraes escreveu em 1949, quando servia em Barcelona e sentia muita saudade do Brasil. Eu não estou ausente, como o poeta, estou aqui no Rio de Janeiro onde vivo e que, como a mãe gentil que o pariu também está tão pobrezinho. Mas é ao poeta que recorro para me consolar e reavivar minha esperança:
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!
***
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez…
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez…
***
Agora chamarei a amiga cotovia E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…"
Ao carioca Vinícius que no Céu está, peço que reze pela sua Patriazinha e por nós, seus conterrâneos.
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa
As cidades delgadas
Aquelas que continuam ao longo dos anos e das mutações a dar forma aos desejos e aquelas em que os desejos conseguem cancelar a cidade ou são por estas canceladosItalo Calvino, "as cidades invisíveis"
A mentira é tão velha quanto a política, mas ganhou novos meios
Nas eleições deste ano, os brasileiros estão vivendo isso na prática, e a Justiça Eleitoral admite não saber o que fazer com as chamadas fake news. Enquanto órgãos que deveriam controlar apenas acompanham, quase passivamente, a enxurrada de informações duvidosas, as empresas que servem de meio para essas mensagens enxugam gelo ou dão respostas insuficientes.

O professor de ética e política Milton Meira do Nascimento, do Departamento de Filosofia da USP, explica que a mentira está presente na política desde a Grécia antiga, mas a forma como o espaço político lida com esse discurso mudou com o tempo, e ele perdeu os meios para contradizer uma informação falsa.
"O mundo da política é o lugar do debate e da persuasão, desde a Grécia Antiga. Existia a mentira, mas também um espaço para a argumentação, onde essa mentira era combatida. Quando a democracia moderna, já na formação do Parlamento inglês no século 19, passa a ser construída pela representação política, em vez de se discutir propostas, a política ficou centrada nas pessoas. Assim se perdeu o espaço de debate", diz o professor.
Nascimento lembra ainda que é justamente a falta de um espaço de debate que contribui para problemas atuais, como as notícias falsas difundidas em redes sociais.
"Na filosofia, o ideal socrático assume o compromisso de ir atrás da verdade, de investigar a verdade debatendo e conversando de forma saudável. Sócrates afirma que a busca pela verdade é um processo, mas para isso é preciso um espaço de debate, algo que não ocorre nas redes sociais. No Whatsapp, as pessoas querem apenas uma mensagem rápida, o fluxo só tem um sentido", afirma Nascimento.
Na história recente há diversos escândalos de mentiras orquestradas por governos. Um dos mais emblemáticos do século 20 foi o de informações sobre a Guerra do Vietnã omitidas pelo governo dos EUA. Em 1971, o jornal The New York Times publicou matérias sobre a real participação americana na guerra. A série de reportagens ficou conhecida como Papéis do Pentágono.
Meses depois, a filósofa alemã Hannah Arendt escreveu o artigo Mentira na política: reflexões sobre os Papéis do Pentágono para tratar sobre o tema. "A veracidade nunca esteve entre as virtudes políticas, e mentiras sempre foram encaradas como instrumentos justificáveis nesses assuntos", escreve Arendt.
O caso americano também é citado por André de Macedo Duarte, diretor da agência internacional da UFPR e professor de filosofia da mesma instituição. Ele lembra que ditaduras e democracias abrigaram mentiras.
"O nazismo alemão, o fascismo italiano e o stalinismo soviético utilizaram meios de comunicação para reescrever a história ou para difundir um clima de terror e ódio. Isso também ocorreu nas democracias, quando se descobriu que havia um conjunto de mentiras e histórias distorcidas sobre o Vietnã", comenta.
Voltando a Arendt, ela menciona no artigo sobre os Papéis do Pentágono a forma como não apenas quem recebe a mentira acredita na informação, mas também quem a produz. Isso faz parte do campo da imaginação, explica a filósofa alemã. Ainda no século 4, o filósofo do cristianismo Santo Agostinho já tratava sobre a crença na mentira.
"Dizer uma coisa falsa não é mentira se alguém a crê verdadeira ou se tem opinião formada de que é verdadeiro aquilo que diz", escreveu Santo Agostinho na obra Sobre a mentira: De Mendácio.
Duarte reforça essa questão da crença de quem replica uma informação falsa ao tratar sobre os tempos atuais.
"A produção da mentira exige certa plausibilidade. Não adianta dizer simplesmente que hoje marcianos vão invadir o Brasil porque não cola. É preciso levar em consideração a realidade social e o contexto político para mentir. Por exemplo, o antissemitismo não foi inventado pelo nazismo, ele já estava na Europa. Tinha apenas uma característica diferente na Alemanha, mas existia também em outros países. O antipetismo também não foi criado nesta eleição, já havia um passado de insatisfação com o partido que governou o país nos últimos anos devido aos escândalos da Lava Jato e a economia ruim", explica o professor da UFPR.
Conciliação política é a nova prioridade nacional
Num instante em que o Brasil vive um triste momento — a disputa presidencial entre o candidato ungido pelo padrinho-presidiário e uma chapa puro-sangue militar — vale à pena recordar uma das melhores passagens da história republicana: a conciliação política conduzida por Tancredo Neves. Há 33 anos, o país estava em ruínas. O governo, sem rumo. A mobilização pelas eleições diretas atolara no Congresso, abrindo um fosso entre a rua e o aparato de uma ditadura em fim de linha.
Mal comparando, ocorre agora algo parecido. Se o resultado do primeiro turno serviu para alguma coisa foi para confirmar que há uma irremediável ruptura entre a sociedade e um sistema político que apodreceu. Hoje, como ontem, a prioridade nacional é a conciliação. Sem ela, dificilmente o Brasil terá energias para enfrentar os dramas que o assediam —da ruína fiscal ao desemprego.
Tancredo Neves, como se sabe, chegou ao Planalto morto, para o velório. Deixou escrito o discurso que faria na posse. Haddad e Bolsonaro deveriam ler a peça. ''Esta solenidade não é a do júbilo de uma facção que tenha submetido a outra, mas festa de conciliação nacional'', escreveu Tancredo. ''Nosso progresso político deveu-se mais à força reinvidicadora dos homens do povo do que à consciência das elites'', anotou em outro trecho. ''A história nos tem mostrado que, invariavelmente, o exacerbado egoísmo das classes dirigentes as tem conduzido ao suicídio total'', acrescentou. Nada mais atual do que o discurso que Tancredo não pôde pronunciar.
Mal comparando, ocorre agora algo parecido. Se o resultado do primeiro turno serviu para alguma coisa foi para confirmar que há uma irremediável ruptura entre a sociedade e um sistema político que apodreceu. Hoje, como ontem, a prioridade nacional é a conciliação. Sem ela, dificilmente o Brasil terá energias para enfrentar os dramas que o assediam —da ruína fiscal ao desemprego.
Tancredo Neves, como se sabe, chegou ao Planalto morto, para o velório. Deixou escrito o discurso que faria na posse. Haddad e Bolsonaro deveriam ler a peça. ''Esta solenidade não é a do júbilo de uma facção que tenha submetido a outra, mas festa de conciliação nacional'', escreveu Tancredo. ''Nosso progresso político deveu-se mais à força reinvidicadora dos homens do povo do que à consciência das elites'', anotou em outro trecho. ''A história nos tem mostrado que, invariavelmente, o exacerbado egoísmo das classes dirigentes as tem conduzido ao suicídio total'', acrescentou. Nada mais atual do que o discurso que Tancredo não pôde pronunciar.
sexta-feira, 26 de outubro de 2018
Caro Jair
Torço porque, apesar de suas frases infelizes e do preconceito que nunca procurou esconder, você é depositário das esperanças de milhões e milhões de brasileiros. São pessoas que o admiram ou apostam em você para nos livrar de um mal maior. Tomara que não estejam cometendo um equívoco.
É que não temos tido muita sorte com presidentes. A maioria errou feio. Collor, Lula e Dilma, por exemplo, chegaram como a salvação da lavoura, mas traziam consigo uma praga de gafanhotos.
Talvez por isso muita gente tenha embarcado nas narrativas distópicas e delirantes que a esquerda andou espalhando por aí (que você vá dizimar as mulheres, chacinar os negros, massacrar os LGBTs, trucidar os de humanas; impor a censura, acabar com a cultura, devastar a Amazônia, implantar uma ditadura nazifascista, institucionalizar a tortura, voltar com as aulas de OSPB...). Esse Brasil desertificado, bestificado e retrógrado, dominado por machos brancos heterossexuais de exatas realmente não parece uma boa ideia.

Sem qualquer pretensão a côutchim e sem me meter no seu programa de governo, queria que você pensasse nisto com carinho:
— Já passou da hora de enquadrar os meninos. Ensine-os a soletrar “poço”, a não quebrar placa, a respeitar as instituições. Não precisa bater: o exemplo costuma dar ótimos resultados. Faça valer a hierarquia — ou você corre o risco de criar corvos que lhe comerão os olhos.
— Arrume uma função relevante para o seu vice. Vice ocioso é a oficina do diabo (pergunte ao Figueiredo e à Dilma). Mantenha-o a prudente distância dos civis que fazem perguntas.
— Não entre no toma lá dá cá. Não faça conchavo. Não receba empresário de madrugada para conversas pouco republicanas. Não venda medidas provisórias. Não se encontre às escondidas com ministros do STF. Não use o Ministério para livrar ninguém da cadeia. Não passe pano para malfeito. Aliás, não use eufemismos: chame as coisas pelo nome.
— Não bata boca. Não faça comentários racistas ou sexistas. Conservadorismo não significa atraso, intolerância. Não, não precisa ser politicamente correto: polidez e bom senso resolvem.
— Não plante canteiro com formato de revólver nos jardins do Alvorada. Não se abolete no sítio de amigos. Não dê dinheiro para ditadores amigos. Não fique amigo de ditadores. Não aceite agrados de empreiteiras. Se alugar um imóvel, pague em dia — de preferência em dia que exista no calendário.
— Seja fiel à Constituição. Resista à tentação de trocá-la por uma mais nova.
— Não traia quem lhe deu voto de confiança, e respeite quem o negou. Seja inflexível no fundamental (a ética, a moral, o bem comum) e conciliador no acessório. Ajude a Lava-Jato a terminar a limpeza que ela começou. Não faça, nem permita que se faça, mais sujeira para a Lava-Jato limpar.
— Descupinize o Estado. Deixe-o mais leve, mais ágil, mais saudável. Dê um basta nos privilégios; acabe com os feudos, as tetas, as tretas. Desestatize, desburocratize, reforme.
— Melhore a vida do cidadão. Devolva com saúde, educação, saneamento, infraestrutura e segurança o imposto que ele paga. Entre escola e presídio, invista nos dois, para que, sem partido e sem facção, ambos efetivamente eduquem. Corte gastos e gaste melhor.
— Assim que puder, condene claramente a tortura. Demonstre apreço pela democracia, pelos direitos humanos, pelos direitos civis, pelo desenvolvimento sustentável. Resgate estas pautas, que foram sequestradas pela esquerda e estão, coitadas, em cativeiro há tantos anos. Mostre que as minorias não precisam passar o resto de suas vidas reféns dos progressistas, servindo de escudo humano para quadrilhas que as manipulam com a desculpa de protegê-las.
Você terá uma grande bancada e imenso apoio popular. Desarme o espírito, aposente os gestos bélicos, e contará também com os que não votam em você, mas cultivam essa estranha mania de ter fé no Brasil.
P.S. Com pequenas alterações, esta carta serviria também para o Fernando.
Nada de fim. É o futuro que se fará
A menos que ocorra uma virada histórica, Jair Bolsonaro deve ser eleito — e isso não significará, pelo menos não automaticamente, o fim da democracia. O futuro permanece aberto. O tamanho dos retrocessos que experimentaremos, aliás, dependerá de nossa capacidade de nos organizar nas linhas secundária e terciária de defesa das instituições. Esforços para tentar moderar os piores instintos do candidato também são bem-vindosHélio Schwartsman
A escolha
É chegada a hora da travessia do Rubicão dos brasileiros. Aquele momento em que, ultrapassada a eleição desse domingo, 28 — talvez a mais sangrenta, radical e imprevisível dos últimos tempos —, uma nova folha da história democrática será aberta. A referência ao Rubicão, que levou o imperador Júlio César à decisão mais arriscada de sua trajetória, quando cruzou o rio do mesmo nome para desbravar novos territórios, não é gratuita. Tomada por empréstimo, a expressão cabe na atual circunstância nativa por restar, também aos eleitores, uma das mais difíceis, senão inesperada, escolha sobre o seu futuro e desígnios. Será uma opção irrevogável e consequente. A sorte
está lançada, diria o lendário imperador. Lá, como aqui, é bem isso. O País está prestes a restaurar, 33 anos depois, os ditames militares que, em outra época e em outras condições, curvaram de morte as liberdades individuais através de uma ditadura tão infame como covarde. Guardada as proporções, a realidade é outra, a proposta também, em que pese o viés extremista e conservador. No mesmo movimento de faxina, a corrida presidencial está varrendo do mapa a agremiação que mais trouxe problemas à Nação no campo econômico, político, social e, por que não dizer, moral. O PT sairá bem menor, encolhido, relegado a um papel de coadjuvante do processo. Já se sabe desde já. Uma obliteração de status e relevância arquitetada por anos. Desde que a agremiação resolveu servir de guarida à corrupção e ao terrorismo de rua, incitando o quebra-quebra, como armas de campanha. Errou feio e pagará o preço. Eleitores darão nas urnas uma resposta eloquente sobre o que querem e o que não querem daqui para frente. À bem da verdade, há quem diga que eles estão escolhendo uma coisa e levando outra. Mas não há como negar, no clima inquisidor e de acusações instaurado no Brasil, movido por mentiras cavalares e separado por duas candidaturas beligerantes, o resultado não poderia ser diferente: um voto pelo novo, rompendo as amarras com a política ultrapassada e corrosiva. Na prática, a conclusão inescapável sobre o fator que rachou o País e produziu o quadro doentio, de quase guerra, entre dois lados é a de que o Partido dos Trabalhadores, com suas rivalidades imaginárias, fabricadas para atrair aliados, criou Jair Bolsonaro, como um reflexo oposto, um contraponto a sua imagem e semelhança, com as mesmas imperfeições, cacoetes e tentações totalitárias. O anticristo do lulopetismo, talvez menos venal, certamente mais antenado com o conservadorismo em ascensão. O capitão reformado, não pelo que fez, mas pelo que representa, trás um favoritismo fruto do meio, curtido no ódio visceral que a legenda dos vermelhos semeou. Surgiu na base da alternativa à balbúrdia administrativa, ao aparelhamento do Estado, ao compadrio congressual e ao roubo em escala gerados pelo PT e chegou aonde chegou com poucos méritos e um senso de oportunismo afiado. É sabido, na raiz do mal que enviesou a eleição para uma trilha jamais explorada até então está a tática desesperada, ofensiva e cínica do partido para o qual vale a regra do “Nós podemos tudo, ninguém pode mais”. Senão, vejamos: há poucos dias uma declaração, de resto indevida do filho do candidato Jair Bolsonaro, atentando contra a soberania do STF, gerou uma fuzarca, especialmente nas hostes do PT. O presidenciável Fernando Haddad, evidentemente, omitiu em meio ao deslize da esquadra adversária, que gente de seus próprios quadros, como o deputado Wadih Damous, havia proposto nada menos que o fechamento sumário do Supremo, no que foi seguido pelo quadrilheiro José Dirceu, que sugeriu retirar poderes da Justiça. Mesmo o demiurgo Lula já havia partido prá cima daquela casa reclamando que “O STF está totalmente acovardado”. Mas nada disso importa. O PT se acostumou a não reconhecer seus erros. Não pede desculpas e é mestre em apontar os pecados dos demais. No plano da emissão de mensagens em massa, por exemplo. Ele criou anos atrás esse esquema de fake news, catequizando seguidores na base da mentira. É provável que o senhor Haddad deliberadamente não tenha parado para verificar a quantidade absurda de impulsionamentos que o próprio partido veio realizando ao logo do tempo em redes digitais. É mais certo ainda que ele não enxergue ai nenhum mal ou dano a terceiros. Afinal, a agremiação da qual participa, no seu entender e no de seus pares, pode tudo, como já foi dito, restando aos demais o dedo inquisidor e acusador dos raivosos petistas. Esses convertem qualquer coisa em uma prova de golpe insidioso às suas pretensões de poder. Na base da malandragem e do cinismo, aplicando seguidas rasteiras, o PT tem alimentado a irritação que o País inteiro passou a ter contra o partido. Não toma jeito. Não aceita de maneira alguma jogar limpo, de igual para igual, e perder legitimamente, conforme a preferência nacional. O problema, é óbvio, será dele. O processo eleitoral segue o curso. Não vai, nem poderia, se curvar às idiossincrasias e muxoxos de uma agremiação cujo único intuito é impor na marra aos brasileiros a doutrina espoliadora, de assalto aos cofres públicos. O Brasil é maior que isso. E fará a escolha que lhe cabe como melhor.
Discurso para governar
Diante de uma eleição que as pesquisas de intenção de voto apontam como decidida já desde o primeiro turno, resta saber que outro discurso Jair Bolsonaro está disposto a empregar. O de ganhar a eleição deu certo.
Talvez alguns gestos de quem – se as pesquisas estão certas – vai ser o novo presidente brasileiro permitam vislumbrar que ele sabe a diferença entre realidade e retórica. A intenção por ele manifestada de preservar alguns quadros da atual equipe econômica, por exemplo. Faz supor que reconhece a existência de funcionários públicos que servem ao Estado e não ao governo da vez.
Ou a articulação de um apoio amplo para eleger um presidente da Camara dos Deputados saído não necessariamente das hostes do chefe do executivo, o que sugere o alguma ideia de que o Legislativo precisa de independência e não de controle pelo Planalto.
Tome-se também a manifestada disposição de rever a pretendida fusão do Meio Ambiente com Agricultura — aliás, o moderno setor agropecuário brasileiro compete internacionalmente dentro de reconhecidos padrões de sustentabilidade. Ou a de voltar atrás no anúncio de subordinar o Ministério da Indústria e Comércio à super pasta da Fazenda – países modernos e avançados separam finanças e economia.
Note-se, porém, que esses são mecanismos para governar, mas ainda não indicam em que eixos se dará a atuação do governo. Da mesma maneira, permanecem nebulosas as declarações de que a política externa será desvinculada de apegos ideológicos.
Nesse sentido, tenho chamado a atenção para o fato de que a imagem no exterior do provável novo presidente brasileiro é muito ruim, e não adianta dizer que é culpa de esquerdismo da “mídia internacional” – embora as esquerdas brasileiras tivessem mobilizado que laços existissem lá fora com o mundo diplomático, acadêmico, dos partidos e instituições internacionais pintando o Brasil como uma masmorra do apartheid social (e, agora, fascista). O fato é que a imagem ruim existe.
Mandatários de vários países formam opiniões sobre colegas de outros países também a partir do que recebem da própria mídia local. Parte substancial desses órgãos de imprensa (e, reitero, nada a ver com “esquerdistas”) considera Bolsonaro um risco à democracia ignorando as evidências de que a escolha que está sendo feita pelo eleitorado brasileiro é antes de mais nada a manifestação de profunda desconfiança e descrédito nas instituições existentes (como STF, partidos, imprensa) – “clima” do qual Bolsonaro é consequência e não causa.
O assalto às instituições começou muito antes dele. A corrupção é entendida pelos eleitores como a mais evidente e palpável expressão de degradação do funcionamento de todo o arcabouço jurídico-normativo-político. No fundo não deveria causar surpresa alguma a maneira como o pêndulo oscilou agora contra as forças políticas (não só o PT, evidentemente) que se apoiaram sobretudo na mentira, roubalheira e populismo fiscal irresponsável. Antes de surgir um Bolsonaro, já existia um enorme cansaço de “tudo isto aí”.
A ideia propagada por Bolsonaro de que ele é capaz de limpar o jogo sujo, e enfrentar tudo o que está corrompido (começando pela restauração de valores tradicionais), acabou sendo um grande triunfo eleitoral.
Mas apenas esse discurso, diria Tancredo, não lhe permitirá governar.
Vaivém pode tornar Bolsonaro um ex-Bolsonaro
Confirmando-se os prognósticos de vitória, o risco que um candidato tido como mitológico corre é o de ficar irreconhecível. O ministério ultra-enxuto de Bolsonaro começou a esticar. O Meio Ambiente não será mais fundido à Agricultura. A pasta da Indústria e Comércio não será incorporada à Fazenda. O governo Temer já não é de todo ruim. Integrantes da equipe econômica podem ser aproveitados. O time de ministros especialistas pode ter um ou outro político derrotado nas urnas. Bolsonaro começa a virar ex-Bolsonaro antes mesmo de se tornar presidente.
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