sexta-feira, 24 de julho de 2015

A nação de cabeça baixa

A condição natural do ser humano é a fragilidade, que é de natureza física; a ignorância, que é de natureza mental; e a pobreza, que é de natureza econômica. Afora a fragilidade física, que não pode ser mudada, as outras duas podem ser superadas, e os meios para tanto são o conhecimento e a tecnologia.

Podemos definir conhecimento como sendo o domínio dos princípios e das leis que regem a natureza, o homem e a sociedade. Já a tecnologia é a aplicação do conhecimento para produzir os meios de atender às necessidades humanas e solucionar os problemas do dia a dia. A aquisição do conhecimento e da tecnologia se dá pela ciência, pela educação e pela cultura.


Alguns pensadores, entre eles o gênio liberal Ludwig von Mises, adicionam um terceiro fator: a forma como a sociedade é organizada e dirigida em termos coletivos. Em seus escritos, Mises insiste que a quantidade de coisas produzidas não é desvinculada do modo como são produzidas. Para ele, o mesmo povo, sob um regime de liberdade e de propriedade privada dos meios de produção (o capitalismo), é capaz de produzir muito mais do que sob um regime sem liberdade e sem direito de propriedade (o socialismo).

O Brasil vive hoje um dos piores momentos de sua história. A nação está humilhada e cabisbaixa. A desconfiança nas instituições vem decaindo perigosamente. A política e os políticos estão desacreditados. O setor público está falido, afundado em déficits, dívidas e serviços da pior qualidade. Junto a todo esse quadro ruim, a economia vai mal e nos tornamos uma das sociedades mais violentas do mundo.

Em um único fim de semana (dias 17, 18 e 19 passados), em apenas uma cidade (Manaus), houve 35 assassinatos. Se fosse nos Estados Unidos, o mundo inteiro estaria comentando e analisando como um fato incomum. Aqui, virou corriqueiro. O grau de violência no Brasil quase não tem precedente no mundo. E não dá para debitar tudo à pobreza, pois há muitas nações tão ou mais pobres onde a violência é muito inferior à que temos aqui.

A violência é, também, um problema econômico. Nova York sozinha recebe 50 milhões de turistas por ano. O Brasil inteiro recebe apenas 6 milhões, um número pífio. A imagem brasileira no exterior é de um país corrupto, bagunçado e violento, que não está no roteiro do turismo mundial. Há anos, inventaram os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), países que seriam emergentes caminhando rumo à riqueza. Agora, alguns analistas internacionais estão propondo tirar o Brasil do grupo, tal a deterioração econômica e social do país.


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O governo Fernando Henrique venceu o demônio da inflação, reduziu um pouco o tamanho do Estado-empresário e legou a importante Lei de Responsabilidade Fiscal. Lula ampliou os programas sociais e foi beneficiado pela enorme ajuda do mundo, sobretudo da China, cuja explosão do consumo promoveu a elevação dos preços das commodities brasileiras exportadas.

Até 2010, uma enxurrada de dólares entrou no Brasil. Mas a festa acabou em 2011, quando Dilma assumiu. A boa situação internacional desapareceu, os preços de exportação voltaram a cair, os erros de política econômica de Dilma foram graves... e o país perdeu o passo. Com a desencanto e a descrença, muitos sonham seguir para o exterior e desistir do Brasil. Mas a maioria não tem essa possibilidade; logo, é preciso lutar e impedir que a nação naufrague na pobreza e na violência.

José Pio Martins

Cadê a autoridade?


Sem popularidade, se governa. Sem autoridade política, não!
Autoridade política nada tem a ver com popularidade. Mas sem ela, é muito difícil que um governante se mantenha no poder
Ricardo Noblat

Não se pode mandar contrariando a opinião pública

A verdade é que não se manda com os janízaros. Assim, dizia Talleyrand a Napoleão: "Com as baionetas, Sire, pode-se fazer tudo, menos uma coisa: sentar-se sobre elas". E mandar não é atitude de arrebatar o poder, mas tranquilo exercício dele. Em suma, mandar é sentar-se. Trono, cadeira curul, banco azul, poltrona ministerial, sede. Contra o que uma óptica inocente e folhetinesca supõe, o mandar não é tanto questão de punhos como de nádegas. O Estado é, em definitivo, o estado da opinião: uma situação de equilíbrio, de estática.


O que sucede é que às vezes a opinião pública não existe. Uma sociedade dividida em grupos discrepantes, cuja força de opinião fica reciprocamente anulada, não dá lugar a que se constitua um mando. E como a Natureza tem horror ao vácuo, esse oco que deixa a força ausente de opinião pública enche-se com a força bruta. Em suma, pois, avança esta como substituta daquela.


Por isso, se se quer expressar com toda a precisão a lei da opinião pública como lei da gravitação histórica, convém ter em conta esses casos de ausência, e então chega-se a uma fórmula que é o conhecido, venerável e verídico lugar comum: não se pode mandar contrariando a opinião pública.
José Ortega y Gasset (1883 - 1955), 'A Rebelião das Massas'

Um dia a casa cai

Como nos velhos faroestes, chamaram a Sétima Cavalaria. Ela chegou a galope, Joaquim Levy Mãos de Tesoura, o implacável Chicago Boy, à frente.

Levy veio a chamado da presidente, que passou a campanha eleitoral inteira ameaçando o Brasil com as maldades de Armínio Fraga e, para surpresa geral, convocou um discípulo.


Levy veio porque Trabuco, presidente do Bradesco, não aceitou o convite e indicou um braço direito para arrumar as contas públicas que Dilma Roussef e Guido Mantega passaram quatro anos bagunçando.

Na falta de um banqueiro presidente, o Partido dos Trabalhadores se contentou mesmo com um banqueiro vice, que chegou parecendo disposto a fazer chover no deserto.

O mercado sorriu para o ortodoxo, as agências de risco adiaram seus planos de rebaixar o grau de investimento do País, a presidente se acomodou desconfortavelmente e posou para as fotos ao lado do homem mau, e assim se passaram seis meses.

O ajuste fiscal deveria fazer uma primeira limpeza nas contas públicas da ordem de uns 66 bilhões de reais. Mais aumento de impostos, corte de alguns benefícios trabalhistas e nem sinal de corte nas despesas de custeio do governo.

Aproveitando a onda de desamor entre a base aliada e o governo, agravada pela falta de coordenação política e pela escandalosa impopularidade da presidente Dilma, o Congresso aprovou algumas leis criando despesas novas, acabando com o fator previdenciário, e jogando alguns reajustes de salários um tanto alucinados, como os do Judiciário, no colo do Tesouro.

O ônus do veto fica com a presidente, e a eventual glória da derrubada do veto fica como arma secreta dos parlamentares: pode servir para barganha ou para um jogo de cena para ficar bem com a corporação do Judiciário.

A dificuldade de aumentar mais impostos, de reduzir despesas, de controlar as ações um tanto irresponsáveis do Legislativo criando novas despesas, foi esvaziando os números do ajuste fiscal, que de um superávit de 1,1% do PIB foi caindo, caindo, até chegar a um potencial déficit primário de 0,3%.

O embate de bastidores entre Levy-mãos-de-tesoura e o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, tornou-se público pela primeira vez num suposto resfriado que impediu a presença do ministro da Fazenda numa coletiva para anunciar cortes no orçamento. Barbosa anunciou sozinho um corte que não estava no tamanho apropriado para Levy.

O governo vacilou entre não cumprir a primeira meta anunciada e anunciar uma nova meta, muito pior, porém mais realista. Desta vez optou por assumir a nova e desastrosa meta. Mentir seria pior, sentenciou Raul Velloso, uma espécie de oráculo das contas públicas brasileiras.

Enfim, a meta fiscal caiu de 66,7 bilhões para 8,7 bilhões, isso se algumas medidas previstas pelo governo- como repatriação de recursos e recuperação de débitos tributários- derem certo. Se não derem, o esquálido superávit pode virar um déficit de 17,7 bilhões.



Levy fracassou, mas mantém-se impávido como uma estátua grega. Posa ao lado de um sorridente Nelson Barbosa e finge que o desastre não é com ele.

E na verdade não é só com ele, que fez o que pôde. E pela advertência dos economistas Marcos Lisboa, Mansueto Almeida e Samuel Pessoa, num denso texto publicado na Ilustríssima de domingo, dia 19 de julho, não é nem só com Dilma, apesar de todas as barbeiragens que ela fez em seu primeiro governo.

O problema é com o Brasil: desde 1991, a despesa pública sobe mais do que a receita. E o ritmo da diferença só aumenta. Um dia a casa cai.

Lula e a lenda do Golem

A rejeição ao governo da presidente Dilma alcançou, em junho deste ano, a marca de 65% de ruim e péssimo. No ABC paulista, o berço do PT, chegou a 75%.

No dia 18 de junho, durante uma reunião no Instituto Lula, com várias lideranças religiosas, o ex-presidente Lula analisou esses resultados e disparou contra sua pupila, chegando a dizer que ela está no “volume morto”, numa alusão ao volume de água nos reservatórios de São Paulo.

Reclamou de Dilma pela falta de notícias positivas e disse ter perguntado a ela quando tinha sido a última notícia boa para o país. Não teve uma resposta, o que mostrou a situação dramática atual do governo petista e do próprio Partido dos Trabalhadores.

Evidente que Lula está tentando de todas as formas sair mais uma vez como uma vítima ao invés do grande articulador e responsável pela situação atual.

Essa sua posição lembra a história do Golem na cabala judaica. O Golem era um ser artificial e sem vontade própria, criado para satisfazer as vontades de quem o criou.

Embora sem inteligência, ele podia executar tarefas simples. O problema era que, repentinamente, ele ficava sem controle, se tornava muito perigoso e desativá-lo, era tarefa muito difícil, mesmo para os maiores rabinos e cabalistas.

Na tradição esotérica, o Golem tinha a palavra Emeth, que significa Verdade em hebraico, na sua fronte ou debaixo de sua língua e para desativá-lo, seu criador precisava apagar a primeira letra e transformar a palavra em Meth, que significa morte. Na lenda original, para desativá-lo, o preço custou muitas vidas, inclusive a de seu criador.

Lula criou um Golem e agora está tentando desativá-lo. Não vai ser fácil e, se a lenda estiver correta, isso irá custar muitas vidas.

No meio desse caos político, Lula foi citado, na 14ª fase da Operação Lava Jato, como facilitador de negócios de empreiteiras fora do país. Mensagens interceptadas pela Polícia Federal revelaram que o ex-presidente tinha o apelido carinhoso de “Brahma”, junto aos empreiteiros investigados.

Em um trecho da conversa gravada pela Polícia Federal, os executivos das construtoras falam sobre as diferenças do governo Brahma e da senhora atual que, segundo eles, tem um discurso fraco, confuso e falta carisma.

O criador agora tenta se salvar da tormenta que bate à sua porta. Para isso, como sempre, vale tudo, até sacrificar sua criatura.

Ricos deveriam financiar ensino, afirma brasileiro reitor nos EUA

UNCW
José Sartarelli
O sistema de sucesso tem de permitir o acesso a todos os alunos competentes. Por outro lado, o país tem também que focar em algumas áreas específicas de excelência, onde vai ser muito difícil entrar, não vai ter proteção por minorias, onde você tem que ser realmente bom
Brasileiros ricos deveriam seguir o exemplo de americanos e doar parte de suas fortunas para melhorar a educação do país, diz à BBC Brasil José "Zito" Sartarelli, reitor da Universidade da Carolina do Norte Wilmington (UNCW), nos Estados Unidos.

Tido como o primeiro brasileiro a dirigir uma universidade americana, Sartarelli afirma que muitos brasileiros ricos agem como se fossem "levar à tumba todo o dinheiro".

"Na nossa cultura ibérica, esperamos que a educação seja provida pelo Estado, grátis. Agora, com o Estado em dificuldades, as pessoas de sucesso se voltam para proteger e investir na própria família", critica.

Sartarelli foi escolhido reitor da UNCW em abril, em seleção com 95 candidatos. A instituição figura nos rankings das melhores universidades públicas do sul dos Estados Unidos.

Nascido há 65 anos em Ribeirão Bonito, cidade com 12 mil habitantes no interior de São Paulo, ele migrou para a educação após uma carreira internacional no setor farmacêutico.

Depois de passar pela Eli Lilly e pela Bristol-Myers Squibb, Sartarelli foi presidente da Johnson & Johnson na América Latina, Japão e Ásia-Pacífico entre 2001 e 2010.

Formado em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo, em 1973, ele fez MBA e doutorado na Universidade de Michigan State, nos Estados Unidos, quando conheceu sua esposa, Katherine.

Sartarelli voltou ao meio universitário em 2010, desta vez como diretor da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade de West Virginia, cargo que deixou neste ano.

Em entrevista à BBC Brasil, Sartarelli defende que universidades se aproximem de empresas e diz que o Brasil abriu mão de investir em centros de excelência, o que terá um alto custo no futuro.

Ele afirma ainda que, para que a universidade que dirige possa competir com as melhores instituições americanas, será essencial atrair bons estudantes.
Leia a entrevista de Sartarelli

quinta-feira, 23 de julho de 2015

De volta ao que sempre fomos

Em novembro de 2009, Beirute foi a capital mundial do livro, título concedido anualmente pela Unesco. Em comemoração, foram convidados 15 escritores de oito países para debater as perspectivas da literatura. No dia da chegada, participamos de um jantar oficial oferecido pela universidade Saint Joseph, a segunda mais importante do Líbano. À entrada, o reitor recebia a todos com uma simpática mas rápida saudação. Quando chegou minha vez, no entanto, ele, ao ouvir o nome Brasil, segurou caloroso minha mão e passou a perguntar sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com curiosidade e admiração.


Um ano antes, Lula havia desafiado a crise provocada pelo estouro da bolha imobiliária norte-americana ao afirmar taxativamente que o que era tsunami nos Estados Unidos seria sentido no máximo como marolinha no Brasil. Assim, se em 2008 o Produto Interno Bruto cresceu 5%, no ano seguinte —reflexo do “tsunami” norte-americano— conheceria uma forte retração (0,2% negativo), dando um enorme salto em 2010 (7,6%), último ano do segundo mandato de Lula. Vivíamos então a euforia de ser a sétima maior economia do planeta —todos os olhos voltavam-se para nós. Por conta disso, Lula não encontrou grandes dificuldades para eleger como sucessora sua ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, nome estranho aos quadros históricos do partido —ela filiou-se em 2001 e na posse do primeiro mandato de Lula, janeiro de 2003, já era titular da pasta de Minas e Energia.

No poder, Lula, assim como Dilma, mostraram-se bastante pragmáticos. Eleitos por uma aliança com partidos conservadores, alguns claramente identificados com clientelismo e corrupção, desenvolveram uma política econômica baseada na ampliação do número de consumidores, não pela distribuição de renda, mas pela transferência de renda, via assistência social. O modelo começou a desmoronar já ao longo do primeiro mandato de Dilma: o PIB cresceu 3,9% em 2011, 1,8% em 2012, 2,7% em 2013 e 0,1% em 2014. E as perspectivas para este ano são péssimas: retração de 1,5% no PIB, taxa de desemprego de 8%, inflação de 9%.

É evidente que não se pode imputar unicamente a crise econômica ao governo —somos peças de um quebra-cabeças internacional. Mas, com certeza, grande parte da responsabilidade deve-se à tomada de decisões erradas, agravadas agora por uma crise institucional sem precedentes, que ameaça paralisar ainda mais o país. Em curso, a Operação Lava-Jato já possibilitou a abertura de inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) contra 12 senadores, incluindo o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), e 22 deputados federais. O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), envolvido em denúncias de corrupção, ameaça, como patética retaliação, patrocinar a abertura de processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Segundo na linha de sucessão, Cunha, que conta com apoio de boa parte do Congresso, pertence ao mesmo partido do vice-presidente Michel Temer, primeiro na linha de sucessão —o PMDB vem se favorecendo da aliança com o PT, com cargos e influência, desde 2006.

Não se pode imputar unicamente a crise econômica ao governo. Mas parte da responsabilidade deve-se à tomada de decisões erradas, agravadas agora por uma crise institucional sem precedentes, que ameaça paralisar ainda mais o país


Mesmo como bravata, a atitude de Cunha acirra o já tenso panorama político-econômico. Um processo de impeachment inviabiliza o país pelo tempo em que se arrastar, que nunca é breve. Esse, portanto, deveria ser um momento de reflexão e sobriedade. No entanto, parece que, acima dos interesses coletivos, plainam soberbas as conveniências particulares. O PMDB se beneficia em qualquer dos cenários futuros: mantida no comando, Dilma, enfraquecida, dependeria ainda mais do partido, que parasita a máquina administrativa com voracidade; com Dilma impedida, o PMDB assume o governo —em ambas as situações, sai fortalecido para lançar candidato próprio nas próximas eleições. O PSDB também ganha, pois se consolida como opção viável para governar o país, apesar de seu candidato natural, o senador Aécio Neves, ter seu principal aliado, o senador e ex-governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia, envolvido no processo da Operaçao Lava-Jato que corre no STF.

Bons tempos aqueles em que despertávamos a atenção do mundo pela novidade que representávamos: primeira nação governada por um ex-operário líder de uma agremiação de esquerda não comunista, que, rezando por uma cartilha heterodoxa, impelia o crescimento do país num momento de estagnação da economia global. Hoje, envolvido em denúncias de lobby em favor de empreiteiras no exterior, e cercado por dirigentes envolvidos em negociatas, Lula não passa de um triste simulacro de si mesmo —e o Brasil volta a ser o que sempre foi, uma melancólica república das bananas, governada por uma elite burra, corrupta e arrogante.

Luiz Ruffato

Para pensar

O Congresso é tão envolvido com o dinheiro que qualquer solução no interesse geral está frustrada e subvertida por interesses corporativos que consideram passíveis de dano pelo progresso, o jogo limpo e a justiça
E. L. Doctorow, escritor norte-americano (1931 – 2015)
 

Até quando?

Desconheço a origem da necessidade que têm os homens de buscar amparo na imagem de heróis, salvadores da pátria e defensores da moral. Apenas reconheço - e me entristeço, ao saber que inclusive eu mesmo sou afetado - que, atualmente, essa carência só vem se expandindo, mais e mais.

No futebol, o fenômeno que ficou conhecido por "neydependência" nos deixa frustrados ao saber que, sem Neymar, nossa seleção não ganha sequer do Paraguai.

Na política, no entanto, temos hoje um cenário muito mais alarmante. Trata-se de uma "Cunha dependência", "PSDB dependência", ou, até mesmo, "Moro dependência".

Cansados de tanta corrupção, esperamos ansiosamente, dia após dia, que criminosos delatem outros criminosos, que a Polícia Federal encontre novas provas, que o TCU recomende a reprovação das contas da Presidente, que o Congresso Nacional reprove estas contas, que Eduardo Cunha coloque em votação o impeachment de Dilma Rousseff... Enfim, que tudo ocorra para que possamos dispor de todos os meios e de toda materialidade para dar um basta em tudo que há de errado.

Mas e quando nossos ídolos saem da linha e se tornam iguais - ou piores - que nossos algozes?

A delação de Júlio Camargo, que afirmou que Eduardo Cunha exigiu 5 milhões de propina, é apenas um exemplo de tantos dilemas que o brasileiro de bem, cansado de tanta corrupção, precisa enfrentar ao depender de políticos.

O petista histórico, que se emocionava com o trabalho político de Lula antes de 2002, também deve sentir esse dilema ao ver seu partido afundado nos maiores escândalos de corrupção da história.

No final das contas, grande parte do que vemos na política brasileira não passa de teatro. Com oportunismo, jogam para a plateia - isto é, nós, brasileiros comuns, sem foro privilegiado. Tornarmo-nos defensores cegos e hipócritas, ou céticos acomodados, descrentes num futuro melhor? Eis a questão.

A verdade é que o povo, aos poucos, amadurece.

Minha resposta a tudo isso, portanto, não poderia ser diferente: continuarei lutando não por políticos, mas por ideias que transcendem carne e ossos, defendendo um ideal de justiça de um Estado verdadeiramente de Direito, que se aplique não só a meus adversários, mas a meus aliados e a mim mesmo. Erga omnes.

Julio Lins ("Vem Pra Rua")

Lula no olhar português

Mal comparando

O que os japoneses já consideram como um dos maiores escândalos corporativos de sua história foi um tipo de pedalada contábil da Toshiba. Manipulando receitas e despesas de um ano para outro, a diretoria gerou lucros, digamos, falsos no valor de US$ 1,2 bilhão, ao longo de sete anos.

Só perde, lá no Japão, para o escândalo da Olympus, que escondeu um prejuízo de US$ 1,7 bilhão por vários anos.

A Petrobras, no seu último balanço, estimou perdas de R$ 6,2 bilhões, ou US$ 2 bilhões, só com a corrupção apanhada pela Lava-Jato até o final do ano passado. E olha que foi um cálculo “conservador”, na expressão do presidente da estatal, Aldemir Bendine.

Eis a comparação: contando o que se sabe até agora, de maneira conservadora, a corrupção na Petrobras já supera os dois maiores escândalos corporativos da economia japonesa — que é, por sinal, duas vezes e meia maior que a brasileira.


Mas tem mais: no mesmo balanço, a Petrobras fez uma baixa contábil de R$ 44 bilhões (14,2 bilhões de dólares). Ativos estavam excessivamente valorizados, especialmente a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e o Complexo Petroquímico do Rio, dois principais alvos dos ataques do pessoal da Lava-Jato.

Tudo somado, baixas admitidas de US$ 16,2 bilhões, oito vezes maior que o maior escândalo japonês.

Quando a operação começou, ninguém podia imaginar o seu tamanho. Ninguém exceto os envolvidos. Pois um deles, um alto executivo, no dia das primeiras prisões, respondeu assim quando lhe perguntaram se aquilo era mesmo coisa séria: “É o maior escândalo corporativo da economia mundial".

Brasil!

Tem mais: os diretores da Toshiba não estão sendo acusados de corrupção. Talvez tenham recebido uns trocados a mais por conta de bônus pelos bons resultados forjados. Mas não meteram a mão no dinheiro da companhia nem do governo.

O agora ex-presidente da Toshiba Hisao Tanaka negou que tenha instruído seu pessoal a fraudar a contabilidade. Mas aceitou os resultados da auditoria, pela qual ele pelo menos sabia que os lucros estavam superestimados. Renunciou e, diante das câmeras, fez uma reverência de 15 segundos.

Tem muita delação premiada por aqui. Mas o presidente da estatal no período em que os roubos ocorreram, José Sérgio Gabrielli, nega qualquer responsabilidade e afirma que tudo não passou de mal feito de alguns funcionários.

Lula, em cuja gestão ocorreram os roubos e os, digamos, desvios de gestão, com os ativos superestimados, vai pelo mesmo caminho. Foi Lula quem mandou a Petrobras multiplicar de maneira perigosa os seus investimentos.

E a presidente Dilma Rousseff, que foi presidente do Conselho da Petrobras quando ocorria o escândalo, também não sabia de nada.

Tudo bem?

Gabrielli, Lula e Dilma não são investigados. Mesmo que nunca venham a ser, não seria apropriado ao menos um pedido de desculpas? Afinal, deixaram uma Petrobras roubada e quase destruída.

Tudo isso para dizer que esse escândalo tem um lado positivo: escancarou práticas de governo e empresariais que constituem o pior do capitalismo. Roubam o contribuinte e os acionistas das empresas estatais e privadas, tornam ineficientes os investimentos públicos e privados, concentram renda e atrasam a economia.

Vejam o estado em que se encontra toda a cadeia da indústria do petróleo. Montada sobre uma ficção — a de que já estávamos ricos — e construída na base de protecionismo do Estado e corrupção, está hoje em pedaços. Desperdiçou um precioso capital e não tem a menor competitividade na economia global.

Pelo pior caminho, estamos vendo que quanto mais o Estado se mete na vida das pessoas, da economia e do país, menos eficiente o capitalismo e mais fácil a roubalheira.

Está na hora de se tirar outra coisa boa dessa história, à japonesa: os executivos, do governo e das empresas privadas, são sempre responsáveis pelos roubos e equívocos. Ou porque sabiam ou porque não sabiam. No primeiro caso, o peso da lei. No segundo, a força da ética. Não digo harakiri, mas pelo menos 15 segundos curvados.

Dinheiro sobrando

Lembram-se da Irlanda? Isso, aquele pequeno país da Zona do Euro que sofreu com o estouro de uma bolha imobiliária e financeira, recebeu um pacote de ajuda da Europa e aplicou um severo programa de ajuste fiscal.

Então, nesta semana, o governo irlandês chamou uma consulta pública para saber como gastar cerca de 1,5 bilhão de euros (pouco mais de 5 bilhões de reais), dinheiro que está sobrando no orçamento para o ano que vem.

Estão discutindo se vão reduzir impostos ou aumentar o gasto público. Que tal?

Eleições da pindaíba

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, admitiu, em depoimento à CPI da Petrobras, que doações ilegais poderiam encobrir corrupção. Com o final das eleições no ano passado, as empreiteiras investigadas pela Operação Lava Jato pararam de fazer doações aos partidos em outubro de 2014. De lá para cá, tais doações secaram.

Para piorar, a redução dramática dos gastos públicos indica que os prefeitos terão poucas obras para inaugurar na reta final de seu mandato. Obras podem significar doações para campanhas; sem obras, elas podem minguar também.

Não entrando, no mérito da questão sobre se as doações vieram ou não de ações ilícitas, o fato é que tal situação traz um resultado claro: as eleições municipais de 2016 serão pobres de recursos. Os rios tributários que as irrigavam estão secos. Doações, mesmo feitas com a melhor das intenções, passaram a ser vistas como tóxicas.

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Assim, duas tendências se apresentam. A primeira é a de que os partidos vão depender dos fundos partidários para seus gastos. A segunda é que terão de buscar novas formas de se financiar, por exemplo, sensibilizando militantes e eleitores. Ou ampliando o uso de redes sociais para mobilizar cidadãos.

Câmara e Senado estão batendo cabeça em torno da Reforma Política.

Provavelmente, as regras podem ficar como estão. Porém, a mudança essencial no contexto do financiamento das eleições será cultural e relacionada com a Lava Jato.

Basta constatar que a maioria dos grandes doadores de verba para os partidos em 2014 está entre as empresas investigadas. Foram quase 100 milhões de reais doados aos partidos, sem contar recursos dirigidos diretamente aos candidatos.

A partir dos desdobramentos da Lava-Jato, dificilmente as empresas envolvidas voltarão a contribuir, por dentro ou por fora. Outras ficaram temerosas de serem “criminalizadas” pela mídia. Enfim, o modelo faliu. Tem de ser reinventado.

Cretinice extrema

Esse corte é para manter todos no emprego. Imagina de cada dez, cortar cinco? Então tirar 20% é uma medida correta do prefeito para manter o emprego dos nossos munícipes (leia-se “funcionário de contrato temporário” conhecido como comissionado que nem mora no município)
Vereador Robson Dutra (PMDB), sobre a redução de salário comissionado de Maricá
A "população" comissária de Maricá supera os mais de 2,3 mil bolsistas do PT e de aliados, o que dá aproximadamente um comissionado para servir (o que não fazem) 52 habitantes.

A obstinação pelo poder é o elo comum em toda crise


Depois de malfeitos, bazófias, trapaças, jactâncias e embustes, que caracterizaram a política nesses últimos dias, pouca coisa me sobrou para contar, leitor. Nós, mais vividos, sabemos que o país já vivenciou crises piores do que a atual. Você se lembra da lambança que fez a dupla Collor/Zélia em 1990? Você se lembra de que, na era Sarney, vivemos uma inflação de 82% ao mês?

Em todas as crises políticas, há um elo em comum: a obstinação pelo poder. Quem está fora dele quer entrar, e quem está dentro dele não o quer deixar. E é essa obsessão pelo poder a causa mestra de intervenções truculentas.

Está aí (e não no bem do povo, que talvez seja a última ocupação dos políticos) a principal causa da pregação de alguns em favor do impeachment, já que tem fortes indícios de que pode mesmo acontecer. E, se acontecer, o trauma desse remédio constitucional a qualquer preço poderá trazer problemas maiores e com consequências imediatas ou futuras ainda mais graves.

Não nos iludamos: não é só a corrupção que derruba a economia de um país ou o torna endividado. Ela não é invenção do brasileiro nem nasceu do ventre do PT. É mundial, mas boa parte do PT deixou de lado a pregação em favor da ética e correu com muita vontade ao pote e num instante em que o povo já se sentia exausto com tantos abusos.


A crise se tornou mais grave porque a danada da corrupção se somou à péssima gestão. O país foi entregue, então, pelo voto direto, a gestores incompetentes, desonestos e, muitos deles, famintos. Essa, sim, é uma dose dupla de veneno, capaz de trucidar o “homem de ferro”.

A Lei Anticorrupção foi uma das nossas grandes conquistas, mas “lei forte não implementada é como uma lei fraca”, afirmou, na semana passada, Pascal Fabie, diretor da ONG que combate a corrupção no mundo. Após dizer que essa lei abriu “uma janela de oportunidades para governo, comunidade de negócios e sociedade civil”, Fabie ainda acrescentou, em resposta a Ian Chicharo Gastim, em entrevista publicada em “O Estado de S. Paulo”: “Não acho que o Brasil é mais ou menos corrupto (do que outros países). A corrupção é mais visível aos brasileiros porque vocês estão de saco cheio”.

O ideal seria que a presidente Dilma Rousseff reconhecesse a sua parte no desastre, pedisse desculpas e se retirasse para cuidar da sua vida, pois ninguém, como se sabe, está acima da lei. Como esse gesto, se não é impossível, é, pelo menos, improvável, o melhor é dormirmos com a intenção de fazermos a nossa parte, na esperança de que a má gestão e a corrupção, daqui para a frente, sejam feridas de morte. E que, finalmente, as duas “conquistas tecnológicas” mundiais – “a cooperação e o fogo” –, referidas pela presidente, a ajudem a governar.

Nessa segunda-feira, vi na TV Brasil o programa “É Tudo Verdade: Sobral – O Homem que Não tinha Medo”, produzido por Augusto Casé. Fiquei emocionado. Lembrei-me do meu pai, que apareceu ao seu lado. Amigos durante a vida inteira, a primeira pessoa a ser visitada por Sobral Pinto em Belo Horizonte era meu pai. No fim, concluí: o que difere a atual crise das outras, a que aludi no início, não é a sua gravidade, mas, sobretudo, a ausência de homens como o dr. Sobral Pinto. E a culpa dessa carência – é preciso dizer – cabe à intervenção militar na universidade durante anos que afastou os jovens da política. A fé no direito e a fé na vida – pregou Sobral – é que salvarão o nosso país.

Só faltam os que as sustentem.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

A casa de Noca

O título da coluna de hoje é também o título de uma música que fala da confusão que se instalou na casa de Noca: “todo mundo brincando no forró animado/ quando um cabra armado entrou com Zé minhoca/ na casa de Noca baixando o cajado/ e o pau comeu...”. A música é conhecida e tocada nos forrós do interior, em recintos de chão de terra batida e música de sanfona pé de bode, de oito baixos, nos quais, ao raiar do sol, o pau começa a comer...

Um desses dias, no frio da madrugada, desrebuçado acordei para puxar a coberta e escutei com fundo musical, já que durmo com o rádio ligado, uma notícia que dizia da abertura de investigação pela Procuradoria da República do Distrito Federal sobre o envolvimento do ex-Luiz com suposto tráfego de influência internacional no Brasil, coisa que todo mundo está cansado de saber. Despertado, pensei: Ô lelê! Acharam a ponta do novelo, agora é só desenrolar o carretel e botar a mão no lobista chefe das empreiteiras junto ao BNDES. Aqui está o x da questão.

Não sei dos outros, mas eu sempre tive dificuldades de entender as coisas fáceis demais, como imaginar um país sobrevivendo com um partido como o PT, ditando normas de conduta; com uma presidenta – ou o que seja –, inteiramente avoada, falando palavrões e elogiando mandiocas e, por último, falando de processos tecnológicos como seja a conquista do fogo... Um presidente do Congresso Nacional processado por corrupção, um presidente da Câmara Federal esperneando para provar que não é corrupto (e eu, torcendo para o cara não ser, mesmo sabendo que “andorinha que dorme com morcego voa de cabeça para baixo”); um ex-presidente analfabeto, mas esperto que nem pulga de pensão, que arrota garganta e diz que ninguém o derrubará, como se ele estivesse em algum lugar nas alturas; 39 ministérios e seus ministros, mais de 700 congressistas, dos quais um terço está sendo processado ou sob suspeita; embaixadas espalhadas pelo mundo, em lugares que até Deus duvida que existam, como Barein, Butão, Djibuti, Tuvalu, Vanatu etc.

O ex-Luiz andou por esse mundo todo, à nossa custa, atrás de votos para ser membro efetivo da ONU, e procurando um tal de Prêmio Nobel da Paz... Às vezes, isso me lembra Nerino, um coitado doido que vivia em União do Vigia, hoje o próspero município de Rubim, onde passei minha primeira infância, no caleidoscópico Vale do Jequitinhonha. O Nerino sungava a calça com a mão no bolso e dizia sempre que encontrava alguém: “não vai lá não lá adiante tem ladeira...”


As ladeiras existem e existirão sempre. Resta-nos a nós, cidadãos que pagamos impostos, a certeza de que viver em sociedade é ter compromissos de fraternidade e solidariedade com nossos coirmãos, para que, ao final, essa vida tenha outro sentido que não seja somente a ganância do ter e essa desonestidade com que estamos convivendo no Brasil, que não é nem poderá existir como a tolerância da casa de Noca.

Velhos hábitos demoram para morrer

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Para a ponta de cima da pirâmide a nossa desordem regulatória, o pandemônio tributário e a ratoeira trabalhista foram, aos poucos, se transformando em sólidas barreiras de “proteção do know-how nacional” contra concorrentes incômodos. Os nossos “grandes tycoons” dos setores mais competitivos da economia globalizada com costas quentes no BNDES – que são o pouco que sobrevive da indústria nacional – passaram a adorar esse nosso labirinto. Esses “excepcionalismos” corporativo-burocráticos que matam as empresas, os negócios e os empregos da massa ignara dos “sem-bancada no Congresso” aqui da planície, condenados a competir de peito aberto com as chinas da vida, transformam os mega-empresários do nosso “capitalismo de compadrio” nos “intérpretes” que qualquer estrangeiro treinado apenas na competência, na lógica do mercado e no bom senso precisa obrigatoriamente ter para poder operar direta ou indiretamente no ou com este Brasil onde não valem as leis universais.

Em entrevista gostando da Dilma para a Folha de S. Paulo de 6 de julho passado, Rubens Ometto, da Cosan, dizia isso com todas as letras:“Somos brasileiros, fazemos a diferença porque sabemos como proceder, lutamos pelos nossos direitos politica e economicamente (…) para defender minhas empresas no Executivo e no Legislativo (sic). Claro que não se pode fazer certas coisas que acontecem por ai (especialmente nesses tempos de Lava-Jato) mas eles (os estrangeiros) precisam de alguém que more no Brasil“…

Logo abaixo dessa pontinha da pirâmide comem soltos os cínicos da especulação, para quem para cima ou para baixo pouco importa, o que interessa é o tamanho das oscilações, e se empanturram os banqueiros que recolhem os mortos e feridos e, a peso de ouro, costuram novos frankensteins para o mundo dos mortos-vivos do empreendedorismo brasileiro enquanto nos sugam pela interposta pessoa do estado estroina a quem não interessa o tamanho do juro a ser pago, tudo que é necessário é que o dinheiro não pare de fluir.

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Já para a grande massa descrente dos da base da pirâmide, aceitar a velha e surrada isca corporativista de sempre quando a conta chega e a miséria aperta parece, ao fim de cinco séculos sem mudanças, a única maneira realista de salvar-se quem puder salvar-se da parte que for possível do sacrifício a ser imposto aos demais, ainda que a custa de ficar devendo à máfia.

Entre o suborno do “direito especial” a não pagar inteira a sua parte da conta oferecido pelo político de plantão e a sangria sistemática dos empregadores cabalada pelos advogados “trabalhóstas” que dividem o produto do roubo para assaltar quem foi louco bastante para oferecer empregos no país que Getúlio Vargas condenou à danação eterna com seu apelo sibilino – “Seja canalha que a Justiça do Trabalho garante” – muito pouca coisa da moral e do orgulho nacionais restam em pé.

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É de cima desses escombros que Lula apela pelo pior em cada um de nós, com o seu deletério: “Eu sou; mas quem não é”?

São estes – fora a multidão dos dispensados da corrida do merecimento que o PT multiplicou em metástese em cada célula do estado, habitantes daquele mundo encantado do Planalto Central onde as marés são eternamente montantes, os salários sobem 78% em plena crise e os empregos nunca desaparecem – os interessados em que nada mude nesse brasilzão de sempre.

Aviso

A cabeça dos oligarcas

No dia 11 de setembro de 2001, o vigarista Bernard Madoff achou que suas fraudes não seriam descobertas

Marcelo Odebrecht está preso e foi indiciado pela Polícia Federal. Em sua cela no Paraná mantém um diário do cárcere. Os barões da Camargo Corrêa foram condenados e na oligarquia política fabrica-se uma crise institucional. Houvesse ou não uma Lava-Jato, a desarticulação do Planalto envenenaria as relações com o Congresso. Ademais, essa crise tem um aspecto inédito. De um lado, estão servidores a respeito dos quais não há um fiapo de restrição moral ou mesmo política. São os magistrados e os procuradores. Do outro lado está o outro lado, para dizer pouco. Nunca aconteceu isso na vida pública brasileira.

O presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, estaria retaliando o governo ao permitir a criação de uma CPI para investigar os empréstimos dos BNDES. Há uma armadilha nessa afirmação. Ela pressupõe uma briga de quadrilhas, com Cunha de um lado e o Planalto do outro. Ou há esqueletos no BNDES ou não os há. Se os há, a CPI, bem-vinda, já deveria ter sido criada há muito tempo. Se não os há, nada haverá.


A verdadeira crise institucional está nas pressões que vêm sendo feitas sobre o Judiciário. Quem conhece esse mundo garante que nunca se viu coisa igual. Se as pressões forem bem sucedidas, avacalha-se o jogo. Cada movimento que emissários do governo fazem para azeitar habeas-corpus de empresários encarcerados fortalece a ideia de que há um conluio entre suspeitos presos e autoridades soltas. Ele já prevaleceu, quando triturou-se a Operação Castelo de Areia.

Em 2009 a Camargo Corrêa foi apanhada numa versão menor da Lava-Jato. Dois anos depois ela foi sedada pelo Superior Tribunal de Justiça e, há meses, sepultada pelo Supremo Tribunal Federal. Agora o ex-presidente da empresa e seu vice foram condenados (com tornozeleira) a 15 anos de prisão. O ex-presidente do conselho de administração levou nove. Desta vez a Viúva foi socorrida por dois fatores. O efeito Papuda, resultante da ida de maganos e hierarcas para a cadeia, deu vida ao mecanismo da colaboração de delinquentes em busca de penas menores. Antes, existiam acusações, agora há confissões. Já são 17. A Castelo de Areia não foi uma maravilha técnica, mas a sua destruição será um assunto a respeito do qual juízes não gostarão de falar.

Quem joga com as pretas tentando fechar o registro da Lava-Jato sabe que a Polícia Federal e o Ministério Público estão vários lances à frente das pressões. Da mesma forma, quem se meteu nas petrorroubalheiras sabe que suas pegadas deixaram rastro. Curitiba dribla como Neymar. Quando baixa uma carta, já sabe o próximo passo.


Afora os amigos que fazem advocacia auricular junto a magistrados, resta a ideia da fabricação da crise institucional. Ela seria tão grande que a Lava-Jato passaria a um segundo plano. É velha e ruim. Veja-se por exemplo o que aconteceu ao vigarista americano Bernard Madoff: na manhã de 11 de setembro de 2001 ele sabia que seu esquema de investimentos fraudulentos estava podre. (Era um negócio de US$ 65 bilhões.) Quando dois aviões explodiram nas torres gêmeas de Nova York e elas desabaram, matando três mil pessoas, ele pensou: “Ali poderia estar a saída. Eu queria que o mundo acabasse".

Madoff contou isso na penitenciária onde, aos 77 anos, cumpre uma pena de 150 anos.

Elio Gaspari 

Século XXI


Falam de tudo como se a razão
lhes ensinasse desesperadamente
a mentir, a lançar
sem remorso nem asco um novo isco
à espera que alguém morda
e acredite nessa liturgia
cujos deuses são fáceis de adorar
e obedecem às leis do mercado.

Falam desse ludíbrio a que chamam
o futuro
como se ele existisse
e as suas palavras ecoam
em flatulentas frases
sempre a favor do vento que as agita
ao ritmo dos sorrisos ou das entrevistas
em que tudo se vende
por um preço acessível: emoções
& sexo & fama & outros prometidos
paraísos terrestres em horário nobre
- matéria reciclável
alimentando o altar do esquecimento.

O poder não existe, como sabes
demasiado bem - apenas uma
inútil recidiva biológica
de hormonas apressadas que procuram
ser fiéis aos comércio
dos sonhos sempre iguais, reproduzindo
sedutoras metástases do nada
nos códigos de barras ou nos cromossomas
de quem já pouco espera dos seus genes.
Fernando Pinto do Amaral

Pobreza prejudica desenvolvimento do cérebro na infância


A pobreza atrapalha o desempenho escolar. Essa laje que prejudica as crianças que crescem em famílias com problemas financeiros é bem conhecida. Enquanto se trata de responder aos múltiplos fatores que provocam o problema, está começando a se consolidar uma nova variável que ajuda a explicá-lo: o desenvolvimento cerebral das crianças em situação de pobreza. Um novo estudo nessa direção afirma que a massa cinzenta se desenvolve de maneira insuficiente durante uma infância cheia de carências.

O trabalho mostra que as estruturas cerebrais destinadas a processos críticos da aprendizagem são vulneráveis às circunstâncias ambientais da pobreza, tais como o estresse, a baixa estimulação e a alimentação. “O desenvolvimento dessas regiões do cérebro parece sensível ao ambiente e à criação dos pequenos”, concluem os autores do estudo publicado na revista JAMA Pedriatics. Tanto que os autores do estudo apontam que esses problemas de desenvolvimento cerebral explicariam até 20% do baixo desempenho escolar das crianças com poucos recursos.

Os pesquisadores, das universidades de Michigan, Duke e Wisconsin (EUA), analisaram o desenvolvimento cerebral das crianças a partir de ressonâncias magnéticas realizadas durante a infância e descobriram que a massa cinzenta do cérebro era sensivelmente menos desenvolvida em meninos e meninas pobres. Mais especificamente, a massa cinzenta do lobo frontal, do lobo temporal e do hipocampo era até 10% menor em crianças criadas abaixo da linha da pobreza dos EUA.

Luta titânica

Talvez o Brasil esteja virando a página da impunidade, sem que tenhamos plena consciência da enorme dimensão disso.

A grande lição da operação Lava-Jato é essa: a lei vale para todos. E cadeia não foi feita apenas para quem comete crime, é pobre e negro.


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Para ela está indo também o pessoal da Casa Grande que sempre se julgou intocável e, por isso mesmo, viciou-se em assaltar o erário público. A primeira condenação de membros do alto escalão das empreiteiras, os três diretores da Camargo Corrêa, condenados por pagar propina, formação de cartel, fraudar licitações e contratos com a Petrobrás, sinaliza o advento de um tempo novo.

A quebra de paradigma aconteceu com o julgamento do Mensalão. De lá para cá o processo avançou, não de forma indolor.

Há uma luta titânica entre instituições republicanas e os interesses das oligarquias (velhas ou novas), encrustadas na máquina do Estado. Contra o juiz Sérgio Moro, contra a Polícia Federal e contra o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, movem-se forças poderosíssimas.

A Lava-Jato já foi acusada de tudo. De ser uma trama golpista, de ser produto da mente insana de um juiz, de atentar contra os Poderes Executivo e Legislativo e os direitos individuais, de ser instrumentalizada para a recondução do Procurador Janot. E, pasmem, de fragilizar quem aderiu à delação premiada pela via da inexistente tortura psicológica.

Admirável como cada instituição não se intimidou, comportando como manda a Constituição. Nada de prisões aparatosas, de erros processuais que poderiam levar o STF a anular a operação, como aconteceu no passado.

Ao contrário. Os inquéritos e processos foram muito bem instruídos, sem brechas do ponto de vista legal, fartamente documentados, com rígida observação do foro privilegiado.

Balela essa conversa de que eles se baseiam apenas na delação premiada. Ou alguém acha que três ministros do Supremo, de diferentes tendências, assinariam expedição de busca e apreensão em residências de senador, de ex-presidente, de deputados, sem fortes evidências de delitos cometidos?

Tem sido um aprendizado para um país acostumado à pirotecnia, à lerdeza da Justiça e à inoperância das instituições; essas irmãs gêmeas da impunidade. Digno de nota a postura do ministro-relator Teori Zavaski. Discreto, só se pronuncia nos autos, como deveriam fazer todos os membros da Suprema Corte.

País em manutenção (Foto: Arquivo Google)

Não subestimemos, claro, as forças de resistência, até porque elas são produtos de uma simbiose perversa entre o eterno capitalismo parasitário e uma nova nomenclatura que ascendeu ao paraíso com a chegada de Lula e do petismo ao poder.

E não dá para ignorar o espírito de corpo, o instinto de sobrevivência no Parlamento.
Mas quem se acostumou com a fantasia, quem sempre apostou na perpetuação da impunidade, quem meteu a mão na lama acreditando que não daria em nada, rema agora na nau dos desesperados, correndo o risco de passar longos anos atrás das grades.

Essa possibilidade explica o grande número de delações premiadas na Lava-Jato. Elas tendem a aumentar com as primeiras condenações de quem se julgava intocável.

É cedo, muito cedo, para maiores comemorações.

Ver que as condenações do Mensalão não foram um “ponto fora da curva”, é um alento. Por aí, a descrença nas instituições pode ser superada e a esperança pode voltar a pulsar no coração dos brasileiros.

Presidente é passageira do trem desgovernado da crise

Imaginem uma peça em que o enredo ocorre simultaneamente em vários palcos. Pois bem, temos uma situação assim em Brasília. A crise tem aspectos institucionais, partidários, ideológicos, éticos e pessoais.

Estamos em uma espécie de briga de faca em quarto escuro no qual todo mundo briga com todo mundo. Salva-se a oposição, até mesmo por não estar se posicionando agressivamente. E ela ainda não tem lanterna para iluminar o quarto escuro e apontar rumos.

A briga é autofágica. O lulismo foi gradativamente destruído pela presidente Dilma Rousseff e acabou em uma grande confusão. A política é “meio” PMDB, e a economia é “meio” PSDB. Tudo temperado por uma rara e peculiar combinação da tradicional incompetência política do governo com a crise econômica e fiscal e, ainda, com os efeitos devastadores e tóxicos da operação Lava Jato. O pior de tudo é a incapacidade do governo de fazer as leituras corretas a tempo e a hora.

Temos uma crise de relacionamento entre o governo e o Congresso; entre o Congresso e o Judiciário; entre o Judiciário e o Executivo; entre os aliados da base política; entre os membros da equipe econômica; entre os ministros e o Palácio do Planalto; entre a Casa Civil e a coordenação política; e, ainda, entre Dilma e o ex-presidente Lula. Ambos se dedicam ao esporte de falar mal um do outro pública e diariamente.

Fica claro que, pelo tamanho e pela diversidade da crise, o governo não tem a menor condição de resolvê-la sem descer do salto alto e buscar o entendimento com todas as forças políticas relevantes e com as principais instituições. O governo deve se reinventar para conseguir – o que é incerto – chegar a seu termo. Não há, ainda, essa percepção. Desde 2013, Dilma começou a perder o controle da agenda e nunca mais conseguiu retomá-la. Ela é passageira em um trem desgovernado.


A política é a única forma de resolver a crise instalada. Por meio dela se consegue aprofundar o ajuste fiscal, assimilar os efeitos da Lava Jato e assegurar a devida independência dos Poderes. Mas é justamente na arte de fazer política que o Palácio do Planalto apresenta sua mais grave deficiência, compensada pela presença do vice-presidente Michel Temer. Sem ele, o governo já teria naufragado.

O Planalto deve reconhecer que não tem mais o controle dos fatos e que a sua antiga hegemonia foi destruída por sua profunda incompetência e arrogância política, demonstradas até o posicionamento de Temer como coordenador político. Aliados foram abandonados. Compromissos não são cumpridos. A disposição para conversar continua insuficiente.

O diálogo com a sociedade foi relegado a uns poucos. A presidente vive num castelo, isolada do mundo e com pouco acesso às notícias e análises. Afinal, ela só lê o clipping do clipping do clipping, filtrado de tudo que possa aborrecê-la e tirá-la do seu equilíbrio emocional. Erroneamente, avalia que as turbulências da crise são golpes de vento ou tempestades em copo d’água, e não decorrentes de uma soma inacreditável de erros praticados desde 2011.

Caso o governo conseguisse minimamente estabilizar as expectativas, poderia retomar o controle parcial da agenda e caminhar para tempos menos turbulentos. É hora de Dilma decidir se vai tratar de governar com o que ainda tem de apoio ou se destruir administrando heranças malditas dela e dos outros. O impeachment, antes improvável, se viabiliza a cada dia que passa.

A saída que se apresenta no momento não é a saída da crise. É apenas uma alternativa para que o governo comece a funcionar melhor. A reinvenção implica fazer uma ampla reforma ministerial dos quadros mais essenciais que não correspondem ao momento político. Não é difícil identificar que nomes devem sair. O duro é saber quem quer entrar na fogueira.

Em nome dos ladrões de galinha

Merecem o Prêmio Nobel da Justiça, se um dia vier a ser inventado, os integrantes do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal e demais entidades empenhadas na Operação Lava-Jato. Os mesmos que antes acionaram os processos do mensalão. Cumpriram e cumprem seu dever apesar de obstáculos e pressões, levando montes de corruptos e corruptores para a cadeia.

Feito o preâmbulo, vale passar às peculiaridades, nem sempre tão elogiáveis. Tem empresários condenados no mensalão passando apertado, mas a maioria, nem tanto. Dos oriundos da classe política, todos estão em casa, mesmo submetidos a penas variadas, cumpridas fora da cadeia. O mesmo vai acontecendo com réus do chamado petrolão. Vigaristas que meteram a mão nos dinheiros públicos encontram formulas para não cumprir as pesadas penas a que foram ou serão condenados. Beneficiados pela delação premiada e outros artifícios da lei, gozam do privilégio de ficar presos em suas luxuosas residências, no convívio de suas famílias e de seus amigos, comendo (e bebendo) do bom e do melhor, com ou sem tornozeleiras. Por tempo curto dormiram nas penitenciárias.

Não há como deixar de reconhecer a existência de condenados de primeira classe, ao tempo em que os de segunda, os ladrões de galinha permanecem no abominável sistema penal que nos assola. Os privilegiados sofreram e ainda sofrem, é claro, o desconforto e o constrangimento moral das condenações e, possivelmente, da perda de parte de seus bens, mas não de milionários padrões de vida. Não dá para comparar sua sorte com a dos milhares de presos comuns. Dirão os ingênuos que a causa está na lei, ao conceder tantos recursos e vantagens a quem possuir bons advogados. A culpa não é dos juízes que aplicaram as sentenças. Mais ou menos.

Chama a atenção, por exemplo, Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, pivô de toda a roubalheira na estatal, condenado a mais de 20 anos de prisão, mas destinado a cumprir no máximo dois anos no regime semiaberto domiciliar. Ou Alberto Yussef, doleiro e distribuidor da tramóia, permanecer só três anos em regime fechado, apesar de condenado a oito anos e três meses. Assim como eles, uma legião de privilegiados que tendo recebido ou estando por receber pesadas condenações, tornarão letra morta a voz da Justiça. .

Os crimes de fraude em licitações, corrupção passiva, lavagem de dinheiro, formação de cartel, superfaturamento, desvio de recursos públicos, tráfico de influência e outros serão menos graves do que pular a cerca do vizinho, entrar no galinheiro e levar algumas penosas para alimentar a família?