quinta-feira, 2 de abril de 2015

O dia 12 e a memória das calçadas

Ir para as ruas gritar contra o governo faz bem à alma, mas às vezes pede-se uma coisa e leva-se outra

A rua marcou um novo encontro com a doutora Dilma para o domingo, 12 de abril. O 15 de março mostrou ao comissariado o tamanho da insatisfação popular e ele não entendeu nada. O grito geral condenava a roubalheira e recebeu um pastel de vento. Seguiram-se o “Chega de PT” e o “Fora Dilma”. Quem sai de casa num domingo para gritar na rua merece respeito, seja qual for o seu grito. Isso não elimina o fato de que uma pessoa tenha gritado por uma coisa e, tempos depois, perceba que foi feita de boba. O único instrumento para se acabar com o PT é o voto em candidatos da oposição. “Chega de PT” ou “Fora Dilma” são palavras de ordem que deságuam numa proposta de impedimento da doutora. Ele seria possível sem o apoio do PMDB de Renan Calheiros, Eduardo Cunha e Michel Temer? Nem pensar. Se esse apoio viesse, como ficariam o petrocomissário Sérgio Machado e o inolvidável Fernando Baiano?

A memória das calçadas é cruel. Quem pintou a cara de verde e amarelo em 1992 tem doces lembranças das manifestações que defenestraram Fernando Collor. Um dos líderes desse movimento era o presidente da União Nacional dos Estudantes, Lindberg Farias. Militava no PCdoB, migrou para o PT, elegeu-se prefeito de Nova Iguaçu e senador. Hoje está de cara lavada na lista do procurador-geral Rodrigo Janot, pois o “amigo Paulinho” ajudava-o a captar recursos junto a empreiteiras da Petrobras. Mandar Collor para casa podia ser uma boa ideia, mas na agenda de Lindberg, do PCdoB e do PT havia outros interesses.

E quem vestiu uma camisa amarela e saiu por aí na campanha das Diretas de 1984? A ideia era excelente, mas a aprovação da emenda constitucional que restabelecia a eleição para presidente da República era uma impossibilidade aritmética. A agenda de Tancredo Neves era outra. Boa, porém outra. Graças às pessoas que saíram de camisa amarela, Tancredo construiu a conciliação que liquidou o consulado militar.

E quem foi à Passeata dos Cem Mil, em 1968? Um pedaço da avenida gritava “o povo unido jamais será vencido” e outro dizia que “o povo armado jamais será vencido”. As agendas eram duas. Algumas centenas de pessoas que se julgavam a vanguarda da sociedade armaram-se e o povo dividido foi vencido.

Recuando-se um pouco mais, há 50 anos a esquerda foi para o Comício da Central, realizado diante do Ministério da Guerra, onde os blindados pareciam simbolizar o apoio militar ao presidente João Goulart. O gênio de Carlos Lacerda chamou a manifestação de “Comício das Lavadeiras”, pois nele só havia “tanques e trouxas”. Dias depois os tanques começaram a prender os trouxas. Em resposta ao Comício das Lavadeiras, realizou-se em São Paulo a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, com um forte componente religioso. Deposto Goulart, o ministro da Guerra, general Costa e Silva, disse que “a doutrina social da revolução coincide com a doutrina social da Igreja”. Lorota. Começava ali a hostilidade da ditadura contra religiosos e seis anos depois o secretário-geral da CNBB, Dom Aloisio Lorscheider, foi detido por uma tropa do Exército. Nessa época, a esquerda divertia-se com um versinho: “Marcharam com Deus pela democracia? Agora chia... Agora chia.”

Ir pra rua é sempre uma boa ideia, mas não custa se perguntar: Pra quê? Com quem?

Elio Gaspari

Colhendo a verdade

Quem semeia mentiras colhe verdades. Por isso a queda de Dilma nas pesquisas, agora mais rejeitada do que vala negra.

Secas como a de São Paulo vão se espalhar


O economista americano Jeffrey Sachs tornou-se um nome conhecido no meio acadêmico na década de 80, quando foi aceito como professor na Universidade Harvard com apenas 28 anos, um dos mais jovens da história da instituição. Duas décadas depois, ganhou ares de celebridade ao andar pela África acompanhado da atriz Angelina Jolie, com quem fez trabalhos humanitários e estrelou um documentário produzido pela MTV.

Um dos arquitetos das Metas do Milênio, da ONU, conjunto de objetivos para redução da pobreza extrema que vão expirar em 2015, Sachs agora encabeça as Metas do Desenvolvimento Sustentável, que deverão guiar os países nos próximos 15 anos. “A ideia de desenvolvimento sustentável não deveria se basear apenas na luta contra a pobreza. Temos de incluir também a segurança ambiental e a redução da desigualdade”,

Leia mais a entrevista com Jeffrey Sachs

O diálogo entre a guilhotina e o pescoço


A redução da maioridade penal de 18 para 16 anos divide o país de alto a baixo. Como divide, também, o Congresso. De um lado, argumenta-se que a condenação de um jovem de 16 anos o levará para estabelecimentos penais onde se acumulam adultos reincidentes, curtidos na prática dos mais variados crimes.Eles contaminarão as levas de menores que deixarão de ser menores, preparando-os para a delinquência continuada. No reverso da medalha, sustenta-se que autores de crimes hediondos não podem ser acobertados pela idade, recebendo uma precária internação de no máximo três anos, ganhando a liberdade para retornar ao mundo do crime.

Ambos os raciocínios estão certos e exprimem duas faces da mesma moeda: não é mantendo ou modificando o Código Penal e a Constituição que evitaremos a progressão da violência crescente. A dor da mãe que vê o filho condenado a vinte anos de cadeia equivale à dor da mãe que perdeu o filho assassinado.

Não adianta falar que no fundo de todos os males repousa a necessidade de ampliar investimentos na educação e na preparação dos moços para a vida em sociedade. Essas metas demoram e os que necessitam delas não podem esperar. Muito menos produzirá efeito construir mil presídios capazes de manter separados os mestres dos aprendizes. Eles sempre conseguirão interligar-se, dentro ou fora das grades.

Então… Então estará o país dentro de um mistério envolvido por um enigma e cercado por uma charada. O combate ao crime organizado e desorganizado constitui a única saída, mas não vem sozinho. É preciso que a sociedade, liderada pelo poder público, abra oportunidades a todos, não apenas fornecidas por um ensino de qualidade, mas pelo aproveitamento das sucessivas camadas de jovens e menos jovens num trabalho digno e compensador. Em condições de convencê-los de que o caminho do crime é o pior de todos, materialmente falando.

Como se chegará a esse resultado? Só pela ampliação dos direitos sociais e trabalhistas. Pelo estabelecimento de um regime onde os mais favorecidos paguem pela sua própria tranquilidade e prosperidade. Não vale dizer que os privilegiados cumprem suas obrigações contribuindo apenas para a formação escolar dos menos favorecidos, entregando-os depois a uma pérfida livre competição entre quantidades distintas, um diálogo entre a guilhotina e o pescoço. Este continuará a ser decepado, com 18 ou 16 anos, na cadeia ou fora da cadeia.

Ser livre

É mais difícil ser livre do que puxar a uma carroça. Isto é tão evidente que receio ofender-vos. Porque puxar uma carroça é ser puxado por ela pela razão de haver ordens para puxar, ou haver carroça para ser puxada. Ou ser mesmo um passatempo passar o tempo puxando. Mas ser livre é inventar a razão de tudo sem haver absolutamente razão nenhuma para nada. É ser senhor total de si quando se é senhoreado. É darmo-nos inteiramente sem nos darmos absolutamente nada. É ser-se o mesmo, sendo-se outro. É ser-se sem se ser. Assim, pois, tudo é complicado outra vez. É mesmo possível que sofra aqui e ali de um pouco de engasgamento. Mas só a estupidez se não engasga, ó meritíssimos, na sua forma de ser quadrúpede, como vós o deveis saber.
Vergílio Ferreira (1916 – 1996) 

A vestal dos diabos

Quando não era sequer governo nenhum, o PT adorava posar de vestal. Puro, limpo, ainda cheirando a talquinho Johnsonn. Cada integrante era um São Francisco de camisa vermelha estrelada. Ai de quem apontasse a pose como falsidade. Caíam de pau como qualquer cachorro louco. Deixavam de lado a pureza e mostravam-se o diabo que nunca deixaram de ser. É mais ou menos essa pose que o documento lançado esta semana pela direção do PT quer retomar nas paradas. Será o único partido do mundo com virtudes como os santos e santas que espalhados pelo país suam para sobreviver sob a canga petista.

Apontar virtudes num partido já é demais, e quando se sabe internacionalmente que o PT é um poço de corrupção, aí é querer canonizar o próprio diabo e colocar toda a cúpula do PT na Santa Ceia.

Lições de filósofo

Em alguns países, a corrupção se faz presente em todas as esferas do governo e nas empresas. Quando esse é o caso, é comum que a corrupção também esteja presente na vida cotidiana de muitas pessoas. Para combater a roubalheira, o papel da polícia e do sistema judiciário é central. E dessa forma que se encontram e se punem os poderosos. Por isso, juízes competentes e incorruptíveis são fundamentais. Leis que impeçam partidos políticos de tomar dinheiro público em benefício próprio também são imprescindíveis.
Quando a corrupção é praticada em larga escala, quando toma conta dos partidos políticos, do mundo dos negócios e da vida cotidiana, é, sim, um sinal de falência moral. E uma incapacidade generalizada de reconhecer e respeitar o direito das outras pessoas com quem dividimos um país.
 Michael Sandel

Governo novo de santos velhos

Quem se lembra em abril da longínqua promessa de Dilma: “Governo novo, Ideias novas”? Como o lema de Pátria Educadora, ficou rapidamente velha e não passa mais de um capacho voador pode levar rapidinho a nova tempestade, bem pior do que a que vai perdendo força.

Dilma e o PT se esqueceram que enfiaram os fantasmas nos armários, blindaram processos e nomes. Agora estão pululando e fazendo mais careta para o Brasil, esse país do esculacho.

As escavadeiras da Lava-Jato começaram a desenterrar as carcaças podres que vão empestear ainda mais o Planalto. Antônio Palloci, Zé Dirceu (o famoso “Bob”). Vaccari, o “Moch”, e agora se anuncia a exumação de Erenice Guerra, amiguinha (uma das muitas), que acompanhou a carreira de Dilma.
A presidenta está se arriscando a ficar soterrada sob velhos esqueletos. Ficará esquecida sob a avalanche de condenados.

Ajuste fiscal aumenta impostos e corta direitos

O mais que certo agravamento da situação econômica no Brasil irá elevar o volume da confusão já implantada no país por vários anos de governos ineptos, gastadores, falastrões e usuários de contabilidades criativas.
Aplicar ao mesmo tempo um ajuste fiscal e monetário, no atual contexto de recessão da economia brasileira, parece ato sem antecedentes de pleno êxito na economia mundial.

O Brasil chegou a essa precária situação graças a medíocre, enganosa e inconsequente política econômica levada a efeito nos últimos anos por Dilma e sua olímpica, subserviente e maquiadora equipe, principalmente na adoção de estímulos monetários e fiscais, o que resultou no agravamento da dívida pública e elevação da inflação, propiciando a queda do nível da atividade produtiva e culminando na atual recessão por que passa o país. Recessão com inflação (se existisse o termo em economês, seria “receflação”), o que, sem dúvida, possui características mais graves que a estagflação, ou seja, a inflação com a economia estagnada.

Nessa situação delicada e de alto risco, o ajuste se apresenta como vital para tentar recuperar a credibilidade da política fiscal e manter a inflação sob controle, de modo que o país possa preservar a esperança de voltar para a desprezada e perdida normalidade econômica, obtida no passado por meio de enormes sacrifícios da população brasileira.

Agravando a situação em que o Brasil foi atirado por teimosa e patente incompetência, a carga tributária imposta ao povo e também às empresas é descomunal para um país de economia emergente como o nosso, fato que se agrava quando consideramos a baixíssima qualidade dos serviços públicos oferecidos aos contribuintes. O brasileiro paga por serviços públicos que não recebe e, quando recebe, são de péssima qualidade.

Esse contexto resultou na atual crise de confiança e crescentes reclamações por parte dos componentes de todas as camadas sociais (trabalhadores, políticos e empresários, exceto banqueiros fora, beneficiados, à saciedade, nos últimos governos petistas) por já terem constatado que o governo federal quer aumentar a carga tributária, encolher direitos trabalhistas e amputar recursos destinados a Estados e municípios.

Tudo isso, sem que o governo federal leve a efeito o menor esforço para diminuir a obesa máquina pública e o fortemente criticado aparelhamento do Estado pelo PT. O governo dá sinais inconfundíveis que não deseja nem pretende cortar a própria carne.

Em sã consciência, não parece existir a menor dúvida que o ajuste fiscal seja necessário, pois poderá colaborar para a extinção das incertezas sobre a solvência do Brasil. Também parece medida inevitável a elevação dos juros, objetivando controlar a inflação – que representa o pior dano que um trabalhador pode sofrer em seu salário.

Por outro lado, há forte corrente de economistas que julgam que o modo mais eficaz do Brasil sair da crise em que foi colocado pelas nocivas administrações petistas, seria atrelar o ajuste no corte das despesas estatais e na adoção de medidas para efetivamente melhorar a produtividade e restaurar o ambiente de confiança nos negócios.

Essa corrente é de opinião serem necessárias as reformas trabalhista e tributária, além da adoção de um programa que torne possível a alocação de expressivos investimentos em infraestrutura, com seguras garantias e previsões de retornos que voltassem a atrair investidores nacionais e internacionais, pois está mais do que comprovado que o capital sempre migra para locais mais seguros e de melhor remuneração.

Os discursos da presidente Dilma durante a campanha eleitoral, exuberantes em parlapatices, foram lastreados em diagnóstico no qual nem mesmo ela parecia ou deveria acreditar e nas afirmações e reafirmações aos eleitores de que nada havia de errado na política econômica brasileira.

Comboios e mais comboios de lorotas, sopradas por marqueteiros apenas preocupados em faturar a grana fácil que havia chegado aos cofres do PT e sem a menor responsabilidade com o futuro do país e de seus habitantes. Foi feito o diabo na a campanha…

Decorridos poucos meses, a verdade veio à tona. E a confiança dos brasileiros na presidente da República chafurdou nas mentiras contadas durante a campanha eleitoral e no lodo da corrupção.

O futuro irá mostrar se o governo Dilma 2 – considerando a verdadeira catástrofe que foi o Dilma 1 – será capaz de agir com a eficiência que a situação requer para tirar o Brasil da posição calamitosa em que foi colocado pelos sucessivos e inconsequentes atos consumados por perdulários e fanfarrões governos petistas.

Mas o fato é que o governo Dilma 2 está a bordo de embarcação fazendo água, com tripulação em sua maior parte desqualificada e em plena tormenta, navegando em monumental e comprovado oceano de corrupção.

Celso Serra

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Bom dia, Presidenta

Primeiro de abril dia da mentira dilma nariz pinochio

Novo governo Dilma mais parece peça surrealista

Em função da flagrante derrocada do governo Dilma Rousseff, a política brasileira está se tornando uma das atividades mais estranhas e esquisitas da humanidade. Sabe-se que o ex-presidente Lula está mais ou menos de volta ao poder. No caso, mais ou menos quer dizer que Lula dá pitacos nos principais assuntos, manda Dilma fazer isso ou aquilo, mas ela só obedece quando quer, porque a caneta oficialmente ainda lhe pertence e faz uso dela como e quando quiser.

Por exemplo: Lula lhe ordenou que tirasse os ministros Aloizio Mercadante e Pepe Vargas do comando da articulação política. Dilma disse que sim, prometeu atender, mas foi empurrando a decisão para frente, não mudou nada e o governo vai continuar se relacionando precariamente com a base aliada, que na verdade já nem existe mais.

.Porém, Lula gostou que Dilma tenha nomeado o ex-deputado Edinho Silva para a Secretaria de Comunicação Social da Presidência, mas isso também não muda nada e o governo vai continua sem recuperar a popularidade perdida, até porque não há mais a menor possibilidade de reverter a queda da aprovação, por causa do inexorável agravamento da crise política, econômica, administrativa e… ética.

A grande novidade agora é a tentativa de reabilitação do ex-ministro Antonio Palocci, que passou a ser participante assíduo das discussões mais amplas promovidas pelo Instituto Lula em busca de uma solução para a atual crise.

Reportagem de Catia Seabra e Marina Diaz, na Folha, mostra que nos últimos quinze dias Palocci participou de ao menos três encontros a convite de Lula. Segundo as jornalistas, o ex-ministro seria apontado como “uma ponte informal do governo com a classe média e o empresariado”, o que representa uma justificativa muito esdrúxula, digamos assim. Palocci com o empresariado, tudo a ver, dado o sucesso dele como “consultor”. Mas com a classe média, francamente…

Essa volta de Palocci coincide justamente com o surgimento de denúncias de seu envolvimento no esquema da Petrobras. O ex-ministro foi acusado pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, de ter pedido recursos para a campanha de Dilma em 2010, através do doleiro Alberto Youssef. A revista IstoÉ deu uma vasta matéria sobre o assunto, mas Lula não costuma ler o que a imprensa divulga…

O mais estranho é que, ao mesmo tempo em que tenta reabilitar Palocci, Lula se recusa a falar com José Dirceu, também já envolvido no esquema da Petrobras.

Não dá mesmo para entender. E tudo isso demonstra que no novo governo Lula Rousseff as coisas funcionam sem pé nem cabeça, uma confusão total, em clima de surrealismo puro.

De que valeu o tudo desse nada?

Credibilidade é condição da qual Dilma está cada dia mais distante. Presidente desnorteada, ajuste covarde, trapalhadas sem fim. Mentiras e engodos como marca do governo
“De que valeu o tudo desse nada?”. Essa foi a frase usada por Carlos Drummond de Andrade no último crayon da série feita por Portinari sobre D. Quixote. A imagem ocorreu ao poeta após observar o quadro com Sancho Pança, caído com a mão na testa, depois de tantas loucuras acompanhando seu mentor, Dom Quixote de La Mancha, o cavaleiro da triste figura.

Tenho lembrado da frase. Talvez porque, cada dia mais, acredito que a aventura de Dilma está chegando ao fim. Não no sentido institucional, de ruptura ou descontinuidade. Mas no sentido pleno do tempo escoado, quando mais nada de novo pode ser gestado ou construído. Como se nenhuma esperança pudesse ali ser emulada.

O que nos oferece hoje uma presidente recém-eleita? Uma realidade assombrosa (escondida antes da eleição) de ruína das contas públicas, das empresas estatais, dos programas de indução dos investimentos, dos projetos de Estado para a Educação, do setor energético, da política externa e tantos outros.

O economista Marcos Lisboa, no Estadão de domingo, calculou algo entre 200 e 300 bilhões de reais de erosão provocada pela alucinação nos gastos públicos – descontrole surgido da incompetência, da corrupção e do desejo da reeleição a qualquer custo. O desprezo a qualquer limite.

Para sobreviver, Dilma aceita um ajuste fiscal que impõe a expropriação da renda das famílias brasileiras. Conta de luz vai nas alturas, aumenta-se os impostos, os juros são majorados impiedosamente no país dos endividados. A carestia é geral - e nos alimentos em particular. Afora tentar evitar uma intolerável agudização da crise econômica à custa de um assalto a economia popular, o que Dilma e Levy estão fazendo não nos oferece nada para a frente a não ser recessão e crescimento negativo. Nenhum sacrifício por parte do governo. Em meio à seca, Dilma e Levy confiscam sementes.

Além de pagar, fica em dilema

Divagações na boca da urna

Política é exercício de poder, poder é o exercício do desprezível. Desprezível é tudo aquilo que não colabora para o enriquecimento do humano, mas para a sua (ainda) maior degradação. Como se fosse possível. Pior é que sempre é.
Ah, a grande náusea desses jeitos errados que os homens inventaram para distrair-se da medonha ideia insuportável de que vão morrer, de que Deus talvez não exista, de que procura-se o amor da mesma forma que Aguirre procurava o Eldorado: inutilmente.

Porque você no fundo sabe tão bem quanto eu que, enquanto a jangada precária gira no redemoinho, invadida pelos macacos enlouquecidos, e você gira sozinho dentro da jangada, ao lado da filha morta com quem daria início à primeira dinastia — mesmo assim: com a mão estendida sobre o rio, você julgará ver refletido no lodo das águas o brilho mentiroso das torres de Eldorado. E há também aquela outra política que os homens exercitam entre si. Uma outra espécie de política ainda menor, ainda mais suja, quando o ego de um tenta sobrepor-se ao ego do outro. Quando o último argumento desse um contra aquele outro é: sou eu que mando aqui.

Ah, a grande náusea por esses pequenos poderosos, que ferem e traem e mentem em nome da manutenção de seu ego imensamente medíocre. Porque sem ferir, nem trair, nem mentir, tudo cairia por terra num estalar de dedos. Eu faço assim — clack! — e você desmonta. Eu faço assim — clack! — e você desaparece. Mas você não desmonta nem desaparece: você é que manda, essa ilusão de poder te mantém. Só que você não existe, como não existe nem importa esse mundo onde você se julga senhor, O outro lado, o outro papo, o outro nível — esses, meu caro, você nunca vai saber sequer que existem. Essa a nossa vingança, sem o menor esforço.

Mais nítido, no entanto, que as ruas sujas de cartazes e panfletos, resta um hexagrama das cores do arco-íris suspenso no centro daquele céu ao fundo da rua que vai dar no mar.

É o único rosto vivo em volta, nunca me engano. Chega devagar, pede licença, sorri, pergunta: “E você acha que aqui também é um deserto de almas?” Não preciso nem olhar em volta para dizer que sim, aqui também. E os desertos, você sabe — sabe? — não param nunca de crescer.

Ah, esses vastos desertos em torno das margens do rio lodoso e tão árido que é incapaz de fertilizá-las. Da barca girando no centro do redemoinho, se você estender a mão sobre as águas escuras e erguer bem a cabeça para olhar ao longe, julgará ver as árvores, além do deserto que circunda o rio.

Entre os galhos dessas árvores, macacos tão enlouquecidos quanto aqueles que invadem tua precária jangada, pobre Aguirre, batem-se os humanos perdidos em seus pequenos jogos que supõem grandes. Para sobrepor-se ao ego dos outros, para repetir: sou eu que mando aqui. Para fingir que a morte não existe, e Deus e o amor sim. Pulando de galho em galho, com seus gestos obscenos e gritinhos histéricos, querendo que enlouqueças também. Os dentes arreganhados, os macacos exercitam o poder. Exercitam o desprezível nos escombros da jangada que gira e gira e gira em torno de si mesma, sempre no mesmo ponto inútil, em direção a coisa alguma, enquanto o tempo passa e tudo vira nada.

Do meu apartamento no milésimo andar, bem no centro da ilha de Java, levanto ao máximo o volume do som para que o agudo solo da guitarra mais heavy arrebente todos os tímpanos, inclusive os meus.
Caio Fernando Abreu (O Estado de S. Paulo, 19/11/1986)

Em cena, o velho Lula de sempre


Com um intervalo de poucas horas entre uma ocasião e outra, Lula, ontem, falou bem e falou mal de Dilma.

Falou bem no discurso que fez para sindicalistas e militantes do PT no Sindicato dos Bancários de São Paulo.

Falou mal no mesmo lugar ao se reunir um pouco antes com um grupo pequeno de seguidores mais ou menos fiéis.

Foi um deles, autorizado pelo próprio Lula, quem saiu dizendo que ele falara mal de Dilma.

Ingrato, esse Lula!

Falar mal de Dilma logo agora que ela cedeu aos seus apelos e nomeou para o Ministério da Educação e para a Secretaria de Comunicação nomes indicados por ele...

Lula envelheceu. E junto com ele seu discurso e seus truques. Aparentemente, ele não se dá conta disso.

Um truque: defendeu a Petrobras, que está sendo atacada por seus inimigos, inimigos do Brasil.

Ora, foi ele que nomeou diretores da empresa que passaram a roubar tão logo assumiram seus cargos. Nos 12 anos de governos do PT, a Petrobras foi dilapidada e perdeu valor de mercado.

Outro truque: Lula se disse “indignado” com a corrupção. Mas se alguém pensou que ele aproveitaria o momento para admitir erros, quebrou a cara.

Corruptos são os outros. Corruptos são “bandidos que passaram a virar heróis” por terem negociado a delação premiada.

O ataque aos “corruptos” mascara a defesa que ele faz dos seus companheiros suspeitos de envolvimento com a roubalheira na Petrobras.

Lula defendeu a reputação de José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras nomeado por ele. Foi cínico para variar:

- Se tem um brasileiro indignado, este sou eu. Quero saber se alguém vai ter coragem de dizer que esse moço esteve envolvido com corrupção. Mas ele conquistou o direito de andar de cabeça erguida – disse, referindo-se a Gabrielli. "Já o bandido pega 40 anos de prisão, vai fazer delação premiada e vira herói. Diz 'ouvi falar', 'eu acho que...' e nem precisa de juiz, a imprensa já condenou."

Mais um truque: creditou em sua própria conta, e também na de Dilma, o esforço de investigação da Polícia Federal, capaz de ir fundo no combate à corrupção.

Ora, a Polícia Federal é um órgão do Estado. Assim como o Ministério Público. Não obedece às ordens do presidente da República. Atua com independência.

Lula sabe disso. Mas não resiste à tentação de manipular os fatos. É de sua natureza.

Sonho de Fidel


Uma das pessoas com quem tive uma enorme decepção depois de vê-lo pela televisão e pelos jornais foi Fidel Castro. Tivemos contato íntimo. Em abril de 1959,fomos a Washington, Nova Iorque, Montreal e ao Brasil, antes de seguirmos para Montevidéu e Buenos Aires. A intimidade de estar num avião para apenas vinte pessoas em companhia de Fidel Castro durante tantos dias me convenceu de que aquele indivíduo era um horror. Era um avião de hélice. Em direção ao Rio, o avião baixou para que víssemos a floresta amazônica. O piloto disse:''Comandante, estamos voando sobre a floresta!''. Eu estava sentado no banco logo atrás de Fidel Castro. O que foi que aconteceu? Fidel ficou olhando a floresta não sei por quanto tempo. De repente, disse: ''Que grande país!''. Eu pensava que era admiração pelo Brasil. Mas ele disse:''Aqui é que deveríamos ter feito a nossa Revolução!''.
Neste momento, entendi que Cuba era pequena para ele. Fidel se achava um líder tão grande que necessitava de um continente; não de uma ilha.
Guillermo Cabrera Infante (1929-2005)

O ABC da corrupção

Um fantasma percorre o sul da América Latina: o fantasma da corrupção. A coordenação fantasiada quando presidentas de tendências políticas afins assumiram o poder na Argentina, no Brasil e no Chile deu lugar a um eixo menos edificante. Cristina Kirchner,Dilma Rousseff e Michelle Bachelet estão envolvidas em escândalos. Como de costume, os desvios morais ganham visibilidade maior quando contrastados com o mal-estar econômico. A prosperidade prometida pelo kirchnerismo, o PT e o socialismo tornou-se muito duvidosa. Antes de alcançar o ideal da república igualitária, as sociedades sul-americanas atolaram nas misérias de uma república desonesta.


O pesadelo do Chile é inesperado. Começou em agosto passado, quando veio à tona que a Penta, um holding financeiro e imobiliário, faturou serviços inexistentes para financiar dirigentes da União Democrática Independente, uma força de direita. Houve derivações surpreendentes. Descobriu-se que a empresa Sociedade Química e Mineira do Chile (Soquimich) tinha fornecido fundos irregulares a alguns parlamentares da Nova Maioria, a aliança de esquerda liderada por Bachelet. Uma conexão escabrosa: a Soquimich pertence ao ex-genro do ditador Augusto Pinochet, Julio Ponce Lerou. A maré chegou até Bachelet quando foi divulgado que Natalia Compagnon recebeu um crédito de 10 milhões de dólares (32 milhões de reais) do Banco do Chile, destinado a comprar terrenos rurais que, depois de uma reavaliação, foram revendidos para uso urbano. Compagnon foi acompanhada por seu marido, Sebastiá Dávalos Bachelet, filho da presidente. Na operação, o casal ganhou cerca de dois milhões de dólares (6,4 milhões de reais).

Dilma Rousseff deve ver esse “nora-gate” como brincadeira de criança quando comparado a seu próprio terremoto: a Petrobras. E um novo buraco negro já se insinua no Ministério da Fazenda. No fim de semana passado, o número de empresários na prisão chegou a 20. A Petrobras não apresenta suas demonstrações financeiras porque isso traria à tona fraudes no valor de 10 bilhões de dólares (32 bilhões e reais). Já há 49 políticos envolvidos, quase todos da aliança governista. A própria presidenta foi atingida: várias empresas suspeitas financiaram sua campanha, e quando ela era ministra do governo Lula, presidiu o conselho de administração da Petrobras.
Leia mais o artigo de Carlos Pagni

Ajuste de Dilma só é bonzinho no Brasil

É uma mensagem clara: se num momento assim, com o movimento sindical dividido, fazemos esta greve, este protesto seria muito mais forte com um ajuste generalizado como o do Brasil. Agora sabem que vão ter que sentar e conversar.
Hugo Moyano é o sindicalista mais conhecido da Argentina. Já liderou quatro greves contra o Governo de Cristina Fernández de Kirchner. Seu filho, Facundo Moyano, secretário-geral do sindicato de pedágios e deputado da oposição, resume o significado da greve atual. Leia mais 

terça-feira, 31 de março de 2015

Dia 31 é dia de gritar

O grande culpado

A grave crise política e econômica na qual o País está mergulhado coloca Dilma Rousseff na berlinda. E não poderia ser diferente. Afinal, ela é a presidente da República e tem demonstrado uma inacreditável inépcia no exercício das funções de primeira mandatária. Mas uma análise conjuntural que amplie o foco de observação da cena política para além dos episódios do dia a dia e se projete sobre os 12 últimos anos expõe à luz o protagonista oculto, o ardiloso responsável maior pela tentativa de reinventar o Brasil – aventura que hoje custa caríssimo para cada um dos brasileiros: Luiz Inácio Lula da Silva.

Uma das conhecidas habilidades políticas de Lula é desaparecer de cena, procurar as sombras, fingir-se de morto para o grande público quando o perigo ronda. Exatamente como está fazendo no momento. Outra é só dizer o que sabe que as pessoas querem ouvir. Faz isso desde os tempos em que frequentava o palanque sindical da Vila Euclides, no ABC. Outra ainda é ser um mestre em salvar aparências, mantendo, além de uma linguagem convenientemente popular, a pose de “homem do povo” que mora num modesto apartamento em São Bernardo, quando passa a maior parte do tempo voando de primeira classe ou em jatos executivos e hospedando-se em hotéis cinco-estrelas ou em mansões de amigos milionários.

Ao longo de mais de 20 anos na oposição “a tudo o que está aí”, Lula conduziu o PT na tentativa de impedir a aprovação, entre outras, de iniciativas de importância histórica como a Constituição de 1988, o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal, o programa de desestatização da telefonia que permitiu que praticamente todos os brasileiros disponham hoje de um telefone celular. E, depois de perder três eleições presidenciais consecutivas, chegou à conclusão de que precisava abandonar as velhas bandeiras para conquistar o poder, chegando ao Palácio do Planalto em 2003 graças à profissão de fé liberal contida na oportunista Carta aos Brasileiros.

Leia mais o editorial do Estadão
Diante da impossibilidade de um terceiro mandato, Lula tratou de selecionar a dedo seu sucessor. Dilma, a “gerentona”, a “mãe do PAC”, parecia a escolha perfeita. Mas já no primeiro ano de governo ela teve um assomo de autossuficiência ao promover uma “faxina” no Ministério que em boa parte herdara de seu mentor. Desde então Lula vem tendo dificuldades cada vez maiores para controlar a pupila. Foram quatro anos de dilapidação, não só da economia nacional, mas principalmente da moral e dos bons costumes na Administração Pública e na política. Essa razzia se deve à ação e omissão de Dilma. Mas quem armou o projeto de poder baseado na imoralidade e escalou a sucessora foi Lula. Cabe-lhe, portanto, prioritariamente, a culpa por “tudo o que está aí”.