sábado, 23 de outubro de 2021

Mar Brasil

 


O 'charlatão' Bolsonaro tem pouco a temer por enquanto

Mais de 600 mil brasileiros morreram na pandemia até agora. Apenas nos EUA o número de vítimas foi maior. Em seu relatório final apresentado na quarta-feira (20/10), a CPI da Pandemia acusa o presidente Jair Bolsonaro de dez crimes durante a execução das suas políticas sanitárias fracassadas. As acusações incluem charlatanismo, Infração de medida sanitária preventiva, incitação ao crime e crimes contra a humanidade.

Graves acusações também foram apresentas contra 65 outras pessoas, incluindo três filhos do presidente, quatro ministros e duas empresas.

O presidente Bolsonaro reagiu da mesma maneira de sempre. "Nada produziram a não ser o ódio e o rancor", disse o presidente em um evento que aconteceu paralelamente à leitura do relatório. Mais uma vez, ele defendeu o uso de medicamentos antimaláricos e vermífugos comprovadamente ineficazes para combater a covid-19, usando o subterfúgio da defesa da autonomia dos médicos para administrar os remédios.

O presidente sabe que juridicamente tem pouco a temer em relação ao relatório final de quase 1.200 páginas. Por um lado, o relatório ainda é um rascunho. Na próxima semana, o texto será votado pela CPI e poderá sofrer alterações. Depois disso, é certo que deve ser aprovado pela maioria dos 11 membros da comissão.


A exclusão de dois trechos controversos na noite de terça-feira mostrou que ainda há muita margem de manobra para novas alterações. As acusações contra Bolsonaro por homicídio e genocídio da população indígena foram deixadas de lado após pressão de senadores. Não havia base legal para essas imputações, argumentou-se, e foi levantado o risco de que essas acusações prejudicassem a credibilidade do relatório como um todo.

Mas mesmo que as principais acusações permaneçam na versão final e aprovada do relatório, isso em princípio não acarretará consequências jurídicas para o presidente. Em última instância, cabe ao Ministério Público verificar se existem de fato evidências ou mesmo provas sólidas sobre os crimes imputados. Os procuradores são livres para descartar acusações individuais ou adicionar novas. Não há vinculação obrigatória entre o relatório da CPI e as investigações do Ministério Público.

Além disso, Bolsonaro tem um grande trunfo na manga. Cabe ao procurador-geral da República, Augusto Aras, decidir se os pedidos de indiciamento contra o presidente devem avançar. Aras, nomeado por Bolsonaro em 2019, vem provando até o momento ser um protetor do presidente. O fato de que ele espera ser nomeado para uma vaga no Supremo Tribunal Federal por Bolsonaro deve aumentar ainda mais sua lealdade pretoriana.

Não se espera que Aras indicie Bolsonaro. Em vez disso, é mais provável que Aras simplesmente ignore o relatório da comissão, deixando-o "mofar na gaveta". Há discussões se o STF poderia forçar Aras a aceitar dar andamentos às acusações, mas essa é uma questão controversa entre juristas.

A oposição, que conta com maioria na CPI, está ciente de tudo isso, é claro. Então ela espera pelo menos desgastar Bolsonaro politicamente. Daqui a um ano, os brasileiros elegerão um novo presidente. A CPI reuniu muito material para a campanha eleitoral da oposição. As audiências que somam 370 horas acabaram sendo usadas para expor o fracasso da política governamental de combate à pandemia.

Não foi difícil. Foram explícitas a incompetência do governo em lidar com a pandemia e a clara indisposição de Bolsonaro em agir. O presidente não se importa com quantas pessoas morrem e não tem medo de dizer isso abertamente. É ainda mais surpreendente quantos brasileiros ainda são leais a Bolsonaro. Eles acreditam na narrativa do presidente de que se trata apenas de uma campanha de vingança da oposição.

E elas têm boas razões para isso. As comissões parlamentares de inquérito são uma ferramenta política utilizada pela oposição para questionar o governo. Na história do Brasil, quase sempre foram usadas ​​para pirotecnia política. Muito barulho por nada, um show puramente político-partidário sem consequências reais e investigações sérias. Nesse sentido, a CPI da Pandemia é um ponto de inflexão histórico, pois 9 terabytes - ou seja, 9.000 gigabytes - de documentos foram coletados e analisados ​​por advogados especializados. Uma conquista histórica única.

A CPI merece crédito por revelar detalhes até então desconhecidos do fracasso do governo. A rede de corrupção que se formou em torno da compra de vacinas e remédios foi exposta, revelando a atuação ilegal de políticos pró-governo, funcionários e empresários. Esses peixes pequenos são provavelmente os que mais têm a temer o Judiciário. Eles provavelmente serão usados como bois de piranha.

E os peixes grandes? O mais provável é que ele estejam temerosos com a reação dos eleitores. Porque, uma vez sem mandatos, Bolsonaro e companhia poderão ser processados ​​pelas instâncias inferiores da Justiça. É possível prever várias ações judiciais movidas por famílias de vítimas contra os responsáveis ​​pela política para a pandemia. Em seguida, serão expostos novamente os responsáveis pela falta de oxigênio nos hospitais amazônicos e pelas centenas de pacientes que morreram nessas unidades.

O nazismo na América do Sul

Cada dia fica mais claro porque os restos do nazismo que vieram da Europa renderam tantos frutos na América Latina, sobretudo no Brasil, no Chile e na Argentina. Desde o final dos anos 50 que uma corrente migratória de criminosos de guerra ou simpatizantes do nazismo se formou em direção ao nosso continente. Alguns fizeram escala na Espanha, que vivia ainda o auge do regime franquista de extrema direita. Na Argentina se escondeu Adolf Heichmann, um dos executores dos planos de extermínio de Hitler que foi sequestrado e levado para Israel pelos então caçadores de nazistas. O Brasil abriu as portas para alguns e durante a ditadura militar fechou os olhos para a permanência deles por aqui. Mengele, médico e assassino e Franz Wagner, oficial da SS que viveram anos no Brasil sem ser incomodados foram alguns deles. Fazia sentido o olho fechado dos militares sul americanos a esses criminosos. A doutrina se parecia.


Agora, acabei de assistir na Netflix uma série documental de 6 capítulos chamada "Colônia Dignidade" que conta a história de um subproduto deste nazismo que proliferou por aqui. No caso, aconteceu no Chile dos anos 60 até 2010 quando o alemão Paul Schäfer morreu com mais de 80 anos. Durante décadas ele comandou a famosa Colônia Dignidade, numa zona ao sul de Santiago com a anuência dos chilenos, depois dos militares de Pinochet, quando serviu também de centro de torturas e por fim sob o governo neoliberal que veio a seguir.

Precisou que um alemão, que chegou por lá ainda criança, revelasse as atrocidades e a pedofilia perversa de Schäfer depois de fugir para a Alemanha junto com um também jovem chileno. Aí, o mundo escutou e as autoridades correram para prendê-lo. A essa altura, ele já estava na Argentina, mas isso não impediu que fosse preso e condenado a 20 anos de cadeia por pedofilia. Os crimes contra a humanidade, a colaboração com a tortura de Pinochet e o desaparecimento de vários prisioneiros que passaram por lá ficou para ser contado pela História.

Schäfer era, claramente, um pós-nazista. Saiu da Alemanha no inicio dos anos 60, também acusado de pedofilia e fugiu para o Chile onde recebeu como presente uma área enorme para construir sua colônia.

Aparentemente a ideia era receber as populações pobres chilenas, oferecer educação, saúde e moradia além dos próprios alemães que foram para lá com ele e que mantinham a corrente migratória funcionando. Só que Schäfer era um pedófilo, nazista, perverso e cruel. Tirava as crianças de suas famílias, tanto as chilenas quanto as alemãs, até mesmo sequestrando-as. Eliminava os sobrenomes e as entregava à guarda das chamadas tias.

Ele abusava, literalmente, das crianças e conseguia manter seu poder através da imposição violenta da sua doutrina aos cidadãos comportados e temerosos. A colônia cresceu, construíram alojamentos, moradias, escola e hospital. Mas tudo como um estado dentro de outro estado que permitia esse poder paralelo.

O moralismo era exacerbado, a religião, imposta e a única diversão que tinham era a ginástica e os cânticos. Impressionante como os regimes autoritários enaltecem a ginástica. É uma atividade física que não favorece o raciocínio. Os cânticos tem o mesmo efeito inebriante e evangelizador. Era disso que ele vivia acrescentando o lado cruel da pedofilia ao seu descontrole autoritário.

Quando Pinochet subiu ao poder num golpe de estado sangrento Schäfer foi o primeiro a respirar aliviado. As ameaças que surgiram durante o governo Allende de revelar o verdadeiro lado da Colônia e o difundido medo do comunismo que ele mesmo espalhava acabaram cedendo lugar a uma colaboração explícita entre a ditadura e Schäfer. Os alemães podiam importar armas sem fiscalização e através do grupo Pátria e Liberdade, que depois se revoltou contra Pinochet, ajudou abertamente o golpe. Além do centro de torturas, foram achadas, anos depois, várias ossadas. Mesmo assim depois que Pinochet saiu do poder os políticos não levaram a sério o que se revelava.

O que o preço da carne de pescoço diz sobre a política brasileira

No supermercado da fome, o dos restos e resíduos de comestíveis, carne de pescoço de galinha, ossos de boi, espinhas de peixe, comidas de desvalidos que, no noticiário, revelam o que é a inventiva estratégia de sobrevivência dos milhões de famintos no Brasil. São componentes da visibilidade turva da melancólica situação social brasileira.

Há uma certa hipocrisia política em atribuir essa tragédia à pandemia. A pandemia apenas agravou o que já era grave. Tampouco se trata de algo restrito à incompetência de um governo irresponsável, embora lhe deva muitíssimo.

A coisa nos vem da imprudência de tentar fazer de conta que o Brasil é um país emergente, quase de primeiro mundo, e deixar a economia correr.

Os teóricos do capitalismo de marginalização social “chutam”: basta copiar o modelo econômico dos países ricos para que todos os problemas sociais sejam resolvidos automaticamente e este também se torne rico. Mesmo que esteja se tornando cada vez mais pobre.

O Estado brasileiro entregou-se politicamente à possessão diabólica das leis econômicas. O preço da carne de pescoço, que se tornou alimento emergencial dos miseráveis e famintos, subiu. Ou seja, a fome e a economia dos pobres foram capturadas pela voracidade do lucro amoral e cego do sistema econômico socialmente insensível, de regras feitas unicamente para aumentar o muito dos que já têm tudo.


Os pobres são personagens invisíveis da bolsa de valores e do mercado financeiro. Por incrível que pareça, são lucrativos porque suas carências se traduzem em valorização do que não vale nada. Deveriam dar um Prêmio Nobel de Economia a quem explicasse o fato de que o preço da carne de pescoço, do cardápio dos pobres, baseado em itens praticamente do lixo, também sobe quando o dólar sobe. O estômago do pobre fica mais vazio enquanto bolsos ficam mais cheios.

É estranhíssimo que pobres e ricos não enxerguem isso, não façam comparações, não as traduzam em consciência e ação políticas em favor do bem comum. Entre os pobres, a fome e o abandono matam o espírito ao privá-lo de seu alimento primordial que é a esperança.

A política não foi inventada para ser cúmplice da economia nem do economismo. A política foi inventada para trazer a economia e o poder ao redil da civilização, controlar e regular suas tendências economicamente irracionais e socialmente destrutivas.

É a ordem social e seus valores que devem regular a ordem econômica. Quando isso não acontece, e não está acontecendo, a nação inteira se converte num país de párias, de sem destino, de famintos, de desabrigados. A falta de coragem, de responsabilidade e de competência dos políticos que podem acionar os mecanismos de correção da economia é indicativa de que estamos abandonados e órfãos.

Todos se lembram, certamente, do espetáculo de menoridade política que foi a reunião do governo de 22 de abril de 2020. E nela da afirmação imponente do ministro da Economia contra suposta tendência keynesiana nas propostas e ações de um dos ministros. Se tivéssemos um Keynes no Brasil, e sua teoria de renda e do emprego, certamente o país estaria longe da barbárie da situação atual. Livre do peso morto de gente que manda como capataz dos tempos da escravidão.

Os jornais garimpam, todos os dias, nas ruínas do país as novidades medonhas da miséria. Na esperança de que se desenvolva entre nós a consciência crítica de nossos problemas, de nossa vulnerabilidade social, do abismo que nos espera.

O cardápio de carne de pescoço se desdobra na forma que vai adquirindo a situação habitacional. Análise de Fernando Canzian na “Folha de S. Paulo” mostra que, em uma década, o número de favelas saltou de 6.329 para 13.151.

Em 1960, Carolina Maria de Jesus, que vivia na Favela do Canindé, lançou seu primeiro livro, “Quarto de Despejo”, graças ao empenho do jornalista e escritor Audálio Dantas. Carolina era personagem de uma humanidade invisível. Seu livro gritou por ela. Nele, São Paulo e o Brasil ficaram nus.

Hoje 24,5 milhões de pessoas passam fome no país. Não é fome de comer pouco. É fome de comer o insuficiente ou de não comer nada. Outros 74 milhões estão chegando perto dessa situação. São cerca de 100 milhões de mãos e braços que, sem trabalho e na incerteza da marginalização social, estão à espera de um novo corpo político e social chamado multidão.

Creio que seria muito mais prudente mobilizar a população para fazer uma profunda e radical reforma econômica e social, com gente capaz de fazê-la, com base no primado dos direitos sociais e da dignidade da pessoa. O Brasil precisa revolucionar suas estruturas fundamentais. Essa seria uma boa oportunidade para Deus aderir e confirmar que é mesmo brasileiro.

Por que chora o Jair?

Jair sempre reclamou que dorme mal, muito mal. Acorda várias vezes. Tem um revólver na cabeceira ao alcance da mão, se levanta exausto. Agora confessa que chora no chuveiro, escondido da mulher. A água descendo sobre o corpo e se misturando às lágrimas e soluços de um machão que se acreditava inchorável. Que cena! Mas os mitos também choram, qual é o problema? Clint Eastwood já provou como pode ser nobre e bonito o choro de um machão. Jair ainda se envergonha e se esconde, mas ao menos confessa o que seria mais uma “fraquejada”, como ter gerado uma filha. Talvez imagine que sua mulher poderia achá-lo menos másculo se o visse chorando. E não que ela viesse apoiá-lo e consolá-lo como se espera de uma companheira cristã. Ele ainda vive no tempo em que segurar o choro era sinal de macheza e virilidade. Embora a ciência prove que, embora chore mais, a mulher é muito mais resistente à dor física. Que homem suportaria um parto?


Chorar faz bem, exterioriza e alivia a dor, é um aplicativo da natureza desenhado como uma válvula de escape para os humanos sofredores. Embora muitas vezes seja usado como demagogia ou arma de chantagem emocional, falso como lágrimas de crocodilo, o choro também pode ser nobre, ao contrário do chororô, que rebaixa o sofrimento a queixumes acovardados.

O bem chorar exige um mínimo de humildade e reconhecimento de nossa fraqueza e impotência diante das dores da vida. Mas nem toda lágrima é de tristeza, é preciso celebrar o choro de prazer ou de intensa emoção que, às vezes, o amor proporciona somando os dois. Explode coração. Lágrimas de todos os sexos são bem-vindas.

O grande mistério é: por que chora o Jair?

Certamente não é pelas vítimas da Covid ou por ter sabotado as vacinas e nomeado Pazzuelo ministro da Saúde. Chora pela cloroquina derramada ? Ou chora por ele mesmo, ao constatar a impotência de sua autoridade para resolver problemas complexos com soluções toscas, que não pode fazer o que quiser e atropelar e ofender as instituições? Talvez chore de medo de ver seus filhos presos, qualquer pai choraria.

Talvez chore de arrependimento, por ter tentado nomear o filho Bananinha embaixador em Washington, por ter acreditado em suas próprias lorotas de combater a corrupção, de liberalizar a economia, de tentar instituir o voto em papel com contagem manual para poder denunciar fraudes caso perca as eleições. Por ter acreditado em Olavo de Carvalho.</p>

Talvez chore de solidão, já que não há nada mais solitário do que estar cercado de puxa-sacos o dia inteiro, de só contar mesmo com a família e o Queiroz para o que der e vier. E o que vier pode não ser bonito.

É possível até que chore pelo Brasil, por sua impotência para resolver todos os problemas com sua Bic e culpar as gestões petistas. Ou pelo medo de perder o apoio do Centrão. Pelo pavor de perder as eleições. E eventualmente ser julgado, condenado e preso.

Não faltam motivos, mas, afinal, por que chora o Jair ?

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Voz do Brasil

 


A vergonha de ser pobre e o culto das aparências

A pressa em mostrar que não se é pobre é, em si mesma, um atestado de pobreza. A nossa pobreza não pode ser motivo de ocultação. Quem deve sentir vergonha não é o pobre mas quem cria pobreza.

Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia de que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.


Recordo-me que certa vez entendi comprar uma viatura em Maputo. Quando o vendedor reparou no carro que eu tinha escolhido quase lhe deu um ataque. “Mas esse, senhor Mia?! Ora, o senhor necessita de uma viatura compatível.” O termo é curioso: “compatível”. “Compatível com o quê?”, pergunto eu.

Estamos vivendo num palco de teatro e de representações: uma viatura já é não um objecto funcional. É um passaporte para um estatuto de importância, uma fonte de vaidades. O carro converteu-se num motivo de idolatria, numa espécie de santuário, numa verdadeira obsessão promocional.

Esta doença, esta religião que se podia chamar “viaturalatria” atacou desde o dirigente do Estado ao menino da rua. Um miúdo(criança) que não sabe ler é capaz de conhecer a marca e os detalhes todos dos modelos de viaturas. É triste que o horizonte de ambições seja tão vazio e se reduza ao brilho de uma marca de automóvel.

É urgente que as nossas escolas exaltem a humildade e a simplicidade como valores positivos. A arrogância e o exibicionismo não são, como se pretende, emanações de alguma essência da cultura africana do poder. São emanações de quem toma a embalagem pelo conteúdo.
Mia Couto

Daqui a vinte e cinco anos

Perguntaram-me uma vez se eu saberia calcular o Brasil daqui a vinte e cinco anos. Nem daqui a vinte e cinco minutos, quanto mais daqui a vinte e cinco anos. Mas a impressão-desejo é a de que num futuro não muito remoto talvez compreendamos que os movimentos caóticos atuais já eram os primeiros passos afinando-se e orquestrando-se para uma situação econômica mais digna de um homem, de uma mulher, de uma criança. E isso porque o povo já tem dado mostras de ter maior maturidade política do que a grande maioria dos políticos, e é quem um dia terminará liderando os líderes. Daqui a vinte e cinco anos o povo terá falado muito mais.

Cândido Portinari (1958)

Mas, se não sei prever, posso pelo menos desejar. Posso intensamente desejar que o problema mais urgente se resolva: o da fome. Muitíssimo mais depressa, porém, do que em vinte e cinco anos, porque não há mais tempo de esperar: milhares de homens, mulheres e crianças são verdadeiros moribundos ambulantes que tecnicamente deviam estar internados em hospitais para subnutridos. Tal é a miséria, que se justificaria ser decretado estado de prontidão, como diante de calamidade pública. Só que é pior: a fome é a nossa endemia, já está fazendo parte orgânica do corpo e da alma. E, na maioria das vezes, quando se descrevem as características físicas, morais e mentais de um brasileiro, não se nota que na verdade se estão descrevendo os sintomas físicos, morais e mentais da fome. Os líderes que tiverem como meta a solução econômica do problema da comida serão tão abençoados por nós como, em comparação, o mundo abençoará os que descobrirem a cura do câncer.
Clarice Lispector, “A descoberta do mundo”.

Aquele que veio para destruir

Jair Bolsonaro já está imortalizado como o presidente mais mentiroso do Brasil, mas deve-se admitir que pelo menos uma vez ele falou a verdade —que seu governo viria não “para construir, mas para desconstruir”. Disse isso em março de 2019, num jantar para empresários, políticos e jornalistas em Washington, tendo à sua direita o astrólogo Olavo de Carvalho, que lhe soprava frases. Uma delas, a de que a desconstrução era indispensável porque ele recebera um país rumando para o comunismo. Os gringos não sabiam que Michel Temer, seu antecessor, era comunista.

Bolsonaro tem mais do que cumprido a promessa. Está desconstruindo não só o que herdou dos governos, segundo ele, de esquerda, mas até o que seu dileto regime militar deixou.


Os generais da ditadura, em paralelo à asfixia política e jurídica, corrupção, censura, tortura e execuções que praticavam, pretendiam-se desenvolvimentistas. Costa e Silva criou o Mobral, a Funai e a Embraer. Médici, a Telebrás, a Infraero e o Incra. Geisel reatou relações com a China, foi o primeiro a reconhecer a independência de Angola e conduziu a Petrobras durante uma crise mundial do petróleo. Pois Bolsonaro dedica-se a —perdão, vacas— avacalhar com tudo isso.

Pode-se imaginar como Geisel, nacionalista hidrófobo, reagiria à recente declaração de Bolsonaro de que estava “pensando em privatizar a Petrobras”. Ou o que Castello Branco diria do seu desmonte da educação. E como eles veriam o seu desprezo pela administração, irresponsabilidade com a economia e redução do país a um quintal de condomínio.

Como se não bastasse seu rol de crimes na pandemia —indução à morte, charlatanismo, incitação ao crime, falsificação de documentos, violação de direitos, desvio de verbas, prevaricação etc.—, Bolsonaro deixou longe até o inesquecível João Batista Figueiredo na categoria em que este parecia imbatível: a destruição da dignidade da Presidência.

Estamos em decadência

Pela primeira vez na nossa história, o Brasil apresenta sinais de que sua crise é parte de uma decadência, que vai exigir anos, talvez décadas, para ser superada, recuperando o rumo do desenvolvimento civilizatório. Ainda no início dos anos 1990, o livro “O Colapso da Modernidade Brasileira” já alertava que o progresso brasileiro seria interrompido em decorrência da falta de cuidado com a desigualdade social, com os desequilíbrios fiscal e ecológico, com a baixa qualidade da educação, a tolerância com a corrupção e a ineficiência, o desprezo com a ciência e a tecnologia.

O atual debate político, prisioneiro do confronto em 2022, exclui a ideia de que Jair Bolsonaro é um fenômeno trágico e brutal, mas passageiro, e que, ao se abraçarem a ele, seus opositores ignoram a dimensão da tragédia histórica que o Brasil atravessa há anos. O momento atual é visto como uma crise, consequência do Bolsonaro quando, na realidade, ele é um indicador da nossa decadência.



A ânsia de emigração também é um indicador de decadência. Não se trata de saída por períodos curtos, para estudar, fugir de repressão, de guerra civil, como ocorre em outros países. As pessoas estão emigrando para fugir da violência, da incerteza, da falta de perspectiva de bem-estar e da ausência de desafio para construir uma nação; elas abandonam o Brasil por falta de esperança. A emigraçāo é facilitada pela globalização que permite manter os laços familiares e culturais, mesmo vivendo no exterior. O emigrado troca a vida angustiante e sem perspectiva no Brasil por uma vida segura no exterior, conversando com som e imagem com as pessoas que deixou no Brasil, assistindo ao futebol, às novelas e ao noticiário da televisão brasileira.

A decadência que provoca a emigração se agrava porque rouba o potencial desses emigrantes que vão beneficiar o país que os adota ou tolera. Um dia, algum desses emigrantes, ou seu filho ou filha, provavelmente receberá um Nobel em nome do país onde vive e produz.

Outro indicador de decadência está no despreparo educacional de grande parcela da população de adultos “analfabetos para a contemporaneidade”: não conhecem bases da ciência, não entendem os problemas do mundo, não falam idiomas estrangeiros. Isso indica que não estamos preparados para a integração no mundo, nem sintonizados com a velocidade com que ele avança. O corte de verbas promovido recentemente por decisão do presidente da República induz à decadência, porque o país que não invista maciçamente em conhecimento fica para trás em relação aos outros países.

A violência que nos rodeia é um indicador de decadência. Ainda mais a aceitação e acomodamento de sobreviver no meio de uma guerra civil informal, mas mortífera. Vivemos cercados por guardas, muros, vigilância; assistimos o noticiário como descrição de campo de batalha, sabendo que esse quadro continuará se agravando, empurrando muitos para a migração ao exterior e outros para aceitarem viver no meio da guerra sem saber quando será sua vez de vítima.

É prova de decadência moral a tolerância com a divisão da sociedade brasileira por uma brutal concentração de renda, cuja manifestação mais anti-civilizada é sermos o maior exportador de alimentos e termos um dos maiores contingentes de pessoas famintas entre todos os países do mundo. A aceitação como natural das notícias sobre a fome intercaladas de propaganda de alimentos e de concursos de culinária é mais um indicador de decadência moral que lembra o tempo em que a escravidão era aceita com naturalidade, separando os brancos dos negros, agora quem come e quem passa fome.

Também é prova de decadência termos o presidente mais ridicularizado entre todos do mundo, visto como motivo de galhofa internacional, representando um país em decadência, ao negar a importância da ciência, dizer com orgulho que não tomou vacina e que não vê necessidade de distanciamento social. Ainda mais quando a oposição torna-se prisioneira dos interesses eleitorais imediatos, sem perceber a decadência, nem apresentar rumos alternativos para barrá-la e promover a ascensão do país a um patamar superior de civilização. Nossos líderes parecem pilotos que disputam controlar o leme do navio, sem ver o iceberg da decadência em frente.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Califado da fome

De 2030 a 2060, deverá haver uma queda de 0,2% na fatia da população ativa no mercado de trabalho do Brasil. O potencial da taxa de ocupação no Brasil também deve cair 0,1% no mesmo período.

Para tentar reduzir esse impacto, a organização considera a importância de mudanças estruturais nos sistemas de previdência e no mercado de trabalho.

 Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)

A tragédia se impôs

Quando a CPI da Covid começou, avaliei que ela seria capaz de produzir um relatório forte, mas não o impeachment de Bolsonaro. No plano objetivo, não há o que mudar na análise, mas, no subjetivo, vejo-me obrigado a morder a língua. A comissão se saiu bem melhor do que eu esperava.

Não é que eu tenha recobrado a fé em CPIs. Continuo achando que elas não são bons instrumentos de investigação. Fora uns poucos parlamentares, em geral com experiência como delegados ou promotores, os membros dessas comissões não sabem instruir um processo nem estão muito interessados nisso. Sua prioridade é criar fatos políticos e produzir imagens em que apareçam bem, para usá-las na próxima campanha eleitoral.


Politicamente, o mais frequente é que os núcleos oposicionista e governista mantenham certa paridade de armas, o que garante que as comissões não avancem muito (se vocês investigarem nossos amigos, nós investigaremos os seus).

A CPI da Covid fugiu a esse roteiro, antes de mais nada, porque o governo, em suas múltiplas incompetências, não foi capaz de articular-se com os partidos que o apoiam para que indicassem membros alinhados ao Planalto. A comissão acabou ficando com uma composição pouco sensível aos interesses do governo, o que lhe permitiu agir com independência.

O ingrediente mais importante, porém, foi a magnitude do desastre. A Covid matou mais de 600 mil brasileiros, ou 286 de cada 100.000 habitantes. Só epidemias e guerras produzem morticínios desse calibre. E uma parte desses óbitos era evitável.

Essa é uma história que não havia como ignorar, e a CPI foi o único canal institucional pelo qual ela pôde ser contada, já que a Câmara e a PGR optaram por não se mexer. Sem a CPI, não se teria consolidado na população a percepção de que o governo federal fracassou miseravelmente em sua missão de enfrentar a pandemia —o que basta para garantir-lhe um lugar na história.

Gargalhada da morte

A cloroquina que ameaça a CPI

Os senadores da CPI trabalharam direito. Mostraram as conexões do charlatanismo com a picaretagem e a má administração da Saúde numa pandemia que já matou mais de 600 mil pessoas. Num país onde o presidente da República falou na “gripezinha” e reclamou dos “maricas” que se protegiam contra o vírus, isso é muita coisa.

Na reta final, como se tivesse tomado cloroquina, a CPI foi vitimada pelos efeitos colaterais provocados pelo teatro que lhe deu fama.

Uma coisa foram as investigações, em cuja retaguarda trabalhou uma infantaria competente. Outra foi o espetáculo que mostrava ao vivo e em cores charlatães, picaretas e profissionais de saúde honestos. Ele produziu também momentos de policialismo e teatro. Mesmo assim, encurralou a retórica do negacionismo do governo, do ministro-general Pazuello e de seu sucessor, o coronel Queiroga, da cepa dos senhores de engenho. Quando ele mostrou o dedo, não foi apenas mal-educado. Acima de tudo, informou que, ao presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, não restava outra forma de expressão.


Um relatório com mais de mil páginas resultará em manchetes. Depois cairá na vida real do Judiciário. Denunciar Bolsonaro como genocida poderá ser um grito de revolta. Passarão os meses e, com toda a probabilidade, nenhum tribunal aceitará essa tipificação. Fica-se então numa situação em que ele parecerá ter sido exonerado, quando o próprio trabalho da CPI terá mostrado que foi incompetente, mistificador e negacionista. O polivalente general Luiz Eduardo Ramos chegou a pedir à imprensa que não mostrasse tantos sepultamentos. Basta.

Noves fora as picaretagens em torno das vacinas, da cloroquina, da Prevent Senior e da Hapvida, Bolsonaro foi acometido pela síndrome que contaminou o bunker de Hitler entre abril e maio de 1945. Com os russos nos subúrbios da cidade, os maganos do Reich brigavam entre si e cultivavam fórmulas milagrosas para sair da encrenca em que haviam se metido. Só não admitiam a rendição incondicional exigida pelos Aliados. No palácio do capitão, acreditou-se em poções mágicas e em imunidade de rebanho. Só não se acreditou na letalidade do vírus.

A busca dos estrondos poderá envenenar as conclusões da CPI. Mais valerá uma denúncia baseada em fatos apurados do que uma acusação que se desmanchará no ar. Os senadores tiveram nas mãos o óbvio ululante, que, por ululante, pode parecer pouco. Todo mundo tem direito a 15 minutos de fama. A CPI deu a seus integrantes 15 semanas, e todo mundo ganhou com isso. Não há motivo para exagerar.

Nos últimos 120 anos, o Brasil, além da pandemia da Gripe Espanhola, penou em duas grandes epidemias, a da febre amarela, em 1903, e a da meningite, em 1974. Em ambas, apareceram charlatães da marquetagem, mas em nenhuma das duas a Presidência foi contaminada pelo negacionismo. Rodrigues Alves, o presidente à época da Revolta da Vacina, mandou atirar contra a tropa rebelada que marchava em direção ao palácio e acabou com a crise. Andou-se para trás. Talvez para o tempo do Império, quando o poderoso Bernardo Pereira de Vasconcelos foi para a tribuna do Senado para reclamar que se exageravam os efeitos da epidemia de febre amarela. Seis dias depois, morreu, de febre amarela.

Brasil que ri da morte (dos outros)

 


Blindagem de Braga Netto na CPI mostra que o golpismo compensa

A comissão chegou a ouvir o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde. Mas recusou-se a convocar o general Walter Braga Netto, ex-chefe da Casa Civil e atual ministro da Defesa.

Os senadores Humberto Costa e Alessandro Vieira apresentaram quatro requerimentos para que o oficial fosse inquerido. A CPI vai terminar sem que nenhum deles tenha sido votado.

Não foi por falta de motivo. Por mais de um ano, Braga Netto comandou o comitê de crise que deveria coordenar as ações do governo. O órgão se notabilizou pela inércia e pela falta de transparência.

O general deixou sua marca no atraso para comprar vacinas e na demora para levar oxigênio a Manaus. Além disso, comandou a reunião em que a médica Nise Yamaguchi tentou emplacar uma mudança na bula da cloroquina. A ideia só foi abortada porque o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, recusou-se a participar da trama negacionista.


O acanhamento da CPI encorajou Braga Netto a achincalhá-la. Em julho, o general emitiu uma nota em tom de ameaça ao presidente da comissão, Omar Aziz. Ele chamou o senador de “irresponsável” e “leviano” por criticar a participação de militares em malfeitos.

Renan Calheiros incluiu Braga Netto na lista de pedidos de indiciamento. No relatório que deve ser lido hoje, ele afirma que as “ações e inações” do general “são suficientes para que seja apurada possível prática do crime de epidemia”. É verdade, mas o oficial se beneficiou da falta de disposição para ouvi-lo.

Em conversas reservadas, senadores dizem que a CPI poupou Braga Netto para não melindrar o Exército e não ajudar Jair Bolsonaro a atiçar os quartéis. Se a razão foi essa, conclui-se que o golpismo compensa.

Ontem o deputado Jorge Solla tentou aproveitar uma audiência pública na Câmara para cobrar explicações ao general. Ele se sentiu à vontade para ignorar todas as perguntas sobre a pandemia. A atitude comprova que a CPI errou ao não obrigá-lo a depor.

AGU pede que revista publique capa pró-Bolsonaro como direito de resposta


A Advocacia-Geral da União (AGU) pediu à revista IstoÉ direito de resposta por estampar em uma capa sobre o relatório final da CPI da Pandemia uma imagem do presidente Jair Bolsonaro com um bigode similar ao de Adolf Hitler, formado pela palavra genocida.

Em edição publicada na última sexta-feira (15/10), a IstoÉ trouxe uma reportagem sobre o relatório, que pedirá ao Ministério Público que indicie Bolsonaro por diversos crimes relacionados à gestão da pandemia.

O relatório final deve ser lido nesta quarta-feira e votado na próxima semana pela CPI, e seu teor final ainda passa por ajustes, mas é possível que o texto peça o indiciamento de Bolsonaro por homicídio, crime contra a humanidade e genocídio de indígenas.

O relatório argumenta que Bolsonaro teria agido deliberadamente para facilitar a disseminação do coronavírus para tentar atingir a imunidade coletiva da população, promovido remédios sem eficácia contra a doença e atrasado a compra de vacinas, provocando milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas.

Na sua capa, a IstoÉ afirma que Bolsonaro "patrocinou experiências desumanas inspiradas no horror nazista" durante a pandemia, e "reproduziu na medicina métodos comparáveis aos do Terceiro Reich". A reportagem é intitulada "Arquiteto da tragédia":

A AGU enviou nesta segunda-feira à Editora Três, responsável pela publicação da IstoÉ, uma notificação extrajudicial alegando que a revista retratou Bolsonaro "pejorativamente" e imputou ao presidente o cometimento do crime de genocídio.

A notificação, assinada pelo advogado-geral da União, Bruno Bianco Leal, também afirma que a revista se omitiu sobre "os programas e avanços públicos desenvolvidos pelo Estado Brasileiro na seara da saúde desde o início da crise sanitária", citando o número de doses de vacinas distribuídas no país e o volume de recursos públicos destinados pelo governo federal à questão.


A AGU pede que a IstoÉ publique uma outra capa como direito de resposta, e apresenta o modelo esperado. Nele, Bolsonaro aparece em três imagens, uma sorridente e acenando, em outra abraçando dois jovens, e na terceira com a faixa presidencial em um desfile oficial, sob o título "Governo Bolsonaro defendeu a vida, o emprego, a liberdade e a dignidade":

Além disso, a notificação solicita a publicação de um texto de seis páginas – mesmo espaço dedicado à reportagem escrita pela IstoÉ – em que defende a atuação do governo durante a pandemia, e diz que a revista explorou "a um só tempo a dor do povo judeu e a dor de quem perdeu pessoas amadas na Covid".

A notificação extrajudicial é prevista em lei como uma primeira etapa para o interessado que deseja exercer direito de resposta contra uma publicação. Se a revista se negar a publicá-la em sete dias, a AGU poderá propor uma ação judicial sobre o tema.

A direita que não quer se misturar com “essa laia”

“O presidente Jair Bolsonaro pauta suas ações pelo confronto incessante, pela produção permanente do enfrentamento”. “Jair Bolsonaro, o mais inepto, irresponsável e inconsequente dos presidentes que governaram a Nação ao longo destes quase 132 anos de história republicana”. “O Brasil é hoje muito malvisto lá fora e caminha para certa irrelevância. Isso deve continuar. O que estamos fazendo sobre a Amazônia é uma loucura para o mundo, mas sobretudo para nós”. “Ao desprezar os fatos e a civilidade, Jair Bolsonaro humilha e desonra o País internacionalmente”. “Bolsonaro é um mentiroso contumaz”.

“O interesse nacional é remover um presidente catastrófico, que rendeu a nação ao coronavírus e, ameaçando a democracia, planeja contestar sua inevitável derrocada eleitoral”. “Ainda há tempo – mas não muito. É difícil imaginar o que seriam mais quatro anos do mesmo, a partir de 2023”. “O bolsonarismo é um populismo reacionário e boçal, cuja estridência e histrionismo prejudicam a parcela sensata da direita, que se vê impelida a traçar uma linha divisória, como o fez a senadora Soraya Thronicke, (…), ao declarar: ‘Não quero me misturar com essa laia’ “.

“Como agora se tornou muito claro, o presidente Bolsonaro integra ativamente essa máquina de desestabilização da democracia”. “Bolsonaro é aquela imagem acabada de um não-liberal. É o cara da extrema direita que não acredita na ciência, não acredita na sustentabilidade, não respeita os Três Poderes, é a favor da tortura e gosta de exaltar ditadores. Bolsonaro é o oposto da ideia do liberalismo”. “Do ponto de vista econômico, é absolutamente paralisante”. “Bolsonaro desmoraliza o liberalismo mais do que qualquer presidente de esquerda”.


“O diálogo, o reconhecimento do outro não fazem parte de seu mundo, que se constitui num mundo à parte ao da democracia e das liberdades”. “Jair Bolsonaro não é conservador; é apenas reacionário. O conservadorismo não se opõe a reformas, e sim às rupturas revolucionárias”. “Num cenário de horror eleitoral em 2022, Bolsonaro é o Alien e Lula é o Predador. Numa eventual disputa no segundo turno em 2022 entre Bolsonaro e Lula, a sensibilidade conservadora indica que o Lula seria a opção menos ruim”.

Não, leitor, as afirmações acima não foram copiadas de blogs sujos. Todos os autores destas sentenças têm pelo menos uma destas três características: direitista, liberal ou conservador. Em comum, têm ojeriza ao PT.

Parte da chamada direita liberal nunca engoliu o capitão-mor. Em 2018, diante da escolha entre dois extremos, dispensou-se de apoiar o, até então, folclórico deputado. Recordando: 42,3 milhões (30,87%) de eleitores rejeitaram os dois candidatos no segundo turno.

Outro contingente votou em Bolsonaro acreditando que seria possível avançar as reformas liberais e enterrar o petismo dominante no Brasil pós-ditadura militar. Parte desta turma arrependeu-se.

A utopia é ver a política tomada por gente que lute por ideias e ideais. No mundo real, há muitos espertalhões e alguns idealistas. Fora da lógica maniqueísta, há também idealistas espertalhões. Angariam benesses para si e para os seus, ao mesmo tempo em que aprovam avanços legais. O Parlamento brasiliano é cenário destas contradições.

O embate saudável que o Brasil poderia estar vivenciando hoje, decorridos 36 anos de democracia ininterrupta, é a confrontação dos modelos de Brasil que os brasilianos querem para os 79 anos que restam do século XXI. As condições para fugir da mediocridade estão postas. A chamada esquerda não autoritária está na janela, como sempre esteve. A chamada direita, agora sem vergonha, saiu do armário.

Este debate, no entanto, está interditado justamente pelo presidente da República. (Do outro lado, a esquerda autoritária também não quer conversar, mas doutrinar.) Ao mesmo tempo em que contribuiu, como força centrípeta, para reunir este contingente, Bolsonaro precipitou sua súbita dispersão. Esta veio sobretudo pelo caráter desagregador, egocêntrico, apedeuta e obtuso do mandatário.

Passados quase três anos de inépcia administrativa e ausência de rumo programático, parte da chamada direita de raiz convenceu-se de que o capitão-mor não é o condutor rumo ao Brasil liberal e conservador. As sentenças que abrem este artigo exibem estas decepcionadas conclusões. Viram que, no comando, há uma “laia” com a qual não querem se misturar.

Espanando os extremos e com algum desprendimento é possível deflagrar o debate democrático e honesto sobre como livrar o País da paralisia econômica e social. Assim como na chamada esquerda parecem ser minoritários os que flertam com regimes autoritários e hegemônicos, na chamada direita há democratas e moderados. In medio stat virtus. Alternância entre extremos gera tensão permanente e descontinuidade administrativa.

Uma direita autêntica poderá levar racionalidade para o debate relevante. Hoje, o descontentamento com o presidente da República se espraia entre liberais e conservadores, os quais perceberam que o capitão-mor não os representa.

A imprevisibilidade desta tarefa é que há, pasme-se, milhões de brasilianos em ordem-unida atrás de Bolsonaro. Grosso modo, esta grei é constituída por crentes (amedrontados pela imposição da pauta de costumes), finórios (políticos e empresários que disputam seu quinhão do erário), antidemocratas e os que veem Bolsonaro como único anteparo à volta do petismo ao poder.

Há crescente interesse eleitoral na larga parcela nem-petista-nem-bolsonarista por um moderado, aquele terceiro candidato presidencial que conduziria o Brasil sem arroubos autoritários e com a necessária mediação num Brasil tão díspar de interesses e propósitos. Que não reincida em fórmulas mágicas, nem requente receitas emboloradas e malsucedidas. Não postule a censura da imprensa nem o fechamento do Congresso Nacional. Por enquanto, um desconhecido.

Itamar Garcez

Aos corruptos, as algemas

Nada de dourar a pílula: estamos sob a vigência do mal. Ainda que não seja dita assim, com todas as letras, essa será a conclusão primordial do relatório da CPI da Pandemia, a ser apresentado e votado esta semana. Após seis meses de trabalho meticuloso, o resultado da apuração dos senadores, que trabalharam baseados em fatos e evidências, não poderá ser outro.

O relatório terá que oferecer uma narrativa sobre a atitude de pessoas que tinham o livre arbítrio para agir, mas escolheram não fazer o bem. O que resultou na morte de mais de 600 mil brasileiros. E também vai se aprofundar na origem de uma prática nociva e abusiva; e de como ela foi concebida. Um mal popularmente conhecido pelo nome de corrupção.

Esta CPI da Pandemia já é o maior e mais importante acontecimento político, sanitário, humanitário e ético deste ano. Político porque terá consequências inclusive eleitorais; sanitário porque se configurou como política pública de enfretamento à crise; humanitário e ético porque a corrupção, que ela tem a coragem de denunciar, é duplamente violenta.

Duas vezes violenta, sim. Em primeiro lugar porque toda corrupção é agressiva e perniciosa por si. Ela é naturalmente causa de injustiças e desigualdades sociais. Em segundo porque, nesta pandemia, foi o motivo direto de muito sofrimento. Tanto quanto a própria covid-19.

Desde fevereiro do ano passado, o brasileiro vem sendo vítima de grupos e de pessoas que se aproveitam de um drama para tirar proveito de bens públicos. É impressionante como os desonestos são ágeis quando têm que arquitetar maldades.

Houve milhares de mortes. O Ministério da Saúde deixou faltar oxigênio nos kits de intubação. Nós, humanos, fomos cobaias de medicamentos que, de antemão, já se sabia que não tinham indicação para a covid-19. O presidente e seus asseclas atacaram o uso de máscaras e as medidas sanitárias para conter o vírus. Eles também desencadearam uma campanha que atrapalhou a vacinação num primeiro momento.

Tem mais. Os planos de saúde não nos enxergaram enquanto cidadãos de direitos. Só como consumidores. Esses covardes todos viram que, na pandemia, não estávamos atentos e perceberam que era uma boa oportunidade de nos prejudicar. De surrupiar. De passar a boiada. E até de facilitar a morte de quem estava hospitalizado tendo em vista que “óbito também é alta médica”. Que merda!

O relatório da CPI da Pandemia nos oferece uma oportunidade de refletir sobre nossos políticos. Mostra, ainda, que a corrupção não é exclusiva desses, mas também dos empresários. Uns e outros, movidos pelo mal, agiram como verdadeiros serial killers.

Descobrimos fatalmente que somos impotentes e frágeis diante deste mal. E que esse tipo de demônio se realiza nas ações humanas. As pessoas podem personificar o mal, sim, quando têm a oportunidade de escolher. E é assim que optam pelas ações que prejudicam, matam, escravizam, levam à miséria e à dor. Foi o que aconteceu.

O mal da corrupção aprofundou ainda mais a pandemia, que já era terrível enquanto catástrofe “natural”. Mas, nós temos o antídoto certo contra o dragão da maldade: a nossa união e o nosso voto.

O ano de 2022 está batendo na porta, para nos vingar. E a Justiça, se quiser fazer o bem, tem o remédio certo: dar a ordem para a polícia colocar um par de algemas em cada um desses diabos.
Cícero Belmar

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Tempo de cadeia é o de menos

Estamos discutindo se o presidente Bolsonaro merece ser condenado a 50 ou a 150 anos. Convenhamos que não faz diferença. É um criminoso do mesmo jeito
Alessandro Vieira (Cidadania-SE), senador da CPI da Covid