terça-feira, 29 de setembro de 2020

Nada como uma teoriazinha da conspiração

Antes de mais não nos deixemos impressionar pelo fenómeno, que não é novo e já foi mais intenso no passado, embora a sua difusão seja hoje muito mais rápida e universal, dados os avanços verificados nas tecnologias de comunicação e informação. Joseph Uscinski e Joseph Parent (American Conspiracy Theories, 2014) analisaram as cartas dos leitores recebidas pelo “The New York Times” e o “Chicago Tribune” durante 121 anos e chegaram à conclusão de que, de facto, actualmente não há mais volume de alusões a teorias da conspiração. Pelo contrário, elas parecem até ter diminuído em finais do século passado, mas sempre existiram. Basta uma simples pesquisa no Google para dar de caras com umas quantas.

Mas a diferença essencial com que o mundo se depara hoje é que Donald Trump tem uma mentalidade conspirativa e utiliza-as não apenas para provocar desinformação geral, mas sobretudo a fim de intoxicar a sua base de apoio eleitoral. Por exemplo, Trump andou a proclamar aos quatro ventos que Barack Obama não tinha nascido nos EUA e que, portanto, estaria a usurpar a Casa Branca, pois nunca poderia ser presidente por não ser cidadão americano. Em 2015, sessenta por cento dos apoiantes do actual presidente não só estavam convencidos disso, como acreditavam no boato de que Obama era muçulmano.

Inconformados com as críticas à catastrófica gestão da epidemia pela administração Trump, Bill Gates tornou-se um dos alvos preferenciais das teorias da conspiração sobre o coronavírus, sendo acusado de ter criado o vírus para ganhar dinheiro e poder controlar digitalmente os seres humanos em todo o mundo. De acordo com a imprensa, só entre Fevereiro e Abril, surgiram 1,2 milhões de referências a tais disparates nas redes sociais (no Facebook: 16 mil) e na televisão. Chegaram a somar 18 mil menções diárias, havendo mesmo quem apele à morte do fundador da Apple.



Outra teoria popular é que as torres 5G estão a propagar a COVID-19. Ou que indivíduos armados entraram numa pizzaria para salvar crianças de um esquema de tráfico sexual organizado por Hillary Clinton. Os movimentos anti-vacinas baseiam-se igualmente neste tipo de teorias conspiratórias, tal como sobre o vírus: “Os técnicos de saúde não percebem nada disto, as estatísticas estão manipuladas, os economistas são ignorantes e os jornalistas escondem as notícias.” Nancy Rosenblum diz mesmo que este fenómeno se insere “especificamente na deslegitimação da democracia, ao atacar as ideias de oposição leal, que é o coração da política democrática, e a necessidade de conhecimento para governar. Os conspiradores não têm interesse em governar. Esse facto precisa de ser sublinhado. O conspiracionismo tem tudo a ver com derrotar os inimigos e é, por vezes, apocalíptico.”

Como é que chegámos aqui? A luta contra o conhecimento foi potenciada pela internet e o crescimento exponencial das redes sociais, abrindo caminho a que qualquer ignorante explane aí ideias estrambólicas e até, eventualmente, delírios desenvolvidos por doentes mentais anónimos. De resto, muitas das ideias disseminadas nas redes parecem saídas da cabeça de indivíduos em situação de ruptura psicótica.

Mas o campo religioso não fica imune ao fenómeno, que também apresenta as suas teorias da conspiração. O próprio Jesus Cristo foi alvo de um fenómeno semelhante por parte dos seus adversários religiosos na época. Acusaram o filho de Deus de estar possesso por um demónio (“A multidão respondeu, e disse: Tens demônio; quem procura matar-te?” João 7:20), e também de ter pactos com Belzebú (“E estava ele expulsando um demônio, o qual era mudo. E aconteceu que, saindo o demônio, o mudo falou; e maravilhou-se a multidão. Mas alguns deles diziam: Ele expulsa os demônios por Belzebu, príncipe dos demónios”, Lucas 11:14,15).

Como o meio religioso constitui também uma representação da sociedade em geral, é compreensível que também aqui surjam comportamentos bizarros e ideias estranhas, potenciados pelo substracto espiritual e transcendental que lhe é peculiar. Por isso este é um campo fértil para as teorias da conspiração, onde qualquer ideia plantada pode assumir dimensões inimagináveis. Veja-se o caso emblemático do terraplanismo.

Nunca houve tanta informação disponível e nunca a ciência esteve tão desenvolvida, mas parece que o mundo está cada vez mais estúpido e intoxicado. Basta olhar para a qualidade dos governantes um pouco por todo o mundo. Talvez por isso, e pela primeira vez em 175 anos de existência, a Scientific American anunciou apoiar uma candidatura à Casa Branca, neste caso o democrata Joe Biden, pelo facto de Trump ter dado uma “resposta desonesta e inepta à pandemia covid-19”, mas também pela sua insistência em negar a realidade, uma vez que “obstruiu os preparativos dos EUA para a mudança climática, alegando falsamente que isso não existe”, retirando-se dos acordos internacionais que procuravam limitar o seu impacto.

A verdade anda a tornar-se um produto cada vez mais caro.

Imbróglio ambiental

A questão ambiental tornou-se uma espécie de faroeste, com mocinhos e bandidos se enfrentando. Os “mocinhos” de ocasião são os ambientalistas, por mais que suas diferenças internas sejam grandes, alguns com históricos esquerdistas, alinhados agora com banqueiros. Os “bandidos” são a agricultura, a pecuária e o agronegócio em geral, como se eles fossem os responsáveis pelo desmatamento, quando são alheios em suas atividades ao que lá acontece, embora haja irresponsáveis nesse campo. A realidade é muito mais multifacetada.

Convém lembrar que o Brasil é um dos países mais preservacionistas do planeta, com cobertura de mata nativa em torno de 64% de seu território. São dados tanto da Embrapa quanto da Nasa, algo que não deveria ser contaminado por discussões ideológicas, expondo um grau de conservação ambiental ímpar em termos mundiais. No caso da Amazônia, os proprietários rurais são obrigados, por conta própria, a preservar 80% de sua área, graças ao instituto da reserva legal, exemplo único no mundo. Qual dos países europeus, que tanto criticam o Brasil, pode ostentar tal grau de preservação? Por que não importam o instituto da reserva legal?

Além do mais, o desmatamento anterior, se é que podemos utilizar esse nome, se deve à abertura de áreas para a agricultura e a pecuária, ou seja, para a produção de alimentos. Ou a humanidade não deverá doravante se alimentar? O Brasil, graças ao investimento em ciência e tecnologia e ao empreendedorismo dos produtores rurais, tornou-se um campeão da produção mundial de alimentos. A área cultivada do País cresce muito menos do que a sua produtividade, o que faz que o mundo hoje dependa da produção nacional de alimentos. E frise-se, isso nada tem que ver com a Amazônia, a produção concentra-se no Centro-Oeste, no Sudeste e no Sul. O que se exporta não é cultivado na Amazônia, salvo exceções, em áreas regularizadas.


Dito isto, a política governamental tem sido um desastre. Como disse o próprio presidente Bolsonaro, a comunicação é péssima, de onde logicamente deveria extrair a conclusão de uma mudança completa nessa área. Uma medida muito acertada foi a criação do Conselho da Amazônia, sob a coordenação do general Hamilton Mourão, pessoa inteligente e com compreensão do problema, capaz de estabelecer diálogos com ONGs e governos estrangeiros. A pauta deveria ser o diálogo. Acontece que o confronto continua a ser a regra do atual governo, embora tenha havido algum apaziguamento.

O governo tem sido, sim, omisso na questão ambiental, ora negligenciando-a, ora compactuando com garimpeiros, ora não supervisionando, ora criticando instituições científicas de monitoramento. Tampouco é de valia um ataque sistemático a governos estrangeiros e ONGs, piorando ainda mais a imagem nacional e criando obstáculos à vinda de investimentos. Se o Brasil está se tornando uma espécie de pária na cena internacional, isso se deve à política conduzida. Quando se erra, pede-se desculpa e não se persevera no erro.

Tampouco adianta os ambientalistas se oporem à regularização fundiária, quanto mais não seja pelo fato de a recusa perpetuar um status quo que é muito ruim. O Brasil dispõe de instrumentos para isso, graças ao Cadastro Ambiental Rural e ao Código Florestal, que podem ser amplamente utilizados e, se for o caso, aprimorados. O setor rural está também pronto para esse tipo de negociação, que deveria ser feito sem preconceitos e em espírito de diálogo. Fincar pé em posições intransigentes não interessa a ninguém. Se não houver regularização fundiária, não haverá responsabilização dos desmatamentos ilegais numa área superior à da Europa.

Evidentemente, não se pode fazer tudo in loco, é necessária a utilização de meios digitais. O Incra e o Ministério da Agricultura podem realizar essa tarefa. Responsabilizar implica reconhecer a propriedade, e não apenas uma posse eventual, que pode facilmente iludir a lei.

A mobilização da sociedade civil em prol do meio ambiente é uma expressão da modernização do País, embora haja muitas pedras pelo caminho, com boas intenções podendo ser apropriadas pelo “demo”. Uma delas é a defesa repentina da questão ambiental pelos bancos. De um lado, deve ser bem-vinda por exprimir uma pauta de interesse coletivo; de outro, deixa um problema fundamental em aberto. Estabelecerão eles “critérios” ambientais para a concessão de créditos agrícolas? Quem os elaborará? ONGs com vinculações com países e governos europeus? Essa experiência já foi tentada no governo Lula – que recuou logo depois –, com o Banco do Brasil elaborando critérios “sociais” para a concessão de crédito com o apoio do MST e de entidades empresariais. Por exemplo, algumas das ONGs operando no Brasil tiveram ou têm esse tipo de relação como a Oxfam, com o MST, o Instituto Socioambiental, a National Farmers Association – a que produziu o célebre documento Farmers here, forests there – e a Salvation. E ainda com entidades indigenistas, como o Conselho Indigenista Missionário, e com a Teologia da Libertação, ala esquerdista da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Salles passou outra boiada

O inferno ecológico do Brasil não se limita às queimadas na Amazônia e no Pantanal. Ontem o Conselho Nacional do Meio Ambiente revogou regras que protegiam manguezais, restingas e reservatórios de água. “Foi um descalabro”, resume a procuradora Fátima Borghi, que representou o Ministério Público Federal na reunião.

O Conama é presidido por Ricardo Salles, o ministro que prometeu aproveitar a pandemia para “ir passando a boiada” sobre a legislação ambiental. Sob o comando dele, o conselho derrubou quatro resoluções que vigoravam desde o governo Fernando Henrique Cardoso.


Salles não teve dificuldades para tocar o gado. No ano passado, um decreto de Jair Bolsonaro alterou a composição do Conama. O órgão tinha 96 integrantes e passou a ter apenas 23. O objetivo da mudança foi reduzir a participação da sociedade civil e ampliar a maioria do governo nas votações.

Mutilado, o conselho se tornou um carimbador das vontades do Planalto. Ontem suas decisões beneficiaram o setor hoteleiro e a especulação imobiliária, que pressionavam para construir condomínios e resorts em áreas protegidas.

“As regras do Conama não podem ser revogadas ao bel-prazer do governo, sem estudos prévios. Os conselheiros votaram sem levar em consideração as inconstitucionalidades que apontei. Estão acabando com tudo”, lamenta a procuradora Borghi.

Esta não é a primeira boiada que o antiministro consegue passar na pandemia. Em abril, ele anistiou desmatadores da Mata Atlântica e demitiu um diretor do Ibama que combatia a mineração ilegal. Em agosto, organizou um voo de garimpeiros em jatinho da FAB.

A Justiça poderia freá-lo, mas tem se recusado a fechar a porteira. Uma ação contra as mudanças no Conama repousa há mais de um ano no gabinete da ministra Rosa Weber. Em outro processo, o Ministério Público pediu ontem que Salles seja afastado do cargo. Os procuradores afirmam que sua permanência pode produzir danos irreversíveis à Amazônica. Pelo que se viu até aqui, não parece exagero.

Um presente envenenado da mãe natureza

Vivemos em tempos de exaltação da natureza. As catástrofes ambientais e climáticas produzidas pela voracidade humana e um modelo de progresso baseado no crescimento perpétuo persuadem cada vez mais gente a olhar para trás, para tempos remotos e legendários em que o Homo sapiens e o planeta que o viu nascer coexistiam em paz e harmonia em um paraíso terreno perfeito. O rótulo de “natural” e seus acólitos —bio, eco, orgânico, macrobiótico, detox— se tornou uma estratégia de marketing vencedora, apesar de ninguém saber muito bem o que esses adjetivos pomposos significam. Nossa única fuga, dizem os novos teólogos panteístas, é retornar àquele estado primigênio e impoluto de conexão íntima com a mãe Terra. Mas a natureza também nos deu a covid-19, um presente envenenado que, pela primeira vez, não merecíamos.

Steven Pinker costumava dizer que o mais pernicioso dos psicopatas pode assassinar 10 ou 20 pessoas, mas que para matar um milhão a psicopatia não é suficiente: também é preciso ideologia. Ele se referia a Hitler e Stalin, dois psicopatas assassinos não diagnosticados. Mas desta vez não precisamos da receita de Pinker para matar um milhão de pessoas. Bastou-nos o SARS-CoV-2, a última invenção nociva da mãe natureza “vermelha em dente e garra”, segundo a crua descrição de Tennyson. Foi também a natureza, o Deus dos panteístas, que criou a peste, a varíola, a gripe espanhola, a AIDS e as doenças genéticas, para citar outros exemplos marcantes. E a única ferramenta que temos contra a covid-19 é inteiramente um artifício do engenho humano, a ciência. A realidade não se ajusta às doutrinas teológicas.



Um milhão de mortos. Isso se diz rapidamente. Há poucos meses, essas pessoas viviam suas vidas angustiadas pela artrite, a hipoteca ou o desemprego, talvez afligidas por uma biografia sem muito sentido, talvez contentes por seus privilégios, eufóricas ou desesperadas. O que poucos esperavam é que um vírus iria matá-las, um mero punhado de átomos sem religião ou ideologia, um quase nada que só existe pelo mero fato de que pode existir, de que a física e a biologia o tornam possível, e que apesar de tudo matou um milhão de pessoas com uma eficácia portentosa e perturbadora. Parece incrível.

E exatamente isso, não acreditar, foi o que quase todo mundo fez em dezembro, e em janeiro, e em fevereiro e até bem entrado março. Digo “quase todo mundo” porque os virologistas, epidemiologistas e outros cientistas especializados vinham nos alertando há décadas que isso, ou algo muito parecido com isso, iria acontecer mais cedo ou mais tarde. É verdade que ninguém podia saber a data exata ou o vírus específico que causaria a próxima pandemia. O principal suspeito, na verdade, não era um coronavírus, mas um vírus de gripe, e havia boas razões para isso. A chamada gripe espanhola de 1918 matou 50 milhões de pessoas –mais do que a Grande Guerra que terminou naquele mesmo ano– e houve duas outras pandemias de gripe no século 20, embora não tão graves. O açougueiro acabou sendo finalmente um coronavírus, primo do SARS de 2002 (agora renomeado SARS-CoV-1), que era 10 vezes mais mortal do que o atual SARS-CoV-2, mas se propagava muito menos.

Poucos políticos que estavam no cargo em janeiro de 2020 deviam se lembrar daquele acontecimento de 18 anos atrás, não falemos da gripe espanhola de 1918, porque o fato é que os Governos ocidentais se fizeram de desentendidos diante dos alertas que emanavam de Wuhan, China, silenciados inicialmente por Pequim, mas logo apoiados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Quando a Itália já estava afetada a não mais poder, em Bruxelas continuavam discutindo sobre o 5G e a ética das redes sociais. Os Governos, incluindo o espanhol, começaram minimizando os riscos para o Ocidente, jogaram a experiência chinesa na gaveta de assuntos irrelevantes e a trancaram. Pouco depois se revelou o grande erro que isso significava. Um erro tão grande que pode ser medido em vidas humanas.

É possível que os políticos aprendam alguma vez que seu trabalho consiste em se colocar a serviço dos cidadãos. Até agora só aprenderam a dizer isso, não a fazer. Tivemos que suportar nesses meses alguns espetáculos vergonhosos, impertinentes e cansativos oferecidos por nossos governantes, diatribes tão desafinadas que dois segundos de escuta bastam para desligar a tela. Menção à parte merece a estupidez dos dois nacionalismos mais empedernidos na Espanha, o catalão e o madrilenho, que preferem antes ver o colapso dos seus sistemas de saúde pública do que admitir que precisam da ajuda do Governo e do resto das comunidades autônomas. Suas mentiras fazem corar de tão evidentes, exceto seus acólitos que vivem trancados em câmaras de eco, onde só ouvem o que querem ouvir. Olhar para outros países não melhora muito o quadro.

Também dá pena o nacionalismo em torno das vacinas, segundo o qual cada pedaço do mundo luta por suas doses com orelheiras tão espessas que os impedem de ver até mesmo seus vizinhos mais próximos. Dão pena os antivacinas, conscienciosamente desinformados por xamãs e vigaristas, e que nesse ritmo constituirão um sério obstáculo às campanhas de imunização. Dão pena os líderes que se gabam do poderio de sua saúde pública enquanto cortam seus recursos e a jugulam. Mas um milhão de pessoas morreram e, por enquanto, nossa dor deve ser reservada a elas. Que massacre. Que horror.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Digitax uma ova!

Por duas vezes em menos de um mês o presidente Jair Bolsonaro detonou as ideias de sua equipe econômica para atendê-lo na criação de um substituto mais generoso para o Bolsa Família, batizado de Renda Brasil. “Não posso tirar dos pobres para dar para os paupérrimos”, esbravejou, indignado. Na mesma semana em que reprisou a frase de efeito, avalizou a reencarnação da CPMF, ressuscitada como Digitax. Optou por tirar também dos paupérrimos para perenizar o dinheiro na veia que inflou sua popularidade.

Muda-se o nome, com marquetagem anglicista (fala-se digitéx ou digitáx?), mantém-se o conteúdo: não passa do velho e famigerado imposto do cheque.

O ministro Paulo Guedes sabe desde sempre e Bolsonaro também – que não existe espaço no orçamento para criar despesas. Mal, mal, será possível fechar os próximos anos com déficits administráveis. Os planos A, B e C para aumentar o número de beneficiados e o valor do Bolsa Família e com isso reduzir o impacto do fim do auxílio emergencial sempre foram o imposto sobre transações financeiras, agora com a pegada pseudo-moderninha de operações digitais.

Como as resistências a esse tipo de imposto são gigantescas, o que se fez foi enfiar chifrudíssimos bodes na sala, permitir que o presidente os afugentasse e, por fim, apresentar uma proposta que possa parecer mais amena.


Em meados de agosto, um estudo da equipe econômica dava conta de que o Renda Brasil poderia ser financiado com o fim do abono salarial, do salário-família, do seguro-defeso e da farmácia popular. Era previsível a grita contrária por se tratar de programas sociais de peso. Bolsonaro escolheu um evento em Minas, com as ensaiadas aglomerações, para defender os paupérrimos e suspender qualquer debate sobre o tema.

No dia 15 de setembro, novamente travestido de defensor dos pobres, voltou a rechaçar a área técnica do Ministério da Economia que, malvada, propunha congelar aposentadorias, benefícios de idosos e de deficientes. “Até 2022, no meu governo, está proibido falar a palavra (sic) Renda Brasil. Vamos continuar com o Bolsa Família e ponto final”, assegurou.

O apalavrado, como de resto tudo que Bolsonaro diz, não durou um único dia. Em menos de 24 horas seus fiéis no Congresso já trabalhavam em uma proposta “alternativa”, e Guedes aparecia com o Digitax. Difícil crer que tudo não passou de jogo combinado.

Como deputado, Bolsonaro sempre execrou a CPMF. Taxou-a de “proposta insana”, que só beneficiava o andar de cima da sociedade. “Com toda certeza a agiotagem passou a noite ‘bebemorando’ essa desgraça aprovada por esta Casa”, disse em 1999, diante da renovação da contribuição pelo Congresso.

Chegou a sugerir, em 2003, que fosse feita uma pesquisa para confirmar a impopularidade do imposto “no mínimo mostrará que 90% são favoráveis ao fim da CPMF”. E voltou a rechaçar a cobrança em 2015, quando o então ministro Joaquim Levy pensou em recriá-la.

Agora, suas críticas são só da boca para fora. Está claríssimo que é zero a sua disposição de abrir mão da aprovação popular conquistada velozmente com o auxílio emergencial, que já teve de ser diminuído pela metade neste mês e acaba em dezembro.

Costumeiro em se fazer de vítima – e com sucesso -, Bolsonaro não deve se tornar um defensor da Digitax. Dirá que não queria o imposto, que resistiu o quanto pode. Mas que era a única saída para auxiliar os desassistidos, desonerar a folha de pagamentos, gerar emprego, fazer o Brasil crescer e blá-blá-blá.

Por óbvio, esconderá que o imposto linear é uma alternativa preguiçosa e rentabilíssima. Cruel com os mais pobres, que entram na roda com a mesma alíquota dos que têm regalias bancárias, não raro, atrativos pacotes de isenção.

Sob a falácia de proteger os necessitados, incluirá na conta desempregados, informais, pobres e paupérrimos, estimulados pelo próprio governo a aderir à economia digital para receber benefícios, portanto, sujeitos à taxação.

“É um imposto regressivo, cumulativo, inflacionário e mais uma carga para os nossos equipamentos produtivos, para o bolso dos trabalhadores e do nosso povo”. Assim disse Bolsonaro, quando se opunha ao governo da vez. Argumentos 100% válidos.

Acertou lá para errar aqui. Pelos mesmos motivos: seus interesses eleitorais, seu umbigo.

Brasil de lama

 


Nonsense no governo Bolsonaro comanda e sufoca todo resquício de gravidade

Um riso mal contido, pode ser, talvez envergonhado. Como na extravagância de alguns tombos, sobretudo os vistos. E é disso mesmo que se trata: cenas patéticas de um tombo, o deste país.

O Brasil a ameaçar de represália os grandes países que sustem importações de produtos brasileiros, em reação à sanha destruidora na Amazônia. Cada grão de soja e grama de carne que deixem de importar é um rombo na economia bolsonara. E logo quem a propalar a ameaça, o general Heleno, não propriamente do alto de sua lucidez.

Fiel ao sentimento de que o cinismo não tem limite, nem para traição à memória de seus ídolos torturadores e matadores, Bolsonaro a dizer à ONU que “a liberdade é o bem maior da humanidade”. Depois de atribuir a interesses internacionais na riqueza da Amazônia uma campanha para “prejudicar o governo e o próprio Brasil”. No que foi corrigido pelo general Heleno, que, a partir do nível um tanto prejudicado da sua visão do mundo, identificou outra motivação etérea do mundo: é uma “campanha internacional para derrubar Bolsonaro”.


Tamanho nonsense sufoca todo resquício de gravidade que se queira atribuir-lhe, consideradas as responsabilidades funcionais dos emitentes. O possível é apenas sondar os traços anedóticos que lhe dão forma e grotesco. E rir.

Acima e abaixo dos delírios, o problema é que os militares influentes do Exército não compreenderam que a Amazônia é um amálgama de características de flora e de fauna, geológicas, climáticas, fluviais e pluviais, todas em mútua dependência. E que a entrega desse mundo de peculiaridades interligadas à exploração humana resultará, é inevitável, em que não será mais a Amazônia.

Da mata atlântica, por exemplo, restam no máximo 16%, em estimativa otimista. Do Nordeste ao Sul, por toda a costa e por entradas até o interior profundo, o que há são terras descascadas, depauperadas, ocupadas do modo mais desordenado. Cidades em que tudo se amontoa com vastidões vazias em torno. Poluição, agravamentos climáticos —é a realidade que tomou o lugar da mata atlântica. Assim seria com a entrega da Amazônia à exploração humana: não mais Amazônia.

A “exploração racional e planejada” é balela. Iniciado o processo, será o mesmo de sempre. Os aldeamentos logo se transformam em vilas, daí em cidades, a necessidade de infraestrutura e mais exploração transformam mais áreas, e assim em sucessivas destruições ambientais. A entrega da Amazônia à exploração industrial terá, porém, consequências climáticas muito maiores no Brasil todo, e por extensão no mundo, do que o miserável fim da Mata Atlântica.

Apesar disso, a ocupação da Amazônia é uma tese dita estratégica dos militares do Exército. Ricardo Galvão, cientista e ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, desmontou o argumento do vice Hamilton Mourão para criação de uma agência para concentrar todos os monitoramentos da Amazônia. Uma agência sob controle militar. “Como o norte-americano NRO” é um argumento aqui muito forte. Mas errado, se de boa ou má-fé, fica por clarear. A verdade é que o NRO está proibido de atuar no território dos EUA. E o monitoramento por lá é civil.

Mas a agência militarizada seria apenas a porta-estandarte do Exército. Atrás viria o que consiste no projeto real: não só o monitoramento, mas o controle absoluto da Amazônia pelo Exército. Um grande território militar, sonhado como o meio eficaz de neutralizar a presumida ganância de uma ou de outra potência sobre a posse da Amazônia. Até décadas recentes, e por muito tempo, o delírio era a guerra inevitável com a Argentina —motivo até de promoção a general por mérito de planejamentos, como foi o caso do último algoz de João Goulart, o seu amigo Amaury Kruel. No mapa, da Argentina para a Amazônia são centímetros possíveis.

Enquanto o nonsense comanda, o fogo está autorizado a antecipar o serviço.

Brasil, a potência agrícola onde a fome aumenta

Depois de mais de uma década em declínio, a fome voltou a crescer e já faz parte do cotidiano de 10,2 milhões de brasileiros, ou 5% da população, constatou o IBGE em pesquisa divulgada na semana passada. O aumento na insegurança alimentar das famílias mais pobres é uma das sequelas do longo ciclo recessivo na economia, iniciado em 2014, agravado na pandemia pela alta do desemprego e do trabalho informal. 

Os dados coletados em 58 mil domicílios sugerem um enorme retrocesso nas condições mais básicas de vida na pobreza: o retorno ao quadro existente década e meia atrás. Reforçam, também, evidências da expansão das desigualdades. A escassez de alimentos para subsistência ocorre com maior frequência nas famílias chefiadas por negros. Crianças e adolescentes são afetados desproporcionalmente. 


É situação gravíssima, absolutamente incompatível com a posição do Brasil como potência global na produção de alimentos. Merece ação governamental urgente, concentrada nos núcleos familiares mais fragilizados das regiões Norte (10,2% dos domicílios pesquisados), Nordeste (7,1%), Sudeste (2,9%) e Sul (2,2%).

O governo Jair Bolsonaro, como de costume, prefere a realidade paralela. Simplesmente abstraiu o aumento da insegurança alimentar e resolveu dar prioridade à discussão sobre as mudanças nas diretrizes do Ministério da Saúde para a indústria de alimentos. 

Na semana passada, o Ministério da Agricultura sugeriu mudar normas para suprimir das embalagens uma sensata orientação de saúde pública: “Evite alimentos ultraprocessados”. Argumentou que tais alimentos “são feitos industrialmente de forma semelhante a preparações culinárias caseiras”. 

Cientistas das universidades de São Paulo, Harvard, Johns Hopkins, Yale e Cambridge, entre outras, reagiram com ironia. Disseram não entender por que a Agricultura esquecera o impacto negativo comprovado na saúde pública de ultraprocessados como biscoitos, embutidos ou bebidas açucaradas. Diante da péssima repercussão, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, anunciou na sexta-feira uma mudança de posição, reconhecendo que nutrição é problema de saúde pública. Conveniente, mas perda de tempo. 

É legítimo que o governo planeje aperfeiçoar o código alimentar. Mas precisa se submeter ao debate no fórum adequado, o Congresso, onde já existe uma dezena de projetos de lei em tramitação sobre o assunto.

Urgente e prioritária é a necessidade de mobilizar toda a estrutura do governo federal para, com estados e municípios, resgatar a população pobre atingida pela forma mais aguda de insegurança alimentar. É inconcebível que haja fome num país que acumula recordes mundiais sucessivos na produção e exportação de proteínas e de produtos agrícolas — e o governo perca tempo ressuscitando debates que a ciência já resolveu.

As pandoras da pandemia

No início de abril, quando a cidade de Nova York estava quase totalmente paralisada, ouvia as sirenes das ambulâncias dia e noite. Lia as notícias de que caminhões frigoríficos tinham sido trazidos para alojar as centenas de cadáveres que saíam dos hospitais todos os dias. Lia sobre os coveiros que não davam conta de enterrar os corpos. Pensava em todas as pessoas que choravam seus mortos, por causa de um vírus completamente indiferente à sua dor.

Naquela mesma semana, o New England Journal of Medicine publicou um ensaio intitulado Fuga da Caixa de Pandora. O epidemiologista David Morens e seus colegas usaram o mito grego da primeira mulher que abriu sua caixa e deixou sair as doenças, a morte e outras desgraças para o mundo como uma apropriada analogia para a pandemia. “Devemos estar cientes” —escreveram— “de que neste mundo superpovoado de 7,8 bilhões de pessoas a mistura de comportamentos humanos alterados, mudanças ambientais e mecanismos de saúde pública insuficientes em todo o mundo podem facilmente fazer com que vírus animais desconhecidos se transformem em ameaças existenciais aos seres humanos”. Em outras palavras, há motivos para temer que outros vírus zoonóticos passem silenciosamente, invisíveis, de outras espécies para a nossa. “Oxalá” —disseram— “possamos colocar os demônios de volta na caixa”.

Estamos em setembro. Demônios continuam voando por todas as partes. Nos Estados Unidos, mas não só aqui, a trajetória do vírus dependeu muito das histórias contadas sobre ele, muitas delas fictícias.



Todas as culturas humanas criam narrativas para explicar por que as coisas são como são. No mito original contado pelo poeta grego Hesíodo, Zeus fica furioso porque Prometeu roubou o fogo dos deuses e então ordena a criação da mulher, “um belo mal”, como punição por esse crime. O sofrimento humano tem uma causa, que assume a forma de uma mulher atraente, insidiosa e malévola. A pandemia se tornou um terreno fértil para histórias que apresentam a transmissão cega de um vírus como um malvado plano humano. O Pew Research Center descobriu que 71% dos adultos nos Estados Unidos conhecem a teoria de que vários personagens poderosos colocaram deliberadamente em circulação o vírus SARS-CoV-2. Um terço dos entrevistados respondeu que a história era “provavelmente” ou “indubitavelmente” verdadeira.

O número oficial de mortos nos Estados Unidos —que certamente é menor do que o real— supera os 200.000.

Neste momento Nova York é um oásis. Em 8 de abril, 700 pessoas morreram de covid-19. Em 18 de setembro, morreram duas. Depois de uma terrível primavera em que estava adormecida, exceto as ambulâncias, a cidade foi despertando aos poucos. O tráfego está de volta. As sirenes recuperaram o ritmo de sempre, mas não podemos comer dentro de um restaurante e o início do ano letivo nas escolas foi cheio de dificuldades. No meu bairro, quase todo mundo usa máscara, embora às vezes eu as veja abaixo do queixo ou com o nariz de fora. Porém, no conjunto do país, a máscara não está generalizada, longe disso. Andar com o rosto descoberto é uma declaração política, um sinal visível da história que aquela pessoa decidiu acreditar.

Nos comícios de Trump, as multidões sem máscaras o aclamam enquanto ele sorri e expressa ruidosamente sua aprovação. Milhões de norte-americanos estão convencidos de que o vírus é uma “fraude” ou que o número de mortes foi exagerado. Circulam, com a ajuda do presidente, teorias da conspiração que falam do “Estado profundo”. Na Internet é vendida uma máscara que exibe a frase: “Isto parece uma simples máscara, mas na realidade é parte de uma vasta conspiração dos progressistas e da China para destruir os Estados Unidos e derrocar o homem branco”. Quando a vi acabei rindo, mas é um humor sinistro. Algumas teorias da conspiração são mais bizarras do que outras, e os Estados Unidos não são o único país em que circulam. A ironia é que também são letais. Ninguém sabe exatamente quantos seguidores de Trump contraíram a doença ou morreram depois de seus comícios. A única coisa que sabemos é que o número de casos nessas regiões aumentou imediatamente depois.

Os seres humanos são vítimas das ficções coletivas que difundem. Os cientistas usaram o antigo mito de Pandora para ilustrar os perigos provocados por um planeta em rápida transformação. Não acredito que estivessem pensando na misoginia descarada da história, mas o ódio às mulheres, como o ódio aos negros e aos pardos, aos imigrantes, aos judeus, às comunidades LGBT e às elites urbanas, favoreceu a propagação da covid-19 nos Estados Unidos. Muitos Estados se recusaram a tomar precauções razoáveis. Depois do confinamento, as lojas e os negócios abriram cedo demais. Não exigiram máscaras nem medidas de distanciamento. Eram bravatas republicanas dirigidas ao medo da castração. “Representa a submissão”, disse um homem à jornalista Brie Anna Frank a propósito da máscara. “É colocar uma mordaça, mostrar fraqueza, especialmente para os homens”.

O cientista político Tyler T. Reny investigou as regras masculinas e o coronavírus em um ensaio publicado em julho. Sua conclusão é que as ideias sexistas “são, repetidamente, o indicador mais confiável de emoções, comportamentos e atitudes políticas relacionadas ao coronavírus e inclusive da probabilidade de contrair covid-19”. “Este estudo”, escreve, “destaca que a ideologia de gênero pode afetar a saúde e ser um obstáculo para as campanhas oficiais de saúde pública.” Outros ensaios oferecem diferentes pontos de vista. Nos Estados Unidos, o maior indicador da probabilidade de contrair o vírus e, principalmente, de morrer devido a ele, é a pobreza. A pandemia ressaltou as desigualdades de um sistema de saúde privado baseado nos lucros empresariais e o racismo inerente a ele.

Costuma-se pensar que a biologia é uma realidade fixa, diferenciada de nossa psicologia e dos mundos sociais em que vivemos. Temos coração, pulmões, fígado e cérebro que, às vezes, sofrem avarias. Vamos ao médico para resolver o problema, mas nem sempre tem remédio. Morremos. Nossas conversas com outras pessoas e nossas opiniões políticas estão separadas de nossos corpos, são aéreas e imateriais. Mas a pandemia nos mostrou que essas divisões são falsas. Não é possível separar o biológico, o psicológico e o sociológico. As circunstâncias sociais e as narrativas políticas estão intimamente ligadas à epidemia em geral. O ódio e as desigualdades influenciam a saúde. O sistema imunológico é muito sensível ao estresse e, se sofre tensões contínuas, pode modificar a expressão gênica e provocar uma inflamação que, com o tempo, tem efeitos prejudiciais para a pessoa. O racismo é um fator de estresse e seu impacto está sendo estudado. Olusola Aijore e April Thames publicaram em agosto um artigo sobre esse assunto na revista Brain, Behavior, and Immunity: O Incêndio Nesta Ocasião: A Tensão do Racismo, a Inflamação e a Covid-19.

As pessoas que acreditam na ciência olham assombradas para as extravagantes teorias de extrema direita que se espalharam em todo o mundo, sobre planos sinistros em que frequentemente aparecem Outros que servem como bodes expiatórios: a mulher, Hillary Clinton, o homem negro, Barack Obama, e o judeu, George Soros, três pessoas às quais foram enviados pacotes com bombas em 2018. Os três fazem parte da mitologia de Trump há muito tempo: Hillary Clinton é uma criminosa, “Hillary, a corrupta”, Obama não é norte-americano e nasceu no Quênia, e Soros paga os manifestantes do Black Lives Matter para que protestem. Cuidado, as coisas não são o que parecem. A verdade está escondida e é terrível. Por trás do belo exterior de Pandora reside o mal. O QAanon atraiu um grande número de seguidores com sua história sobre progressistas pedófilos, malignos e poderosos que escravizam crianças. A grande imprensa é rápida em apontar que “os fatos” não sustentam essas mentiras, mas tenho a impressão de que os crentes não se importam com isso. O que normalmente não se destaca é que existe gente poderosa que tramou conspirações verdadeiras contra uma população desprevenida.

As companhias de tabaco e farmacêuticas estão acostumadas a censurar os estudos que as prejudicam para aumentar seus lucros. A história dos Estados Unidos está cheia de estudos médicos abusivos, alguns realizados em segredo. Em 1941, um grupo de virologistas, entre os quais estavam Thomas Francis e Jonas Salk, inoculou o vírus da gripe em pacientes de centros de saúde mental em Michigan, sem seu conhecimento. Ninguém morreu, mas foi uma questão de pura sorte. Entre 1946 e 1948, o Governo dos Estados Unidos, com a cooperação das autoridades guatemaltecas, infectou com sífilis, sem seu consentimento, 700 homens e mulheres, muitos deles prisioneiros e doentes mentais. Na tristemente famosa experiência de Tuskegee, no Alabama (1932-1972), na qual foram manipulados 600 homens negros, 400 dos quais com sífilis, o Governo lhes prometeu atendimento médico gratuito que nunca receberam. Muito depois da descoberta do antibiótico que cura a sífilis, os médicos que realizaram a experiência continuavam vendo morrer homens por uma doença horrível. Como disse um comentarista: a sinistra “experiência” revelou muito mais coisas sobre o racismo do que sobre a sífilis. A ciência não está livre de ideologias repugnantes, nem historicamente nem na atualidade.

Embora muitos membros da Administração tenham declarado “guerra” ao vírus, uma série inerte de substâncias bioquímicas que só ganham vida quando entram em contato com um organismo não saciam a ânsia de ter um inimigo, uma Pandora capaz de assumir a culpa pela nossa situação. O nome de um clérigo paquistanês, Maulana Tariq Jameel, ganhou as manchetes em maio quando disse que a pandemia era a prova da ira de Deus contra “a nudez e a obscenidade”. Em sua opinião, as impudicas culpadas que levaram esse castigo ao seu país e, por extensão, ao mundo inteiro, são “as filhas da nação”, não os filhos. Fez menção especial às jovens que dançam com saias curtas.

As ideologias fascistas florescem tirando proveito da angústia, da incerteza e de uma forte identidade nacional e nativista, muitas vezes envolta em significados quase religiosos ou ortodoxos. Espanha, Itália e Alemanha desenvolveram diferentes versões do fascismo europeu em diferentes circunstâncias culturais, mas com traços comuns, como a forte necessidade de restringir os direitos das mulheres, especialmente os direitos reprodutivos. Agora, novos tipos de movimentos autoritários, antidemocráticos e com cores fascistas estão reaparecendo em todo o mundo. A atitude beligerante dos nacionalistas hindus me lembra a dos furiosos apoiadores de Trump, dos membros de nossas milícias de extrema direita e dos neonazistas que marcharam em Charlottesville, Virgínia, em 2017. Esses sistemas de crenças só sobrevivem quando há inimigos humanos aos quais vilipendiar. Para os violentos nacionalistas hindus inspirados pelas ideias de Hitler sobre pureza racial, os muçulmanos, os cristãos e outras minorias religiosas são alvos de ataque. No Ocidente, as feministas, as pessoas de gênero não binário, os imigrantes, as minorias raciais e os marginalizados de todo tipo são alvos engolidos por retratos grandiosos que explicam por que as coisas estão tão mal. Essas histórias são rudimentares e eficazes. Dividem o mundo em dois, o bem e o mal, homens e mulheres, pretos e brancos, e assim projetam seus demônios nos outros para se enaltecerem.

Durante uma pandemia global em que tantas pessoas estão isoladas, sem segurança financeira e com medo do futuro, as teorias sobre Pandora ganham força. No meu país, estamos às vésperas de eleições que muito provavelmente serão decisivas para a morte ou a sobrevivência da república democrática. Donald Trump e outros aspirantes a déspotas ou déspotas perfeitos têm muitos milhões de seguidores em todo o mundo que engolem de bom grado as teorias paranoicas sobre os Outros que nos ameaçam. Se não tivessem esse apoio de massas, esses homens desapareceriam instantaneamente. O irônico e terrível é que, se aprendemos alguma coisa com a pandemia, é que todos os seres humanos são cidadãos vulneráveis do mesmo planeta e dependemos não apenas uns dos outros, mas também de ecossistemas cada vez mais frágeis, sem os quais não podemos sobreviver como espécie. A ação coletiva pode mudar as coisas. Os protestos ruidosos e o voto podem mudar as coisas. E a versão que decidirmos contar da história de nossa humanidade comum na Terra também pode mudar as coisas.
Siri Hustvedt, escritora premiada com o Prêmio Princesa de Astúrias de 2019

Como é tosqueira a elite brasileira

Só pode ser algum outro vírus, ainda sem nome, mas alguma coisa da ordem muito sanitária acontece no corredor dos bacanas que vai do Leblon até o Gero, no Jardim Paulista. Os ricos brasileiros estão dando um show de vergonha alheia. Perderam a noção. Meia dúzia deles tirou o fim de semana – nem aí se morrem 800 pessoas por dia no país do coronavírus - e foi às esquinas grifadas armar barraco. Dessa vez, não esculacharam os mais humildes. Estão brigando com eles mesmos.

Na primeira cena desse festival de despropósitos, com todos os endinheirados vestidos pela arrogância da deseducação, aparece um carro conversível de luxo trafegando pela noite da Rua Dias Ferreira. Em seu banco traseiro vão duas mulheres aplicadas em mostrar os atributos que sensualmente escapam de seus minúsculos biquínis.

Parece filmagem para alguma atualização da “Doce Vida”, o filme de Fellini sobre a liberalidade de costumes entre os grã-finos romanos na década de 1950, e o cenário é a mais do que apropriada passarela da juventude rica e moderna da Zona Sul do Rio. Vale tudo e tudo custa muito caro. As duas mulheres cariocas no cocuruto do conversível beijam-se, abraçam-se, parecem vibrar a chegada da liberdade pós-pandemia. Ninguém é de ninguém. Registradas pelas câmeras dos celulares ao redor, elas performam o sonho maior da civilização Instagram – “causam”.

Sentada na mesa de calçada de um restaurante japonês, uma arquiteta acompanhada de duas crianças não gosta da cena e, como um hater da internet, faz ali mesmo, ao vivo, o cancelamento do que viu. Ao invés do block, ou do dedinho apontado para baixo, a arquiteta, que no dia seguinte explicaria tudo em sua conta no Instagram (“parecia um pornô”), faz sua lacração jogando garrafas de água (“para apagar o fogo”) nas moças.

A partir daí, o falso Fellini vira uma verdadeira chanchada da Atlântida. A moça atingida, uma empresária de cosméticos, desce do carro, dá um soco na arquiteta e, desfilando na frente de todo o calçadão do Leblon a firmeza de seu corpo musculosamente espetacular, volta para o carro. Um outro “hater” arranca-lhe a parte de cima do biquíni, e aí o conversível sai em disparada cinematográfica. Ao fundo, vindo de sushis e sashimis, sobem os gritos de “piranha!”.

Em São Paulo, o escarcéu que exibiu como vai mal, como rima pobre a elite nacional, teve no lugar do biquíni uma peça de roupa que é a mais completa tradução dos patrões locais – o pulôver de cashmere amarrado no pescoço.

Um médico, ao ter o atendimento recusado no restaurante Gero (a cozinha estava fechada), gritou palavrões, disse que ia ligar para “o meu delegado” e que tinha “educação europeia”. Chamou para a porrada seus pares grã-finos, todos tentando acalmá-lo com argumentos classistas (“o meu delegado é da federal”, disse um, “eu também tenho berço”, obtemperou outro).

As mulheres no salão deixaram de lado o estilo fino de milhares de dólares investidos nos saltos altos, nos decotes abissais e penteados para a noite que se pretendia chique. Em uníssono, descontroladas, gritaram “no-jen-to! no-jen-to!”. Registre-se que, mesmo em meio a todo esse bafafá, o cidadão manteve, impávido e colosso, o icônico pulôver dos ricos paulistas ao redor do pescoço. Se fosse um filme - “Como é tosca a elite brasileira” seria bom título - a produção ficaria a cargo da gloriosamente paulista e pornochanchadeira Boca do Lixo.

Desnecessário dizer, por fim, que todos os personagens acima estavam sem máscara. Nossos ricos não distribuem dinheiro – vírus, sim.

Joaquim Ferreira dos Santos 

domingo, 27 de setembro de 2020

Quem se levanta?

Se eu não me levanto,
Se você não se levanta,
Se ele não se levanta,
Quem brandirá uma tocha de esperança nas trevas?

Atiq Rahimi, "As mil casas do sonho e do terror"

A nova política caducou

A tira que ilustra esta coluna, do talentoso quadrinista brasileiro Pietro Soldi, é a mais perfeita tradução do que a autodenominada “nova política”, que nunca teve nada de novo e em menos de dois anos se encontra em avançado estado de necrose, legou ao País.

Brasileiros de Norte a Sul elegeram para o Executivo e o Legislativo vários espécimes de jumentos vendados, achando que revolucionariam a forma de fazer política. Mas o resultado é que estamos ensopados de café quente e sem muito sinal de que vamos conseguir reerguer a mesa que tombou e colar a louça que foi feita em cacos.

Olhemos a situação do Rio de Janeiro e de Santa Catarina. O primeiro vinha de uma sucessão de larápios que só não roubaram as pedras do calçadão de Copacabana. O segundo tinha alguns dos melhores indicadores econômicos do País e saúde fiscal relativamente boa.



Mas os eleitores dos dois Estados acharam por bem eleger completos desconhecidos, que entraram na política pela porta fácil do discurso anticorrupção, atrelados ao bolsonarismo e surfando na onda lavajatista.

Resultado: menos de dois anos depois, Wilson Witzel, cujo nome 90% dos fluminenses não sabiam nem pronunciar quando nele votaram, e Carlos Moisés, cuja foto até hoje eu não saberia reconhecer, estão a caminho do impeachment.

De Bolsonaro não é preciso falar. Já mencionei seu discurso na ONU, mais uma exibição que não deixou nada a dever à tirinha do Pietro.

E nos Parlamentos e na vida partidária, qual o saldo da tal nova política? Não muito superior. Há, sim, excelentes novos parlamentares, da esquerda à direita.

Os movimentos não partidários, como Agora, Livres, Renova BR e Acredito, aliás, contribuíram de forma mais significativa para isso que os partidos, pois enfrentaram a necessidade de formação desses jovens líderes.

Quanto às siglas, seguem perdidas na geleia geral ideológica e programática, inclusive as novas. Basta ver o episódio Novo versus Filipe Sabará. O candidato passou no tal processo seletivo, mas em seguida seu currículo acadêmico foi desmentido, se descobriu uma diferença de nada menos que R$ 3.985.000 em sua declaração de bens, e o barraco começou. Diante de tantas inconsistências, Sabará recorreu à seguinte explicação: a “ala esquerdista” (!) do Novo, representada por João Amoêdo (!!), o estaria perseguindo. Seria até engraçado, se não fosse patético. Dá-lhe coice com olhos vendados!

A divisão interna do Novo é mais um sinal claro de que não se mudam as práticas políticas apenas com slogans, sapatênis e ideias naive – como a de que não usar Fundo Partidário é sinal de virtude por si só.

Renovação política se faz com projetos claros, definição de políticas públicas e compreensão dos problemas do Brasil e dos Estados e de que legisladores têm mais a fazer que filminhos ridículos no TikTok ou Instagram.

Que 2020 comece a corrigir 2018 e que tiremos a venda do jumento e elejamos bons políticos para fazer política. Olha só que ideia disruptiva!

O código da fome

Dá para imaginar o que é isso? Ficar dias e dias com o estômago a ronco, aquela dor aguda, lancinante, enganada às vezes a caldo de folha ou na maisena insossa de farinha com água e nada mais? Nem aroma para consolo? Sentado no declive do chão de pedra, proximidade do teto de palha, parede de barro e pau, que ameaça todo dia cair, no castigo do sol e da chuva, com o odor incessante de esgoto a céu aberto, em um ambiente onde a miséria espreita como sina, dividir a parca ração do dia é quase um privilégio de poucos ali — cenário mais extenso e predominante Brasil afora do que imaginam os benfejados pela sorte.

Quem não está lá nem desconfia da sinopse de angústias desses humildes desvalidos, o contingente populacional classificado por institutos oficiais na condição de carência alimentar extrema, consumidos pela privação, cujas vidas são uma experiência de risco em alta cadência, rotineiramente. As crianças desnutridas, que mais sofrem, com seus corpos miúdos, pernas mirradas, braços de tão magros estendidos como asas sem serventia, remela nos olhos entre insetos, reclamam no choro instintivo (manhã, tarde e noite) por um prato de alimento sólido. Uma refeição honesta, quem sabe! No amplo universo dos desesperados sociais brasileiros, viver com fome é realidade constante.

Ao menos 10,3 milhões deles estão no momento sem nada para comer, segundo a mais recente Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, divulgada semana passada. Uma barbaridade! Número que tende a piorar com a pandemia, depois de um incremento recente de mais de 3,1 milhões de necessitados na mesma condição, agravando um quadro que já é vergonhoso e inaceitável no País que se autoproclama “celeiro do mundo”, detentor do maior cinturão verde planetário, onde tudo que planta dá, com área cultivável de dimensões continentais.



A verdade do evento trágico é deveras pior. Atualmente, segundo o levantamento, 36,7% dos lares brasileiros — isso mesmo! — têm dificuldade para garantir qualidade e quantidade de alimentos a todos os integrantes da família. Atente para o drama: está se falando de mais de um terço, quase a metade das casas no País, onde falta comida suficiente para seus membros. É suportável aceitar tamanha indigência? Talvez até para não chocar em demasia uma sociedade acostumada ao descaso, os famintos são, eufemisticamente, enquadrados em três níveis de “insegurança alimentar” — todas elas abomináveis, mas que tendem a abrandar o choque de quem não compreende a dimensão do desastre social, de proporções épicas, agora em curso.

Na escala, existem as famílias que não podem comprar o suficiente para sustento e passam aperto. No pelotão intermediário é considerado restrição alimentar “moderada” o constrangedor estratagema de pular refeições. E no grau extremo, não há mesmo nada o que comer, muitas vezes por dias, e a mendicância, apelando nas ruas, segue como -ultimo subterfúgio. É desolador aceitar, mas a fome por aqui adquire rosto e move um Brasil mais comum do que muitos imaginam.

Por que falhamos em providências essenciais e prementes para boa parte da população? Como pudemos chegar a esse grau de desamparo? A face mais arrasadora e ultrajante da calamidade alimentar está no contraste da consciência de líderes, senhores do Estado, que negam o destino comum a tantos brasileiros. O mandatário Jair Bolsonaro, por exemplo, é o primeiro a desdenhar do infortúnio: “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”, disse recentemente, desconsiderando as evidências e até chacoteando dos desvalidos. “Você não vê gente, mesmo pobre, pelas ruas, com físico esquelético”. Provavelmente, o parvo chefe da Nação não está frequentando as ruas que devia na condição que o cargo lhe exigiria.

Todos sabem, sanha corrente, Bolsonaro não desperdiça uma chance de errar, como confirmam as baboseiras lançadas em qualquer direção. Foi agraciado pelo Congresso com uma política de transferência de renda de R$ 600, que não era seu intento e acabou encampando como ideia sua para fins eleitoreiros, capaz de, na esteira do isolamento, conter em parte a extenuante procissão de miséria dos pés-descalços, descamisados, desabrigados indolentes da paisagem nacional.

Mas agora se depara na encruzilhada de como resolver um problema em crescente avanço. Após enterrar, espetaculosamente, o “Renda Brasil”, maquina alternativas, nem todas claras, que passam pelo resgate da famigerada CPMF para fazer brotar verba suficiente. É bom desconfiar da produção de gambiarras no Planalto Central.

Quando o capitão Bolsonaro tem uma ideia, convém trancá-lo no banheiro e esperar que passe. O vendaval de aflitos não pode esperar muito tempo, na crueza da escassez, para saciar suas necessidades.

Na calada da noite, nos barracos construídos ilegalmente ou na cobertura de papelão cercada por pneus velhos, debaixo do viaduto, em palafitas rudimentares, tentando sobreviver por meios insanos, são seres humanos, cidadãos, favelados ou não, invasores de terras e de imóveis abandonados, “pobres e paupérrimos” — na lembrança, essa sim providencial, do presidente — que acalentam e esperam diariamente resposta para a fome. João, Genésia, José, Francisca, são tantos os nomes e rostos dessa tragédia que machuca até encará-los. O pequeno Gerson, da comunidade paulista de Paraisópolis, deitado no chão, numa miserável confraternização com seu vira-lata, é todo dia engabelado pela mãe para sair às brincadeiras, tentando driblar a fome. É dor que não passa assistir à cena.

Qualquer um, no mínimo de discernimento humanitário, vergaria lágrimas. A miséria mostra seu código de necessidade mais evidente na fome. Ela atinge e faz vítimas em escala bíblica no Norte e no Nordeste, que abrigam a parcela prevalente dos domicílios com privação alimentar. As carências, no caso, são mais sentidas em áreas rurais, regiões ribeirinhas, lares chefiados por mulheres, por negros ou pessoas autodeclaradas pardas.

É a fome reforçando o preconceito. Perceba, também, o tamanho da frequência do drama enfrentado pelo rebento Gerson, acima citado: metade das crianças com menos de cinco anos (6,5 milhões ao todo no País) cresce em residências com algum grau de insegurança alimentar. O que tamanha chaga representa no desenvolvimento do País a maioria desconfia. A alimentação adequada é condição “sine qua non” para o aprendizado e desempenho escolar. Parte majoritária do público de pequeninos encontrava o que comer nas escolas e entidades de ensino.

Com o fechamento dos estabelecimentos, em meio à quarentena, nem isso. A merenda de crianças e adolescentes sumiu da rotina e a leitura lógica sinaliza que a pandemia intensificou a vulnerabilidade dos que não comem, numa escalada sensivelmente agravada pelo aumento conjuntural dos preços dos alimentos. Na pororoca de situações inesperadas, todas conspirando para o mal, o desperdício de bilhões de sacas de grãos, frutas e vegetais — que se deixam cair nos transportes de safra, nos equívocos de escoamento ou de armazenamento indevido — parece inconcebível e poderia reparar ao menos parte do drama.

Restam ainda a autoestima e esperança dos desvalidos e o caminho da solidariedade, capaz de fazer milagres. Há ainda um Brasil capaz de oferecer um prato a mais para uma boca a mais. Não apenas por meio das entidades filantrópicas e mutirões assistenciais. Cada um pode e deve fazer a sua parte, começando ontem, para legitimar a erradicação dessa doença da fome, que teimou em maltratar logo o povo habitante do celeiro do mundo.

No desgoverno do Brasil só cabe a agenda eleitoral

Deus fez chover em Mato Grosso um dia depois da visita do presidente Jair Bolsonaro, festejou o general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo. “Deus está com nosso presidente e continuará a abençoar o Brasil”, acrescentou. Os incêndios na Amazônia e no Pantanal são fenômenos naturais e nenhuma ação humana pode evitá-los, garantiu outro general, Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional. As críticas à política ambiental brasileira, segundo ele, são ligadas a um “evidente” movimento internacional para derrubar o governo. O chefe dos generais, presidente do país abençoado, também cuidou do fogo, pouco depois, em discurso na Assembleia-Geral da ONU. Na Amazônia só índios e caboclos fazem queimadas, mas na mata úmida nenhum incêndio se propaga, assegurou.



É isso mesmo o Executivo brasileiro? É mais que isso – e muito menos que um governo. É preciso acabar com a erotização das crianças e com a discussão de gênero nas escolas, disse o ministro da Educação, Milton Ribeiro, em entrevista ao Estado. Mais sociável que Abraham Weintraub, o novo ministro reafirma prioridades de seu antecessor e também os valores e o padrão – por assim dizer – cultural de seu líder comum, o presidente da República. Nenhuma surpresa, portanto, quando o novo ministro se refere a homossexuais como produtos de famílias desajustadas e descreve a desigualdade como “problema do Brasil”, fora da responsabilidade de sua pasta.

Educação, igualdade e liberdade são temas correlacionados há mais de dois séculos, como comprovam as Cinco Memórias sobre a Instrução Pública, de Condorcet. Um tratamento recente do assunto aparece no livro Capital et Idéologie, de Thomas Piketty, publicado em 2019. A difusão de conhecimentos e o acesso às qualificações são apontados por ele como fatores primordiais, em longo prazo, para a redução das desigualdades em cada país e em âmbito internacional (páginas 622-623). Condorcet abre seu livro, editado no fim do século 18, atribuindo à sociedade o dever de proporcionar instrução ao povo “como meio de tornar real a igualdade de direitos”.

Mas desigualdade, segundo o ministro da Educação, é problema do Brasil. Não envolvam seu ministério nessa história. Ideia estranha? Nem tanto, para quem acompanha as ações do grupo chefiado, em Brasília, pelo presidente Jair Bolsonaro. Problemas do Brasil – ou da maior parte dos brasileiros – nunca foram incluídos na agenda normal do Palácio do Planalto, desde janeiro de 2019. De fato, nem mesmo houve mais que uma pauta de interesses bolsonarianos.

O combate à pandemia, tem repetido o presidente, foi delegado a governadores e prefeitos pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Isso é falso, como se observou muitas vezes. Decisões sobre isolamento e etapas de abertura foram atribuídas aos poderes estaduais e municipais, mas o Judiciário apontou a “competência concorrente” dos três níveis, sem isentar de responsabilidade a administração federal.

Evitar essa responsabilidade combina com a negação do problema. Depois de qualificar a covid-19 como gripezinha, o presidente se opôs ao isolamento e classificou como inútil o uso da máscara, objeto de piada em sua transmissão da última quinta-feira, em que aparece ao lado do ministro do Meio Ambiente. No fim, os dois tentam ridicularizar o toque de cotovelos como cumprimento.

Covid-19 é assunto dos outros. Devastação ambiental é história inventada por inimigos do Brasil. Isso inclui brasileiros a serviço de interesses estrangeiros, como dirigentes dos maiores bancos privados nacionais, cientistas famosos, membros de organizações ambientalistas e líderes da ala mais moderna e mais produtiva do agronegócio.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e estudos do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) são apontados como contrários ao discurso oficial. Mas nada disso importa. Gente empenhada em cobrar ações de quem exerce o poder só atrapalha.

Por mais de um ano o presidente desprezou a economia, deixando o assunto para o “posto Ipiranga”, o ministro Paulo Guedes. O impacto da pandemia nos negócios forçou a revisão de padrões. Foi preciso pensar nas pequenas empresas, nos assalariados e até nos muito pobres. Antes, nenhuma dessas categorias havia estado entre as prioridades. Sem operações de socorro, no entanto, nem os empresários fiéis a Bolsonaro ficariam livres de grandes perdas.

Essas operações, semelhantes às implantadas em dezenas de países, atenuaram a crise e tornaram o presidente mais popular até no Nordeste, região dominada, até aí, por seus adversários. A ajuda aos pobres virou parte da estratégia da reeleição, item número um da pauta presidencial. Por que não criar uma Bolsa Família com marca própria? Melhor ainda se um congressista, como o relator do Orçamento, cuidar do assunto, assumindo o custo de mexer em verbas muito apertadas.

Teria o presidente chegado até aí se tivesse perdido tempo governando? Brasil acima de tudo, Deus acima de todos e reeleição em primeiro lugar.

Pensamento do Dia

 


O grito desaparecido

Faz semanas que o louco não passa na avenida. Não à hora em que passava, no meio da madrugada, se valendo do silêncio do bairro para redobrar o alcance do seu grito. Não morreu de frio, isso é certo, porque, nas noites mais severas de inverno, ele ainda passava, sensivelmente mais louco, mais desesperado, nos amaldiçoando um por um. Então, uma noite, ele não veio. Outra noite e nenhum sinal dele. E daí para uma semana, duas semanas, três. Tem isso relação com as sirenes de polícia no lugar dos gritos? Ou tem a ver com uma pandemia desacreditada, o vírus correndo solto? Ou será que, num dos seus surtos circulantes, o louco topou com um desses neo-nazis de rua, caçadores de pretextos? O fato é que, depois de desaparecer, ele ressurgiu apenas uma vez, e à luz do dia, abafado pelo trânsito da avenida. Desde então se faz notar por sua falta. É sua falta que grita. Como se tivesse levado com ele, com seu berro animal, a urgência de uma revolta onde cabe tudo o que dói até o ponto do insuportável, uma revolta que não espera ocasião nem negociação: rebenta, revolta-se. Como se tivesse deixado conosco uma paz estranhíssima e imerecida, que fica ainda mais absurda quando cantam os passarinhos. Todos os sons da indignidade escamoteados, os sons da violência bem-sucedida escondidos. À falta do louco, nós do bairro temos essa quase alucinação coletiva de uma calma com passarinhos. Que ele volte, o nosso louco, o nosso bode-expiatório, para nos amaldiçoar como merecemos, e também para drenar os nossos gritos, e fazê-los circular pela cidade, como prévia dos jornais do dia, todo dia.

Mariana Ianelli

Chauvinismo e xenofobia

Nicolas Chauvin foi um soldado francês condecorado por Napoleão Bonaparte por sobreviver a vários combates, severamente mutilado, depois de ser ferido 17 vezes. Tornou-se uma lenda para os franceses, até que as comédias escrachadas de vaudeville começaram a ridicularizar sua ingenuidade e fanatismo, dando origem ao termo que hoje é muito utilizado para caracterizar o sentimento ultranacionalista que leva os indivíduos a odiar as minorias e perseguir os estrangeiros. Na década de 1970, as feministas dos Womens`s Lib deram uma conotação mais abrangente ao termo, ao chamar os machistas de “porcos chauvinistas”.

Por causa de seu discurso de ontem na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente Jair Bolsonaro entrou para o rol dos líderes políticos chauvinistas da atualidade, o que não é bom para nenhum chefe de Estado nem para o Brasil, em particular. Seu discurso nacionalista não chegou a ser histriônico, mas fugiu à verdade e ignorou a realidade, sendo muito contestado interna e externamente. Além do chauvinismo, Bolsonaro revelou certa xenofobia, ao culpar os caboclos e índios pelos incêndios na Amazônia e Pantanal.

Xenofobia é outra palavra muito feia. Refere-se ao sentimento de hostilidade e ódio manifestado contra pessoas por elas serem estrangeiras ou serem enxergadas como estrangeiras. Trata-se de um preconceito social muito comum no mundo por causa do fluxo de migrações. Árabes e muçulmanos sofrem com isso na Europa, mexicanos e latinos nos Estados Unidos. Geralmente, a xenofobia está associada ao racismo. A forma como Bolsonaro trata os índios no Brasil sempre teve essa conotação xenófoba; a novidade é o preconceito que revelou na ONU em relação aos caboclos brasileiros.


Certos fenômenos da vida brasileira não se explicam pela sociologia ou pela ciência política, somente podem ser compreendidos quando nos socorremos da antropologia. A eleição de Bolsonaro, por exemplo, sua capacidade de se amalgamar aos evangélicos e capturar o sentimento de preservação da família unicelular patriarcal nas camadas mais pobres da população, ameaçada pelas dificuldades econômicas e as mudanças de costumes. Em contrapartida, Bolsonaro não consegue entender o nosso sincretismo religioso e o peso da miscigenação na formação da identidade brasileira. Se entendesse, não trataria com tanto preconceito os indígenas e os caboclos da Amazônia.

O caboclo tem uma cultura de selva adquirida dos índios. Porém, manteve a língua, a religiosidade e certos costumes dos portugueses, ao longo de secular abandono. É um comportamento semelhante ao do moçambicano branco, mas muito diferente do bôer sul-africano, que renegou as origens, inventou uma nova língua e se considera a grande tribo branca da África. Todos ficaram insulados após a expulsão dos holandeses do Nordeste brasileiro. Explico: quando os holandeses chegaram ao Recife, em 1630, para controlar o açúcar, perceberam que o que dava dinheiro não era só plantar cana e produzir açúcar, mas também vender africanos para os senhores de engenho. Saíram do Recife em 1641 para atacar Angola e dominar o tráfico negreiro para o Brasil. Quando começou a guerra de guerrilhas em Pernambuco para expulsá-los, Salvador de Sá organizou uma expedição do Rio de Janeiro para expulsar os holandeses de Angola, em 1648. Cerca de 2 mil portugueses, porém, ficaram largados na Amazônia, para onde haviam sido enviados em 1637, para explorar o cacau e a castanha, produtos de grande valor comercial.

Apesar dos esforços portugueses para manter o controle da região, notadamente do Marquês de Pombal, após o Tratado de Madri (1750), por meio da fortificação de suas fronteiras — Belém, Gurupá, Manaus, Santarém, Almeirim, Óbidos, Tabatinga, São Gabriel da Cachoeira, Guaporé, Macapá e outros —, a integração à economia nacional somente veio a ocorrer no século XIX, com o Ciclo da Borracha (1870-1912), quando aproximadamente 300 mil nordestinos migraram para seus seringais. Mas a cultura amazônida do caboclo já estava dada.

Além do preconceito étnico, há um viés de intolerância religiosa muito forte na fala de Bolsonaro, porque o caboclo é uma “entidade” do sincretismo religioso entre africanos e índios. Nas religiões ou seitas afro-brasileiras, é a designação genérica dos espíritos de ancestrais indígenas brasileiros que supostamente surgem nas cerimônias rituais e que foram idealizados, já no século XX, segundo os modelos de orixás da teogonia jeje-nagô e do indianismo literário romântico. Na Umbanda, são guerreiros enérgicos, procurados pelos conselhos sensatos e passes poderosos. Bolsonaro mexeu com Ubirajara, Tupiara, Cobra Coral, Pena Branca, Sete Flechas, Águia Dourada, Sete Espadas, Espada Flamejante, Sete Lanças, Tabajara, Tamoio, Sete Ondas, Sete Matas, Caboclo Pantera Negra, Tupuruplata, Rompe-Mato, Caboclo Apeiara, Araribóia, Rompe-Ferro, Pena Vermelha, Beira Mar, Caiçara e Sete Caminhos.

Nornalização da barbárie

É como se tivessem se acostumado com a barbárie. Essa normalização diminui a pressão em órgãos que deveriam estar fiscalizando. Uma sociedade anestesiada diante desse cenário acaba não fazendo pressão para que essa tendência do desmatamento e queimadas mude

Banco Mundial aponta crescimento da pobreza e desigualdade no Brasil

Os brasileiros na faixa dos 40% mais pobres, população equivalente a 85 milhões de pessoas, começaram este ano de pandemia da covid-19 sem terem recuperado a renda que tinham antes da recessão iniciada em 2014, no final do governo Dilma Rousseff. O mesmo não ocorreu com a outra parcela da população, que no início do ano já recebia uma renda superior à do período pré-crise.

Os cálculos são de estudo do Banco Mundial realizado a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). A parte mais pobre da população teve alívio temporário ao longo de 2020 com a renda emergencial, mas muitos voltarão à situação anterior após o fim do benefício, em dezembro.

De 2014 a 2019, a renda dos 40% mais pobres caiu, em média, 1,4% por ano. No mesmo período, a renda média dos brasileiros como um todo cresceu 0,3% ao ano. Se a evolução da renda nesse período tivesse beneficiado igualmente todas as faixas da população, haveria no começo deste ano 13 milhões de brasileiros a menos vivendo em pobreza e 9 milhões a menos na pobreza extrema. O Banco Mundial considera que quem tem uma renda per capita menor que 499 reais por mês vive na pobreza, e a pobreza extrema atinge quem tem menos de 178 reais per capita por mês.

Como consequência da recuperação desigual, houve aumento da desigualdade de renda. Medida pelo índice de Gini, ela estava em 0,525 em 2015 — a menor da história do país — e alcançou 0,550 em 2018. No ano seguinte, houve uma leve queda, para 0,547. Quando mais próximo de 1, mais desigual é a renda.


O principal motivo para a perda de renda dos 40% mais pobres nesse período foi a queda da renda do trabalho dos homens, responsáveis pela maior parte da renda na maioria dos lares brasileiros. Esse fator foi responsável por três quartos da alta da pobreza e da pobreza extrema e por três quartos da alta da desigualdade de 2014 a 2019.

"Os empregos perdidos na crise se recuperaram de forma muita lenta, e a uma velocidade ainda menor para quem está na base da pirâmide. Além disso, a renda de quem conseguiu retomar o trabalho em muitos casos não voltou ao nível anterior da crise", afirma à DW Brasil Gabriel Ibarra, economista sênior do Banco Mundial especialista em pobreza no Brasil.

A distribuição desigual da recuperação, que penaliza duplamente os mais pobres, está relacionada à natureza do trabalho que essa faixa da população desempenha, em geral informal e exposto a vulnerabilidades.

"O tipo de trabalho normalmente disponível para quem está na base da distribuição são os trabalhos informais, com menos proteção, mais voláteis. É diverso dos trabalhos disponíveis para as parcelas mais ricas e mais educadas, que têm acesso a empregos formais e mais conectados à economia, comparado a quando você é um autônomo que trabalha vendendo algo na informalidade", afirma Ibarra.

O Banco Mundial desenvolveu um quadro comparativo da evolução da pobreza extrema, da pobreza e da desigualdade entre os países da América Latina no período de 2014 a 2018, fazendo ajustes nas pesquisas nacionais de cada um deles.

Apesar de o fim do super-ciclo de commodities de 2011 ter afetado todos os países da região, o Brasil foi um dos poucos que viu sua pobreza e desigualdade crescerem nesse período. E, entre os que tiveram essa reversão, o Brasil lidera nos três índices.

Além do Brasil, apenas Honduras e Equador também tiveram aumento de desigualdade no período; Argentina e Equador registraram aumento da pobreza; e Argentina, Equador e Honduras tiveram alta da pobreza extrema — todos em menor grau do que o Brasil.

Esse cenário trágico é resultado, segundo Ibarra, de uma conjunção de fatores, como o nível de endividamento das famílias, a mudança excessivamente abrupta de uma política fiscal expansionista para contracionista no segundo governo Dilma, a queda geral do consumo e a fuga de divisas após o país perder o selo de bom pagador, conhecido como grau de investimento, em 2015.

O relatório também aponta outros motivos "que estavam acumulando problemas para o futuro", como baixo ganho de produtividade, custo crescente do trabalho, demanda baseada mais em consumo do que investimento e alta constante dos gastos correntes do governo, em especial na Previdência Social.

Como resultado, a crise fez o Brasil perder parte dos ganhos sociais obtidos de 2001 a 2013, quando 24,6 milhões de seus habitantes deixaram a pobreza — cerca de 50% da redução da pobreza em toda a América Latina e Caribe nesse período.

O Bolsa Família, sistema de proteção social que é, segundo Ibarra, reconhecido internacionalmente pela flexibilidade e capacidade de focalização dos recursos em quem mais precisa, não foi capaz de amortecer a crise para os mais miseráveis. De 2014 a 2017, mais de 4,6 milhões brasileiros caíram para a pobreza extrema.

Algumas pesquisas já apontaram as deficiências do Bolsa Família nessa fase, como represamento de pedidos para receber as transferências, redução das equipes que fazem a busca ativa de possíveis beneficiários e a ausência de reajustes anuais do benefício para repor a inflação.

"Durante e após a crise de 2014, não vimos a resposta [do sistema de proteção social] como houve em outros momentos, o que teve implicações para a pobreza e a desigualdade", diz o economista do Banco Mundial.
O impacto da renda emergencial

Neste ano, o impacto da pandemia na economia foi reduzido para as faixas mais pobres devido ao auxílio emergencial. O benefício de 600 reais, que chega a 1,2 mil reais para mães solteiras, começou a ser pago em abril para um período inicial de três meses. A partir de outubro, será reduzido à metade, e a última parcela será paga em dezembro.

Por ter um valor muito superior ao Bolsa Família, cujo benefício médio é de 190 reais, em alguns casos a renda emergencial superou a perda provocada pela pandemia, retirando famílias da pobreza.

"Esse programa foi tão amplo que há evidências sugerindo que ele reverteu, e não apenas mitigou, alguns dos efeitos monetários da pandemia. E não é uma surpresa que essas transferências possam ter mais que compensado o impacto para alguns grupos", afirma Ibarra.

Questionado sobre qual será o impacto do fim do auxílio emergencial na pobreza a partir do ano que vem, ele afirma que isso dependerá de eventuais reformas dos programas sociais, do desempenho da economia no último trimestre deste ano e do comportamento do mercado de trabalho.