sexta-feira, 23 de novembro de 2018

O que Bolsonaro dirá aos pobres?

Ainda há criação de empregos com carteira assinada, neste ano. Mas está devagar e, de novo, quase parando, como deu para notar pelos dados divulgados pelo Ministério do Trabalho.

O número de empregos formais cresce a 1,2% ao ano, praticamente nada, ritmo um tico menor que o de setembro.

O número de empregos formais na indústria parou de crescer. Voltou ao patamar de outubro de 2017. Ao menos a situação parou de piorar na construção civil. Há avanço melhorzinho no setor de serviços. Mas o quadro geral é de estagnação.


A taxa de desemprego geral, medida pelo IBGE, deve chegar a uns 12,2% em 2018, progresso ínfimo em relação aos 12,7% da média do ano passado. Pelas previsões, deve ficar perto de 11,7% em 2019, melhoria outra vez pequena, embora mais gente deva estar empregada.

Mesmo que o ritmo de crescimento da economia aumente, como se prevê para 2019, os danos socioeconômicos ainda serão extensos e há pouco o que fazer.

Obviamente, um crescimento de pelo menos 2,5% no ano que vem, que é o chute informado dos economistas, seria um alívio em relação ao 1,4% deste 2018. Mas alívio para quem?

O que Jair Bolsonaro dirá ao eleitorado? Pode, claro, dizer sem mentir que o estrago é grande e o remédio é difícil. Como vai dizê-lo, e o que as pessoas vão ouvir, é outra conversa.

Em tese, o governo vai começar o ano propondo uma reforma da Previdência, até aqui majoritariamente rejeitada pela população, e um plano de aumento mínimo do salário mínimo, se é que vai haver reajuste além da inflação (isto é, zero de aumento real). Sem medidas dessa espécie, dificilmente haverá crescimento maior da economia em 2019, se é que não sobreviria nova deterioração.

Ou seja, só é bom se for ruim, por assim dizer.

Uma recuperação mais rápida da construção civil tende a minorar o desemprego entre os mais pobres. Com reformas em andamento, é possível que as taxas de juros de prazo mais longo até baixem e a confiança econômica cresça, o que pode animar vendas e construção de imóveis residenciais.

Quanto à infraestrutura, tão cedo a coisa não andará mais rápido, pois o governo não tem dinheiro e terá de se organizar para tocar a construção pesada, o que leva tempo. De resto, falta muito para que as concessões à iniciativa privada resultem em abertura de canteiros de obras.

O crescimento regional será desigual, um tanto menor na região Nordeste, onde a vida é mais dura, estimam economistas do Bradesco, em relatório publicado nesta quarta-feira (21). Muitos pobres, de resto, estão cronicamente desempregados ou precarizados.

No que diz respeito a programas sociais ou serviços públicos, um grande feito será evitar que mais governos estaduais entrem em colapso.

O governo federal pode compartilhar algum dinheiro que receberá em 2019 com leilões de petróleo, como já indicou que vai fazer, mas os estados voltarão à breca logo em 2020 se não fizerem ajustes duros, na Previdência e no funcionalismo.

Ou seja, as providências mais sensatas ainda serão impopulares. Dificilmente o povo vai notar que se evitou degradação adicional dos serviços públicos.

Bolsonaro não tem até agora um discurso para os mais pobres, no que diz respeito a problemas socioeconômicos. Não terá recursos para nada em 2019. As melhorias possíveis dependem, pois, de reformas, de habilidade política.

Quanto mais energia gastar em planos econômicos muito ambiciosos ou mirabolâncias de outra espécie, mais implausível será seu sucesso.

Progredimos!?

Fizemos progressos desde a Idade Média. Pelo menos já não se esquarteja em público
George R. R. Martin

Um professor de História

O professor de História, no seu primeiro dia de aula, entra e os alunos nem percebem, conversando, falando ou jogando no celular. Ele escreve na velha lousa um imenso H, e depois vai desenhando cabeças com bigodes e barbas, enxada, foice. A turma foi prestando atenção, trocando risinhos, e agora espera curiosa. Finalmente ele fala:

– Não vamos estudar aquela História com H, só com heróis e grandes eventos! Vamos estudar a partir da nossa história, da onde e como viemos. Por exemplo, como é seu sobrenome?

– Oliveira.

– Pois é, muitos Oliveiras têm esse nome porque eram imigrantes europeus, fugidos de perseguições religiosas, então adotavam nomes de árvores ou plantas, Oliveira, Pereira, Trigueiro e tantos outros. E o seu sobrenome?

_ Santos.

– Foi o nome adotado por muitos ex-escravos ou filhos mestiços de fazendeiros com escravas. Você é, como diz o IBGE, pardo, o que não é vergonha nem demérito algum, ao contrário, a maioria do povo brasileiro é pardo. E o seu sobrenome?

– Vicentini.

– Origem italiana. Os italianos, como os espanhóis, alemães, japoneses, vieram para cá para bater enxada, trabalhar nos cafezais quando os escravos foram libertados.

O engraçadinho da turma levanta o braço:

– Meu sobrenome é Silva, professor. Tem mais Silva na lista telefônica que formiga em formigueiro. Daonde eu vim?

– Da selva. Silva é selva, em latim. Foi o nome dado pelos romanos antigos aos que vinham das florestas para morar na cidade, eram os “da selva”. Se a gente pensar que a maioria das pessoas morava no campo há meio século, e depois se mudou em massa para as cidades, a origem do nome até se justifica.

A turma espera em silêncio: aonde ele quer chegar?

– Proponho o seguinte. Vocês conversem com seus pais, avós, tios, para saber dos antepassados. Daonde vieram, por que, trabalharam e viveram onde e como. Cada um contará então a história de sua família, e daí vamos situar essa história familiar na história social. Vamos falar da cafeicultura, por exemplo, depois que alguém falar que seu avô trabalhou com café.

Uma mocinha levanta a mão:

– Não só meu avô, professor, minha avó conta que também trabalhava. Levantava às cinco, fazia café, dava de mamar ao nenê, porque ela diz que sempre tinha um nenê no ombro, outro na barriga e uma criança na barra da saia. Depois de fazer o café e tratar das galinhas, recolher os ovos, tirar leite das vacas e cuidar da horta, ela ia levar marmita pro meu avô e os filhos maiores no cafezal, e ficava lá também batendo enxada até o meio da tarde, quando voltava pra preparar e janta e...

– Bem, só com isso que você contou podemos estudar a cafeicultura e o feminismo, comparando as famílias daquele tempo e de hoje, tantas mudanças. Cada um de vocês, com sua história, vai acender o fogo do conhecimento em cada aula. Eu só vou botar lenha, dar as informações, vocês vão dar vida à História, que aí, sim, vai merecer H maiúsculo! Combinado?

Os alunos aplaudem, entusiasmados, comentam: nossa, massa, uau, professor maneiro!... Saem, e depois ele, saindo, dá com o diretor nervoso:

– Eu ouvi sua aula, professor, aqui ao lado da porta, como faço com todo novato! O senhor tire essas ideias da cabeça, viu? Vai ensinar conforme o programa, começando pelo descobrimento, as três caravelas, a calmaria etc. Entendido? Ora, onde já se viu, História viva... Só por cima do meu cadáver!

O professor novato vai pelo corredor, sentindo-se morrer por dentro. Na sala dos professores, nas paredes estão Tiradentes e o crucifixo de Jesus, dois mártires. Ele chora, perguntam por que, apenas consegue dizer “não é nada, é uma longa História”.
Domingos Pellegrini

Faltou a Bolsonaro o Posto Ipiranga da Educação

Bolsonaro cogitou a sério nomear um craque: o educador Mozart Ramos. Vetado pela bancada da Bíblia, Mozart foi trocado pelo colombiano Ricardo Vélez Rodríguez, indicado pelo polemista Olavo de Carvalho.

Guru ideológico da família Bolsonaro, Olavo de Carvalho já havia apadrinhado o chanceler Ernesto Araújo. Está prestes a empatar com o DEM em número de ministros. Eis o placar: Olavo 2 X 3 DEM.

Nada é mais desesperador no Brasil do que a unanimidade educacional. Entre os políticos, não há quem discorde: reverter a deterioração do ensino público é uma prioridade máxima. A despeito disso, a educação nunca dá o prometido salto.

Bolsonaro ajuda a entender o motivo. Enquanto o presidente eleito transitava na área educacional entre o acerto e o desastre, Paulo Guedes, o czar econômico do capitão, concluía a composição de sua equipe livre de pressões.

Se um deputado evangélico se dirigisse ao Posto Ipiranga para vetar um dos técnicos selecionados para o BC, BB, BNDES e Caixa seria tratado a pontapés. Se Olavo de Carvalho ligasse para apadrinhar fulano ou beltrano seria ignorado.

As estatísticas sobre analfabetismo funcional revelam que as escolas brasileiras ainda não conseguem ensinar adequadamente o A-E-I-O-U. Mas a prioridade do novo ministro é implantar uma escola sem partido e livre da educação de gênero.

Evangélicos e aliados já estão providenciando uma lei no Congresso. Proselitismo político em sala de aula terminará na cadeia. Resta explicar como se dará a fiscalização do trabalho dos 2,4 milhões de professores que atuam nas mais de 200 mil escolas de ensino fundamental e médio.

Na reta final da composição da nova Esplanada dos Ministérios, faltou a Bolsonaro discernimento e coragem para providenciar um Posto Ipiranga para a área da educação.

Em vez de tirar um partido para colocar outro, talvez fosse mais produtivo providenciar escolas nas quais os adolescentes não tivessem que aprender coisas inúteis de pessoas que não entendem do que falam, para receber ao final um certificado de que sabem o que ignoram, estando perfeitamente aptos a engrossar as estatísticas do subemprego.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Gente fora do mapa


Os pecados da esquerda

"Até os 30 anos de idade, você quer ser socialista, depois muda para capitalista." Nunca me esqueci dessa frase dita por um empresário brasileiro que entrevistei muito tempo atrás. Devagarzinho, ela foi conquistando o meu subconsciente, e agora, chegou a hora de assumir que meus sonhos socialistas se dissolveram.

Não é porque me sinto mais atraída pelo populismo de direita. Nem por um capitalismo selvagem. É porque a esquerda entregou muitas bandeiras politicas para a direita. De repente, um Donald Trump da vida levanta a bandeira contra o livre comércio e a globalização. E uma ditadura como a China quer promover o multilateralismo e abrir os mercados.

A vitória de Trump nas eleições dos Estados Unidos, dois anos atrás, mostra que o sonho de um mundo melhor e mais justo ainda vive. Mas ele foi capturado pela direita. Para mim, o pior não foi o triunfo do Trump. Foi a derrota do Partido Democrata.


Foi uma derrota desnecessária, causada pelos próprios democratas. Pois Trump saiu ganhando com a longa disputa política entre os candidatos Hillary Clinton e Bernie Sanders, o qual saiu derrotado das primárias do Partido Democrata. O debate programático sobre a direção do partido durante a campanha – mais para o centro ou mais para esquerda – foi um dos motivos que fizeram os democratas perderem as eleições.

A vitória de Trump foi a segunda grande derrota do centro político e da esquerda em pouco tempo. O primeiro ponto de viragem foi o referendo sobre o Brexit, em 23 de junho de 2016. A dramaturgia parece seguir sempre o mesmo esquema: brigas internas e subestimação do adversário político resultando em fracasso nas urnas.

É difícil e doloroso assistir a esse espetáculo. Especialmente olhando para Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista britânico. Ele não desmentiu as mentiras espalhadas pelos chamados "Brexiteers". Eles alegaram que o Serviço Nacional de Saúde (NHS) do Reino Unido melhoraria com a saída do país da União Europeia (UE). Que a imigração estava fora de controle. E que era mais vantajoso negociar acordos de livre comércio do que permanecer no mercado comum da UE.

Para mim, um politico de esquerda que não alerta para a falta de milhares de médicos e enfermeiros no NHS que deve ser provocada pela saída da UE está entregando conquistas sociais básicas. Um líder da oposição que não desmente os cenários cor-de-rosa dos "Brexiteers" é corresponsável pelas graves consequências econômicas do Brexit que o Reino Unido já está começando a sentir.

No Brasil, como mostra a atual briga política sobre o programa Mais Médicos, o atendimento básico à população também virou uma questão ideológica. Mas a critica de "colaboração com a ditadura comunista cubana" é uma coisa, e a apresentação de soluções, outra.

Assim como na campanha para o Brexit, a direita usa os problemas do sistema de saúde para se promover politicamente no Brasil. E a esquerda? Ela apostou na "importação" de mão de obra e conseguiu resolver o problema gravíssimo da falta de médicos, mas o preço era a dependência de um governo estrangeiro.

Antes ter tido sucesso e agora se encontrar na defensiva – essa é a situação de muitos partidos de centro esquerda. O Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), que governa junto com a União Democrata Cristã (CDU), da chanceler federal Angela Merkel, também passa por isso.

Pois a ascensão política do partido de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) mudou a agenda política. De repente, são os populistas que muitas vezes colocam o dedo na ferida, uma tarefa que até pouco tempo atrás era marca registrada da esquerda. Diagnósticos não faltam. O que faltam são soluções verdadeiras, que não aparecem apenas quando servem a algum interesse político.

Confesso que me cansei desse jogo. Não quero mais ler inúmeras notícias sobre as "decisões erradas" de Jair Bolsonaro, Trump ou dos premiês Theresa May, do Reino Unido, e Viktor Orbán, da Hungria. Quero ler também notícias sobre iniciativas da oposição para tentar criar alternativas aos rumos políticos atuais. Quero que a esquerda e o centro saiam da defensiva.

Os meus sonhos socialistas acabaram. Mas minha convicção política de que é preciso se unir contra populistas em vez de imitá-los ou tentar agradá-los se mantém.

Astrid Prange de Oliveira

Quando chumbo era jujuba

[A Hungria] é um país que sofreu muito com o comunismo no passado. É um povo que sabe o que é ditadura. O povo brasileiro não sabe o que é ditadura aqui ainda, o que é sofrer nas mãos dessas pessoas
Jair Bolsonaro sobre a Hungria do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, líder de ultradireita

Passada anestesia do Mais Médicos, vem a dor

Alguém já disse, não me lembro quem, que se o Brasil fosse um deserto, já estaria importando areia. Mal comparando, é mais ou menos isso o que aconteceu no caso dos médicos. Sobram médicos no Brasil como sobra areia no Saara. Mas o país decidiu importar médicos estrangeiros em 2013, sob Dilma Rousseff. Tratou anestesia como solução. Passado o efeito do sedativo, vem a dor.


Nos próximos dias, o noticiário será inundado por dramas de pacientes que perderam seus médicos do dia para a noite. Doentes sem diagnóstico, diagnosticados sem tratamento, grávidas submetidas à interrupção abrupta do pré-natal, o diabo. Isso não é previsão. Já está acontecendo em vários municípios, que perderam seus médicos. Num estalar de dedos da ditadura de Cuba, os cubanos estão voltando para Havana.

O curto-circuito que a chegada de Jair Bolsonaro provocou no Mais Médicos revela que a ideologia é mesmo o caminho mais longo entre um projeto e sua realização. Ao receber um xeque-mate de Cuba, o Brasil faz por pressão o que deixou de fazer por opção. Sem planejamento, o Ministério da Saúde abriu 8.500 vagas para médicos brasileiros. O site de recrutamento entrou em pane no primeiro dia. Tudo é correria e improviso.

Estudo feito pela Faculdade de Medicina da USP revelou que há no Brasil 452 mil médicos. Seria mais do que suficiente. Mas 63% deles estão nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. E 55%, encontram-se nas capitais. Num aperto, uma parte desse contingente pode até se deslocar para os fundões do Brasil, de onde estão saindo os cubanos. Mas o improviso não é o melhor estímulo para que eles fiquem lá.

Calma, que o Brasil é nosso

Comemorar a vitória do adversário não é usual na natureza humana. Vencedores festejam e derrotados tomam fel no velório. Mas aos Nostradamus de xepa de feira e Cassandras de ocasião convém receitar boas doses de Rivotril e baldes de suco de maracujá geladinho. Esta não terá sido a última eleição do século: o mais tardar daqui a dois anos serão disputados pleitos municipais, nos quais mais uma vez o humor popular será testado e nenhum eleitor será obrigado a contrariar seus interesses votando em quem não atender à vontade comum. Quem chora agora pode comemorar em outra ocasião, pois, todo mundo sabe, um dos maiores e mais ministrados tônicos da velha democracia é o rodízio do poder.

Convém, de início, reconhecer que poucas disputas mobilizaram o ímpeto bélico da cidadania brasileira como esta. Mas um curso bem frequentado de História do Brasil bastará para esclarecer que a polarização nunca foi algo tão inusitado assim. Em 1930, no meu Estado natal, a Paraíba, liberais queimaram negócios de perrepistas depois do assassinato do presidente do Estado, João Pessoa, em Recife. Suicida vocacional, Getúlio Vargas disparou contra o próprio coração, parte por não suportar o opróbrio do “mar de lama” de que era acusado pelos inimigos da UDN, parte por saber que o tiro de seu revólver levaria seus devotos à rua para evitar a subida ao poder dos desafetos. E assim foi: jornais da oposição foram empastelados e uma multidão seguiu o féretro pelas ruas da então capital federal do Catete ao aeroporto, onde o cadáver pranteado como nunca nenhum outro antes embarcou para a última morada, em São Borja. Entrou em meus compêndios escolares o tiroteio na Praça da Bandeira, em Campina Grande, em 1950, e nele se enfrentaram antigos correligionários, os amarelos de José Américo, fundador da UDN e candidato do PSD, contra os brancos do ainda udenista Argemiro de Figueiredo. Dois operários e um bancário morreram na refrega. Não foram os únicos imolados nas disputas políticas brasileiras. Baleado por João Dantas, João Pessoa, candidato a vice na chapa derrotada de Getúlio na eleição de 1930, inspirou hino, deu nome à capital de nosso Estado e a muitas ruas e avenidas de cidades brasileiras, depois que seu corpo inanimado ter animado a revolução dos tenentes, que virou a política de pernas para o ar.

Pode-se dizer – e quem o disser não mentirá – que a polarização se tornou mais aguda com o segundo turno, que privilegia o “ele não” desde sempre. E que se fez odienta com a campanha do “nós contra eles”, tática de Lula para reduzir o impacto do mensalão contra sua reeleição, repetida desde então na versão maniqueísta de romance de capa e espada.


O pleito do mês passado introduziu um elemento novo no panorama, antes controlado de cima da ponte que dá acesso ao castelo do poder: a interferência da cidadania, usando um instrumento da velha guarda, à qual a esquerda se associou gostosamente na rapina do erário com o baronato político, contra os manipuladores de sempre. Refiro-me à democracia dita direta. Ludibriada no desgoverno da chefe de Estado menos aquinhoada de inteligência desde Tomé de Souza, governador da Bahia, a classe média, após ter ocupado as ruas para reclamar da desídia do Estado, recorreu às mídias eletrônicas não convencionais para dar o drible da vaca nas organizações criminosas, ditas partidárias. Estas recorreram aos truques mais sórdidos para se manterem no topo. Primeiramente, patrocinaram candidatos exclusivos das legendas, financiamento público bilionário das campanhas pagas por propinas desmedidas, foro de prerrogativa de função e outros truques canalhas.

Depois, veio a guerra ideológica. Um best-seller do New York Times, Como as Democracias Morrem, de Steven Levitsky & Daniel Ziblatt, socorreu os ignorantes que denominaram a tomada de poder pelo cidadão de “neofascismo” e “protonazismo”. Com a desastrada adesão do fake Pink Floyd Roger Waters, mexendo Mussolini, Hitler, Trump, Putin e Bolsonaro no mesmo caldeirão. O povo nem ligou e demoliu a farsa, que fez daintelligentsia a versão acadêmica e artística da “jumentice”, e sapecou na farsa o peso de quase 58 milhões de votos para o capitão deputado.

Em plena ressaca do mau humor da derrota, a patota organizada da “resistência” contra o empurrão da velha política para fora do poder republicano por quatro anos inspirou-se nas pragas rogadas por Tirésias na Roma antiga. A executiva Mônica de Bolle clamou contra a indicação de Roberto Campos Neto para a presidência do Banco Central (BC) pela precariedade intelectual de seu currículo. Faltava-lhe, segundo ela, um doutorado, um mestrado que fosse. Como se Henrique Meirelles, presidente tucano do BC de Sir Luiz Inácio tivesse defendido teses nos anos em que foi corretor na Bolsa de Valores de São Paulo do Banco de Boston, no qual chegou sem diploma a ocupar a presidência internacional.

Os salões e corredores do Itamaraty fervilharam de fofocas contra o embaixador Ernesto Araújo por ele não ter ocupado uma embaixada do circuito Elizabeth Arden antes de chegar à chancelaria. O primeiro ministro das Relações Exteriores da República foi Quintino Bocaiúva, de profissão político. O atual, Aloysio Nunes Ferreira, praticou a diplomacia como segurança do chefe guerrilheiro Carlos Marighela, no exílio em Paris e na política profissional no Estado de São Paulo. Entre eles, ilustres chanceleres não cumpriram a última condição para o cargo: os ex-presidentes Campos Salles e Fernando Henrique Cardoso, verba gratia. Ou o melhor exemplo: Osvaldo Aranha, revolucionário de 1030, pau pra toda obra nos governos de Vargas e o maior ocupante do posto na História.

Quem não sabia fique sabendo e, para tanto, como no caso de Bolle, basta consultar o Google. Aranha foi o que nenhum outro brasileiro foi: secretário-geral das Nações Unidas, tendo presidido a sessão histórica em que as colônias de judeus no Oriente Médio se transformaram no Estado de Israel, cuja bandeira, aliás, o oficial presidente eleito reverencia, abrindo a exceção de único filonazista da História que é também filossionista, e não anti-semita, como os citados precedentes históricos de Alfred e Benito.

Do mau humor tornado mau agouro não escapa, é claro, Sergio Moro, que ultimamente tem substituído na condição, antes conferida a Chico Buarque, protomártir da esquerda Rouanet, de “unanimidade nacional”. Como é público e notório, o juiz federal, que teve o topete de condenar o çábio de Caetés à cela “de estado maior” na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, renunciou à carreira na magistratura para ocupar o Ministério da Justiça no futuro governo. Das sombras de seu merecidíssimo oblívio o emérito professor Tomas Turbando emergiu para exigir do colega a chamada “quarentena ética”. O rábula diplomado, que mereceu o epíteto que usou em piada de mau gosto, chama-se na vida civil José Eduardo Martins Cardozo e disparou direto das sombras o seguinte petardo, em entrevista à Folha: “É uma situação que exigia dele, no mínimo, uma quarentena ética. Não é ilegal, porque não existe uma situação legal, mas deveria ter uma quarentena ética. Alguém que influencia o processo eleitoral tem que se considerar impedido de assumir cargos de livre nomeação de um governo que foi eleito a partir de decisões que ele tomou. Isso é questão de moralidade, questão de ética.”

Há apenas dois anos e meio, o referido causídico da causa perdida assomou às luzes da ribalta, como um Chaplin de circo, na condição de advogado particular da acima citada Dilma no processo do impeachment, recebendo, para isso, vencimentos pagos pela distinta plateia. Ademais, antes de ocupar qualquer magistério de ética, Sua Ex-Excelência deveria, em primeiro lugar, explicar ao público furtado por que sequer lamentou ou pediu perdão pela cumplicidade exercida durante os 13 anos e meio em que seus patrões de partido executaram o maior assalto da História. Em vez disso, faz parte da patota que joga areia nos olhos dos ocupantes do poleiro do circo mambembe da velha política republicana tupiniquim da justificativa mentirosa da perseguição ao chefe do chamado “quadrilhão do PT”, ora em julgamento em Brasília. À falta de sabão, ele está convidado a lavar a língua com juá, como faziam os ancestrais de seu ídolo e padim no interior de Pernambuco.

Dou-lhes um piedoso aviso: “calma, que o Brasil é nosso”. Estamos todos no mesmo barco e um eventual naufrágio a ninguém poupará.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Roubalheira geral

Governar com o antigo sistema foi governar com o compadrio, com a corrupção endêmica dos partidos, não só do PT 
Boaventura de Sousa Santos, sociólogo oráculo de cabeceira da esquerda ibérica e latino-americana

A 'sala vermelha' da tortura

Baseado em documentos da Justiça, o repórter Rafael Soares mostrou que quatro cidadãos presos na madrugada de 20 de agosto durante uma operação militar em favelas da Penha, no Rio de Janeiro, denunciaram torturas sofridas num quartel da 1ª Divisão de Exército (DE). Eles teriam sido levados para uma “sala vermelha”, onde três pessoas com os rostos cobertos e sem fardas deram-lhes “madeiradas” e chicotearam-nos com fios elétricos. Um deles informou que a sessão durou cerca de 20 minutos. Todos eram interrogados para identificar traficantes da região. O grupo permaneceu no quartel por 17 horas, até ser levado para uma delegacia. Continuam presos, acusados de traficar drogas.

Durante a operação nas favelas da Penha, do Alemão e da Maré , traficantes mataram um cabo e dois soldados do Exército. Foram presas 86 pessoas e apreendidos 15 fuzis, 27 pistolas e 11 granadas de mão. A despeito das baixas, essa pode ter sido a ação mais eficaz das forças da ordem desde o início da intervenção militar na segurança do Rio.

Num primeiro momento, a denúncia dos presos levados para o quartel da 1ª DE foi desprezada. Depois que surgiram novas informações, o comando militar decidiu investigar o caso.


Desde fevereiro, quando sete pessoas foram mortas no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, paira sobre uma tropa do Exército a suspeita de ter praticado uma chacina. No caso, poderia ter havido um confronto, mas ainda não se sabe o que aconteceu. Na denúncia da tortura da “sala vermelha”, os presos teriam conexão com o tráfico, e um deles é reconhecidamente viciado, mas o episódio teria ocorrido dentro de um quartel do Exército.

Está sobre a mesa dos comandantes militares a questão do esclarecimento das denúncias. A sabedoria convencional mostra que, em certas épocas, uma enorme parcela da opinião pública defende uma política de “mata e esfola”. Quando a maré vira, aqueles que ontem eram festejados como vingadores passam a ser vistos como torturadores. Em 1974, os jornalistas credenciados na Secretaria de Segurança de São Paulo escolheram os melhores policiais do ano, e o delegado Sérgio Fleury ficou em quarto lugar.


O acobertamento de violências corrói a disciplina militar. Só isso explica por que, em 1943, no meio da guerra, o general Dwight Eisenhower ordenou ao seu amigo George Patton que se desculpasse diante da tropa formada por ter esbofeteado um soldado que, a seu ver, se acovardara. Patton comandava os gloriosos blindados americanos que entrariam na Alemanha.

Quando o torturador vê que seus superiores negam ocorrências das quais participou, passa a crer que faz parte de uma elite onipotente e inimputável. Além disso, o acobertamento cria uma trama de cumplicidades que se infiltra no serviço público, no Judiciário e mesmo na imprensa. O espírito de corpo que, a princípio, acoberta defensores de uma ordem específica, acaba se transformando num estímulo à ilegalidade, levando agentes para outras formas de delinquência. As cumplicidades criadas na administração do Rio de Janeiro e de alguns outros estados explicam boa parte da anarquia de seus sistemas de segurança.

A “tigrada” francesa que nos anos 50 baixou o pau na Argélia e varejou comunidades árabes terminou seus dias tentando matar o presidente Charles De Gaulle. A brasileira explodiu no estacionamento do Riocentro.

Num livro intitulado “Torture”, o professor americano Edward Peters tratou essa questão com magistral clareza ao informar: “O futuro da tortura depende do futuro do torturador”. Se ele é aplaudido e promovido, ela se espalha. Se ele é condenado, ela acaba.

Gente fora do mapa

85 mil crianças mortas em cinco anos e outras milhares passando fome no Iêmen com a guerra patrocinada pela Arábia Saudita do príncipe Mohammed bin Salman

Nem bala de prata nem bondades

Nenhuma bala de prata vai derrubar o primeiro e mais temível adversário do novo governo, o enorme desarranjo das contas públicas. O presidente eleito precisa pensar com urgência em algo menos fantasioso e mais eficiente. O primeiro passo para uma avaliação realista é reconhecer o tamanho do problema. Para controlar a dívida pública, uma das mais pesadas do mundo, a nova equipe terá de batalhar durante quatro anos. Se der tudo certo, poderá celebrar um avanço importante no fim do mandato de Jair Bolsonaro. Se a estratégia for mal concebida, ou se as medidas forem mal negociadas, a herança para quem assumir a Presidência em 2023 será assustadora, bem mais do que aquela deixada pelo presidente Michel Temer. Quanto à ilusão do ajuste rápido, foi mais uma vez desfeita, na terça-feira, por um dos mais conhecidos especialistas em contas públicas, o diretor executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), Felipe Salto.

Só em 2023, no começo do governo seguinte ao do presidente Jair Bolsonaro, as contas primárias ficarão de novo no azul, disse o especialista à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE). Contas primárias são calculadas sem os encargos financeiros.



Portanto, só em 2023, de acordo com a projeção, o governo terá algum dinheiro para pagar pelo menos uma parte dos juros vencidos. Até lá, nem isso. Enquanto a mera operação do governo consumir mais que o valor arrecadado, será preciso rolar os juros, além do principal, e assim a dívida bruta continuará em crescimento.

A dívida bruta do setor público já superou 77% do Produto Interno Bruto (PIB) e é maior, proporcionalmente, que a da maior parte dos países, desenvolvidos e em desenvolvimento. Em alguns poucos países desenvolvidos o endividamento é superior ao brasileiro, mas suas condições de financiamento são melhores que as do Brasil.


Não se resolverá o problema do déficit primário da noite para o dia com uma bala de prata, resumiu Felipe Salto, afastando claramente a hipótese apresentada durante a campanha eleitoral pelo técnico indicado para o Ministério da Economia, Paulo Guedes. Até agora, lembrou, o controle das contas tem sido realizado basicamente com o corte dos chamados gastos discricionários, como os investimentos.

Para avançar, o novo governo terá de atacar também as despesas obrigatórias. Destas, as mais pesadas são as da Previdência. O sistema é amplamente deficitário e sua situação deverá rapidamente piorar nos próximos anos.


É urgente, portanto, mobilizar forças políticas para aprovar a reforma necessária e corrigir a trajetória desastrosa do sistema de aposentadorias e pensões, observou Felipe Salto. Mas a mudança da Previdência é só uma parte da tarefa. Será preciso rever a política de pessoal e as desonerações tributárias, insistiu o diretor do IFI. Esse órgão técnico assessora o Senado e é constituído segundo um modelo existente em vários países.

Emperrado pelo jogo político, o atual programa de ajustes e reformas pelo menos teve alguns avanços e está voltado para o lado certo. Qualquer desvio poderá ser perigoso. O presidente eleito e sua equipe deveriam dar atenção a advertências formuladas há alguns dias pelo ministro da Fazenda, Eduardo Guardia.

Será um erro, segundo o ministro, repartir com Estados e municípios o valor arrecadado com o leilão de áreas do pré-sal no próximo ano. A iniciativa foi defendida pelo presidente do Senado, Eunício Oliveira, e o futuro ministro Paulo Guedes disse estar aberto à ideia. Mas o dinheiro será necessário ao governo central, lembrou o ministro da Fazenda. Em 2019, disse Guardia, será preciso um grande esforço para cumprir a regra de ouro, a proibição de endividamento para gastos de custeio.

O ministro também apontou o perigo de distribuir dinheiro a Estados sem o compromisso de ajuste das contas estaduais. As facilidades concedidas a Estados nos últimos anos, lembrou, facilitaram maiores gastos com pessoal. Os comentários de Eduardo Guardia, como os de Felipe Salto, são um saudável apelo ao realismo. Bolsonaro e equipe deveriam ouvir essas vozes.

Letra P

Polícia e política costumam estar próximas - e não só no dicionário 
Raul Drewnick

Gestão Bolsonaro tem déficit estético pré-posse

Não foi preciso nem esperar pela posse. Ainda na fase de transição, virou fumaça aquela ideia de que Jair Bolsonaro é intransigente com os malfeitos. Ao contrário do que havia prometido aos seus eleitores, o novo presidente jogou no balcão das barganhas políticas um pedaço do primeiro escalão do governo. Bolsonaro entregou, por ora, três ministérios a deputados federais do DEM. Fez isso à sua maneira.

Em vez de negociar diretamente com o partido, Bolsonaro tirou um ministro do bolso do seu colete e negociou outros dois com as bancadas temáticas da Agricultura e da Saúde. O efeito é o mesmo: os deputados são alçados à Esplanada no pressuposto de que as bancadas supraprartidárias que os apoiam votarão com o governo no Congresso. O capitão diz estar fazendo nomeações técnicas. Pode dar o nome que quiser. Mas será sempre uma nova maneira de batizar o velho costume do toma-lá-dá-cá.

O deputado-ortopedista Luiz Henrique Mandeta, novo ministro da Saúde, é investigado por fraude em licitação, tráfico de influência e caixa dois. Coisas relacionadas à sua passagem pela Secretaria de Saúde de Campo Grande. A deputada-ruralista Tereza Cristina, ministra da Agricultura, deu incentivos fiscais para a JBS como secretária do governo de Mato Grosso do Sul numa época em que fazia negócios com o grupo empresarial. Seu nome consta de documentos entregues à Procuradoria por delatores da JBS. E o deputado Onyx Lorenzoni, chefe da Casa Civil de Bolsonaro, é mencionado em dois enredos de caixa dois —um deles confessado.

Como se fosse pouco, também o Posto Ipiranga Paulo Guedes é investigado pela Procuradoria por suspeita de ilegalidades cometidas em transações financeiras com fundos de pensão de estatais.

Bolsonaro costuma dizer que nenhum dos seus escolhidos é réu. Michel Temer dizia a mesma coisa. Mas certas decisões têm um custo político. Bolsonaro poderia ter optado pelo custo zero. Preferiu adotar uma coreografia que impôs um déficit estético a um governo que ainda nem começou.

Feitiços no Espírito Santo

Três bilhões e meio de dólares já não são o que costumavam ser. Pelo menos no Espírito Santo, um estado de quatro milhões de habitantes, industrializado, mas ainda resiliente na pobreza, capaz de encantar Brasília com a magia do equilíbrio fiscal numa federação à beira da falência.

A burocracia capixaba é pródiga. Exemplo: se nada mudar, a partir do próximo ano será possível assistir ao nascimento de um grupo de milionários no serviço público estadual.

Há 23 mil servidores na fila de credores dos cofres estaduais para receber um total de três bilhões e meio de dólares, ou R$ 14 bilhões. Equivale a um ano de arrecadação tributária.

Entre esses, se destaca um grupo de quatro dezenas de burocratas da elite estadual. Cada um deles convive com a expectativa judicial de embolsar mais de 50 milhões de dólares, ou R$ 200 milhões, a título de “gratificação” por apenas uma dúzia de semanas de serviços prestados ao estado, há mais de trinta anos.

Em 1987, a burocracia local resolveu se dar um prêmio com o dinheiro dos contribuintes.

Por lei, criou uma novidade na floresta de penduricalhos salariais do setor público — a gratificação de “trimestralidade” no trabalho. Durou somente três meses, foi revogada, mas os beneficiários ainda estão na fila dos credores estaduais.

A base de cálculo foi inflada. Um integrante da elite burocrática passou a ter direito a gratificação 1.500 vezes superior à sua remuneração — isto é, a um prêmio equivalente a 810 meses (67 anos) por 90 dias de serviço.

Quando o caso chegou ao Tribunal de Justiça, em 2008, o juiz Pedro Valls Feu Rosa escreveu: “Os valores claramente inchados, cristalinamente incorretos, irreais, tornaram a dívida impagável.” Acrescentou: “Se isto não é um escândalo, então já não sei mais o que é um escândalo!”

A Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça marcou para janeiro uma visita ao estado. Se o cálculo dessas gratificações não for resolvido, o feitiço do equilíbrio fiscal do Espírito Santo pode se transformar em desastre financeiro para quatro milhões de capixabas.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Imagem do Dia


Pague e chore

Perdemos a capacidade de indignar-nos. De contrário o mundo não estaria como está 
José Saramago
A jovem paga ingresso para chorar diante da obra do artista internacional. E diante da câmera de tevê ainda mostra sua emoção, sincera.

Mas quem chorará por ela que derrama lágrimas e muita emoção em frente à arte e nenhum chisco turva seus olhos quando passa ao lado das realidades urbanas das crianças esmolando, dos velhos mendigos tentando se proteger do frio em mantas esfarrapadas? De joelhos, chorará diante do cadáver fuzilado pela bala perdida?

A realidade não mais emociona em choro e revolta em gritos. Está-se pagando para ter a emoção provocada pela arte, ou pela mídia. A realidade passa a ser apenas um modelo invisível do cotidiano de quem tem olhos para coisas mais importantes que a indignação.
Luiz Gadelha

Reino de palhaços


Falar, falar por falar,
só saliva e nada mais, já se conhece essa estória,
vem de velhos carnavais, nos carnavais tem um rei,
palhaços tem muito mais

Ciro Colares, "Quase um cordel das enchentes"

O bom e o ruim

Maniqueu, filósofo cristão do século 3, também conhecido como Manes ou Mani, dividia o mundo simplesmente entre Bom, ou Deus, e Mau, ou o Diabo. Ganhou influência no mundo greco-romano a partir das antigas Babilônia e Pérsia, sincretizando ideias do hinduísmo, do budismo, do judaísmo e do cristianismo, depois de viajar pela Índia, China e Tibete. Foi perseguido pelos sacerdotes do zoroastrismo, os Magos, durante o reinado de Vararanes 1º (274–277). Preso e condenado como herege, foi esfolado vivo: sua carne foi atirada ao fogo e a pele, crucificada em praça pública, na cidade de Bendosabora, no atual Iraque.

Para Maniqueu, a luz e as trevas originaram o mundo material, essencialmente mau. Por isso, os “pais da Justiça” vieram à Terra redimir os homens, mas a mensagem deles foi corrompida. Maniqueu pretendeu completar a missão deles, como o salvador prometido por Cristo, que detinha os segredos para a purificação da luz, destinados apenas àqueles que tinham uma vida ascética. No dualismo maniqueísta, a matéria é intrinsecamente má, e o espírito, intrinsecamente bom. Com o tempo, maniqueísta passou a ser um adjetivo para toda doutrina fundada nos dois princípios opostos do bem e do mal.

Seu mais famoso discípulo foi Agostinho de Hipona, Santo Agostinho, que fundou as bases da filosofia adotada pela Igreja Católica, depois de romper com o maniqueísmo. Até então, os filósofos cristãos defendiam que o fundamento e a essência da vida deveriam ser a fé. A partir dela, os homens tomariam decisões importantes em suas vidas e realizariam os julgamentos morais. A razão regia decisões menores e rotineiras da vida cotidiana. Profundo conhecedor de diversas religiões, porém, Agostinho buscou na Razão a justificativa para a fé. Foi além da própria fé para levar os descrentes a considerá-la. Por exemplo, defendeu o livre-arbítrio como uma graça divina. De fato, liberdade não combina com maniqueísmo.


Desde a campanha eleitoral, o Brasil vive sob o signo do maniqueísmo; talvez tenha sido determinante do resultado das eleições, tanto para bolsonaristas como para petistas. Esse maniqueísmo vem desde o “nós contra eles” da reeleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006, e contamina toda o debate político. Entretanto, os grandes problemas nacionais, ao contrário do que muitos imaginam, não decorrem das ideologias, mas da realidade objetiva do país.

Exemplo de maniqueísmo é a discussão sobre o programa Mais Médicos, que está contaminada pela disputa eleitoral. O problema atinge 2.885 prefeituras, das quais em 1.575 municípios com menos de 20 mil habitantes. São 8.500 equipes de Saúde da Família que ficarão desfalcadas em 40 dias, em razão da decisão do governo cubano de repatriar esses profissionais, antes da posse do presidente eleito Jair Bolsonaro.

Bolsonaro sempre foi um crítico do programa. Diz que os médicos trabalham em regime de escravidão e que a maior parte do que deveriam receber vai para o governo cubano. Também questiona a qualificação dos médicos. A sua posição tem a ver com a narrativa da campanha eleitoral, ou seja, é uma promessa de campanha endossada pela maioria dos eleitores. A decisão cubana, obviamente, tem a ver com a nova política externa a ser implementada por Bolsonaro, cuja teologia é maniqueísta, se levarmos em conta os novos paradigmas do futuro ministro de Relações Exteriores, Ernesto Fraga Araújo. Essa é a parte ruim do caso Mais Médicos.

A parte boa, digamos assim, é que Bolsonaro mudou sua agenda dos 100 primeiros dias de governo, que naturalmente seria focada nas questões da segurança pública e da corrupção, além da Previdência e do corte de gastos. Com o fim da parceria com Cuba, a agenda da saúde pública caiu antecipadamente no colo de novo presidente da República, que precisa de um novo programa para enfrentar o problema. Uma das alternativas seria militarizar a contratação de médicos para atuar em locais remotos, pequenos municípios e periferia das grandes cidades, oferecendo serviço temporário nas Forças Armadas para médicos residentes e recém-formados , como acontece com os atletas olímpicos.

O equívoco ao abrir várias e simultâneas frentes de conflito

A democracia naturalizou os conflitos como interesses em disputas que se resolvem pelo voto, aceitando-se o resultado. Mesmo assim, sabe-se que a torrente de conflitos precisa estar sob certo controle. O mais prudente é enfrentar um conflito de cada vez. Quem briga com muitos ao mesmo tempo distribui pancadas, é verdade, mas o mais comum é que saia coberto de porrada. Abrir várias e simultâneas frentes de conflito não é, politicamente, muito inteligente.

A boa política aconselha avaliar o campo, perceber as circunstâncias, considerar os perigos e medir as consequências de cada passo, de cada revés. A contenção nem sempre é resultado de imperativos éticos, espírito democrático ou tolerância. Normalmente, é cálculo pragmático: saber a força do inimigo e, mais, os limites da própria força é uma arte. Só vira a mesa quem tem força para isso.

Este parece o grande problema — talvez, o grande equívoco — de Jair Bolsonaro nesses primeiros dias pós eleição, mesmo antes de tomar posse do cargo de presidente da República. O ex-capitão é uma máquina de conflitos, uma metralhadora giratória disparada com precipitação e sem muito critério. O mais provável é que o açodamento e a imprudência consumam-lhe toda a munição antes de abater qualquer inimigo.

É possível citar de memória os inúmeros conflitos que contratou em tão pouco tempo: 1) a mais influente parcela da imprensa nacional e estrangeira; 2) a partir do atrelamento acrítico e automático aos Estados Unidos, a contrariedade da China, do mundo árabe, da Europa e do Mercosul; 3) ambientalistas de todo planeta; 4) empresários da indústria; 5) sindicatos de trabalhadores; 6) comunidade científica, intelectuais e artistas; 7) a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil); 8) os movimentos Feminista, Negro, LGBTIQ, Sem-terra; 9) o Poder Legislativo — ou, pelo menos, o status quo desse Poder —, 10) a corrupção; 11) o crime organizado; 12) o Poder Judiciário, sobretudo o STF; 13) setores do Ministério Público; 14) segmentos das Forças Armadas, preocupados com a politização das Armas; 15) estados e municípios que enfrentarão graves problemas fiscais; 16) o funcionalismo em geral; 17) corporações favorecidas por privilégios previstos em lei; e 18) mais recentemente, o desgaste com o fim do Programa Mais Médicos, que afetará centenas de municípios.

Apenas para começar — ou antes mesmo de começar —, inacreditáveis dezoito frentes simultâneas. Algumas inevitáveis, o bom combate; a maioria, dispensável, resultado de ideologia, arrogância ou inexperiência. Propositadamente, o “petismo” sequer foi mencionado. Ainda que o bolsonarismo possa sempre expô-lo como um espantalho no campo de milho, o petismo talvez venha a ser o menor dos problemas de Jair Bolsonaro, no futuro. Um judas num antigo sábado de aleluia. Já passou.

Essa extraordinária e imprudente relação de desafetos é contrabalançada com os apoios mais ou menos instáveis e pouco fiéis ao longo do tempo, sobretudo, à medida em que o desgaste do governo se estabelecer. São exemplos: 1) as bancadas ruralista, evangélica e da bala; 2) operadores do mercado financeiro; 3) o antipetismo que já perdeu seu objeto com a derrota do PT; 4) setores mais duros e intermediários das Forças Armadas e das Polícias Militares; 5) governadores que na eleição, por puro oportunismo, recorreram ao bolsonarismo. Parece pouco, diante dos conflitos. E mais que “pouco”, instáveis e pouco confiáveis.

Fidelidade política e apoios efetivos não costumam a se conjugar por muito tempo. É uma relação que vive mais de sentimentos concretos baseados na popularidade do governante, no bom momento econômico e nas sinecuras do poder do que em princípios abstratos vinculados à ideologia. Ilusão acreditar que 57 milhões de votos bastam. Não bastam.

O presidente e o seu grupo vivem o momento de euforia e deslumbramento com a vitória eleitoral e com todo aparato do Poder. Talvez, em virtude disto não estejam sensíveis aos desgastes que semeiam e aos alertas que já lhes são feitos.

A conquista insólita nas urnas, o fenômeno político e eleitoral que se deu, sim, em torno de Jair Bolsonaro e seu meteórico sucesso são maus conselheiros, pois despertam um tão perigoso quanto efêmero sentimento de invulnerabilidade. Aí mora seu maior perigo. O Poder pensa que pode tudo até que não possa quase nada. É bom superar essa fase rápido.
Carlos Melo 

Brasil que vale ouro


A realidade é dura

Trapalhadas, bate-cabeças, idas e vindas. A 40 dias de sua posse, o presidente eleito Jair Bolsonaro parece não saber o que quer. Nem mesmo consegue formatar o desenho primário do governo. Transita entre dias de extinção e fusão de ministérios, misturando alhos e bugalhos para chegar aos 15 prometidos na campanha, outros de recuo e até de criação de novas pastas, como o recém-anunciado Ministério da Cidadania. E antes mesmo de tomar assento no Planalto já contabiliza sua primeira baixa: a do general da reserva Oswaldo Ferreira.


Responsável pelo Departamento de Engenharia do Exército durante anos e até então afinadíssimo com Bolsonaro, Ferreira não explicou publicamente os motivos de sua desistência. Algo no mínimo curioso para um dos mentores da aglutinação dos transportes, portos, aviação civil, mobilidade urbana, recursos hídricos e saneamento no mega-Ministério de Infraestrutura, imaginado entre o primeiro e segundo turnos da eleição.

Nele estarão concentrados quase todos os recursos de investimento que o país faz – ou deveria fazer. E toda sorte de problemas. Mais de 7 mil obras inacabadas, boa parte delas vítimas da corrupção. Absurdos como as Ferrovias Norte-Sul, em construção há 31 anos, e Transnordestina, iniciada em 2006 e completamente abandonada, além de heranças pesadas dos PACs do ex Lula e da presidente cassada Dilma Rousseff.

Se Bolsonaro começou a transição em grande estilo, com o anúncio do juiz Sérgio Moro para a Justiça e de gente de peso, como Joaquim Levy para o BNDES, foi o primeiro a colocar seu próprio governo na berlinda ao emitir sinais contraditórios.

Ora quer juntar Agricultura e Meio Ambiente. Depois não quer mais, quer de novo para logo não querer. Pouco antes já havia migrado o ensino superior para a área de ciência e tecnologia. Voltou atrás. O mesmo ocorreu com o Trabalho, extinto, ressuscitado e, na última versão, anexado aos ainda inexistentes ministérios da Produção ou da Cidadania. Minas e Energia, que chegou a ficar embaixo da Infraestrutura, continuará independente. Cultura e Esportes devem ir para a Educação. Pelo menos até novas mudanças.

Os recuos, dirão alguns, podem apontar para alguém capaz de alterar rumos quando é convencido da necessidade de fazê-lo, o que seria mérito. Tomara. Mas a frequência das correções parecem mais efeito da dureza da realidade, muito diferente do blablablá de campanha, na qual à fala não se obriga lastro.

Bolsonaro parece não perceber que cada palavra sua tem consequência. Para o bem e para o mal. Não servem mais apenas como alimento para fiéis reproduzirem nas redes sociais, como ocorria antes de ser eleito. Mexem com mercados interno e externo, com a credibilidade do país.

Defender a imediata reforma da Previdência, até com auxílio do presidente Michel Temer, e, em seguida, dizer que poderá protelar a sua efetivação, deixa aposentados e gente da ativa com o coração na mão. Ou duvidar, publicamente, da eficácia da proposta de capitalização previdenciária de seu Posto Ipiranga, Paulo Guedes, futuro superministro da Economia, de nada ajuda e muito atrapalha em uma questão crucial para o país.

O mesmo vale para as arestas que já criou com árabes, ao anunciar a intenção de mudar a embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém, com argentinos e outros integrantes do Mercosul, com a China, país que mais importa produtos brasileiros. Posições que seu indicado para a Chancelaria, embaixador Ernesto Araújo, parece concordar quando discorre sobre a necessidade de o Brasil se aliar ao projeto de Donald Trump, pela “recuperação da alma do Ocidente”.

Entre outras sandices, Araújo questiona a teoria do aquecimento do planeta e se opõe à globalização, “pilotada pelo marxismo cultural”. Mas também aqui o mundo real é outro: uma coisa é escrever em um blog, outra é conduzir a política externa do país.

Resta a torcida para que Bolsonaro e seu time assimilem velozmente o choque de realidade. Do contrário, teremos um governo de curto-circuitos.
Mary Zaidan

O cálice de 2019

Difícil exagerar as dificuldades que teremos à frente. Alternativas políticas ou econômicas propriamente ditas, que, mesmo operacionalmente imprecisas, ambicionam mudar a face do capitalismo brasileiro, têm convivido no espaço público com delicados temas éticos, agitados muitas vezes de forma superficial, quando não leviana, à maneira de memes de internet ou bravatas politicamente incorretas.
 
Tais aspectos eticamente relevantes também deixam marca em políticas públicas que darão um sentido regressivo ou inovador às nossas relações sociais cotidianas, ao modo como nos comportamos uns com os outros. Os democratas devem não só avaliar os resultados práticos da reforma que se pretende, como também impedir que se enxovalhe a ideia da História como criação acidentada, mas permanente, de valores já irrenunciáveis, como, entre outros, o da tolerância
Luiz Sérgio Henriques

O fim do comum

Na noite de 6 de janeiro de 2015, Phippe Lançon foi ao teatro com uma amiga, em Ivry, ver Noite de Reis, uma peça de Shakespeare sobre a qual teria de escrever no dia seguinte um artigo para o Libération. Mas, na manhã do dia 7, haveria também a reunião de pauta do Charlie Hebdo, para o qual ele também escrevia, na qual seria planejado número seguinte do semanário. Lançon decidiu-se por essa última. Enquanto os colegas discutiam a pauta, ele observava o desenhista Bernard Harris, seu bom amigo, que como sempre passou toda a discussão fazendo caricaturas dos presentes.

Terminada a reunião, quando todos começavam a se despedir, teve início a fuzilaria. Philippe foi o primeiro a receber um balaço, no rosto, que despedaçou sua mandíbula e o derrubou numa grande poça de sangue. Não perdeu os sentidos, mas não podia se mexer. Enquanto sangrava, viu os dois terroristas, os irmãos Kouachi, executarem todos os que estavam na sala, repetindo um mantra, Allahu Akbar!, Allahu Akbar! Philipe não podia acreditar no que via: a cabeça de Bernard Maris aberta a tiros, os miolos saindo. Num dado momento, viu ao lado de seu rosto os sapatos e a metralhadora de um dos assassinos. Por que não o mataram? Sem dúvida por achar que ele já estava morto.

Ele foi finalmente resgatado e uma ambulância o levou para o hospital, onde passou 282 dias e foi submetido a 30 operações que lhe reconstruíram prodigiosamente o rosto. Quando o conheci, em Princeton, há uns três anos, ainda parecia um monstro. Quando vi suas fotos, achei incrível que seu rosto estivesse absolutamente normal, sem uma única cicatriz que recordasse o horror da experiência que ele, no livro que acaba de publicar na França, Le Lambeau (o pedaço, o retalho) chama, com sombria elegância, de “o fim do comum”.

O mais impressionante nesse testemunho assustador, em que vemos um homem morrer e ir ressuscitando pouco a pouco graças à sua valentia e força moral, e sem dúvida à formidável ajuda que lhe deram os enfermeiros, médicos, auxiliares, e sobretudo à destreza e competência dra. Chloé, a cirurgiã autora daquela prodigiosa reconstrução facial – é a sobriedade e o equilíbrio com que está escrito. Não há ódio nem rancor, e aquela máquina de matar que aniquilou todos seus companheiros quase desaparece. O amor pela vida anima suas páginas, com a ajuda vivificante que lhe dão nessa longuíssima ressurreição certas obras literárias – Kafka, Proust, A Montanha Mágica – que relê buscando com elas reviver os momentos tão intensos que sentiu quando as leu pela primeira vez.
Creio que Philippe Lançon não fala de terrorismo em nenhuma dessas belas páginas. No entanto, Le Lambeau é um dos livros que melhor permitem entender os extremos da abominação e da selvageria a que pode chegar um ser humano escravizado pelo fanatismo religioso, convencido de que sua fé o autoriza a devastar o mundo e, se preciso, acabar com ele, purgando-o de infiéis. A essa barbárie crua e dura , Lançon opõe a razão, a humanidade, as belas artes, a poesia e as ideias, que considera os denominadores comuns entre os seres humanos, mais profundos e duradouros que as diferenças de línguas, crenças, raças e costumes, tudo aquilo que nos cerca e nos irmana e terminará prevalecendo sobre a irracionalidade e a loucura abissal de quem acredita que lançando bombas e assassinando inocentes vá obter justiça.

Aos hospitais onde Philippe Lançon luta para renascer, chegam parentes, amigos, sua ex-mulher, suas namoradas (sim, no plural) e também esse rumor poderoso que é o gigantesco movimento de solidariedade gerado na França e no mundo inteiro pela matança de Charlie Hebdo. Ainda que pareça mentira, até o humor abre caminho nessas páginas, e o leitor se vê sorrindo, divertido com os enredos sentimentais e pessoais em que se depara o personagem (chamado pelo pseudônimo de Monsieur Tarbes em um dos hospitais que frequentou), entre anestesias, injeções, vômitos, sondas, termômetros e passes de mágica de que tem de se valer para que haja harmonia onde poderiam eclodir o mau humor e o escândalo.

Nada como estar perto da morte para saber como é maravilhosa a vida. Descobrimos isso ao mesmo tempo que Philippe, quando consegue comer um pouco de iogurte e deixar de se alimentar por sonda, quando volta a mastigar e – por fim! – a falar, sem mais necessidade da lousinha que durante tantos meses ele usou para se comunicar-se com o próximo. E quão generosos e decentes podem ser os homens e as mulheres – como ele descobriu por meio das enfermeiras, atendentes, faxineiras e médicos que dia e noite se empenharam em devolver-lhe a saúde e fazê-lo sentir-se querido e protegido por uma muralha de amizade e de amor nesses longuíssimos meses nos quais voltou a ser um ser humano, deixando para trás o semicádaver que era quando chegou.

Há tempos um livro não me entristecia, emocionava e alegrava como Le Lambeau. Quando se acaba de lê-lo, compreende-se que o terrorismo – não só o islamista, mas todos os terrorismos políticos, sem exceção – não ganharão nunca a guerra que desfecharam, apesar dos danos (inúmeros) que podem causar. Não ganharão porque são primitivos e bárbaros. Perpetuam uma tradição que o desenvolvimento humano – a civilização – está fazendo retroceder e voltar às cavernas e é a própria negação das boas coisas que o progresso nos trouxe – a liberdade, a democracia, a coexistência na diversidade, a justiça, os direitos humanos, a igualdade perante a lei. Sem necessidade de se referir especificamente a esses temas, com o personagem lutando para retornar à vida, recordando-se de quão maravilhoso é um bom livro, uma bela sinfonia, o rejuvenescimento que trazem a amizade ou o amor, Le Lambeau nos faz conscientes da estupidez e cegueira que são o fanatismo e o uso do terror, e de quanto avançamos desde os tempos atrozes em que o ser humano ainda era uma fera entre as feras.

Esse progresso é uma realidade para um grande número de países – para muitos outros, por desgraça, ainda não –, e uma prova disso é que Philippe Lançon esteja vivo de novo, tenha sido capaz de escrever esse livro profundo, que Chloé e seus colegas tenham conseguido devolver a seu rosto a humanidade e a harmonia, que ele tenha se casado e, segundo me dizem, esteja comemorando o nascimento de seu primeiro filho. Isso me levanta o ânimo porque vejo em tudo algo de belo e exultante, a derrota da estupidez e da cegueira mental e moral do fanatismo, a vitória da vida.

Um dos episódios mais comoventes – há centenas mais – do livro é quando, em pleno atentado, Philippe tem uma esquisita sensação na boca e descobre que são seus dentes se soltando. Ao amigo comum, que me mostrou outro dia suas fotos de renascido, perguntei se ele viu como ficaram os dentes de Philippe. “Estão intactos, e além disso, branquíssimos”, respondeu. Senti que meu coração transbordava de felicidade.

Gente fora do mapa


Capital do furto de bicicletas

Não fazia nem um ano que eu tinha comprado minha primeira bicicleta nova em Berlim. Na época andava com a grana curta, mas mesmo assim economizei os cerca de 500 euros necessários para o modelo que pude comprar. Não era das mais baratas, mas também estava de longe de ser uma "máquina" entre as magrelas. Minha bicicleta era simples, mas cumpria muito bem suas funções, de transporte pela cidade e também para passeios de longa distância.

Eu estava satisfeita com seu desempenho. Investi também aproximadamente 50 euros num cadeado, pois já tinha ouvido falar sobre os perigos da cidade para ciclistas. Mas esse cuidado de nada adiantou. Estava em Bonn quando recebi a notícia de que minha bicicleta havia sido furtada dentro do jardim interno do prédio onde morava. Ela foi levada na calada da noite. Nem o cadeado sobrou.

Primeiro veio o sentimento de raiva e revolta, mas depois, com calma, acionei o seguro – sim, em Berlim faz muito sentido assegurar bicicletas. Depois de fazer o boletim de ocorrência pela internet, foi só enviar uma cópia da nota para a seguradora. Poucos dias depois o seguro foi pago e uma nova magrela, adquirida. Depois do furto, passei a deixar minha bicicleta na rua, presa em algum poste em frente ao prédio. Assim é mais fácil alguém perceber se estão tentando furtá-la.


Meu caso não é exceção em Berlim. Estima-se que a cada 17 minutos uma bicicleta seja furtada na capital alemã. São cerca de 30 mil por ano (esses foram apenas os casos registrados na polícia). Em 2017, o valor das magrelas furtadas chegou a 18,6 milhões de euros, ou seja, mais de 79 milhões de reais.

O crime é muito popular porque há mercado. Na cidade, há várias feiras das pulgas onde bicicletas em boas condições são vendidas por apenas 50 euros sem nenhuma documentação. Quem compra bicicletas baratas de origem suspeita também tem culpa no cartório por financiar esse negócio criminoso. As leis alemães punem também o receptor de objetos roubados. Caso a pessoa com uma bicicleta furtada seja parada pela polícia, ela terá a bicicleta aprendida e será indiciada. Para o vendedor, a pena pode chegar a cinco anos de prisão.

A polícia de Berlim dá dicas para evitar o roubo. O uso de dois cadeados de tipos diferentes pode ajudar, pois geralmente os ladrões são especializados em arrombar apenas um tipo. Importante também é registrar a bicicleta na polícia. Para o registro é preciso apresentar a nota da compra, e um número é gravado no quadro. Além de assustar ladrões, pois o objeto furtado pode ser mais facilmente identificado, o registro auxilia a localizar o dono caso a bicicleta seja encontrada em algum lugar da Alemanha.

Meses depois do episódio, para minha surpresa, recebi uma carta da polícia informando que a investigação sobre o furto estava sendo encerrada sem resultados e poderia ser reaberta caso novas evidências surgissem. Acho que a carta era mais uma formalidade, afinal a polícia nem mesmo veio até o meu prédio para recolher possíveis pistas ou depoimentos.

As estatísticas mostram que apenas 3,9% dos furtos de bicicletas são elucidados na cidade. Em alguns destes casos foram os próprios donos que acionaram as autoridades após ver um anúncio da venda de sua bicicleta na internet ou localizá-la em algum mercado de pulgas.
Clarissa Neher

Quantos jalecos nacionais substituirão cubanos?

Ao se retirar do Programa Mais Médicos, Cuba forçou o Brasil a lidar com uma encrenca que fora enviada à UTI em 2013 e vinha sendo mantida desde então em coma induzido. De repente, o país foi forçado a lembrar que faltam médicos nos fundões miseráveis do mapa e nas beiradas empobrecidas das regiões metropolitanas. Ao ordenar aos seus doutores que façam as malas, a ditadura de Havana ofereceu aos similares nacionais a oportunidade de informar à opinião pública brasileira se fazem parte da solução ou se integram o problema.

“O Brasil conta com médicos formados no país em número suficiente para atender às demandas da população”, apressou-se em informar o Conselho Federal de Medicina em nota oficial divulgada na semana passada. Há cinco anos, quando os cubanos começaram a desembarcar no Brasil, a mesma entidade reagiu com o fígado: ''Não admitimos uma medicina de segunda para os mais carentes. Até porque quem está no governo, quando adoece, vai para hospitais de primeira linha.''

Faltou dizer que, numa cidade sem médico, não há medicina de segunda nem de primeira linha. Em localidades assim, o que há são doentes desassistidos, tratados como seres humanos de última linha. Ninguém se lembra. Mas nessa mesma época em que a corporação pegou em bisturis para defender sua reserva de mercado, o médico cubano Juan Delgado, recebido com vaias no aeroporto de Fortaleza, iluminou com poucas palavras a falta de nexo da revolta dos jalecos nacionais.

“Vamos ocupar lugares onde eles não vão”, disse Juan na ocasião. “Impressionou-me a manifestação. Diziam que somos escravos, que fôssemos embora do Brasil. Não sei por que diziam isso, não vamos tirar seus postos de trabalho. Isso não é certo. Seremos escravos da saúde, dos pacientes doentes, de quem estaremos ao lado todo o tempo necessário. Os médicos brasileiros deveriam fazer o mesmo que nós: ir aos lugares mais pobres prestar assistência.''

Nesta terça-feira, o Diário Oficial da União publica um edital oferecendo a médicos brasileiros cerca de 8,5 mil vagas ocupadas por cubanos. A novidade foi anunciada na véspera pelo ministro Gilberto Occhi (Saúde), num encontro com prefeitos. No mesmo evento, Michel Temer declarou que nenhum município ficará “desprovido” de assistência médica. Acredita quem quer. Duvida quem tem juízo.

No início do ano, a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) divulgou estudo chamado “Demografia Médica 2018”. Pode ser lido aqui. Revelou a existência de uma quantidade recorde de médicos no Brasil: 452 mil profissionais. Em teoria, isso garantiria 2,18 médicos para cada mil habitantes. Algo muito próximo da taxa registrada em países desenvolvidos como o Canadá (2,7 médicos por mil habitantes) ou Reino Unido (2,8).

O problema é que 63,8% dos médicos brasileiros estão no Sudeste (41,9%), no Sul (14,3%) e no centro-oeste (7,6%). Mais da metade (55,1%) encontra-se nas capitais. O Ministério da Saúde informa que os médicos cubanos distribuíram-se em 2.885 cidades, das quais 1.575 não dispunham de um mísero doutor verde-amarelo. A grossa maioria dos profissionais enviados por Havana foi para áreas paupérrimas do Norte e do Nordeste. Outra parte ficou em áreas periféricas de centros urbanos. A saída dos cubanos deixará sem médico 28 milhões de potenciais pacientes.

A pergunta que se impõe é: quantos profissionais brasileiros toparão ocupar as vagas dos “escravos” cubanos? A julgar pela nota do Conselho Federal de Medicina, as 8,5 mil vagas oferecidas pelo Ministério da Saúde não serão preenchidas facilmente. A entidade condiciona o deslocamento dos médicos a uma inexistente “carreira de Estado”, ao provimento de improvável “suporte” logístico e “remuneração adequada”. Afora o salário de R$ 11,5 mil mensais, não há garantias quanto ao resto.

A reunião da irresponsabilidade fiscal

No mesmo dia em que anunciou um “momento de regeneração”, Jair Bolsonaro foi a uma esquisita reunião de governadores eleitos copatrocinada pelo paulista João Doria. Nada havia sido combinado com sua equipe. O que muitos governadores querem é suspender as exigências e os efeitos da Lei da Responsabilidade Fiscal. Uma legítima superpedalada, capaz de superar os çábios da “contabilidade criativa” que custou a presidência a Dilma Rousseff.

Como o presidente eleito ainda não desceu do palanque, fez brincadeira com a sua presença no conclave: “O que eles querem, eu também quero, dinheiro”. Antes fosse, o que eles querem é atropelar a lei que obriga os Estados a limitar em 60% o comprometimento das receitas com o pagamento de despesas de pessoal


O Rio está com um comprometimento de 81%. Minas Gerais, 79% e o Rio Grande do Sul, 78%. Isso para não se falar no campeão, o Rio Grande do Norte, com 88%. Ao todo, são 17 os Estados que ofenderam a LRF, mas nove governos comportaram-se como deviam.

Os governadores querem mais dez anos de prazo para cumprir uma lei de 2000 e prometem um conjunto de medidas para buscar o equilíbrio financeiro. Velha conversa, como a do Supremo Tribunal Federal que quer o aumento para já, prometendo o fim dos penduricalhos dos juízes para depois. Ademais, dentro de dez anos os governadores serão outros.

Bolsonaro deveria ter desarmado a cilada da reunião, expondo a irracionalidade do pleito. Doria, que governará o Estado que exibe melhor desempenho (54% de comprometimento, graças a Geraldo Alckmin), poderia ter evitado a ribalta.

Para quem temia que depois da eleição viesse mais do mesmo, ressurge a maldição do príncipe de Salinas no romance “O Leopardo”: “Depois será diferente, porém pior”.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Pensamento do Dia


Linha direta com Deus

Enfim, Bolsonaro anunciou o novo ministro das Relações Exteriores. Havia gente reclamando. As falas do governo eleito provocaram atritos para quase todo lado: países árabes, China, Cuba, Noruega e Holanda. A esperança é que um novo chanceler unifique o discurso e o cubra de um verniz diplomático para atenuar os choques.

Mas as ideias do novo chanceler, Ernesto Araújo, acabaram deslocando a inquietação para outro nível. Não as conhecemos no conjunto, apenas fragmentos de artigos teóricos e posts em sua rede social. Ele acha que Trump pode conduzir a salvação de um Ocidente apático, a partir da tradição cultural, principalmente a ânsia por Deus. Como ele, é cético em relação ao aquecimento global. Certamente, será combatido pela sua fé e sua descrença política em fatos em que a maioria dos cientistas acredita.


Isso não me surpreende tanto. Na verdade, a política, num século em que a religião regrediu, procura de todas as formas substituí-la no imaginário popular. Em muitas ocasiões, mencionei o caráter religioso do marxismo, com sua visão de paraíso e seu script determinista da história. Ela nos garante a vitória final, como os cristãos creem na subida aos céus, apesar da sucessão de derrotas cotidianas.

Além das notas sobre o marxismo, tenho mencionado a crítica de John Gray à nova direita inglesa, baseada também na denúncia dos elementos religiosos do Iluminismo, da expectativa de ocupar o mundo com o livre comércio e a democracia liberal.

Numa idade de fé minguante, tanto marxismo quanto liberalismo investem esperanças transcendentais no seu projeto de mudar o mundo. A julgar pelos fragmentos do texto do chanceler Ernesto Araújo, sua concepção é diretamente religiosa. As esperanças transcendentais não se se escondem nem se disfarçam como nas teorias modernas. Elas não substituem uma visão religiosa: são a própria visão religiosa.

Como todo idealismo, você pode discuti-lo por dentro, questionar sua lógica. O melhor, no entanto, é partir do mundo real, onde a política é uma humilde tentativa de acomodação mútua na busca de um modus vivendi. Tanto Bolsonaro quanto Hassan Rouhani, do Irã, têm de traduzir suas crenças em passos concretos e, neste momento, é que serão avaliados com mais rigor.

Tentei colocar a questão da política externa na campanha. Percebi que, em termos gerais, ela não interessava tanto ao público. Selecionei alguns temas: crise na Venezuela, relações com a China, Donald Trump.

Todos sabíamos que a vitória de Bolsonaro representaria uma aproximação maior com os EUA, o que, na minha opinião, é positivo. No entanto, uma coisa é aproximar-se dos EUA. Outra coisa é clonar alguns elementos da política externa americana, como se fôssemos eles. Daí minhas reservas à transferência da embaixada para Jerusalém, à tentativa de buscar um tom específico com a China e a um cuidado maior do que Trump com os acordos multilaterais.

Tudo isso vai ser discutido no seu tempo. Desde já, preocupa-me o embate entre o idealismo e a juventude do novo chanceler com os pragmáticos e calejados negociadores chineses. Kissinger os conhece bem e os retratou no seu livro sobre a China. Trabalham com a perspectiva de gerações, exercitam a paciência e a habilidade nos seus projetos de longo alcance.

Não creio que o melhor caminho seja discutir se Trump é a salvação do Ocidente, e sim analisar soluções práticas do cotidiano, como o rompimento com o Programa Mais Médicos, por exemplo. Bolsonaro expressou sua posição sobre os médicos cubanos durante a campanha. Como vencedor, tem legitimidade para colocar suas ideias em prática.

A única crítica possível, nesse caso, é sobre o timing do rompimento. O ideal teria sido preparar a retaguarda antes que o contrato fosse desfeito. Mas os cubanos sacaram mais rápido, para dramatizar a saída. Milhões de brasileiros ficarão, momentaneamente, desguarnecidos. São pobres, escapam ao radar da grande mídia, pouco influem nas redes sociais.

É difícil argumentar com princípios diante de um asmático em crise, uma forte intoxicação alimentar. Essa é a modulação da crítica ao marxismo, aos neoliberais e aos que atribuem a Deus o dinamismo da história. Todos são projetos políticos que esbarram na imperfeição humana, pouco sabem da tarefa modesta e cotidiana de sacrificar alguns bens para preservar outros.

Um ministro húngaro, após a queda do socialismo, dizia: antes eram uns fanáticos que diziam que o Estado resolve tudo; em seguida, vieram os que dizem que a salvação de tudo é o mercado. Nos Estados Unidos , e agora no Brasil, suprimem-se os intermediários: o assunto é direto com Deus.

Cacoete brasileiro

Transformar os políticos em líderes e esperar que eles desçam do céu para resolver os problemas
Fernando Sabino