segunda-feira, 21 de março de 2016
Máscaras e bananas
A colisão era inevitável. Questão de tempo, apenas. Ficção e feição tão diferentes e contraditórias somente poderiam existir na ausência de luz. Ou atrás da máscara que escondeu a identidade e transformou seu portador naquilo que não era diante dos outros.
Máscaras são símbolos do engodo. É disfarce que esconde a identidade. Distorcem a realidade. Substituem as verdadeiras feições por ficções planejadas. Ajudam a mistificação buscando a associação do usuário com algum tipo de autoridade incontestável, superioridade moral, ou qualquer outra forma reivindicar papel, importância, ou relevo social que jamais teve.
Máscara é palavra que é proveniente do latim (mascus ou masca; "fantasma") derivado do árabe (maskharah, palhaço; e do verbo sakhira, "ao ridículo"); ou do hebreu (masecha), cuja tradução seria algo como "ele zombou, ridicularizou". Nos dois casos, consistente com o que se viu.
Remove-la, foi (e talvez continua sendo) traumático, chocante. A dissonância entre a face real e a imagem que o mito projetava agride os sentidos. Mas era esperado e consistente com a origem da palavra.
Verificar aquilo que se dizia e se fez quando ninguém olhava, fazer cair a mascar, enfim, revelou rostos imperfeitos, atitudes discutíveis e personagens duvidosos. Tudo escondido em mistura já conhecida de vulgaridades e meias verdades, sempre servidas com doses generosas de mentiras completas.
O que se viu, e principalmente se ouviu, foi duro, mas realidade. Estava comprovado. O personagem era representação falsa, ilusória de si mesmo, disposto a revelar sua verdadeira natureza apenas quando seu rosto (ou voz) permanecesse escondido. Sob o conforto do anonimato, sua identidade ficaria obscurecida. Somente suas ficções, e não as feições fariam historia. Bastou dar-lhe uma mascara para que ele se revelasse de verdade.
E o que se viu, foi triste. Almas autoproclamadas puras revelando perspectivas, opiniões, ações, e intenções fundadas no desprezo profundo pela inteligência e dignidade alheias. Demonstrações incontestáveis de desprezo pela democracia e horror às instituições. Desrespeitos a lei, e aposta no seu descumprimento.
Revelou-se, enfim, o projeto de fundação de uma republica de bananas. Onde, sem duvida, faltariam bananas para todos. Claro.
Máscaras são símbolos do engodo. É disfarce que esconde a identidade. Distorcem a realidade. Substituem as verdadeiras feições por ficções planejadas. Ajudam a mistificação buscando a associação do usuário com algum tipo de autoridade incontestável, superioridade moral, ou qualquer outra forma reivindicar papel, importância, ou relevo social que jamais teve.
Máscara é palavra que é proveniente do latim (mascus ou masca; "fantasma") derivado do árabe (maskharah, palhaço; e do verbo sakhira, "ao ridículo"); ou do hebreu (masecha), cuja tradução seria algo como "ele zombou, ridicularizou". Nos dois casos, consistente com o que se viu.
Remove-la, foi (e talvez continua sendo) traumático, chocante. A dissonância entre a face real e a imagem que o mito projetava agride os sentidos. Mas era esperado e consistente com a origem da palavra.
Verificar aquilo que se dizia e se fez quando ninguém olhava, fazer cair a mascar, enfim, revelou rostos imperfeitos, atitudes discutíveis e personagens duvidosos. Tudo escondido em mistura já conhecida de vulgaridades e meias verdades, sempre servidas com doses generosas de mentiras completas.
O que se viu, e principalmente se ouviu, foi duro, mas realidade. Estava comprovado. O personagem era representação falsa, ilusória de si mesmo, disposto a revelar sua verdadeira natureza apenas quando seu rosto (ou voz) permanecesse escondido. Sob o conforto do anonimato, sua identidade ficaria obscurecida. Somente suas ficções, e não as feições fariam historia. Bastou dar-lhe uma mascara para que ele se revelasse de verdade.
E o que se viu, foi triste. Almas autoproclamadas puras revelando perspectivas, opiniões, ações, e intenções fundadas no desprezo profundo pela inteligência e dignidade alheias. Demonstrações incontestáveis de desprezo pela democracia e horror às instituições. Desrespeitos a lei, e aposta no seu descumprimento.
Revelou-se, enfim, o projeto de fundação de uma republica de bananas. Onde, sem duvida, faltariam bananas para todos. Claro.
Torpe e indigno
Qual é o verdadeiro Lula? Aquele que, sem saber que estava sendo ouvido, afirma que o STF e o STJ estão “totalmente acovardados”; cobra gratidão do procurador-geral da República pelo fato de ter sido nomeado pelo governo petista; classifica de “palhaçada” a denúncia de que é alvo por parte do Ministério Público; manda policiais e procuradores enfiar em lugar impublicável as investigações que o envolvem; ou aquele que, em “carta aberta” obviamente escrita por gente alfabetizada, tenta corrigir o devastador efeito negativo da divulgação de suas conversas telefônicas legitimamente gravadas e divulgadas – não “vazadas” – pela Operação Lava Jato?
Afirma Lula, no texto que assinou – e que devem ter lido para ele –, que como presidente da República sempre respeitou o Poder Judiciário e apela ao recurso demagógico de se fazer de vítima que tem sua intimidade “violentada por vazamentos ilegais” e apela à falsa condição de pobrezinho, pessoa humilde e bem-intencionada: “Não tive acesso a grandes estudos formais. Não sou doutor, letrado, jurisconsulto. Mas sei, como todo ser humano, distinguir o certo do errado; o justo do injusto”. Lula não diz a verdade. Ele, de fato, sabe o que é certo e o que é errado. Mas nunca quis saber como se distingue uma coisa da outra. Para ele, certo é tudo aquilo que faz e lhe dá prazer e proveito. Errado é o que não lhe apraz ou pode prejudicar.
Tem sido sempre assim. Reeleito presidente, passou a demonstrar completo desrespeito pelo Judiciário, ofendendo gravemente o STF com a afirmação de que o processo do mensalão era uma farsa que ele trataria de desmontar depois que deixasse o poder. Mas então o petrolão já estava funcionando a pleno vapor e acabou com a fanfarronice do chefão petista.
O perfil moral do ex-presidente foi descrito, em palavras duras, pelo decano da Suprema Corte, ministro Celso de Mello, ao repudiar, sem citar nomes, as “ofensas” e “grosserias” de que os ministros togados foram alvo por parte do ex-presidente: “Esse insulto ao Judiciário, além de absolutamente inaceitável e passível da mais veemente repulsa por parte dessa Corte Suprema, traduz, no presente contexto da profunda crise moral que envolve os altos padrões da República, a reação torpe e indigna, típica de mentes autocráticas e arrogantes que não conseguem esconder, até mesmo em razão do primarismo de seu gesto leviano e irresponsável, o temor pela prevalência da lei e o receio pela atuação firme, justa, impessoal e isenta de juízes livres e independentes”. Várias entidades representativas de juízes, do Ministério Público e dos policiais também repudiaram a tentativa de desqualificar o trabalho da força-tarefa da Lava Jato e do juiz Sergio Moro.
A verdade é que Lula, hábil manipulador e especialista em dizer o que as pessoas querem ouvir, subiu na vida no papel de líder populista, pragmático no pior sentido do termo, sem nenhum compromisso sério senão com a crescente volúpia pelo poder. Inculto, mas espertalhão, Lula deu um nó nos intelectuais esquerdistas que se iludiram com a possibilidade de manipulá-lo e, com indiscutível apoio popular, fingiu converter-se à política econômica que vinha produzindo resultados e se elegeu à Presidência da República para amoldar a seu feitio o “novo regime”: uma ação entre amigos com sotaque nitidamente sindical.
Enquanto a economia permitiu, o governo Lula mergulhou fundo em programas sociais indiscutivelmente meritórios, mas insustentáveis quando o panorama mundial se tornou adverso e a incompetência de Dilma Rousseff impediu as necessárias correções. Hoje, com o governo se desintegrando politicamente, inflação e desemprego crescentes e sem recursos para investir em programas estruturantes, os brasileiros caíram na real. Já não têm ilusões e isso os faz lutar por seus próprios direitos e interesses, o que significa pôr-se do lado oposto do governo responsável por suas frustrações.
Lula, porém, parece acreditar que ainda conseguirá sobreviver ao desastre político, econômico e moral que montou. Mas isso ficou muito mais difícil a partir do instante em que as autoridades começaram a revelar à Nação, com detalhes, os esquemas de corrupção que vêm sustentando o lulopetismo. E, nesse processo, ficou exposta a verdadeira face de Lula, esse populista irresponsável que procura dissimular sua verdadeira condição de abastado burguês para manter a pose de líder popular que compartilha o destino dos pobres.
Certas palavras valem mais que mil imagens

Uma hora de trabalho e saí em busca de água e um banheiro no Congresso. Ali, soube da divulgação dos áudios.
Em termos cinematográficos, o áudio contém metade das informações de um filme. Nesse caso, os áudios eram toda a informação necessária para inflamar as ruas. As multidões já estavam iradas e o diálogo Dilma-Lula serviu para catalisar um processo que já estava em andamento. Os romances do passado escreviam assim: a marquesa saiu às seis horas. Agora era possível reescrevê-los: Dilma foi para o espaço às seis horas, no rabo de um foguete barbudo.
Só mais tarde, exausto, examinei o conjunto de gravações. Senti que Lula estava acuado, tentando dominar um processo que escapava ao seu alcance. Os interlocutores, inclusive Jaques Wagner e, principalmente, Nélson Barbosa, respondiam com frases curtas, como se estivessem incomodados, loucos para desligar. Ele sabia que era uma luta difícil. Mas lamentava o medo dos outros: o Congresso e o Supremo estavam acovardados. Sua intenção era deter a Lava-Jato e criar uma frente de investigados. Se não fizessem nada, seriam todos presos.
Renan estava fodido, Cunha, idem. Lula parecia assumir sua verdadeira condição de chefe da imensa quadrilha, para salvá-la dos procuradores que, segundo ele, se achavam representantes divinos. Conversas gravadas sempre trazem embaraços. Na intimidade, somos menos cuidadosos. A série de gravações mostrou não só que Lula queria interferir no processo legal. Mostrou algo que não se suspeitava: a falta de carinho e solidariedade com as pessoas que o ajudaram por décadas.
É o caso de Clara Ant. Ela chegou a ser deputada, mas depois disso dedicou-se, inteiramente, a ajudar Lula. Ao que parece, foi um projeto de vida. Participei de um debate com ela, sobre o conflito no Oriente Médio, diante de uma plateia formada por membros da colônia judaica. Ela defendeu, como pôde, a política externa do governo brasileiro. Pareceu-me uma pessoa tranquila e bastante confortável diante de ideias divergentes. Não tenho procuração para defendê-la e, quem sabe, pense a meu respeito todas as barbaridades que a imprensa petista divulga. No entanto, afirmo que não é assim que se trata uma colaboradora de tantos anos, nem é assim que se trata qualquer mulher que tem sua casa invadida por cinco policiais. Lula disse que ela deve ter achado um presente de Deus tantos homens entrando pela porta. Dilma riu. Dilma, a presidenta, a mulher símbolo de uma conquista feminina, ri de piadas machistas desde que contadas pelo seu chefe.
O ângulo político das gravações, nesta altura, já deve ter sido exaurido, e a tentativa de fugir da Lava-Jato já se revelou o desastre que todas as pessoas sensatas previam. O ministro Aragão, que tinha como tarefa desmontar a Lava-Jato, foi tratado como alguém que é amigo, mas, no momento de fazer as coisas, sempre dizia “Olha’’. Lembrou-me de Sancho Pança, que dizia constantemente: “Olha, mestre, olha bem o que está dizendo’’.
Lula não pode ser comparado a um Dom Quixote, pois seria uma agressão a esse maravilhoso símbolo da cultura ocidental. Ele, simplesmente, estava desesperado. A máquina do governo petista não respondia com eficácia sua ânsia de proteção. Os políticos corruptos marchavam para o matadouro, inertes, à espera da salvação mágica. Ele viria para reagrupá-los, derrotar a República de Curitiba e, certamente, encontrar um meio de financiar as relações obscenas alimentadas pelo mensalão e pelo assalto à Petrobras.
Sua meta conservadora é cristalina. E, ainda assim, algumas pessoas, militantes e intelectuais, continuam achando-o o caminho do futuro e classificando de reacionário quem se opõe a um projeto criminoso de poder. As hostes petistas receberiam ordens claras para achincalhar os adversários e intimidar os procuradores e policiais da Lava-Jato.
No princípio da semana, fui alvo de ataques desonestos dos sites pagos pelo governo. Talvez já fosse uma minúscula parte do plano. Não creio que quisessem me intimidar; estavam apenas exercitando os músculos. De todos as crises que vi no Brasil, esta tem uma singularidade: a tristeza de milhares de pessoas que acreditaram no poder transformador da esquerda no governo. Falei com alguns senadores que deixaram o PT. Estavam desolados, depois de tantos anos de trabalho. Pelo menos compreenderam a realidade e podem tentar outro caminho. Os oportunistas e carreiristas continuaram agarrados aos seus empregos.
O drama mesmo é dos que não suportam as dores da realidade e insistem na negação. Seguem o seu líder sem o bom senso de Sancho Pança. Não ousam dizer: “Mestre, olhe bem o que está dizendo’’.Fernando Gabeira
'Normalidade democrática não está consolidada no Brasil'
Para o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, a atual crise política mostra que a normalidade do jogo democrático, que se pensava estar consolidada de maneira sustentável no Brasil, de fato não está.
Em entrevista à DW Brasil, ele afirma que a repercussão da atual instabilidade no momento é terrível para a imagem brasileira, mas pode ser positiva no futuro – desde que a Justiça consiga mostrar que não atua de modo seletivo.
"Se conseguir fazer isso, vamos ter uma reformulação e uma refundação política do Brasil. Como aconteceu na Itália, hoje a corrupção naquele país não tem o mesmo caráter endêmico como antes das Mãos Limpas", opina Sousa Santos, doutor em sociologia pela Universidade de Yale (EUA) e diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal).
Brasil: Como o senhor avalia o atual momento político no Brasil?
Boaventura de Sousa Santos: É uma crise muito grave, fundamentalmente porque a normalidade do jogo democrático, que se pensava estar consolidada de maneira sustentável no Brasil, de fato não está. As elites políticas conservadoras que dominaram durante praticamente todo o período histórico de Independência do Brasil não se conformaram com o fato de terem perdido as últimas eleições por uma pequena margem. É realmente pouco usual que, poucos meses após um presidente assumir, seja pedido o seu impeachment. Além disso, uma fração minoritária, mas importante do Poder Judiciário está ultrapassando e manipulando politicamente os seus poderes e cometendo ilegalidades que, aliás, estão sendo reconhecidas até mesmo pelos adversários políticos do ex-presidente Lula e do PT.
E as denúncias da Lava Jato envolvendo os nomes de Lula e Dilma?
É evidente que o PT e seus dirigentes cometeram muitos erros ao longo desses 12 anos. O PT cedeu, sobretudo a partir do segundo mandato de Lula, e governou à moda antiga, com outros objetivos, aquilo que sempre fizeram as elites oligárquicas conservadoras, o que é uma grande intimidade e promiscuidade entre o poder político e econômico. Se um governo de esquerda não protege essa elite conservadora e pode ter cometido alguns erros, isso tem um significado político muito forte: primeiro, porque a corrupção cometida pela direita e pela esquerda não é tratada de forma igual pelo Judiciário, e isso é assim no Brasil e na Europa. Essa dualidade de critérios é uma constante do sistema judiciário. O juiz Sergio Moro invoca a operação Mãos Limpas na Itália, mas invoca mal, porque na Itália a operação atuou contra toda a classe política: a esquerda e a direita.
Qual seria uma possível solução para a atual crise?
Tem que ser uma solução democrática. E não podemos ter uma situação de distensão como aquela que já está gerando uma divisão profunda do sistema judiciário e político. Muitos pensam que, neste momento, talvez fosse preferível que Dilma renunciasse, e o PT voltasse à oposição e se reconstruísse. A outra posição é aquela que está acertada, de Lula entrar para o ministério. Ele é um grande negociador, um grande político. Ele continua mostrando que, apesar disso tudo, ele está ainda na linha de frente para uma eleição em 2018. O Brasil é um país que está extremamente dividido. É um país menos injusto, que está mais equilibrado econômica e socialmente, mas mais desequilibrado politicamente, precisamente porque as classes dominantes que governaram o Brasil não admitem estar fora do poder por tanto tempo. E isso está condicionando o futuro político do Brasil.
A farofada com Romanée Conti
Quando principalmente a intelectualidade petista vai sair da comodidade aqui e lá fora, do vinho tomado à beira do rio Sena numa tarde em Paris, e visitará as grandes realizações dos governos do PT ao menos nas cidades médias e pequenas?
Não precisarão gastar muito nem perderão tanto tempo nessas cidades de maravilhas abençoadas pelo consagrado partido. Só não vale confiar na propaganda que espalham por meio mundo ao custo do Erário, milhões desviados que seriam obrigatoriamente aplicados ao bem-estar do povo.
Conheçam os hospitais, alguns até alcunhados de Portal da Morte; passeiem por suas maravilhas turísticas atravessando pontes de tábuas, ruas enlameadas; vejam as construções em ruínas nem bem iniciadas ou quase concluídas e já tomadas pelo mato; sintam o cheiro da falta de saneamento: procurem lembranças, que não existem, no comércio do Passo Ponto ou no Centro Cultural fechado há meses depois de custar quase R$ 1 milhão. Também podem frequentar as águas doces poluídas, há anos impróprias para banhistas, ou passear pelos rios infestados de poluição, lixo e aguapés.
Conheçam o espetáculo de lixo não recolhido em terrenos baldios, nas calçadas em torno dos postes.
Será um passeio pela realidade que dirão ser algo parecido com o que acontece em outras cidades. Talvez assim seja, mas quando cidades deixadas ao Deus dará enquanto seus cofres públicos se enchem regularmente de royalties em torno de bilhão, fica difícil engolir que não se melhore a vida da população ao tempo em que os comissionados - praga invasora nos governos petistas - luxam com casa nova, carro novo e até passeios a Cuba, paraíso dos emergentes petistas.
Orgulhosos que são das conquistas em favor dos pobres - algo inédito como se nunca em governo algum se teve a mínima iniciativa desse tipo - os famosos e ferrenhos defensores dos vermelhinhos deveriam conhecer mais da realidade desses mesmos desasssistidos nas mãos do PT. Será que baterão palmas para habitações do Minha Casa Minha Vida construídas em brejos, sujeitas a inundações, bolsas famílias fartamente distribuídas até para não necessitados, UPAs já começando a ser sucateadas, a compra de votos fajuta através de benefícios sociais? Talvez quem sabe aprovem tais ações, justificando com a costumeira cretinice de quem enche a boca com os "pobres" mas arrota caviar e Romanée Conti
Lula na contramão de Collor
Quando renunciou à Presidência da República, em 1992, Fernando Collor abandonava o poder com o objetivo de tentar escapar das garras da Justiça, que acabou por lhe cassar os direitos políticos por alguns anos, após os quais retornou com ficha limpa para o Senado. Os momentos que antecederam a renúncia foram de imensa tensão, tanto no meio político quanto empresarial. Havia rejeição até então inédita do governo, e a oposição não era composta somente pelos caras-pintadas radicais que insultavam o então ex-presidente na lateral do Palácio do Planalto. Os fatos eram inéditos, e e as opiniões sobre o que poderia ou não poderia acontecer eram tão obscuras e contraditórias quanto foram quando da morte de Tancredo Neves.

A avaliação dos eventos recentes envolvendo a posse de Lula no ministério exige cautela e conhecimento. Não basta a enorme indignação da imensa parcela da população que se manifesta contra a nomeação para que o ato seja invalidado. Uma decisão liminar contra a posse já caiu. A decisão do ministro Gilmar Mendes ainda será apreciada pelo plenário do Supremo e, avaliando com os pés no chão, ainda tem como ser anulada.
Corremos o risco, portanto, de termos um ministro em campanha full time para as eleições de 2018. Com a caneta que nomeia e autoriza (ou decide) pagamentos na mão. Uma pessoa que tem aglomerados, organizações e sindicatos às ordens para impedir a oposição de falar e a população de se mover, que podem agredir e insultar qualquer um que divirja da sua ortodoxia dogmática, uma espécie de santo intocável com alguns milhões de devotos capazes de qualquer coisa.
É muito preocupante que exista uma pessoa assim, capaz de deflagrar movimentos imensos de ódio irracional pró e contra. Eu temo imensamente pelo futuro do país e dos nossos filhos, caso uma eventual ação da Justiça que leve Lula à companhia de seus amigos e partidários na Papuda deflagre movimentos ainda maiores e mais violentos. Esse não deveria ser o custo da democracia e da transparência. As coisas não deveriam ter evoluído tanto. A sangria deveria ter sido interrompida lá atrás, qualquer que seja o lugar e o momento em que tenha começado. Ao menos esperamos que tudo o que está ocorrendo ensine alguma coisa útil. Tanto a quem governa (ou julga) quanto a quem vota.

Lula, agora, faz o caminho inverso, agarrando-se a qualquer migalha de poder, subindo de elevador privativo para o lugar onde o superpoderoso José Dirceu finalmente foi desmascarado antes de ser condenado e levado para a cadeia. É preciso lembrarmos que a Casa Civil, além de conceder foro no STF para o ocupante, é o lugar onde foram praticados a maioria dos atos que envergonham o Brasil mundo afora. Foi lá que aconteceu o escândalo que envolveu Erenice Guerra. Foi de lá que partiram as maquinações do Mensalão. Era na condição de ministra que a atual presidente Dilma comandou a Petrobrás quando decisões inimaginavelmente desastrosas foram tomadas, com seu nome escrito e sua assinatura rabiscada em contratos lesivos ao patrimônio da empresa. Por outro lado, foi de lá que Dilma deixou o primeiro escalão do governo para assumir a presidência...
A avaliação dos eventos recentes envolvendo a posse de Lula no ministério exige cautela e conhecimento. Não basta a enorme indignação da imensa parcela da população que se manifesta contra a nomeação para que o ato seja invalidado. Uma decisão liminar contra a posse já caiu. A decisão do ministro Gilmar Mendes ainda será apreciada pelo plenário do Supremo e, avaliando com os pés no chão, ainda tem como ser anulada.
Corremos o risco, portanto, de termos um ministro em campanha full time para as eleições de 2018. Com a caneta que nomeia e autoriza (ou decide) pagamentos na mão. Uma pessoa que tem aglomerados, organizações e sindicatos às ordens para impedir a oposição de falar e a população de se mover, que podem agredir e insultar qualquer um que divirja da sua ortodoxia dogmática, uma espécie de santo intocável com alguns milhões de devotos capazes de qualquer coisa.
É muito preocupante que exista uma pessoa assim, capaz de deflagrar movimentos imensos de ódio irracional pró e contra. Eu temo imensamente pelo futuro do país e dos nossos filhos, caso uma eventual ação da Justiça que leve Lula à companhia de seus amigos e partidários na Papuda deflagre movimentos ainda maiores e mais violentos. Esse não deveria ser o custo da democracia e da transparência. As coisas não deveriam ter evoluído tanto. A sangria deveria ter sido interrompida lá atrás, qualquer que seja o lugar e o momento em que tenha começado. Ao menos esperamos que tudo o que está ocorrendo ensine alguma coisa útil. Tanto a quem governa (ou julga) quanto a quem vota.
Lava Jato, filho mais novo da operação Mãos Limpas
No próximo ano se completarão 25 anos do início, na Itália, da operação Mãos Limpas, liderada pelo juiz Antonio Di Pietro, considerada a maior investida de todos os tempos contra a corrupção político-empresarial.
A Lava Jato brasileira poderia ser considerada como o filho mais novo daquele terremoto político que varreu a Primeira República da Itália depois de ter feito desaparecer nas urnas os quatro maiores partidos de então, entre eles a poderosa Democracia Cristã (DC) e o Partido Socialista Italiano (PSI).
Alguns números são suficientes para mostrar que a Lava Jato é, por enquanto, apenas uma pequena onda daquele tsunami italiano que na época estremeceu a Europa e mais além dela.
Como correspondente deste jornal na Itália naquele momento, coube a mim informar sobre a experiência que permitiu aos jornalistas assistirem atônitos a condenação de quatro ex-primeiros-ministros, 438 políticos e parlamentares, 872 empresários e 2.993 mandados de prisão entre 6.059 investigados. Também pudemos assistir à fuga do líder socialista Bettino Craxi, considerado o centro da operação, que preferiu se auto-exilar depois de ter sido condenado a 17 anos de prisão.
Onze dos condenados acabaram cometendo suicídio, entre eles dois personagens de destaque: Gabriele Calhari, presidente da estatal ENI (Ente Nacional de Hidrocarbonetos) que tirou a própria vida enquanto estava sob prisão preventiva, e o bilionário Raul Gardini, presidente da poderosa Montedison, a maior indústria petroquímica do país, que se um tiro na cabeça.
Tudo começou com um empresário que abriu a panela de pressão da corrupção política empresarial, denunciando o líder dos socialistas em Milão, Mario Chiesa, que aspirava à prefeitura da capital da Lombardia e que extorquia um empresário exigindo-lhe propina para obter licenças públicas.
Puxando o fio, o grupo de juízes de Milão chegou ao coração de uma corrupção que tinha ramificações nacionais. Era uma espécie de máfia perpetrada entre empresários e políticos para obter licenças de obras e serviços públicos em troca de financiamento ilegal dos partidos políticos. Descobriu-se que havia até planilhas com os valores que os empresários se comprometiam a pagar a cada partido, especialmente aos dois maiores, a Democracia Cristã (DC) e o Partido Socialista (PSI) de Bettino Craxi, que em 1983 foi o primeiro socialista a se tornar primeiro-ministro da Itália.
Entre os políticos condenados, Craxi foi considerado então como il capo [o chefe, em italiano] da trama de corrupção em nível nacional, que tinha o objetivo de perpetuar os socialistas no poder.
A Lava Jato brasileira poderia ser considerada como o filho mais novo daquele terremoto político que varreu a Primeira República da Itália depois de ter feito desaparecer nas urnas os quatro maiores partidos de então, entre eles a poderosa Democracia Cristã (DC) e o Partido Socialista Italiano (PSI).
Alguns números são suficientes para mostrar que a Lava Jato é, por enquanto, apenas uma pequena onda daquele tsunami italiano que na época estremeceu a Europa e mais além dela.
Como correspondente deste jornal na Itália naquele momento, coube a mim informar sobre a experiência que permitiu aos jornalistas assistirem atônitos a condenação de quatro ex-primeiros-ministros, 438 políticos e parlamentares, 872 empresários e 2.993 mandados de prisão entre 6.059 investigados. Também pudemos assistir à fuga do líder socialista Bettino Craxi, considerado o centro da operação, que preferiu se auto-exilar depois de ter sido condenado a 17 anos de prisão.
Onze dos condenados acabaram cometendo suicídio, entre eles dois personagens de destaque: Gabriele Calhari, presidente da estatal ENI (Ente Nacional de Hidrocarbonetos) que tirou a própria vida enquanto estava sob prisão preventiva, e o bilionário Raul Gardini, presidente da poderosa Montedison, a maior indústria petroquímica do país, que se um tiro na cabeça.
Tudo começou com um empresário que abriu a panela de pressão da corrupção política empresarial, denunciando o líder dos socialistas em Milão, Mario Chiesa, que aspirava à prefeitura da capital da Lombardia e que extorquia um empresário exigindo-lhe propina para obter licenças públicas.
Puxando o fio, o grupo de juízes de Milão chegou ao coração de uma corrupção que tinha ramificações nacionais. Era uma espécie de máfia perpetrada entre empresários e políticos para obter licenças de obras e serviços públicos em troca de financiamento ilegal dos partidos políticos. Descobriu-se que havia até planilhas com os valores que os empresários se comprometiam a pagar a cada partido, especialmente aos dois maiores, a Democracia Cristã (DC) e o Partido Socialista (PSI) de Bettino Craxi, que em 1983 foi o primeiro socialista a se tornar primeiro-ministro da Itália.
Entre os políticos condenados, Craxi foi considerado então como il capo [o chefe, em italiano] da trama de corrupção em nível nacional, que tinha o objetivo de perpetuar os socialistas no poder.
A trama, no entanto, capturou em suas redes os demais partidos que nas eleições políticas posteriores acabaram sendo varridos do mapa pelos eleitores, fazendo crescer os partidos menores.
Craxi foi condenado a 17 anos de prisão, mas preferiu fugir do país, exilando-se em sua mansão em Hammamet, na Tunísia, onde morreu no ano 2000, considerado como fugitivo político.
Antes disso, o líder socialista havia confessado no Congresso ter financiado seu partido com dinheiro da corrupção. Atacou duramente a operação Mãos Limpas e o juiz Di Pietro, sobre o qual afirmou: “Nem tudo que reluz é ouro. Logo descobriremos que o juiz não é esse herói de que se fala. Há muitos aspectos pouco claros na Mãos Limpas”. Tentou-se processar Di Pietro, mas este acabou absolvido.
Enquanto Craxi arremetia contra os juízes da Mãos Limpas, seu colega de partido, Sergio Moroni, cometeu suicídio e deixou uma carta na qual confessou seus crimes de corrupção e os de seu próprio partido.
Craxi foi sucedido no Governo por seu amigo, o milionário empreiteiro Silvio Berlusconi, um outsider da política, que mesmo com uma dúzia de acusações conseguiu vencer as eleições em 1994 com a força de seus três canais de televisão que o amigo Craxi havia legalizado.
Berlusconi foi em seguida um duro perseguidor da Mãos Limpas e acusou Di Pietro e sua equipe de juízes de “abusar da prisão preventiva para arrancar confissões”.
Com ele no Governo, foram feitas várias manobras chamadas de “salvaladrões” visando anular sentenças dos condenados pela Mãos Limpas. Tentou-se legislar que crimes como a corrupção política e, especificamente, o financiamento ilegal dos partidos, não pudessem ser condenados com prisão. Foi o Presidente da República, Oscar Luigi Scalfari, um político reto, que abortou a manobra.
É difícil, quase um quarto de século depois da Mãos Limpas, fazer um balanço dessa experiência singular, que se repete hoje, embora em miniatura, no Brasil. Sem dúvida, a Itália não foi, desde então, a mesma. Toda a vida política da República ficou em pedaços. Ainda hoje é difícil dizer se o saldo final foi positivo ou não para a democracia.
Foi –sem dúvida– uma experiência traumática que puniu nas urnas os grandes partidos tradicionais e abriu caminho para uma recomposição da vida política.
Foi uma experiência judiciária moralizadora que contou sempre com o aplauso e o apoio da sociedade italiana e que foi apoiada, dia a dia, pelos meios de comunicação que foram uma espécie de braço direito das investigações.
Como hoje no Brasil, também na época, foram peça-chave da Mãos Limpas as confissões dos detidos que se sentiam abandonados e traídos por seus respectivos partidos.
Naquele momento, cada líder político se preocupava em salvar a própria pele, sem pressa excessiva para salvar seus subordinados capturados pelas redes da justiça.
Eles chegaram a dizer que se tratava de delatores “ressentidos e vingativos” que tinham sujado seus respectivos partidos.
No final, chefes e subordinados acabaram compartilhando a dura sorte da condenação e da prisão.
Tudo teve de ser recriado novamente após o deserto em que se havia se tornado a velha política.
A operação Mãos Limpas deu lugar à nova República.
Melhor ou pior do que a primeira?
Depende dos olhos com os quais se examine aquele cataclismo causado pelo transbordamento da corrupção política que havia gangrenado a Primeira República.
Craxi foi condenado a 17 anos de prisão, mas preferiu fugir do país, exilando-se em sua mansão em Hammamet, na Tunísia, onde morreu no ano 2000, considerado como fugitivo político.
Antes disso, o líder socialista havia confessado no Congresso ter financiado seu partido com dinheiro da corrupção. Atacou duramente a operação Mãos Limpas e o juiz Di Pietro, sobre o qual afirmou: “Nem tudo que reluz é ouro. Logo descobriremos que o juiz não é esse herói de que se fala. Há muitos aspectos pouco claros na Mãos Limpas”. Tentou-se processar Di Pietro, mas este acabou absolvido.
Enquanto Craxi arremetia contra os juízes da Mãos Limpas, seu colega de partido, Sergio Moroni, cometeu suicídio e deixou uma carta na qual confessou seus crimes de corrupção e os de seu próprio partido.
Craxi foi sucedido no Governo por seu amigo, o milionário empreiteiro Silvio Berlusconi, um outsider da política, que mesmo com uma dúzia de acusações conseguiu vencer as eleições em 1994 com a força de seus três canais de televisão que o amigo Craxi havia legalizado.
Berlusconi foi em seguida um duro perseguidor da Mãos Limpas e acusou Di Pietro e sua equipe de juízes de “abusar da prisão preventiva para arrancar confissões”.
Com ele no Governo, foram feitas várias manobras chamadas de “salvaladrões” visando anular sentenças dos condenados pela Mãos Limpas. Tentou-se legislar que crimes como a corrupção política e, especificamente, o financiamento ilegal dos partidos, não pudessem ser condenados com prisão. Foi o Presidente da República, Oscar Luigi Scalfari, um político reto, que abortou a manobra.
É difícil, quase um quarto de século depois da Mãos Limpas, fazer um balanço dessa experiência singular, que se repete hoje, embora em miniatura, no Brasil. Sem dúvida, a Itália não foi, desde então, a mesma. Toda a vida política da República ficou em pedaços. Ainda hoje é difícil dizer se o saldo final foi positivo ou não para a democracia.
Foi –sem dúvida– uma experiência traumática que puniu nas urnas os grandes partidos tradicionais e abriu caminho para uma recomposição da vida política.
Foi uma experiência judiciária moralizadora que contou sempre com o aplauso e o apoio da sociedade italiana e que foi apoiada, dia a dia, pelos meios de comunicação que foram uma espécie de braço direito das investigações.
Como hoje no Brasil, também na época, foram peça-chave da Mãos Limpas as confissões dos detidos que se sentiam abandonados e traídos por seus respectivos partidos.
Naquele momento, cada líder político se preocupava em salvar a própria pele, sem pressa excessiva para salvar seus subordinados capturados pelas redes da justiça.
Eles chegaram a dizer que se tratava de delatores “ressentidos e vingativos” que tinham sujado seus respectivos partidos.
No final, chefes e subordinados acabaram compartilhando a dura sorte da condenação e da prisão.
Tudo teve de ser recriado novamente após o deserto em que se havia se tornado a velha política.
A operação Mãos Limpas deu lugar à nova República.
Melhor ou pior do que a primeira?
Depende dos olhos com os quais se examine aquele cataclismo causado pelo transbordamento da corrupção política que havia gangrenado a Primeira República.
O povo não é bobo

Lula, Roberto Marinho e Aluizio Mercadante.
Os petistas foram pedir espaço em O Globo para ajudar a candidata Benedita da Silva na corrida à Prefeitura do Rio. Ganharam uma página e criaram o jingle contra a empresa.
Lula pode ser tudo que acha que é, mas não é tudo aquilo que os camaradas companheiros acham que ele é. O que passar por uma peneira, será uma poeira tão insignificante que vão achar que é outra pessoa.
Jornal britânico sugere renúncia ou novas eleições
O jornal britânico The Observer (versão dominical do jornal The Guardian, de linha editorial de centro-esquerda) defendeu em editorial, neste domingo, que a presidente brasileira Dilma Rousseff renuncie ou que sejam convocadas novas eleições "se ela não consegue restabelecer a calma" no país.
"Uma preocupação óbvia é que esses protestos (contra e pró-governo), se saírem do controle, poderiam degenerar em violência desenfreada e no risco de intervenção pelas Forças Armadas", diz o jornal, um dos principais da Grã-Bretanha, no editorial intitulado "A visão do Observer para o Brasil".
"A democracia brasileira, restaurada em 1985 depois de 20 anos de ditadura militar, não chega a ser uma planta tão robusta que não possa ser desenraizada novamente por uma combinação de fracasso político e emergência econômica. O dever de Dilma é simples: se ela não pode restabelecer a calma, tem de convocar novas eleições - ou sair."
O cientista político da consultoria Tendências, Rafael Cortez, porém, explica que, em um sistema presidencialista como o brasileiro, Dilma não tem o poder de convocar novas eleições.
"O mecanismo institucional para a convocação de novas eleições aqui seria ou uma renúncia coletiva da presidente e do vice (Michel Temer) ou a cassação da chapa (Dilma-Temer) por uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em função de irregularidades na campanha. Talvez tenha havido alguma confusão com o sistema parlamentarista", afirma.
"Uma preocupação óbvia é que esses protestos (contra e pró-governo), se saírem do controle, poderiam degenerar em violência desenfreada e no risco de intervenção pelas Forças Armadas", diz o jornal, um dos principais da Grã-Bretanha, no editorial intitulado "A visão do Observer para o Brasil".
"A democracia brasileira, restaurada em 1985 depois de 20 anos de ditadura militar, não chega a ser uma planta tão robusta que não possa ser desenraizada novamente por uma combinação de fracasso político e emergência econômica. O dever de Dilma é simples: se ela não pode restabelecer a calma, tem de convocar novas eleições - ou sair."
"O mecanismo institucional para a convocação de novas eleições aqui seria ou uma renúncia coletiva da presidente e do vice (Michel Temer) ou a cassação da chapa (Dilma-Temer) por uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em função de irregularidades na campanha. Talvez tenha havido alguma confusão com o sistema parlamentarista", afirma.
Punição, remédio insuficiente
Em seus mais de 15 anos de trabalho no combate à corrupção, a Transparência Brasil sempre se pautou por duas premissas: i) corrupção, no país, é uma prática suprapartidária; ii) combate-se esse fenômeno mirando suas causas – que em geral residem no mal funcionamento das instituições, não no comportamento de indivíduos. O debate público atual, no entanto, parece orbitar ao redor de pressupostos bem distintos.
Ou seja, ao contrário do que se diz por aí, corrupção não é prática exclusiva do PT.
Cassio Cunha Lima, líder do PSDB no Senado, recentemente afirmou que a democracia brasileira sofre uma “infecção generalizada provocada pela superbactéria da corrupção”. O mesmo senador que reclama da corrupção teve o mandato de governador da Paraíba cassado em 2009 por abusos de poder econômico e político, compra de votos e conduta vedada a agente público.Eduardo Cunha (PMDB), sobre quem pesam acusações gravíssimas de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, com provas materiais fartas coletadas pela Procuradoria Geral da República, segue comandando (e manobrando) a Câmara dos Deputados, com pouca pressão das ruas.
Isso sem mencionar a pouca energia com que algumas malfeitorias são investigadas e punidas. Por exemplo: a Polícia Federal investiga desde 2008 um esquema de fraude em licitações na CPTM e no Metrô de São Paulo que teria desviado cerca de R$ 1 bilhão dos cofres públicos desde 1998, nos governos dos tucanos Mario Covas, José Serra e Geraldo Alckmin. A PF indiciou 33 pessoas em novembro de 2014, mas até agora o procurador não decidiu sobre apresentar denúncia ou não. Ele alega “aguardar o envio de documentos bancários por autoridades estrangeiras”. Enquanto isso, crimes já começaram a prescrever.
Outro exemplo é o Mensalão Mineiro, um esquema de desvio de verbas estatais para o financiamento da campanha do tucano Eduardo Azeredo ao governo mineiro em 1998. O inquérito foi aberto no STF em 2005. Após 18 anos dos crimes, há um acusado já falecido, dois beneficiados por prescrição, oito que aguardam um primeiro julgamento (entre eles, o ex-senador do PDMB Clesio Andrade) e cinco condenados em primeira instância (entre eles, o próprio Azeredo e Marcos Valério). Alguns chegaram a ser presos, mas por envolvimento em crimes parecidos cometidos no Mensalão Petista.
A politização da corrupção é, em geral, um movimento contra quem está no Executivo, de modo que faz sentido que a opinião pública se indigne muito mais com o PT, que comanda o Executivo Nacional, do que com PMDB e PSDB – sem contar legendas com taxa de processados ainda maiores, como o PP de Paulo Maluf, o Solidariedade de Paulinho da Força e o PSC de Jair Bolsonaro. Mas ela produz poucos resultados concretos.
É comum que jornalistas nos perguntem se “a Operação Lava-Jato vai acabar com a corrupção no Brasil”. O que seguimos afirmando é que a punição de atos de corrupção é uma condição necessária, porém insuficiente, para que haja mudanças permanentes. O fato de um empreiteiro como Marcelo Odebrecht ser condenado coloca algum limite nos atos de alguns empresários, mas estes acabarão encontrando outros meios para continuar a realizar negócios de modo parecido ao que faziam antes, se assim for rentável e houver vulnerabilidades administrativas e institucionais. Precificam o risco e tocam o barco. A chave da questão está no outro lado da equação: os controles das práticas administrativas.
No caso específico do chamado Petrolão, que é um escândalo gigantesco orquestrado por PT, PMDB e aliados, a chave está no loteamento político da Petrobras – a saber: a ocupação de diretorias e coordenações da estatal por indicados de partidos políticos. Faz-se isso sem nenhum constrangimento, com o agravante de que a imprensa reporta esse tipo de coisa como se fosse algo natural.
A prática não ocorre somente na Petrobras, obviamente, mas em todos os órgãos nas três esferas de poder. Um em cada cinco ocupantes do alto escalão da administração pública federal, por exemplo, é servidor sem vínculo; no mais alto grau (DAS-6), 1/3 dos ocupantes é filiado a partidos políticos. Mais do que isso: não há processos claros, transparentes e accountable para o exercício de funções de gerência e assessoramento nas administrações públicas. Ou seja, um cargo de alta direção – em estatal, principalmente – ainda pode servir de barganha em acordos entre os partidos.
Assim, não tem como haver mudança real quando se mudam apenas os comandantes e deixam estar as mesmas estruturas que permitem que os atos de corrupção ocorram. Por isso, não deve haver engano: combater corrupção é ir além de partidos e de punições; é focar as causas e pressionar por mudanças nos desenhos institucionais – investigando e punindo também, obviamente.
De outro modo, perderemos uma oportunidade de ouro para avançar de verdade nesta agenda – e ainda corremos o risco de vê-la instrumentalizada por grupos políticos que, uma vez no poder, podem rapidamente enterrar a Lava-Jato para salvar suas próprias peles.
Natália Paiva, diretora-executiva da organização Transparência Brasil,
Uma breve conferência no site do projeto Excelências, criado e mantido há quase dez anos pela Transparência Brasil, mostra que entre os maiores partidos na Câmara dos Deputados e no Senado (PMDB, PT e PSDB, nesta ordem) pelo menos 60% dos representantes sofrem ocorrências na Justiça e nos Tribunais de Contas. Desses, a maioria corresponde a processos por improbidade administrativa, peculato, corrupção passiva, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e irregularidades em licitações.
Ou seja, ao contrário do que se diz por aí, corrupção não é prática exclusiva do PT.
Cassio Cunha Lima, líder do PSDB no Senado, recentemente afirmou que a democracia brasileira sofre uma “infecção generalizada provocada pela superbactéria da corrupção”. O mesmo senador que reclama da corrupção teve o mandato de governador da Paraíba cassado em 2009 por abusos de poder econômico e político, compra de votos e conduta vedada a agente público.Eduardo Cunha (PMDB), sobre quem pesam acusações gravíssimas de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, com provas materiais fartas coletadas pela Procuradoria Geral da República, segue comandando (e manobrando) a Câmara dos Deputados, com pouca pressão das ruas.
Isso sem mencionar a pouca energia com que algumas malfeitorias são investigadas e punidas. Por exemplo: a Polícia Federal investiga desde 2008 um esquema de fraude em licitações na CPTM e no Metrô de São Paulo que teria desviado cerca de R$ 1 bilhão dos cofres públicos desde 1998, nos governos dos tucanos Mario Covas, José Serra e Geraldo Alckmin. A PF indiciou 33 pessoas em novembro de 2014, mas até agora o procurador não decidiu sobre apresentar denúncia ou não. Ele alega “aguardar o envio de documentos bancários por autoridades estrangeiras”. Enquanto isso, crimes já começaram a prescrever.
Outro exemplo é o Mensalão Mineiro, um esquema de desvio de verbas estatais para o financiamento da campanha do tucano Eduardo Azeredo ao governo mineiro em 1998. O inquérito foi aberto no STF em 2005. Após 18 anos dos crimes, há um acusado já falecido, dois beneficiados por prescrição, oito que aguardam um primeiro julgamento (entre eles, o ex-senador do PDMB Clesio Andrade) e cinco condenados em primeira instância (entre eles, o próprio Azeredo e Marcos Valério). Alguns chegaram a ser presos, mas por envolvimento em crimes parecidos cometidos no Mensalão Petista.
A politização da corrupção é, em geral, um movimento contra quem está no Executivo, de modo que faz sentido que a opinião pública se indigne muito mais com o PT, que comanda o Executivo Nacional, do que com PMDB e PSDB – sem contar legendas com taxa de processados ainda maiores, como o PP de Paulo Maluf, o Solidariedade de Paulinho da Força e o PSC de Jair Bolsonaro. Mas ela produz poucos resultados concretos.
É comum que jornalistas nos perguntem se “a Operação Lava-Jato vai acabar com a corrupção no Brasil”. O que seguimos afirmando é que a punição de atos de corrupção é uma condição necessária, porém insuficiente, para que haja mudanças permanentes. O fato de um empreiteiro como Marcelo Odebrecht ser condenado coloca algum limite nos atos de alguns empresários, mas estes acabarão encontrando outros meios para continuar a realizar negócios de modo parecido ao que faziam antes, se assim for rentável e houver vulnerabilidades administrativas e institucionais. Precificam o risco e tocam o barco. A chave da questão está no outro lado da equação: os controles das práticas administrativas.
No caso específico do chamado Petrolão, que é um escândalo gigantesco orquestrado por PT, PMDB e aliados, a chave está no loteamento político da Petrobras – a saber: a ocupação de diretorias e coordenações da estatal por indicados de partidos políticos. Faz-se isso sem nenhum constrangimento, com o agravante de que a imprensa reporta esse tipo de coisa como se fosse algo natural.
A prática não ocorre somente na Petrobras, obviamente, mas em todos os órgãos nas três esferas de poder. Um em cada cinco ocupantes do alto escalão da administração pública federal, por exemplo, é servidor sem vínculo; no mais alto grau (DAS-6), 1/3 dos ocupantes é filiado a partidos políticos. Mais do que isso: não há processos claros, transparentes e accountable para o exercício de funções de gerência e assessoramento nas administrações públicas. Ou seja, um cargo de alta direção – em estatal, principalmente – ainda pode servir de barganha em acordos entre os partidos.
Assim, não tem como haver mudança real quando se mudam apenas os comandantes e deixam estar as mesmas estruturas que permitem que os atos de corrupção ocorram. Por isso, não deve haver engano: combater corrupção é ir além de partidos e de punições; é focar as causas e pressionar por mudanças nos desenhos institucionais – investigando e punindo também, obviamente.
De outro modo, perderemos uma oportunidade de ouro para avançar de verdade nesta agenda – e ainda corremos o risco de vê-la instrumentalizada por grupos políticos que, uma vez no poder, podem rapidamente enterrar a Lava-Jato para salvar suas próprias peles.
Natália Paiva, diretora-executiva da organização Transparência Brasil,
O poder político ilusório e imaginário
Em 1930, o filósofo francês Henri Bergson queixava-se do mau hábito de os homens inteligentes confundirem o possível com o real. O possível são hipóteses múltiplas em qualidade e quantidade, porque o possível é simplesmente o não impossível e aquilo que (em relação com o futuro) não é impossível de acontecer é de uma multiplicidade quase infinita. Ora, aquilo que afinal aconteceu, o fato real (a hipótese que realmente se realizou), é único e irreversível. Quem exerce o poder político no Brasil superou a observação de Bergson, pois confunde o impossível com o real.
O poder hoje exercido é prisioneiro de suas próprias mentiras e por este motivo necessita continuar falsificando o passado, o presente e, especialmente, o futuro. Falsifica os dados estatísticos. Finge não ter aparato policial todo-poderoso capaz de tudo; finge não ter medo; finge não ter nada a temer. O indivíduo não tem, forçosamente, de acreditar em todas as mistificações, mas deve conduzir-se como se nelas cresse, ou , quando menos, tolerá-las em silêncio; ou, ainda, estar em boas relações com os que as produzem. Tudo isso o obriga a viver na mentira e no impossível.
Esquece-se o homúnculo que exerce o poder político que este deverá fundar-se na vida e na verdade, e aí reside o fato de que, uma vez descoberto, possui um aliado certamente invisível, mas onipresente, que trará inevitavelmente problemas: a “esfera oculta” de que fala Václav Havel, ou maioria silenciosa, que tem o imenso papel de garantir a liberdade e a segurança paralela, a democracia. A esfera oculta vê-se mais uma vez enganada, mas retornará para cobrar o segundo engano.
Veja-se que se alcançou aqui uma consolidação exterior do poder e se pagou com a crise espiritual e moral da sociedade.
Mas o pior nesta crise que se aprofunda é que basta elevar-se acima do cotidiano para se ter consciência, com horror, da rapidez com que abandonamos posições que antes jamais podíamos deixar; coisas que a consciência social ontem considerava como indecentes são costumeiramente desculpadas, para amanhã podê-las seguramente aceitar como naturais e, quiçá, depois de amanhã, como decência exemplar. Hoje aceitamos sem nenhum assombro, como uma realidade, coisas às quais ainda ontem dizíamos que nunca nos acostumaríamos ou que considerávamos impossível aceitar. Pelo contrário, hoje consideramos como um ideal algo que faz pouco nos resultava evidente.
As transformações da medida do natural e do normal e o desfazimento no sentido moral surgido nos últimos anos pelo exercício de um poder menor, na sociedade, resultam maiores do que possa parecer à primeira vista. E, causa-nos certo torpor a capacidade de se dar conta deste embrutecimento e de como ele se desenvolve. É como se a enfermidade caísse das folhas e os frutos, ao tronco e raízes. Por isso existe a inquietude que se apresenta no setor de perspectivas oferecidas pelo presente.
Internamente a sociedade se desenvolve, enriquece e cultiva em primeiro lugar em ter uma consciência, cada dia mais profunda e diferenciada de si mesma. O mundo de tal verdade jamais poderá ser reprimido ou policiado, como se tentou. A sociedade aprofunda e sustenta sua liberdade e descobre a verdade.
A gravidade é a resposta à pergunta global que se deve fazer e que é a seguinte: que profundidade terá a impotência espiritual e moral do Estado no futuro próximo?
Se a lei fundamental do cosmos é levar à entropia, a lei fundamental da vida é, pelo contrário, incrementar a estruturação e a luta contra a entropia; a vida resiste a toda uniformidade e unidade.
Há de se perguntar primeiro de onde vem o poder e que razões lhe conferem justiça, utilidade necessidade e legalidade que determinam ao cidadão o dever moral de obediência.
A existência do poder se prova por si mesma, mas é o poder atual que nos interessa efetivamente, e é ele que origina o poder político menor que nos obriga a com ele conviver. Montesquieu dizia que é uma experiência eterna a de que todo homem que tem poder é levado a dele abusar. Vai até onde encontra limites, ou até onde lhe são impostos limites; aqui, o Poder Judiciário impõe as restrições, ou deveria impô-las e fazê-las cumprir. A “esfera oculta” isso espera, pois, como afirmou Platão em Criton: “Pensas que pode existir um Estado sem leis, ou que as leis não sejam destruídas ou aniquiladas, quando julgados não têm força, quando cada qual as possa violar, subtraindo-lhes a execução?”
Há cerca de 25 séculos que isto ensinava o filho de Ariston, diz Ruy Barbosa, e, obra de 2,5 mil anos depois, se com esse critério quisermos avaliar certas democracias, como a nossa, acharemos que o governo ainda não se embebeu dessas milenares vulgaridades e ainda não se convenceu de que a Justiça é a essência do Estado e, consequentemente, do poder político.
Vive-se hoje no Brasil uma imensa mentira. Quanto mais se fala em democracia, menos se oferecem ao povo suas liberdades, vilipendiado que é em sua dignidade, em sua honra, em seus interesses permanentes e aspirações mais nobres.
Os semimarxistas e os frios ganhadores de dinheiro que infelizmente regem o país esqueceram-se de que as forças morais libertárias e legais determinam as reações de um povo. A “esfera oculta”, mais dia, menos dia, irá se manifestar quando tomar consciência de que o Congresso Nacional não o faz por ela. Todos pagarão, nas urnas ou não.
O interesse do povo, em vez de uma razão, converteu-se num pretexto para privar o mesmo povo de atender, como bem entender, seu próprio interesse. O poder político passou a ser regido por interesses de grupos que, constituindo o governo, dominam o Estado. Mas esse domínio não se dá pelas regras da razão, e sim pelas regras do imaginário e da ilusão. Todos os atos do poder político atual são ilusórios e imaginários, não são reais e verdadeiros, são mentiras que passaram a ser verdades.
Enfim, o poder político que se exerce e conduz a nação se parece e faz parecer ao Estado como totalitário. E o poder imaginário e ilusório conduziu o país a um extremo abalo moral; assim também se dá com a maioria de seus estados membros. A grande maioria está chafurdada. Esperemos o fim desse melancólico e triste espaço que estamos vivendo. Há de ter um paradeiro. O Congresso há de exercer suas prerrogativas, o mesmo ocorrendo com o Judiciário. A democracia e a “esfera oculta” assim o exigem, para que se ponha fim a uma página negra de nossa história, em que o povo se encantou com um governante que exerce um poder ilusório e imaginário, em que mentiras são verdades e verdades são mentiras.
domingo, 20 de março de 2016
Pele de cordeiro
Luiz Inácio Lula da Silva tem caras, modos e personas variáveis. Traveste-se de acordo com a conveniência. Transita entre a divindade e o desvalido, entre a vítima e o general da tropa. Semeia guerra e ódio e encarna a versão paz e amor quando as circunstâncias o deixam sem saída. Ruge como leão e rasteja como jararaca. Mas, por mais que tente, sempre que se veste de cordeiro o lobo escapa.
Depois de ser flagrado sem fantasia em escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, Lula, por aconselhamento da numerosa banca de advogados que o assessora ou por tino político – ou os dois --, decidiu que é hora de falar de flores.
Uma carta sentimental na quinta-feira e um discurso contra o ódio na manifestação pró-Dilma na sexta-feira, em São Paulo, não deixam dúvidas quanto às intenções do ex.
Já que não era possível negar as gravações em que dispara toda sorte de xingamentos aos presidentes da Câmara e do Senado, ao Procurador-Geral da República e ao recém-empossado ministro da Justiça, e à Suprema Corte, Lula tentou, com a carta, baixar a bola junto aos ministros do STF, que darão a palavra final sobre seu futuro, seja ele ministro de Estado ou não.
Na missiva, peça em que assinatura não está necessariamente vinculada à autoria, Lula se assemelha a uma lady inglesa. No conteúdo e na linguagem, em nada parecidos com o remetente, que abusa do calão censurado para menores, na maioria das vezes sujeitos a transcrições que param na primeira letra da palavra.
No palanque, a história é outra. Lula prega a paz cuspindo ódio.
Em quase meia hora de discurso para uma plateia absolutamente hipnotizada, Lula – ora ex-presidente, ora ministro, ora presidente – esforçou-se para cunhar a imagem de pacificador. Usou e abusou de frases de efeito e da palavra democracia. A ela conferiu variegados significados, menos o real, já que deu maior valor às pessoas que ali estavam do que às protestaram contra ele, Dilma e o PT.
Em alguns momentos, Lula até conseguiu seguir o script que traçara para ele, ao explicar, por exemplo, que iria integrar o governo para ajudar, não para brigar. Mas pouco durava. O “nós x eles” arraigado no discurso do ex prevaleceu mesmo quando ele, nitidamente, não queria.
Até a ideia marota de união das cores, em que o vermelho estaria “no sangue” e o verde-amarelo no “coração” de todos, mostrou o verdadeiro alvo logo em seguida: “eles têm que saber que estas pessoas que estão aqui, de vermelho, são parte das pessoas que produzem o pão de cada dia do povo brasileiro. Elas não estão aqui porque tiveram metrô de graça, não estão aqui porque foram convocadas pelos meios de comunicação a semana toda. Elas estão aqui porque sabem o valor da democracia, porque sabem o valor de fazer o pobre subir uma escala no degrau da economia. Se eles comem três vezes por dia, nós queremos comer três vezes por dia."
Por vezes, Lula lembrou o sapo barbudo imortalizado por Leonel Brizola, esbravejando, com a voz rouca. O velho e batido “nós x eles” permeou toda a oratória. Até na mensagem pseudo-conciliadora final, quando Lula pediu que a multidão vermelha não aceitasse provocações, como se um eventual conflito só viesse do “eles”, jamais do “nós”.
Entre o discurso e os cumprimentos aos companheiros de palanque, Lula ficou menos de uma hora na Avenida Paulista. Nesse pouco tempo, foi ministro e deixou de ser por duas vezes devido a liminares concedidas e cassadas. Anunciou que estaria no Planalto, trabalhando como ministro na próxima terça-feira, mas saiu de lá sem Ministério, de acordo com a decisão – também liminar – do ministro do Supremo Gilmar Mendes.
Ministro ou não, Lula está enroscado em nada menos do que seis inquéritos no âmbito do Ministério Público Federal e um no Distrito Federal, fora o do MP de São Paulo, despachado para Curitiba pela juíza paulista.
Por mais que tente remodelar, não há pele de cordeiro capaz de encobri-lo.
Depois de ser flagrado sem fantasia em escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, Lula, por aconselhamento da numerosa banca de advogados que o assessora ou por tino político – ou os dois --, decidiu que é hora de falar de flores.
Uma carta sentimental na quinta-feira e um discurso contra o ódio na manifestação pró-Dilma na sexta-feira, em São Paulo, não deixam dúvidas quanto às intenções do ex.
Já que não era possível negar as gravações em que dispara toda sorte de xingamentos aos presidentes da Câmara e do Senado, ao Procurador-Geral da República e ao recém-empossado ministro da Justiça, e à Suprema Corte, Lula tentou, com a carta, baixar a bola junto aos ministros do STF, que darão a palavra final sobre seu futuro, seja ele ministro de Estado ou não.
Na missiva, peça em que assinatura não está necessariamente vinculada à autoria, Lula se assemelha a uma lady inglesa. No conteúdo e na linguagem, em nada parecidos com o remetente, que abusa do calão censurado para menores, na maioria das vezes sujeitos a transcrições que param na primeira letra da palavra.
No palanque, a história é outra. Lula prega a paz cuspindo ódio.
Em quase meia hora de discurso para uma plateia absolutamente hipnotizada, Lula – ora ex-presidente, ora ministro, ora presidente – esforçou-se para cunhar a imagem de pacificador. Usou e abusou de frases de efeito e da palavra democracia. A ela conferiu variegados significados, menos o real, já que deu maior valor às pessoas que ali estavam do que às protestaram contra ele, Dilma e o PT.
Em alguns momentos, Lula até conseguiu seguir o script que traçara para ele, ao explicar, por exemplo, que iria integrar o governo para ajudar, não para brigar. Mas pouco durava. O “nós x eles” arraigado no discurso do ex prevaleceu mesmo quando ele, nitidamente, não queria.
Até a ideia marota de união das cores, em que o vermelho estaria “no sangue” e o verde-amarelo no “coração” de todos, mostrou o verdadeiro alvo logo em seguida: “eles têm que saber que estas pessoas que estão aqui, de vermelho, são parte das pessoas que produzem o pão de cada dia do povo brasileiro. Elas não estão aqui porque tiveram metrô de graça, não estão aqui porque foram convocadas pelos meios de comunicação a semana toda. Elas estão aqui porque sabem o valor da democracia, porque sabem o valor de fazer o pobre subir uma escala no degrau da economia. Se eles comem três vezes por dia, nós queremos comer três vezes por dia."
Por vezes, Lula lembrou o sapo barbudo imortalizado por Leonel Brizola, esbravejando, com a voz rouca. O velho e batido “nós x eles” permeou toda a oratória. Até na mensagem pseudo-conciliadora final, quando Lula pediu que a multidão vermelha não aceitasse provocações, como se um eventual conflito só viesse do “eles”, jamais do “nós”.
Entre o discurso e os cumprimentos aos companheiros de palanque, Lula ficou menos de uma hora na Avenida Paulista. Nesse pouco tempo, foi ministro e deixou de ser por duas vezes devido a liminares concedidas e cassadas. Anunciou que estaria no Planalto, trabalhando como ministro na próxima terça-feira, mas saiu de lá sem Ministério, de acordo com a decisão – também liminar – do ministro do Supremo Gilmar Mendes.
Ministro ou não, Lula está enroscado em nada menos do que seis inquéritos no âmbito do Ministério Público Federal e um no Distrito Federal, fora o do MP de São Paulo, despachado para Curitiba pela juíza paulista.
Por mais que tente remodelar, não há pele de cordeiro capaz de encobri-lo.
A que ponto chegamos
A que ponto chegamos... A frase se repete nas conversas sobre a crise moral, econômica e política do país. Como foi possível? Como nos deixamos iludir desse modo? Há quem busque as raízes da complacência ou autoengano no cartorialismo lusitano, no clientelismo, na troca de favores que nos veio de herança desde o primeiro Cabral. Já na carta em que anunciava ao rei de Portugal a nova terra, o escrivão pedia um favor para sua família em troca da boa notícia. Depois, tivemos séculos de escravidão, consolidando desigualdade, injustiça, violência, ignorância. Ambiente ideal para fomentar populismo e salvacionismo.
A impunidade vem dos mecanismos criados por quem tem poder, para aí se manter. Um eficiente sistema de infinitas instâncias protelatórias e incontáveis recursos e tecnicalidades para afastar de si as penas da lei. Estas só se aplicam a quem não tem como utilizá-los em seu benefício. Daí o juiz Sérgio Moro ter saudado, como uma janela fechada para a impunidade, a decisão do STF de fazer cumprir as penas já após a condenação em segunda instância.
Para bem manter a teia de privilégios, é necessária uma rede de cúmplices, igualmente beneficiados. Nomeações então aparelham a administração, feitas por recomendação ideológica ou intercâmbio de favores, não por merecimento e capacidade. Esse Estado inchado passa a sustentáculo do sistema. Burlando a Constituição, segundo o Jusbrasil, nosso país tem 600 mil funcionários públicos sem concurso, dos quais 23.941 em cargos de confiança (o dado é do Ministério do Planejamento). A França e a Alemanha têm uns 600 cada. Nosso sistema político tem números igualmente exagerados, com excesso de ministérios, de cargos, de deputados, de partidos, de municípios — e a toda hora surgem mais, tudo sustentado com nosso dinheiro. Isso ajuda a explicar o excesso de impostos, os gastos exorbitantes em campanhas milionárias, e a vergonhosa qualidade dos lamentáveis políticos assim eleitos. Sem falar na recusa de cortes no custeio da máquina administrativa.
Para fingir que é necessário manter esse absurdo tupiniquim, a mentira campeia, a fim de desqualificar os outros e ser messiânico, garantindo que fora do Salvador de Pátria e seu bando não há nada de bom, nenhuma competência, honradez ou virtude. Mas há também que demonizar a iniciativa privada e o lucro, criando infinitos obstáculos burocráticos ao empreendedorismo individual e aos pequenos empresários, de modo a garantir a reserva de mercado e os privilégios a algumas grandes empresas escolhidas, que ajudam a sustentar esse esquema numa bilionária troca de favores. As recentes investigações policiais estão revelando a extensão dessas práticas e os fios que as ligam às campanhas eleitorais.
Essas campanhas devem ser longas, caras, cheias de truques. Para que o esquema dê frutos e perpetue a ocupação do poder, é indispensável utilizar espertas técnicas de marketing, sem qualquer escrúpulo de mentir. Caluniam-se os adversários, promete-se qualquer coisa, varia-se de “paz e amor” a jararaca, conforme a necessidade do momento. Produzem-se filmes com imagens de livros sumindo das mãos das crianças ou pratos de comida desaparecendo das mesas se o eleitor ousar votar de acordo com sua preferência e trair o Grande Pai, a quem deve obediência para lhe garantir a vitória na guerra. Acusa-se o outro de tudo aquilo de que se poderia ser acusado. Ganha quem for o gatilho mais rápido.
E isso cola? Cola, se garantido pela educação de péssimo nível, num sistema que nega o contato com ideias variadas que poderiam desenvolver a visão crítica. Interessa ao sistema clientelista que as escolas recusem leitura literária (que ensina a ver de outros pontos de vista) e qualquer estudo baseado na matemática. A cegueira à realidade da economia assegura a docilidade diante de decisões baseadas em dogmas ideológicos, e não em análises racionais. E quando a consequência desses erros gera grave crise econômica, nada como um pouquinho mais de retórica e marketing para insistir no erro e enganar os trouxas de novo.
Mas vem a hora em que o gigante se espreguiça como se quisesse acordar. Será que abre os olhos e se levanta? Afinal, era a promessa bíblica: bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Talvez seja essa esperança que, ao celebrar a justiça, as ruas em verde e amarelo lembraram a todos no domingo — que em menos de uma semana já parece no século passado.
Ana Maria Machado
Não faltam exemplos históricos desse legado. Mas não bastam para explicar como a corrupção se renova e reinventa, se espalhou tanto e escorre por todas as frestas. Para entender como chegamos a esse ponto, é bom examinar o trabalho conjunto de diferentes fatores. A impunidade é um deles. O inchaço do Estado é outro. O messianismo colabora. A arte de mentir também faz sua parte, e bem grande, sobretudo para gente facilmente enganável porque a educação lhe é negada. Para sermos um país diferente, vamos precisar mudar tudo isso.
A impunidade vem dos mecanismos criados por quem tem poder, para aí se manter. Um eficiente sistema de infinitas instâncias protelatórias e incontáveis recursos e tecnicalidades para afastar de si as penas da lei. Estas só se aplicam a quem não tem como utilizá-los em seu benefício. Daí o juiz Sérgio Moro ter saudado, como uma janela fechada para a impunidade, a decisão do STF de fazer cumprir as penas já após a condenação em segunda instância.
Para bem manter a teia de privilégios, é necessária uma rede de cúmplices, igualmente beneficiados. Nomeações então aparelham a administração, feitas por recomendação ideológica ou intercâmbio de favores, não por merecimento e capacidade. Esse Estado inchado passa a sustentáculo do sistema. Burlando a Constituição, segundo o Jusbrasil, nosso país tem 600 mil funcionários públicos sem concurso, dos quais 23.941 em cargos de confiança (o dado é do Ministério do Planejamento). A França e a Alemanha têm uns 600 cada. Nosso sistema político tem números igualmente exagerados, com excesso de ministérios, de cargos, de deputados, de partidos, de municípios — e a toda hora surgem mais, tudo sustentado com nosso dinheiro. Isso ajuda a explicar o excesso de impostos, os gastos exorbitantes em campanhas milionárias, e a vergonhosa qualidade dos lamentáveis políticos assim eleitos. Sem falar na recusa de cortes no custeio da máquina administrativa.
Para fingir que é necessário manter esse absurdo tupiniquim, a mentira campeia, a fim de desqualificar os outros e ser messiânico, garantindo que fora do Salvador de Pátria e seu bando não há nada de bom, nenhuma competência, honradez ou virtude. Mas há também que demonizar a iniciativa privada e o lucro, criando infinitos obstáculos burocráticos ao empreendedorismo individual e aos pequenos empresários, de modo a garantir a reserva de mercado e os privilégios a algumas grandes empresas escolhidas, que ajudam a sustentar esse esquema numa bilionária troca de favores. As recentes investigações policiais estão revelando a extensão dessas práticas e os fios que as ligam às campanhas eleitorais.
Essas campanhas devem ser longas, caras, cheias de truques. Para que o esquema dê frutos e perpetue a ocupação do poder, é indispensável utilizar espertas técnicas de marketing, sem qualquer escrúpulo de mentir. Caluniam-se os adversários, promete-se qualquer coisa, varia-se de “paz e amor” a jararaca, conforme a necessidade do momento. Produzem-se filmes com imagens de livros sumindo das mãos das crianças ou pratos de comida desaparecendo das mesas se o eleitor ousar votar de acordo com sua preferência e trair o Grande Pai, a quem deve obediência para lhe garantir a vitória na guerra. Acusa-se o outro de tudo aquilo de que se poderia ser acusado. Ganha quem for o gatilho mais rápido.
E isso cola? Cola, se garantido pela educação de péssimo nível, num sistema que nega o contato com ideias variadas que poderiam desenvolver a visão crítica. Interessa ao sistema clientelista que as escolas recusem leitura literária (que ensina a ver de outros pontos de vista) e qualquer estudo baseado na matemática. A cegueira à realidade da economia assegura a docilidade diante de decisões baseadas em dogmas ideológicos, e não em análises racionais. E quando a consequência desses erros gera grave crise econômica, nada como um pouquinho mais de retórica e marketing para insistir no erro e enganar os trouxas de novo.
Mas vem a hora em que o gigante se espreguiça como se quisesse acordar. Será que abre os olhos e se levanta? Afinal, era a promessa bíblica: bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Talvez seja essa esperança que, ao celebrar a justiça, as ruas em verde e amarelo lembraram a todos no domingo — que em menos de uma semana já parece no século passado.
Ana Maria Machado
A casa veio abaixo
Para cumprir a tarefa de evitar o descarrilamento dos vagões, que se mostram desengonçados, Lula exige: guinada na economia, com a receita populista de propiciar o consumo em massa e o acesso da população ao crédito; direcionar o trem para a esquerda e reconquistar o apoio dos movimentos sociais; esquecer a ideia de reformar a previdência e abrandar o ajuste fiscal; enfim, ele deseja reformular as diretrizes escolhidas por Dilma para seu segundo mandato.
A presidente promete poderes para Lula resgatar a imagem positiva do governo. Essa era a inflexão que se tinha até virem a público as gravações autorizadas de conversas entre a presidente e seu mestre e entre este e outros interlocutores. Ao dizer que estava enviando o emissário Messias com o Termo de Posse para Lula usar “só em caso de necessidade”, mesmo sem ter assinado o documento, a versão do Lula providencial foi substituída pela versão do Lula tentando driblar a justiça. Dilma lhe mandava um salvo conduto para se livrar de eventual pedido de prisão ordenada pelo juiz Sérgio Moro. O termo antecipado de posse é considerado por juristas como meio de obstrução da justiça. Ele se livraria de condenação na 1ª instância e subiria ao degrau do STF, que julga pessoas com foro privilegiado.
A volta do ex-presidente para o seu “terceiro mandato” ocorre, assim, sob uma teia de suspeitas, ainda mais quando sua linguagem rude arremete contra o Poder Judiciário (“acovardado”), o Legislativo (“acovardado”) os presidentes da Câmara e do Senado (brindados com termos chulos), a par de demandas nada republicanas.
O ministro Lula sobe ao quarto andar do Palácio do Planalto sob o apupo da imensa maioria da população, que manifesta contrariedade contra ele, Dilma, o PT e, diga-se, outros protagonistas da velha política. Conseguirá ter sucesso na missão que encampa ou será alijado da cena política na esteira das graves denúncias que enchem seu roçado?
Para início de conversa, ainda não sentou na cadeira, pois há uma coleção de recursos contra sua ascensão ao cargo de ministro número 1. Terá de esperar. Lula põe lenha na fogueira da crise. Seu estoque de carisma de Lula se esvazia rapidamente. Impressiona a ocupação espontânea das ruas ao se ouvirem as gravações de suas conversas com interlocutores, com destaque para o breve diálogo com Dilma. Causam preocupações as ameaças de conflitos por parte de grupos contrários e favoráveis a ele e ao governo.
Com os costados arrebentados e previsíveis confirmações das delações premiadas do senador Delcídio Amaral, do ex-deputado Pedro Correa, do PP, para quem Lula sabe de tudo desde o mensalão, e de mais delatores, Luiz Inácio não deverá escapar de julgamento na Corte Suprema. A pergunta emerge: por que ele tanto luta para ser julgado pelo STF? Talvez por considerar ter ali um acolhimento melhor que o da Corte de Curitiba. Afinal, de sua caneta saiu a nomeação de oito ministros do Supremo, entre os quais três ainda se encontram na Casa (o presidente Ricardo Lewandovski, Carmen Lúcia e Dias Toffoli).
Não se engane, porém, o ex-presidente. O olho das ruas está atento. As operações em curso, desde o mensalão, acenderam os faróis da transparência e a sociedade organizada observa o que se passa no entorno dos Poderes. Cresce a sensação de que os magistrados não se deixarão levar por voto de agradecimento. Na quadra que se caracteriza pelo lema - “passar o Brasil a limpo” -, estreita-se a probabilidade do voto de retribuição. O que pode ocorrer é o prolongamento de eventual processo contra ele, eis que são longos os corredores da Justiça.
Nesse ínterim, tentará cumprir suas funções, a começar pela articulação política. Primeiro desafio: garantir os vagões do PMDB atrelados à locomotiva do governo. Conseguirá? Pouco provável. Em convenção, o partido decidiu dar 30 dias para desembarcar da administração federal. Antecipou essa decisão para o dia 29 próximo. Proibiu seus quadros de aceitar novos cargos no governo. Pois bem, o deputado Mauro Lopes, secretário do partido, quebrou o compromisso e assumiu a Secretaria da Aviação Civil. O VP, Michel Temer, não foi à sua posse. E foi acolhido pelo Conselho de Ética do PMDB, nesta sexta, pedido para punição do deputado. A cúpula partidária avisa: Lula não conseguirá demover o PMDB de sua decisão. Outros partidos também encenam o desembarque, como o PRB, PP e outros.
Na área política, Luiz Inácio, com toda a lábia, não terá sucesso, podendo segurar apenas algumas siglas que giram no entorno do PT. Na área econômica, a revolução que Lula quer fazer não dispõe de munição. Onde está o dinheiro para implantar a mesma receita de 2008 por ocasião da crise internacional? Injetar recursos para massificar o consumo? Quem vai produzir nesse clima de quebradeira, desemprego crescente, fechamento de fábricas e queda de confiança? A probabilidade de um programa que tire a economia rapidamente do fundo do poço é zero. Os ajustes tão cantados só gerarão resultados no longo prazo. Sustar a reforma da Previdência por desagradar a militância petista é sinal de que o governo continuará patinando.
Economia afundando, política efervescendo, massas nas ruas pedindo mudanças, impeachment correndo (em 15 sessões será liquidado na Câmara), delações jorrando, condenações em série, o que esperar? O descarrilamento do trem. Não há mais condições técnicas e políticas para a continuidade do governo Dilma. Só alguns cegos não querem enxergar. O ciclo do PT chega ao fim. Pode, até, haver alguma sobrevida. Apenas atrasará as mudanças que a sociedade clama. Urge instalar um governo de união nacional, com o apoio de partidos políticos e a participação das organizações sociais. Esgota-se a era do apartheid social. O muro que separa “nós e eles” precisa ser derrubado.
A presidente promete poderes para Lula resgatar a imagem positiva do governo. Essa era a inflexão que se tinha até virem a público as gravações autorizadas de conversas entre a presidente e seu mestre e entre este e outros interlocutores. Ao dizer que estava enviando o emissário Messias com o Termo de Posse para Lula usar “só em caso de necessidade”, mesmo sem ter assinado o documento, a versão do Lula providencial foi substituída pela versão do Lula tentando driblar a justiça. Dilma lhe mandava um salvo conduto para se livrar de eventual pedido de prisão ordenada pelo juiz Sérgio Moro. O termo antecipado de posse é considerado por juristas como meio de obstrução da justiça. Ele se livraria de condenação na 1ª instância e subiria ao degrau do STF, que julga pessoas com foro privilegiado.
A volta do ex-presidente para o seu “terceiro mandato” ocorre, assim, sob uma teia de suspeitas, ainda mais quando sua linguagem rude arremete contra o Poder Judiciário (“acovardado”), o Legislativo (“acovardado”) os presidentes da Câmara e do Senado (brindados com termos chulos), a par de demandas nada republicanas.
O ministro Lula sobe ao quarto andar do Palácio do Planalto sob o apupo da imensa maioria da população, que manifesta contrariedade contra ele, Dilma, o PT e, diga-se, outros protagonistas da velha política. Conseguirá ter sucesso na missão que encampa ou será alijado da cena política na esteira das graves denúncias que enchem seu roçado?
Para início de conversa, ainda não sentou na cadeira, pois há uma coleção de recursos contra sua ascensão ao cargo de ministro número 1. Terá de esperar. Lula põe lenha na fogueira da crise. Seu estoque de carisma de Lula se esvazia rapidamente. Impressiona a ocupação espontânea das ruas ao se ouvirem as gravações de suas conversas com interlocutores, com destaque para o breve diálogo com Dilma. Causam preocupações as ameaças de conflitos por parte de grupos contrários e favoráveis a ele e ao governo.
Com os costados arrebentados e previsíveis confirmações das delações premiadas do senador Delcídio Amaral, do ex-deputado Pedro Correa, do PP, para quem Lula sabe de tudo desde o mensalão, e de mais delatores, Luiz Inácio não deverá escapar de julgamento na Corte Suprema. A pergunta emerge: por que ele tanto luta para ser julgado pelo STF? Talvez por considerar ter ali um acolhimento melhor que o da Corte de Curitiba. Afinal, de sua caneta saiu a nomeação de oito ministros do Supremo, entre os quais três ainda se encontram na Casa (o presidente Ricardo Lewandovski, Carmen Lúcia e Dias Toffoli).
Não se engane, porém, o ex-presidente. O olho das ruas está atento. As operações em curso, desde o mensalão, acenderam os faróis da transparência e a sociedade organizada observa o que se passa no entorno dos Poderes. Cresce a sensação de que os magistrados não se deixarão levar por voto de agradecimento. Na quadra que se caracteriza pelo lema - “passar o Brasil a limpo” -, estreita-se a probabilidade do voto de retribuição. O que pode ocorrer é o prolongamento de eventual processo contra ele, eis que são longos os corredores da Justiça.
Nesse ínterim, tentará cumprir suas funções, a começar pela articulação política. Primeiro desafio: garantir os vagões do PMDB atrelados à locomotiva do governo. Conseguirá? Pouco provável. Em convenção, o partido decidiu dar 30 dias para desembarcar da administração federal. Antecipou essa decisão para o dia 29 próximo. Proibiu seus quadros de aceitar novos cargos no governo. Pois bem, o deputado Mauro Lopes, secretário do partido, quebrou o compromisso e assumiu a Secretaria da Aviação Civil. O VP, Michel Temer, não foi à sua posse. E foi acolhido pelo Conselho de Ética do PMDB, nesta sexta, pedido para punição do deputado. A cúpula partidária avisa: Lula não conseguirá demover o PMDB de sua decisão. Outros partidos também encenam o desembarque, como o PRB, PP e outros.
Na área política, Luiz Inácio, com toda a lábia, não terá sucesso, podendo segurar apenas algumas siglas que giram no entorno do PT. Na área econômica, a revolução que Lula quer fazer não dispõe de munição. Onde está o dinheiro para implantar a mesma receita de 2008 por ocasião da crise internacional? Injetar recursos para massificar o consumo? Quem vai produzir nesse clima de quebradeira, desemprego crescente, fechamento de fábricas e queda de confiança? A probabilidade de um programa que tire a economia rapidamente do fundo do poço é zero. Os ajustes tão cantados só gerarão resultados no longo prazo. Sustar a reforma da Previdência por desagradar a militância petista é sinal de que o governo continuará patinando.
Economia afundando, política efervescendo, massas nas ruas pedindo mudanças, impeachment correndo (em 15 sessões será liquidado na Câmara), delações jorrando, condenações em série, o que esperar? O descarrilamento do trem. Não há mais condições técnicas e políticas para a continuidade do governo Dilma. Só alguns cegos não querem enxergar. O ciclo do PT chega ao fim. Pode, até, haver alguma sobrevida. Apenas atrasará as mudanças que a sociedade clama. Urge instalar um governo de união nacional, com o apoio de partidos políticos e a participação das organizações sociais. Esgota-se a era do apartheid social. O muro que separa “nós e eles” precisa ser derrubado.
A besta e o basta
O discurso não inflama. O vigarista cuja voz de pato rouco vai nos enojando crescentemente, lança-se num miserável “nós contra eles”, gritando para a sua claque de abonados do serviço público que queremos confiscar as “conquistas sociais dos pobres”. Quem foi que confiscou essas conquistas, se não o próprio governo inepto e compadre, do qual ele é fiel depositário? Quem jogou de volta a “classe média” inventada por estes boquirrotos na beira da miséria?
É engraçado perceber que, enquanto as manifestações “coxinhas” são verdadeiras confraternizações de gente exausta dessa roubalheira epidêmica empreendida pela quadrilha de meliantes com mandato, as revoadas de varejeiras vermelhas em volta de mortadela desviada são rituais de lavagem cerebral coletivos. Os manipuladores da claque de famélicos vão dando o tom da bravata e da vigarice em seus discursos e gritarias.
Como comparar esses dois movimentos? Aqui e ali ouvimos boatos de que muitos ali foram ameaçados de perder as boquinhas públicas caso não se integrassem à baixaria. Nem precisava. Uma simples conferência constataria que hoje foi feriado na comarca do Marinho, aquele prefeito que dá cobertura aos lula da silva. Ou que as CUTs, as UNEs e as USPs foram esvaziadas para aumentar os blocos dessas varejeiras.
Obrigado pelos ossos do ofício a assistir tevê em doses cavalares, constato que a estética do canal de notícias da platinada anda se aproximando da de um Primo Carbonari, de exótica memória. Também era obrigado a ver aquelas porcarias quando ia ao cinema. Além do providencial – e infeliz – “branco, preto e vermelho” de suas vinhetas, o canal agora aposta numa espécie de ressurreição do cinema novo: uma câmera na mão e uma ideia na cabeça era a palavra de ordem de uma taba que encontrou a Coca-Cola. Pela madrugada, Batman!!!
A vontade que tem essa gente de construir um Trabant é inglória, não é mesmo? Os caras hoje estão no auge da estética russa dos anos 30. Um mimo. Talvez por isso o recalque dessa caravana seja uma coisa tão visível e desconfortável para quem assiste. Os juízes do Brasil inteiro se manifestam a favor de Sergio Moro e o contraponto dado por uma “jornalista” do canal – uma Pacheco – é o manifesto em favor do governo dos estudantes de direito daquela escolinha.
Fosse eu pai de aluno, tirava meu filho de lá imediatamente. Não pode dar boa coisa um advogadinho de porta de cadeia que resolve defender o bandido, querendo a prisão urgente do mocinho. Por último, reparem que o “molúsculo” bem poderia ter comprado aquele sítio vagabundo com recursos próprios, mas não o fez. E sabem por quê? Aqui mora o perigo, meus caros. Porque fazia questão de ser venerado, de ter aspones em volta prestando vassalagem.
Ele tinha orgasmos múltiplos ao ver aqueles donos de empreiteira de quatro, calças arriadas, fazendo as vontades de “vossa incelença”. Esse boçal, além de tudo, é um déspota miserável escondido sob a carapaça de um covarde. Um Hitler de boteco, sem mindinho para fazer a saudação marreta. Um piloto de torno que perde os dedos no manejo. Um encostadão no serviço. E os desavisados aplaudem as macaquices desse circo de pilantras superfaturados.
Nos próximos rounds da peleja, precisamos espalhar por toda a Avenida Paulista aquelas plaquinhas com o aviso: “Não alimente os animais”. Será que o filho do lulão não guardou algumas cópias, como lembrança do tempo em que ainda não era um Ronaldinho da informática? Vai precisar, meliante. Tua batata tá no forno.
A ideologia do coronel arcaico é o ódio ao que não é Lula
Confirma-se outra vez o diagnóstico de Augusto Nunes sobre a saúde moral do país na trevosa noite lulopetista, segundo o qual o bandido quer prender o xerife: Dilma Rousseff, desde a divulgação das repulsivas conversas da súcia, repete para a louca que a mira no fundo do espelho que “em muitos lugares do mundo, quem grampear um presidente vai preso”, acrescentando uma crítica cínica sobre a justiça dos coronéis do começo do século passado, num disfarce ineficaz da própria sujeição a um coronel arcaico.
Sempre cedendo à natureza dela e dos comparsas que os impele a mentir em qualquer situação, a criatura infeliz insiste em desconsiderar que o objeto do grampo legal era o outro bandido. Se a presidente telefona para bandidos, e a presidente não só telefona para bandidos como os nomeia ministros (diretores de estatais, assessores, etc.), ela cai no grampo.
Também desconsidera que em “muitos lugares do mundo”, excetuados os pré-civilizados onde vicejam aliados do petismo, uma mulherzinha tão medíocre nunca se elegeria. A estratégia infame em atacar Moro brilhou na cerimônia de posse do ministro bandido, em que Dilma, aos berros, dividindo a mentira entre olhos, dentes e gestos, dizia que o termo de posse que citou na conversa grampeada não era o termo de posse que citou na conversa grampeada.
Já tivemos demais disso, senhora, deixe-nos em paz e vá buscar alguma paz para si. A favor do bandido e contra o xerife, há ainda os intelectuais metidos a artistas e os artistas metidos a intelectuais habituais, a militância remunerada pela nação toda e um grupo inverossímil de juristas dizendo que Moro ofende o estado de direito democrático.
Nas gravações, a linguagem de sarjeta de Lula aponta a obsessão da família jeca por determinada parte da anatomia alheia, em que manda enfiar desde processos a panelas. É chulo sim, mas mesmo o chulismo pode ter pertinência; essa linguagem é sobretudo de ódio. O tal ódio de que os defensores de bandidos acusam qualquer crítica, depois de silenciarem enquanto Lula fazia dele o lubrificante das relações entre rivais políticos na clivagem inédita e odiosa do país entre “nós” e “eles”.
Pois bem, o ódio, o machismo e todas as dimensões do politicamente incorreto inundam as falas dos Lula da Silva sob o silêncio de associações, movimentos, coletivos ou qualquer outro ente da fauna-defensora-das-minorias-oprimidas para a qual estas se definem pelo crivo ideológico. Ora, a ideologia de Lula é o ódio ao que não é lula ou a quem a lula não se submete.
A campanha e os gritos contra Sérgio Moro continuarão. O juiz que mostra à nação exausta a trilha para buscar a manhã que dissipará a sinistra noite que vivemos há 14 anos talvez seja a figura pública mais admirada e mesmo querida atualmente, enquanto a criatura e o criador toscos jazem na ponta oposta, mas não é só por isso que logo saberão que toda essa infâmia é inútil, e sim porque a verdade, contrariamente aos subalternos da república pixuleca, não teme os berros de uma cínica e o ódio de um coronel arcaico.
Sempre cedendo à natureza dela e dos comparsas que os impele a mentir em qualquer situação, a criatura infeliz insiste em desconsiderar que o objeto do grampo legal era o outro bandido. Se a presidente telefona para bandidos, e a presidente não só telefona para bandidos como os nomeia ministros (diretores de estatais, assessores, etc.), ela cai no grampo.

Também desconsidera que em “muitos lugares do mundo”, excetuados os pré-civilizados onde vicejam aliados do petismo, uma mulherzinha tão medíocre nunca se elegeria. A estratégia infame em atacar Moro brilhou na cerimônia de posse do ministro bandido, em que Dilma, aos berros, dividindo a mentira entre olhos, dentes e gestos, dizia que o termo de posse que citou na conversa grampeada não era o termo de posse que citou na conversa grampeada.
Já tivemos demais disso, senhora, deixe-nos em paz e vá buscar alguma paz para si. A favor do bandido e contra o xerife, há ainda os intelectuais metidos a artistas e os artistas metidos a intelectuais habituais, a militância remunerada pela nação toda e um grupo inverossímil de juristas dizendo que Moro ofende o estado de direito democrático.
Nas gravações, a linguagem de sarjeta de Lula aponta a obsessão da família jeca por determinada parte da anatomia alheia, em que manda enfiar desde processos a panelas. É chulo sim, mas mesmo o chulismo pode ter pertinência; essa linguagem é sobretudo de ódio. O tal ódio de que os defensores de bandidos acusam qualquer crítica, depois de silenciarem enquanto Lula fazia dele o lubrificante das relações entre rivais políticos na clivagem inédita e odiosa do país entre “nós” e “eles”.
Pois bem, o ódio, o machismo e todas as dimensões do politicamente incorreto inundam as falas dos Lula da Silva sob o silêncio de associações, movimentos, coletivos ou qualquer outro ente da fauna-defensora-das-minorias-oprimidas para a qual estas se definem pelo crivo ideológico. Ora, a ideologia de Lula é o ódio ao que não é lula ou a quem a lula não se submete.
A campanha e os gritos contra Sérgio Moro continuarão. O juiz que mostra à nação exausta a trilha para buscar a manhã que dissipará a sinistra noite que vivemos há 14 anos talvez seja a figura pública mais admirada e mesmo querida atualmente, enquanto a criatura e o criador toscos jazem na ponta oposta, mas não é só por isso que logo saberão que toda essa infâmia é inútil, e sim porque a verdade, contrariamente aos subalternos da república pixuleca, não teme os berros de uma cínica e o ódio de um coronel arcaico.
Alô deputados e senadores! Quem quer ser cúmplice?
Pois é, Excelências. Passei estes últimos dias nas ruas, nas mobilizações populares, nos carros de som, nas redes sociais, e acompanhando o noticiário. Andei de taxi. Falei com vendedores de água, pipoca, sorvete. Falei com taxistas e garçons. Cheguei a uma conclusão: a coisa está feia para o lado dos senhores. Junto com a responsabilidade inerente às funções que exercem, caiu-lhes no colo a decisão sobre o processo de impeachment. E as perguntas são inevitáveis: V. Exª será cúmplice da organização criminosa que saqueou o país? Concederá aval para que continue atuando? Parece-lhe pouco tudo que já é de seu conhecimento? Se sim, quanto mais seria necessário subtrair à nação para chegar a um valor que o impressione? Quantas lixeiras mais será preciso destapar?
É possível que o tenham sensibilizado alguns argumentos da corte pirata e seus cortejadores. Mencionarei os mais insistentemente repetidos: 1) impeachment é golpe; 2) a oposição perdeu a eleição e quer derrubar o governo; 3) a oposição ataca o PT porque não gosta de pobres. Examinemos, um a um, esses supostos argumentos.
1. Impeachment é procedimento previsto na Constituição, segue rito jurídico e político que, no presente caso, acaba de ser regulamentado pelo Supremo Tribunal Federal. Como pode ser "golpe" um processo e um julgamento que percorre a trilha definida na Constituição e que, em seus atos de natureza judicial penal, junto ao Senado, será dirigido pelo presidente do Supremo?
2. A oposição não quer "derrubar o governo porque perdeu a eleição". A oposição, Excelências, perdeu três eleições consecutivas para o mesmo partido! Em nenhuma delas protestou. Em nenhuma agiu para "derrubar" o governo eleito. Só agora, no quarto pleito, motivada pela inquestionável, confessa, testemunhada e documentada natureza criminosa dos atos praticados dentro do governo, a oposição parlamentar, ouvindo inigualáveis mobilizações populares, dá suporte político institucional ao processo de impeachment. Não fossem os achados criminais da operação Lava Jato, não haveria povo nas ruas, nem processo de impeachment.
3. Espalhar a ideia de que a oposição quer o mal dos pobres e, por isso, deseja tirar o PT do governo é um outro aspecto do grave problema moral que afeta o partido dirigente: desonestidade intelectual. Afirmar que os adversários do governo "não gostam de pobres e não querem que os pobres melhorem de vida", é uma sofisma barato, uma falsidade esférica, torpe desde qualquer ponto de vista. Como poderia convir à imensa maioria da nação a pobreza dos pobres? Quem quer viver numa sociedade profundamente desigual, como essa que temos após 15 anos de petismo reinante? O governo petista, este sim, enriqueceu seus integrantes (quem é pobre sob seu guarda-chuva?) e enriqueceu ainda mais os setores endinheirados do planeta, pagando-lhes os juros mais sedutores do mundo. A Brasília petista tem muito de Wall Street e muito de Chicago na década de 30.
É forçoso reconhecer, então, que o PT se atribui uma falsa preferência pelos mais pobres para esconder os resultados da própria ganância e os privilégios que concede a grandes e desonestos empresários. Tal conduta faz lembrar a dos traficantes de drogas que escondem sua riqueza na pobreza dos morros onde distribuem migalhas aos mais necessitados.
Acostumem-se à idéia, excelências. Quem segurar a alça desse caixão será, perante a opinião pública, cúmplice de uma organização criminosa. Será pegar ou largar.
Não haverá milagre
O momento enfrentado pelo governo ficou traduzido com propriedade por Lula numa das tantas conversas telefônicas reveladas pela operação Lava Jato. Desabafou: “E fica todo mundo num compasso que vai acontecer um milagre e vai todo mundo se salvar”.
Lula, entre muros partidários, se queixa da paralisia e das trapalhadas da presidente Dilma, atordoada, revelando limitações pessoais que não estavam entre as mais sombrias previsões. Sem rumo, sem metas que não sejam a de propor mais impostos sobre um contribuinte revoltado.
A “criatura” que Lula colocou no Planalto escapou do controle. Falta-lhe traquejo político, isolou-se, intoxicou-se pela bajulação dos incompetentes e medíocres dos quais se cercou. Dilma, depois de reeleita, em 2014, largou as rédeas.
O Lula que “acertava quase tudo”, o ícone, passou a ser uma figura investigada pela polícia judiciária que apura o maior caso de corrupção da história. Seria fácil se sair de vítima não fosse a polícia que o devassou, dependente do ex-ministro da Justiça Eduardo Cardozo, do PT de São Paulo. Isso aniquila a reação. Cardozo não é de outro partido, não é do PSDB.
Os jornais europeus que o cantavam em verso e prosa passaram a pintá-lo de marrão. Uma charge do “Charlie Hebdo” o retrata estuprando a imagem feminina da Justiça. O Brasil subiu rapidamente no cume do ranking da corrupção, e Lula, inevitavelmente, aparece como quem a possibilitou.
Logo ele, que, com uma criatura seguindo suas orientações e ensinamentos, lhe possibilitaria descanso num sítio rodeado de florestas? Nada de especial ele queria, apenas uma aposentaria tranquila no fim de uma escalada ao vértice do sucesso.
Porém, Lula pecou. Quis realizar o sonho de uma normal aposentadoria usando, no escuro, empreiteiras para tarefas triviais e mais que razoáveis, para quem tem renda de palestras regiamente pagas. Escolheu um caminho torto que entortou sua biografia espetacular.
Máximo é o constrangimento de quem é conduzido por uma polícia judiciária que responde constitucionalmente ao comando de sua “criatura”. Dilma não conspirou como um Brutus, apenas perdeu o controle político, perdeu a autoridade, perdeu o rumo, e se depara, como Dante, “No meio da senda da minha vida / me perdi numa selva obscura”, que dava acesso ao Inferno.
Para Lula, que entregou a Dilma quatro anos de poder sem limite, e ainda dobrou a dose, deve ser difícil perdoá-la e até de perdoar-se pela escolha. Não há conspiração da oposição, que nunca foi tão ausente e retraída. O problema está dentro de casa, na corrupção fora de controle e na incompetência geral. Sérgio Moro apenas cumpre, como raramente acontece no Brasil, seu dever.
Demonstra a voz de Dilma, em ligação ao seu criador, que quer pessoalmente reparar um erro. Poderia ter escalado um assessor para comunicar o envio de um documento. Fez questão, imprudentemente, de ligar para um telefone sob escuta autorizada: “Seguinte, eu tô mandando o ‘Bessias’ junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?!”, nisso Lula responde: “Uhum. Tá bom, tá bom”. E ela: “Só isso, você espera aí, que ele tá indo aí... “Tá bom, eu tô aqui, fico aguardando”.
Nisso, mais que interpretação, há apenas uma constatação a se fazer.
O tom de voz é de quem quer reparar a quebra de uma louça que lhe caiu das mãos. Doutro lado a resposta é seca, de quem teria preferido manter a louça intacta e aceitar uma forma de evitar uma maior fragmentação de sua biografia.
O ex-ministro da Justiça Eduardo Cardozo, que passará à história como o guardião da independência da Polícia Federal (se é que não lhe escapou de controle), deixou que o deus “Brahma” (como o chamavam os empreiteiros ao se referirem a Lula) passasse por uma busca em seu apartamento e por uma condução coercitiva na delegacia, quando poderia ser realizada por hora marcada.
Dilma derrete. Poucas figuras humanas foram mais achincalhadas nas ruas do que ela. Muitos que nunca pensaram no impeachment, e o imaginavam um instrumento descabido, passaram a vê-lo como “legítima defesa” para um Brasil que ameaça explodir.
Isso se deu agora. Não só pelas revelações dos grampos, mas pelo PIB, que caiu 4,4%, produzindo uma média de 220 mil desempregados por mês. Um volume que já seria doloroso de se absorver em um ano.
A queda de arrecadação federal é de 11,5%. Arrebenta os Orçamentos de Estados e municípios. Setores produtivos como a siderurgia, o automotivo e o de bens de consumo duráveis estão se desfazendo. A Bolsa paradoxalmente se valoriza proporcionalmente ao crescimento das possibilidades de impeachment.
Dilma, assim, é vista nitidamente como o cerne do problema, e seu mandato, previsto para durar até 31 de dezembro de 2018, passou a pairar como pesadelo. Mais que uma razão ideológica e política, ou uma conspiração de uma oposição, que é ausente como nunca, são os erros do governo dela, da falta de um dever de casa não feito, que alimentam a crise.
Lula, entre muros partidários, se queixa da paralisia e das trapalhadas da presidente Dilma, atordoada, revelando limitações pessoais que não estavam entre as mais sombrias previsões. Sem rumo, sem metas que não sejam a de propor mais impostos sobre um contribuinte revoltado.
A “criatura” que Lula colocou no Planalto escapou do controle. Falta-lhe traquejo político, isolou-se, intoxicou-se pela bajulação dos incompetentes e medíocres dos quais se cercou. Dilma, depois de reeleita, em 2014, largou as rédeas.
O Lula que “acertava quase tudo”, o ícone, passou a ser uma figura investigada pela polícia judiciária que apura o maior caso de corrupção da história. Seria fácil se sair de vítima não fosse a polícia que o devassou, dependente do ex-ministro da Justiça Eduardo Cardozo, do PT de São Paulo. Isso aniquila a reação. Cardozo não é de outro partido, não é do PSDB.

Logo ele, que, com uma criatura seguindo suas orientações e ensinamentos, lhe possibilitaria descanso num sítio rodeado de florestas? Nada de especial ele queria, apenas uma aposentaria tranquila no fim de uma escalada ao vértice do sucesso.
Porém, Lula pecou. Quis realizar o sonho de uma normal aposentadoria usando, no escuro, empreiteiras para tarefas triviais e mais que razoáveis, para quem tem renda de palestras regiamente pagas. Escolheu um caminho torto que entortou sua biografia espetacular.
Máximo é o constrangimento de quem é conduzido por uma polícia judiciária que responde constitucionalmente ao comando de sua “criatura”. Dilma não conspirou como um Brutus, apenas perdeu o controle político, perdeu a autoridade, perdeu o rumo, e se depara, como Dante, “No meio da senda da minha vida / me perdi numa selva obscura”, que dava acesso ao Inferno.
Para Lula, que entregou a Dilma quatro anos de poder sem limite, e ainda dobrou a dose, deve ser difícil perdoá-la e até de perdoar-se pela escolha. Não há conspiração da oposição, que nunca foi tão ausente e retraída. O problema está dentro de casa, na corrupção fora de controle e na incompetência geral. Sérgio Moro apenas cumpre, como raramente acontece no Brasil, seu dever.
Demonstra a voz de Dilma, em ligação ao seu criador, que quer pessoalmente reparar um erro. Poderia ter escalado um assessor para comunicar o envio de um documento. Fez questão, imprudentemente, de ligar para um telefone sob escuta autorizada: “Seguinte, eu tô mandando o ‘Bessias’ junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?!”, nisso Lula responde: “Uhum. Tá bom, tá bom”. E ela: “Só isso, você espera aí, que ele tá indo aí... “Tá bom, eu tô aqui, fico aguardando”.
Nisso, mais que interpretação, há apenas uma constatação a se fazer.
O tom de voz é de quem quer reparar a quebra de uma louça que lhe caiu das mãos. Doutro lado a resposta é seca, de quem teria preferido manter a louça intacta e aceitar uma forma de evitar uma maior fragmentação de sua biografia.
O ex-ministro da Justiça Eduardo Cardozo, que passará à história como o guardião da independência da Polícia Federal (se é que não lhe escapou de controle), deixou que o deus “Brahma” (como o chamavam os empreiteiros ao se referirem a Lula) passasse por uma busca em seu apartamento e por uma condução coercitiva na delegacia, quando poderia ser realizada por hora marcada.
Dilma derrete. Poucas figuras humanas foram mais achincalhadas nas ruas do que ela. Muitos que nunca pensaram no impeachment, e o imaginavam um instrumento descabido, passaram a vê-lo como “legítima defesa” para um Brasil que ameaça explodir.
Isso se deu agora. Não só pelas revelações dos grampos, mas pelo PIB, que caiu 4,4%, produzindo uma média de 220 mil desempregados por mês. Um volume que já seria doloroso de se absorver em um ano.
A queda de arrecadação federal é de 11,5%. Arrebenta os Orçamentos de Estados e municípios. Setores produtivos como a siderurgia, o automotivo e o de bens de consumo duráveis estão se desfazendo. A Bolsa paradoxalmente se valoriza proporcionalmente ao crescimento das possibilidades de impeachment.
Dilma, assim, é vista nitidamente como o cerne do problema, e seu mandato, previsto para durar até 31 de dezembro de 2018, passou a pairar como pesadelo. Mais que uma razão ideológica e política, ou uma conspiração de uma oposição, que é ausente como nunca, são os erros do governo dela, da falta de um dever de casa não feito, que alimentam a crise.
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