sábado, 7 de março de 2015

O que fazer? E quem está governando?

 Recebo e-mail de um grande amigo que me faz a pergunta título deste artigo, já que, segundo ele, tenho conseguido fazer razoáveis diagnósticos sobre a crise no país. Respondo: não sei.

De meu ângulo, às vezes privilegiado para saber das coisas, já que passo a maior parte do meu tempo em Brasília, às vezes é terrível, porque boatos é que não faltam. Posso afirmar que não consigo enxergar um palmo adiante do meu nariz. Só sei que a situação é gravíssima e pode ainda piorar.

Alguns têm falado em impeachment da presidente. Consulto a Constituição Federal, e meu desânimo só aumenta: na linha de sucessão se encontram Michel Temer, Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Ricardo Lewandowski. A meu ver, um time para levar qualquer seleção a uma fragorosa derrota. Conheço de perto dois deles e sei de que estou falando. Os outros tenho acompanhado em suas iniciativas na Câmara e no Supremo. Não tenho por que nutrir qualquer esperança de melhoria.

Em relação à vacância sucessiva de presidente e vice (por renúncia, morte ou suspensão de direitos políticos), o sucessor, na ordem indicada, chamará novas eleições no prazo de 90 dias após a vacância definitiva (a do antigo vice) nos dois primeiros anos do mandato e nos dois últimos a eleição será pelo Congresso Nacional.

Certamente, repudio veementemente os que fazem apelo às Forças Armadas. Aliás, só para recordar, passei os melhores anos de minha vida, dos 20 aos 41 anos, sob o tacão da ditadura – isso supondo que esta tenha terminado em 1985 e não venha se prolongando em vários aspectos por meio da malfadada “transição pactuada”, inventada por gente como Tancredo Neves. Não preciso mais para não querer nada disso.

O atual Congresso Nacional, com suas bancadas da bala, do agronegócio, dos evangélicos, dos parentes e de reacionários de toda espécie, também não me autoriza a ter esperança de que venha alguma proposta minimamente articulada. Faz dó ver como parecem baratas tontas antigos partidos de gente séria, mesmo à direita.

Se as elites econômicas brasileiras são extremamente predatórias, as elites políticas são macunaímicas, e mesmo o que andam fazendo ao mandar Dilma “praqui” e “prali”, inaugurando creches e pontes, com seu novo visual mais enxuto (pelo regime que anda fazendo), os caciques que vêm se reunindo com as bancadas do PT e do PMDB não resolvem nada, a não ser ressuscitar mortos-vivos, como Sarney, convidado para o jantar no palácio de Temer com a presença de Lula.

E, para terminar: afinal, quem está governando? Joaquim Levy? Ou seria Lula? Por que não sai a malfadada lista dos políticos da Lava Jato ou dos donos de contas no exterior via HSBC? Ainda por cima, dizem que o procurador geral da República, Rodrigo Janot, está sendo ameaçado de morte. Afinal, nem custa perguntar: por que Joaquim Barbosa se aposentou tão cedo? E por que Dilma não o substitui?

Ao amigo que me escreveu só posso mandar estas mal traçadas linhas. Nada sei sobre o que vai acontecer conosco. Só sei é que nisso é que dá inventar um “poste”, batizá-lo de “grande gestora” e vender o peixe aos incautos.

Ai, que inveja do Uruguai e do Vaticano!

O deboche é perigoso

A sensação é de que a política está doente: não ouve, não vê, nem raciocina

O presidente da Câmara oferece aos deputados o direito de custearem viagens de suas esposas com recursos públicos e apresenta o projeto para um novo edifício ao custo de R$ 1 bilhão; um juiz é fotografado dirigindo o carro de luxo de um réu; uma escola de samba ganha o título graças a financiamento de um ditador estrangeiro; a presidente da República coloca a culpa da degradação da Petrobras no antecessor que deixou o governo há 12 anos; outro ex-presidente ameaça colocar um exército na rua; o ministro da Justiça recebe advogados de réus do maior caso de corrupção da história; o ministro da Fazenda adota medidas totalmente opostas às promessas de campanha da candidata; o governo adota o slogan “Pátria educadora” mas corta parte importante do orçamento para a educação; as tarifas de eletricidade reduzidas no período eleitoral são substancialmente elevadas logo depois da eleição, o mesmo acontecendo com os preços dos combustíveis.

Como se esses deboches ativos não bastassem, a classe política se comporta com um generalizado deboche passivo: não reconhece a dimensão da crise, não debate suas causas nem aponta caminhos para reorientar o rumo do Brasil.

A sensação é de que a política está doente: não ouve, não vê, nem raciocina.

Não ouve as vozes do futuro chamando o Brasil para um tempo radicalmente diferente, em que a economia deverá ser baseada no conhecimento, produzindo bens de alta tecnologia; em que a principal infraestrutura deverá ser educação, ciência e tecnologia.

Não ouve as vozes do exterior que mostram que não há futuro isolado e que precisamos agir para ingressar no mundo da competitividade internacional, na convivência econômica e cultural com o mundo global. E, pior, não ouve o clamor das ruas que indicam a necessidade de romper com os vícios do presente e reorientar o rumo para um futuro com economia dinâmica e integrada, e uma sociedade harmônica e sustentável.

A política tampouco vê as dívidas que os políticos têm com o país: com os pobres sem chance, com as crianças sem futuro e os jovens sem emprego; com a natureza depredada; a dívida decorrente da corrupção generalizada. Ao não reconhecer suas dívidas, a classe política não vê a raiva que está nas ruas.

Tudo isso leva a um comportamento esquizofrênico, pelo qual, de tanto vender ilusões, o governo e seus partidos passam a acreditar nelas. E os demais políticos se acostumam a elas.

Talvez esta seja a explicação para o deboche: não vemos, não ouvimos, nem pensamos. Até que o fim da paciência do povo nos desperte. Mas o custo poderá ser muito alto para a democracia, para a eficiência econômica, para a harmonia social e a sustentabilidade ecológica. Salvo se o despertar vier antes, com a descoberta de que o deboche é muito perigoso, como percebeu o presidente da Câmara, forçado a voltar atrás em sua decisão inicial.
Cristovam Buarque

sexta-feira, 6 de março de 2015

País maravilha

Somos um país, mas não somos uma nação. A ignorância é o terreno fértil para a propagação de ideias conservadoras – o escritor sérvio Danilo Kis, em seu romance Um túmulo para Boris Davidovich, afirma que quem lê vários livros busca a sabedoria, quem lê um único, busca a ignorância. O desdém pela cultura, que atinge o Brasil de alto a baixo, envenena nossa percepção: aqui, o que é de todos, não é de ninguém. Todos nos aferramos às nossas pequenas conquistas e, para não perdê-las, abraçamo-nos a qualquer discurso reacionário, que ao fim e ao cabo, prega sempre o egoísmo, o cinismo, a mediocridade

Fidel


Fidel morreu (um início óbvio para um texto, naturalmente). Chegou ao inferno (outra obviedade, mas não tem jeito, é inerente à narrativa vindoura).

Aí, o Diabo ficou de frente para El Comandante e mando

u essa diabólica frase: “Como tu és o bacana lá de Havana, vou te dar uma possibilidade a mais aqui”.

El Comandante fez aquela cara de revolucionário macho-alfa de la Sierra Maestra que só ele sabia fazer (e o Korda sabia fotografar).

Entretanto, apesar de curtir um discursozinho de 17 horas de duração, Fidel ficou estranhamente na dele, dentro de seu uniforme Adidas vintage.

O Diabo prosseguiu: “É o seguinte. Apesar de nunca ter aberto isso para ninguém – nem para a princesa Diana –, vou te fazer uma concessão. Tu mereces: décadas e décadas em cima da rapadura… Merece demais!”.

O comunista-mór deu um risinho.

“Vais poder escolher se quer ficar aqui comigo ou lá no céu com aqueles querubins consumistas. É pegar ou largar!”, bradou Satã.

Fidel falou pela primeira vez, num quase sussurro: “Conte-me um pouco sobre cada opção”.

“O céu”, disse o Diabo, aboletando-se numa mesa em chamas, “além de ar condicionado, tem moeda sólida, cartão de crédito, Disney World e cada mulher que até você, octogenário e alquebrado desse jeito, ia querer entrar no Viagra para desfrutar”.

“E o inferno?”, perguntou um Fidel já mais desenvolto.

O Demônio soltou uma gargalhada tão roufenha que o bafo de enxofre fez o ditador latino-americano engulhar: “O inferno você já conhece!”.

“Como assim, já conheço?”, interpelou o Torquemada latino ligeiramente confuso.

“É que nem Cuba: todo mundo é igual, tem direito à mesma ração, aos mesmos hospitais, às mesmas escolas. As mulheres também são lindas, só que quem mora no inferno não pode ter relações sexuais com elas. Só os visitantes…”

A sorte estava lançada. Satanás lançou um olhar mefistofélico na direção do dirigente cubano. Este analisava seu destino com a frieza e o materialismo típico de um Netchaiev dostoievskiano.

“O tempo acabou”, vociferou o Cramulhão. “Céu ou inferno?” Sem titubear, Fidel respondeu: “céu”.

O Diabo não acreditou no que ouvia: “Mas e a Revolução?”.

Fidel concluiu, antes de subir para o firmamento: “Hay que endurecerse, mas com financiamento em 120 meses e juros de 0,5% é mais fácil…”

A lenda do ódio aos pobres

Entre no YouTube e veja os últimos 10 anos de discursos de Lula em cima de palanques e tente achar uma palavra de concórdia, de união nacional, um só gesto de grandeza
Os ricos odeiam o PT porque ele faz um governo voltado para os pobres, disse o antigo ministro tucano Bresser Pereira, e provocou frenesi nas redes sociais.

Fiz a respeito um inocente comentário, dizendo que os pobres amam o autor do Plano Bresser, que congelou salários e achatou poupanças. Fui admoestado pela minha rasa crítica, e o conceituado jornalista Luiz Fernando Emediato, dono da editora Geração, disse que esperava mais, e pedia que usasse argumentos para contestar a entrevista de Bresser.

Peço licença para registrar o que argumentei:

Ele acha que os ricos odeiam o PT. Ele argumentou o que sobre isso? É o que ele acha. Não é o que eu acho. Eu acho que o PT está se fazendo odiar e não é só pelos ricos, pelos remediados, pela classe média, pelos pobres ou por qualquer pessoa que tenha alguma coisa dentro do cérebro.

E por que? Por que está fazendo uma gestão economicamente desastrosa por causa do voluntarismo da presidente da República que tem a crença arraigada e inextirpável que o mercado é ela. Tão desastrosa que temos o pior crescimento da história depois de Floriano Peixoto e Collor.

E temos um desastre tão grande nas contas públicas que foi preciso chamar um Chicago Boy para consertá-las, apesar do nariz torcido da chefe.

E também porque cometeu um estelionato eleitoral sobre o qual não vou me estender demais, mas até os paralelepípedos da rua sabem que Dilma aplicou o velho truque de atribuir ao adversário todas as coisas que começou a fazer depois de empossada.

E também porque o partido tem no seu DNA o vírus totalitário, claramente confessado em seu desejo de hegemonia, expresso numa resolução de seu diretório nacional, e também em sua indomável vontade de controlar o direito de livre expressão através da metáfora da "regulação econômica".

Leia mais o artigo de Sandro Vaia 

Gesto de economia

Só devíamos tirar o chapéu para as pessoas honestas, unicamente para aquelas que merecem a nossa saudação. E seria um hábito muito econômico
Eduardo Frieiro

Dilma pensou (?) que iria intimidar Renan e Cunha

Lista grande
A arrogância, a prepotência e o despreparo político da presidente Dilma Rousseff destruíram o que restava do governo dela, pois sem base parlamentar ninguém consegue administrar este país, conforme já ficou provado nos casos dos presidentes Jânio Quadros, João Goulart e Fernando Collor.

Como se sabe, Jânio nunca ligou para partidos. Tentou imitar Fidel Castro e renunciou, na ilusão de voltar ao poder nos braços do povo, e nada disso aconteceu. Jango era bem intencionado, mas despreparado, cometeu muitos erros, sua base parlamentar se diluiu e foi logo derrubado pelo golpe civil/militar. E Collor era como Jânio, também não ligava para partidos, julgava-se inatingível.

Agora, a inacreditável presidente Dilma Rousseff repete o erro desses antecessores. Despreza acordos políticos, não respeita os partidos de sua coalizão, ataca os próprios aliados e agora está totalmente isolada, sem a menor condição de continuar governando.

Ao mandar que os assessores do Planalto vazassem a informação de que os nomes de Renan Calheiros e Eduardo Cunha constam da lista de envolvidos no esquema de corrupção da Petrobras, ingenuamente Dilma Rousseff pensou (?) que iria intimidar os presidentes do Senado e da Câmara, para submetê-los à sua vontade.

A justificativa, aparentemente, era esplêndida. O Planalto vazaria a informação de que, por solidariedade e companheirismo, Dilma fizera a gentileza de alertar Renan e Cunha sobre a inclusão de seus nomes na lista, para que pudessem começar logo a se defender. E os dois nem poderiam reclamar, pois Dilma apenas estaria tentando ajudá-los…

Mas acontece que Renan e Cunha não nasceram ontem. São duas raposas políticas de larga experiência. Se Dilma tivesse informado a eles, sigilosamente, a inclusão na lista, eles com toda certeza ficariam agradecidos e poderiam até ajudar o Planalto a reconstruir a base aliada, fragmentada desde a atuação dos aloprados de Mercadante que tentaram derrotar Eduardo Cunha na eleição da Câmara.

É claro que Renan e Cunha imediatamente perceberiam que o erro grosseiro e grotesco de Dilma foi proposital. O Planalto fez questão de vazar ardilosamente a notícia altamente desabonadora, embora em Brasília todos saibam que o ministro Teori Zavascki, relator dos processos no Supremo Tribunal Federal, não iria divulgar de imediato os nomes dos 54 listados pelo procurador Rodrigo Janot. E até teve o cuidado de avisar que somente vai fazê-lo de uma vez só. Todos juntos, para não prejudicar uns mais do que os outros.

E como procedeu o Planalto? Simplesmente fez o oposto do que sugeriu Zavascki, vazando propositadamente para a imprensa apenas os nomes de Calheiros e Cunha, sem que se tenha uma maior noção das provas sobre o envolvimento dos dois no esquema de corrupção montado pelo PT para se eternizar no Poder.

Com dizia o genial Chico Anysio, na pele de seu personagem “Bento Carneiro”, o vampiro brasileiro, a vingança de Renan e Cunha “será maligna”. A base aliada foi definitivamente para o espaço, não existe mais a menor condição de governabilidade. Para o bem de todos e felicidade geral da nação, esta senhora deveria renunciar e ir cuidar do netinho.

A fossa presidencial

PT, um partido definitivamente fora da lei

Os discursos habituais do ex-presidente Lula constituem expressões de boquirroto. Coisas de falastrão. Manifestações de incontinência verbal. Estou falando difícil para não escrever o que realmente sinto vontade... Então, vai lá, no "popular": ele diz muita besteira. O fato é que depois de ouvi-lo durante tantos anos, habituamo-nos a seus atropelos de forma e conteúdo. Não se poderia esperar nada mais aprimorado de alguém com o perfil de nosso ex-presidente. Não há como Lula ser melhor do que Lula, mesmo porque nunca lhe ocorreu fazer algo melhor de si mesmo. Portanto, ele pode passar a vida repetindo que é filho de uma mulher analfabeta, incapaz de fazer um "O" com um copo, pois sempre encontrará quem ria de tal grosseria, e mesmo quem reconhece o desrespeito contido na frase acaba aceitando-a como "coisas do Lula".

No dia 23 de fevereiro, ele participou de um ato em defesa da Petrobras. Enquanto assistia o vídeo com a fala do ex-presidente fiquei pensando no velório do prefeito Celso Daniel e nas coisas que a alta nomenclatura petista dizia naqueles primeiros momentos, logo após o crime. Espero que a entendam a analogia: Petrobras, Celso Daniel, velório, lágrimas, culpa aos adversários. Pois é. Lula, no evento sobre a Petrobras, trovejava sua indignação com as zelites que não suportavam a prosperidade dos pobres. O motivo pelo qual as elites veriam com tão maus olhos uma suposta prosperidade dos mais humildes fica envolto na névoa do mais denso mistério. Havendo normalidade das funções mentais é muito fácil entender que a prosperidade de todos beneficia a todos e a todos faz felizes. O inverso, como Lula pretende sugerir, só pode ser aceito e aplaudido por imbecis de prontuário médico, com foto, diagnóstico e medicação.

Pois bem, nesse discurso, lá pelas tantas, referindo-se às mobilizações da oposição contra o governo da presidente Dilma, que nem ele haverá de considerar probo e bem sucedido, Lula afirmou: "Também sabemos brigar. Sobretudo quando o João Pedro Stédile colocar o exército dele do nosso lado". Foi delirantemente aplaudido pelo público que se concentrava no pequeno auditório.

Desta feita, as coisas mudam de figura. Não se trata de fanfarronada. Não é besteira. Em uma dúzia de palavras, Lula reconheceu vários fatos: 1) o MST é um "exército"; 2) tem comandante; 3) tem regimento próprio e fora da lei; 4) obedece ordens do partido e serve a seus fins políticos. Ora, a Lei dos Partidos Políticos (Lei Nº 9.096 de 29 de setembro de 1995), em seu artigo 28, estabelece quatro motivos para o cancelamento do registro e do estatuto de uma organização partidária. Um deles é estar subordinado a entidade ou governo estrangeiros (Foro de São Paulo, por exemplo) e o outro é "manter organização paramilitar".

O PT, senhores membros do Ministério Público Eleitoral, se enquadra em pelo menos duas das quatro situações previstas na lei! E quanto à última, a milícia petista do MST tem bandeira, boné, orientações para ação guerrilheira, centros de treinamento, e seus membros, quando atacam, brandem foices de cabo longo, luzidias como baioneta de desfile. E Lula concitou sua milícia ao estado de prontidão. Estão esperando o quê, senhores do Ministério Público Eleitoral?

 Percival Puggina

O golpe que não é golpe

A batalha de Itararé entrou para a história, mesmo registrando mortos, como a batalha que não houve. Seria a primeira e a única em que entre mortos e feridos salvaram-se todos, simplesmente por que não aconteceu.

O conflito concedeu a Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, (1895-19712) o também inédito título de nobreza único da República: Barão de Itararé, um dos mais nobres críticos da avacalhada política nacional.

Tantos anos passados já ouvimos troar os canhões do Golpe da Oposição. Sem armas, sem exército e apenas com luvas de pelica e não me toques, que sou virgem, estaria orquestrando uma revolução. Capaz de estremecer a democracia popular petista. Segundo as mais bem desinformadas fontes vermelhas de raivas seria o grande golpe comparável ao Armagedon. No dicionário de Glauber Rocha, seria o Santo Guerreiro contra o Dragão da Maldade.

Espera-se novo fiasco histórico. Desta vez haverá um exército Brancaleone do MST partindo contra um adversário de superpoderes que não existe.

Mas aí está o Golpe do Mestre. É uma receita colorida: dizem que os outros vão tomar a poupança, e tomam eles; dizem que os outros vão governar com banqueiros, e lá vão eles enriquecer as burras dos banqueiros; os outros vão acabar com os direitos trabalhistas, acabam eles.

Agora vem o “golpe”. Já se vê quem está disposto a mais uma vez jogar a receita no caldeirão das crises que vão varrer o país.

O golpe é dos outros, mas quem verdadeiramente se prepara e ameaça derrotar a democracia, fazendo o diabo como nunca ante na História, para, custe o que custar se manter no governo, são os esfarrapos petistas. Osso bom cachorro não larga.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Quem ganha e quem perde com a 'lista maldita'?

Sem dúvida, perde a economia brasileira. Mas com a força da opinião pública mais exigente e indignada, poderia ressurgir um reforço dos poderes independentes do Estado

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, finalmente enviou a misteriosa e temida lista maldita dos políticos que deverão ser investigados pelas acusações que pesam sobre eles no maior escândalo de corrupção da história democrática do país: o chamado petrolão.

A caixa de Pandora será aberta pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki. Dois nomes da lista, entretanto, escaparam já na noite desta segunda-feira, dois pesos pesados: o presidente do Senado, Renan Calheiros, até esta segunda fiel escudeiro do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma Rousseff, e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ambos do maior partido aliado do Governo, o PMDB, que foi o fiel da balança em todos os Governos do período democrático e ambos recém-escolhidos pelo Congresso.

Hoje os brasileiros já colocam em segundo lugar de suas prioridades, depois da saúde, o tema da corrupção política. Agora, a vida de corruptos e corruptores será mais difícil
No resto da lista figurarão outros nomes de destaque da política brasileira. Juntos formam essa espécie de maldição gestada no rico e apetitoso ventre da Petrobras, a maior e mais prestigiada empresa brasileira, orgulho nacional e internacional, hoje vendida a preço de liquidação.

A pergunta que muitos se fazem, entre chocados e indignados, é quem ganha e quem perde nesse carrossel de corrupção político-empresarial que conseguiu deixar em frangalhos a melhor joia industrial do país.

Sem dúvida, perde a Petrobras, mas também toda a economia do país, já que a petroleira responde por um bom quinhão do PIB nacional. Perde credibilidade a classe política, começando pelo partido do governo, o PT, sob cuja responsabilidade a empresa esteve nos últimos 12 anos, quando foi sistematicamente saqueada. Perdem credibilidade vários partidos aliados do governo que participaram ativamente do banquete e, possivelmente, até algum partido da oposição.

Enquanto não se conhece oficialmente a lista dos desonestos que podem acabar na cadeia, já não resta dúvida de que, enfim, como um feliz paradoxo, quem ganha é a democracia brasileira em que o poder e a independência tanto da Procuradoria-Geral da República, como da Polícia Federal, junto com a tenaz atuação do jovem juiz Sérgio Moro, foram capazes de revelar o tumor encravado nas vísceras da Petrobras, que era uma empresa modelo de tecnologia avançada e acabou invadida e violada pelo poder político em conivência com importantes empresas nacionais.

Cabe agora ao Supremo Tribunal Federal atuar com a mesma independência, seriedade e coragem. E por último ou, talvez, antes de tudo, pelo menos boa parte do mérito de poder chegar até aqui na investigação corajosa e independente se deve à maior conscientização revelada ultimamente pela sociedade brasileira, que, ao longo de todo o tempo de investigação, vigiou e estimulou a justiça e a polícia para que os culpados fossem descobertos, sem se deter nem mesmo diante de políticos ilustres.

Hoje, pela primeira vez, os brasileiros já colocam em segundo lugar de suas prioridades, depois da saúde, o tema da corrupção política. Os governantes sabem e têm medo disso e, de agora em diante, a vida de corruptos e corruptores será mais difícil.

Assim, no momento mais crucial da crise política e econômica que sacode o país, com a força da opinião pública cada dia mais exigente e indignada, poderia ressurgir depois do escândalo uma maior estima e um reforço dos poderes independentes do Estado. Poderá ser uma vacina que impeça o país de cair mais fundo nas tentações populistas de querer domar os poderes independentes do Estado, cujas consequências são cada vez mais evidentes em países onde esses poderes, junto com a liberdade de expressão, estão sendo pisoteados.

Enfim, um a zero para o Brasil, que está sendo capaz de defender e reforçar os valores de sua democracia, às vezes ferida, mas que luta para continuar viva.
Juan Arias

Vem aí o dia do vamos ver?

Dilmas, Obiangs, Maduros e Kirchners podem delirar no seu mundo fantástico. Mas vai chegar para eles o dia do vamos ver, do acabou a brincadeira, a Quarta-Feira de Cinzas do delírio autoritário. Nesse dia as pessoas, creio, terão alguma complacência conosco que passamos todo esse tempo dizendo que dois e dois são quatro. Constrangidos com a obviedade do nosso discurso, seguimos o nosso caminho lembrando que a opressão da Guiné Equatorial é a história escondida no Sambódromo, que o esquema de corrupção na Petrobras se tornou sistemático e vertical no governo petista
 Fernando Gabeira

Abandonada por todos


Para cada lado que Dilma se volte, encontra um adversário, até um inimigo. Raras vezes um governante enfrentou situação assim. Faltando quase quatro anos para o fim de seu mandato, a pergunta é se vai aguentar, se vai mudar ou se vai sair.

Madame comprou briga com os presidentes da Câmara e do Senado. Renan Calheiros e Eduardo Cunha dispõem de meios para tornar a vida e a administração dela um inferno. Importa menos se a recíproca for verdadeira, mas a verdade é que os comandantes do Congresso estão em guerra aberta e declarada contra Dilma. Da devolução da medida provisória da desoneração das folhas de pagamento à ausência num jantar no Alvorada e à recusa de atender telefonema da presidente, Renan demonstra uma intransigência óbvia quando declara aos jornalistas estar farto da desconsideração do Planalto para com o Senado. Cunha já deixou clara a disposição de rejeitar projetos do governo. O grave é que ambos contam com o apoio maciço das respectivas bancadas, com gente até do PT.

Quanto aos partidos, os da oposição deitam e rolam sem qualquer aceno de entendimento com Dilma, mas salta aos olhos que ela perdeu o PMDB e penduricalhos de sua base na votação de qualquer iniciativa do ajuste econômico. Nesse particular, não conta com o PT inteiro e só por milagre deixará de ser derrotada.

O empresariado rejeita até mesmo as medidas que poderiam favorecê-lo. Imagine-se a reação diante da extinção da desoneração das folhas de pagamento e do anunciado imposto sobre grandes fortunas. Paulo Skaf acaba de pôr a Fiesp em armas e as empreiteiras, se não receberem alguns bilhões do BNDES, ampliarão denuncias premiadas e poderão envolver mais companheiros e até seus mentores.

As centrais sindicais, inclusive a CUT, levantaram-se contra a redução de direitos trabalhistas proposta dias atrás, já ocuparam e mais ocuparão os pátios das indústrias para defender o salário desemprego e as pensões das viúvas. Se convocados para apoiar o governo, não aparecerão.

Dos estudantes nem haverá que falar. O desemprego os atinge na moleira e a manifestação prevista para o dia 15 em todo o país não deixará ninguém mentir. Será essencialmente um protesto contra Dilma. A previsão é de milhões de pessoas na rua, nas capitais e principais cidades.

O Procurador Geral da República não quer conversa com a presidente desde que se negou a antecipar-lhe a lista de envolvidos no escândalo da Petrobras. O conceito de persona non grata vale para os dois lados.

No Supremo Tribunal Federal, aumenta o número de ministros que não poupam Dilma por deixar de indicar, desde julho do ano passado, o sucessor de Joaquim Barbosa. Ela vem sendo acusada de desídia e de manobras pouco éticas para permanecer desfalcada uma das Turmas da corte. Se espera contar com os ministros que nomeou, fica a hipótese cada vez mais remota.

Mesmo no seu quintal, a chefe do governo não parece à vontade. Ministros se engalfinham, assim como ministros saltam de banda, deixando claro não se conformarem com as recentes mudanças na estratégia oficial, que era e não é mais de beneficiar os trabalhadores e os pobres. A última paulada nos assalariados menos favorecidos foi o corte no subsídio de luz para cinco milhões de famílias. Nem o vice-presidente Michel Temer pode concordar com tamanha maldade. Se comparecer a conciliábulos palacianos, será para ficar calado.

Falta referir outro personagem, dentro da casa da Dilma, que ao contrário de suas aparições públicas, mais a vem censurando nas últimas semanas: o Lula. Nem é preciso demonstrar o desgaste de um afastamento que, faz pouco, tornou-se ostensivo.

Em suma, a presidente encontra-se cada vez mais sozinha. Se a poeira não baixar, ninguém garante que mantenha o poder até 2018. Está abandonada por todos. Ou terá sido ela que os abandonou?

O tempo dirá

Os sem-terra obedecem ao governo

A presidente Dilma Rousseff nunca se entusiasmou com a criação de novos assentamentos rurais para a reforma agrária. Adotou sempre a ideia de que é mais produtivo melhorar os assentamentos já existentes. O Movimento dos Sem Terra (MST) e outras organizações reagiram inicialmente e acusaram a presidente de abandonar a bandeira da reforma agrária. Com o tempo, porém, se alinharam à nova política. Hoje a luta pela terra não está mais no centro das suas preocupações.

Essa mudança de foco é o tema do artigo “Sem-terra: da centralidade da luta pela terra à luta por políticas públicas”, assinado pelo professor e pesquisador João Fabrini e publicado na mais recente edição do Boletim Dataluta – publicação mensal do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária (NERA), vinculado à Unesp. De acordo com as observações do especialista, os movimentos ”passaram priorizar a luta por políticas públicas, diferente do que ocorria no passado em que as ocupações de terra possuíam centralidade”.

As políticas públicas pelas quais esses movimentos lutam, segundo o autor, visam “dotar o meio rural de condições adequadas de educação, moradia, energia elétrica, internet, comunicação, crédito, agroindústria, inserção da produção camponesa no circuito comercial”.

Em outras palavras, passaram a fazer aquilo que o governo quer. Ou, como diz o autor, a ação deles “coaduna com o projeto atual do governo federal”.

Na prática, o MST concentra esforços para fazer acordos com o objetivo de estender aos assentamentos programas sociais já existentes. Entre eles podem ser citados Programa Luz Para Todos, Programa Nacional de Habitação Rural, Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

O que teria levado os movimentos a redefinirem sua estratégia? O autor aponta fatores conjunturais e estruturais. Menciona, por exemplo, o avanço do capitalismo nas regiões rurais e a diminuição das áreas improdutivas que poderiam ser destinadas à reforma agrária.

Diz ele: “O capital interessou-se pela agricultura com o aumento de ganho de produtividade, pois a produção na terra estaria dando mais ‘lucro’ do que a especulação, minando o rentismo que sempre caracterizou o espaço agrário brasileiro. A elevação dos preços dos produtos de exportação fez os latifundiários dedicarem ou entregarem suas terras à produção, diminuindo a oferta de terras improdutivas que poderiam ser destinadas à reforma agrária.”

Ele também considera a mudança na política do governo, atribuindo-a a dois fatores: “Esse recuo está relacionado ao fato do governo não entender a realização da reforma agrária e a pequena agricultura como parte do projeto de desenvolvimento do Brasil, bem como à atuação política dos setores ruralistas fortemente representados no Congresso Nacional. A aliança pragmática do governo com o setor ruralista para garantir governabilidade da nação colocou um conjunto de obstáculos para as desapropriações.”

Na visão do autor, sem desapropriações os sem terra não se sentem animados a ocupar propriedades rurais.

O autor cita que “enquanto no período de governo Lula e FHC foram desapropriados 48 milhões de hectares e 21 milhões de hectares, respectivamente, no governo Dilma, foram desapropriados apenas 2,3 milhões de hectares”. Em 2013 ocorreram apenas 10 desapropriações de terras para reforma agrária.

Hoje os protestos promovidos pelo MST estão voltados para órgãos do governo, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e sedes de ministérios.

A exceção e a regra

Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o cotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso.
Mas não se esqueçam
de que o abuso é sempre a regra.
Bertolt Brecht

Planalto divulga nome e se entrega


As manchetes informando que, segundo assessores do Planalto (grife-se), os presidentes Renan Calheiros, do Senado, e Eduardo Cunha, da Câmara, estariam no listão de Rodrigo Janot, revelam mais uma "brincadeirinha" na Republiqueta do Brasil. Enfim os mortais cidadãos sabem que tudo no governo petista não passa de jogo de cena.

Só foram "revelados" os dois que se tornaram as pedras no caminho cambaleante da doutora Dilma. Divulgar que estão lá seus nomes já foi o suficiente para mandar recado e desabonar os dois, que disseram não terem sido avisados.

Desvendado com as manchetes, o escandaloso (para não dizer cretino) encontro do procurador Rodrigo Janot com o ministro Cardosão como um passa cá o listão. Aquele que foi apelidado de arrombamento de casa do procurador, num condomínio de alto luxo, com muradas e seguranças, vigilância eletrônica, era mais uma brincadeira. Roubo de um controle de portão de garagem e o cronometrado arrombamento de 8 minutos, só débil mental engole.

Era preciso dar uma desculpa mesmo cretina para o encontro no qual seriam repassados os nomes do bando do Petrolão antes do ministro Teori Zavascki, que agora fica com cara de tacho. A maior autoridade jurídica do país recebe um Top Secret que não é segredo sequer entre a faxina no Planalto. Vão usar e abusar de Teori, juiz que já soltou por duas vezes Renato Duque, indicado pelo PT, das garras do Petrolão.

A grande "revelação" em que Cunha e Renan estão listados é joguinho político para enfraquecer, mais uma vez, a operação Lava-Jato e de quebra o Legislativo que se mostrar contrário. A tropa de choque do Planalto só sabe jogar pra quebrar, vai partir para pintar o diabo.

Se outros nomes estão no Top Secret nem tão secreto, porque não anunciaram, por exemplo, indiciados do PT e do PP? Preferiram os tais assessores planaltinos revelar apenas justamente os chefes do Legislativo para que, inibidos, baixem a cabeça para os desmandos que Dilma ainda pretende implementar na salvação do país, quer dizer, da própria cabeça e da de Lula.

Com o quebra-pau entre Executivo e Legislativo, a piada aqui muito reveladora foi daquele petista que com toda a gravidade se disse contra a quebra de sigilo dos políticos indiciados na Lava-Jato. Mas não foi o próprio PT de sua maior instância, o Planalto, quem já soltou dois nomes? Para bom entendedor, vê-se ainda mais clara a jogada.

O maior problema é a imobilidade de Dilma

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou em campo para tentar resolver uma crise do governo que ganhou proporções imensas. O motivo do enorme tamanho é simples: o imobilismo da presidente Dilma Rousseff. Ela não conseguiu, até o momento, conversar com seus pares e apontar um caminho.

Presa entre as correntes do PT, partido que lhe abriga, mas nunca foi o dela, Dilma parece também estar perdida do ponto de vista administrativo. As denúncias de corrupção na Petrobras estão sendo tratadas como intrigas da oposição. É assim que o PT quer que elas sejam tratadas. Dilma pode até discordar desse posicionamento, mas não tem força política para fazer diferente. Ou, em outra hipótese, talvez não saiba o que fazer de diferente.

A saída, apresentada até aqui, de dizer que vai investigar e punir porque não concorda com o “malfeito” não convence mais ninguém. Mesmo porque, até este momento, ninguém sabe de um só resultado das investigações internas da empresa. O governo parou no caso Petrobras e vê, como se estivesse de longe, a inflação e o desemprego aumentarem. São dois lados da vida cotidiana muito importantes para a população. Quando o bolso não anda bem nada anda bem na vida do cidadão. E não há como o cidadão separar a sua dificuldade individual, provocada por uma conjuntura nacional, dos escândalos e denúncias que aparecem na mídia a todo momento.

Resultado dessa situação: a corrupção é motivo da indignação que cresce na mesma medida em que o dinheiro para o supermercado fica mais curto. E não é possível responsabilizar o cidadão por nada disso. Afinal de contas, o brasileiro fez tudo o que estava a seu alcance. Quando pediram para ele ir às compras e confiar na economia do país, ele foi. Quando disseram para ele, ainda no governo Lula, que as denúncias de corrupção (no caso do mensalão) eram algo pontual, ele acreditou e reelegeu o presidente petista.

Em outras palavras, o brasileiro quer é que alguém se responsabilize por tudo que está sendo denunciado e, mais do que isso, que apresente uma solução. Não é mais possível manter o jogo de empurra e fingir que está tudo bem.

Quando Lula entra no processo de gestão da crise na condição de ex-presidente e principal liderança do PT, ele também está permitindo que lideranças de outros partidos façam o mesmo. Seria um bom momento para deixar a polarização de lado e PT, PSDB e todas as outras siglas sentarem na busca de uma solução eficiente. Para isso, é preciso admitir que a corrupção é endêmica e já contaminou a todos. Na condição de doentes, os partidos precisam agora da cura. Será assim, ou cada uma das legendas vai sucumbir gradual e lentamente, como já acontece com o PT. A hora é de responsabilidade.

Carla Kreefft

quarta-feira, 4 de março de 2015

O homem que deu R$ 50 milhões para o PT


A Engevix se prepara para detonar o PT.

Gerson Almada, vice-presidente da empreiteira, pediu para marcar um interrogatório com Sergio Moro. Seus advogados já adiantaram o que ele pretende dizer:

"Faz mais de doze anos que um partido político passou a ocupar o poder no Brasil. No plano de manutenção desse partido no governo, […] distribuíram-se cargos […] a quem usou a Petrobras para obter vantagens indevidas para si e para outros bem mais importantes na República Federativa do Brasil”.

Gerson Almada é mais do que um simples executivo.

Na planilha que Pedro Barusco entregou à Lava Jato, ele é indicado como o pagador de propinas da Engevix. O PT recebeu de suas mãos mais de 50 milhões de reais. Só no contrato para o fornecimento de “8 cascos do pré-sal”, por exemplo, Gerson Almada é acusado de ter dado ao PT, através de seu operador Milton Pacovitch, 18,7 milhões de reais.

Se Gerson Almada contar o que sabe, José Dirceu terá de voltar para a cadeia.

Mas as pessoas “bem mais importantes” mencionadas por seus advogados são outras: Lula e Dilma.

O Antagonista

A aula nas escolas


O Brasil não tem medo do PT



Lula vai agir como sempre fez, sem nenhum princípio, sem ética, sem respeito a ordem e a coisa públicas
Em 2015, em meio a muita tensão política, a Constituição de 1988 terá sua prova de fogo. Não há qualquer paralelo com o episódio do impeachment de Fernando Collor. Este já tinha percorrido mais de dois anos de mandato quando foi apeado do poder. E o momento mais agônico da crise foi resolvido em quatro meses — entre julho e outubro de 1992.

Também deve ser recordado que o então presidente tinha um arremedo de partido político, sua conexão com a sociedade civil era frágil — e quase nula com os setores organizados, a relação com o Congresso Nacional era ruim, e com medidas heterodoxas descontentou amplos setores, do empresariado ao funcionalismo público. Sem contar que, em 1990, o país passou por uma severa recessão (-4,3%) e tudo indicava — como efetivamente ocorreu — que, em 1992, teria uma nova recessão.

O quadro atual é distinto — e causa muito mais preocupação. O governo tem um sólido partido de sustentação — que está em crise, é verdade, mas que consegue agir coletivamente e tem presença dominante em governos estaduais e dezenas de prefeituras.

A base congressual é volátil mas, aparentemente, ainda responde ao Palácio do Planalto. As divergências com o sócio principal do condomínio petista, o PMDB, são crescentes mas estão longe do rompimento.

Em 12 anos, o governo construiu — usando e abusando dos recursos públicos — uma estrutura de apoio social. E, diferentemente de Collor, Lula estabeleceu uma sólida relação com frações do grande capital — a “burguesia petista” — que é hoje dependente do governo.

O país está vivendo um impasse. O governo perdeu legitimidade logo ao nascer. Dilma não tem condições de governar, não tem respeitabilidade, não tem a confiança dos investidores, dos empresários e da elite política.

E, principalmente, não tem mais apoio dos brasileiros horrorizados com as denúncias de corrupção e a inépcia governamental em enfrentá-las, além do agravamento dos problemas econômicos, em especial da inflação.

Deve ser reconhecido que Fernando Collor aceitou o cerco político que sofreu sem utilizar da máquina de Estado para coagir os adversários. E foi apeado legalmente da Presidência sem nenhum gesto fora dos limites da Constituição.

Mas o mesmo não ocorrerá com Dilma. Na verdade, não com Dilma. Ela é um nada, é uma simples criatura, é um acidente da História. O embate vai ser travado com Lula, o seu criador, mentor e quem, neste momento, assumiu as rédeas da coordenação política do governo.

Foi Lula que venceu a eleição presidencial de 2014. E agora espera repetir a dose. Mas a conjuntura é distinta. As denúncias do petrolão e a piora na situação econômica não permitem mais meros jogos de cena. O momento do marketing eleitoral já passou.

E Lula vai agir como sempre fez, sem nenhum princípio, sem ética, sem respeito a ordem e a coisa públicas. O discurso que fez no Rio de Janeiro no dia 24 de fevereiro é apenas o início. Ele — um ex-presidente da República — incitou à desordem, ameaçou opositores e conclamou o MST a agir como um exército, ou seja, partir para o enfrentamento armado contra os adversários do projeto criminoso de poder, tão bem definido pelo ministro Celso de Mello, do STF.

Lula está desesperado. Sabe que a aristocracia petista vive o seu pior momento. E não vai sair do poder sem antes usar de todas as armas, legais ou não. Como um excelente leitor de conjuntura — e ele o é — sabe que os velhos truques utilizados na crise do mensalão já não dão resultado. E pouco resta para fazer — dentro da sua perspectiva.

Notou que, apesar de dezenas de partidos e entidades terem convocado o ato público do dia 24, o comparecimento foi pífio, inexpressivo. O clima no auditório da ABI estava mais para velório do que para um comício nos moldes tradicionais do petismo. Nos contatos mantidos em Brasília, sentiu que a recomposição do bloco político-empresarial que montou no início de 2006 — e que foi decisivo para a sua reeleição – é impossível.

A estratégia lulista para se manter a todo custo no poder é de buscar o confronto, de dividir o país, jogar classe contra classe, região contra região, partido contra partido, brasileiro contra brasileiro. Mesmo que isso custe cadáveres.

Para Lula, pouco importa que a crise política intensifique ainda mais a crise econômica e seus perversos efeitos sociais. A possibilidade de ele liderar um processo de radicalização política com conflitos de rua, greves, choques, ataques ao patrimônio público e privado, ameaças e agressões a opositores é muito grande. Especialmente porque não encontra no governo e no partido lideranças com capacidade de exercer este papel.

O Brasil caminha para uma grave crise institucional, sem qualquer paralelo na nossa história. Dilma é uma presidente zumbi, Por incrível que pareça, apesar dos 54 milhões de votos recebidos a pouco mais de quatro meses, é uma espectadora de tudo o que está ocorrendo.

Na área econômica tenta consertar estragos que produziu no seu primeiro mandato, sem que tenha resultados a apresentar no curto prazo. A corrupção escorre por todas as áreas do governo. Politicamente, é um fantoche. Serve a Lula fielmente, pois sequer tem condições de traí-lo. Nada faria sozinha.

Assistiremos à lenta agonia do petismo. O custo será alto. É agora que efetivamente testaremos se funciona o Estado Democrático de Direito. É agora que veremos se existe uma oposição parlamentar. É agora que devemos ocupar as ruas. É agora que teremos de enfrentar definitivamente o dilema: ou o Brasil acaba politicamente com o petismo, ou o petismo destrói o Brasil.

Marco Antonio Villa

Terreno fértil da corrupção


Restos à venda


Quem se lembra das privatizações de FHC? Foi há tanto tempo assim que até esqueceram todos, inclusive a turma do PT.

O presidente de então anunciava que privatizar era um bom negócio. Mas para isso precisaram sucatear as estatais até o esqueleto. Na época, uma antiga empresa que era um dos símbolos do desenvolvimento brasileiro na área das telecomunicações foi sistematicamente corroída. Entregaram os restos a preço de banana e acabou-se com a Embratel.

O PT, com Lula no comando das invectivas, disparava contra o descaso governamental. O partido engordava com as críticas e muitos daqueles funcionários vestiram a camisa da defesa do patrimônio nacional, se tornaram petistas roxos, como agora fazem os da Petrobras.

Mas Lula, Dilma e o PT fizeram outros planos bem mais nefastos para o país. Foram além da privatização que condenavam. Sugaram os cofres petrolíferos e hidroelétricos até a exaustão a ponto de a Petrobras se ver obrigada a vender mais de R$ 39 bilhões em ativos para saldar dívidas, o que talvez nem dê conta do prejuízo. 

O orgulho nacional foi assaltado pelos petistas, com a institucionalização do roubo em favor dos partidos, com máscara de governo e ainda querem ser indultados de qualquer crime.

Nunca antes na história deste país se roubou tanto e tão escandalosamente como sob a gestão quadrilheira do PT. Para esconder a roubalheira sistemática promovida por eles mesmos, querem uma passeata em defesa dos ossos que deixaram depois de um propinoduto que abasteceu todos esses anos o partido e seus asseclas políticos. Nada mais cafajeste, típico de ditaduras e de gangues da picaretagem.

A propalada passeata em defesa da Petrobras é mais uma brincadeirinha dos petistas. O objetivo mesmo é se esconder agora sob máscaras de patriotas, legítimos defensores dos brasileiros e seu patrimônio, para escapar da Justiça, onde já arrumam seus pauzinhos. Mas o rombo que deixarão no país não tem preço. Será uma dívida para se pagar em anos de muito suor do contribuinte.

Hora de decidir

Dilma vai precisar abandonar a letargia e resolver se privatiza alguns dos negócios da Petrobras ou se anuncia que a sociedade pagará o preço de reformatar a estatal
Dentro de 46 meses, Dilma Rousseff vai para casa. Sem perspectiva de poder ao final desse calendário, é uma presidente que não dispõe de muito mais tempo para resolver como deseja atravessar os próximos 1.300 dias.

Nas circunstâncias políticas de hoje, suas alternativas são muito restritas: faz um governo com um olho na História e outro na biografia, ou se conforma em passar os próximos quatro anos arrastando correntes pelos quatro quilômetros que separam a harmonia desértica da Praça dos Três Poderes dos belos jardins Palácio da Alvorada, onde as banhistas do escultor mineiro Alfredo Ceschiatti parecem flutuar sobre o espelho d'água.

Há meses Dilma insiste em transmitir uma única mensagem, a da imobilidade no atoleiro. Sua catedral de dogmas ruiu com o Muro de Berlim, mas ela permanece estática, talvez em secreto desejo de reescrever a própria história.

No inverno de 2005, a então chefe da Casa Civil de Lula detonou uma proposta de ajuste fiscal de longo prazo abençoada pelos ministros da Fazenda, Antonio Palocci, e do Planejamento, Paulo Bernardo. A ideia central era controlar a expansão dos gastos e avançar na direção do “déficit zero” nas contas públicas (em termos nominais) ao longo de uma década. Dilma sepultou a ideia, classificando-a de “rudimentar”.

Uma década depois, governa em desespero para controlar a inflação, aumentar a arrecadação e garantir substancial superávit nas contas públicas. O preço agora é recessão, desemprego e cortes na rede de amparo social, como a saúde e o sistema estatal de pensões.

A presidente entra em negação quando a vida real demonstra que, nem sempre, suas ideias correspondem aos fatos. Abre as comportas do ressentimento quando vê uma decisão ser decodificada nos seus rudimentos — por exemplo, uma “brincadeira” governamental de alto custo (R$ 25 bilhões anuais) aos cofres públicos, como foram as desonerações fiscais, segundo o coloquialismo fazendário.

A sucessão de críticas que Dilma emula ou faz em público ao Ministério tem efeito arseníaco. Sugere uma equipe sem afinação, competência e seriedade — requisitos primordiais para encontrar o fundo do poço, que em política é apenas uma etapa.

Nos próximos dias estará diante de inédito desafio, com a “lista Janot” de suspeitos de corrupção na Petrobras, o balanço da petroleira estatal e as sentenças ao condomínio político-empresarial beneficiário.

A Presidência tem flertado com a imagem de protetora de empreiteiras. É uma opção, não importam os motivos. O problema central permanece: o que vai fazer com a Petrobras, cujo programa de investimentos não se sustenta sem financiamento externo.

Agentes financeiros e empresas associadas à estatal começaram a avaliar consórcios para eventual compra de participações no pré-sal, assim como uma fatia da BR Distribuidora, com sua rede de seis mil postos de serviço.

Dilma vai precisar sair da letargia para decidir, por exemplo, se privatiza alguns dos negócios da Petrobras ou se anuncia à sociedade que ela vai pagar um alto preço, via Tesouro, para reformatar a empresa e concentrá-la na exploração e produção de petróleo.

É muito para realizar na biografia, e pouco tempo disponível para fazer diferença na História.

José Casado

'Eu quero um Lula pra tio!'

Meus tios são uns merdas. Estudaram a vida inteira, muito, trabalharam feito uns babacas, pagaram impostos feito uns otários e, pior, quando meu pai ficou doente, cuidaram de mim e dos meus irmãos. Hoje, babacas que foram, mal conseguem viver de suas aposentadorias. Tenho que ajudá-los na medida do impossível. Eu mereço. Meus tios me ensinaram a ser a ser um babaca também.
Eu queria ter um tio como o Lula. Ele me arrumaria obras com a Odebrecht e outras empreiteiras. Eu estaria comendo a Val Marchiori e fumando charutos cubanos que o Raul mandaria de presente. Se eu tivesse um tio como o Lula não estaria no sufoco de arrimo de família. Eu não quero ajudar meus tios!!! Eu quero mais que é que eles me ajudem! Mais, muito mais! Eu exijo que eles coloquem o "meu boi na sombra.
Meus tios são uns merdas, talvez por serem brancos, da elite burguesa e, pior ainda, judeus. Tios, vocês são uns merdas!"
Marcelo Madureira 

Sem ódio e sem medo

Manifestante (Foto: Arquivo Google)
Será pelo resgate daquilo que nos ensinaram os gregos sobre qual deve ser o objetivo mais nobre da política: resolver de forma civilizada os conflitos da sociedade

O Brasil vive seu momento mais dramático desde o fim do regime militar.

Pode-se contra-argumentar que o impeachment do Collor foi mais grave. Mas ali o grito das ruas e as instituições entraram em sintonia. A crise foi equacionada de forma democrática e pacífica, sem que uma só voz ameaçasse recorrer à beligerância.

A dramaticidade dos dias atuais está tanto no desmanche de um governo que mal começou como na existência de forças interessadas na radicalização, principalmente no interior do bloco governista.

Com o propósito de perpetuar o seu projeto de poder, nem que for na marra, Lula se diz preparado a ir à guerra e disposto a por nas ruas o “exército de (Pedro) Stedile”.

Está se formando um caldo de cultura da violência, do rancor, da intolerância, do confronto.

É neste campo que petistas querem travar a guerra para camuflar seu fracasso na economia, onde após seis anos de subsídios, desonerações, populismo tarifário e irresponsabilidade fiscal, o governo adota agora um pacotaço que pode matar o paciente de overdose.

Mas também para esconder suas impressões digitais no escândalo da corrupção na Petrobras. Nesse jogo sujo vale tudo. Vale acusar as elites e a oposição de conspiração contra os interesses nacionais, uma ladainha enfadonha e sem sentido.

Há o risco real de segmentos da sociedade caírem na armadilha, aderindo à lógica do confronto.

Até porque há um clamor nacional pela ética, ao qual o PT desdenha, desqualifica, taxando-o de udenismo. Sabemos aonde isto leva.

Leia mais o artigo de Hubert Alquéres 

terça-feira, 3 de março de 2015

O assunto é o autor do autor

01
Não aguento mais falar de política, de escândalos e de punições. Nossa política está tão despedaçada quanto a nossa cabeça cultural. São conceitos ralos em nossa rala realidade. A mutação cultural dos últimos anos foi tão forte, a revolução digital foi tão completa no mundo pós-industrial que dissolveu crenças e certezas. Caímos num vácuo de rotas.

Não só no Brasil, mas no mundo inteiro, artistas e pensadores vivem perplexos – não sabem o que filmar, escrever, formular. Em geral, recorrem às atitudes mais comuns nas turbulências: desqualificar os fatos novos e reinventar um “absoluto” qualquer, sem saber que, como escreveu Baudrillard, “não há mais universais; só o singular e o mundial.” Sinto em mim mesmo como é difícil criar sem esperança ou finalidade. Como era gostoso nosso modernismo, os cinemas novos, os movimentos literários, as cozinhas ideológicas. Os criadores se sentiam demiurgos falando para muitos. Agora, na falta das “grandes narrativas” do passado, estamos a idealizar irrelevâncias, como se ali estivessem pistas para novas “verdades” a desvelar – a aura deslizou da obra para o próprio autor –, o único assunto é ele mesmo.

Hoje, as palavras que eram nosso muro de arrimo foram esvaziadas de sentido, e ficamos à deriva. Por exemplo, “futuro”. Que quer dizer? Antes, era visto como um lugar a que chegaríamos, um lugar no espaço-tempo, solucionado, harmônico, que nos redimiria da angustia da falta de “sentido”. Agora, no lugar de “futuro”, temos um presente incessante, sem ponto de chegada. Pela influência insopitável do avanço tecnológico da informação, turbinado pelo mercado global, foram se afastando do grande público as criações artísticas e literárias, as ideias filosóficas, os valores. Em suma, acabou aquela dimensão espiritual chamada antigamente de “cultura” que, ainda que confinada nas elites, transbordava sobre o conjunto da sociedade e nela influía, dando uma razão de ser para a existência. Mais ou menos isso Vargas Llosa escreveu no “El País”, num ensaio chamado “A civilização do espetáculo”.

Já houve um tempo em que a literatura era importante. As escolas literárias se digladiavam sobre estilos e temas, em busca de um sentido maior que nos definisse como país, dentro de um mundo ainda analógico.

Antes havia debates para ver quem tinha razão. Hoje, todos têm razão, e ai daquele que criticar tendências, em nome de critérios e paradigmas seculares da arte. A inteligência foi substituída pela sacralização da irrelevância massificada; a própria ideia de “estética” é considerada por muitos como um individualismo neoconservador, autoritário, produzindo regras repressivas. A libertação da tutela dos chamados “maîtres à penser”, dos seres que nos guiavam orgulhosamente para algum sentido foi uma coisa boa, mas abriu as portas para um vale-tudo formal que desqualifica tentativas de crítica literária.

Claro que é bem-vinda a esfuziante aparição de milhares de criadores, dos blogueiros, dos tuiteiros, dos hipertextos da época pós- pós; claro que algum dia isso vai dar em novos valores de “qualidade”, de “importância”, destilados dos alambiques da internet. Estamos numa fase da exaltação da “quantidade”, como se a profusão de temas e criações substituíssem a velha categoria da “qualidade”. Essa nova era nos ensinou que não chegaremos a algum destino definitivo, mas alguns parâmetros de valor estético terão de ser recolocados na literatura. Em geral, as diagnoses sobre as mutações a que assistimos hoje em dia se dividem ou em lamentos por um passado de ilusões perdidas, ou em euforia por um admirável mundo novo em que todos sejam autores e leitores. Em teoria, tudo bem, mas “ideias” em poesia e literatura só se expressam na forma. Outro dia, achei um livro de Agripino Grieco, um dos grandes polemistas do início do século XX e demolidor dos burros e farsantes. E ele diz, numa entrevista de 1944: “A obra dos escritores vale pela forma em que está vazada, pela ironia, pela irreverência, pelo que possa representar de negação dos valores oficiais. O que vale é a forma.”

E ele acrescenta: “Ai do romance em que o enredo interessa mais que o estilo.”

Ou seja, os mistérios do mundo revelado pela grande arte literária são florações da forma; e é isso que lhes fornece durabilidade, relevância na observação da vida, sua razão de ser.

Nunca tivemos tantos criadores, tanta produção cultural enchendo nossos olhos e ouvidos com uma euforia medíocre, mas autêntica. Há uma grande vitalidade neste cafajestismo poético, enchendo a web de grafites delirantes. Não sei em que isso vai dar, mas o tal “futuro” chegou; grosso, mas chegou. Talvez esse excesso de “irrelevâncias” esteja produzindo um acervo de conceitos “relevantes”, ainda despercebidos. Podemos nos dedicar ao micro, ao parcial, podemos nos arriscar ao erro com mais alegria; mas isso não pode justificar um desprezo pela excelência. E o pior é que as tentativas de “grande arte” são vistas com desconfiança, como atitudes conservadoras, diante da cachoeira de produções que navegam no ar. Ou seja, os mistérios do mundo revelados pela grande arte literária são florações da forma; e é isso que lhes fornece durabilidade, relevância na observação da vida, sua razão de ser. A importância de uma obra reside no grau de decifração da vida de seu tempo, mesmo no túnel sem luz.

Se olharmos as grandes obras do passado, como as de Van Eyck, por exemplo, vemos que ali estavam as imagens mais profundas sobre a Idade Média.

Isso me lembra o tempo em que achávamos que o “fluxo da consciência”, “the stream of consciousness” ou até o discurso psicótico encerravam uma sabedoria insuspeitada. Será que houve a morte da “importância”? Ou ela seria justamente esta explosão de conteúdos e autores? O “importante” seria agora o quantitativo? Não sei; mas, se tudo é “importante”, nada o é.

Quem paga a conta

Dilma aponta dedo Petrobras fraudadores e cumpa vuivas e aposentados mp 664 665 Beneficios seguro desemprego pensao

Corpo estranho à língua portuguesa

Guiné Equatorial já havia feito algo espantoso: entrou para a Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa, com o apoio do Brasil. Mas lá não se fala português
Não basta ficar boquiaberto com o fato de que a Guiné Equatorial financiou a Beija-Flor. Nem basta discutir (veladamente) a relação entre samba e ética. Discussão, aliás, complicada. Pois os donos do jogo do bicho financiam várias escolas, inclusive a vencedora de 2015, a Beija-Flor.

Essa discussão pode, no entanto, iluminar nosso comportamento sociocultural a partir de duas observações. A primeira: haveria alguma relação entre esse financiamento e os escândalos do mensalão e do petrolão? Haveria alguma consonância entre dar propinas, a existência das milícias, o ato de ultrapassar pelo acostamento e esse financiamento?

Para tornar a coisa mais complexa, adianto uma segunda informação perturbadora. A Guiné Equatorial apenas descobriu que o samba estava à venda. Antes, já havia feito algo espantoso: entrou para Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa (CPLP), com o apoio do Brasil. No país não se fala português. Mas o ditador que está lá há 35 anos pode ter pensando: se não é necessário falar o português para pertencer à CPLP, por que não chegar ao Sambódromo?

“Com a entrada da Guiné Equatorial na CPLP, consumou-se a despudorada violação dos seus princípios e de valores constitutivos”, diz José Carlos Vasconcelos num editoral no “Jornal de Letras” (do grupo Visão, de Portugal).

O ensaísta Eduardo Lourenço (Prêmio Camões, 1996), num artigo intitulado “No que a CPLP se transformou”, publicado há quatro anos, quando a Guiné Equatorial, pela primeira vez, quis ser admitida como membro na CPLP, disse que a organização não poderia sucumbir aos interesses econômicos e estava se transformando “numa versão africana do tonel das Danaides, preciosa água escorrendo em vão para lado nenhum”.

O Brasil faz parte da CPLP e na reunião em que isso foi aprovado o representante brasileiro era João Augusto Medicis.

A imprensa portuguesa tem dado destaque ao assunto. No Brasil não se fala disto.

Leia mais o artigo de Affonso Romano de Sant’Anna

Lula, de esperança a forte ameaça à democracia


O que leva Dilma, aos 67 anos de idade, a ser tão rude com seus subordinados? A pedido de quem me contou, não revelarei a fonte da história que segue.

No ano passado, ao ouvir do presidente de uma entidade financeira estatal algo que a contrariou, Dilma elevou o tom da voz e disse:

- Cale a boca. Cale a boca agora. Você tem 50 milhões de votos? Eu tenho. Quando você tiver poderá ocupar o meu lugar.

Dilma goza da fama de mal educada. Lula, da fama de amoroso. Não é bem assim. Lula é tão grosseiro quanto ela. Tão arrogante quanto.

Eleito presidente pela primeira vez, reunido em um hotel de São Paulo com os futuros ministros José Dirceu, Gilberto Carvalho e Luís Gushiken, entre outros, Lula os advertiu:

- Só quem teve voto aqui fui eu e José Alencar, meu vice. Não se esqueçam disso.

Em meados de junho de 2011, quando Dilma sequer completara seis meses como presidente da República, ouvi de Eduardo Campos, então governador de Pernambuco, um diagnóstico que se revelou certeiro.

“Dilma tem ideias, cultura política. Mas seu temperamento é seu principal problema”, disse ele. “Outro problema: a falta de experiência. E mais um: tem horror à pequena política. Horror”.

Na época, Eduardo era aliado de Dilma. Nem por isso deixava de enxergar seus defeitos.

“Dilma montou um governo onde a maioria dos ministros é fraca”, observou. “Todos morrem de medo dela. No governo de Lula, não. Ministro era ministro. Agora, é serviçal obediente e temeroso. Lula não pode fingir que nada tem a ver com isso. Afinal, foi ele que inventou Dilma”.

Lula não perdoa Dilma por ela não ter cedido a vez a ele como candidato no ano passado. Mas não é por isso que opera para enfraquecê-la sempre que pode.

Procede assim por defeito de caráter. Com Dilma e com qualquer um que possa causar-lhe embaraço.

Leia mais o artigo de icardo Noblat

A coisa certa


A desconstrução de um projeto para a nação

Será que vamos, mais uma vez, frustrar as novas gerações do nosso país?
Os primeiros dias do governo mostram que o tema "Pátria Educadora", colocado pela Presidente da República, está sendo literalmente demolido pelas medidas recentemente noticiadas, e que poderão trazer prejuízos incalculáveis para as novas gerações, que não estarão preparadas para as oportunidades de emprego que inexoravelmente surgirão com os avanços da ciência, com a geração de novas tecnologias e com a própria inserção do país no fluxo de comércio internacional, resultado da crescente globalização.

A educação básica, alardeada pelos governantes nos últimos anos como uma prioridade nacional, está a exigir ações concretas e efetivas no plano federal e nos estados e municípios, já que não ainda foi possível definir um rumo que possibilite uma preparação adequada dos nossos jovens para o enfrentamento dos desafios trazidos por um "mercado de trabalho" cada vez mais competitivo, com empregos que exigem novas habilidades e competências.

Embora algumas ações possam ser listadas, das quais destaco a iniciativa do Rio de Janeiro em reformular o seu ensino médio, ainda estamos muito longe dos níveis admissíveis para a nossa economia, que ainda é uma das 8 maiores do mundo.
Leia mais o artigo de Paulo Alcantara Gomes

'Estou me guardando para quando o Carnaval passar'

Os governantes de todos os Estados brasileiros, exceto aqueles que disputaram a própria reeleição, estão ocupados em justificar a inércia de suas administrações, já na entrada do terceiro mês de seus governos, com as mais diversificadas explicações. Alega a maioria deles que seus antecessores deixaram propostos orçamentos não exequíveis, que encontraram caixas vazios, quadros de pessoal inchados, empenhos cancelados, além de amplo leque de mutretas políticas e administrativas destinadas a dificultar as novas gestões. Disso muito é ou poderia ser verdadeiro. O que não é aceitável são as desculpas, quando já entramos no mês de março.

Todos os governadores hoje no poder sabiam com precisão matemática o que iriam encontrar quando chegassem à cadeira que hoje ocupam. Todos. Nem poderia ser diferente porque as campanhas que os levaram aos palácios foram estruturadas na crítica aos modelos, nas medidas e nas opções dos governos sucedidos. Houve em todos eles uma mensagem de renovação, de mudança e de transformação que o eleitor pedia e apoiou nas urnas, com seu voto.

Diferentemente disso, o que se sente em todo país, e Minas infelizmente não é uma exceção, é um paradeiro incômodo, uma falta absoluta de perspectivas, um achatamento brutal de toda esperança de que se serviram os novos governantes para convocar seus eleitores a assistirem a geração de um novo momento.

Dizerem que não há dinheiro para nada, sobretudo para investir em projetos estruturantes e transformadores, é uma incúria e frustra a expectativa que o eleitor lhes confiou com seu voto. Recursos já não existiam, e todos sabiam disso. Esperava-se que tivessem imaginação, prestígio para buscar tais recursos onde estivessem e melhor pudessem ser alcançados. Não se esperava desculpas.

O Brasil está parado e não é apenas por falta de recursos públicos. É por falta de credibilidade, de propostas sérias, de coragem para enfrentar a indigência de caráter de nossas lideranças políticas que hoje formam os Legislativos – municipais, estaduais e em Brasília. Que fazem as câmaras Municipais, as assembleias legislativas e o Congresso Nacional a não ser discutirem se aproveitam ou não das concessões mais espúrias, de verbas disponibilizadas para custear suas fantasias, das passagens aéreas para suas esposas, ou suas amantes, ou seus assessores de nada? Para que um vereador de qualquer cidade brasileira; um deputado de qualquer assembleia legislativa de todo Brasil, qualquer deputado federal ou senador precisa de tanto assessor, de tantas regalias, de tanta verba?

Estamos carentes de trabalho, de programas, de políticos que saibam tirar o país desse buraco que eles mesmos – uns com sua inércia, muitos com sua corrupção, todos com seu desinteresse – colocaram. Ao trabalho, senhores! O Carnaval já passou.

Luiz Tito

O império da idiotice


Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.
Nelson Rodrigues

O 'fantasma' do impeachment

Apesar de o eminente democrata socialista, Zé Mensalão, cumprindo prisão domiciliar, declarar em 1999, que “dizer que impeachment é golpe é falta de assunto”, ainda assim a palavra continua um terror para uns e outros. Os próprios petistas, que já idolatraram o excelentíssimo ex-ministro, conferem à palavra o sentido de golpe da Direita; grande parte da população pede o afastamento da presidente, mesmo sem saber que isso está na Constituição. E fica-se no blá-blá-blá discutindo-se o direito constitucional, o que convém muito ao estado de beligerância no país e, em particular, ao governo e seus asseclas. Não se deve esquecer a antológica frase de quem brigou para derrubar Collor e hoje avisa com a profecia dos sem caráter como Rui Falcão: “Fiquemos alertas, companheiros, pois o imperialismo tanto se vale da força bruta como recorre às instituições republicanas para depor governos populares”. É discurso rançoso com mais de 50 anos de usado e usurpado.

O que há de tão terrível no impeachment? O Brasil já não passou por um e saudou como um avanço democrático? Agora seria antidemocrático? Mudaram a Constituição e não disseram nada? Ou querem dar um golpe de João Sem Braço?

O Paraguai, em 2012, decretou o impedimento de Fernando Lupo num rápido processo que durou ao infinito de dois dias. O processo foi iniciado a pedido de um deputado do Partido Colorado, motivado por um confronto entre policiais e camponeses, durante a reintegração de posse de uma fazenda em Curugauty, que deixou 17 mortos e 80 feridos. O Paraguai vai bem, obrigado, sem guerra civil, sem nós contra eles e outros lemas marqueteiros. E o Brasil continua matando 50 mil por ano.

Quem não gostou nada do cumprimento da Constituição paraguaia pelos paraguaios foram os companheiros, entre eles, a Venezuela, de Chávez, e o Brasil, de Dilma, sempre muy amigos e leais defensores da tal legalidade à moda da casa. Foram contra a saída, constitucional, do presidente e puniram o país que cumpriu sua Constituição com o afastamento do Mercosul para dar vez à legal Venezuela, que rola na desgraceira.

O que dá em ser contra ou a favor do impeachment? Está na lei e, dentro da lei, cumpra-se. Tanto falatório só dá vez mesmo ao acobertamento das falcatruas que assolam o país. Se tiver que ser feito, faça-se como manda a Constituição e bola pra frente. O que não se pode é gastar tanto palavrório, que joga uma cortina de fumaça sobre a roubalheira e só favorece a turma da corrupção. Vamos acabar embaralhando os conceitos e enfiando os pés pelas mãos sujas.

O que não se pode, nem pensar, é arrumar artifícios novos ou mais do que vetustos para driblar a Justiça, no Brasil, tão maltratada em favor dos poderosos, dos empreiteiros, dos políticos, dos canalhas de toda a espécie. Neste imbróglio, o povo apenas quer Justiça com todas as letras para acabar com as “brincadeirinhas” que só levam ainda mais o país para o poço.