terça-feira, 19 de abril de 2016

Foi ruim? Pode piorar

Quem se chocou com as cenas da votação na Câmara, pode ter certeza de que só viu as cenas mais suaves. Governo e Congresso são prisioneiros de uma crise de legitimidade

Ganharam os historiadores. Terminaram a semana com fartura de material sobre o anacronismo dos métodos de se fazer política no Brasil. Quem se chocou com a votação da Câmara, pode guardar a certeza de que só assistiu às cenas mais suaves.

São duas as razões para as sucessivas evocações a Deus, na votação que deflagrou a destituição do governo Dilma. Primeiro, Ele nunca reclama. Segundo, todos sabem que é o único sem qualquer culpa nessa história.

A retórica chula, às vezes ressentida, predominante no microfone da Câmara, continha uma mensagem objetiva sobre o estado de decomposição das relações entre as forças políticas dominantes. Governo e Congresso estão enjaulados numa grave crise de legitimidade.

O Judiciário contribuiu, de forma decisiva, na última década. O Supremo Tribunal Federal estimulou quando abriu uma janela para o florescente negócio da criação de partidos. Eliminou a exigência de desempenho eleitoral mínimo (cláusula de barreira) e mudou a “propriedade” do mandato. Subtraiu-a do eleitor e entregou à burocracia partidária.

Já são 35 partidos com registro oficial. Na vida real, são pessoas jurídicas de direito privado, com acesso privilegiado aos cofres públicos. Têm garantido o usufruto de propaganda no rádio e na televisão, sustentada por isenções fiscais. E, também, a garantia de uma fatia do orçamento federal, via Fundo Partidário, estimada em R$ 900 milhões neste ano.

Os governos Lula e Dilma metabolizaram essa fragmentação no delírio da montagem da “maior base parlamentar do Ocidente”, como definia José Dirceu. Ampliaram para quatro dezenas os ministérios e aumentaram para 23 mil os cargos-chave na administração utilizáveis segundo a conveniência política, além da partilha do comando das empresas estatais. Deu no mensalão e nos inquéritos sobre corrupção na Petrobras e outras empresas estatais.

Quem ficou chocado com as cenas do início do impeachment, talvez se apavorasse com o mercado livre que antecedeu a votação em Brasília.

Lula, principal negociador das salvaguardas ao mandato de Dilma, descreveu como uma “Bolsa de Valores”. Deputados comentavam as “cotações” do relativismo ético: R$ 1 milhão por ausência, R$ 2 milhões pelo voto no plenário.

O pacote incluía adicionais em cargos, créditos e mimos diversos para prefeitos e governadores aliados — da desapropriação de terras à doação de áreas cultiváveis na floresta amazônica, parte em terras indígenas.

No caos, o PT de Lula e Dilma passou a disputar espaço com novos aliados, como o Partido Trabalhista Nacional. Chapadinha, deputado pelo PTN, levou uma diretoria do Incra no Pará. Os petistas locais souberam da negociação e promoveram uma greve no Incra de Santarém.

No sábado, véspera da votação, imprimiu-se uma edição extra do Diário Oficial. Ficaram visíveis 63 nomeações emergenciais para 22 órgãos federais. Dilma perdeu por 72%.

É com essa lógica anacrônica que os generais de Dilma preparam a batalha final no Senado. O governo acha que tem 22 votos. Precisa garantir mais seis e somar 28 para evitar o “Tchau, querida!” dos senadores.

Deus, é claro, não tem nada com isso.

José Casado

Destituída pelo país que já não mais suporta farsas que só comovem imbecis e cúmplices

Os sonhos da presidente Dilma estão sendo torturados, ela disse na coletiva a que se concedeu para a encenação da estratégia do dia. Os nossos também, mas isso não a comove; prefere tentar comover a plateia trocando o figurino da arrogância pelo de certo quebrantamento. Nada como uma boa sova democrática de 367 votos pela admissibilidade do impeachment, não é mesmo?


Do céu com luzes suaves e cores acesas, a manhã descia fazendo o mar cintilar sob um sol ainda gentil, com a brisa ainda fresca, praia ainda deserta num cantinho especial do litoral norte de São Paulo. Lindo e também perfeito: nada disso precisa de mim para acontecer e posso dormir até tarde embalada pela paz da minha irrelevância. Esta só foi suspensa enquanto minha filha era pequena e eu tinha de levantar cedo para que ela tomasse sol nos horários recomendados quando íamos à praia.

Na tática da presidente em assumir certo abatimento, há vestígios de inteligência; além dos efeitos positivos de se abandonar a arrogância, pois é mais inteligente, menos desgastante e útil assumir o que sentimos, somos e pensamos. Isso, claro, na feliz hipótese de conseguirmos identificar os sintomas todos; então, nos tornamos verdadeiros e, por isso, mais leves. Dilma estava verdadeiramente abatida e, tão verdadeira estava que pôs tudo a serviço do embuste, deformando em manipulação a potência transformadora do sofrimento.

Repetiu a acusação de golpe e, já que não toma as providências legais a que tal eventualidade a obriga segundo a Constituição, comete mais um crime de responsabilidade; atacou o vice-presidente cassando as prerrogativas constitucionais dele; declarou-se indignada porque punida por condutas semelhantes às dos antecessores inocentes que ficaram impunes, num modo atravessado de admitir o crime que alega inexistente; e, claro, relembrou a tortura que sofreu quando era terrorista sem reconhecer que terroristas e torturadores, abjetos sempre, equivalem-se moralmente porque agem sob a convicção sórdida de que os fins justificam os meios.

Mas a maternidade me modificou ou completou o meu destino de alguém que se comove mais facilmente do que antes com injustiças, o sofrimento alheio e tal. E ficou para sempre à flor da pele exposto o nervo da indignação, num modo de não me deixar entorpecer pelo excesso de mazelas daqui e do mundo. Entre elas, a existência de farsantes que, governantes ou não, valem-se do bem alheio para fazer o mal. Existem a indignação resignada, a transformadora ou inspiradora. E a de Dilma que, transferida do imaginário vigarista para legitimar um embuste real, indignação já não é, mas arrogância – ainda que medicada por alguma inteligência – num eterno retorno.

Comovido, um jornalista fez talvez a pergunta mais imbecil nesses tempos de dura concorrência: se a ditadura foi um período melhor do que a democracia. Ele sequer desconfia que poder formular a pergunta implausível é a resposta, pois regimes totalitários não se deixam questionar, sonho a que aspiraram a presidente e o regime petista. Eis o sonho de Dilma Rousseff que está sendo torturado, o de ser inquestionável. É também por essa razão que ela será destituída pelo país que já não mais suporta farsas que só comovem os imbecis e os cúmplices.

Quando o PT perdeu o caminho de casa?

Talvez em 1997, quando Lula chamou de “asneiras” as denúncias de que havia roubalheiras em contratos de firmas de consultoria com prefeituras petistas. Desde então, Lula e o comissariado fizeram uma opção preferencial pelo acobertamento e pela cumplicidade em todos os episódios em que a moralidade foi ofendida. Foi assim com as propinas que provocaram a morte do prefeito Celso Daniel. Assim foi no “mensalão” e assim o PT comporta-se diante da Lava-Jato.

Há um mantra em circulação: a honorabilidade pessoal de Dilma Rousseff está acima de qualquer suspeita. É verdade, mas pode-se aplicar o mesmo raciocínio ao general Emílio Médici (1969-1974). Ele foi um homem pessoalmente honrado. A ruína de sua biografia veio do campo da moral política. Médici nunca encostou a mão em ninguém, mas durante seu governo milhares de brasileiros foram torturados, e mais de uma centena foram assassinados.

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Para felicidade do Brasil, os crimes dos governantes mudaram de eixo e, durante o consulado petista, o demônio foi para o meio do redemoinho da corrupção e das suas alianças com larápios que hoje votaram pela deposição da presidente. Dilma era ministra de Minas e Energia quando um empresário narrou-lhe malfeitorias praticadas pela Petrobras. Ela respondeu: “Não posso me preocupar com pequenas ilegalidades”. Com o tempo, deixou de se preocupar com as grandes. Ela, Lula e o PT ficaram neutros contra a Operação Lava-Jato. Esse foi um dos principais fatores de erosão da credibilidade dos companheiros. (O apoio de Temer à faxina do juiz Moro é coisa a ser conferida. Por enquanto, ele continua a ser um velho aliado de Eduardo Cunha).

O resultado de ontem é uma derrota de Dilma, do PT e daquilo que se chama de esquerda. Como sair dessa? Nos anos 1970 do século passado, como Dilma, o uruguaio José (Pepe) Mujica estava na cadeia. Em 2010 Pepe elegeu-se presidente. Continuou vivendo na modesta chácara das cercanias de Montevidéo, dirigindo seu velho fusca e brincando com Manuela, sua cachorra de três patas. Basta olhar para seu exemplo.
Eli Gaspari

Juscelino, há 56 anos, definiu que governo algum pode perder as ruas

Exatamente esta foi a frase de Juscelino Kubitschek, numa entrevista a jornalistas na TV-Rio, que não existe mais, em novembro de 60, período final de seu governo, ao responder pergunta de Wilson Figueiredo, do Jornal o Brasil. Eu participava como repórter do Correio da Manhã. A TV-Rio ficava no Posto Seis, Copacabana, onde hoje está o Hotel Sofitel. A entrevista foi a propósito de um livro do embaixador Donatelo Grieco, filho do escritor Agripino Grieco, que se tornou, a meu ver, o maior pesquisador dos anos dourados de janeiro de 56 a janeiro de 61.

Donatelo Grieco comparou meticulosamente o que era o Brasil antes de Juscelino e o que passou a ser depois. JK, por exemplo, assumiu com uma produção de petróleo de 5 mil barris/dia. Entregou a faixa a Jânio Quadros com 100 mil. Na época, o consumo nacional era de 300 mil barris diários. E por aí vai.

JK criava Furnas e Três Marias, implantava a indústria automobilística. Duplicava a produção de energia elétrica, sem a qual a industrialização seria impossível. Mas estas são outras questões paralelas.

O fato essencial, comparando-se a expressão de ontem com a realidade de hoje, é que a presidente Dilma Rousseff perdeu as ruas e nada, absolutamente nada, faz para recuperá-las. Não conseguiu elaborar sequer um projeto de governo, não foi ao encontro das praças e das ruas, nem procurou abraçar a população em torno de uma ideia. Com isso, cortou sua comunicação com a opinião pública.

Quando precisou dela, não teve condições de lhe passar o entusiasmo contido nas grandes multidões. Por uma razão muito simples: as multidões petistas dividiram-se entre ela e Luiz Inácio da Silva. Por uma ironia do destino, seu maior eleitor, tornou-se seu maior problema.

Sim. Porque foi a partir do instante em que ela o nomeou para chefe da Casa Civil que se desencadeou uma nova tempestade: a tempestade chamada impeachment.

O Supremo bloqueou a investidura, depois de Lula ter tomado posse no Palácio do Planalto, ao som do Hino Nacional, jamais tocado para preceder a posse de um ministro de Estado

Para a presidente Dilma, Lula foi o início e, ao mesmo tempo, o fim. Claro. Porque, como todos já sentiram, ela não retornará ao governo. A votação que terminou à noite de domingo foi seu Waterloo político. Não haverá nova batalha. Ela perdeu o confronto original e também a guerra.

Onde estava o povo? As ruas eram ocupadas majoritariamente pelos que se emocionavam pelo seu afastamento. Emoção da mesma intensidade não se registra entre aqueles que falavam pela sua permanência no Planalto. E, no fundo, é o entusiasmo que aquece corações e mentes.

Para mim, observador dos políticos ao longo de seis décadas, tornou-se eterna a imagem iluminada por JK naquela noite, no prédio que, além da TV-Rio, abrigava o Cassino Atlântico, do jornalista Paulo Bitencourt, também diretor proprietário do Correio da Manhã. A imagem é simples e direta. Clara como um copo d’água, como devem ser as interpretações.

Sem apoio do povo, mesmo de forma indireta, não há poder que resista às tempestades que desabam no caminho dos governos e governantes. Dilma Rousseff não considerou este aspecto fundamental. E também essencial. Tão essencial quanto o ar que se respira.

O povo precisa de um projeto que lhe forneça pelo menos esperança.

É preciso começar já

72% a 27%. Impressionante a precisão! Seja qual tenha sido a sua impressão com aquelas longas horas diante do espelho, domingo, uma coisa é indiscutível: a Câmara representa, sim, a realidade nacional. A Nação, através dela, falou e disse e só não a ouviu quem optou por fazer-se de surdo. Se o governo tivesse conseguido subornar a sua minoria qualificada de 172 votos, como Lula anunciou oficialmente que estava tentando fazer, teria “acatado a decisão soberana da Câmara dos Deputados” e enfiado Dilma Rousseff goela abaixo dos 2/3 do Brasil que não suportam nem ouvir o nome dela para encerrar de uma vez para sempre a questão do impeachment. Como não conseguiu, “é golpe”. Será “golpe” sempre, a menos que vença o único golpe que os “surdos” querem ouvir.

É alto o preço que se tem de pagar para não destruir instituições. Essa gente não merece a paciência com que o Brasil a tem tratado. Numa coisa, entretanto, tem razão. Não foi “uma vingança”, foram 367 vinganças, fora a de Hélio Bicudo assinando a denúncia de crime de responsabilidade de Dilma Rousseff por todos os outros petistas honestos que foram tombando ao longo do caminho, contra esse PT que sobrou e vive sozinho no Olimpo atirando seus raios sobre a multidão dos idiotas. José Eduardo Cardozo é a mais recente encarnação desse delírio. Como esmurra fatos à vontade sem que ninguém lhe atire perguntas que o tragam de volta à Terra, insiste naquela Dilma sem pecados “nem apego a cargos” com que as(os) passionárias(os) jurássicas(os) do golpe sem aspas “anulam”, a cada frase, junto com a mais patológica das arrogâncias, 72% do eleitorado pesquisado, 72% do Congresso Nacional, o rito estabelecido pelo STF, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Constituição da República, a falência da Petrobrás e das outras “brases”, a aliança medida com os empreiteiros ladrões e seus doleiros, a verdade da matemática e mais todo o resto da realidade sobre a qual o sol arrebenta de brilhar.

Num sistema em que segue sendo necessário eleger-se, político trata daquilo que sabe que lhe renderá manchetes. Vide José Eduardo Cardozo e a recorrência do seu novo figurino de advogado de seriado de TV. É por isso que, nas democracias saudáveis, é a imprensa amplificando as queixas e os pleitos difusos do eleitorado quem pauta o discurso dos políticos. O fato de a imprensa brasileira pós-regime militar se ter acostumado a deixar-se pautar por eles, mesmo depois – muito depois! – que os políticos deixaram de ser a expressão da resistência de um eleitorado impedido de eleger para se transformar na de uma casta que se outorga privilégios e cassou aos eleitores o direito de deselegê-la, é um elemento essencial da presente desgraça. Acentua essa distorção o isolamento geográfico e social da Brasília que vive do e para o Estado onde não entram as crises que grassam aqui fora, cujo sintoma mais alarmante é a alienação da realidade nacional sintetizada no grito do “Não nos representa!” que pôs em marcha o processo ora em curso.

A produtividade do trabalho no Brasil parou de crescer faz anos; o sistema educacional foi aparelhado e destruído e há pelo menos três o País anda para trás. Vínhamos numa trajetória de arrumação do Estado, valorização da regra e políticas sociais focadas nos mais pobres, mas tudo isso se inverteu. Apenas com juros subsidiados pelo Tesouro Nacional para os amigos do BNDES o governo torrou R$ 323 bilhões, equivalentes a 13 anos do Bolsa Família; as contas nacionais passaram a ser falsificadas e a mentira transformou-se em “razão de Estado”. Tudo o que conquistamos nos anos 90 já está perdido, mas a crise mal começou. Os problemas acumulados são gigantescos, a marcha à ré será dramática, partindo de um patamar já muito baixo, e não será uma simples troca de governo que resolverá tudo isso, mesmo que se supusesse toda a disposição para atacar os problemas do “Brasil real”, a que esse PT que só chora por si jura hoje, como jurou sempre, ódio eterno.

Com o quesito “luta pelo poder” suficientemente encaminhado, e a próxima tentativa rondando perigosamente as margens do mesmo pântano da“governabilidade” por linhas podres que acaba de tragar a obra de toda uma geração de brasileiros, a imprensa poderia dar uma contribuição muito maior ao País se passasse a trabalhar mais para informar Brasília sobre o que se passa no Brasil do que o contrário. Obrigar os políticos a tomar conhecimento da profundidade da crise do País real; cotejar seus números com as amenidades e os números da vida na Ilha da Fantasia onde os salários nunca se extinguem, os aumentos se dão por decurso de prazo, há “auxílios” para tudo e para todos isentos de Imposto de Renda, as aposentadorias partem multiplicadas por 33 é obrigar o País a encarar esses fatos, primeiro, medi-los, em seguida, e fazer escolhas reais e conscientes, finalmente, sem as quais jamais sairemos do brejo. O ponto a que chegamos e o encolhimento do espaço para gorduras mórbidas num mundo implacável com a ineficiência impõe providências que respeitem a matemática e, para chegar a elas, é preciso, primeiro, deixar que a luz do sol incida sobre a camada mais grossa da mentira que cerca a realidade do Brasil do Terceiro Milênio que segue embrulhado num discurso de falsificação da realidade que já era velho no último século do Segundo.

Um governo para o Brasil real só poderá estruturar-se em torno de uma proposta para os problemas reais do Brasil.

Previdência, inchaço do funcionalismo politicamente apadrinhado, subsídios, estrutura tributária, a armadilha trabalhista, as vinculações das contas nacionais, as regras que fazem o ambiente de negócios e, sobretudo, a velocidade com que tudo isso evoluiu para pior nos últimos anos são, ao mesmo tempo, os ingredientes da bomba que produz um déficit recorrente de R$ 150 bilhões e crescendo R$ 30 bilhões por ano sobre a qual estamos sentados, e os indicadores dos caminhos reais para desarmá-la.

O valor da política e a política sem valor

O momento histórico por que passa nosso país, com o prosseguimento do processo de impeachment da presidente da República, aprovado por 367 dos 513 deputados que compõem a Câmara Federal, com certeza indica algo muito maior que o simples afastamento da pessoa ocupante do mais alto cargo executivo.

Ao assistir às manifestações dos deputados na tarde de domingo é possível extrair muito pouco do que o Brasil quer ouvir. Infelizmente, esse é o verdadeiro retrato da política em nosso país. Os líderes têm pouco a dizer, falta sensibilidade para interpretar o anseio da nação, não há engajamento com a vontade emanada do povo.

Indeciso
O sentimento que se perpetra há anos em nosso país é o da “mais-valia” para com o Estado, no qual os políticos de todas as esferas investem seu precioso tempo em favor de valiosos benefícios a si próprios e aos seus financiadores, condição essa que ficou muito bem caracterizada na votação de domingo.

Não há pauta por um Estado melhor; ninguém protesta a favor dos meios de produção e distribuição de riquezas através do trabalho digno, alcançado por uma educação de qualidade. Não se vê nem um partido sequer protestar por um planejamento integrado e uma unicidade de esforços. Serão esses objetivos muito distantes? Essa é a interpretação do mercado internacional, que mesmo após a votação do processo de impedimento reluta em trazer seus dólares para o Brasil.

É preciso muito mais que um simples processo de impeachment para que tenhamos um Brasil melhor – aliás, há um grande risco de esse procedimento cair em verdadeiro descrédito internacional, pois se aguardam mudanças drásticas para oferecer crescimento ordenado à nação, mas que custarão impopularidade àqueles que subiram ao púlpito para declararem um sim com o simples objetivo de agradar suas bases.

Muitos estão a comemorar e outros tantos estão a chorar nessa data, mas sem saber propriamente o porquê disso tudo. A população se encontra movida por paixões plantadas, por uma dualidade sem compromisso, sem pauta e irresponsável.

Com certeza é preciso haver consequências para irresponsabilidades dos nossos governantes – consequências políticas e criminais, aliadas à necessária expropriação de todo e qualquer dinheiro desviado da finalidade pública aos bolsos de particulares, sem o que perpetrará aos criminosos o estimulante sentimento de que valeu a pena.

Faz-se necessária, nesse momento, uma profunda avaliação da política e do papel do Estado, não apenas por aqueles que ocupam os seus mantados outorgados pelo povo, mas necessariamente pelas famílias brasileiras, por todos aqueles que, independentemente de lado, estiveram nas ruas. É indispensável o amadurecimento da população quanto ao sentimento do que representam a política e as ações humanas para uma vida em sociedade.

Nesses últimos anos, o que se vê na condução dos poderes é um Legislativo que, no afã de produzir leis, a cada dia mais usurpa a liberdade e o poder de livre arbítrio do cidadão; um Poder Executivo sem capacidade cognitiva de dar atenção aos problemas fundamentais que necessita prover; e um Poder Judiciário pessoalizado, sem condições sistemáticas de enfrentar o objetivo da paz social com a grandeza merecida e os vultosos recursos a ele destinados.

Assim como as famílias fazem muito bem, os três poderes devem se conscientizar de que reclamar de falta de dinheiro raras vezes resolve os problemas; devem assimilar que o Estado não produz riqueza alguma sem uma iniciativa privada forte e segura, que a nação deve oportunizar negócios e circular riquezas para que esse enorme condomínio que é o Brasil consiga progredir com grandes feitos para toda a população.

Uma única batalha não garante o êxito na guerra; por isso, é necessário alavancar todo esse sentimento que brotou no seio da nação para ações efetivas, de combate firme aos desmandos na seara pública, de discussão cotidiana da política nas famílias e, principalmente, na quebra de paradigma de que política é para corruptos – do contrário, os teremos para o resto de nossas vidas.

Rômulo Augusto Araújo Bronzel

O PT roxo xinga o descosido Cunha

Assisti de ponta a ponta a sessão da Câmara dos Deputados que deliberou sobre a admissibilidade do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Foi uma experiência emocionante e muito instrutiva. Nos telões armados no Parque Moinhos de Vento (Parcão) em Porto Alegre, em uníssono com a multidão, vibrei a cada Sim e vaiei a cada Não. Devo ter calculado quase uma centena de regras de três tentando antecipar um sempre cambiante resultado final.

Charge do dia 19/04/2016
Muito instrutiva a observação dos votantes, em especial a turma do Não. Marcharam para o cadafalso político uniformemente ensaiados. Repetiam os mesmos mantras que se revelaram inúteis ao longo dos últimos 15 meses! Levaram suas frases feitas até o alçapão da derrota. Traziam nos olhos um postiço furor cívico. Entre elas, o paradoxal estribilho sem verso "Impeachment é golpe" - uma contradição em termos porque o ato não pode ser as duas coisas: ou é impeachment ou é golpe. Ao final, temos que o povo, o TCU, boa parte da mídia, o STF, o Hélio Bicudo (quem diria?) e mais de 2/3 da Câmara são, todos, "golpistas". E se somam ao "golpista" magistrado Sérgio Moro, aos também "golpistas" promotores que atuam na Operação Lava Jato (outra conspiração) "golpista" e à notoriamente "golpista" Polícia Federal. Por quê? Porque diante do terremoto moral, econômico, fiscal e social que acometeu o governo e o pais, isso é tudo que o PT tem a dizer à nação. No meu modo de ver, em vista das proporções que tomou, o governo da República é o maior e mais danoso golpe impetrado num país democrático desde que Hitler chegou ao poder na Alemanha.

Um segundo mantra se repetiu ao longo da sessão. Refiro-me aos desaforos, em tom crescente, dirigidos a Eduardo Cunha. Entre os adjetivos de uma escala que começava com "patife" e chegava até "gangster", restaram poucos não utilizados pelos que pretenderam ser originais.

Não me surpreenderam os ataques ao presidente, que muito provavelmente os merecesse. O que me espantou foi constatar que partiam de bancadas empenhadas, ao último fio de voz, à última lufada de ar dos pulmões, na defesa de uma organização criminosa inteira. Organização que se apossou do poder central da República e ali praticou (no pouco que já se sabe com prova provada) o maior saque de que se tem notícia na história universal. Diante dela, Cunha entra na lista como mero trombadinha. Mas para o PT, enquanto Cunha é um bandido cuja presença na sessão deslegitima a deliberação do último domingo, o partido, com quanto pesa contra si, é um insubstituível modelo de virtudes, apto a dar lições de dignidade ao mundo.

Percival Puggina

Dia D de Dilma

Estou aqui no meu cantinho do Alvorada falando sozinha – agora dei para isso –, mas falo, sim, registrando nesse gravador a história de minha missão neste país, onde tentei combater sem trégua os perigos maiores que nos ameaçam. Um, dois, gravando, esse gravador é uma merda que o Mercadante deixou aqui, mas tudo bem... Declaro de peito aberto o que penso da vida e o que fiz para proteger meu Brasil brasileiro. Querem me “impichar”, dar um golpe. Será que conseguiram? Eu vos falo do passado, pois são sete horas da manhã de domingo, depois de uma noite insone. Quando me ouvirem, vocês já saberão se eu fui banida ou não.

Começo dizendo que minha consciência está em paz. Minha máxima sempre foi: os fins justificam os meios. Sim. Muita gente metida a ética acha isso até um crime, mas eu não. Meus fins uniram o país. Sim, uni vocês até mesmo contra mim, porque confundiram minha sutileza ideológica com incompetência, acharam que eu errava, sem saber que meu acerto era no futuro. Nunca errei.
tchau

Meus queridos, o Brasil estava perdido entre muitas ideologias metidas a “moderninhas” social democracia, liberalismo, mas eu restaurei o essencial: a luta contra o imperialismo norte-americano, contra a desnacionalização de nossas riquezas, contra a sociedade de empresários reacionários, contra o lucro, colocando o Estado no topo, no centro de tudo, pois de lá emana a verdade para essa sociedade de ingênuos e ignorantes. Meus fins sempre justificaram os meios, sim, e não me arrependo de nada.

Essa porra de gravador está gravando? Vamos ver: “... porra de gravador está gravando”, sim. Declaro aqui também que acho o Brasil tão frágil ideologicamente que tem de ser dirigido por um grande Estado, sim. Só um Estado provedor pode proteger o povo nas lutas sociais que ele nem sabe que está travando, mas eu sei, porque nós somos da “elite de esquerda”. Não, “elite” não, fica feio. Pronto, apaguei.

Eu tenho orgulho de ter usado o Estado e seu tesouro acumulado para distribuir riquezas para o consumo tão ansiado pelos pobres diabos, sim, mesmo que os cofres públicos tenham ficado vazios para investir. Populismo? Eu chamo de catequese, conquista de adeptos para o grande futuro que virá! Disseram que eu quebrei o Estado para isso, mas e daí? Fiz isso, sim, porque o fim justifica esse meio; o fim era garantir apoio para as próximas eleições do nosso PT, pois era fundamental que ficássemos para sempre no poder desse país alienado e reacionário, até a chegada do futuro socialista.

Eu já vejo nosso futuro. Nossas massas cantarão unidas com desejos uniformes, com uma felicidade preestabelecida, com desejos programados, assim como a Coreia do Norte (de uma forma “light”, claro); se bem que nossos irmãos coreanos, às vezes, exageram um pouco... Aquele presidente parece um porquinho mas, está na “linha justa”, porque é temido pelos norte-americanos, nosso inimigo principal.

Na luta contra os ianques sempre falávamos da importância da democracia. Mas tenho de confessar uma coisa: para nós, “democracia” sempre foi uma estratégia para tomada do poder.... Falávamos “temos de pedir democracia burguesa para depois fazer o centralismo democrático de que tanto usou nosso grande irmão Stalin”. Democracia é o cacete... O povo não sabe se governar. Um minuto de silêncio para tomar um rivotril.

Alo, alô, voltando a gravar... Bem, vamos lá, me criticaram muito pela política de aliança com canalhas. Sim, por que não? Eu odiava ver suas carinhas pedindo verbinhas, puxando meu saco, mas me aliei a eles, sim, uns filhos da puta necessários, para aprovar coisas naquele ninho de cobras que votam minha saída. Vocês acham que eu gostava daquele hipopótamo do PDT que me beijou a mão, vocês acham que eu gostava de ver o brilho eterno daquele cabelo pintado do Lobão, do traidor Temer, em quem sempre vi a inveja debaixo de sua cara de mordomo de filme de terror?
Eu fiz tudo certo. Distribuí cargos sem fim, verbas infindas para seus currais... Fiz isso porque sei que é preciso praticar o mal para atingir o bem. Será que o Maquiavel disse isso?

Eu sabia de tudo, eu sabia que a compra da refinaria de Pasadena ia ser um rombo pavoroso, mas como conseguir dinheiro para minha reeleição sem tutu, sem propinas? Propinas de esquerda, é claro. Não mandei comprar aquela refinaria lata velha, mas fiz vista grossa sim, quando aquele caolhinho Cerveró me entregou uma página solta com uma piscadinha do olho bom.
Bom, gravando mais... Quero dizer, tudo para o futuro. Tenho orgulho de tudo que fiz...

Eu menti, sim... Menti na campanha, dizendo que não ia ter comida no prato do povo, menti nos bilhões que arranquei dos bancos para esconder o déficit público, eu menti, sim, sobre as pedaladas. Uma mentira repetida vira verdade pelo bem de meu povo.

Olha aqui, meu querido, volta com essa bandeja, joga esse café de merda fora e faz outro que eu possa engolir, porra, essa massa atrasada não sabe nem fazer um café? Vai logo, cacete!

Continuando: essa porra desse neoliberalismo funciona muito na prática. Por isso, sempre lutei para impedir que sejamos um país todo “coxinha”, todo organizado, com o povo trabalhando feliz para o capitalismo. É muito difícil desenvolver esse país de merda. Por isso, temos de destruir o capitalismo por dentro, já que não dá mais pé uma revolução russa. Mesmo uma avacalhação é melhor, mais revolucionária – seria uma espécie de “esculhambação criativa”, ha-ha-ha...

É isso aí... São sete horas da manhã de domingo... Aqui fica minha mensagem. Se eu for impichada, o Lula vai adorar, porque será o “mártir” da direita, e eu é que me fodo como fracassada... E um escroto; vai fazer sua campanha em cima de minha desgraça... Que vou fazer se banida? Tricô? Para onde vou?

E, se eu não for banida, o Lula se muda para o Planalto para preparar sua candidatura em 2018.
E eu vou ter de obedecer. Vou ter de recontratar a besta do Mantega, gastar mais ainda para o povão pensar que tudo melhorou (nem que seja por uns meses), até o Lula ser eleito e eu jogada para escanteio.

Quando vocês ouvirem isso, eu terei sido escorraçada ou mantida? Que será que me aconteceu?

Reinvenção

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo… — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.

Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço…
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Cecília Meireles

Dilma ataca Cunha, mas adula Renan Calheiros

Dona de uma ética de dois gumes, Dilma Rousseff dividiu sua alma ao meio —uma banda mais intransigente com a corrupção e a outra menos. A dicotomia, que era escamoteada, tornou-se escancarada. Cheia de rompantes quando se refere ao réu Eduardo Cunha, a presidente é uma seda no relacionamento com o poli-investigado Renan Calheiros. Depois que o presidente da Câmara lhe atravessou o impeachment no caminho, Dilma imagina que o presidente do Senado pode ajudá-la a livrar-se da encrenca.

Nesta segunda-feira, Cunha entregou a Renan o calhamaço do impeachment, aprovado na véspera na Câmara. Pediu pressa. E Renan: nem tão rápido que pareça atropelo, nem tão devagar que pareça procrastinação. Na sequência, o senador foi se encontrar com Dilma. Trocaram figurinhas longe dos refletores. O grão-vizir do Senado havia se comprometido a agir com isenção. Líderes partidários espantaram-se ao saber que sua primeira iniciativa foi uma conversa com a acusada.


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Horas antes, na República de Curitiba, o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró prestou seu primeiro depoimento como delator ao juiz Sérgio Moro. A alturas tantas mencionou o repasse de uma propina de US$ 6 milhões para Renan. Foi silenciado pelo juiz da Lava Jato, já que Renan, como senador, não pode ser investigado e julgado senão no STF. Correm na Suprema Corte nove inquéritos contra o presidente do Senado. Todos relacionados à Lava Jato.

Corta para Brasília. “Não há contra mim nenhuma acusação de desvio de dinheiro público”, disse Dilma ao atacar Cunha numa conversa com repórteres. “Não há contra mim acusação de enriquecimento ilícito. […] Por isso eu me sinto injustiçada, porque aqueles que praticaram atos ilícitos, que têm contas no exterior, presidem a sessão que trata de uma questão tão grave como é a questão do impedimento do presidente da República.” Nenhuma palavra sobre o companheiro Renan.

Dilma exerce em plenitude o privilégio de escolher seu próprio caminho para o inferno. Enquanto foi possível, negociou com Cunha uma estratégia para livrá-lo do pedido de cassação do mandato. Em troca, o impedimento da presidente da República ficaria na gaveta. O PT melou o entendimento ao se negar a entregar seus votos a Cunha no Conselho de Ética. O impeachment ganhou asas. E o petismo descobriu que Eduardo Cunha é um tremendo Eduardo Cunha.

De tanto lidar com o cinismo, o brasileiro vai adquirindo uma certa prática. Já percebeu que há método na demência do governo petista. Durante 13 anos, o PT engordou a si e aos seus aliados com mensalões e petrolões. Interrompido o fluxo do dinheiro, os parceiros viraram os escorpiões que picaram Dilma na Câmara e se preparam para fazer o mesmo no Senado.

Quem conhece bem Renan sabe como isso vai acabar. O suposto aliado não é mais imprevisível. É um personagem tristemente previsível. Vá lá que Dilma, no desespero, não consiga enxergar que fará no Senado o mesmo papel de boba que desempenhou na Câmara. Mas não precisa ofender a inteligênia alheia fingindo que negocia com Renan como se nada tivesse sido descoberto sobre ele.

Não é à toa que os petistas têm tanta dificuldade para explicar por que Eduardo, sendo o Cunha que todos conhecem, obteve dos governos petistas a senha que abriu o cofre.

A lição do 'impeachment-espetáculo'

O cenário para o “espetáculo do impeachment” já começava a ser montado quando se viu o bolão dos deputados, manifestantes como se fossem torcidas organizadas, bonecos infláveis, bandeiras, carros de som, dancinhas ensaiadas, telões em praças e em bares e declarações do tipo “vai ter musiquinha para o pessoal ‘se divertir’”! Tudo como na final de um campeonato, em que o time da casa jogaria contra o adversário visitante!

Se você achou tudo isso normal, não devia, pois a situação é muito séria para se dar espaço a frivolidades. O escritor Mario Vargas Llosa já descreveu o fenômeno no seu livro A Civilização do Espetáculo, apontando para a banalização da arte e da literatura, em que a cultura se tornou mero entretenimento e distração fútil, incluindo a política. Em muitos casos, me parece que manifestantes estão “se divertindo”, fugindo do tédio, procurando algo para preencher sua vida cotidiana sem sal e sem um significado maior, como faz todo fim de semana ao ir para as compras nos shoppings ou para a balada encher a cara.

Independentemente da votação que aprovou a admissibilidade do impeachment da presidente Dilma (apesar de o voto ter sido mais associado a filhos, mães, tias e seus currais eleitorais que às “pedaladas fiscais”, apontadas como a causa do processo), nunca tantos brasileiros puderam ver ao vivo todos os seus deputados eleitos. O difícil foi aturar seus discursos medíocres e inapropriados por quatro horas, sem coerência e decoro parlamentar. Foi o auge do espetáculo depois de o circo entrar na cidade com suas figuras bizarras. Nas redes sociais apareciam os comentários indignados com tais comportamentos, mas, de fato, o que vimos foi nosso reflexo no espelho. Sim, eles representam o Brasil e devíamos ter vergonha do que elegemos!

Dos 513 deputados da Câmara, 299 têm problemas na Justiça. Salvo raras exceções, vimos figuras grotescas e amorfas, alguns enaltecendo o seu décimo mandato, outros agradecendo a herança política de pai e avô! Reclamar de um Cunha e seu sorriso de deboche, de um Bolsonaro que elogia torturadores, da filha de Roberto Jefferson que homenageia o pai condenado pelo mensalão, do bufão Tiririca, de um deputado petista com ficha suja de nada adianta, pois foi o seu voto que o colocou lá! Os políticos cujos votos a favor ou contra o impeachment fizeram os manifestantes vibrar foram vendidos como uma caixa de sabão em pó ou um detergente, ressaltando suas formas e cores. A analogia serve, pois todos prometem “limpeza total” da corrupção do país. Marqueteiros treinaram “seus bandidos preferidos” nos gestos e na forma para se apresentarem ao eleitor, sabendo o que ele compra. Llosa ressalta que “no compasso da cultura reinante, a política foi substituindo cada vez mais ideias e ideais, debate intelectual e programas, por mera publicidade e aparências”.

Na câmara há 115 ruralistas, 77 religiosos, 44 advogados, 43 donos de rádios e tevês, 40 sindicalistas, e o resto se divide em outras profissões. A idiotização vista em frente às câmeras o representa, leitor? Um deputado cínico comandando um processo em que ele devia ser réu é legítimo? E lembre-se: agora o processo será julgado no Senado, onde 40% dos nossos senadores tem pendência criminal – inclusive Renan Calheiros, que o conduzirá! Sim, sua piscina está cheia de ratos. A pergunta é: o que você vai fazer a respeito disso nas próximas eleições?

Eloy F. Casagrande Jr.

E agora, quem governa?

Há poucos anos, num baronato petista, o burgomestre do alto da sapiência sesquipedal proclamou um novo decreto criando uma fundação que já existia ao menos no papel. Faltava apenas regularizá-la, mas como asnos têm medida imensurável, copiou-se quase letra a letra o decreto anterior e esfregou-se o papel na cara de todos como a máxima inovação em governabilidade. E assim, por alguns meses, o baronato possuiu duas fundações idênticas no papel e nenhuma funcionando, mas a última com presidanta instituída e proclamada mesmo no contracheque.

Não menos exótica é a situação criada, também sob auspícios petistas no STF, a partir de domingo, quando foi aprovado o encaminhamento do pedido de impeachment presidencial ao Senado. O Brasil acordou com dois presidentes e dois palácios, mas nenhum governo. E assim por um ou dois meses, haverá uma presidência e duas cabeças, que em verdade não funcionarão.


A eleita não tem apoio, mas a caneta e a chave para dispor à vontade do cofre, inclusive para pagar débitos políticos assumidos para a decisão de domingo. A cabeça, no palácio do Jaburu, tramará o futuro sem caneta e chave. Entre as duas a desgraceira econômica fazendo a ralé, metaforicamente chamada de eleitor, passar o pão que o diabo deles amassou.

A presidente eleita, sob processo de impeachment, continua a governar as ruínas que lhe sobraram. Ironicamente sobrevive sob a mesma situação do presidente da Câmara, que presidiu a sessão de domingo. Presidem enquanto não for batido o martelo da Justiça.

Ambos estão indiciados e continuam em seus cargos. Assim como o presidente do Senado, famoso colecionador de processos, também no STF, que vai presidir a sessão de abertura do processo contra Dilma. (Será que vão condenar a sessão por ser presidida por outro indiciado?)

Enquanto os poderes estão enrolados, vive-se esse caso de exceção de arregalar os olhos de qualquer democracia. Com dois presidentes - um pelos votos e outro pelo afastamento do titular -, o Brasil novamente dá um exemplo circense de como a política aqui é um pandemônio para salvaguardar poderosos em detrimento dos palhaços que pagam seus salários.

Inflacionado por dois presidentes, o Brasil vai se arrastando com a pesada carga da inflação e desemprego. O transporte dessa inconsequência será devidamente pago pela população, o que denominam "sacrifício de todos", metáfora para "nós gastamos a rodo e vocês pagam a conta".

E assim caminha a democracia do Brasil que é de todos, mas benefício de uns poucos que vivem à custa dos muitos que não têm a quem apelar neste jogo viciado.

segunda-feira, 18 de abril de 2016


Tchau, querida

O mistério, talvez tenha achado, traz certo gravitas. Possivelmente até seja verdade. Infelizmente, silencio não é o que se espera dos lideres. Especialmente diante de crises e em face de derrotas. Mas nada é tudo o que se ouviu.

Nada surpreendente. Afinal, desde que o país se dispensou de fazer sentido, não são compreendidos ou compreensíveis os sinais emitidos pelos governantes. Não haveria de ser diferente agora.


Somente nestes tempos estranhos é possível imaginar um país governado por tantos anos por alguém incapaz de com clareza comunicar qualquer ideia, boa ou ruim. Talvez seja por ausência de ideias. Talvez a dificuldade de comunicação torne irrelevante a qualidade das ideias. O fato é que por muito tempo o país esperou por algum sinal de liderança. Inutilmente, diga-se.

Foi assim que a população se encontrou exausta de sofrimento, frustrada em suas expectativas, e desapontada pelas atitudes. E exigiu um fim a indefinição. Ou pelo menos o alguma luz no fim do túnel que pudesse sinalizar horizonte em que a pagina finalmente possa ser virada.

Não é fácil construir tamanho consenso. Mas este governo conseguiu. A maioria concorda. Não da mais para aguentar. Algo tem que ser feito. E rápido. Razoes não faltam. Incompetência, inépcia, inercia, desonestidade, mentira.

Não faltam motivos para defender o afastamento destes governantes. E urgentemente.

Por isso, o resultado da votação não foi surpresa. Apenas consequência natural do elenco de ilegalidades cometido por um governo que, por ser de todo incapaz, foi capaz de fazer qualquer coisa. E que agora experimenta a solidão, o isolamento.

Que estes governantes sigam em marcha batida em direção ao ostracismo que merecem. Que suas historia fique adequadamente registrada em merecida nota de rodapé. A gente cansou.

Tchau, querida.

Temer, sem o direito de errar

Dilma tem poucos amigos. Temer, muitos. Dilma não confia em ninguém. Temer confia. Dilma vive sozinha com a mãe. Temer é casado, tem filhos e detesta a solidão.

Dilma concentra poderes. Temer delega. Dilma impõe sua vontade sem discuti-la. Temer constrói a sua ouvindo os outros.

Dilma detesta a política e os políticos. Depois da família, Temer anos ama a política e os políticos acima de tudo.

O que o resultado da votação do impeachment na Câmara teve a ver com as diferenças de temperamento, estilo e modo de vida de Dilma e Temer? Nada e tudo.

Quem derrubou Dilma foram as mentiras que disse para se reeleger e os muitos erros que cometeu desde então. Mas se ela não fosse como é, e Temer o seu oposto, talvez pudesse sobreviver a um processo que ainda está longe do fim.

Pior do que atravessar, insone, a noite de ontem, certamente será para Dilma viver o seu primeiro dia como presidente da República de direito, de fato, não.

Na vida real, o poder transferiu-se do Palácio da Alvorada, onde ela mora, para o Palácio do Jaburú, onde mora Temer.

Poucos quilômetros separam os dois palácios. Um, porém, abriga o passado em eclipse. O futuro começa a ser desenhado no outro.

É remota a chance de o Senado recusar-se a julgar Dilma. A admissão, ali, do pedido de impeachment está prevista para acontecer até o próximo dia 11.

O Senado só levou quatro dias para admitir julgar o ex-presidente Fernando Collor. É possível que em 10 dias aceite julgar Dilma. Nesse caso, ela será obrigada a afastar-se do cargo e terá o seu destino resolvido em um prazo de 180 dias.

O governo Temer começará de imediato. E dado às nuvens pesadas que privam o país de luz, e às desconfianças que cercam Temer, o vice-presidente no exercício do cargo disporá de pouco tempo para mostrar a que veio.

Um novo presidente costuma desfrutar de um mínimo de 100 dias de lua de mel com os seus governados. É da tradição. Temer não terá esse direito. Como Itamar Franco, o vice de Collor, não teve.

Tampouco a Temer será concedido o direito de errar. Ou acerta logo ou será cobrado por eventuais erros à partida, e, de quebra, por ter agido às claras para subtrair a presidência à Dilma.

Ela caminhava teimosamente para cair sozinha. Seu governo deixara de existir de há muito. Mas Temer não se limitou a esperar a queda. Ajudou a provocá-la. Nunca antes na história deste país... Pois é.

Até o golpe militar de 1964, vice e presidente não eram obrigados a ser eleitos na mesma chapa.

João Goulart foi o vice que assumiu com a renúncia de Jânio Quadros, mas os dois haviam sido eleitos em chapas distintas. Deixou de ser assim.

E porque deixou, o vice perdeu importância. Passou a ser visto como um aliado do presidente eleito, alguém, de fato, comprometido com ele e leal a ele.

Uma coisa é o vice divergir do presidente. Natural. Outra bem diferente é passar a opor-se a ele. Outra mais grave é conspirar contra ele.

Dilma sempre tratou Temer com desprezo. Daí a Temer sentir-se à vontade para ajudar a depô-la vai uma distância abissal.

Distância que separa o político sempre correto do político cuja correção depende das circunstâncias e do tamanho de sua ambição.

Temer contribuiu para aumentar os desafios que o aguardam. Além de arcar com uma herança maldita, terá pela frente a hostilidade dos inconformados com o atalho que escolheu para alcançar o poder.

Boa sorte.

Preparando-nos para o pior no dia seguinte

A pergunta é sobre o que acontecerá após este domingo, ao final da sessão, iniciada às 14 horas. Lamentos e comemorações ocuparão Brasília e o resto do país. Vai quebrar o pau, seja de que lado for. Não se supõe os manifestantes invadindo o prédio do Congresso nem o palácio do Planalto. E a presidente da República tomou suas precauções, ou seja, buscando abrigo no palácio da Alvorada, residência que ficará à sua disposição como moradia, enquanto durar o entrevero. Mesmo afastada da chefia do Executivo pelo máximo de 180 dias, ela diz que aguardará o pronunciamento do Senado, a palavra final.

Escapando da boca de dilma entrando na boca de temer impeachment

Caraterizada a defenestração, sairá da História. Confirmada a permanência pelo Senado, precisará encontrar nova imagem para enfrentar a mais áspera de suas funções, de mudar o país de alto a baixo sob violenta rejeição.

O fenômeno que agora se desenvolve à vista de todos revela múltiplas faces. A primeira, de que Madame não deu certo. Seus planos e programas de governo deram em nada na medida em que o desemprego multiplicou-se, as oportunidades minguaram, as fábricas fecharam, a atividade econômica escafedeu-se e os serviços públicos foram para o brejo.

Há quem julgue exagerada essa visão e até faça parte de uma trama engendrada pelos economicamente poderosos para recuperarem seus privilégios. Afinal, certas iniciativas no campo social, estabelecidas pelo governo Lula, prejudicaram a vida das elites. Elas aproveitaram a oportunidade do fracasso na economia para tirar a forra. Claro que impulsionadas pela incompetência.

Junte-se a isso a avalancha da corrupção, estimulada pelos que se imaginaram donos do poder, leia-se PT, Lula e penduricalhos.

Aí está o resultado: quase todos envolvidos nas facilidades de um sistema podre, de um lado, e outros em cobrar o tempo perdido. No meio, o cidadão comum. Será esse o que vai para as ruas, exigindo compensações? Pode ser que não, preparando-nos ainda para o pior…

Decidir é preciso

Sem Dilma, o que vem por aí?

O que pode acontecer com a economia se o impeachment passar e o vice, Michel Temer, assumir a Presidência? Provavelmente, nem ele sabe. Ele até pode ter um plano de emergência (como teve Itamar Franco em seu mandato-tampão), um choque econômico para tentar tirar o País do buraco, mas ele não ignora que vai enfrentar um inimigo imponderável que não consegue controlar: o descrédito, a falta de confiança da população em seu partido, o PMDB, que nos últimos 13 anos dividiu com o PT responsabilidades de governo, as benesses da corrupção espalhada pela gestão pública e as decisões erradas que arruinaram a economia do País.

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A seu favor Temer conta com uma fatalidade: a alternativa Dilma seria pior, o que pode lhe dar um voto de confiança na partida, mas certamente com prazo de validade – dos empresários, mais longo; da população, mais curto. Portanto ele tem pouco tempo para agir, e agora sem direito de errar. Suas chances crescem se ele priorizar temas centrais das manifestações de rua. As reformas política e administrativa, por exemplo. Diferente da previdenciária (necessária, mas mal compreendida), essas reformas têm apoio popular entusiasmado e dariam um bom início para Temer conquistar confiança. Elas têm o mérito de produzir duplo impacto: efeito positivo na economia, ao reduzir o gasto público e o aparato burocrata de governos balofos, e a população ficaria mais protegida de pilantras e enganadores da política, sobretudo em época eleitoral.

O Brasil é campeão mundial em ministérios (32) e partidos políticos (também 32). Eles custam bilhões de reais ao contribuinte brasileiro e a maioria serve para abrigar políticos aparelhados no governo, para receber dinheiro público do Fundo Partidário, vender espaço na TV em época de eleições e espalhar corrupção pela gestão pública. O toma lá dá cá, que Lula institucionalizou e exagerou e Dilma escancara, agora, em troca de votos contra o impeachment, explica a profusão de partidos e ministérios e reclama urgência nas reformas política e administrativa.

Em Brasília poucos acreditam que chegará o dia em que essa realidade vai mudar, que deputados e senadores aceitarão abrir mão de poder e aprovar reformas e regras que eliminem ou contenham seus privilégios. Muito menos que isso se dará pelas mãos de um peemedebista. Porém, se aprovado o impeachment de Dilma, é a chance de Temer e do PMDB sobreviverem nestes dois anos e oito meses de mandato. Propor ao Congresso reformas estruturais sérias (também da previdência, tributária e trabalhista) é o primeiro e imprescindível passo para o novo governo ganhar credibilidade e dar sustentação a um programa econômico que convença o investidor a investir e a população a apoiar e acreditar em que o crescimento econômico pode demorar, mas o País marcha na sua direção.

Nesse choque de credibilidade é fundamental garantir continuidade à Operação Lava Jato. O desmantelamento de esquemas de corrupção no governo, em empresas estatais e fundos de pensão não pode ser desativado ou mascarado para proteger lideranças políticas influentes, como o presidente do Senado, Renan Calheiros.

Temer vai encontrar um país despedaçado: as contas públicas em frangalhos; receita tributária desabando; investimento público zerado e o privado, assustado; desemprego disparando; população perdendo quase 10% de sua renda em apenas dois anos de recessão; a dívida pública passando de 70% do PIB, podendo chegar a 90% em 2020; a corrupção presente por onde circula dinheiro público; programas sociais retrocedendo; pobreza em expansão; Estados falidos e funcionários sem salários. E por aí vai.

São muitas as frentes de ação do novo governo. Um programa de emergência é bem-vindo para perseguir resultados rápidos, mas é indispensável abandonar o ritmo desarvorado de apagar incêndios, que predominou sob Dilma e tanto mal fez ao País. É fundamental pensar o Brasil no longo prazo, arrancar do Congresso a aprovação das reformas, tantas vezes adiadas, planejar ações, construir e perseguir metas.

Impeachment de Dilma é maior derrota de Lula

Ninguém declarou ainda, talvez por pena, mas o principal derrotado com o avanço do impeachment é Lula. Se o Senado ratificar a decisão da Câmara, mandando a presidente para casa mais cedo, Dilma fará as malas, avisará aos netos que está voltando para Porto Alegre e emitirá um aviso aos repórteres: “Vocês não terão mais Dilma Rousseff para chutar.” Lula não pode se dar ao luxo de sair de cena. Terá de se reinventar sem descer do palco. E com a Lava Jato a lhe roçar os calcanhares de vidro.

Depois de passar à história como primeiro presidente a fazer a sucessora duas vezes, Lula reescreve o verbete da enciclopédia como o único mandatário que é desfeito pela própria criatura. Dilma ajudou bastante, mas é Lula o principal responsável pelo desastre. Primeiro porque o petrolão, espécie de mensalão hipertrofiado, foi urdido na gestão dele. Segundo porque o fiasco econômico que estilhaça a presidência de Dilma é decorrência natural do mito da supergerente, um conto do vigário de Lula em que a maioria dos brasileiros caiu.

A reivenção de Lula será um triste espetáculo. Já estava habituado a derrotas. Perdeu três eleições presidenciais. E sempre levantou, sacudiu o pó e seguiu adiante. Mas dessa vez é diferente. Lula caiu do alto de sua empáfia. Por enquanto, comporta-se como o sujeito que, tendo despencado de um edifício de dez andares, ao passar pelo quarto piso, exclama: “Até aqui tudo bem.”

Quando notar que o chão se aproxima com a velocidade de um raio, Lula iniciará a fase da negação. Repetirá em público o que diz em privado desde o início do segundo reinado de madame: 1) “Dilma não ouve o que eu digo”; 2) “Quando ouve não faz.” As frases são injustas e inúteis. São injustas porque Dilma nunca escondeu a devoção que dedica ao criador. São inúteis porque, depois que Dilma terceirizou sua gestão ao criador, qualquer criança de cinco anos sabe que Lula enxerga no espelho a imagem de um culpado.

Ele chegou a esta condição por seus próprios deméritos. Por dois mandatos, abasteceu sua base congressual de propinas. O mensalão secou antes que a cúpula do PT fosse para a cadeia. Mas havia um insuspeitado petrolão. Deflagrada sob Dilma, a Lava Jato emparedou os corruptos. E mandou para cadeia os corruptores. A jazida mixou. Deu-se, então, o previsível: a interrupção do fornecimento regular de propinas converteu aliados em traidores.

Há na Câmara 102 deputados filiados a partidos de oposição. O impedimento de madame foi aprovado por uma massa de impressionantes 367 votos. Nessa conta há 265 silvérios. Quer dizer: os governos financiaram o que agora chamam de “golpe''. Dilma foi picada pelas serpentes “golpistas” que os esquemas da era Lula engordaram. A mais venenosa chama-se Eduardo Cunha.

Política ofusca a crise fiscal, o maior problema do Brasil


Vivemos uma crise fiscal aguda. O gasto público não financeiro é maior do que a receita normal (os economistas chamam de receita recorrente) de impostos, taxas e contribuições. Adicionalmente, a crise fiscal não resultou da crise econômica. O contrário. A crise econômica resulta de crise fiscal. A crise fiscal cria enorme incerteza, inviabilizando o cálculo da rentabilidade de qualquer projeto de investimento.

Como saber qual será o fluxo de caixa produzido pelo projeto e como saber qual será o custo de capital em uma sociedade cujo setor público não consegue pagar suas contas e não se conhece como pagará em algum momento futuro?

Não é possível saber, e, portanto, não há investimento. Ou seja, a brutal queda do investimento que ocorre desde 2014 é consequência da incerteza promovida pela crise fiscal.

A função precípua da política é construir consensos que possibilitem a aprovação no Congresso Nacional de medidas que enfrentem e encaminhem soluções para a crise fiscal aguda. Não havendo tal capacidade, caminharemos inexoravelmente para a inflação, mesmo que nos próximos trimestres, em função da crise, a trajetória dela seja cadente.

A crise política tem impedido que os políticos procurem saídas para a crise fiscal. A principal causa da turbulência política foi a opção que a campanha petista fez em 2014 de ganhar a eleição a qualquer custo. Abusou da mentira e da demonização dos demais candidatos. Construiu uma economia que não existia. Escondeu os problemas e, principalmente, demonizou qualquer conversa sobre ajuste fiscal.

O enorme estelionato eleitoral retirou da presidente eleita qualquer legitimidade de enfrentar a agenda de ajustes. Adicionalmente, as pontes queimadas na campanha eleitoral estimularam uma atitude pouco construtiva da oposição: o maior exemplo foi a contribuição da oposição para eliminar o fator previdenciário. Mesmo os partidos ideologicamente de direita ou de centro que participavam da base de sustentação do governo passaram a olhar o PT com profunda desconfiança.

O PT deixou de ser um interlocutor válido aos olhos de inúmeros partidos políticos, o que dificultou a capacidade do sistema político encetar produtivo diálogo sobre a natureza da crise fiscal.

A crise fiscal resulta de regras que estabelecem à parcela do orçamento público direitos de indivíduos que agregados não cabem no orçamento. Entram nesta lista desde programas inclusivos e relativamente baratos como o programa Bolsa Família; programas caros mas inclusivos, como a política de valorização do salário mínimo e a fixação do salário mínimo como o piso de diversos programas sociais; regimes tributários especiais, como simples e lucro presumido; programas antigos que precisam ser repensados, como a contribuição compulsória para o sistema S e a contribuição sindical obrigatória; as regras exageradamente generosas de concessão do benefício de pensão por morte; as aposentadorias precoces; até excessos descomunais da nova matriz econômica, como os subsídios do BNDES.

A lista é longa e, de uma forma ou de outra, todo brasileiro está implicado.

Não se trata de um estamento apartado da sociedade que se locupleta prejudicando o todo. O estamento somos todos nós e a construção política para evidenciar este diagnóstico e encaminhar soluções demandará muito da classe política.

O maior legado da crise política foi nos distrair de nosso problema maior: a crise fiscal aguda e estrutural que acomete o Estado brasileiro.

Política faliu mais que economia

É mais fácil estimar o que será da economia daqui até a eleição de 2018 do que pensar o futuro próximo da política e do "sistema partidário", essa barafunda gelatinosa mutante e despedaçada que há no Congresso.

PSDB e PT lideraram os anos politicamente mais estáveis da República, 1994-2012. Representavam projetos claros de mudança. Tinham âncoras sociais consideráveis.

Estabilidade não há desde 2013. PT e PSDB estão quase aos pedaços, literalmente. Perderam articulações sociais, entre outros desgastes graves. O resto dos partidos é ainda pior ou nanico.


O PSDB se reduziu a um triunvirato de candidatos hiperindividualistas a presidente com um departamento de bons economistas liberais. O ex-clube de elites econômicas mais esclarecidas racha em três partes carcomidas, uma delas um grupo de direita retrógrada.

Há rumores de que o PT pode rachar com uma debandada de parlamentares. Movimentos sociais ligados ao petismo, históricos ou novos, devaneiam com outras paragens políticas. A grande cola do PT é Lula.

Os dois partidos perderam peso no Congresso, dada a fragmentação crescente desde 1998. Aliás, a fragmentação cresceu tanto de 2010 para 2014 quanto de 1998 a 2010.

Além de Dilma Rousseff, algo mais grave aconteceu ou se revelou entre 2010 e 2014. Houve o Junho de 2013. Renasceu a polarização "ideológica" odienta, que amainava desde meados dos 1990.

Apodreceu o sistema de relações entre governo e Congresso. Regras eleitorais, entre outras, reforçaram incentivos para a fragmentação partidária, nome bonito para a formação de grupos que vão de tropas de barganha a bandos de extorsão.

Sim, a coisa vinha de longe. FHC formou a maioria mais sólida do período, mas adquiria apoio com ministérios (preservando os essenciais) e com emendas parlamentares; houve a compra de votos da emenda da reeleição.

Lula, mais minoritário e de início avesso ao PMDB, pagou mais caro. Inflou o número de ministérios (em 60%) para acomodar a barganha e facções petistas irritadas com a "virada à direita" de 2002. Teve mensalão e petrolão.

Nos anos da estabilidade, 1994-2012, politólogos dedicaram-se a um debate de tamanho bíblico sobre a governabilidade. Parecia prevalecer a ideia de que um sistema presidencialista com "n" partidos, o brasileiro, era "governável". Isto é, os poderes do presidente e de uma cúpula centralizada no Congresso eram capazes de organizar maiorias estáveis de partidos que votavam de modo relativamente previsível, "fiel", produzindo a legislação de interesse, em vez de impasses e tumultos.

Pois então. Algo deu errado (já dava, mas não cabe aqui).

Não se prestou atenção nas relações dos partidos com a sociedade nem a contextos sociais e econômicos que produziram essa governabilidade.

Não se atentou para a qualidade desse processo. À corrupção progressiva (escassa prestação de contas). À substância dos partidos (propõem o quê? para quem?). Ao caos do troca-troca partidário. Ao resultado da "governabilidade", às políticas aprovadas: Dilma Rousseff produziu desastre com anuência ou conivência parlamentar e social.

É uma descrição parcial do problema. Mas talvez a política esteja mais quebrada do que a economia.

É preciso reformar


Não há esperanças para o brasileiro, cansado de crer em vão, massacrado, subjugado, iludido. Se tais soluções não vierem das representações políticas e desse novo Brasil que o impeachment propõe e festeja, a população irá às ruas para exigir que sejam implementadas as mudanças prometidas, que se adiam com tanto prejuízo para o país. Sem pagarmos o preço da realização de reformas, o resto é conversa fiada. Com Dilma, Temer, Cunha ou Moro, não importa
Luiz Tito, "E agora, José?"

A história do Brasil do PT

A “batalha do impeachment” é a ponta do iceberg de um problema maior, problema este que transcende em muito o cenário mais imediato da crise política brasileira e que independe do destino do impeachment e de sua personagem tragicômica Dilma.

Mesmo após o teatro do impeachment, a história do Brasil narrada pelo PT continuará a ser escrita e ensinada em sala de aula. Seus filhos e netos continuarão a ser educados por professores que ensinarão essa história. Essa história foi criada pelo PT e pelos grupos que orbitaram ao redor do processo que criou o PT ao longo e após a ditadura. Este processo continuará a existir. A “inteligência” brasileira é escrava da esquerda e nada disso vai mudar em breve. Quem ousar, nesse mundo da “inteligência”, romper com a esquerda perdenetworking.

Ao afirmar que “a história não perdoa as violências contra a democracia”, José Eduardo Cardozo tem razão num sentido muito preciso. O sentido verdadeiro da fala dos petistas sobre a história não perdoar os golpes contra a democracia é que quem escreve os livros de História no Brasil, e quem ensina História em sala de aula, e quem discorre sobre política e sociedade em sala de aula, contará a história que o PT está escrevendo. Se você não acredita no que digo é porque você é mal informado.



O PT e associados são os únicos agentes na construção de uma cultura sobre o Brasil. Só a esquerda tem uma “teoria do Brasil” e uma historiografia. Essa construção passa por uma sólida rede de pesquisadores (as vezes, mesmo financiada por grandes bancos nacionais), professores universitários, professores e coordenadores de escolas, psicanalistas, funcionários públicos qualificados, agentes culturais, artistas, jornalistas, cineastas, produtores de audiovisual, diretores e atores de teatro, sindicatos, padres, afora, claro, os jovens que no futuro exercerão essas profissões. O domínio cultural absoluto da esquerda no Brasil deverá durar, no mínimo, mais 50 anos.

Erra quem pensa que o PT desaparecerá. O Lula, provavelmente, sim, mas o PT como “agenda socialista do Brasil” só cresce. O materialismo dialético marxista, mesmo que aguado e vagabundo, com pitadas de Adorno, Foucault e Bourdieu, continuará formando aqueles que produzem educação, arte e cultura no país. Basta ver a adesão da camada “letrada” do país ao combate ao impeachment ao longo dos últimos meses.

Ao lado dessa articulada rede de agentes produtores de pensamento e ação política organizada que caracteriza a esquerda brasileira, inexiste praticamente opção “liberal” (não vou entrar muito no mérito do conceito aqui, nem usar termos malditos como “direita” que deixam a esquerda com água na boca). Nos últimos meses apareceram movimentos como o Vem Pra Rua e o MBL, que parecem mais próximos de uma opção liberal, a favor de um Brasil menos estatal e vitimista. Ser liberal significa crer mais no mercado (sem ter de achá-lo um “deus”) e menos em agentes públicos. Significa investir mais na autonomia econômica do sujeito e menos na dependência dele para com paternalismos estatais. Iniciativas como fóruns da liberdade, todas muito importantes para quem acha o socialismo um atraso, são essencialmente incipientes. E a elite econômica brasileira é mesquinha quando se trata de financiar o trabalho das ideias. Pensa como “merceeiro”, como diria Marx. Quer que a esquerda acabe por um passe de mágica.

O pensamento liberal no Brasil não tem raiz na camada intelectual, artística ou acadêmica. E, sem essa raiz, ele será uma coisa de domingo à tarde. A única saída é se as forças econômicas produtivas que acreditam na opção liberal financiarem jovens dispostos a produzir uma teoria e uma historiografia do Brasil que rompa com a matriz marxista, absolutamente hegemônica entre nós. Institutos liberais devem pagar jovens para que eles dediquem suas vidas a pensar o país. Sem isso, nada feito.

Sem essa ação, não importa quantas Dilmas destruírem o Brasil, pois elas serão produzidas em série. A nova Dilma está sentada ao lado da sua filha na escolinha.

Luiz Felipe Pondé 

Dias marcantes

Estamos vivendo dias marcantes. Se até para quem já viveu outros iguais ou parecidos, são marcantes, imagine para quem os vive agora a primeira vez, caso de muitos que nesses dias estão nas ruas palpitando sobre política, tomando partido ou trocando de algum. Dias marcantes são os inesquecíveis. Esses que vivemos agora estão sendo marcantes, extenuantes e históricos.

Você tem dias marcantes na sua vida, deve ter alguns. Todo mundo tem. Às vezes só percebe que tinham sido marcantes quando lembra deles tempos depois, anos após. Dias são parâmetros diferentes, importantes, específicos. Você começa um e nunca sabe como ele vai terminar, do acordar ao dormir de novo, o período que vive o dia, e que claro abarca a noite, mas não é desse período o dia sobre o qual falamos. Você pode ter tido um dia marcante porque aquela foi uma noite magnífica. É coisa de memória, que vai para uma gaveta específica e às vezes até surpreendente.


Qual é o dia marcante para você? Dia de alguma luta inglória, ou de uma vitória suada?

Repara que tem essa: dias marcantes podem o ser por motivos bons ou ruins, essa coisa dialética. Morte, vida, começo ou fim. O dia que perdeu alguém; o dia que ganhou alguém.

Pode ter sido bobo ou extraordinariamente proveitoso. Pode ter virado dia comemorativo, tipo dia do casamento, dia do nascimento. Pode ter sido dia da caça ou do caçador. Datados ou não. Você pode deles lembrar o mês ou o ano, ou apenas uma época, em qual década. Alguns vêm completos, até com dia, mês, ano, hora. E cor, cheiro, sabor. Esses são os marcaram a ferro e fogo.

Pensando agora, me veio na mente dias marcantes díspares. O dia em que tirei meu aparelho de dentes, que viveu comigo e foi um suplício oito longos anos. Tinha quinze anos. O dia do casamento, vejam só, de um amigo; na verdade exatamente o que aconteceu depois desse casamento quase 30 anos atrás. Uma paixão eterna, sem cura.

Na minha profissão tive muitos dias marcantes. Muitos deles com o mesmo afã dessas horas de agora, quando acompanhava pelo Jornal da Tarde e Rádio Eldorado a luta pelas Eleições Diretas, os comícios, e especialmente o mais marcante, o grande dia da votação no Congresso da Emenda Dante de Oliveira, o nome do deputado que a havia apresentado. Fui a última a sair do ar, já de madrugada. "Eles" censuravam tudo e haviam proibido a cobertura livre. Meu golpe foi ficar falando de lá com a redação ao telefone direto de um orelhão (daqueles com ficha) na Praça da Sé, perto de onde havia um palanque acompanhando a votação em Brasília, e que dispunha de alto-falantes, nomeando voto a voto. Assim os meus ouvintes acompanharam a votação até eu ser "descoberta". Lembro do dia por isso e mais ainda por causa da grande tristeza da derrota que ocorreu naquele dia e que ainda atrasaria o país alguns anos. Lembro do calvário de Tancredo Neves, e do marcante dia do féretro pelas ruas de São Paulo. Já choramos muito por política, sim.

Decepção também faz muitos dias serem marcantes. O time que deixou de ser campeão. O fim de um relacionamento. A descoberta de uma traição. Um encontro esperado e desmarcado.

Dias marcantes podem ter sido dias trabalhados ou descansados. Letivos, entre muitos que lembramos por motivos que só muita terapia poderia explicar. Dias úteis e inúteis, ou que foram úteis para alguém, talvez. Dias assim, assados, nublados ou ensolarados.

Pois esses dias de agora são desses, marcantes, e cujas marcas esperamos sejam boas e não nos deixem cicatrizes. Eles podem não ir para o lado que você gostaria, mas sabe de antemão que são dias frenéticos, do tipo que ainda por muito tempo procurará e precisará de ajustes. Dias melhores virão. Ainda mais marcantes.

Serão mais que dias, etapas. Só estou curiosa de saber como que lembraremos desses aqui mais tarde, ali logo mais no futuro.

Marli Gonçalves

Brasileiros à beira de um ataque de nervos

Os almoços de família já não são mais os mesmos: as constrangedoras conversas sobre relacionamentos há tempos deram lugar a longas discussões políticas à mesa. Chega a dar saudades da tediosa época em que a grande questão do dia, nos papos de elevador, era "será que vai chover?", não "será que a Dilma cai?". Com um Governo na berlinda e um cenário econômico desanimador, a tensão que pesa sobre o ombro do brasileiro virou questão de saúde pública. Sem saber para onde caminha o Brasil, cresce nos consultórios o número de casos de pessoas com transtornos ligados a estresse, ansiedade e angústia. Irritabilidade, preocupação, fadiga, falta de sono são algumas das queixas mais comuns. Soa familiar?

Mestre em saúde pública, o psicólogo e professor universitário Ricardo Sebastiani, do Nêmeton Centro de Estudo e Pesquisa em Psicologia e Saúde, coordena uma equipe de 38 profissionais que atuam em 16 unidades da cidade de São Paulo. No primeiro trimestre de 2016, ele e a equipe observaram um fenômeno inédito: nos primeiros três meses do ano, quando o movimento tradicionalmente costuma ser menor, a procura por terapia aumentou. Neste mesmo período, as queixas ligadas a transtornos de ansiedade cresceu 20%, dentro de um universo de cerca de 1.500 consultas por mês.
Nas sessões de terapia, a crise política ou econômica tem sido tema das divagações de ao menos 6 em cada 10 pacientes, o que também não era habitual. Mas em semanas de acontecimentos mais quentes, como quando ocorreram as manifestações contra e a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, em março, a proporção chegou a 9 em cada 10. As reclamações têm uma razão real: qualquer que seja o desfecho do processo, o resultado afeta diretamente as vidas da população. "As pessoas estão vivendo um estado permanente de ansiedade e tensão, que às levam aos limites da suas capacidades de resistir e se adaptar. Isso deixa o corpo e a saúde emocional no limite também", diz Sebastiani, psicólogo há mais de 30 anos.


Alguns dos efeitos disso sobre o corpo são: a queda na imunidade (que deixa as pessoas mais suscetíveis a viroses e infecções), sintomas psicossomáticos (diarreias, alergias de pele, dores de cabeça e dores musculares, por exemplo), episódios de crise de ansiedade (ataques de pânico), instabilidade de humor e maior intolerância (o tal pavio curto), além da sensação de cansaço permanente e, em casos mais graves, a depressão.

Entre os que demonstram maior preocupação estão os adultos em fase produtiva, sobretudo pelo temor em relação ao trabalho e ao sustento familiar. Segundo o levantamento feito por Sebastiani com colegas da área, entre os profissionais que mais demonstram sofrer com a crise estão: jornalistas (sim, é verdade), professores, profissionais da saúde e advogados.

"O estresse, agravado pela situação atual de instabilidade política e de crise econômica, age no sentido de incrementar os conflitos internos das pessoas, que ficam mais ansiosas. A sensação de insegurança e indefinição desperta uma profunda angústia que faz com que as pessoas se alterem muito. E isso, somado ao acúmulo de outras situações de tensão, tem provocado um aumento de queixas [no consultório] nesse sentido e uma busca maior por ajuda", explica o médico psiquiatra e psicanalista José Roberto de Campos de Oliveira, de São Paulo, que atende pacientes há 37 anos.

Alguns dos efeitos sobre o corpo são a queda na imunidade, transtornos psicossomáticos , ataques de pânico, instabilidade de humor e fadiga

"É um sentimento de constante insegurança. O maior temor é o de perder o emprego e não ter como pagar as contas. Há também um sentimento de descontinuidade: projetos suspensos por falta de dinheiro, mudanças de hábito que diminuem as opções de válvula de escape da população... E quanto maior o conhecimento sobre o que está acontecendo, maior a preocupação quanto à indefinição do cenário político", completa Ricardo Sebastiani.

Leia mais a reportagem de Mariana Novaes

domingo, 17 de abril de 2016

E agora?

Este é tempo de partidos, tempo de homens partidos. O eco de versos de Drummond nos acompanha nestes dias.

Esse é tempo de divisas, tempo de gente cortada.

Um tempo em que estamos diante de uma escolha de Sofia, tendo de optar entre situações repelentes. Qualquer que seja a alternativa, o resultado será desastroso, deixará ressentimentos, frustrações, cobranças, hostilidade, um clima impossível para reconstruir a economia destruída e a convivência política em frangalhos. Não se discute uma agenda ou um projeto, o país está paralisado, o governo fica só às voltas com seu balança-mas-não-cai, a comprovar que, embora tenha decidido que está acima das leis, não consegue se desvencilhar da lei da gravidade. E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José?

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Vira-se a página mas a agonia não acaba. Pior ainda… a festa era ilusão, mal deixou lembrança boa. Mas fomos arrastados a essa situação. Mesmo quem sempre soube que não se trata de golpe mas inicialmente não era favorável ao impeachment, cansou de esperar em vão que se colocassem outras alternativas além dessa punição prevista na Lei de Responsabilidade Fiscal. À medida que as coisas avançaram, constatados os crimes de empréstimo proibido de bancos públicos, sobretudo em ano eleitoral, e mais os créditos não autorizados pelo Congresso, em vão se passou pelo cartão amarelo das advertências e ressalvas dos tribunais no exame das contas. Em vão se esperou um reconhecimento do erro, um pedido de desculpas, uma garantia de não repetir o crime, uma explicação que fosse além da mentira de dizer que era necessário por causa dos benefícios sociais e não por benesses a empreiteiros e campanhas eleitorais de marketing milionário. Como se a ínfima proporção estatística do Bolsa Família e outros programas pudesse fazer frente aos gastos exorbitantes que ajudam a compor a Bolsa Amém, de compra de apoio e créditos subsidiados. E quem preferia não seguir para o trauma do impedimento acabou tendo de ceder para não ser cúmplice da impunidade, diante do desprezo à responsabilidade como valor e das descaradas manobras de obstrução da Justiça, incluindo até termo de posse antecipado para o caso de necessidade e edição extra do Diário Oficial, em meio a um crescendo de ataques às instituições e de provocação às pessoas de bem.

O ideal para evitarmos que as coisas chegassem a esse ponto seria termos parlamentarismo. A Constituição de 88 até caminhara nesse sentido, mas acabou dando nesta coisa híbrida e estéril onde atolamos, porque interesses de presidenciáveis na ocasião impediram que ela confirmasse o que seu arcabouço se preparara para acolher. Só que não é hora de querer essa saída como casuísmo, só para se livrar da crise imediata. Tem de ser amadurecido, numa discussão equilibrada e sempre recusada. E agora, José?

Debate amadurecido anda em falta. Ainda outro dia, o ex-ministro do STF Ayres Brito se queixava de que o debate está infantilizado e maniqueísta, na base do herói ou vilão e é necessário um chamamento ao entendimento. Vamos precisar muito disso na reconstrução do país. Por exemplo, deve-se criticar os excessos e qualquer atitude ilegal nas investigações mas quem tem de dar a última palavra sobre isso é o Supremo, não uma campanha sistemática de desqualificação das instituições dirigida à opinião publica nacional e estrangeira. Equilíbrio e sensatez são fundamentais para sairmos dessa insanidade geral. Para o bem do país é preciso unir o Brasil acima dos partidos e das torcidas inflamadas, assumindo responsabilidade pelas decisões a tomar e passando confiança à nação, sem o pensamento mágico infantil de se apresentar como Salvador da Pátria ou pintar o adversário como o inimigo público número 1. Há tarefas muito duras pela frente, quando só no estado de São Paulo mantém-se há mais de um ano a média diária de 13.000 demissões e 20 fábricas fechando. Como assinalam Cesar Benjamin e outros, o ciclo de distributivismo sem reforma que marcou os governos do PT foi superficial e já terminou. E agora, José?

Essas reformas necessárias têm de ser discutidas a sério — e não apenas na economia ou na legislação trabalhista. Estamos vivendo uma profunda crise na democracia representativa, que leva o eleitor a não se sentir representado por quem elege. Seja porque as campanhas marqueteiras mentem e enganam, seja porque o sistema partidário trai o voto, tem partido demais, deputado demais, qualidade de menos, ética de menos. Democracia é meta, não pode ser tática eleitoreira. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Procuro a citação exata que me dança na memoria. Você marcha, José, para onde? Abro a antologia a esmo e encontro outro poema, “Pneumotórax”, de Manuel Bandeira. Talvez seja a resposta para estes dias tristes:

A vida inteira que podia ter sido e não foi. (…) A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Ana Maria Machado 

Um líder bufão

O vídeo gravado por Lula mostra claramente o desespero de um homem derrotado, de um líder bufão, que ocupou por mais de uma semana um apartamento de luxo de um hotel em Brasília para convencer ($) deputados de que a Dilma não poderia desocupar o Palácio do Planalto, que o impeachment é golpe. A voz gasguita é de quem cansou de falar em vão, porque o resultado certamente será desfavorável ao seu partido e, a Dilma, que nunca governou o país, simplesmente deixa o palácio pela porta dos fundos.

Lula, se a decisão deste domingo for desfavorável, vai desocupar o apartamento de luxo, mas a gerência do hotel precisa ficar de olho com a conta, pois os antecedentes dele e de seus parceiros que ocuparam os imóveis, não são recomendáveis. Se a hospedagem foi paga com dinheiro do governo, o Ministério Público deverá investigar porque o contribuinte não pode pagar a conta de um bando de gente que ocupou um hotel cinco estrelas para fazer lobby político.

Lula chegou a Brasília há dias como um super-homem da política. Falou aos ventos das suas qualidades e da sua habilidade de convencimento. Recebeu parlamentares diariamente, confabulou, e ofereceu ministérios e cargos públicos em todos os órgãos do governo, mas se frustrou. Falava em nome de um partido natimorto, desqualificado e acusado de corrupção. Perdeu a credibilidade e a confiança para continuar argumentado a favor da Dilma. Cansou e entregou as armas quando a Dilma, numa entrevista, jogou a toalha dizendo-se “carta fora do Trabalho” depois da votação do impeachment.

No vídeo que divulgou à população, Lula tem dificuldade de falar, mostra uma expressão de desespero porque sabe, como ninguém, que o afastamento temporário da Dilma pode deixá-lo desprotegido e nas garras do juiz Sergio Moro que, desde o início da semana, colhe com precisão cirúrgica, o depoimento da delação premiada de Marcelo Odebrecht, presidente da empresa, que tenta reduzir a sua pena entregando as maracutaias petistas.

Com o afastamento da Dilma Lula perde todos os “privilégios” que o STF outorgou sem nenhuma base jurídica legal, quando avocou o seu processo à Corte Suprema.

A preocupação do Lula procede porque ele sabe que envolveu sua família no escândalo, deixando-a vulnerável às investigações da Lava Jato. Além disso, abandonou centenas de amigos quando não os defendeu publicamente, a exemplo de Zé Dirceu, Vaccari e tantos outros que amargam cadeia.

Depois deste domingo, se a Dilma for impedida de governar, Lula perde o poder que tinha no governo da amiga. A caneta seca e, com ela, evapora-se o poder do homem que mandou e, principalmente, desmandou no país. Assistirá também a redução dos movimentos sociais nas ruas, porque os líderes vão entender que seus direitos sociais não serão mexidos com o novo governo porque são constitucionais, baseados em leis. Quanto as centrais sindicais, estas aos poucos vão se integrar ao novo governo, com exceção da CUT, sob o risco de desaparecem sem o dinheiro do FAT que as alimentam e as alienam.

Resta ao Lula e a Dilma uma aposentadoria confortável como ex-presidentes e anistiados, o que não acontece com os brasileiros comuns que veem desaparecer o seu minguado dinheiro corroído pela inflação e pela estagnação da economia, herança maldita que os dois deixam ao povo brasileiro.