terça-feira, 20 de novembro de 2018

A realidade é dura

Trapalhadas, bate-cabeças, idas e vindas. A 40 dias de sua posse, o presidente eleito Jair Bolsonaro parece não saber o que quer. Nem mesmo consegue formatar o desenho primário do governo. Transita entre dias de extinção e fusão de ministérios, misturando alhos e bugalhos para chegar aos 15 prometidos na campanha, outros de recuo e até de criação de novas pastas, como o recém-anunciado Ministério da Cidadania. E antes mesmo de tomar assento no Planalto já contabiliza sua primeira baixa: a do general da reserva Oswaldo Ferreira.


Responsável pelo Departamento de Engenharia do Exército durante anos e até então afinadíssimo com Bolsonaro, Ferreira não explicou publicamente os motivos de sua desistência. Algo no mínimo curioso para um dos mentores da aglutinação dos transportes, portos, aviação civil, mobilidade urbana, recursos hídricos e saneamento no mega-Ministério de Infraestrutura, imaginado entre o primeiro e segundo turnos da eleição.

Nele estarão concentrados quase todos os recursos de investimento que o país faz – ou deveria fazer. E toda sorte de problemas. Mais de 7 mil obras inacabadas, boa parte delas vítimas da corrupção. Absurdos como as Ferrovias Norte-Sul, em construção há 31 anos, e Transnordestina, iniciada em 2006 e completamente abandonada, além de heranças pesadas dos PACs do ex Lula e da presidente cassada Dilma Rousseff.

Se Bolsonaro começou a transição em grande estilo, com o anúncio do juiz Sérgio Moro para a Justiça e de gente de peso, como Joaquim Levy para o BNDES, foi o primeiro a colocar seu próprio governo na berlinda ao emitir sinais contraditórios.

Ora quer juntar Agricultura e Meio Ambiente. Depois não quer mais, quer de novo para logo não querer. Pouco antes já havia migrado o ensino superior para a área de ciência e tecnologia. Voltou atrás. O mesmo ocorreu com o Trabalho, extinto, ressuscitado e, na última versão, anexado aos ainda inexistentes ministérios da Produção ou da Cidadania. Minas e Energia, que chegou a ficar embaixo da Infraestrutura, continuará independente. Cultura e Esportes devem ir para a Educação. Pelo menos até novas mudanças.

Os recuos, dirão alguns, podem apontar para alguém capaz de alterar rumos quando é convencido da necessidade de fazê-lo, o que seria mérito. Tomara. Mas a frequência das correções parecem mais efeito da dureza da realidade, muito diferente do blablablá de campanha, na qual à fala não se obriga lastro.

Bolsonaro parece não perceber que cada palavra sua tem consequência. Para o bem e para o mal. Não servem mais apenas como alimento para fiéis reproduzirem nas redes sociais, como ocorria antes de ser eleito. Mexem com mercados interno e externo, com a credibilidade do país.

Defender a imediata reforma da Previdência, até com auxílio do presidente Michel Temer, e, em seguida, dizer que poderá protelar a sua efetivação, deixa aposentados e gente da ativa com o coração na mão. Ou duvidar, publicamente, da eficácia da proposta de capitalização previdenciária de seu Posto Ipiranga, Paulo Guedes, futuro superministro da Economia, de nada ajuda e muito atrapalha em uma questão crucial para o país.

O mesmo vale para as arestas que já criou com árabes, ao anunciar a intenção de mudar a embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém, com argentinos e outros integrantes do Mercosul, com a China, país que mais importa produtos brasileiros. Posições que seu indicado para a Chancelaria, embaixador Ernesto Araújo, parece concordar quando discorre sobre a necessidade de o Brasil se aliar ao projeto de Donald Trump, pela “recuperação da alma do Ocidente”.

Entre outras sandices, Araújo questiona a teoria do aquecimento do planeta e se opõe à globalização, “pilotada pelo marxismo cultural”. Mas também aqui o mundo real é outro: uma coisa é escrever em um blog, outra é conduzir a política externa do país.

Resta a torcida para que Bolsonaro e seu time assimilem velozmente o choque de realidade. Do contrário, teremos um governo de curto-circuitos.
Mary Zaidan

O cálice de 2019

Difícil exagerar as dificuldades que teremos à frente. Alternativas políticas ou econômicas propriamente ditas, que, mesmo operacionalmente imprecisas, ambicionam mudar a face do capitalismo brasileiro, têm convivido no espaço público com delicados temas éticos, agitados muitas vezes de forma superficial, quando não leviana, à maneira de memes de internet ou bravatas politicamente incorretas.
 
Tais aspectos eticamente relevantes também deixam marca em políticas públicas que darão um sentido regressivo ou inovador às nossas relações sociais cotidianas, ao modo como nos comportamos uns com os outros. Os democratas devem não só avaliar os resultados práticos da reforma que se pretende, como também impedir que se enxovalhe a ideia da História como criação acidentada, mas permanente, de valores já irrenunciáveis, como, entre outros, o da tolerância
Luiz Sérgio Henriques

O fim do comum

Na noite de 6 de janeiro de 2015, Phippe Lançon foi ao teatro com uma amiga, em Ivry, ver Noite de Reis, uma peça de Shakespeare sobre a qual teria de escrever no dia seguinte um artigo para o Libération. Mas, na manhã do dia 7, haveria também a reunião de pauta do Charlie Hebdo, para o qual ele também escrevia, na qual seria planejado número seguinte do semanário. Lançon decidiu-se por essa última. Enquanto os colegas discutiam a pauta, ele observava o desenhista Bernard Harris, seu bom amigo, que como sempre passou toda a discussão fazendo caricaturas dos presentes.

Terminada a reunião, quando todos começavam a se despedir, teve início a fuzilaria. Philippe foi o primeiro a receber um balaço, no rosto, que despedaçou sua mandíbula e o derrubou numa grande poça de sangue. Não perdeu os sentidos, mas não podia se mexer. Enquanto sangrava, viu os dois terroristas, os irmãos Kouachi, executarem todos os que estavam na sala, repetindo um mantra, Allahu Akbar!, Allahu Akbar! Philipe não podia acreditar no que via: a cabeça de Bernard Maris aberta a tiros, os miolos saindo. Num dado momento, viu ao lado de seu rosto os sapatos e a metralhadora de um dos assassinos. Por que não o mataram? Sem dúvida por achar que ele já estava morto.

Ele foi finalmente resgatado e uma ambulância o levou para o hospital, onde passou 282 dias e foi submetido a 30 operações que lhe reconstruíram prodigiosamente o rosto. Quando o conheci, em Princeton, há uns três anos, ainda parecia um monstro. Quando vi suas fotos, achei incrível que seu rosto estivesse absolutamente normal, sem uma única cicatriz que recordasse o horror da experiência que ele, no livro que acaba de publicar na França, Le Lambeau (o pedaço, o retalho) chama, com sombria elegância, de “o fim do comum”.

O mais impressionante nesse testemunho assustador, em que vemos um homem morrer e ir ressuscitando pouco a pouco graças à sua valentia e força moral, e sem dúvida à formidável ajuda que lhe deram os enfermeiros, médicos, auxiliares, e sobretudo à destreza e competência dra. Chloé, a cirurgiã autora daquela prodigiosa reconstrução facial – é a sobriedade e o equilíbrio com que está escrito. Não há ódio nem rancor, e aquela máquina de matar que aniquilou todos seus companheiros quase desaparece. O amor pela vida anima suas páginas, com a ajuda vivificante que lhe dão nessa longuíssima ressurreição certas obras literárias – Kafka, Proust, A Montanha Mágica – que relê buscando com elas reviver os momentos tão intensos que sentiu quando as leu pela primeira vez.
Creio que Philippe Lançon não fala de terrorismo em nenhuma dessas belas páginas. No entanto, Le Lambeau é um dos livros que melhor permitem entender os extremos da abominação e da selvageria a que pode chegar um ser humano escravizado pelo fanatismo religioso, convencido de que sua fé o autoriza a devastar o mundo e, se preciso, acabar com ele, purgando-o de infiéis. A essa barbárie crua e dura , Lançon opõe a razão, a humanidade, as belas artes, a poesia e as ideias, que considera os denominadores comuns entre os seres humanos, mais profundos e duradouros que as diferenças de línguas, crenças, raças e costumes, tudo aquilo que nos cerca e nos irmana e terminará prevalecendo sobre a irracionalidade e a loucura abissal de quem acredita que lançando bombas e assassinando inocentes vá obter justiça.

Aos hospitais onde Philippe Lançon luta para renascer, chegam parentes, amigos, sua ex-mulher, suas namoradas (sim, no plural) e também esse rumor poderoso que é o gigantesco movimento de solidariedade gerado na França e no mundo inteiro pela matança de Charlie Hebdo. Ainda que pareça mentira, até o humor abre caminho nessas páginas, e o leitor se vê sorrindo, divertido com os enredos sentimentais e pessoais em que se depara o personagem (chamado pelo pseudônimo de Monsieur Tarbes em um dos hospitais que frequentou), entre anestesias, injeções, vômitos, sondas, termômetros e passes de mágica de que tem de se valer para que haja harmonia onde poderiam eclodir o mau humor e o escândalo.

Nada como estar perto da morte para saber como é maravilhosa a vida. Descobrimos isso ao mesmo tempo que Philippe, quando consegue comer um pouco de iogurte e deixar de se alimentar por sonda, quando volta a mastigar e – por fim! – a falar, sem mais necessidade da lousinha que durante tantos meses ele usou para se comunicar-se com o próximo. E quão generosos e decentes podem ser os homens e as mulheres – como ele descobriu por meio das enfermeiras, atendentes, faxineiras e médicos que dia e noite se empenharam em devolver-lhe a saúde e fazê-lo sentir-se querido e protegido por uma muralha de amizade e de amor nesses longuíssimos meses nos quais voltou a ser um ser humano, deixando para trás o semicádaver que era quando chegou.

Há tempos um livro não me entristecia, emocionava e alegrava como Le Lambeau. Quando se acaba de lê-lo, compreende-se que o terrorismo – não só o islamista, mas todos os terrorismos políticos, sem exceção – não ganharão nunca a guerra que desfecharam, apesar dos danos (inúmeros) que podem causar. Não ganharão porque são primitivos e bárbaros. Perpetuam uma tradição que o desenvolvimento humano – a civilização – está fazendo retroceder e voltar às cavernas e é a própria negação das boas coisas que o progresso nos trouxe – a liberdade, a democracia, a coexistência na diversidade, a justiça, os direitos humanos, a igualdade perante a lei. Sem necessidade de se referir especificamente a esses temas, com o personagem lutando para retornar à vida, recordando-se de quão maravilhoso é um bom livro, uma bela sinfonia, o rejuvenescimento que trazem a amizade ou o amor, Le Lambeau nos faz conscientes da estupidez e cegueira que são o fanatismo e o uso do terror, e de quanto avançamos desde os tempos atrozes em que o ser humano ainda era uma fera entre as feras.

Esse progresso é uma realidade para um grande número de países – para muitos outros, por desgraça, ainda não –, e uma prova disso é que Philippe Lançon esteja vivo de novo, tenha sido capaz de escrever esse livro profundo, que Chloé e seus colegas tenham conseguido devolver a seu rosto a humanidade e a harmonia, que ele tenha se casado e, segundo me dizem, esteja comemorando o nascimento de seu primeiro filho. Isso me levanta o ânimo porque vejo em tudo algo de belo e exultante, a derrota da estupidez e da cegueira mental e moral do fanatismo, a vitória da vida.

Um dos episódios mais comoventes – há centenas mais – do livro é quando, em pleno atentado, Philippe tem uma esquisita sensação na boca e descobre que são seus dentes se soltando. Ao amigo comum, que me mostrou outro dia suas fotos de renascido, perguntei se ele viu como ficaram os dentes de Philippe. “Estão intactos, e além disso, branquíssimos”, respondeu. Senti que meu coração transbordava de felicidade.

Gente fora do mapa


Capital do furto de bicicletas

Não fazia nem um ano que eu tinha comprado minha primeira bicicleta nova em Berlim. Na época andava com a grana curta, mas mesmo assim economizei os cerca de 500 euros necessários para o modelo que pude comprar. Não era das mais baratas, mas também estava de longe de ser uma "máquina" entre as magrelas. Minha bicicleta era simples, mas cumpria muito bem suas funções, de transporte pela cidade e também para passeios de longa distância.

Eu estava satisfeita com seu desempenho. Investi também aproximadamente 50 euros num cadeado, pois já tinha ouvido falar sobre os perigos da cidade para ciclistas. Mas esse cuidado de nada adiantou. Estava em Bonn quando recebi a notícia de que minha bicicleta havia sido furtada dentro do jardim interno do prédio onde morava. Ela foi levada na calada da noite. Nem o cadeado sobrou.

Primeiro veio o sentimento de raiva e revolta, mas depois, com calma, acionei o seguro – sim, em Berlim faz muito sentido assegurar bicicletas. Depois de fazer o boletim de ocorrência pela internet, foi só enviar uma cópia da nota para a seguradora. Poucos dias depois o seguro foi pago e uma nova magrela, adquirida. Depois do furto, passei a deixar minha bicicleta na rua, presa em algum poste em frente ao prédio. Assim é mais fácil alguém perceber se estão tentando furtá-la.


Meu caso não é exceção em Berlim. Estima-se que a cada 17 minutos uma bicicleta seja furtada na capital alemã. São cerca de 30 mil por ano (esses foram apenas os casos registrados na polícia). Em 2017, o valor das magrelas furtadas chegou a 18,6 milhões de euros, ou seja, mais de 79 milhões de reais.

O crime é muito popular porque há mercado. Na cidade, há várias feiras das pulgas onde bicicletas em boas condições são vendidas por apenas 50 euros sem nenhuma documentação. Quem compra bicicletas baratas de origem suspeita também tem culpa no cartório por financiar esse negócio criminoso. As leis alemães punem também o receptor de objetos roubados. Caso a pessoa com uma bicicleta furtada seja parada pela polícia, ela terá a bicicleta aprendida e será indiciada. Para o vendedor, a pena pode chegar a cinco anos de prisão.

A polícia de Berlim dá dicas para evitar o roubo. O uso de dois cadeados de tipos diferentes pode ajudar, pois geralmente os ladrões são especializados em arrombar apenas um tipo. Importante também é registrar a bicicleta na polícia. Para o registro é preciso apresentar a nota da compra, e um número é gravado no quadro. Além de assustar ladrões, pois o objeto furtado pode ser mais facilmente identificado, o registro auxilia a localizar o dono caso a bicicleta seja encontrada em algum lugar da Alemanha.

Meses depois do episódio, para minha surpresa, recebi uma carta da polícia informando que a investigação sobre o furto estava sendo encerrada sem resultados e poderia ser reaberta caso novas evidências surgissem. Acho que a carta era mais uma formalidade, afinal a polícia nem mesmo veio até o meu prédio para recolher possíveis pistas ou depoimentos.

As estatísticas mostram que apenas 3,9% dos furtos de bicicletas são elucidados na cidade. Em alguns destes casos foram os próprios donos que acionaram as autoridades após ver um anúncio da venda de sua bicicleta na internet ou localizá-la em algum mercado de pulgas.
Clarissa Neher

Quantos jalecos nacionais substituirão cubanos?

Ao se retirar do Programa Mais Médicos, Cuba forçou o Brasil a lidar com uma encrenca que fora enviada à UTI em 2013 e vinha sendo mantida desde então em coma induzido. De repente, o país foi forçado a lembrar que faltam médicos nos fundões miseráveis do mapa e nas beiradas empobrecidas das regiões metropolitanas. Ao ordenar aos seus doutores que façam as malas, a ditadura de Havana ofereceu aos similares nacionais a oportunidade de informar à opinião pública brasileira se fazem parte da solução ou se integram o problema.

“O Brasil conta com médicos formados no país em número suficiente para atender às demandas da população”, apressou-se em informar o Conselho Federal de Medicina em nota oficial divulgada na semana passada. Há cinco anos, quando os cubanos começaram a desembarcar no Brasil, a mesma entidade reagiu com o fígado: ''Não admitimos uma medicina de segunda para os mais carentes. Até porque quem está no governo, quando adoece, vai para hospitais de primeira linha.''

Faltou dizer que, numa cidade sem médico, não há medicina de segunda nem de primeira linha. Em localidades assim, o que há são doentes desassistidos, tratados como seres humanos de última linha. Ninguém se lembra. Mas nessa mesma época em que a corporação pegou em bisturis para defender sua reserva de mercado, o médico cubano Juan Delgado, recebido com vaias no aeroporto de Fortaleza, iluminou com poucas palavras a falta de nexo da revolta dos jalecos nacionais.

“Vamos ocupar lugares onde eles não vão”, disse Juan na ocasião. “Impressionou-me a manifestação. Diziam que somos escravos, que fôssemos embora do Brasil. Não sei por que diziam isso, não vamos tirar seus postos de trabalho. Isso não é certo. Seremos escravos da saúde, dos pacientes doentes, de quem estaremos ao lado todo o tempo necessário. Os médicos brasileiros deveriam fazer o mesmo que nós: ir aos lugares mais pobres prestar assistência.''

Nesta terça-feira, o Diário Oficial da União publica um edital oferecendo a médicos brasileiros cerca de 8,5 mil vagas ocupadas por cubanos. A novidade foi anunciada na véspera pelo ministro Gilberto Occhi (Saúde), num encontro com prefeitos. No mesmo evento, Michel Temer declarou que nenhum município ficará “desprovido” de assistência médica. Acredita quem quer. Duvida quem tem juízo.

No início do ano, a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) divulgou estudo chamado “Demografia Médica 2018”. Pode ser lido aqui. Revelou a existência de uma quantidade recorde de médicos no Brasil: 452 mil profissionais. Em teoria, isso garantiria 2,18 médicos para cada mil habitantes. Algo muito próximo da taxa registrada em países desenvolvidos como o Canadá (2,7 médicos por mil habitantes) ou Reino Unido (2,8).

O problema é que 63,8% dos médicos brasileiros estão no Sudeste (41,9%), no Sul (14,3%) e no centro-oeste (7,6%). Mais da metade (55,1%) encontra-se nas capitais. O Ministério da Saúde informa que os médicos cubanos distribuíram-se em 2.885 cidades, das quais 1.575 não dispunham de um mísero doutor verde-amarelo. A grossa maioria dos profissionais enviados por Havana foi para áreas paupérrimas do Norte e do Nordeste. Outra parte ficou em áreas periféricas de centros urbanos. A saída dos cubanos deixará sem médico 28 milhões de potenciais pacientes.

A pergunta que se impõe é: quantos profissionais brasileiros toparão ocupar as vagas dos “escravos” cubanos? A julgar pela nota do Conselho Federal de Medicina, as 8,5 mil vagas oferecidas pelo Ministério da Saúde não serão preenchidas facilmente. A entidade condiciona o deslocamento dos médicos a uma inexistente “carreira de Estado”, ao provimento de improvável “suporte” logístico e “remuneração adequada”. Afora o salário de R$ 11,5 mil mensais, não há garantias quanto ao resto.

A reunião da irresponsabilidade fiscal

No mesmo dia em que anunciou um “momento de regeneração”, Jair Bolsonaro foi a uma esquisita reunião de governadores eleitos copatrocinada pelo paulista João Doria. Nada havia sido combinado com sua equipe. O que muitos governadores querem é suspender as exigências e os efeitos da Lei da Responsabilidade Fiscal. Uma legítima superpedalada, capaz de superar os çábios da “contabilidade criativa” que custou a presidência a Dilma Rousseff.

Como o presidente eleito ainda não desceu do palanque, fez brincadeira com a sua presença no conclave: “O que eles querem, eu também quero, dinheiro”. Antes fosse, o que eles querem é atropelar a lei que obriga os Estados a limitar em 60% o comprometimento das receitas com o pagamento de despesas de pessoal


O Rio está com um comprometimento de 81%. Minas Gerais, 79% e o Rio Grande do Sul, 78%. Isso para não se falar no campeão, o Rio Grande do Norte, com 88%. Ao todo, são 17 os Estados que ofenderam a LRF, mas nove governos comportaram-se como deviam.

Os governadores querem mais dez anos de prazo para cumprir uma lei de 2000 e prometem um conjunto de medidas para buscar o equilíbrio financeiro. Velha conversa, como a do Supremo Tribunal Federal que quer o aumento para já, prometendo o fim dos penduricalhos dos juízes para depois. Ademais, dentro de dez anos os governadores serão outros.

Bolsonaro deveria ter desarmado a cilada da reunião, expondo a irracionalidade do pleito. Doria, que governará o Estado que exibe melhor desempenho (54% de comprometimento, graças a Geraldo Alckmin), poderia ter evitado a ribalta.

Para quem temia que depois da eleição viesse mais do mesmo, ressurge a maldição do príncipe de Salinas no romance “O Leopardo”: “Depois será diferente, porém pior”.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Pensamento do Dia


Linha direta com Deus

Enfim, Bolsonaro anunciou o novo ministro das Relações Exteriores. Havia gente reclamando. As falas do governo eleito provocaram atritos para quase todo lado: países árabes, China, Cuba, Noruega e Holanda. A esperança é que um novo chanceler unifique o discurso e o cubra de um verniz diplomático para atenuar os choques.

Mas as ideias do novo chanceler, Ernesto Araújo, acabaram deslocando a inquietação para outro nível. Não as conhecemos no conjunto, apenas fragmentos de artigos teóricos e posts em sua rede social. Ele acha que Trump pode conduzir a salvação de um Ocidente apático, a partir da tradição cultural, principalmente a ânsia por Deus. Como ele, é cético em relação ao aquecimento global. Certamente, será combatido pela sua fé e sua descrença política em fatos em que a maioria dos cientistas acredita.


Isso não me surpreende tanto. Na verdade, a política, num século em que a religião regrediu, procura de todas as formas substituí-la no imaginário popular. Em muitas ocasiões, mencionei o caráter religioso do marxismo, com sua visão de paraíso e seu script determinista da história. Ela nos garante a vitória final, como os cristãos creem na subida aos céus, apesar da sucessão de derrotas cotidianas.

Além das notas sobre o marxismo, tenho mencionado a crítica de John Gray à nova direita inglesa, baseada também na denúncia dos elementos religiosos do Iluminismo, da expectativa de ocupar o mundo com o livre comércio e a democracia liberal.

Numa idade de fé minguante, tanto marxismo quanto liberalismo investem esperanças transcendentais no seu projeto de mudar o mundo. A julgar pelos fragmentos do texto do chanceler Ernesto Araújo, sua concepção é diretamente religiosa. As esperanças transcendentais não se se escondem nem se disfarçam como nas teorias modernas. Elas não substituem uma visão religiosa: são a própria visão religiosa.

Como todo idealismo, você pode discuti-lo por dentro, questionar sua lógica. O melhor, no entanto, é partir do mundo real, onde a política é uma humilde tentativa de acomodação mútua na busca de um modus vivendi. Tanto Bolsonaro quanto Hassan Rouhani, do Irã, têm de traduzir suas crenças em passos concretos e, neste momento, é que serão avaliados com mais rigor.

Tentei colocar a questão da política externa na campanha. Percebi que, em termos gerais, ela não interessava tanto ao público. Selecionei alguns temas: crise na Venezuela, relações com a China, Donald Trump.

Todos sabíamos que a vitória de Bolsonaro representaria uma aproximação maior com os EUA, o que, na minha opinião, é positivo. No entanto, uma coisa é aproximar-se dos EUA. Outra coisa é clonar alguns elementos da política externa americana, como se fôssemos eles. Daí minhas reservas à transferência da embaixada para Jerusalém, à tentativa de buscar um tom específico com a China e a um cuidado maior do que Trump com os acordos multilaterais.

Tudo isso vai ser discutido no seu tempo. Desde já, preocupa-me o embate entre o idealismo e a juventude do novo chanceler com os pragmáticos e calejados negociadores chineses. Kissinger os conhece bem e os retratou no seu livro sobre a China. Trabalham com a perspectiva de gerações, exercitam a paciência e a habilidade nos seus projetos de longo alcance.

Não creio que o melhor caminho seja discutir se Trump é a salvação do Ocidente, e sim analisar soluções práticas do cotidiano, como o rompimento com o Programa Mais Médicos, por exemplo. Bolsonaro expressou sua posição sobre os médicos cubanos durante a campanha. Como vencedor, tem legitimidade para colocar suas ideias em prática.

A única crítica possível, nesse caso, é sobre o timing do rompimento. O ideal teria sido preparar a retaguarda antes que o contrato fosse desfeito. Mas os cubanos sacaram mais rápido, para dramatizar a saída. Milhões de brasileiros ficarão, momentaneamente, desguarnecidos. São pobres, escapam ao radar da grande mídia, pouco influem nas redes sociais.

É difícil argumentar com princípios diante de um asmático em crise, uma forte intoxicação alimentar. Essa é a modulação da crítica ao marxismo, aos neoliberais e aos que atribuem a Deus o dinamismo da história. Todos são projetos políticos que esbarram na imperfeição humana, pouco sabem da tarefa modesta e cotidiana de sacrificar alguns bens para preservar outros.

Um ministro húngaro, após a queda do socialismo, dizia: antes eram uns fanáticos que diziam que o Estado resolve tudo; em seguida, vieram os que dizem que a salvação de tudo é o mercado. Nos Estados Unidos , e agora no Brasil, suprimem-se os intermediários: o assunto é direto com Deus.

Cacoete brasileiro

Transformar os políticos em líderes e esperar que eles desçam do céu para resolver os problemas
Fernando Sabino

16 motivos para pensar que, efetivamente, os japoneses são de Marte

Faz um mês que estou viajando pelo Japão para fazer uma série de reportagens e acompanhar dois grupos do El Pais Viajes. Não é a primeira vez que venho guiando viajantes em sua primeira visita a este país asiático e sempre adoro ver suas reações e gestos quando descobrem as peculiaridades de uma nação inclassificável. Eu me atreveria a dizer que é única no mundo. Tanto que possivelmente não seja deste, mas do espaço exterior. Perguntei a alguns desses viajantes o que lhes causou a maior surpresa entre as singularidades japonesas. Estas são algumas delas:


1. Um país sem lixeiras (nem lixo no chão)

No Japão, as crianças são educadas desde pequenas para não jogar o lixo na lixeira... e a levá-lo para casa. É por isso que quase não há latas de lixo em espaços públicos. Se você tem um papel, uma embalagem ou uma ponta de cigarro ... leva no bolso até chegar em casa. E ainda assim, não se vê nada jogado nas calçadas. Um grupo de marcianos.

2. Você deixa a bicicleta na rua e no dia seguinte ela está no mesmo lugar

O índice de furtos na rua é ínfimo. Em cidades superpopulosas como Tóquio as bicicletas são deixadas nas calçadas, na porta do prédio, com um simples bloqueador de roda (nem mesmo presas com um cadeado a um poste ou uma cerca). E na manhã seguinte, lá continuam. É verdade que é proibido deixá-las em qualquer lugar. Têm de ser guardadas em estacionamentos próprios para bicicletas, que são pagos.

3. Não se fuma na rua, mas é permitido nos restaurantes

É proibido fumar na rua enquanto se caminha porque você pode incomodar ou queimar outro transeunte. Você só pode fumar em áreas demarcadas e sinalizadas da via pública, onde há cinzeiros. No entanto, você pode fumar em restaurantes, se assim o proprietário definir. Ou seja, há restaurantes livres de fumo, outros com área para fumantes e – menos – os com 100% de direito a fumar.

4. Um país sem gorjetas

Não se dá gorjeta para nenhum serviço, e isso é até malvisto. Se alguém deixar cinco ienes do troco na mesa, o garçom persegue a pessoa até a porta para lhe dizer que esqueceu uma coisa.
5. Não há carros estacionados na rua

No Japão, é proibido estacionar em espaços públicos. Se você tem um carro ... ou tem garagem própria ou o leva a um estacionamento público (que custam uma nota). A multa é de 18.000 ienes (650 reais) e você não verá à noite nenhuma cidade com ruas lotadas de carros bem ou mal estacionados.

6. No trem não se fala no celular

O Shinkansen é o sistema nacional de trens-bala que une todo o país em velocidades só comparáveis apenas a sua eficiência e pontualidade. A bordo é proibido falar no celular para não atrapalhar outros viajantes. Mas o mais incrível é que todos obedecem. Como no trem de alta velocidade na Espanha, né.
7. Cachorros-bebês

Para um amante de animais de estimação, o cão ou gato se torna um membro da família. Mas a relação cachorro-dono no Japão rompe todos os limites. Não sei se é pela complicação em ter (e criar) uma criança (o Japão é um dos países com menor taxa de natalidade e um terrível problema de envelhecimento da população) ou por qual estranha razão, mas a verdade é que há uma multidão de casais, muitos deles jovens, tratando seus cães como se fossem bebês, incluindo levá-los em cestos ou carrinhos de bebê.

8. Prevenir, melhor que curar

Nos genes japoneses está escrito que a prevenção é a melhor maneira de evitar males maiores. Qualquer obra pública – mesmo que seja mudar três peças lajotas da calçada – é uma concentração de barreiras de proteção e luzes de advertência coordenados por um exército de trabalhadores usando capacete, óculos de segurança, uniformes e coletes reflexivos. Dois ou mais deles são encarregados de sinalizar a obra para pedestres ou motoristas, se for o caso, apesar da exibição de luzes coloridas, pois pode ser que ainda não as tenham visto.

9. Filas silenciosas

Para um japonês, fazer fila faz parte da rotina diária. E eles fazem isso de uma maneira ordenada, silenciosa e paciente, sem que ninguém sequer pense em furar. O japonês é muito ligado a seguir as novas tendências. Se uma sorveteria se tornou moda, ele não hesitará em passar uma hora na fila ao ar livre para pegar seu precioso (e possivelmente superestimado) sorvete.

10. Banheiros públicos, limpos e gratuitos

Em nenhum outro país do mundo os viajantes que me acompanham viram tantos banheiros públicos e gratuitos. E, ainda por cima, limpos como uma balsa. Mesmo no meio do mato, na estrada para Nakasendo (rota histórica que liga Edo/Tóquio a Quioto) vimos um dia destes um solitário em uma área despovoada e que, para surpresa de todos, ao abrir a porta tinha luz, papel higiênico e um vaso tão limpo que você poderia se sentar nele. De marcianos.
11. Um cartaz para cada situação

Os japoneses não falam nenhuma outra língua estrangeira. Mas há cartazes que explicam tudo. Uma oferta esmagadora de decretos explicativos como se a população fosse composta de crianças de dois anos de idade. De um mapa sobre a situação dos mictórios e vasos sanitários em um banheiro de estrada até como usar um elevador.
12. Ruas sem nome

Não pergunte por quê, mas nas ruas japonesas o nome não é colocado em uma placa. Nem, pelo menos, no início e no final, como no restante do mundo. Isso significa que, se você não for um carteiro, encontrar um endereço será a tarefa dos super-heróis da Marvel. Graças a Deus, existe o Google Maps.

13. Sexo sem penetração

A indústria do sexo é muito poderosa no Japão. Isso deu origem ao fuuzoku annai-jo (literalmente, lugares de informação gratuita), escritórios que informam sobre o lazer adulto e noturno em um bairro, do passeio mais singelo ao sexo pesado. Pode ser a contratação de um host ou hostess (companhia masculina ou feminina para conversar, se vestir de acordo com suas fantasias ou sair para jantar acompanhado/a, tudo muito naif e sem sexo ou toques) ou o passeio de um adulto com uma adolescente vestida de colegial. Também sexo em seus vários graus legais (no Japão sexo por dinheiro só é ilegal se houver penetração).

14. Tudo é reciclável

Nas comunidades do bairro, a gestão de lixo é muito rigorosa. O lixo orgânico é retirado todos os dias, mas o reciclável só uma vez por semana, de acordo com as normas locais. Por exemplo: terça-feira, papel; quarta-feira, plásticos e embalagens, etc. Se você não cumprir, os seus vizinhos te chamam a atenção com muita raiva.
15. Religião pelo civil

A sociedade japonesa é muito moderna, tecnológica e consumista. Mas não hesitam em fazer fila de duas horas – ordenadíssimas, claro – no dia de um festival religioso em um templo específico só para cumprir a tradição de jogar algumas moedas no santuário, bater palmas duas vezes e fazer uma reverência diante do altar.

16. Bondade em abundância

Mas se algo impressiona um viajante novato no Japão acima dessas 15 razões anteriores, é a gentileza do povo. Este é um ditado clássico de muitos países, mas no Japão não é um tópico. É a pura realidade. Peça informações, diga que não entende o cardápio em um restaurante ou entre em um banco para perguntar se trocam dinheiro e eles vão te atender com um sorriso e uma série de genuflexões que farão você se sentir o rei do mambo. Apesar de você não ter entendido nada do que eles dizem, porque nem Deus fala inglês.

NOTA: Todos esses comentários podem levar à conclusão de que nos deparamos com a sociedade perfeita. Mas não é assim. A primazia do público sobre o privado, a elevada auto-exigência no trabalho, as relações pessoais frias e rígidas também geram problemas sociais. Mas esse seria outro debate. Entenda estes 16 pontos como percepções simples de um viajante que descobre as curiosidades de um país estranho. Sem pretensões de filosofar sobre a complexa sociedade japonesa.

'Escola Neutra' é tema de debate na Alemanha

Iniciado em setembro pela bancada estadual da legenda populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) em Hamburgo, o portal online "Neutrale Schule" ("Escola Neutra") permite que alunos denunciem professores que se expressem politicamente em suas escolas. Além de Hamburgo, iniciativas semelhantes já existem em Berlim e também na Saxônia.

Em reunião já no início de outubro, o presidente da Conferência dos Secretários de Educação e Cultura da Alemanha (KMK), Helmut Holter, criticou a iniciativa da legenda populista de direita.


"Por razões atuais, nos posicionamos decididamente contra portais de internet em que alunos e alunas devam supostamente denunciar seus professores devido à alegada influência política", afirmou Holter no encontro em Berlim, acrescendo que, como resultado, isso levaria a um "envenenamento do clima escolar."

Em entrevista ao jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ), a ministra alemã da Justiça, Katarina Barley, também criticou duramente a plataforma da AfD: "A denúncia organizada é um instrumento das ditaduras", afirmou a política social-democrata.

"Qualquer partido que use isso para expor e ridicularizar professores impopulares revela muito sobre sua própria compreensão da democracia", declarou Barley ao Frankfurter Allgemeine Zeitung.

Em sua página de internet, a legenda populista de direita justificou a sua iniciativa como uma forma de "fortalecer o discurso democrático e livre". Com a ação, escreveu a AfD, "nós queremos esclarecer de forma abrangente sobre a legislação que envolve o requisito de neutralidade."

De acordo com a Central Nacional de Educação Política (lpb) da Alemanha, o requisito de neutralidade, adotado desde 1976 nas escolas do país, prevê em seus componentes básicos: "uma proibição da doutrinação e um preceito de apresentar fatos politicamente controversos de forma a capacitar alunas e alunos a desenvolver o seu próprio julgamento sobre temas políticos."

Na semana passada, o Frankfurter Allgemeine Zeitung noticiou que, aparentemente, "a tentativa da AfD de intimidar professores já mostra as suas primeiras consequências.

Segundo o FAZ, a diretoria de uma escola berlinense proibiu os docentes de fixar na sala de professores a carta aberta da iniciativa "Berlin bildet" (Berlim ensina) contra o portal online da AfD. Uma respectiva coleta de assinaturas também foi proibida.

De acordo com o jornal berlinense Tagesspiegel, para a diretoria da escola, a carta aberta violaria o requisito de neutralidade. Os professores afetados recorreram então às bancadas distritais do Partido Verde e Partido Social-Democrata (SPD)

Em requerimento, eles pedem às prefeituras distritais que intervenham junto ao Senado berlinense para que seja garantida segurança legal para os professores.

"É claro que o requisito de neutralidade deve ser respeitado na sala de aula, mas a discussão e formação de opinião política são expressamente desejadas", disse ao FAZ Martina Zander-Rade, porta-voz de política escolar do Partido Verde nos distritos berlinenses de Tempelhof-Schöneberg.

"A escola deve capacitar os jovens a combater as ideias do nacional-socialismo e outras formas de violência, e é por isso que a formação de opinião política dos professores é importante e deve ser conduzida sem medo no espaço protegido da sala de professores", acrescentou Zander-Rade.

"Aparentemente, nem todas as diretorias escolares perceberam que a obrigação de neutralidade político-partidária na sala de aula não implica restrição da liberdade de expressão na sala dos professores", citou o FAZ Kevin Kühnert, porta-voz de política escolar do Partido Social-Democrata em Berlim.

Paisagem brasileira

Paisagem, Durval Pereira

Governo já tem uma cara, a oposição ainda não

Eleito pelo voto do contra, Jair Bolsonaro não adquiriu do dia para a noite o physique du rôle de um presidente da República. Mas o principal atributo que o capitão irradiou no imaginário do seu eleitorado —a sensação de que nada seria como antes— continua presente na montagem do ministério.

Do ponto de vista econômico, o dono da aura de Bolsonaro é o liberalismo radical de Paulo Guedes. E do ponto de vista político, seu governo algemou-se ao prestígio de Sergio Moro, numa manobra cujo êxito dependerá da liberdade que o ex-juiz tiver para infundir na máquina estatal o padrão Lava Jato.


Diante desse cenário pós-tsunami, a satanização de Bolsonaro perdeu relevância. Atônitos, os adversários do novo presidente demoram a perceber algo simples: ninguém se afoga por cair na água, mas por permanecer lá. Restaram à oposição duas alternativas.

Os antagonistas de Bolsonaro podem flutuar agarrados a um feixe de ideias ou ir ao fundo com o sentimento da raiva amarrado ao pescoço. Hoje, a oposição passa a impressão de que procura uma ideia desesperadamente. Mais ou menos como um cachorro que caiu do caminhão de mudança e esqueceu onde escondeu o osso.

Considerando-se que a presidência-tampão de Michel Temer é herança do petismo, a posse de Bolsonaro representará o fim de um ciclo de 16 anos. Temer foi levado ao trono graças à traição de legendas que sustentaram o PT. E manteve na Esplanada figurões que enfeitaram o primeiro escalão de Lula e da própria Dilma.

Mudança drástica e genuína ocorrerá em 1º de janeiro de 2019. Goste-se ou não, o capitão chegou ao Planalto pelo voto. O que torna despiciendo qualquer debate sobre a legitimidade do resultado. Depois da posse, o governo despejará sobre o Congresso suas propostas. E a oposição terá de informar o que quer da vida.

O economista Paulo Guedes colocará sobre a mesa, por exemplo, uma proposta de reforma da Previdência. O ex-juiz Sergio Moro desembrulhará o seu pacote anticorrupção e anticrime organizado. Como votar contra o equilíbrio fiscal e o combate à roubalheira? A qualidade da oposição depende dessa resposta.

Num instante em que o PT continua embrulhado na bandeira ‘Lula Livre’ e o PSDB está em chamas, abriu-se no Congresso uma avenida para o surgimento de uma nova oposição, menos venenosa e mais ativa. A maioria do petismo quer virar a mesa, não sentar em torno dela. O tucanato prefere ficar embaixo da mesa.

Terceiro colocado na disputa presidencial, Ciro Gomes já enxergou as oportunidades que a conjuntura oferece. Mas o esboço de entendimento que existe entre o seu PDT, o PSB, o PPS e a Rede está longe, muito longe de constituir uma frente sólida de oposição.

Por ora, há em Brasília apenas dois polos nítidos de oposição ao projeto de Bolsonaro: o próprio Bolsonaro e os auxiliares dele. O capitão não passa semana sem atirar contra os seus pés. O último disparo foi a indicação do trumpista Ernesto Araújo para o posto de chanceler. E alguns dos seus auxiliares dedicam-se a transformar a transição de governo numa canoa dividida —metade da tripulação olhando para um lado e metade remando para o outro.

domingo, 18 de novembro de 2018

Cortar despesas é importante, porém mais importante ainda é elevar as receitas

A equipe econômica do presidente eleito Jair Bolsonaro, liderada por Paulo Guedes, futuro ministro, tem dedicado suas pesquisas na tarefa de levantar despesas com as quais o governo se defronta e propondo eliminar gastos ociosos. Tudo bem. Essa tarefa é essencial no esforço que o futuro governo vai desenvolver na busca do equilíbrio das contas públicas. Muita atenção vem sendo dada aos gastos com o funcionalismo federal e menor atenção se observa com relação ao aumento das receitas, decorrente de uma ação concreta para cobrar débitos das empresas privadas e também das estatais.

Despesas são colocadas em foco e , com base em seus números, assustam. É verdade. Mas é verdade também que estamos falando num orçamento que este ano oscila em torno de 3,5 trilhões de reais. Aliás, nos três últimos anos as leis de meio situavam-se entre 2,9 trilhões e 3,1 trilhões de reais.

Cito esses números na tentativa de chamar atenção para o peso das despesas, com base na média algébrica e não apenas na média aritmética.


Para a média algébrica tem que se estabelecer os percentuais que revelam peso de cada despesa no total geral. A partir daí pode se ter uma visão mais clara da batalha a ser enfrentada. O orçamento da Previdência, por exemplo, situa-se na escala de 860 bilhões de reais, com um déficit aproximadamente de 160 bilhões. Mas colocando-se a questão na balança algébrica verifica-se que a Previdência Social tem um peso de apenas 25% do total orçamentário.

Até agora a equipe de Paulo Guedes não dirigiu suas lentes críticas para identificar o montante das dívidas de empresas para com a União. Calcula-se, por exemplo, que na área do INSS a sonegação acumulada através das décadas produziu um passivo superior a 1 trilhão de reais. Muita coisa, tanto para o Orçamento de 3,5 trilhões quanto em função do PIB, que é de 6,5 trilhões de reais.

Muitas despesas podem ser cortadas, como os termos aditivos em licitações e a contratação de agências de publicidade, que representam altas cifras e uma produtividade em torno de menos de 5%. Tudo isso precisa ser levado em conta.

Quanto tempo o Brasil tem para ficar 'rico' antes de ficar 'velho'?

Imagine uma casa onde vive uma família formada por pai, mãe e cinco filhos. Com o decorrer dos anos, os pais se aposentam. As crianças, já adultas, trabalham. Mas só uma delas decide ter filhos. Ou seja, se no passado duas pessoas sustentavam cinco, o quadro se inverteu: agora, cinco (filhos) sustentam três pessoas: os dois avós e o neto.

Com mais pessoas trabalhando e menos dependentes, a situação financeira da família melhora consideravelmente.

É mais ou menos como nessa analogia que funciona o chamado "bônus demográfico", termo usado por acadêmicos e estudiosos para definir o período mais favorável da estrutura etária de um país para o crescimento econômico. Nesse período, a proporção de jovens que trabalham e contribuem para a Previdência é maior que a de inativos que usufruem dos benefícios como a aposentadoria.


Basicamente, o bônus demográfico ocorre quando a população em idade ativa para o trabalho (de 15 a 64 anos) passa a crescer num ritmo mais acelerado do que a população total (que inclui crianças e idosos).

Esse impacto demográfico gerado pela combinação da queda na fecundidade (menos crianças nascendo) e do aumento do número de pessoas ingressando no mercado de trabalho tende a fazer a economia de um país prosperar.

Foi o que aconteceu com o Brasil - e com outros países da América Latina - nas últimas décadas.

Especialistas dizem que os países precisam aproveitar esse "empurrão" decorrente da mudança da estrutura etária da população para alavancar sua condição socioeconômica.

Em outras palavras: ficar "rico" antes de "velho".

"O bônus demográfico é o momento ideal para um país dar um salto no desenvolvimento humano e na qualidade de vida da população", diz à BBC News Brasil José Eustáquio Diniz, professor do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence/IBGE).

"Todos os países que atingiram um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) acima de 0,900 passaram pela transição demográfica e aproveitaram adequadamente essa janela de oportunidade. Não há exceção, pois todo país rico em qualidade de vida de sua população passou e aproveitou o bônus demográfico".

"Não existe exemplo de país que tenha desperdiçado o bônus demográfico e tenha avançado para o bloco de cima do IDH", conclui Diniz.

Sendo assim, quanto tempo o Brasil e outros países latino-americanos ainda têm?

No caso brasileiro, a resposta não é muito alentadora, estimam demógrafos.

Segundo as últimas projeções da população do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), essa janela de oportunidade vai se fechar no fim deste ano, cinco mais cedo do que o previsto. Na projeção anterior, divulgada em 2013, o bônus demográfico terminaria apenas em 2023.

Isso marca o começo da trajetória de aumento do grau de dependência econômica de quem gera renda.

Em 2010, por exemplo, havia 47,1 pessoas na faixa etária de dependência para cada 100 que estavam em idade economicamente ativa. Em 2017, essa proporção caiu para 43,9, o menor índice já registrado. No entanto, segundo o IBGE, a partir do ano que vem, o indicador vai subir para 44 - o primeiro de uma sequência de 42 anos projetados de crescimento.

Em 2060, por exemplo, deve chegar a 67,2 (67,2 pessoas dependendo de 100 trabalhando), quando os idosos vão formar 25,5% da população brasileira, ou 58,2 milhões de pessoas. Atualmente, essa taxa é de 9,2% (19,2 milhões).

Diferentemente do Brasil, outros países da América Latina têm mais tempo para aproveitar os benefícios do bônus demográfico.

Na Argentina, por exemplo, essa janela de oportunidades só deve se fechar em 2038, enquanto no México, em 2033, segundo dados da divisão de população da ONU.

Brasil de lado novo


Nem por decreto

A sociedade brasileira é conservadora, afirma-se à boca pequena, e a prova seria a eleição de Bolsonaro, que nunca escondeu sua ojeriza às liberdades no campo das escolhas de vida. Será? Ou o resultado das eleições estaria induzindo a conclusões equivocadas? Como se ele tivesse sido eleito pelas suas opiniões retrógradas e não, como foi o caso para muitos de seus eleitores, apesar delas.

Elegeram-no a exasperação com a violência, a indignação com a corrupção e o maciço apoio das igrejas, estas sem dúvida interessadas na pregação moralista. Uma eleição pode ser um termômetro que, em determinado momento e circunstâncias, indique uma febre que pode ter várias causas, não uma alteração orgânica profunda.

Afirmar que a sociedade é conservadora autoriza o conservadorismo a assumir um protagonismo de suposta maioria, justiceira, transformando quem não se enquadre em suas convicções em inimigo do povo. Serve à intimidação.


O governo terá que respeitar a Constituição, o Congresso e os tribunais. Já a vertente retrógrada da sociedade age por si e se propõe a censurar e reprimir os “dissidentes”. Aí reside uma ameaça real. Manter o clima de polarização da campanha eleitoral só interessa aos que alimentam suas hostes com o nós contra eles.

Passada a eleição, a população volta à realidade multifacetada de suas vidas. A liberdade de cada um ser o que é, antes de ser reconhecida como direito, estava presente na vida dos que por ela lutaram e dos que apoiaram essa luta. Essas forças continuam vivas.

O Supremo Tribunal Federal já se pronunciou sobre questões controversas. A ministra Cármen Lúcia, referindo-se atual“onda perigosamente conservadora”,disse,com razão,que“de direitos fundamentais agente não recua”.

A diversidade é constitutiva da sociedade brasileira. Inscrita nos matizes de pele, sexualidades, nas múltiplas formas de religiosidade e de configurações familiares. É uma construção de gerações. Não se fez da noite para o dia, nem de cima para baixo. Não se destrói por decreto.

A reinvenção da esquerda

A esquerda quer se reinventar (o termo é o que tem sido usado por ela própria). O primeiro passo é descolar-se de Lula e do PT, providência já em curso, sob a batuta de Ciro Gomes, do PDT.

Frustrado em seu sonho de encabeçar, nas eleições de outubro passado, uma chapa única das esquerdas, tendo o PT como vice, Ciro não se cansa de acusar Lula de “traição” – e burrice.

O acordo chegou a ser selado verbalmente, na cadeia, mas, na hora H, Lula, temendo o protagonismo de Ciro, optou por Haddad.


Muita gente na esquerda (até no PCdoB), chocada com a vitória acachapante de Bolsonaro – e com a perspectiva de longo jejum de poder -, subscreve a análise de Ciro, que, para além da mágoa, age pragmaticamente. Tanto assim que já baixou o facho de sua retórica.

O raciocínio é simples: o PT desgastou-se demais, associou-se de modo irreversível a corrupção e incompetência e não tem mais condições de cobrar do governo (qualquer governo) o que quer que seja. Pior: perdeu seus quadros principais.

Seu líder, Lula, está preso, ao lado de outros protagonistas do partido – e outros mais, como José Dirceu, devem lhes fazer companhia em breve. A Lava Jato, fortalecida com a presença de Sérgio Moro no Ministério da Justiça, deve expor mazelas ainda ocultas dos 13 anos em que o partido reinou sobre o país.

Resumindo: o desgaste da sigla tende apenas a aumentar. O PT que hoje sobrevive é uma caricatura do original. O partido que, na sua origem, reunia a elite do sindicalismo e intelectuais da USP, Unicamp e PUC, hoje se vê reduzido a um baixo clero iletrado, que busca compensar suas limitações com pantomimas e insultos.

De Sérgio Buarque de Hollanda, Florestan Fernandes, Hélio Bicudo, Paul Singer, entre outros, o partido desembocou em Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias, Maria do Rosário e Dilma Roussef.

A decomposição qualitativa deu-se no curso do exercício do poder, em que o partido pôs em prática tudo o que condenara, com veemência, em mais de duas décadas de oposição: aliança com as oligarquias mais atrasadas e corrupção, muita corrupção.

O país que recebeu dos tucanos estava bem melhor que o que entregou a Temer, que, apesar de todos os pesares, conseguiu reduzir danos e o repassará a Bolsonaro em melhores condições que as em que o recebeu. A reinvenção parte deste princípio: é preciso mudar a fisionomia da esquerda, torná-la propositiva e idônea – tarefa gigantesca, para dizer o mínimo.

Não basta insultar os adversários, como o próprio Ciro tem o hábito de fazer. José Dirceu, esta semana, constatou que não será curta a passagem de Bolsonaro (e do que genericamente chama de direita) pelo poder. Reconheceu que o novo presidente tem base social e meios para pôr em cena os dois compromissos centrais de sua campanha: combate à corrupção e ao crime.

É cedo para saber a eficácia da estratégia da esquerda. O próprio Ciro, sem mandato, pode vir a ser ultrapassado por outras lideranças. O certo é que o primeiro passo – o descolamento de Lula e PT – indica que já está em curso um processo de autocrítica, indispensável à sobrevivência de quem sai politicamente nocauteado.
Ruy Fabiano

O Deus medieval que TYrump e Bolsonaro tentam desenterrar

Segundo Ernesto Araújo, o futuro ministro brasileiro de Relações Exteriores, Donald Trump e Jair Bolsonaro são dois deuses chamados para salvar a decadente civilização ocidental e com ela os Estados Unidos e o Brasil. Tudo sob o manto protetor do Deus medieval da ira. No Brasil, o país com o maior número de cristãos no mundo, os políticos usam e abusam da religião. Deus de repente se tornou algo perigoso, encarnado no slogan do novo presidente brasileiro, o capitão Jair Bolsonaro: "Deus acima de todos".

No momento histórico em que os políticos brasileiros mais recorreram para sua sobrevivência aos votos das igrejas, nas últimas eleições, é curioso que tenham acabado se precipitando em sua maior crise de identidade. A velha política que se alimentava da religiosidade, sobretudo dos mais pobres, é hoje entregue a uma nova sacralização que coloca Deus no centro da sociedade. E não o Deus da liberdade e da compaixão, mas o Deus das armas, das velhas cruzadas religiosas.


Não é de estranhar que o capitão reformado eleito presidente do Brasil tenha escolhido para dialogar com o mundo um diplomata como Araújo, que pretende salvar o Ocidente voltando a colocar a religião cristã no centro da história. "Só Deus pode salvar o Ocidente", escreveu o futuro ministro de Relações Exteriores, e apresentou como o paladino dessa salvação o presidente norte-americano, Trump, o único que, segundo ele, "pode salvar o Ocidente". Os dois deuses, destinados, segundo o diplomata, a salvar a civilização ocidental em crise seriam nada mais e nada menos que Trump e Bolsonaro.

Vivemos, porém, em um mundo em plena evolução tecnológica, com os horizontes quase infinitos da inteligência artificial e com o Homo Sapiens prestes a dar um salto quântico na batalha final contra a doença, a fome e a violência no mundo. Restringir a rica e milenar cultura ocidental, com sua capacidade de "conduzir a história", na expressão de Lavisse, à volta dos deuses ao governo, com suas teologias castradoras e o peso do obscurantismo medieval, é ignorar o que representou para o mundo e representa ainda hoje a civilização ocidental. É a essa civilização que o mundo, e não apenas o Ocidente, deve as conquistas e os valores mais valiosos da história da humanidade.

Foi o Ocidente que elaborou todos os conceitos sobre os quais os Estados modernos são fundados, desde o Renascimento à Reforma protestante. Foi o Ocidente que elaborou os conceitos de democracia, do iluminismo, do humanismo, da arte e da cultura de vanguarda que nutriram gerações inteiras. Foi o Ocidente que forjou os conceitos da secularidade do Estado, das liberdades democráticas. Foi o Ocidente que sancionou os direitos humanos, incluindo o direito à liberdade, ao voto, ao respeito pelos diferentes e as minorias.

Querer hoje, no Brasil, voltar aos anos mais obscuros do Ocidente, proclamando como seus novos deuses políticos à la Trump ou Bolsonaro, é querer voltar aos tempos dominados pelos dogmas religiosos das igrejas que acorrentavam as consciências, convocavam para as guerras santas e impediam aproveitar a existência em liberdade, atemorizando com castigos e demônios, fogueiras e inquisições.

Será verdade que o jovem Brasil, que carrega em suas veias o sangue da miscigenação, da pluralidade de credos, do gosto pela vida desfrutado em liberdade, deseja ressuscitar os tempos sombrios e autoritários da Idade Média?

O Brasil vai querer voltar à era dos reis e vassalos, dos castelos e muralhas, das guerras religiosas e dos medos da modernidade? O Deus não manipulado pelo poder é aquele que proclamou que seriam felizes os semeadores da paz, e não da discórdia. O deus do Brasil, pelo que conheço deste país, só pode ser aquele dos braços abertos que acolhe sem perguntar em que você acredita, em quem você vota, qual é a cor da sua pele e como quer viver sua sexualidade e criar sua família. Difícil imaginar, apesar da crispação da sociedade, que o deus brasileiro seja o deus da ira. Não combina com o que sempre amou e sonhou.