quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O presidente Renan, da República

Não há, na República brasileira, medalhão mais poderoso que Renan Calheiros. Verdadeiro mandatário do Brasil, ostensivo mandante no país, afronta o Judiciário, manipula o Legislativo para que se conforme de vez em porão para defesa dos interesses individuais de senadores e deputados, subjuga o Executivo e faz com que o Palácio do Planalto trabalhe para ele. E temos aí a cloaca que cavamos para a vida pública entre nós.

Há muitos pais para a criança. De início, Fernando Collor — a origem da compreensão de que, ainda menos que Alagoas, o Brasil pudesse ser uma continental Murici. Depois, Fernando Henrique Cardoso, príncipe do mensalão da reeleição, o intelectual que empoderou Calheiros ao fazê-lo ministro da Justiça. E então vieram Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, os governos petistas, e o paraíso para que Renan Calheiros fosse Renan Calheiros plenamente.

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O senador terá sido — mais que Michel Temer — o oportunista-mor da sociedade entre PT e PMDB e, na prática, o agente que melhor compreendeu o trato entre as organizações e que, portanto, mais recursos acumulou para codificá-lo em linguagem e método. No curso do processo de impeachment, enquanto Eduardo Cunha cuspia seu voo curto de amador, Calheiros, homem voltado para baixo, deu impulso a seu movimento pendular próprio, oscilando de parte a parte, esparramando-se para qual fosse o futuro, ginástica por muitos compreendida como enigmática, mas que outra coisa não foi — justiça seja feita — que transparente. Ele venceu mais uma vez, venceria de qualquer forma — e a geleca moral em que consistiu seu triunfo pode ser resumida na solução inconstitucional que, em apropriada dobradinha com Ricardo Lewandowski, fatiou o gópi contra Dilma.

Não haverá passagem mais significativa do que são Renan Calheiros e o Congresso — que ele, mais do que presidir, governa — do que a crise que o fez declarar, agastado pela histeria bravateira de Gleisi Hoffmann, que intercedera junto ao Supremo Tribunal Federal para que o marido da senadora se livrasse de indiciamento.

A reação imediata do plenário — de espanto, de perplexidade — não se deveu a alguma indignação ante o que se confessara. Não. O faniquito de patriotas como Lindbergh Farias outro não foi que o de um ser traído, manifestação de desespero ao ver exposta ao sol a baixaria do modus operandi daquela gente.

É isso, leitor. Baixaria. A isso se reduziram a vida pública brasileira e a noção de representatividade. Baixaria. Não aquela relativa a costumes e modos, a barracos, mas uma desdobrada em traficância, em pirataria, em troca de favores, em partilha de interesses pessoais.

Todo aquele teatro, todos aqueles ataques entre senadores, que se chamam ao mesmo tempo de vossa excelência e de canalha; todas aquelas diferenças bradadas em suposto prol do debate público e, no entanto, todos (se há exceção, nenhuma capaz de incomodar para além da cena) associados na forma da questão, uma de várias, que os amarra e cala: a tal Polícia Legislativa, equipada para espionagem e contraespionagem, para que existe senão como milícia a serviço de cada um daqueles coronéis — os urbanos, inclusive?

Renan Calheiros quer legislar para coibir o abuso de autoridade — mas é, ele mesmo, a própria encarnação do abuso.

Chegamos, pois, ao dia em que o Supremo se deparou com a chance de normatizar o óbvio: que um réu naquela corte não poderia ser — nem por um instante — presidente da República. Uma questão para aplicação atemporal e impessoal, mas que, naquele momento, projetada a um futuro improvável, ainda assim poderia atingir Calheiros — o segundo na linha sucessória presidencial.

Escrevi “futuro improvável” e explico: embora tenha contra si oito investigações no STF (apenas decorrentes da Lava-Jato) e uma denúncia, esta relativa a episódio de há quase dez anos, ele não é réu em qualquer delas — o Supremo está uma década atrasado em matéria desse senhor e, pois, uma década atrasado em matéria de Brasil — e é certo que não o será enquanto presidir o Senado e puder assumir a cadeira de Temer. Afinal, quando a votação no STF contava com cinco votos a favor da escancarada decência, a depender de apenas um para que batido fosse o martelo, o ministro Dias Toffoli pediu vistas do processo e adiou a decisão.

Era certo — comentado publicamente — que isso aconteceria; falou-se que o Planalto interferira para tanto. Havia só a dúvida sobre que juiz faria o papel. A solução foi coerente, já que Lewandowski não estava presente. E Calheiros venceu mais uma vez — beneficiado por instrumentos constitucionais operados em detrimento do país.

Houve um tempo em que se falava de um baixo clero no Parlamento; mas isso já não faz sentido. É tudo baixo. Uma baixa casta de legisladores em causa própria, cujo líder não poderia ser outro senão Renan Calheiros. Ele — o STF permite — pode assumir a Presidência da República. Mas não precisa, presidente do Brasil de fato que é.

E vocês aí preocupados com Donald Trump e a democracia americana.

Não há passagem mais simbólica de Calheiros e do Congresso que a declaração de que intercedera junto ao STF para que o marido de Gleisi se livrasse de indiciamento.

Responsabilidade fiscal e o meu queijo

Nunca vi tanta gente preocupada com o aspecto macilento e emagrecido do caixa do governo. Reduzido a pele e osso. Em junho de 2014 já estava em milhões de telas de computadores, mundo afora, o alerta que uma analista do Santander fez a seus clientes investidores, antevendo o que iria acontecer com a economia nacional. Não era bola de cristal, mas trabalho sério de quem acha que não se deve brincar com dinheiro alheio. Bola de cristal, bem fajuta e perdulária, era a usada por Dilma, pelos técnicos do governo e por Lula, que assim comentou a circular enviada pela funcionária do banco: "Não entende p.... nenhuma de Brasil" e sugeriu: "Pode mandar embora e dar o bônus dela pra mim, que eu sei como é que eu falo".

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A analista foi imediatamente demitida. O cartão vermelho do governo demoraria ainda dois anos para lhe ser exibido. Também no Brasil, e há bom tempo, técnicos sensatos, comentaristas esclarecidos, economistas experientes alertavam sobre as consequências da irresponsabilidade fiscal. A gastança criminosa promovida pelos sucessivos governos petistas nos conduzia ao inevitável estouro das contas públicas. A história registrará, entre os grandes infortúnios de nossa vida administrativa, a infeliz coincidência de termos vivido o ciclo mais favorável da economia mundial em muitas décadas sob gestão simultânea de uma organização criminosa e do mais destrambelhado dentre todos os nossos governos. Os tempos pródigos ampliaram largamente a voracidade e perpetuaram os danos causados nesse prolongado ataque por dois flancos. Agora são tempos de zelo com as contas públicas. Como é insensível o coração do caixa!

No entanto, esse necessário zelo não vem acompanhado do devido desprendimento. Parece tratar-se de algo que se exige "dos outros" para que as situações particulares permaneçam inalteradas. Todos querem responsabilidade fiscal para que a situação melhore e ninguém mexa no seu queijo (como no bom livro de Spencer Johnson). Imagino essa preocupação povoando, nestes dias, muitas reflexões sobre a situação do país. Deve pensar assim o ministro, viajando em jatinho da FAB. Também o deputado, cujo queijo se chama emenda parlamentar ou verba de gabinete. Não há de querer diferente o beneficiado pelo queijo da isenção fiscal ou do juro privilegiado. São perfumados os queijos especiais havidos por cargo ou função, por vaga nos superpovoados gabinetes políticos e por aposentadorias precoces. Há tantos queijos em busca de proteção! Eles se chamam, ainda, cartão corporativo e bolsa-empresário. E se chamam mordomias, têm carro oficial, motorista, garçom, copeiro e segurança. Imagino a multidão de seus usufrutuários a sonhar com um Brasil onde a austeridade geral permita que nada mude.

O exercício dos poderes de Estado não pode ocorrer na ausência do mais elementar senso de justiça. O Brasil precisa que seus cidadãos submetam às suas próprias consciências uma PEC das boas condutas e dos bons exemplos. Quando o avião sacode, balança inteiro, da primeira classe ao porão de carga.

Percival Puggina

Paisagem brasileira

Praia em Paquetá, Carlos Balliester (1907)

O que faz falta

Na semana em que a República completa 127 anos, o Senado Federal acaba de aprovar em primeiro turno a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que trata da reforma partidária e estabelece, entre outros dispositivos, a chamada cláusula de barreira.

Com a derrocada do lulopetismo nas últimas eleições, o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a avanço implacável da operação Lava Jato, a reforma política no Brasil dá sinais de que pode vingar. E com ela podem surgir regras mais restritivas para que os partidos tenham direito de acesso aos recursos do Fundo Partidário e à programação eleitoral no rádio e TV. Medida crucial para reduzir o exagero de o país ter nada menos do que 35 partidos registrados, muitos deles só para se beneficiar de recursos públicos. Outros tantos, mais de 30, já solicitaram registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O Partido dos Trabalhadores, claro, se colocou contra a PEC. Alega que vai se manter solidário e defender os partidos nanicos e estridentes de esquerda, seus aliados tradicionais.

Nos países de democracia consolidada é absolutamente natural a existência de partidos fortes e com perfis ideológicos claramente definidos: de esquerda e de direita. Também é natural a alternância de poder entre estas forças opostas. E não há problema algum em ser de direita ou de esquerda. Políticos chamados conservadores deram importantes contribuições a seus países e ao mundo. Charles de Gaulle na França, Konrad Adenauer na Alemanha, Winston Churchil, na Inglaterra, e tantos outros. O mesmo ocorre com a turma progressista.

No Brasil faz falta a existência de partidos verdadeiramente comprometidos com os valores republicanos. Não se vê força alguma na defesa intransigente e permanente de uma organização democrática, com sistema verdadeiramente representativo e garantias constitucionais. Certamente a cultura política nacional estaria muito mais avançada se os homens públicos de hoje se empenhassem em fortalecer as instituições. Mas o que se vê são práticas que corroem as instituições por dentro, guiadas exclusivamente por ambições pessoais.


Temos um modelo perverso de governabilidade, baseado em traços comuns entre a esquerda autoritária, o centro pantanoso e a direita fisiológica: o patrimonialismo deslavado e a corrupção generalizada.

Esta lógica no Brasil fortaleceu a geleia ideológica, argamassa do assalto, sem limites, aos cofres públicos.

É verdade que, nos últimos 13 anos, o patrimonialismo, o fisiologismo e a corrupção não foram exclusividade de uma ou outra corrente. Com raras exceções, partidos e políticos tidos como de direita, esquerda ou de centro se esbaldaram nestas práticas.

Ao chegar ao poder, partidos da esquerda autoritária aderiram e inovaram na ação antirrepublicana, como ficou patente nos episódios do mensalão e do petrolão, investigado na Lava-jato. Temos, no Brasil a maléfica simbiose entre a esquerda totalitária com partidos e políticos historicamente fisiológicos.

A degradação ideológica levou a isto: o embate não é mais entre esquerda e direita, mas sim entre forças patrimonialistas e forças republicanas.

A lógica binária direita versus esquerda é pequena. Não explica uma realidade mais complexa. Existem esquerdas autoritárias e esquerdas democráticas. Assim como pode haver direita patrimonialista e direita republicana.

A reforma política é necessária não só para reduzir número de partidos, mas para dar coerência de valores e princípios aos que se consolidarem. Sejam de esquerda ou de direita.

É isso que faz falta.

Senado tem tantas câmeras quanto o Rio

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O Senado, onde circulam 20 mil pessoas por dia, gastou mais de R$10 milhões em instalação e manutenção de mil câmeras de segurança, quantidade semelhante às instaladas no Rio de Janeiro, cidade de 7 milhões de habitantes que sediou a Copa e Olimpíadas. Só para fazer o projeto e instalar as câmeras, o Senado gastou R$5 milhões, pagos a só a uma empresa, que levou outros R$3,2 milhões para “trocar cabos”.

Os altos valores e o monopólio de uma empresa levou a Polícia Federal a abrir investigação sobre os contratos, em 2015.

Servidores e até senadores dizem se sentir “monitorados” não apenas pelas câmeras de segurança. Suspeitam até de escutas ilegais.

Como destruir um Estado

“Se não mexer na Previdência, viramos a Grécia”. O título merece a atenção do leitor para a entrevista que ocupou uma página no caderno de Economia do Estadão de domingo 13 de novembro. O protagonista, ouvido pelos repórteres Mônica Ciareli, Wilson Tosta e Vinicius Neder, é Luiz Fernando Pezão, do PMDB de Sérgio Cabral, por sua vez subPT de Lula e Dilma.

As notícias que ele dá têm o impacto de uma bomba nuclear e merecem atenção. “Temos 100 coronéis (da Policia Militar) na ativa e 600 aposentados ganhando R$ 23 mil (por mês). Se aposentaram com 48 anos, 49 anos. Você acha que essa conta vai fechar?”, perguntou aos repórteres (e ao leitor), em tom de cobrança. Se o ET, de repente, pousasse no Porto Maravilha (obra da Olimpíada), poderia perguntar: “Ei, moço, a culpa é do jornal ou do bispo de Garanhuns?”.

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E ainda: “Tenho mais professor inativo do que ativo, em um momento em que a população está demandando mais serviços, porque ninguém tem mais dinheiro para pagar plano de saúde e colégio particular”. Ou seja: será a culpa do fluminense que perdeu o emprego, a renda e os luxos a que estava acostumado? De Carlos Lacerda, que foi governador da Guanabara e deu a seus sucessores o péssimo exemplo de governar bem? Ou podemos imaginar que o desafio tenha sido feito numa mesa branca a Marcelo Alencar, outro governador medíocre? Que nada! O entrevistado é o atual governador do Estado do Rio de Janeiro. Na História será lembrado como um Zé das Couves que ocupou um lugar para o qual não estava preparado e terminou entrando na História por ter reduzido a ex-Cidade Maravilhosa a cenário de um filme B de terror.

O leitor do Estadão foi contemplado com um trabalho de edição exemplar, no qual a ruína é dissecada, pedra a pedra, picareta por picareta. Ao lado da entrevista cínica, foi editado um quadro completo do atoleiro fiscal. Nele 11 pontos mostram como governos corruptos, irresponsáveis e incompetentes destruíram o Estado do Rio e deixaram o legado assustador de uma dívida de R$ 17,5 bilhões.

A desventura começou com uma notícia excepcional. No litoral de Campos de Goitacazes repousa a maior reserva de petróleo do País. Ali, após pesquisa de anos, a Petrobrás concluiu que havia uma jazida enorme de óleo cru nas profundezas, sob a camada do pré-sal. A desassombrada capacidade de mentir do ex-governador Sérgio Cabral e dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff – PT e PMDB de mãos dadas e sujas de graxa – os tornou parceiros na ventura de um enorme potencial de riqueza fácil: o ouro negro a ser extraído do fundo mais profundo do mar. Em 2014, ano em que Dilma foi reeleita, entraram nos cofres estaduais fluminenses R$ 10 bilhões, reduzidos a R$ 5,6 bilhões em 2015 e R$ 3,48 bilhões pingados este ano (menos 60% em dois anos). A previdência estava ancorada nessa miríada de mil e uma noites. E afundou.

O segundo ponto foi a crise da Petrobrás. Padim Lula convocou o mundo para aplaudi-lo na Bolsa de Valores de São Paulo, ao festejar a maior capitalização da história do capitalismo: o exponencial crescimento da Petrobrás, com sede no Rio. Mas a Operação Lava Jato desvendou nos seus porões o maior escândalo de corrupção da História da humanidade. A maior estatal brasileira deve R$ 332,4 bilhões, sofreu com a queda do valor do barril no exterior e com o congelamento do preço do combustível nos postos para mascarar a inflação. Aí, a cadeia de óleo e gás naufragou.

O propinoduto de grandes empreiteiras, como Odebrecht e Andrade Gutiérrez, paralisou sua atividade e as tornou componentes da recessão que fechou empresas e desemprega 12 milhões de brasileiros. A queda de sua participação na receita do Estado foi de R$ 61,5 bilhões para R$ 44,8 bilhões (menos 20% em termos reais). Em dez anos, o Rio informa ter perdido R$ 9 bilhões em investimentos, por causa da guerra fiscal entre os Estados da Federação.

Em 2014, o governo fluminense reajustou o salário de servidores de 41 categorias e isso onerou a folha de pagamento em R$ 2,7 bilhões. Do déficit projetado de R$ 17,5 bilhões, R$ 12 bilhões são destinados a aposentados e pensionistas. De 2010 a 2015, a dívida pública aumentou 81,6%, ou seja, quase dobrou: de R$ 59,2 bilhões para R$ 107,5 bilhões.

O oitavo ponto é o gasto com a Olimpíada. Sérgio Cabral, o patrono de Pezão, participou da festança de 2009, em Copenhague, ao lado de seu inspirador, Lula da Silva, quando o Rio venceu Chicago, sob os auspícios de Michelle e Barak Obama, Madri e Tóquio, e se tornou sede da Olimpíada de 2016. Tudo a ser financiado pela iniciativa privada, conforme juraram o ex-presidente, sua sucessora, o então governador e o prefeito da cidade-sede, Eduardo Paes, da mesma patota. Pois sim: findos os jogos, feita a conta, coube ao Estado bancar a bagatela de dez projetos, que custaram a ninharia de R$ 9,7 bilhões.

Em 2015, para pagar suas dívidas, o fundo de previdência captou nos EUA US$ 3,5 bilhões (R$ 12 bilhões) em títulos com lastro em royalties de petróleo. O preço do produto desabou e a Rioprevidência não conseguiu pagar o débito. Coube ao Tesouro honrá-lo. Ou seja, o contribuinte paga a conta que Cabral e Pezão gastaram. De 2007 a 2014, foram dados em benefícios a empresas R$ 185 bilhões, com renúncia efetiva de R$ 47 bilhões.

O Legislativo e o Judiciário também fizeram festa paga pelo bolso de todos os fluminenses. De janeiro de 2007 a dezembro de 2015, as despesas da Assembleia Legislativa cresceram 90%. As da Justiça, 145%. E as do Ministério Público, 181%. Junto ao 11º ponto, o Estadão informou que no período a inflação medida pelo IPCA/IBGE foi de 71,82%

Na última resposta da entrevista Pezão não se fez de rogado. Disse que o problema não é só do Rio, mas do Brasil todo. O pior é que ele tem razão. Seus padroeiros deram as de Vila Diogo e imitaram João sem braço. Sérgio Cabral é tido como desaparecido. Lula da Silva, falando para 300 gatos pingados na Casa de Portugal, culpou Temer, que foi vice de Dilma e hoje governa, pelo desemprego e pela queda de renda dos trabalhadores, que estão pagando a conta e não participaram da farra fiscal que está levando o Rio e o País à matroca.

Ao sugerir intervenção federal, Pezão cobra pesado resgate pelo sequestro do Estado, como se chefiasse uma milícia de subúrbio. Mas Temer garante que não aceitará a chantagem, sabendo que, se intervier no Estado do Rio, terá de adiar seus projetos no Congresso para reformar a Constituição e içar o Brasil do pré-sal da recessão. Vai saber…

José Nêumanne

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Ocaso da ideia-força

Quando, em 27 de janeiro de 1945, as tropas do Exército Vermelho libertaram os sobreviventes dos campos de extermínio de Auschwitz e Birkenau, revelando ao mundo os horrores do holocausto – muito mais do que a heroica vitória de Stalingrado –, o fascínio do marxismo entre os intelectuais ganhou uma nova aura humanista. A Revolução de Outubro (que no próximo ano completará 100 anos, no dia 7 de novembro), tornara-se uma ideia-força no Ocidente, o que possibilitou o surgimento de grandes partidos comunistas, além de legitimar a ocupação soviética dos países do Leste europeu.

Nem mesmo o relatório de Nikita Kruschov, no XX Congresso do PCUS, em fevereiro de 1956, ao revelar os crimes de Josef Stálin, abalou a fé quase religiosa de que o mundo caminhava para o socialismo. A primeira rachadura política só viria com a invasão da Hungria, em outubro do mesmo ano. Foi preciso o fim da Primavera de Praga, com a invasão da antiga Tchecoslováquia pelo Pacto de Varsóvia, em 1968, para que a ficha caísse: o “socialismo real” havia perdido sua força transformadora e se tornara um regime autoritário e burocrático.

trabalhadores

Mesmo assim, com a Doutrina Brejnev e a “guerra fria”, a Revolução Cubana e a Guerra do Vietnã, os dogmas comunistas continuaram influentes na esquerda mundial, ainda que a maioria dos intelectuais passasse a questioná-los. A perestroika de Gorbatchev, ao final dos anos 1980, chegou a realimentar as esperanças de que os países socialistas encontrassem o caminho da democracia. Mas não foi o que aconteceu. Com a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética (1922-1991), o modelo comunista implodiu. Certas ideias do líder da Revolução de 1917, porém, continuam sendo defendidas pelo mundo afora, com base nas realizações econômicas, sociais e científicas do socialismo na URSS.

No Brasil, o declínio do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que abandonou a foice e o martelo e se transformou no PPS, coincidiu com a ascensão do Partido dos Trabalhadores, inspirado no Movimento Solidariedade, do metalúrgico Lech Valesa, líder operário católico da Polônia, que liderou grandes greves nos estaleiros de Gdansk. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu fundador e líder máximo, conseguiu reunir num partido de massas sindicalistas, militantes católicos e remanescentes de organizações de extrema-esquerda que consideravam o antigo Partidão uma força conciliadora e reformista.

Talvez por causa da presença de intelectuais marxistas na sua fundação, mesmo se proclamando um partido anti-leninista, o PT acabou adotando um dos principais dogmas de Lênin, o líder comunista que comandou a revolução de Outubro: a tese de que o partido seria a vanguarda de todos os explorados e oprimidos da sociedade. Apesar da presença de sindicalistas de origem operária na cúpula da legenda, o PT tornou-se um partido de servidores públicos, e de uma grande massa popular beneficiada pelos programas de transferência de renda durante os governos Lula e Dilma, principalmente o Bolsa Família.

Entretanto, a ideia-força de que o “ser operário”, encarnado pelo ex-presidente Lula, ao se libertar (no caso, chegar ao poder), libertaria todas as demais classes exploradas e oprimidas continuou no imaginário de intelectuais e artistas que gravitam em torno da legenda. É uma situação muito parecida com a da França no imediato pós-guerra, quando a esmagadora maioria dos intelectuais franceses era militante, simpatizante ou aliada do Partido Comunista, com exceção da corrente liderada por Raymond Aron, autor do polêmico livro O Ópio dos Intelectuais (Três Estrelas). No Brasil, tal fenômeno só não se repetiu na mesma escala, no imediato pós-guerra, por causa do apoio do líder comunista Luís Carlos Prestes à permanência de Getúlio Vargas no poder, o chamado “Queremismo”, o que provocou rupturas importantes, como a de Caio Prado Júnior.

A tese marxista do “ser operário” como “classe geral”, ou seja, aquela que libertaria todas as demais da exploração e opressão, foi completamente ultrapassada pela terceira revolução industrial e a automação. Do ponto de vista objetivo, o “ser operário” é uma espécie em progressiva extinção. Mas permanece sendo a aura do PT (nos dois sentidos, o vulgar e o científico), o que mantém em torno de Lula todas as correntes da legenda, apesar do desgaste causado pela Operação Lava-Jato e do isolamento político revelado nas eleições municipais. A concepção de centralidade do “trabalho” no projeto político, porém, já foi duramente critica por Hanna Arendt, em A Condição Humana(Forense Universitária/Saraiva), para quem essa seria uma raiz de pensamento totalitário. Ao subordinar toda a construção política ao “labor”, cujo auge foi o “stakhanvismo”, o “socialismo real” derivou inexoravelmente para o autoritarismo. A verdadeira condição humana, na visão da filósofa judia alemã, é o “pensar e agir politicamente” em regime de liberdade.

Imagem do Dia

Paradise ~ By Kiyoshi Iida:
Kiyoshi Iida

A eloquência e o brasileiro

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A eloquência marca Sloper que nos desgraça é com certeza resultado da preocupação de fazer literatura a muque. Entre nós quase toda a gente pensa que literatura é arrevezamento, ginástica verbal, ilusionismo imaginoso, hipérbole sublime. E devido a isso mesmo há no Brasil muitos cavalheiros que falam mas poucos que dizem. Falam até debaixo d’água. Não dizem coisa nenhuma. De tal forma que hoje em dia o conceito de literatura é até pejorativo.

— Não presta para nada esse artigo. É só literatura.

Aí está. A culpa é inteirinha dos que a ela se dedicam, banalizando-a, pondo-a ao alcance de toda a gente, com o objetivo de embasbacar até um limpador de trilhos da Light.

* * *
Aliás para ser franco, ninguém se diverte mais do que eu com as asneiras dengues e sonoras dos oradores de minha terra. Sou leitor fanático dos apanhados jornalísticos das sessões no nosso Congresso, na nossa Câmara Municipal, das excursões políticas, das reuniões de agricultores, comerciantes e homens de letras, de todas as assembleias, de todas as festanças e comemorações discursadas.

Leitura ainda mais hilariante que a dos livros de Jerome K. Jerome. Nem se compara.

Entre os nossos vereadores e parlamentares, principalmente, há cada campeão em matéria de retórica edição Quaresma da gente ficar de boca aberta. Até entrar mosca. É verdade.

Pessoal danado para dizer bobagem com ênfase. Nunca vi. A idéia vem sempre vestida de cores escandalosas, amarrada com laçarotes de penteado de negra, toda arranjadinha para dar bem na vista.

Todos os discursos têm um trechinho imutável que eu não me canso de saborear. É quando o orador alude humildemente à miséria cearense dos seus dotes oratórios.

É assim:

O Sr. Sesostris da Cunha — Embora reconheça, Sr. presidente, que minha desautorizada voz, tão desafeita à tribuna, vem quebrar a harmonia (não apoiados gerais).

O Sr. Amazonas Neto — V.ex. é um belo orador. Todos nós o ouvimos sempre com imenso prazer (apoiados gerais).

O Sr. Sesostris da Cunha — Muito obrigado a v. ex. Como ia dizendo, Sr. presidente, sem embargo…

Delicioso. E fatal. Mas, sobretudo, delicioso.

* * *
Eu sei que estou sendo irritante. Paciência. Sei perfeitamente que nesta terra o que eu estou fazendo se chama falar mal. Paciência. É sempre melhor do que falar bem. Compreendam-me.

João Filipe, que foi ministro de Floriano e hoje é professor jubilado da Politécnica do Rio, velhinho moço de sarcasmo estupendo, desabafou certa vez comigo:

— Eles são bestas e não querem que a gente tome nota.

Eu tomo, sim.
Alcântara Machado (1901-1935)

Retrato do populismo petista

A constatação da existência de irregularidades no pagamento do Bolsa Família a cerca de 1,1 milhão de famílias – o equivalente a 8% dos quase 14 milhões de famílias inscritas no programa – levou o governo a cancelar 469 mil benefícios e bloquear – até que as objeções levantadas sejam esclarecidas, num prazo de três meses – o saque de outras 654 mil contas em todo o País. Explicou o ministro Osmar Terra, do Desenvolvimento Social e Agrário, que não se trata de “corte ou economia de recursos, mas do necessário controle de gastos”. E acrescentou: “O objetivo é separar o joio do trigo. Quem realmente precisa vai continuar recebendo o benefício”.

Um pente-fino no Bolsa Família era indispensável diante das evidências de que os governos petistas, por criminosa negligência ou simples incompetência, haviam perdido o controle do programa. Há cerca de dois meses, no início de setembro, o governo Temer anunciara a decisão de fazer uma ampla varredura no cadastro do Bolsa Família, com a intenção de garantir que, depurado dos pagamentos que vinham sendo indevidamente feitos, o programa passasse a beneficiar um número maior de famílias realmente necessitadas de ajuda.


As irregularidades que agora começam a ser corrigidas foram apuradas mediante o cruzamento de informações de 6 bases distintas de dados: o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas, o Instituto Nacional do Seguro Social, o Sistema Integrado de Administração de Recursos Humanos, o Sistema de Controle de Óbitos e a Relação Anual de Informações Sociais.

A existência de mais de 1 milhão de benefícios suspeitos de estarem sendo concedidos indevidamente não é surpresa ao cabo de mais de uma década em que o Bolsa Família foi manipulado pelo lulopetismo como poderoso instrumento para a consolidação de seu projeto de poder. A história é conhecida, revelada anos atrás pelo ex-petista Hélio Bicudo, e remonta ao início do primeiro mandato de Lula, no momento em que o comando político do governo promovia a transformação do projeto original, Fome Zero, em Bolsa Família.

O Fome Zero era, mais do que um programa de transferência de renda, um amplo, complexo e dispendioso projeto de inclusão social que demandaria tempo para ser implantado e para produzir efeitos políticos. Em reunião no Palácio do Planalto, os responsáveis pelo Fome Zero, entre eles Hélio Bicudo, questionaram o então ministro José Dirceu, chefe da Casa Civil de Lula, a respeito da troca de um programa socialmente reestruturante que ambicionava promover uma transformação social, por outro que atingiria desde logo uma quantidade muito maior de beneficiários, mas praticamente se limitaria àquilo que o Fome Zero também previa: a transferência direta e mensal de uma “renda mínima”. A explicação do chefe da quadrilha do mensalão foi curta e grossa: “O Bolsa Família representa 40 milhões de votos”.

O Bolsa Família, de qualquer modo, cumpre o papel de prover minimamente necessidades materiais básicas, como a de ter o que comer, de uma população carente de outras fontes suficientes de recursos. Nem se trata de questionar, como ocorreu no passado dentro do próprio governo petista, a capacidade desse programa de abrir de fato a possibilidade de futura inclusão dos desvalidos na vida econômica do País. Mas é claro que, tendo sido o Bolsa Família concebido primordialmente para garantir ao lulopetismo um curral eleitoral de “40 milhões de votos”, durante os governos Lula e Dilma ninguém se preocupou para valer com o controle rigoroso dos cadastros. Daí aberrações como as reveladas agora, de que pelo menos 3 mil famílias beneficiárias do programa fizeram doações a campanhas eleitorais no pleito municipal.

A oposição sem voto já acusa o governo de promover “cortes” no Bolsa Família como prova de sua intenção de reduzir os investimentos sociais e, conforme o que está proposto na PEC do Teto de Gastos, “congelar” gastos na educação e na saúde. É um discurso fácil e mentiroso que tem, de qualquer modo, apelo emocional. Mas as eleições municipais demonstraram que os brasileiros estão desiludidos com esse populismo de esquerda campeão na promessa de “distribuição” da riqueza, mas absolutamente incompetente na tarefa de criá-la.

Repúblicas:do Brasil, dos EUA

República dos Estados Unidos do Brasil, definia a nossa primeira Constituição da era republicana, promulgada em 1891. Já naquela época o modelo inspirador era o da República dos Estados Unidos da América.

Há 127 anos somos um regime republicano presidencialista, federalista e com legislativo nacional bicameral. Separou-se a igreja do estado, creia. Proclamou-se o “sufrágio universal”, mas, mesmo com o regime já maduro, só escolhiam parlamentares e governantes os homens que soubessem ler e escrever... Tramoia? Um dos líderes da Proclamação da República, Aristides Lobo, disse que “o povo assistiu bestializado” o grande acontecimento. Truque? O 15 de Novembro resultou da ação de um grupo de oficiais militares, com algum apoio de setores urbanos, contra a elite civil das velhas oligarquias do Império.

Muitos chamam o presidencialismo que temos de mitigado, ou de coalizão – que mais parece de colisão ou, para evitá-la, de cooptação. Trapaça? E o nosso federalismo, da autonomia dos estados, como anda? Está escrito até hoje que Executivo, Legislativo e Judiciário são poderes harmônicos e independentes. Sob o ponto de vista tributário, o desequilíbrio é grande: dos impostos arrecadados, 58% vão para a União, 23% para os estados e 19% para os municípios. Fora o que é sonegado, quase o mesmo do devido e pago. República do trambique?

Enquanto isso, a República dos Estados Unidos da América do Norte acaba de eleger - por um sistema que pode fazer com que a maioria dos votos nacionais totais não corresponda à de delegados – um Donald que é Tio Patinhas. Pleito truncado? Trump, o sonegador ‘outsider’, não se inibiu em mostrar a face machista, xenófoba, antiecológica e preconceituosa na campanha. Representou milhões de norte-americanos que querem “a América grande de novo”, seus empregos de volta, fronteiras muradas e vida em padrões absolutamente conservadores. Sentem-se perdedores com a globalização. A Ku Klux Klan e os neonazistas festejam. Época trevosa...

Apesar dos revezes, impõe-se insistir na revitalização da democracia, na qual a cidadania ativa, plural e informada terá participação permanente. A voz planetária sensata e progressista foi, mais uma vez, a do papa Francisco. No 3º Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em 5/11 passado, ele proclamou: “Expressamos a mesma sede de justiça e o mesmo grito: terra, casa e trabalho para todos! Para caminhar em direção a uma alternativa humana diante da globalização da indiferença, é preciso colocar a economia a serviço dos povos, construir a paz e a justiça e defender a mãe Terra”.

O papa, a despeito da estrutura monárquica do Vaticano, é um republicano de verdade.

O diabo por aí...

Nos Estados Unidos, dizem, ele saiu dos grotões – da gente do campo, dos trabalhadores das pequenas cidades, das gentes simples, sem diplomas – para somar votos com os universais reaças e deu uma histórica trumpada lá e no mundo. O topetudo Trump será o 45º Mister Presidente dos USA.

“Cada americano terá a oportunidade de realizar seu potencial máximo. Os homens e as mulheres esquecidos de nosso país Cada não serão mais esquecidos. Vamos consertar nossas cidades e reconstruir nossas estradas, pontes, túneis, aeroportos, escolas, hospitais. Vamos reconstruir a nossa infraestrutura, que se tornará, por sinal, inigualável, e vamos colocar milhões de pessoas para trabalhar enquanto a reconstruímos.”

Amém, com água benta. Porque diabo que é diabo mesmo, fala A e faz B.

Aqui é alhures, o diabo aparece quando a economia trupica. E, nos detalhes, faz impensáveis diabruras. Depois, quem sobrevive, vê o enxofre, quente e fedorento, puxando um cordão de reaças. Eles são siameses. Estão sempre coladinhos, coladinhos. Um puxa o outro vem.

Esqueça a história de Céu e Inferno. É lirismo. O diabo mora mesmo entre nós, escondido nos detalhes. Há séculos. E o lúcifer não é nada etéreo, mas palpável, velhoso e guloso. Esqueça também a serpente. O maligno mudou a fantasia faz tempo. Aparece ora ruivo, ora com pinta de vampiro sempre engasgado, que limpa bem a garganta para cuspir fogo “ninóis”. E como cospe!

Do macro pro micro, o velho diabo vive sempre encastelado nos detalhes.

Se não é o diabo, o que será então etiqueta sintética, costurada com linha sintética até em roupas 100% algodão?

Qual de nós mortais nunca teve que buscar correndo uma tesoura - em qualquer lugar que esteja, no meio de um dia de trabalho, numa festa, jantar, velório - para tirar a etiqueta de uma roupa que estava pinicando?

Se não é o diabo, que imbecilidade motiva a indústria de roupas a costurar as etiquetas com linhas de nylon – mais sintéticas que garrafas pets? Pior ainda. Às vezes, a própria etiqueta é sintética de cabo a rabo. E vem costurada com pontos tão miúdos e apertados que fica impossível retirá-la sem danos à peça.

Linhas e etiquetas sintéticas são o demo em pessoa - pinicam, arranham, provocam alergia.

E o pernilongo então? Não é o diabo encarnado naquele minúsculo voador de fino e persistente motorzinho? Noite amena, banho delicioso, lençóis limpos, quarto cheiroso. Você, na expectativa do melhor sono da vida, apaga até a mais suave luz do cômodo, deita, acomoda-se e fecha os olhos.

Zummm! Lá vem o maldito, saído das profundezas, para enxofralhar sua pretendida doce e perfeita noite. Embaça.

Se não é o diabo, o que serão então as tampinhas e lacres dos comestíveis nacionais?

Na Europa, USA, Argentina, Uruguai... você compra um iogurte, um leite, um suco, água, pacote de biscoitos, latas de sardinha, atum, segue as instruções do modo de abrir e funciona. A tampa, o selo, o fio saem inteiros, deixando o produto prontinho para ser consumido. No Brasil, não. Eles quebram rasgam, racham, saem pela metade.

É ou não é o tinhoso infiltrado na linha de produção?

Já viu bico dosador de azeite, embalado aqui, funcionar efetivamente como dosador? Aliás, funciona - como cachoeira.

Já viu rolo de papel higiênico abrir sem que seja preciso arrombar a cola da primeira volta, destruindo junto muitas outras voltas? Na França, Portugal, China... sim. Aqui, nunca.
E vale para todas as marcas, de todas as texturas e preços. A cola, seguro, estará sempre grudada nas tais muitas outras voltas do rolo. E, se a necessidade for muito premente, só golpes ferozes de todas as unhas conseguem o feito de romper o lacre. Isso, claro, destruindo um terço do papel em questão, para que ele comece, efetivamente, a rolar e servir ao que se propõe.

Por que, hein? Não pode ser só maldade, incompetência, ou técnica safada para multiplicar o lucro. É coisa do maligno, sempre tarado por infernar nos detalhes. A tinta amarela da cabeleira do Trump, por exemplo. Coisa dele.

O papel higiênico, coitado, pode render um tratado de belzebuzices.

Nos ambientes de trabalho, com banheiro coletivo, o cão tinhoso não falha. No modo tentador, o cornudo paralisa as mãozinhas do colega que usa a última volta do papel higiênico. Tomado pelo egoísmo advindo do tendeiro, não pensa que seu sucessor naquele compartimento só dará pela falta do papel depois de realizada a necessidade.

E o tinhoso fica ali, na espreita do constrangimento. Adora a cena.

A vítima, tentando não comprometer seu underwear, sai furiosa a cata do papel salvador. É isso ou improvisar com o caroço dos rolos – sempre de papelão. Nada apropriado para função limpeza.

Bom não esquecer que, embora no século 21, por obra do mesmo atormentador, aqui ainda são raras as duchas higiênicas nos banheiros públicos ou coletivos. E ducha, ainda coisa do canhoto, molha. Assim, também não dispensa o uso do, naquele momento, sagrado papel higiênico.

Call Center não é coisa do chifrudo?

Correntes de oração e assemelhados também são armação dele. Seguro.

Gente que encontra você na porta do banheiro e emenda conversa sobre as razões do Bigbang não é coisa do maldito?

Publicidade que precede a notícia na internet não é ação direta do das trevas?

Ofertas de serviços em ligação para o seu celular – qualquer hora do dia e insistente - é demanda dele, vá?

Olhos grudados no celular na mesa de refeição é outra satanice.

Declaração de IR é coisa do tinhoso. Crise, reforma da previdência, mau humor, fanáticos de todas as vertentes, sala de espera de médico – marca pras 15H, atende às 20h -, aeroporto lotado, taxi com rádio ligado em pregação de pastor ou padre, carro da pamonha, criança chorando em avião, gente que você pergunta como vai? e conta como vai a família inteira... Tudo ação direta do chifrudo, que fica lá, na espreita, às gargalhadas.

Só pode.

O jurupari, pai do mal, danado, tentador montou barraca neste 2016. Desfez e fez. Inferniza. Aqui e alhures. E, ainda por cima, por sorteio das profundezas, dessa vez veio de véio e com preferência pela letra T. Ele, no detalhe.


Ante a onda de populismo nacionalista

Aqui está o novo desafio: enfrentamos a globalização da antiglobalização, a frente popular dos populistas, a internacional dos nacionalistas. “Hoje, os Estados Unidos; amanhã, a França”, tuíta Jean-Marie Le Pen. Uma luta longa e difícil nos espera, em casa e no estrangeiro, e talvez tenhamos que passar o título de “líder do mundo livre” dos Estados Unidos para a Alemanha. Mas os derrotaremos.

A Rússia de Vladimir Putin se parece muito com o fascismo. A Turquia de Recep Tayyip Erdogan está passando rapidamente da democracia autoritária ao fascismo, e a Hungria de Viktor Orban já é uma democracia autoritária. Na Polônia, França, Holanda, Reino Unido e agora EUA devemos impedir que se ultrapasse o limite que separa a democracia liberal da autoritária. No Reino Unido, isso significa defender a independência da justiça, a soberania do Parlamento e o poder imparcial da BBC. Nos Estados Unidos, vamos presenciar o teste mais difícil para um dos sistemas democráticos de controles e equilíbrios mais sólidos e antigos. Embora os republicanos dominem o Congresso e, infelizmente, o presidente Donald Trump possa fazer nomeações políticas fundamentais no Supremo Tribunal, isso não quer dizer que sempre vá conseguir o que quer.

O que vemos em todos esses populismos nacionalistas é uma ideologia que afirma que a vontade expressa diretamente pelo “povo” vale mais que todas as demais fontes de autoridade. E o líder populista identifica a si mesmo (ou a si mesma, no caso de Marine Le Pen) como a única voz desse povo. Quando Trump diz: “Eu sou a sua voz” está usando uma típica frase populista. Igual à primeira página do The Daily Mail quando acusa de serem “inimigos do povo” os três juízes britânicos que decidiram que o Parlamento deve votar sobre o Brexit. Como o primeiro-ministro turco, quando rejeita as afirmações da UE de que, com sua brutal repressão da liberdade de imprensa, cruzou uma linha vermelha, e diz que “o povo é quem traça as linhas vermelhas”.

Quando se examina isso em detalhes, vê-se que “o povo” – Volk seria um termo mais exato – não é, na realidade, mais que uma parte do povo. Trump encarnou à perfeição essa encenação populista em uma frase espontânea pronunciada durante um comício de sua campanha. “A única coisa importante é a unificação do povo”, disse, “porque os demais não contam”. Os demais: curdos, muçulmanos, judeus, refugiados, imigrantes, negros, elites, especialistas, homossexuais, ciganos, cosmopolitas urbanistas e juízes gays e eurófilos. Nigel Farage anunciou que o Brexit era uma vitória para as pessoas normais, as pessoas decentes, as pessoas de verdade: ou seja, que os 48% que votaram nãono referendo não eram nem normais nem decentes nem de verdade.

A história nos ensina algo sobre esses fenômenos, sobre as ondas que surgem mais ou menos ao mesmo tempo em distintos lugares, em distintas variantes nacionais e regionais, mas com características comuns? O populismo nacionalista de hoje, o liberalismo globalizado (o neoliberalismo) dos anos noventa, o fascismo e o comunismo dos anos trinta e quarenta, o imperialismo do século XIX. Talvez nos ensine duas lições: que essas coisas demoram certo tempo para serem resolvidas e que, para fazer com que a onda retroceda (quando são ondas que convém fazer retroceder) é preciso coragem, empenho, consistência, o desenvolvimento de uma nova linguagem política e novas respostas políticas a problemas reais.

Um grande exemplo é a combinação da economia de mercado e o Estado de bem-estar que se desenvolveu na Europa Ocidental a partir de 1945. O modelo, que conseguiu pôr fim às ondas do comunismo e do fascismo, necessitou do gênio intelectual de John Maynard Keynes, a sabedoria de um William Beveridge e a perícia política de gente como Clement Attlee. Além de outros nomes nas diferentes versões adotadas em outros países. De qualquer modo, o desenvolvimento de um novo modelo requer tempo.

Devemos, pois, nos preparar para uma luta prolongada, talvez geracional. Não estamos ainda num mundo pósliberal, mas talvez cheguemos a estar. As forças que movem a frente popular do populismo estão em alta, muitos partidos tradicionais estão debilitados, e não se dá a volta a uma dessas ondas da noite para o dia. Para começar, temos de defender o pluralismo. Também temos de compreender as causas econômicas, sociais e culturais que fazem com que as pessoas votem nos populistas. Temos de buscar – não só a esquerda, mas também os liberais, conservadores moderados e criadores de opinião de todo tipo – uma nova linguagem que atraia, em conteúdo e emoções, esse amplo setor do eleitorado populista que não é irremediavelmente xenófobo, racista e misógino (por exemplo, tratar de não chamá-los de “miseráveis”).

Mas é evidente que a retórica por si só não basta. Quais são as políticas acertadas? São verdadeiramente os acordos de livre comércio e a imigração os que estão tirando postos de trabalho? É a tecnologia? Neste último caso, o que podemos fazer?

No plano internacional, o primeiro desafio é impedir a erosão dos elementos atuais da ordem internacional liberal, por exemplo, os acordos sobre mudança climática que foram tão custosos ou os de livre comércio. Como filosofia, é possível que o presidente chinês, Xi Jinping, dê as boas-vindas a um mundo trumpiano de Estados soberanos fortes, firmes e nacionalistas, mas, na prática, os dois dirigentes precisam estar conscientes de que a volta ao nacionalismo econômico dos anos trinta –Trump, durante a campanha, prometeu tarifas de 45% sobre os produtos importados da China – seria um desastre para todos. A única coisa boa de uma internacional de nacionalistas é que é uma contradição em si mesma.

Temos de confiar em que a política externa e econômica da nova Administração esteja em mãos de pessoas sérias e experientes, por mais repugnância moral que Trump nos cause. Chegou o momento de cobrir o nariz e a “ética da responsabilidade” de Max Weber. Ainda assim, é provável que nos encontremos diante de uma presidência grandiloquente, errática e imprevisível.

Por isso mesmo, as demais grandes democracias do mundo – todas as democracias nacionais da Europa, o Canadá, Austrália, Japão, Índia – precisam assumir uma carga muito maior. Se nós, europeus, pensamos que é vital que os Estados bálticos estejam protegidos contra qualquer possível agressão da Rússia, temos de fazer o possível, por meio da OTAN e da UE, para garantir isso. Não podemos confiar em um Trump que se dedica a elogiar Putin. Se nós, europeus, achamos que é importante que a Ucrânia continue sendo democrática e independente, teremos de nos ocupar de conseguir isso. Dado que o Reino Unido se marginalizou, como consequência de sua própria variante de populismo nacionalista, os eleitores franceses e alemães vão ter uma responsabilidade especial. Se, no final do ano que vem, tivermos na França um presidente Alain Juppé e na Alemanha uma chanceler Angelar Merkel reeleita, é possível que a Europa possa cumprir o papel designado.

A resposta mais digna que vi à eleição de Trump é, de longe, a que Merkel deu. “A Alemanha e os Estados Unidos”, disse, “estão unidos pelos valores da democracia, da liberdade e do respeito à lei e à dignidade humana, independentemente da origem, cor de pele, religião, gênero, orientação sexual ou ideias políticas. Ofereço ao próximo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, uma estreita cooperação baseada nesses valores.” Magnífico.

A expressão “líder do mundo livre” costuma ser ouvida em referência ao presidente dos Estados Unidos, e com frequência em tom irônico. Estou tentado a dizer que a líder do mundo livre, hoje, é Angela Merkel.

A Pantera Cor de Rosa


O que conta é o que se destrói

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Bento Rodrigues (Minas Gerais)
Não é o que construíram. É o que destruíram. Não são as casas. São os espaços entre as casas. Não são as ruas que existem. São as ruas que já não existem
James Fenton, "A german requiem".

Brexit à americana

Alguns meses atrás, a Inglaterra votou pela saída da União Europeia. Foi o Brexit. Depois se arrependeu. Ninguém quis assumir a saída. Hoje o resultado do plebiscito seria diferente.

Agora um fenômeno semelhante aconteceu nos Estados Unidos: Donald Trump venceu as eleições. Ele é um isolacionista. Defende o encolhimento dos norte-americanos em relação ao mundo, a ponto de ter sugerido a criação de um muro na fronteira com o México – e prometido enviar a conta para os mexicanos. Também fez declarações racistas, antifemininas, homofóbicas, xenofóbicas, antirreligiosas. Seu lema é fazer os Estados Unidos grandiosos outra vez. À custa de muita gente, pelo visto.

Há dois aspectos aqui: a retórica de campanha e a personalidade de Trump. Muito do que ele disse, logo será descartado como exagero do calor da disputa, como já aconteceu em relação às piadas machistas que ele contou. Conversa fiada, descartou ele. No entanto, Trump é arrogante, narcisista, cioso de seu sucesso. Encarna bem o tipo “winner”. A frase que o tornou conhecido foi “você está despedido!”, em que ele exercia o papel de mando sem pejo, embora num programa de televisão. Nacionalista extremado, acha que seu país, por ser o mais forte, é também o melhor. Ganhou o jogo da seleção natural. Portanto, suas ideias e seus princípios são os melhores. Essa lógica não tem lógica, mas é usada. E ele acredita nela.

Se apelar para essa pseudossuperioridade, essa agenda de povo escolhido, poderemos ter sérios problemas na ordem mundial. Ameaças à paz poderão ocorrer. Trump, mais do que Putin, me lembra muito o atual presidente da Coreia do Norte, Kim Jong-Un. Além dos horríveis cortes de cabelo, têm em comum o vocabulário de desafio, de guerra. Enquanto Kim fala apenas para manipular seu povo, Trump terá armas de fato à disposição. E, em tese, poder para usá-las.

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Ele, no entanto, se diz isolacionista. Não quer saber do mundo. Vai cuidar de seu país, tirar de lá os ilegais, acabar com o sistema previdenciário, caçar os pouco patrióticos. Veremos.

Todo presidente norte-americano age de maneira mais ou menos igual. O Prêmio Nobel da Paz Obama foi um guerreiro, jogou bomba em muitos lugares, matou inocentes, só não divulgou os números com ênfase. Seus antecessores fizeram o mesmo, com muito barulho na mídia. Trump conta com um Congresso que o apoia, mas não lhe dará carta branca para qualquer ação. Para governar, deverá ceder. Mesmo dentro de seu partido, uma boa parte o rejeitou. Ele, entretanto, não é burro. Saberá negociar.

O mundo está em choque. Bolsas caem, todos se perguntam o que aconteceu, preveem o pior. Trump logo se tornará conciliador. Como empresário, sabe que precisa cativar a mídia, amansar o público, blefar. Depois agirá, e o verdadeiro Trump virá à tona. Trump, em inglês, quer dizer contar bravata. Esperemos que toda a ameaça que agora o mundo sente não passe disso. Uma bravata de mau gosto.

Luís Giffoni 

Política e imprensa em tempos de internet

Convidado a participar de um evento acadêmico sobre a crise política, coube-me, entre outras questões, discutir o impacto das novas tecnologias de comunicação e o papel da imprensa. O convite levou-me a recuperar a introdução que escrevi para um pequeno livro sobre política e jornalismo, editado na virada dos anos 70 para os anos 80, quando os governos militares distribuíam notas secas aos jornais comunicando o que não podia ser publicado. No texto afirmei que a liberdade de imprensa sempre enfrentou ameaças ao longo da História, sobrevivendo a todas elas. Também disse que, por mais que o espírito de liberdade sobreviva sob os mais opressores regimes políticos, as pressões contra ele não desaparecem.

Thought-Provoking Satirical Illustrations by Pawel Kuczynski:
Pawel Kuczynski
Na época em que escrevi o prefácio, a preocupação era com os temas da mentira e da censura, comuns aos períodos históricos em que os jornais são obrigados a divulgar não sua leitura dos acontecimentos, mas sinopses oficiais. Inspirado em Hannah Arendt, lembrei que o problema da mentira é que ela só é eficiente quando o mentiroso sabe a verdade que quer esconder. O campo da política é o do pensamento plural e seu terreno não é o da evidência, dizia ela, mas o do acordo e do consentimento, que pressupõem liberdade, participação, conflito, diálogo e negociação. Como o pensamento político é eminentemente representativo, consentimento sem liberdade é viciado e acordo sem conflito é escamoteação ideológica. Ainda nessa linha de raciocínio, política e jornalismo são atividades que se implicam e só se articulam quando existe um mundo público e, por extensão, um campo para o exercício da liberdade. Quando a hipocrisia, o conformismo e enviesamentos ideológicos se sobrepõem ao vigor moral, à participação e à crença na dignidade humana, é preciso buscar o sentido do espírito de liberdade, que se expressa por independência, combatividade e poder de crítica.

Relendo aquele texto, escrito quando não havia internet e os movimentos sindicais e estudantis recorriam ao mimeógrafo para divulgar opiniões, fica claro que a imprensa exercia um papel que hoje é ameaçado pelas novas tecnologias de comunicação. Em outras palavras, jornais e revistas supervisionavam as fronteiras entre o espaço público e os espaços sociais, entre as conversações e as informações. O espaço público tradicional relegava à sociedade a função de audiência, filtrando informações e opiniões. Com a internet, concebida não para que um emissor se dirija a uma massa acrítica de receptores, mas para facilitar e agilizar as comunicações entre eles, a verticalidade entre jornalistas e leitores vem sendo substituída por novas formas de relações entre o mundo das conversações e o mundo das informações. Dito de outro modo, a verticalidade entre jornalistas e sua audiência cedeu lugar a redes de comunicação que horizontalizaram o espaço público. A internet propiciou assim uma significativa ampliação do espaço público, que cada vez menos é filtrado por jornalistas e políticos profissionais. Como lembra Daniel Innerarity, da London School of Economics, em seus ensaios sobre a política em “tempos de indignação”, não há nenhuma palavra pública imune a críticas, nem autoridades governamentais capazes de impor o silêncio absoluto.

Com as novas tecnologias de comunicação eletrônica, a imprensa enfrenta dificuldades para atuar como ponte entre os leitores e o mundo

No lado positivo, esse processo multiplica o intercâmbio de opiniões e amplia o campo do debate democrático, oferecendo amplas possibilidades para a transformação da política. No lado negativo, ele não é imune a todo e qualquer tipo de risco, como difusão de mentiras e difamações, achaques a reputações, desmoralização de adversários e os perigos da personalização dos conteúdos por parte dos sites de buscadores, como o Google. À medida que esses sites conhecem as preferências dos usuários e se empenham em oferecer serviços sob medida para seus gostos sociais, inclusive notícias e resultados de pesquisas, a internet intensifica de tal modo suas preferências que eles acabam não tendo acesso a opiniões diferentes nem recebendo informações que poderiam desafiar ou alargar, de forma crítica, suas visões de mundo.

Além da horizontalização do espaço público, as redes sociais viabilizadas pela internet são descentralizadas, dada a conectividade entre entidades estudantis, movimentos sociais e coletivos, a proliferação das chamadas organizações de “perímetro aberto – com facilidade de entrar e de sair e com critérios porosos de pertencimento – e o questionamento contínuo das autoridades hierarquizadas do poder público, disseminando, estimulando a ideia de auto-organização. Pelas críticas, controles recíprocos e troca incessante de informações em tempo real, muitos participantes das redes sociais creem na possibilidade de uma vida em grupo sem a necessidade de uma autoridade central – o que tem sido visto nas ocupações de escolas públicas por estudantes do ensino médio.

Quando redigi o prefácio do livro sobre política e jornalismo, o que se esperava da imprensa era que cumprisse de modo equilibrado e responsável o papel de iluminar e enfatizar a importância do mundo público. O que se esperava era que atuasse como um mecanismo de articulação política fundamental ao processo de conversão do pluralismo de valores políticos em decisões coletivas legítimas. Com as novas tecnologias de comunicação eletrônica, a imprensa enfrenta dificuldades para atuar como ponte entre os leitores e o mundo, é certo, ainda que permaneça como memória e espécie de consciência deles. Por sua vez, a internet vai despertando todo tipo de devaneio político – incluídos os mais radicais, como os de inspiração libertária e anarquistas.

Se isso está gerando formas originais e consequentes de experimentação democrática ou se vem estimulando aventuras autoritárias e um ativismo político irresponsável, essa é outra questão.

Paisagem brasileira

Carro de boi, Paulo Daleffi

A agricultura que combate a pobreza é assim

Se 70% de todos os pobres trabalham na agricultura e o mundo tem a meta de erradicar a pobreza extrema até 2030, uma conclusão natural é de que esses camponeses precisam de cada vez mais apoio para aumentar as colheitas e a renda. Mas em que exatamente consiste tal apoio?

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É possível encontrar muitas respostas a essa pergunta enquanto se percorre o interior de Santa Catarina, onde 92% das propriedades são consideradas pequenas (com até 50 hectares). Lá, uma parceria de 30 anos entre o Governo do Estado e o Banco Mundial vem gerando lições que podem ser replicadas em outros países em desenvolvimento.

Na atual fase, o Programa SC Rural, que se estende até junho de 2017, atende a 40.000 pequenos produtores rurais, dos quais 4,800 indígenas e 1,300 jovens. Uma recente avaliação de impacto revela que, em cinco anos, a renda dos beneficiários aumentou 118%, enquanto a dos agricultores não atendidos pelo programa subiu 56%.

Com o que aprendeu em oito meses de um curso para jovens agricultores, Adriano Heerdt conseguiu aumentar a produção de leite, diminuir o custo, melhorar as pastagens e resolver alguns problemas de saúde das vacas de que cuida. A capacitação oferecida pelo SC Rural mistura aulas com atividades práticas, no campo, para levar informações confiáveis a um público que nem sempre tem acesso a educação formal, televisão ou internet.

“Fui aplicando as técnicas que me ensinavam e via que dava certo. Hoje, cada vez mais procuro me aperfeiçoar, porque tudo dá retorno para a gente”, diz Adriano.

A informação sobre melhores práticas, novas tecnologias e oportunidades de mercado hoje é elemento chave para que os agricultores familiares possam competir no mercado de alimentos e aumentar a renda. “Em Santa Catarina, o foco deixou de ser somente em produção agrícola e passou a incluir o agronegócio (ou seja, produção e processamento) e os jovens rurais. Isso deveria ser uma estratégia a seguir no resto do Brasil e no mundo em desenvolvimento”, comenta o economista rural Diego Arias, do Banco Mundial.

Atualmente, cerca de 9,6 milhões de jovens entre 15 e 29 anos vivem da agricultura nos 20 países latino-americanos (2,3 milhões só no Brasil). A cifra regional caiu 20% na última década, segundo o estudo Juventude Rural e Emprego Decente na América Latina, publicado este ano pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

O documento explica que, embora pareça haver um “fenômeno de jovens empreendedores rurais que conseguem fazer um negócio decolar”, tal conquista não é fácil. Esbarra nas dificuldades de infraestrutura do campo e requer, entre outros incentivos, programas de orientação e financiamento para esse público.

Foi exatamente esse apoio que Jaqueline Grapiglia, 25 anos, encontrou para expandir os negócios familiares. Quando o pai conseguiu montar uma padaria em casa por meio do SC Rural, a jovem viu a oportunidade de voltar para o campo. Formada em administração e pós-graduada em gestão estratégica, ela também fez o curso de empreendedorismo para jovens, que financia as melhores ideias elaboradas pelos alunos. Como projeto final, criou uma loja de quitutes rurais e agora sonha abrir um café colonial. “O agricultor só vai ficar no campo se tiver perfil para empreender”, aposta Jaqueline.
Inovação

Com tecnologias simples, já dá para aumentar o rendimento, ter um produto de melhor qualidade, trabalhar em menos tempo e poupar a saúde dos agricultores. Imagine, então, o que é possível fazer com radares, drones e equipamentos mais modernos. Tudo isso ajuda os produtores de grande porte a lidar com as mudanças climáticas e poupar os recursos naturais... mas nada está disponível (ainda) para a agricultura familiar.

Por isso, Santa Catarina criou o Núcleo de Inovação Tecnológica para Agricultura Familiar para reunir os pequenos produtores às startups locais e discutir como é possível levar inovação ao campo com escala e custo acessíveis.

“Meu sonho é ver o pessoal usando a nossa tecnologia, que é nacional e nasceu na universidade”, comenta Vitor Miranda, diretor executivo da Q Prime Engenharia, criada na Universidade Federal de Santa Catarina. A empresa está adaptando para os pequenos agricultores uma máquina de secagem de alimentos (muito usada para erva-mate e outras), que deixa o produto mais homogêneo e economiza energia. “Como é complicado chegar até os agricultores porque é muita gente espalhada pelo estado, o SC Rural pode facilitar esse contato”, conclui Miranda.

Andreia e Paulo Colle cuidam de uma beneficiadora de porco
Quando Andreia Colle e o marido tiveram de fechar o próprio aviário, por não terem condições de cumprir as exigências da grande empresa para a qual vendiam, encontraram no SC Rural a chance de recomeçar com um trabalho mais rentável. Com apoio do programa, eles estruturaram e equiparam uma pequena agroindústria de embutidos de porco, de onde saem salames, torresmos, lombos e outros produtos oferecidos tanto no comércio local quanto na merenda escolar das escolas públicas.

Nos últimos quatro anos, também fizeram cursos que, segundo Andreia, ajudaram os Colle a encontrar seu público-alvo, produzir com mais qualidade e a gerenciar o negócio de forma profissional. O próximo desafio: aumentar a quantidade de pontos de venda, mas sem perder de vista o jeito colonial dos itens produzidos pela família.

Outro tema importante na questão do acesso aos mercados é o da infraestrutura local, para que os agricultores possam escoar a produção com mais facilidade. O SC Rural atuou tanto na melhoria de 400 km de trechos de estradas rurais quanto na das telecomunicações do campo.

Mariana Kaipper Ceratti