domingo, 6 de outubro de 2024

Um sinal aberrante de decadência nacional

Mark Robinson, vice-governador e atual candidato ao governo da Carolina do Norte, EUA, proclama-se negro nazista e favorável à escravidão. Justifica: "há pessoas que merecem ser escravizadas". Não se inclui entre elas, claro. São muitas as aberrações dessa ordem na história geral da diáspora negra, salientes em contextos sociais diversos.

O personagem Prudêncio, de Machado de Assis, é um exemplo ficcional da transição de escravo oprimido a alforriado opressor. Episódios análogos registraram-se no governo do Bolsonaro. Já na relevante crônica da guerra dos escravizados na Jamaica, em meados do século 18, avultava o nome do erudito Edward Long, que descrevia a luta da população escrava nativa contra os insurretos africanos. O medo de Long era tanto que, para ele, a simples existência de africanos "deformava a beleza deste globo de tal maneira, que eles merecem ser exterminados da Terra".


"O medo dos africanos tinha de fato inspirado os primeiros esforços para restringir o comércio de escravos" (Vincent Brown em "Uma Guerra Afro-Atlântica"), o que ressoava no Império Britânico e na América. O nazi-racismo de Robinson é um eco histórico dessa crioulização, que impregnou o imaginário racial de uma escravidão mais amável e dócil, contrastante com o vigor da resistência negra no Caribe.

Há uma perversa lógica histórica na associação em Robinson de nazismo a escravidão, pois Auschwitz, além do campo de extermínio, foi também a maior fábrica de escravos. Essa aberração é deriva trumpista da clivagem social e humana que, apesar do poderio econômico, tecnológico e bélico da América, ameaça o Estado nacional. Nação nenhuma se deduz diretamente da estrutura social, e sim da convergência de efeitos imaginários e ideológicos, como os de povo, país e língua. Constituída por crenças, mas também medos, a sociedade reconhecida como nação é uma comunidade imaginada.

Até agora, sob a mística da burguesia tradicional, o nacional era uma homogeneidade caracterizada pelo progressismo e por um passado comum. Sob o influxo do neoliberalismo, com uma apreensão heterogênea da história, milenarismos laicos e religiosos prometem duvidosas respostas para o desemparo popular. Trump e próceres da ultradireita são variantes desse fenômeno, que não se sintoniza pelo Estado nacional, e sim por um sistema financeiro e militar em torno de uma sociedade restrita. O povo nacional é relegado à lata de lixo da história.

Um personagem como Robinson é sintoma menor da decadência do Estado nacional americano. Mas muito significativo entre nós, país majoritariamente afro, que tenta amainar, por políticas de ação afirmativa, o legado desigual do passado escravista. De fato, o contrassenso de um afro nazista e partidário da escravidão só é possível na abolição do passado comum como princípio espiritual.

Na decadência, nação deixa de coexistir com pátria, que se sobrepõe como princípio. Abre-se um caminho tóxico para a ideologia da unidade militarista, da educação cívica pelas armas e da política como paródia grotesca da representação. Aconteceu com o nazifascismo, ensaia-se na América. Se Trump vencer, os abutres da carniça do passado, como Robinson, voarão também aqui.

Ameaça à democracia

Os senhores da guerra, usualmente, não conseguem atingir seus objetivos por intermédio de tiros e bombas. Os norte-americanos invadiram o Iraque, saquearam o país, subtraíram o petróleo e suas riquezas históricas, mas não conseguiram se manter a salvo dentro daquele território. Foram obrigados a sair. Os franceses perderam no Vietnã, antes de os norte-americanos também serem derrotados. E os ingleses foram expulsos do Afeganistão depois de tentarem subjugar o país. Em 1942, as tropas de Hitler dominavam praticamente toda a Europa. Ao final do conflito, em 1945, a Alemanha foi dividida em dois países e o ditador se suicidou.

Nos anos trinta, século passado, o Oriente Médio era um deserto com reduzidas perspectivas econômicas. Os ingleses dominavam a região e não gostavam que estrangeiros de outras nacionalidades entrassem na área. Mas a Armada Real, que deixara de utilizar carvão como combustível e aderiu ao petróleo, teria que ser atendida. Em maio de 1932 a empresa Bahrain Company, que era canadense com origem norte-americana, descobriu petróleo na região. E abriu os olhos das empresas dos Estados Unidos que relutavam em investir em prospecção no deserto. Americanos logo depois descobriram petróleo na Arábia Saudita e assinaram um tratado de proteção recíproca, que está em vigor até hoje.

Os ingleses cortaram o Oriente Médio em fatias. Colocaram muçulmanos de tendências opostas dentro de um mesmo país. Desmembraram a região em linhas retas. Foi obra de Winston Churchill com objetivo de manter o domínio inglês na região. Na Europa, década depois, Hitler iniciou sua perseguição aos judeus que se espalharam por todo o mundo. A maioria deles, no leste europeu, preferiu migrar para a Palestina, que era protetorado britânico. Tempos depois, ao final da segunda guerra, foi criado o estado de Israel, destinado a conviver em paz com os palestinos. O problema europeu, a perseguição de judeus, se transformou em assunto sério no Oriente Médio. Israel não tem petróleo, mas seus vizinhos, sim. Qualquer briga lá, interfere no comércio em todo o mundo.


Uma instituição judaica chamada Haganah, que posteriormente iria se transformar no Exército de Israel, forneceu meios e modos para que judeus se instalassem na Palestina, contra a orientação dos ingleses. Sabotaram instalações, dificultaram ações dos governantes locais e assumiram funções terroristas até que recebessem condições para criar um novo país. Israel surgiu em meio a pesada guerra contra seus vizinhos árabes. Nunca teve vida tranquila e fácil. O normal naquela área é a guerra. Mas a circunstância de que a região é a maior produtora de petróleo do mundo, coloca o conflito numa escala mundial. É um assunto local, permeado por questões religiosas, complicado pelo expansionismo de Israel, que influi nos destinos do mundo.

A guerra entre Israel e seus vizinhos não é novidade. Novidade é o Irã entrar no conflito. Já foi o principal apoio dos Estados Unidos na região, quando ainda se chamava Pérsia. Não é um país árabe. O idioma que se pratica no país é o farsi. Tem nível interessante de desenvolvimento. 
E está muito perto de produzir uma bomba atômica. Já reúne os conhecimentos necessários para construir o artefato. Neste momento, o mundo está bordejando uma séria possibilidade de tragédia de enormes proporções na região. Israel tem bombas atômicas. Se o governo se sentir ameaçado, como foi recentemente com a chuva de mísseis vinda do Irã, pode recorrer ao gesto supremo e fazer o cogumelo nuclear brilhar naquele céu.

São duas guerras perigosas. A de Israel contra seus vizinhos não tem parâmetros. O exército israelense mata tudo que vê pela frente: mulher, criança, velho e eventualmente o inimigo. A outra guerra é da Ucrânia, em que a Rússia se atolou e revelou a atual fraqueza do antigo exército vermelho. Putin e Netanyahu sabem que Joe Biden já é um legítimo pato manco. Está em fim de mandato. Em janeiro estará fora do poder. E apostam na vitória de Donald Trump. Se o republicano vencer a eleição nos Estados Unidos, Putin deverá dominar rapidamente a Ucrânia e os palestinos deixarão de existir, porque o primeiro-ministro vai conseguir chegar a seu objetivo: criar a grande Israel, ou seja, ampliar seu espaço vital.

Hitler, por acaso, tinha o mesmo objetivo para a Alemanha, na Segunda Guerra Mundial. Espaço vital. A eleição nos Estados Unidos que deverá ocorrer em novembro próximo vai ajudar a definir o conflito. Por esta razão, as tropas israelenses precisam avançar mais, devastar mais, matar mais, para criar um fato consumado, em torno do qual ocorrerão as negociações com o novo presidente dos Estados Unidos. Neste caso, a guerra no Oriente Médio coloca em jogo mais que o petróleo. O destino da democracia no Ocidente está na mesa de apostas.

sábado, 5 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Assim se fabrica a guerra infinita

Israel não deseja a paz. Nunca quis tanto que estivesse errado o que escrevo. Mas as evidências se acumulam. Na verdade, pode-se dizer que Israel nunca desejou a paz – uma paz justa, ou seja, baseada num acordo justo para ambos os lados. É verdade que a saudação rotineira em hebreu é Shalom (paz) – shalom quando alguém se despede e shalom quando alguém chega. E quase todo israelense dirá sempre que deseja a paz, claro que sim. Mas ele não se refere ao tipo de paz que traz justiça, sem a qual não há paz e não haverá paz. Os israelenses desejam paz, não justiça; certamente nada que se baseie em valores universais. Nos últimos dez anos, aliás Israel afastou-se até mesmo da aspiração de construir a paz. Desistiu completamente dela. A paz desapareceu da agenda, seu lugar foi tomado por ansiedades coletivas, fabricadas sistematicamente, e por questões pessoais, privadas, que agora têm prioridade sobre todas as outras.

Os israelenses que ansiavam pela paz aparentemente morreram há cerca de uma década, depois do fracasso da reunião de Camp David em 2000, da disseminação da mentira de que não há um parceiro palestino para a paz e, claro, do terrível período da segunda intifada, encharcado de sangue. Mas a verdade é que, mesmo antes disso, Israel nunca desejou realmente a paz. Nunca, nem por um minuto, Israel tratou os palestinos como seres humanos com direitos iguais. Nunca viu seu sofrimento como um sofrimento humano e nacional compreensíveis.

Também o movimento israelense pela paz – se é que chegou a existir – morreu uma morte lenta, em meio às penosas cenas da segunda intifada e à mentira da falta de parceiros. Tudo o que restou foi um punhado de organizações tão empenhadas quanto ineficazes, face às campanhas de deslegitimação montadas contra elas. Logo, Israel foi deixada em sua postura isolacionista.

A evidência mais esmagadora da rejeição da paz por Israel é, claro, o projeto das colônias de ocupação da Palestina. Desde o início de sua existência, nunca houve um teste mais seguro ou mais preciso para as verdadeiras intenções de Israel do que esse empreendimento particular. Em linguagem clara: os construtores das colônias desejam consolidar a ocupação, e quem deseja consolidar a ocupação não deseja a paz. Esse é o resumo da ópera.


Considerando que as decisões de Israel são racionais, é impossível aceitar que a construção nos territórios e a aspiração pela paz possam coexistir mutuamente. Cada ato de construção em colônias de ocupação, cada casa móvel e cada varanda transmitem rejeição. Se Israel quisesse alcançar a paz através dos Acordos de Oslo, teria ao menos parado, por iniciativa própria, de construir as colônias. O fato de que isso não aconteceu prova que Oslo foi uma fraude, ou, na melhor das hipóteses, a crônica de um fracasso anunciado. Se Israel desejava construir a paz em Taba, em Camp David, em Sharm el-Sheikh, em Washington ou em Jerusalém, seu primeiro passo teria sido acabar com toda ocupação nos territórios. Incondicionalmente. Sem exigir nada em troca. O fato de Israel não tê-lo feito é a prova de que não quer uma paz justa.

Mas as colônias são apenas um dos indicadores das intenções de Israel. Seu isolamento está entranhado bem mais fundo – em seu DNA, sua corrente sanguínea, suas crenças mais primordiais. Lá, no nível mais profundo, está o conceito de que esta terra está destinada apenas aos judeus. Lá, no nível mais profundo, está entrincheirado o valor de “am sgula” — os escolhidos por Deus.

Na prática, isso se traduz na noção de que, nesta terra, os judeus estão autorizados a fazer o que aos outros é proibido. Esse é o ponto de partida, e não há como chegar a uma paz justa a partir daí. Não há nenhuma maneira de alcançar uma paz justa quando o nome do jogo é desumanização dos palestinos. Não há forma de conseguir alcançar a paz quando sua demonização é martelada na cabeça das pessoas dia após dia. Quem está convencido de que cada palestino é um suspeito e quer “jogar os judeus no mar” nunca vai construir a paz com os palestinos. A maioria dos israelenses estão convencidos de ambas as afirmações.

Na década passada, as duas populações foram separadas uma da outra. O jovem israelense médio nunca se encontrará com seu par palestino, a não ser durante seu serviço militar (e, mesmo assim, apenas se servir nos territórios ocupados). Nem o jovem palestino médio encontrará um israelense da sua idade, a não ser o soldado que o hostiliza no checkpoint, ou invade sua casa no meio da noite, ou o colono que usurpa sua terra ou queima seus bosques.

Em consequência, o único encontro entre os dois povos é entre os ocupantes, que são armados e violentos, e os ocupados, que são desesperados e também se voltam para a violência. Foram-se os tempos em que palestinos trabalhavam em Israel e israelenses iam fazer compras na Palestina. Foi-se o período de relações meio-normais e um-quarto-iguais, que existiram por poucas décadas entre dois povos que dividiam o mesmo pedaço de território. É muito fácil, nesse estado de coisas, incitar e inflamar um contra o outro, espalhar medos e instigar novos ódios sobre os já existentes. Essa é, também, uma receita certa de não-paz.

Foi assim que um novo anseio israelense surgiu: o desejo de separação: “Eles ficam lá e nós ficamos aqui (e lá também)”. Num momento em que a maioria dos palestinos – avaliação que me permito fazer, após décadas de cobertura nos territórios – ainda quer coexistência, mesmo que cada vez menos, a maioria dos israelenses quer não-envolvimento e separação, mas sem pagar o preço. A visão de dois estados ganhou adesão generalizada, mas sem qualquer intenção de implementá-la na prática. A maioria dos israelenses é a favor, mas não agora e talvez nem mesmo aqui. Eles foram treinados a acreditar que não há parceiro para a paz – isto é, um parceiro palestino – mas há um parceiro israelense.

Infelizmente, a verdade é quase o oposto. Os palestinos não-parceiros não têm mais nenhuma chance de provar que são parceiros; os não-parceiros israelenses estão convencidos de que são interlocutores. Começou então um processo em que as condições, obstáculos e dificuldades impostas por Telaviv se amontoaram, mais um marco no isolamento israelense. Primeiro, veio a exigência de acabar com o terrorismo; em seguida, a demanda pela troca da liderança (Yasser Arafat visto como uma pedra no caminho); e depois disso o Hamas tornou-se o obstáculo. Agora é a recusa dos palestinos em reconhecer Israel como um Estado judeu. Israel considera legítimo cada passo que dá – de prisões políticas em massa à construção nos territórios –, enquanto todo movimento palestino é considerado “unilateral”.

O único país sem fronteiras do planeta não quis, até aqui, delimitar sequer as fronteiras que estaria pronto a aceitar num acordo. Israel não internalizou o fato de que, para os palestinos, as fronteiras de 1967 são a mãe de todos os acordos, a linha vermelha da justiça (ou justiça relativa). Para os israelenses, elas são “fronteiras suicidas”. Essa é a razão pela qual a preservação do status quo tornou-se o verdadeiro alvo, o objetivo primordial da política de Israel, quase seu tudo ou nada. O problema é que a situação existente não pode durar para sempre. Historicamente, poucas nações aceitaram viver sob ocupação sem resistência. E também a comunidade internacional estará apta, um dia, a proferir um pronunciamento firme, acompanhado de medidas punitivas, sobre este estado de coisas. Segue-se que o objetivo de Israel é irrealista.

Desconectada da realidade, a maioria dos israelenses mantém seu estilo de vida normal. A seus olhos, o mundo está sempre contra eles, e as áreas de ocupação à sua porta estão fora de sua esfera de interesse. Quem ousa criticar a política de ocupação é rotulado de anti-semita, cada ato de resistência é percebido como uma ameaça existencial. Toda a oposição internacional à ocupação é lida como “deslegitimização” de Israel e como um desafio para a própria existência do país. Os sete bilhões de pessoas do mundo – a maioria das quais contra a ocupação – estão erradas, e seis milhões de judeus israelenses – a maioria dos quais apóia a ocupação – estão certos. Essa é a realidade na visão do israelense médio.

Some a isso a repressão, a ocultação e a dissimulação, e você tem uma outra justificativa para o isolamento. Por que alguém deveria lutar pela paz, desde que a vida em Israel seja boa, a calma prevaleça e a realidade se mantenha oculta? A única maneira de a Faixa de Gaza, sitiada, lembrar as pessoas de sua existência é atirando foguetes, e, atualmente, a Cisjordânia só entra na agenda quando há sangue derramado por lá. Da mesma forma, o ponto de vista da comunidade internacional só é levado em conta quando tenta impor boicotes e sanções, que por sua vez geram imediatamente campanhas de autovitimização cravejadas de contundentes – e, às vezes, também impertinentes – acusações históricas.

Este é, pois, o quadro sombrio. Não contém um raio de esperança. A mudança não vai acontecer por si mesma, a partir do interior da sociedade israelense, caso continue a se comportar como se comporta. Os palestinos cometeram mais do que um erro, mas seus erros são marginais. A justiça de base está do seu lado, e o isolamento de base é o limite dos israelenses. Eles querem ocupação, não paz.

Tenho a esperança de estar errado.

Coach — política neofascista e traumaturgia

O coach é a representação limite da financeirização do capital — a sua máxima abstração e pureza, dominando a produção e a guerra global — no âmbito da cultura. Psicólogo definido pelo incremento da produtividade de seu cliente, o coach teve origem na ruína do mundo do trabalho, das profissões e de suas éticas, no mundo da fragmentação e monadizacão do destino do trabalhador, vendedor de qualquer coisa que ninguém quer comprar.

Ele é o próprio sintoma encarnado da vida das classes médias sob o risco de não serem produtivas, por fim dispensáveis, pela presença da política permanente do desemprego. Neste mundo, o coach cumpre o serviço de exploração da insegurança universal. Ele medeia a violência normal na vida das empresas, promove falsa autoajuda como verdade humana, a única ajuda disponível, para pacificar um sujeito sem valor algum, cultural ou de troca, na cultura de sua máxima exploração, física e psíquica.

Como um dia me disse o CEO de uma gigantesca agência de publicidade, máquina que trabalhava no fundo da própria política do país: “na empresa você pode facilmente ganhar 100 mil por mês, não é difícil… basta você me produzir 300 mil por mês.” Este é o mundo dos valoresdo coach, é nele e por ele, sustentado em indivíduos, que o coach trabalha.

Mundo da pressão total da abstração do dinheiro, sem nenhum caráter ou valor para fora do retorno ao mercado, da tempestade tautológica do sistema da mercadoria se auto-referenciando, para justificar o terrorismo de sua própria vida social. Realidade dura dos vencedores, no limite da maior derrota, onde o coach pontifica.



Ele é um psicólogo clínico degradado na ideia fixa da autoajuda banal, pastor profano do elogio do trabalho e do dinheiro quando eles se tornaram impossíveis, psicanalista que negou o inconsciente e a transferência a favor do apego sugestivo ao próprio eu, confundindo subjetividade com produção de valor e sujeito com submissão ao racket psíquico pessoal.

O coach é o pastor cujo único deus é o sucesso abstrato na cultura dada, o psicólogo empresarial de Recursos Humanos pago particularmente para se suportar o risco da vida do trabalho, de quem ainda quer estar por cima, o psicanalista que vende a própria imagem, e a própria tabuada de razões ideológicas, radicalmente comprometidas com a reprodução da ordem que põe tudo em risco.

Não há dialética nem negatividade na existência do coach e sua “teoria” — instrumentalização do pior do elemento subjetivo presente em uma psicanálise. Há apenas aceitação, celebração tácita, adaptação como estratégia de vida, sob o cálculo e o projeto do truque, do golpe ou do balanço malando em meio ao dinheiro, para garantir a sobrevivência nele. Sobrevivência de vida que parte e se resolve no espetáculo, traduzida diretamente em fetichismo da mercadoria, consumo conspícuo.

Vendendo degradação de qualquer metafísica, desde que adaptada a tudo o que existe, o coach é o apoio limite do homem comum, quando ele não vai ao culto coach de uma igreja evangélica…, o amuleto transferencial mundano do filisteu cultural, normal, que, dispensável em todos os níveis da vida que não tenham a ver com mais valor, necessita de alguém que junte os seus pedaços, o pastor profano. Explodido pela própria sociedade esquizofrênica, que não pode negar, pensar em contradição, o cliente do coach o deseja como a liga de seu retorno ao próprio mundo impossível.

O duplo do coach, coach sem nenhum vínculo com o trabalho, é o promoter da vida permanente no gozo generalizado das imagens em fluxo, mas de kicks e de baques, de excitação vazia, o influencer da internet: o vendedor estridente, vulgar no último, de tudo e qualquer coisa que exista, ou seja, que excite alguém. O propagandista, da propaganda que se voltou sobre si mesma. A cultura do coach é a dasobrevivência para a sociedade do espetáculo generalizado, da mercadoria como tudo na vida; a cultura do influencer é a daafirmação imanente da sociedade do espetáculo generalizado, da mercadoria como tudo na vida.

O coach líder fascista é o que une o seu estatuto de pastor profano com a malandragem feliz de vampirizar qualquer fetichismo, de qualquer produto, fofoca ou crime nas redes, a arte do influencer. Realiza meta-morfose de si mesmo, virando em exemplo degradado, autocelebrado em fusão com a propaganda de tudo, a ser seguido por massas. O coach líder fascista é o líder político das micro-celebridades, auto geradas aos milhares nas redes. Quanto mais ele aparece, mais poderoso ele é, porque neste mundo basta aparecer para ser poderoso.

Vendedor do sonho de si mesmo, o produto do coach fascista, novo líder no limite da degradação política total — da manutenção do capitalismo de fronteira final, de extermínio de ambiente e natureza, porque os humanos já eram faz tempo… — é a venda da própria imagem, a figura de um rico grotesco brilhando, um sádico do gozo da vida má, deliberadamente estúpido, como modelo para a vida geral degradada. O coach político de internet, influencer e mercadoria a um tempo, vende o vento da sua pura excitação, como todo influencer.

Porém, sua excitação é o puro ar de si mesmo, a constelação ideológica positiva de amor sacrificial pelo mercado, ele próprio como o seu produto. De fato, pessoas compram de Pablo Marçal apenas cursos, golpes farsescos, exatamente para serem como Pablo Marçal; e Olavo de Carvalho sabia bem ser um coach fascista. Como no jogo, como dizia Marx, a ideologia vazia e o personalismo de espetáculo fazem o produto-ele-mesmo do coach funcionar diretamente como D-D’ — dinheiro imagem que faz mais dinheiro… — sem nenhuma mercadoria no meio. O coach funcionando como líder fascista é pura identificação, função de espelho do rosto da mercadoria, formula cultural do capital financeiro.

Antes de entrar na disputa política como alternativa verdadeira, pelo sucesso degradante e pela arrogância de vencedor em mundo de derrotas totais, o coach amealhou milhões de miseráveis do destino e da cultura, da vida e da história, em suas redes sociais na internet, de fato suas redes pessoais. Milhões de compradores do ar do coach, tentando reproduzir o seu brilho e sua riqueza mágica configuram de fato a sua indústria cultural particular.

De fato, milhões de demenciados de mercado, aos quais o novo malandro industrial, que aposentou a navalha, opera por desejo como entretenimento, como fantasia de ganho pela submissão ao seu desejo. Pagando pelo ar do coach, os milhões de idiotas do mundo como ele é confirmam pela raiz o seu poder: fundamentalmente o desejam.

A política do desejo, das coisas, do dinheiro circulante, e de seu show, se confirma absolutamente no desejo do coach. Ele tem seu próprio partido político, sua indústria cultural de propaganda fascista, sua rede de milhões de seguidores o desejando, e desejando ser o coach — que não é nada se não isso mesmo. Tais militantes e ativistas pagam milhões pela indústria cultural da personalidade, para que o coach apareça para eles como milionário, pelo desejo radical que isto exista.

Porque o mundo é isso, produção de riqueza sobre a produção de massas de excluídos, que pagam pelo acesso, quando não exterminados. Dono de um partido de massas da venda de si mesmo como a política do real, das coisas da vida social arruinada, o coach político de massas é a condensação da coisa cultural do neofascismo, esta nova ordem de razões políticas que intriga a tantos.

O coach é o vendedor na rede de uma pirâmide de si mesmo, em que ele é a imagem, o modelo e a mentira de que sua riqueza ridícula estará acessível a todos. Basta todos reconhecerem isso, e seu golpe neoliberal total, de sua excitação vazia de palhaço pop grotesco, chegará ao poder, o seu verdadeiro lugar, como Javier Milei na Argentina e Pablo Marçal tentando o golpe em São Paulo.

Basta ser como o coach, diz o coach, e para isto é preciso que a massa se cale e o assista, e ele enuncie sozinho sua violência antipolítica como política. É preciso ser como ele, por isso é ele quem fala. Por um naco imaginário da riqueza, e para pertencer ao código do dinheiro, palhaços de um circo pegando fogo tendem a entregar tudo ao coach. Como já entregaram quando compravam seus cursos, que não são nada. Por não ter nada a oferecer no âmbito da história, o coach só pode causar, chamar a atenção para si mesmo como um palhaço da indústria cultural que tem nas mãos, que de fato é.

Mentir a mentira que excita, ousadia tática e sádica, que convoca a atenção exatamente porque todos sabem que é mentira. Sua mentira política é apenas uma aposta, em um jogo vazio de verdade, pleno de poder que gera poder. Sua performance, da qual depende, é sua traumaturgia.

Com este choque vazio, se convoca a massa, submetida ao desejo do coach mercadoria. Um povo que deseja o fascista brand new, o espírito vazio do capitalismo como golpe e como crime, e seu grande líder, a vida pública da política como sonho de um coach.

Pânico

Não há mais lugar no mundo.
Não há mais lugar.

Aranhas do medo
fiam ciladas no escuro

Nos longes, pesam tormentas.
Rolam soturnos ribombos.

Súbito,
precipita-se nos desfiladeiros
a vida em pânico.
Helena Kolody, "Antologia Poética"

Israel no Líbano: Até quando o mundo assistirá inerte ao terrorismo?

A pergunta parece nos levar ao menos duas décadas atrás, quando muitos dos leitores formaram sua percepção sobre o conceito de terrorismo a partir da reação global comandada pelos EUA, com seus aliados europeus no Conselho de Segurança da ONU, à derrubada dos edifícios gêmeos em Nova York, atribuídas a um grupamento criado, treinado e financiado pelos EUA décadas antes no Oriente Médio.

Naquele momento histórico, desde o futebol ao cinema, das conversas de bar aos desenhos animados, o estereótipo do terrorismo assolando o “mundo civilizado” era o fio condutor da convivência social, tudo refletia essa percepção de um mal a ser combatido como devir existencial, sustentado por imagens de um horror desumano que, por sua vez, comunicava: se trata do chamado à batalha contra inumanos, desprovidos daquilo que definiria a humanidade. Logo, a guerra deve ser total, com todas as forças e sem qualquer oposição.

Ao ligar a televisão, em qualquer canal, em qualquer horário, dos programas de amenidades matutinos aos noticiários, passando pelas fofocas e filmes de sessão da tarde, até os talk-shows noturnos, todos faziam questão de exibir histórias de famílias devastadas, atos heróicos de bombeiros, mobilizações cívicas de voluntários, preparativos bélicos militares. Conhecemos nos detalhes de terceira geração cada vítima, vimos seus amigos, namorados, parentes, filhos, colegas de trabalho, animais de estimação. Cada vítima extremamente humana do terror.


Com tudo isso formamos nosso entendimento de terrorismo. O mal maior, a bestialidade insuportável até entre os brutos. Satíricos complementavam com bazófia a caricatura do terrorista. A mote de dar uma “outra” visão sobre o demônio, criavam personagens com roupas e costumes típicos, vivendo vidas em cavernas e tendas onde confundiam coxinha de galinha com granada, jogavam boliche com bombas com pavio aceso, etc. Não se tratava assim de outra visão, mas da mesma, sob a permissão do ridículo com a dor ocidental. No fundo, um complemento útil e necessário, vejo hoje, à delimitação da figura do terrorista, o agente do terrorismo.

É muito fácil para os canais de televisão, seus jornalistas e grupos de mídia impressa e de internet repetirem hoje que a ação militar da resistência palestina foi um ato terrorista. Estamos há um ano repetindo sem qualquer contraponto que se trata de terrorismo matar centenas de civis num único dia. Contudo, a ação que matou cinco centenas de civis no Líbano recentemente, ou seja, um acontecimento idêntico, dessa vez promovido por Israel, não teve uma única citação em praticamente lugar nenhum com a mesma palavra.

Por que o assassinato de centenas de pessoas num único dia, em acontecimentos sem causalidade entre si, são tratados um como terrorismo inquestionável e outro sequer tem aventado o caráter terrorista?

Diante desse paradoxo, qualquer leitor bem instruído tentará dar um passo atrás e procurar além da semelhança dos fatos uma abstração sobre o conceito de terrorismo. Respeito o exercício e farei agora.

Segundo a ONU, conforme a resolução 48/60 de 1994 da sua Assembleia Geral, terrorismo são “atos criminosos planejados ou calculados para provocar estado de terror no público em geral, num grupo de pessoas ou em particulares por motivos políticos”.

Por essa definição não é necessário sequer haver mortes para ser enquadrado como ato terrorista. Mas os atos citados na definição geralmente são atos homicidas, levando um grupo maior a temer por suas vidas. Assim, as mortes de 7/10/23 e as de 23/9/24 encaixam-se ajustadamente no largo conceito.

A abstração jurídico-política nos deixa, assim, no mesmo lugar. Como atos igualmente terroristas à luz da definição da ONU são tomados de forma tão diferente por quase a unanimidade da mídia, sem que essa tenha qualquer acordo obscuro de manipulação?

A resposta, a meu ver, não é a existência de qualquer sala de comando noticioso entre a AP, Reuters, AFP, EF, etc. Tampouco um órgão secreto em Washington com censores que definem os rótulos e, a partir deles, as notícias. É algo bem mais simples, tangível e à vista de todos.

No acontecido do ano de 2023 não bastou o pronto reconhecimento da diplomacia brasileira do caráter terrorista da ação; foi cobrado em uníssono pela mídia liberal, e pelos que se dizem de esquerda que paradoxalmente se instruem por essa mídia, que Lula definisse também os perpetradores como essencialmente terroristas. Há uma exigência de pronto pela caricatura do terrorista como introjetada socialmente: o esteriótipo do islâmico. Da mesma forma, no ato terrorista recente, o mecanismo cognitivo trabalha no caminho inverso: se não partiu do esteriótipo do terrorista, não foi terrorismo.

Não há um estudioso sério, um profissional de relações internacionais, história, geopolítica ou áreas a fim que não reconheça a prevalência global geoeconômica dos EUA desde o fim da Guerra Fria, bem como sua dominância no chamado Ocidente desde o fim da Segunda Guerra. Falo aqui de consensos entre opositores e defensores.

A partir dessa identidade geopolítica, ou seja, desse fato inquestionável, para alguns positivo e para outros negativo, se extraem duas considerações gêmeas com valoração oposta. Enquanto uns chamarão de “valores ocidentais”, defendendo sua universalização, outros chamarão de hegemonia ou, com maior precisão, imperialismo.

Esta prevalência, o imperialismo, impõe a hegemonia dos chamados valores ocidentais, com o objetivo único de se tornarem universais. É, portanto, a universalização do particular, logo, a subversão da diversidade, tanto quanto das possibilidades de consensos básicos dentro dessa multiplicidade. Uma violência epistemológica a serviço do exercício da força, instrumento do poder no teatro interestatal.

Desta forma, relegando à insignificância as abstrações jurídico-políticas das instituições do pós-Segunda Guerra, prevalecem as caracterizações maniqueístas do hegemon. É terrorista aquele que faz X ou Y se este for adversário do hegemon e daqueles que devem obedecê-lo. Não é terrorista aquele que faz X ou Y se for aliado do hegemon, a mando dele ou ele próprio.

É inclusive bem fácil de entender. Como em qualquer governo despótico, baseado diretamente na força sem intermediação de regras e instituições (o que o ocidente gosta de chamar de ditaduras), o bem e o mal não são essência de nada, apenas rótulos dados pelo príncipe, pelo soberano. Esse é o real funcionamento das chamadas relações internacionais, atrás das camadas de instituições e regras que o hegemon impõe aos vassalos enquanto age acima delas.

Assim como as instituições econômicas de Bretton Woods foram solapadas pelos mesmos EUA que as criaram, as instituições da ONU vem sendo paulatina e cada vez mais acintosamente desidratadas por Washington. Israel é hoje o braço armado racista que melhor evidencia a hipocrisia da diplomacia estadunidense.

Então, até quando o mundo assistirá inerte? Ora, o conselheiro presidencial Celso Amorim respondeu recentemente, num think tank de Nova York, que o Brasil, a China, a Rússia e a maior parte do Sul Global operam com a consciência de que as “relações internacionais baseada em regras” são a expressão do definitivo abandono do “direito internacional”. Se o último emula a figura jurídica do capitalismo intra-estatal no interestatal, o primeiro é o retorno ao puro poder do príncipe, que edita regras a todos e a nenhuma se submete.

Não está distante, portanto, que novos coletivos de países, ou mesmo Estados solitariamente (como fez a Rússia), passem a agir como polícia do mundo, “baseados em regras” e ao arrepio do “direito internacional”, como fizeram EUA e Reino Unido no início do século no Oriente Médio, para combater o terrorismo, o genocídio e outras formas de violência que julguem insuportáveis.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Estamos a atirar o ouro borda fora…

Continuamos a encarar a sociedade como se nada tivesse mudado nos últimos cem anos. Esquecemos que aqueles que agora nascem terão uma vida adulta muito diferente da nossa. Desde logo, exercerão novas profissões. Em 2016, o Relatório do Fórum Económico Mundial antecipava que 65% das crianças que entravam nas escolas iriam trabalhar em funções que ainda não existiam.

A incerteza e as mudanças profundas que surgirão em vidas humanas mais longas e diversificadas aconselham a procurar novas soluções culturais, sociais, políticas e económicas diferentes das tradicionais, uma vez que estas estão a revelar-se inadequadas à realidade emergente.


Por exemplo, as propostas sociais mais correntes para os idosos são centros de dia, lares de terceira idade e apoio domiciliário. Mas são propostas que foram desenhadas para uma população analfabeta ou com baixa literacia e cultura, problemas de mobilidade e saúde mais acentuados. Sucede que a população portuguesa está em transformação. Por exemplo, hoje já estão a chegar à idade da reforma inúmeras pessoas com níveis de formação mais elevados, inclusivamente académicos, que necessitam de outras respostas.

As universidades e academias seniores ainda são olhadas como sendo respostas de elite e não têm os apoios do estado que deveriam ter, a fim de desenvolverem um trabalho muito mais profundo e alargado a todo o território. Falo do que sei. Em 2003, fundei com outras pessoas uma universidade sénior de que fui reitor durante cerca de dez anos, e bem sei as dificuldades que tivemos para colocar o projeto de pé, sem apoios oficiais do governo ou autarquias nem de privados. Apesar disso, veio a ser considerada uma das melhores do País e tornou-se uma instituição muitíssimo significativa para idosos, tantos na condição de alunos como na de professores ou de ambos.

A maioria dos lares de idosos não passam dum depósito de velhos doentes, sem estímulos nem programas, onde os utentes morrem um pouco todos os dias na sua inatividade, absortos, a olhar distraidamente para um televisor, a maioria deles esquecidos pela própria família e desligados da comunidade humana em que se integram.

Porque não investir em apartamentos residenciais em zona urbana, enquadrados em bairros com vida comunitária, dispondo de serviços essenciais (p. e. apoio médico, de enfermagem, cabeleireiro, limpeza), onde os utentes possam fazer ou encomendar as suas compras e cozinhar, mantendo alguma privacidade, mas nunca estando completamente sozinhos de dia nem de noite?

Por que não articular os lares residenciais com jardins-de-infância, de forma a permitir uma ligação intergeracional, que é sempre rica tanto para as crianças como para os idosos?

Porque não utilizar alguns mais velhos quando necessário, dando-lhes uma pequena formação, para irem às escolas, a convite destas contar estórias de vida às crianças e adolescentes?

Porque não organizar, potenciar oficialmente e estimular de forma ativa a oferta de quartos a estudantes deslocados na casa de idosos sozinhos, em troca de pequenos serviços de apoio?

Porque não reorganizar o mercado de trabalho de modo a que os indivíduos com idade de reforma possam continuar a trabalhar durante um período, agora em regime de tempo parcial, de acordo com o seu desejo e o interesse das empresas? Certamente todos concordamos com Camus “Não se pode criar experiência. É preciso passar por ela.”

Porque se faz uma separação tão categórica entre a chamada vida ativa e a reforma? Por que não se compreende que tal separação é cada vez menos inteligente, tanto devido à progressiva longevidade como ao facto de atirar para o canto os que dispõem de mais competências e experiência profissional? E que, por essa razão, se estão a dar verdadeiros tiros no pé em temos de economia, em know-how e produtividade, para não falar nos problemas de saúde pública desencadeados por tal corte brusco, dadas as profundas implicações emocionais e mentais que desencadeia com tanta frequência? Como dizia George Sand “Cada um tem a idade do seu coração, da sua experiência e da sua fé.”

A rigidez mental de quem traça as políticas sociais nos gabinetes é de tal ordem que qualquer projeto social inovador que não se enquadre nas valências já existentes é imediatamente desconsiderado, em regra. Porquê? É que dá trabalho pensar, organizar e sobretudo lutar por uma mudança substantiva do paradigma que inspira as respostas sociais já existentes e tradicionalmente aplicadas à população idosa. Abrir novos caminhos dá trabalho e inovar implica sempre um risco que a velha “mentalidade de funcionário público” tem dificuldade em assumir.

Ou seja, somos bem menos inteligentes do que os povos primitivos ao atirarmos borda fora o nosso ouro geracional.

A ordem é matar!

As pessoas estão a ver o que querem acreditar, e não estão a acreditar no que veem. Israel nunca foi tão explícito sobre a sua intenção de guerra em Gaza
Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para os Direitos Humanos nos Territórios Palestinos Ocupados

Doenças sociais oportunistas

Médicos dizem que as infecções oportunistas são causadas por micro-organismos que se aproveitam de debilidades no sistema imunológico e podem se converter em epidemias em razão de imprudência ou negligência humanas. No último parágrafo de A Peste, obra-prima de Albert Camus, o personagem Rieux refletia: “o bacilo da peste não morre, nem desaparece, espera com paciência…e chega talvez o dia em que…a peste acorda os ratos e os manda morrer numa cidade feliz”.

Traçando um paralelo, perversidades sociais, a exemplo do crime organizado, corrupção e vícios de todos os gêneros, constituem uma ameaça permanente, sobretudo, em países com fragilidades institucionais e déficit civilizatório, como o Brasil. Esse entendimento é abonado por fatos recentes.

A Constituição de 1988 admitiu que a proposta orçamentária pudesse ser objeto de emenda para proceder à “correção de erros ou omissões”. Tese, em princípio, razoável.


Essa brecha legal serviu, todavia, de pretexto para, artificialmente, elevar a receita e financiar “emendas parlamentares”. De início, elas constituíam valores modestos; hoje representam quase ¼ das despesas discricionárias da União, desdobrando-se em uma larga coleção de alternativas (emendas individuais, de bancada, impositivas, secretas e as teratológicas emendas PIX), que acentuam as distorções no já disfuncional federalismo fiscal e são fonte poderosa de corrupção. Reverter essa iniquidade requer uma desproporcional energia política.

A incapacidade de enfrentar os crônicos desequilíbrios fiscais por meio do gasto pretexta a elaboração de fantasias, como teto de gastos e arcabouço fiscal, e a busca alucinada por novas fontes de receita, não raro esdrúxulas, como a anistia parcial em decisões tomadas no CARF pelo voto de qualidade, ou tóxicas, como a tributação de apostas esportivas (bets).

A febre das bets resultou em expressivo endividamento dos mais pobres, redução do consumo, ludopatia digital e estímulo à corrupção nas competições esportivas.

Até mesmo o bolsa família tem sido utilizado em apostas esportivas, em abusivo desvio de finalidade.

Não consigo entender a surpresa diante desse quadro, construído por uma combinação de maciça publicidade, amplo patrocínio dos clubes de futebol e legislação que ampara a atividade.

São pífias as medidas cogitadas para enfrentar a febre das bets, como o controle de licenças para exploração da atividade e a vedação do uso de recursos do bolsa família. Ingenuidade ou impotência? A febre não será debelada.

Persiste a esperança de que a violência acabe em breve

As cicatrizes das guerras anteriores do Líbano ainda eram visíveis em Beirute antes desta começar. E a cidade agora se encontra, novamente, no meio de um conflito, com novas cicatrizes surgindo.

As noites aqui são interrompidas por explosões e estrondos que iluminam o céu. Elas são tão poderosas que são ouvidas, e às vezes sentidas, a quilômetros de distância.

Beirute, tão acostumada a guerras, parece estar tentando se adaptar a essa nova realidade. Algumas lojas, restaurantes e bares estão abertos novamente em áreas centrais, ainda vistas como relativamente seguras. Lembretes da guerra, no entanto, vêm com frequência: os ataques, o som constante de drones voando sobre suas cabeças, ou o grande número de pessoas deslocadas, dormindo em ruas e praças.

As conversas são inevitavelmente dominadas pelo que está acontecendo aqui e em todo o país, e pela esperança de que a violência, "Inshallah", se Deus quiser, acabe logo.

As pessoas costumam comparar a violência atual entre Israel e o Hezbollah com o conflito que eles lutaram em 2006, que durou um mês. Mas os ataques aéreos e assassinatos israelenses continuam, sua invasão terrestre do sul está aparentemente se expandindo, e com o Hezbollah prometendo resistir, esta guerra pode ser mais longa e mais dolorosa do que a última.
Hugo Bachega , correspondente da BBC

Assim, ninguém ganha esta guerra

O Médio Oriente está a ferro e fogo. Gaza arrasada e o Líbano em convulsão. Israel, ébrio de vitórias táticas e o Irã condicionado por um dilema estratégico. Os Estados Unidos apelam à paz e Netanyahu faz a guerra. Sob a vertigem dos acontecimentos e a ameaça de um conflito em larga escala, é difícil ver claro. Mas há duas perguntas fundamentais: como é que tudo isto começou? E como é que isto vai acabar?

Começou há mais de um século. É um conflito que atravessou várias fases e diferentes configurações. Entre as duas guerras, ainda sob o mandato britânico da Sociedade das Nações, assumiu a forma de uma guerra civil. Nos anos 30, os palestinos revoltaram-se contra a instalação de judeus em Israel e contra os britânicos que a facilitaram.


Depois da fundação do Estado de Israel, entre 1948 e 1973, o conflito assume a forma de um conflito clássico interestatal. Os palestinos desaparecem da equação e as grandes resoluções do Conselho de Segurança da ONU nem sequer os mencionam. O conflito é entre os exércitos regulares de Israel e dos Estados árabes. É o tempo da chamada “guerra israelo-árabe”. E das grandes vitórias israelitas: 1948, 1956 e, sobretudo, a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e do Yom Kippur, em 1973. A partir de então, o conflito muda uma vez mais de configuração e aproxima-se de uma guerra assimétrica entre as forças palestinas e o Estado de Israel. Este processo é acompanhado por uma dupla dinâmica: de desarabização do conflito e apropriação palestina da sua causa. Desde os acordos de paz de Camp David, em 1978, que, primeiro o Egito, depois os outros Estados árabes, se vão afastando do conflito. E em 1993, nos acordos de Oslo, são os próprios palestinos, através da OLP, que assinam a paz com Israel.

Em casa, enquanto Israel vai consolidando o seu poderio militar, os palestinos vão alimentado a sua revolta nas sucessivas intifadas 1987-1993 e 2000-2005. Uma coisa é certa: a desarabização do conflito e reapropriação palestina é acompanhada pelo desenvolvimento da guerra assimétrica. E é a retirada dos Estados árabes que permite a entrada do Irã. Em 1988, depois da guerra Irão-Iraque, o Irã decide substituir os Estados árabes no apoio à causa palestiniana e construir uma rede de influência regional de actores não estatais, explorando, precisamente, a guerra assimétrica: o Hamas; o Hezbollah; a Jihad Islâmica e os houthis.

Agora, como é que tudo isto vai acabar? Não sabemos. Mas há uma ou outra coisa que nós sabemos. Sabemos que a estratégia iraniana é de estabelecer uma articulação militar entre as várias frentes de batalha contra Israel através destes atores não estatais seus “proxis”, com o objetivo de cercar, desgastar e enfraquecer Israel. E, bem entendido, garantir o seu programa nuclear. E sabemos que a prioridade de Israel é combater o Irã e os seus “proxis”. Mas também sabemos que o 7 de outubro desencadeou uma reação brutal de Israel. Israel tem direito à legítima defesa. Mas desbaratou essa legitimidade na brutalidade da reação. A justeza dos objetivos não justifica a desproporcionalidade dos meios.

Gaza está arrasada, o Líbano invadido, o Hamas destruído e o Hezbollah decapitado. Há destruição física, milhões de deslocados, crise humanitária e milhares de mortes de civis inocentes. A destruição militar de uma organização terrorista não pode justificar a punição coletiva de um povo. Depois do assassinato de Nasrallah, o Irã estava perante um dilema: como calibrar as represálias? Ou se limitava a uma política declaratória, condenava veementemente, mas não retaliava e perdia a sua credibilidade política e a sua capacidade de dissuasão; ou respondia e atacava diretamente Israel. Decidiu retaliar. Arrisca uma nova guerra e, quem sabe, o seu programa nuclear.

Ver-se-á a resposta de Israel. Embora não pareça, o seu dilema não é menor. Israel tem avançado de vitória táctica em vitória táctica, mas não há vitória estratégica sem uma solução política. E até agora não se vislumbra qual seja. Nem para Gaza, nem para o Sul do Líbano. É que as operações militares são necessárias para ganhar a guerra. Mas não são suficientes para garantir a paz. Não haverá paz, enquanto não houver uma solução política para os problemas que persistem: a relação com o Irã e um Estado para a Palestina. A escalada está em marcha e assim não acaba bem. Não haverá paz e sem paz ninguém ganha esta guerra.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Shalom ?


Pergunte a qualquer oficial israelense qual é o plano deles para a paz – você não receberá nada, Uma coisa que os israelenses odeiam são os árabes que realmente querem a paz
Ayman Safadi, ministro das Relações Exteriores da Jordânia na ONU

Brasil é uma 'mina de ouro' para casas de apostas

Entre as décadas de 1930 e 1940, o Brasil era como um paraíso dos cassinos. Mais de 70 casas funcionavam no país, e os jogos de azar faziam parte da cultura nacional. No dia 30 de abril de 1946, entretanto, essa realidade mudou abruptamente. Pelo menos de forma legal. Sob o argumento de que esse mercado feria a “tradição moral, jurídica e religiosa” do brasileiro, o então presidente Eurico Gaspar Dutra assinou um decreto proibindo a prática.

Quase 80 anos depois, o cenário é outro. Mesmo diante de um Congresso considerado conservador, o Brasil reabriu as portas para o mundo das apostas, legalizadas em 2018, com a Lei 13.756. Desde então, o país vive um novo “boom” desse mercado, agora de apostas online.

O setor deve ser regulamentado e fiscalizado a partir de janeiro de 2025. O Ministério da Fazenda já tem 182 pedidos de empresas interessadas em obter licença para operar no país, de acordo com o Sistema de Gestão de Apostas. Somente entre setembro e o primeiro dia de outubro, foram 70 novos pedidos.

O interesse é de empresas nacionais e multinacionais da área, como MGM Grand e Caesars Palace, que atuam no mercado de cassinos físicos em Las Vegas, nos Estados Unidos.

Na outra ponta, as apostas online estão fincando raízes na rotina da população. Uma pesquisa do Instituto DataSenado, publicada nesta terça-feira (01/10), mostra que 13% dos brasileiros com 16 anos ou mais, cerca de 22 milhões de pessoas, declararam ter participado de “bets” no último mês.

Outro levantamento da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) já havia mostrado que 63% de quem aposta no país compromete a renda para jogar. Já um levantamento do Banco Central (BC) revelou que inscritos no Bolsa Família teriam direcionado cerca de R$ 3 milhões para as bets apenas via Pix em agosto.

Esse último estudo vem sofrendo contestação, porém todos esses dados são termômetro da nova onda que já posiciona o Brasil, de acordo com a empresa especializada em análise de dados Comscore, como o terceiro mercado mundial em consumo de casas de apostas, atrás apenas dos Estados Unidos e do Reino Unido.

Pesquisadores e integrantes do setor creditam a atratividade do mercado de apostas brasileiro a uma série de fatores, entre eles o apelo a uma paixão nacional, o futebol; o atraso em regulamentar a área; a possibilidade turística para cassinos físicos; o tamanho da população economicamente ativa; e a desigualdade social existente no país.


“O Brasil não é só um mercado interessante, ele é considerado uma das joias da coroa do mercado de aposta mundial, principalmente se levarmos em consideração que o país está sem jogo legalizado há quase 80 anos”, defende Magno José, presidente do Instituto Brasileiro Jogo Legal (IJL).

Nesta terça-feira (01/10), o Ministério da Fazenda publicou uma lista com todas as empresas de bets e apostas aptas a operar no Brasil até dezembro. A lista inclui 89 empresas com respectivamente 193 bets (marcas) que vão continuar operando no país. O governo federal também solicitou informações aos estados, que registraram seis empresas com respectivamente seis bets.

Todos os outros sites que não foram incluídos na lista não poderão mais divulgar ofertas e serão proibidos no país. Eles permanecerão no ar por dez dias, para facilitar o pedido de devolução do dinheiro de apostadores. A partir de 11 de outubro, eles começarão a ser derrubados, com auxílio da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Aqueles que não pediram autorização de licença ao ministério passarão a ser classificados como ilegais. Quem solicitou atuar no Brasil, mas não estava funcionando ainda, deverá aguardar até 2025. Até lá, a pasta analisará todos os pedidos de licenciamento.

"A medida proporciona mais segurança para a sociedade e para as empresas que querem operar adequadamente no Brasil. Com isso, protegemos a saúde mental e financeira dos jogadores", ressaltou Regis Dudena, secretário de Prêmios e Apostas do ministério, em nota.

A lei de 2018 previa uma regulamentação para o setor de apostas entre dois a no máximo quatro anos, mas apenas em fevereiro de 2023 o país começou a estabelecer as regras de funcionamento das bets esportivas e jogos similares.

Para tanto foi criada uma agenda regulatória, que incluiu a publicação de 11 portarias até setembro deste ano com normas para licenciamento, marketing, fiscalização, entre outras.

O governo federal havia estabelecido que a partir de janeiro iria banir as empresas que não tivessem a licença de operação concedida, mas pesquisas apontando o dano financeiro e de saúde na população, bem como investigações sobre lavagem de dinheiro envolvendo o mundo das bets e influenciadores digitais, anteciparam a medida.

Representantes do setor, Magno José, defendem que a ausência de regulamentação foi o que catapultou o Brasil no mercado internacional de jogos de azar. Ele estima que haja mais de 2 mil sites em funcionamento. Para José, os recursos que poderiam ter sido investidos na compra de outorgas e gerar tributos ao Estado acabaram direcionados para publicidade e marketing, o que tornou o mercado selvagem e nocivo, além de permeado por sites ilegais.

De acordo com o professor do Departamento de Sociologia e Metodologia e Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF) Marcelo Pereira de Mello, a ausência de regras no mínimo facilitou uma corrida para abrir empresas da área. “Uma regulamentação frouxa e a falta de experiência da gestão pública serviram como estímulo para a criação de muitas empresas de fundo de quintal”, afirma.

O Brasil vive historicamente uma relação de amor e ódio com os jogos de azar. Tanto que a proibição de Dutra, em 1946, não foi a única a ocorrer no país. Por outro lado, a inexistência dos cassinos online nunca limitou totalmente os jogos de azar, que permaneceram ocorrendo por vias lícitas ou ilícitas, seja na loteria federal ou com o jogo do bicho.

De acordo Mello, do ponto de vista sociocultural não há nada que faça o brasileiro ser mais propenso a jogar em comparação a outros mercados mundiais. “Aqui se joga como em qualquer outro país. Os jogos de aposta são uma tradição das sociedades humanas, de maneira geral”, diz.

Autor do livro Criminalização dos Jogos de Azar - A História Social dos Jogos de Azar no Rio de Janeiro, Mello ressalta inclusive que o Brasil sempre viu os jogos de azar pela perspectiva conservadora. Contudo, ele lembra também que esse tipo de negócio sempre esteve vinculado a políticos.

“Pode parecer um paradoxo, mas isso é explicado por outra característica da política brasileira, que é o fisiologismo. Houve uma intensa atuação de lobbies relacionados a apostas, com promessas de favorecimento a diversos grupos dentro do Congresso Nacional”, acrescenta.

Outro fator apontado como importante nessa equação é a paixão do brasileiro por futebol, já que as apostas em eventos esportivos representam parte significativa desse mercado. Empresas do setor começaram a realizar propaganda em diversos eventos desde 2018 e patrocinam pelo menos 30 clubes das séries A e B do Campeonato Brasileiro, incluindo Flamengo e Corinthians.

“É um mercado novo, que explora uma paixão nacional. As pessoas podem pensar que aquilo não é um jogo de azar, mas de conhecimento técnico sobre o esporte, o time, os jogadores”, afirma Mello. De acordo com José, 80% dos apostadores brasileiros são considerados recreativos, ou seja, que apostam em pequenas quantias. “É aquela coisa de mandar no grupo de amigos que apostei no time que ganhou”, diz.

Daniel Dias, professor da FGV Direito Rio de Janeiro, lembra, contudo, que faltam dados comparativos com outros países para cravar se a paixão do brasileiro por futebol move mais apostas do que em outros países onde acontece o mesmo fenômeno.

“Independentemente disso, é uma novidade, e tudo o que é novo atrai atenção. Além disso, o mundo das bets está entrando com muita publicidade agressiva”, diz Dias.

Com a regulamentação do mercado, as bets vão precisar ter sede no Brasil e licenciamento para seguir patrocinando os times de futebol e outros eventos esportivos. Em outros países, como no Reino Unido, o patrocínio das casas de apostas foi proibido de ser estampado nas camisas dos clubes a partir de 2026.

“A gente vê grandes jogadores de futebol, da seleção, vinculando suas imagens às apostas esportivas. Além disso, a gente tem anúncio em tudo quanto é canto, num ambiente sem categorização de idade”, afirma Rodrigo Machado, psiquiatra e coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).

Em 1920, o então presidente Epitácio Pessoa chegou a liberar os cassinos, mas só em balneários, para fomentar o turismo e custear o saneamento básico no interior. Mas tanto os estados quanto o Governo Federal fecharam vários dos hotéis-cassinos, que só voltaram a ser estimulados a partir de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas.

Agora, com o mercado online efervescente, há a expectativa de que o país também volte a aceitar os espaços físicos de apostas. E ter um litoral vasto é considerado um ativo interessante para a eventual instalação de cassinos físicos.

O Congresso discute um projeto de lei para regulamentar o jogo do bicho, a corrida de cavalo e os cassinos. O texto do PL 2.234, de 2022, é uma versão do PL 442, que tramitava desde 1991 e foi aprovado na Câmara dos Deputados em 2022. O documento está em tramitação no Senado, com última movimentação no início de agosto deste ano.

Representantes de empresas com atuação em Las Vegas, como o presidente da Caesars Sportsbook no Brasil, André Feldman, têm realizado encontros com senadores e integrantes da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.

Segundo a ferramenta Agenda Transparente, da Agência Fiquem Sabendo, Feldman realizou pelo menos três encontros com representantes do Executivo e Legislativo desde 2023. A última delas no dia 4 de setembro, com o senador Rogério Carvalho (PT/SE) e integrantes do MF. Já Alex Pariente, vice-presidente sênior do Hard Rock International para hoteis e cassinos, encontrou-se em maio com representantes do MF.

“Estamos num país que tem muitas belezas naturais, então, se forem aprovados os cassinos presenciais, é um mercado fantástico para instalar resorts e cassinos e fomentar o jogo de azar presencialmente”, lamenta Machado.
Desigualdade social como pano de fundo

A pesquisa do DataSenado mostra que o perfil principal de apostadores no Brasil são pessoas do sexo masculino, entre 16 e 39 anos, que ganham até dois salários-mínimos. Entre as pessoas que apostaram, cerca de 58% estão com dívidas em atraso há mais de 90 dias.

Os dados corroboram as pesquisas já divulgadas pela SBCV e o Banco Central sobre o perfil de quem está se tornando consumidor nesse mercado. Para os pesquisadores entrevistados pela DW, são estatísticas que revelam o papel da desigualdade social na proliferação das bets.

“A camada social mais pobre é mais vulnerável a esse tipo de atividade, pois são pessoas que muitas vezes estão endividadas ou querendo fazer uma grana extra, que estão com a corda no pescoço”, afirma Dias.

Mello ressalta também as desigualdades educacionais como fato. “No Brasil, os mais pobres são também os que têm menos escolaridade formal. Essas empresas prometem enriquecimento, mudança de padrão de vida a uma população desesperançada. Então, a expectativa de ascensão social se dá por esse meio”, diz.
Alice de Souza 

O mundo se arma

As oscilações para cima ocorridas nos últimos dias nos preços do petróleo e do ouro são reações imediatas a eventos com potencial de imprimirem insegurança aos mercados. Eram previsíveis, pois não pode haver dúvida de que a escalada da guerra no Oriente Médio, com o envolvimento direto de Israel, do Líbano, do Irã e, indiretamente, dos Estados Unidos, acentua a gravidade de uma disputa que coloca em risco a estabilidade global. No entanto, nos bastidores que movimentam a geopolítica, há muito tempo os países relevantes preparam-se militarmente para enfrentar um cenário mundial de instabilidade crescente.

Os gastos militares mundiais aumentaram 6,8% em 2023, em termos reais (descontada a inflação). Foi a mais acentuada expansão anual observada ao longo de nove anos consecutivos, desde 2014, representando despesas no total de US$ 2,443 trilhões. Os Estados Unidos aparecem em primeiro lugar, com um total de despesas no setor militar de US$ 916 bilhões no ano passado (2,3% a mais sobre 2022), seguido da China com a estimativa de gastos da ordem de US$ 296 bilhões (6% acima do ano anterior).

Os números são do Stockholm International Peace Research Institute - Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri) -, cujo banco de dados foi atualizado em abril deste ano. Trata-se de uma conceituada instituição independente dedicada a pesquisar informações relacionadas com a segurança global em 40 países.

A Rússia, com US$ 109 bilhões (24% de aumento sobre 2022) aparece em terceiro lugar, à frente da Índia, cujas despesas militares atingiram US$ 83,6 bilhões e da Arábia Saudita, com US$ 75,8 bilhões de gastos. A Ucrânia ampliou suas despesas militares em 51%, atingindo o total de US$ 64,8 bilhões em 2023.

No top 10, aparecem ainda o Reino Unido, a Alemanha, a França e o Japão, que decidiu voltar a investir em armamento. O Brasil é o 16º colocado, com gastos equivalentes a US$ 22,9 bilhões (3,1% a mais sobre 2022).

Obviamente, o incremento dos gastos militares foi estimulado pela invasão da Rússia na Ucrânia há cerca de dois anos e meio e pelo ataque do Hamas a Israel com a consequente resposta que há um ano tem envolvido o exército israelense na faixa de Gaza, na Cisjordânia e, mais recentemente, no Líbano. Os dados do Sipri apontam para um aumento real de 9% das despesas militares na região do Oriente Médio em 2023. Além da Arábia Saudita, destacam-se Israel com gasto de US$ 27,5 bilhões (24% a mais sobre 2022), a Turquia, que ampliou seus gastos em 37% para o total de US$ 15,8 bilhões, e o Irã, cujo aumento marginal de 0,6% envolveu US$ 10,3 bilhões no ano passado.

No que diz respeito às armas nucleares, também se observou inversão substancial, com destaque para a China. Como se sabe, são nove os países que detêm arsenal nuclear: Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão, a República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte) e Israel. O Sipri calcula que no início de 2024 o total de armas nucleares naqueles países somou cerca de 12.121, sendo que destes 9.585 são considerados potencialmente disponíveis do ponto de vista operacional.

Estados Unidos e Rússia são responsáveis, juntos, por cerca de 90% da totalidade do armamento nuclear no mundo e têm investido na substituição e modernização de ogivas, mísseis, aviões e em submarinos especializados. A grande novidade é a expansão do arsenal nuclear chinês. Com a ressalva de que as informações se baseiam em dados secundários, uma vez que a China não os divulga oficialmente, o Sipri estima em 500 ogivas nucleares o total existente naquele país em janeiro deste ano. Isto representaria 90 ogivas a mais do que a estimativa de 2023. O Instituto destaca a possibilidade de que, na próxima década, os chineses sejam capazes de manter posicionada a mesma quantidade de mísseis balísticos intercontinentais que a Rússia ou os Estados Unidos no mesmo período.

Enquanto o mundo se arma, as Nações Unidas, órgão responsável por manter a paz global, se enfraquece. Criada em julho de 1945, logo após o término da Segunda Guerra Mundial, em substituição à Liga das Nações que, por sua vez, havia surgido com o fim da Primeira Guerra, a ONU vem gradualmente perdendo poder de influência na mediação de conflitos. Paralisada em meio às discussões a respeito da formação atual e injustificável do Conselho de Segurança, a instituição ficou sem voz e sem vez.

De fato, há uma obsolescência em torno daquele Conselho. Seus membros permanentes com poder de veto - Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China - formam o grupo dos aliados, vencedores da guerra deflagrada por Hitler, com exceção da China que entrou, talvez, por oposição ao então inimigo Japão, apesar de representar na época apenas 2% do PIB mundial. Aliás, entrou como República da China (hoje Taiwan) e foi substituída em 1971 pela República Popular da China em manobra de Nixon, que se aproximou dos chineses com receio de que estes se aliassem à Rússia. Após quase 80 anos, vive-se hoje uma realidade geopolítica diferente com novas forças de influência, muitas informais, como o G-7, o G-20, os Brics, a Asean (do Sudeste Asiático mais China) e a AUKUS (Aliança de Defesa anti-China), entre outras.

A 79ª Assembleia Geral da ONU aprovou recentemente em Nova York o “Pacto do Futuro”, com o objetivo de reforçar a cooperação multilateral e reabilitar o poder político da própria instituição. Entre os objetivos está a reforma do Conselho de Segurança com relação à forma, ao tamanho e às atribuições, incluindo limites para o uso do poder de veto. O tal Pacto mais parece aquele tipo de decisão para inglês ver, como se diz. A ONU quer recuperar influência, mas sabe-se que dificilmente conseguirá grandes avanços enquanto as decisões continuarem a passar pelas mãos dos cinco países agraciados com o crivo do veto em meio ao universo de 193 países que fazem parte da organização.
Maria Clara R. M. do Prado 

Criariam a guerra se já não houvesse uma guerra criada para que lutem

Red ganha uma batalha entre frotas estelares no futuro distante do Filamento 2218. Enquanto a grande Gallumfry se inclina em direção ao planeta, lançando uma chuva de cápsulas de fuga, enquanto as estações de batalha murcham como flores lançadas ao fogo, enquanto as bandas de rádio chiam com triunfos e naves ligeiras mergulham para escapar de perseguições, enquanto armas ecoam seus últimos argumentos no espaço mudo, ela escapa. O triunfo parece rápido e sem graça. Ela costumava adorar esse fogo. Agora, só a lembra de quem não está lá.
Ela escala fio acima, se consolando no passado.

Red raramente procura a companhia de outros como ela. São todos esquisitos — decantados depois de terem sido considerados divergentes em algum ponto de seu desenvolvimento. Ou os mais divergentes de todos: aqueles que decantaram a si mesmos. Eles não ficam em paz, e continuam os jogos na rosa celestial. Eles se destrincham do resto, introduzem assimetria.

Eles criariam esta guerra se já não houvesse uma guerra criada para que lutem, ela pensa.


Mas ela busca companhia agora, em um dos lugares onde sempre encontra.
O sol castiga as ruas de Roma. Um homem com um rosto magro e um nariz fino e uma coroa de louros passa acompanhado pelo Teatro de Pompeia. Outros o interceptam, convidam-no a entrar. Uma multidão está esperando nas sombras: os senadores, seus servos, e outros.

— Você já sentiu que está sendo seguido? Que a Comandante está espionando você? — Red pergunta a um dos outros.

Um senador oferece a César uma petição.

— Seguido? — diz o homem com o nariz quebrado à sua esquerda. — Pelos inimigos, às vezes. Pela Agência? Se a Comandante quisesse nos espionar, poderia ler nossas mentes.

César desconsidera a petição, mas os senadores o rodeiam.

— Alguém está seguindo meus rastros, mas some assim que penso em pegá-lo — diz Red.

— Agente inimigo — diz a mulher à sua direita.

— Mas são em excursões minhas, viagens de pesquisa, não de contra-ataque. Como um agente inimigo saberia para onde eu vou?

Um senador puxa uma adaga. Ele tenta esfaquear César pelas costas, mas César segura sua mão.

— Se for a Comandante — diz o homem com o nariz quebrado —, por que se preocupar?

Ela franze a testa.

— Eu gostaria de saber se a minha lealdade está sendo testada.

O homem que teve a mão segurada grita por ajuda em grego. Adagas deslizam das bainhas dos senadores.

— Isso acabaria com o propósito do teste — observa a mulher. — Ah, deixe disso, nós vamos perder a diversão.

Ela tem um sorriso largo e uma lâmina longa.

César grita algumas palavras, mas elas se perdem no tumulto do ataque dos assassinos. Red dá de ombros e suspira e se junta a eles. A guerra oferece poucas chances de extravasamento, e ela não pode ser vista dispensando uma. O sangue gruda em suas mãos. Ela lava depois, em outro rio, bem longe.

Folhas esvoaçam nos bosques de Ohio quando os gansos pousam. Um deles se afasta dos demais gansos e se aproxima dela. Red pondera sobre o destino do último ganso a lhe trazer uma carta e sente um momento de culpa.
Há um barbante ao redor do pescoço do ganso, e do barbante pende uma bolsa de couro fino.

Suas mãos tremem ao abrirem a bolsa. Seis sementes repousam lá dentro, diminutas lágrimas carmesins com ainda mais diminutos números entalhados em suas superfícies, de um a seis. Sobre o couro, em uma tinta azul demais para aquele continente ou filamento, a caligrafia que ela conhece bem, mesmo que só tenha visto uma vez, traça: Você confia em mim?

Ela se senta no bosque, sozinha.

Ela confia.

Red confia nela até os ossos, a ponto de ter que pensar por um longo tempo para se dar conta do que desconfiar implicaria — o que essas sementes podem ser, o que podem fazer a Red, se estiver errada.

Ela come as três primeiras sementes uma a uma. Deveria se sentar debaixo de um baobá, mas em vez disso afunda sob uma castanheira, rodeada de seus frutos espinhosos.

Quando cada carta se abre em sua mente, ela a enquadra no palácio da memória. Ela tece as palavras em cobalto e lápis-lazúli, unindo-as ao manto de Maria nos afrescos de São Marcos, à tinta sobre porcelana, à cor de uma rachadura em uma geleira. Recusa-se a deixá-la escapar.

A terceira semente, com sua terceira carta, faz Red desfalecer.

Ela acorda com o farfalhar de castanhas secas para descobrir as últimas três sementes ainda em sua mão fechada, mas a bolsa de couro desaparecida. Ela ouve passos no bosque e os persegue: uma sombra dispara lá na frente, sempre fora de alcance, e então some, e ela cai ofegante de joelhos no bosque vazio.
Amal El-Mohtar e Max Gladstone, "É assim que se perde a guerra do tempo"

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Além da imoralidade

A defesa deve ser sempre proporcional ao ataque. Quando há algo desproporcional, você vê uma tendência de dominar que vai além da moralidade
Papa Francisco

Coach — política neofascista e traumaturgia

O coach é a representação limite da financeirização do capital — a sua máxima abstração e pureza, dominando a produção e a guerra global — no âmbito da cultura. Psicólogo definido pelo incremento da produtividade de seu cliente, o coach teve origem na ruína do mundo do trabalho, das profissões e de suas éticas, no mundo da fragmentação e monadizacão do destino do trabalhador, vendedor de qualquer coisa que ninguém quer comprar.

Ele é o próprio sintoma encarnado da vida das classes médias sob o risco de não serem produtivas, por fim dispensáveis, pela presença da política permanente do desemprego. Neste mundo, o coach cumpre o serviço de exploração da insegurança universal. Ele medeia a violência normal na vida das empresas, promove falsa autoajuda como verdade humana, a única ajuda disponível, para pacificar um sujeito sem valor algum, cultural ou de troca, na cultura de sua máxima exploração, física e psíquica.

Como um dia me disse o CEO de uma gigantesca agência de publicidade, máquina que trabalhava no fundo da própria política do país: “na empresa você pode facilmente ganhar 100 mil por mês, não é difícil… basta você me produzir 300 mil por mês.” Este é o mundo dos valoresdo coach, é nele e por ele, sustentado em indivíduos, que o coach trabalha.


Mundo da pressão total da abstração do dinheiro, sem nenhum caráter ou valor para fora do retorno ao mercado, da tempestade tautológica do sistema da mercadoria se auto-referenciando, para justificar o terrorismo de sua própria vida social. Realidade dura dos vencedores, no limite da maior derrota, onde o coach pontifica.

Ele é um psicólogo clínico degradado na ideia fixa da autoajuda banal, pastor profano do elogio do trabalho e do dinheiro quando eles se tornaram impossíveis, psicanalista que negou o inconsciente e a transferência a favor do apego sugestivo ao próprio eu, confundindo subjetividade com produção de valor e sujeito com submissão ao racket psíquico pessoal.

O coach é o pastor cujo único deus é o sucesso abstrato na cultura dada, o psicólogo empresarial de Recursos Humanos pago particularmente para se suportar o risco da vida do trabalho, de quem ainda quer estar por cima, o psicanalista que vende a própria imagem, e a própria tabuada de razões ideológicas, radicalmente comprometidas com a reprodução da ordem que põe tudo em risco.

Não há dialética nem negatividade na existência do coach e sua “teoria” — instrumentalização do pior do elemento subjetivo presente em uma psicanálise. Há apenas aceitação, celebração tácita, adaptação como estratégia de vida, sob o cálculo e o projeto do truque, do golpe ou do balanço malando em meio ao dinheiro, para garantir a sobrevivência nele. Sobrevivência de vida que parte e se resolve no espetáculo, traduzida diretamente em fetichismo da mercadoria, consumo conspícuo.

Vendendo degradação de qualquer metafísica, desde que adaptada a tudo o que existe, o coach é o apoio limite do homem comum, quando ele não vai ao culto coach de uma igreja evangélica…, o amuleto transferencial mundano do filisteu cultural, normal, que, dispensável em todos os níveis da vida que não tenham a ver com mais valor, necessita de alguém que junte os seus pedaços, o pastor profano. Explodido pela própria sociedade esquizofrênica, que não pode negar, pensar em contradição, o cliente do coach o deseja como a liga de seu retorno ao próprio mundo impossível.

O duplo do coach, coach sem nenhum vínculo com o trabalho, é o promoter da vida permanente no gozo generalizado das imagens em fluxo, mas de kicks e de baques, de excitação vazia, o influencer da internet: o vendedor estridente, vulgar no último, de tudo e qualquer coisa que exista, ou seja, que excite alguém. O propagandista, da propaganda que se voltou sobre si mesma. A cultura do coach é a dasobrevivência para a sociedade do espetáculo generalizado, da mercadoria como tudo na vida; a cultura do influencer é a daafirmação imanente da sociedade do espetáculo generalizado, da mercadoria como tudo na vida.

O coachlíder fascista é o que une o seu estatuto de pastor profano com a malandragem feliz de vampirizar qualquer fetichismo, de qualquer produto, fofoca ou crime nas redes, a arte do influencer. Realiza meta-morfose de si mesmo, virando em exemplo degradado, autocelebrado em fusão com a propaganda de tudo, a ser seguido por massas. O coach líder fascista é o líder político das micro-celebridades, auto geradas aos milhares nas redes. Quanto mais ele aparece, mais poderoso ele é, porque neste mundo basta aparecer para ser poderoso.

Vendedor do sonho de si mesmo, o produto do coach fascista, novo líder no limite da degradação política total — da manutenção do capitalismo de fronteira final, de extermínio de ambiente e natureza, porque os humanos já eram faz tempo… — é a venda da própria imagem, a figura de um rico grotesco brilhando, um sádico do gozo da vida má, deliberadamente estúpido, como modelo para a vida geral degradada. O coach político de internet, influencer e mercadoria a um tempo, vende o vento da sua pura excitação, como todo influencer.

Porém, sua excitação é o puro ar de si mesmo, a constelação ideológica positiva de amor sacrificial pelo mercado, ele próprio como o seu produto. De fato, pessoas compram de Pablo Marçal apenas cursos, golpes farsescos, exatamente para serem como Pablo Marçal; e Olavo de Carvalho sabia bem ser um coach fascista. Como no jogo, como dizia Marx, a ideologia vazia e o personalismo de espetáculo fazem o produto-ele-mesmo do coach funcionar diretamente como D-D’ — dinheiro imagem que faz mais dinheiro… — sem nenhuma mercadoria no meio. O coach funcionando como líder fascista é pura identificação, função de espelho do rosto da mercadoria, formula cultural do capital financeiro.

Antes de entrar na disputa política como alternativa verdadeira, pelo sucesso degradante e pela arrogância de vencedor em mundo de derrotas totais, o coach amealhou milhões de miseráveis do destino e da cultura, da vida e da história, em suas redes sociais na internet, de fato suas redes pessoais. Milhões de compradores do ar do coach, tentando reproduzir o seu brilho e sua riqueza mágica configuram de fato a sua indústria cultural particular.

De fato, milhões de demenciados de mercado, aos quais o novo malandro industrial, que aposentou a navalha, opera por desejo como entretenimento, como fantasia de ganho pela submissão ao seu desejo. Pagando pelo ar do coach, os milhões de idiotas do mundo como ele é confirmam pela raiz o seu poder: fundamentalmente o desejam.

A política do desejo, das coisas, do dinheiro circulante, e de seu show, se confirma absolutamente no desejo do coach. Ele tem seu próprio partido político, sua indústria cultural de propaganda fascista, sua rede de milhões de seguidores o desejando, e desejando ser o coach — que não é nada se não isso mesmo. Tais militantes e ativistas pagam milhões pela indústria cultural da personalidade, para que o coach apareça para eles como milionário, pelo desejo radical que isto exista.

Porque o mundo é isso, produção de riqueza sobre a produção de massas de excluídos, que pagam pelo acesso, quando não exterminados. Dono de um partido de massas da venda de si mesmo como a política do real, das coisas da vida social arruinada, o coach político de massas é a condensação da coisa cultural do neofascismo, esta nova ordem de razões políticas que intriga a tantos.

O coach é o vendedor na rede de uma pirâmide de si mesmo, em que ele é a imagem, o modelo e a mentira de que sua riqueza ridícula estará acessível a todos. Basta todos reconhecerem isso, e seu golpe neoliberal total, de sua excitação vazia de palhaço pop grotesco, chegará ao poder, o seu verdadeiro lugar, como Javier Milei na Argentina e Pablo Marçal tentando o golpe em São Paulo.

Basta ser como o coach, diz o coach, e para isto é preciso que a massa se cale e o assista, e ele enuncie sozinho sua violência antipolítica como política. É preciso ser como ele, por isso é ele quem fala. Por um naco imaginário da riqueza, e para pertencer ao código do dinheiro, palhaços de um circo pegando fogo tendem a entregar tudo ao coach. Como já entregaram quando compravam seus cursos, que não são nada. Por não ter nada a oferecer no âmbito da história, o coach só pode causar, chamar a atenção para si mesmo como um palhaço da indústria cultural que tem nas mãos, que de fato é.

Mentir a mentira que excita, ousadia tática e sádica, que convoca a atenção exatamente porque todos sabem que é mentira. Sua mentira política é apenas uma aposta, em um jogo vazio de verdade, pleno de poder que gera poder. Sua performance, da qual depende, é sua traumaturgia.

Com este choque vazio, se convoca a massa, submetida ao desejo do coach mercadoria. Um povo que deseja o fascista brand new, o espírito vazio do capitalismo como golpe e como crime, e seu grande líder, a vida pública da política como sonho de um coach.

Elogio da vida monástica

Outrora, uma pessoa retirava-se do mundo,
amortalhava-se em vida, fazia-se monge,
ou porque a vida lhe dera tudo e a agonia sobrevinha,
ou porque desistia de lutar com ela pelo que não vinha nunca
(nem mesmo sob a forma de agonia que facilitasse as coisas).
Depois, porque o espírito precisa de ocupar-se,
a pessoa tratava de salvar a própria alma,
de mortificar o corpo, e preparava-se para a morte
(um acidente para que só pelo acaso feliz de ter nascido,
uma pessoa, naquele tempo sem recurso algum,
estava, por estar viva, sempre preparada).
Era uma aposentadoria honrosa, olhada com respeito,
e que não podia deixar de encher a solidão
como gente e amor não tinham preenchido a vida.
Era um estar só, rodeado de calor humano,
sem os inconvenientes e a incomodidade
que o convívio humano traz consigo,
desde os sentimentos a mais aos sentidos a menos,
ou ao facto lamentável de quem amamos não cheirar
como quereríamos: a um misto de rosas e de sexo,
com alguma imaginação de como o amor cheira.

Hoje, não há mais mundo
de que uma pessoa possa retirar-se.
O mundo se retirou de nós. E a solidão
é como um convento gigantesco em que,
na rua, nos transportes coletivos, na cama,
olhamos a vizinhança com a mesma convicção
com que os carmelitas descalços ao cruzarem-se no claustro
mutuamente se saudavam dizendo
que era preciso morrer.
Na dor, na alegria, no prazer, em tudo,
somos monges laicos cuja morte sobrevém
de uma qualquer maneira estúpida e sem graça.
E o nosso olhar de espanto não é o de termos sido
colhidos de surpresa antes de estar salva a alma,
mas o de ela estar salva, desde que o mundo
se retirou de nós. É o olhar de espanto do funcionário público
que descobre, ao contarem-lhe o tempo de aposentadoria,
que nunca figurara na folha de pagamento,
nem no quadro dos funcionários efetivos,
ou mesmo sequer nas listas do comissariado
do desemprego. Não tem direito sequer
à agonia que todavia sente como antigamente
era sentida a que justificava tudo:
o prazer de decidir entre duas coisas:
o ir ou o ficar, o estar ou o partir,
O ter-se uma alma que jogar e perder.

Jorge de Sena, "40 Anos de Servidão"