Se a única coisa que oferecerem às pessoas for tele-lixo e omitirem que existem outras coisas, elas acreditarão que não existe mais nada para lá do lixo. Nestes momentos, a audiência é a rainha e por causa dela é lícito uma pessoa até matar a avó. Os meios de comunicação têm grande parte da responsabilidade nisto, embora seja necessário perguntar quem move os seus fios. Por detrás há sempre um banco ou um governo. Um jornal independente? Uma rádio livre? Uma televisão objetiva? Isso não existe. Essa mistura, o tele-lixo e os meios de comunicação dependentes, provoca que a sociedade esteja gravemente doente.José Saramago
terça-feira, 27 de outubro de 2015
Tele-Lixo
Dinheiro e porrada no mundo da lua, de olhos arregalados
Depois de sofrer “reprimendas” por dirigir taxis cidade afora, o prefeito do Rio de Janeiro, justificou: “Dirijo pouco, tenho motorista, é aquela fase burguesa de prefeito, que só anda de motorista.”
Ele e todas as excelências mundo afora desfrutam da fase burguesa a cada vaga conseguida nas urnas ou em cargos assumidos de primeiro, segundo e terceiros escalões.
É quando também se distanciam das ruas e suas cotidianas aflições, dificuldades e queixas. Passam a viver no mundo da lua, como disse um deputado sobre presidenta Dilma.
Ficassem mais próximos do povo e saberiam direito porque vêm tremulando bandeiras do “Vocês não me representam”.
Principalmente, saberiam de onde vem a rejeição e a perplexidade da população, alimentada diariamente, além das news do Lava Jato, por pérolas proferidas sem a menor cerimônia pela turminha em fase burguesa.
Ai vão algumas dos últimos dias:
— Ele acha que tudo é dinheiro e não entende que tem gente que está na política por poder ou por vaidade — disse um integrante do PMDB.
Estava no jornal, dita em off, avaliando o comportamento do presidente da Câmara, seu par de partido.
Perguntamos nós e nossa insignificância: quer dizer que vai-se para a vida pública, se não por dinheiro – esse grandão que rola nos subterrâneos -, apenas por “poder e vaidade”?
A coisa tá feia. Outras motivações de maior grandeza – espírito público, desejo se servir, atuar pela população, a favor do país, atuar em causas de seu segmento social – nem se cogita? Caíram completamente em desuso.
Segue o baile sem máscaras:
— Tem duas coisas que só não resolvem quando é pouco: dinheiro e porrada — disse, segundo o jornal, o excelência em questão “a mais de um interlocutor”.
A mesma matéria explica: “Além de sua visão de mundo, a frase mostra afinidade com o doleiro..., de quem é amigo.” E lá vem a frase similar do tal doleiro:
— Aprendi na vida que há dois jeitos de resolver um problema. Ou é com dinheiro ou é na porrada — disse (o doleiro), em entrevista publicada na edição de agosto da revista “Piauí”.
Precisa de explicação sociológica para as violências e os desrespeitos que comem soltos Brasil adentro?
Tem mais:
“Esse comportamento de dizer de olhos arregalados que não vai sair é típico do psicopata. O psicopata nunca cede, ele vai até o final com aquela versão e com as mesmas palavras. Isso vai cansar. Vamos ver se a Câmara vai ficar com o rabo entre as pernas, envergonhada por algo que está percorrendo o mundo inteiro, um presidente de uma instituição desse jeito.”
Essa delicadeza toda - do psicopata ao rabo entre as pernas - vem da fala de um colega de partido, eleitor do excelência presidente, e em referência ao dito cujo, que vive momento de “alvo a ser destruído”.
Guerra é guerra. Em praça pública como nunca antes na história desse país. E com a mesma metralhadora - e todas as letras - o velho parlamentar avalia: “A Câmara é uma tragédia. Eu nunca vi coisa tão ruim."
No mesmo dia, a manchete reforça: “1/3 do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados é alvo de inquéritos. Sete dos 21 membros do colegiado são alvo de ações no Supremo sob suspeita de crimes como lavagem de dinheiro.”
A Câmara foi o alvo desta semana porque a crise anda concentrada no condutor da Casa. Mas o furdunço alcança toda a classe dirigente e política do país, em liquidificador que põe bons e maus na mesma massa.
Aí o IBOPE registra e faz manchete:
A três anos das próximas eleições presidenciais... aponta um nível alto de rejeição entre os políticos mais cotados como possíveis candidatos em 2018.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece numericamente na frente, com 55% de rejeição (não votaria "de jeito nenhum") entre os prováveis candidatos ao Planalto. Estão empatados tecnicamente com ele -- a margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais -- José Serra (PSDB), com 54%, Geraldo Alckmin (PSDB), com 52%, e Ciro Gomes (PDT), com 52%.
Além dos quatro, o Ibope mediu a rejeição a uma eventual candidatura de Aécio Neves (PSDB) e de Marina Silva (Rede). Marina é rejeitada por 50% dos entrevistados, e Aécio, por 47%.
Ou seja, no binóculo de hoje, para pelo menos a metade da população, ninguém dos politicões é confiável para assumir a vaga da tia Dilma. Surpresa?
Outras sondagens indicam que, enfastiada, a população quer reduzir tudo em relação ao cenário político - menor mandado, redução do número de parlamentares em todas as casas legislativas, menor tempo de propaganda eleitoral, horário reduzido dos “anúncios” na TV e no rádio. E mais, a perda de mandato para quem trocar de partido. Tolerância para essa troca só depois do mandato cumprido.
“A pesquisa mostra ainda um crescimento na rejeição de Lula, Aécio e Marina, nomes para os quais há dados comparativos de pesquisas feitas no ano passado. Em maio de 2014, apenas 33% não votariam em Lula "de jeito nenhum". Aécio era apontado com 37% de rejeição e Marina, com 36%, em pesquisa de abril.”.
Nada pessoal. Só um fastio com o modelo de política praticado desde muito, mas evidenciado nas mídias com pensamentos, palavras e obras nestes derradeiros anos.
O ex-presidente FHC, que lança livro de memórias dos seus dias do palácio fala de “chantagens do Congresso”, esquecendo – parece – que a coisa tem mão dupla, há chantagens também do Executivo. Caneta em punho, todos com a cabeça torta pelo longo uso de velho modus operandi.
Em entrevista, FHC também disse que hoje: "Não são os políticos que estão dando as cartas. Eles estão dançando a música dos outros".
Bom aguardar cenas dos próximos capítulos para descobrir que baile é esse e que maestro conduz a orquestra por hora desatinada e desafinada que só. Benza Deus.
Ele e todas as excelências mundo afora desfrutam da fase burguesa a cada vaga conseguida nas urnas ou em cargos assumidos de primeiro, segundo e terceiros escalões.
É quando também se distanciam das ruas e suas cotidianas aflições, dificuldades e queixas. Passam a viver no mundo da lua, como disse um deputado sobre presidenta Dilma.
Ficassem mais próximos do povo e saberiam direito porque vêm tremulando bandeiras do “Vocês não me representam”.
Principalmente, saberiam de onde vem a rejeição e a perplexidade da população, alimentada diariamente, além das news do Lava Jato, por pérolas proferidas sem a menor cerimônia pela turminha em fase burguesa.
Ai vão algumas dos últimos dias:
— Ele acha que tudo é dinheiro e não entende que tem gente que está na política por poder ou por vaidade — disse um integrante do PMDB.
Estava no jornal, dita em off, avaliando o comportamento do presidente da Câmara, seu par de partido.
Perguntamos nós e nossa insignificância: quer dizer que vai-se para a vida pública, se não por dinheiro – esse grandão que rola nos subterrâneos -, apenas por “poder e vaidade”?
A coisa tá feia. Outras motivações de maior grandeza – espírito público, desejo se servir, atuar pela população, a favor do país, atuar em causas de seu segmento social – nem se cogita? Caíram completamente em desuso.
Segue o baile sem máscaras:
— Tem duas coisas que só não resolvem quando é pouco: dinheiro e porrada — disse, segundo o jornal, o excelência em questão “a mais de um interlocutor”.
A mesma matéria explica: “Além de sua visão de mundo, a frase mostra afinidade com o doleiro..., de quem é amigo.” E lá vem a frase similar do tal doleiro:
— Aprendi na vida que há dois jeitos de resolver um problema. Ou é com dinheiro ou é na porrada — disse (o doleiro), em entrevista publicada na edição de agosto da revista “Piauí”.
Precisa de explicação sociológica para as violências e os desrespeitos que comem soltos Brasil adentro?
Tem mais:
“Esse comportamento de dizer de olhos arregalados que não vai sair é típico do psicopata. O psicopata nunca cede, ele vai até o final com aquela versão e com as mesmas palavras. Isso vai cansar. Vamos ver se a Câmara vai ficar com o rabo entre as pernas, envergonhada por algo que está percorrendo o mundo inteiro, um presidente de uma instituição desse jeito.”
Essa delicadeza toda - do psicopata ao rabo entre as pernas - vem da fala de um colega de partido, eleitor do excelência presidente, e em referência ao dito cujo, que vive momento de “alvo a ser destruído”.
Guerra é guerra. Em praça pública como nunca antes na história desse país. E com a mesma metralhadora - e todas as letras - o velho parlamentar avalia: “A Câmara é uma tragédia. Eu nunca vi coisa tão ruim."
No mesmo dia, a manchete reforça: “1/3 do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados é alvo de inquéritos. Sete dos 21 membros do colegiado são alvo de ações no Supremo sob suspeita de crimes como lavagem de dinheiro.”
A Câmara foi o alvo desta semana porque a crise anda concentrada no condutor da Casa. Mas o furdunço alcança toda a classe dirigente e política do país, em liquidificador que põe bons e maus na mesma massa.
Aí o IBOPE registra e faz manchete:
A três anos das próximas eleições presidenciais... aponta um nível alto de rejeição entre os políticos mais cotados como possíveis candidatos em 2018.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece numericamente na frente, com 55% de rejeição (não votaria "de jeito nenhum") entre os prováveis candidatos ao Planalto. Estão empatados tecnicamente com ele -- a margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais -- José Serra (PSDB), com 54%, Geraldo Alckmin (PSDB), com 52%, e Ciro Gomes (PDT), com 52%.
Além dos quatro, o Ibope mediu a rejeição a uma eventual candidatura de Aécio Neves (PSDB) e de Marina Silva (Rede). Marina é rejeitada por 50% dos entrevistados, e Aécio, por 47%.
Ou seja, no binóculo de hoje, para pelo menos a metade da população, ninguém dos politicões é confiável para assumir a vaga da tia Dilma. Surpresa?
Outras sondagens indicam que, enfastiada, a população quer reduzir tudo em relação ao cenário político - menor mandado, redução do número de parlamentares em todas as casas legislativas, menor tempo de propaganda eleitoral, horário reduzido dos “anúncios” na TV e no rádio. E mais, a perda de mandato para quem trocar de partido. Tolerância para essa troca só depois do mandato cumprido.
“A pesquisa mostra ainda um crescimento na rejeição de Lula, Aécio e Marina, nomes para os quais há dados comparativos de pesquisas feitas no ano passado. Em maio de 2014, apenas 33% não votariam em Lula "de jeito nenhum". Aécio era apontado com 37% de rejeição e Marina, com 36%, em pesquisa de abril.”.
Nada pessoal. Só um fastio com o modelo de política praticado desde muito, mas evidenciado nas mídias com pensamentos, palavras e obras nestes derradeiros anos.
O ex-presidente FHC, que lança livro de memórias dos seus dias do palácio fala de “chantagens do Congresso”, esquecendo – parece – que a coisa tem mão dupla, há chantagens também do Executivo. Caneta em punho, todos com a cabeça torta pelo longo uso de velho modus operandi.
Em entrevista, FHC também disse que hoje: "Não são os políticos que estão dando as cartas. Eles estão dançando a música dos outros".
Bom aguardar cenas dos próximos capítulos para descobrir que baile é esse e que maestro conduz a orquestra por hora desatinada e desafinada que só. Benza Deus.
Custo do social
Navegamos por mares nunca dantes navegáveis, numa mistura tragicômica de uma era desastrosa, e tudo se embasou nos problemas da inclusão social. Até aí nada de errado, mas quando o Estado se amesquinha, fica fragilizado e empobrecido, toda a população é refém dessa estrutura malévola.
O Estado é forte quando exerce o seu papel de distribuir a riqueza e não ao contrário de leiloar a miséria. Assim, as intervenções em diversos setores foram caóticas. Quem pegar uma conta de luz verá que, além do consumo medido, estará pagando a geração e transmissão e custos financeiros, um verdadeiro caos que retrata o estado de falência das empresas do setor elétrico, já que as matrizes alternativas não são suficientes para modular o sistema e agora com a paralisação de angra 3 o receio é que tenhamos mais apagões e aumentos no bolso do contribuinte.
Voltando ao tema de base, o governo errou de modo desavergonhado quando procurou aquinhoar cada individuo e não fortalecer todos. Se estivesse ocupado com o transporte que aliviasse a malha mediante mais metros, trens de superfície e rede de taxis compartilhados, ao invés de financiar carros e depois implantar radares por toda a cidade em busca da multa que enriquece o caixa e não tem vinculação com despesas, em tese, pois nada se comprova no retorno ao caótico transito.
O Estado é forte quando exerce o seu papel de distribuir a riqueza e não ao contrário de leiloar a miséria. Assim, as intervenções em diversos setores foram caóticas. Quem pegar uma conta de luz verá que, além do consumo medido, estará pagando a geração e transmissão e custos financeiros, um verdadeiro caos que retrata o estado de falência das empresas do setor elétrico, já que as matrizes alternativas não são suficientes para modular o sistema e agora com a paralisação de angra 3 o receio é que tenhamos mais apagões e aumentos no bolso do contribuinte.

Voltando ao tema de base, o governo errou de modo desavergonhado quando procurou aquinhoar cada individuo e não fortalecer todos. Se estivesse ocupado com o transporte que aliviasse a malha mediante mais metros, trens de superfície e rede de taxis compartilhados, ao invés de financiar carros e depois implantar radares por toda a cidade em busca da multa que enriquece o caixa e não tem vinculação com despesas, em tese, pois nada se comprova no retorno ao caótico transito.
Hoje, mais do que ontem, pagamos um custo extraordinário por causa de programas sociais insolventes, e o dinheiro publico derramado não voltará mais. Daí se procura aumentar impostos reinventar a CPMF e voltar o dinheiro internado no exterior, tudo a pretexto de que sairemos do caos em alguns anos, se formos otimistas.
O Estado quebrou literalmente pois foi demagogo e acima de tudo perdulário, e a famigerada reeleição é a maior imagem do retrocesso. Tudo se permite na sua perspectiva, desde que reeleito o candidato. Vivemos e convivemos em tempos difíceis e inábeis pelos nossos representantes do povo, que na realidade são achacadores e aproveitadores dos mandatos eletivos para negociatas e boas poupanças depositadas no exterior.
Enquanto isso a nossa destruição provocada pela corrupção somada à impunidade, num mergulho profundo as piores imagens do pré sal, destruída a maior estatal do País, que passa momentos dificultosos sem caixa, nenhum investimento e agora com a cara de pau querendo vender a distribuidora.
A fiscalização é a maior piada no Brasil. Esses órgãos reguladores são um retrato da ineficácia e total anomalia. Falta água no Estado de São Paulo, luz em regiões com apagões, linhas de transmissão não funcionam, sinal de celular sempre não há torre na proximidade, e assim caminha o País entre as chagas do desgoverno e a cruz da subserviência ao partido totalitário que encampa diretrizes retrogradas e se faz passar por bom moço.
Espertalhões, safados e maledicentes que ignoram a sociedade civil e aproveitam no momento da falta de oposição. E quase no final do ano, sem nada de concreto, mas sim inflação, recessão e perda de 120 mil postos de emprego ao mês, e dizem que foi uma marolinha.
Agora um povo que não se indigna, que não sai para brigar e reivindicar seus direitos e se contenta com migalhas, todos esses ingredientes nos colocam no subdesenvolvimento do final dos tempos.
Carlos Henrique Abrão
O Estado quebrou literalmente pois foi demagogo e acima de tudo perdulário, e a famigerada reeleição é a maior imagem do retrocesso. Tudo se permite na sua perspectiva, desde que reeleito o candidato. Vivemos e convivemos em tempos difíceis e inábeis pelos nossos representantes do povo, que na realidade são achacadores e aproveitadores dos mandatos eletivos para negociatas e boas poupanças depositadas no exterior.
Enquanto isso a nossa destruição provocada pela corrupção somada à impunidade, num mergulho profundo as piores imagens do pré sal, destruída a maior estatal do País, que passa momentos dificultosos sem caixa, nenhum investimento e agora com a cara de pau querendo vender a distribuidora.
A fiscalização é a maior piada no Brasil. Esses órgãos reguladores são um retrato da ineficácia e total anomalia. Falta água no Estado de São Paulo, luz em regiões com apagões, linhas de transmissão não funcionam, sinal de celular sempre não há torre na proximidade, e assim caminha o País entre as chagas do desgoverno e a cruz da subserviência ao partido totalitário que encampa diretrizes retrogradas e se faz passar por bom moço.
Espertalhões, safados e maledicentes que ignoram a sociedade civil e aproveitam no momento da falta de oposição. E quase no final do ano, sem nada de concreto, mas sim inflação, recessão e perda de 120 mil postos de emprego ao mês, e dizem que foi uma marolinha.
Agora um povo que não se indigna, que não sai para brigar e reivindicar seus direitos e se contenta com migalhas, todos esses ingredientes nos colocam no subdesenvolvimento do final dos tempos.
Carlos Henrique Abrão
Saiba porque Lula deve se curvar à tocaia federal contra seu filho

Em 21 de maio passado, Fabio Porfirio Lobo prestou depoimento numa corte federal de Manhattan. A promotoria vindica que ele passe o resto da vida no xilindró, sob acusação de ter conspirado para se importar cocaína para os EUA. Seu pai não atacou o DEA, a agência anti-drogas dos EUA, ou o FBI. Apenas disse que ajudaria o filho a provar sua inocência (ele foi preso no Haiti). E que o filho, Fábio, “não é mais mais uma criança e sabe o que faz”.
Em 10 de março passado, também em Nova York, uma corte condenou Dino Bouterse a 16 anos de cadeia. Foi acusado de apoiar o Hezbollah, considerado, em território norte-americano, uma organização terrorista. Também havia sido condenado a conspirar para importar 5 quilos de cocaína do Suriname para os EUA. Seu pai se calou.
Em 15 de setembro passado Ebrahima Jawara foi preso na Gambia, acusado de crime econômico contra o estado. Seu pai lamentou o filho.
Em 12 de outubro de 2012 Maksim Bakiyev foi preso quando desembarcava em Londres, sob acusação de fraude fiscal contra seu país, o Quirguistão, país da Ásia Central e que era do guarda-chuva do URSS. Seu pai pediu apenas justiça.
Agora os detalhes que nivelam os destinos dessas 4 histórias:
Fabio Porfirio Lobo: seu pai é ninguém menos que Porfírio Lobo, presidente de Honduras de 2010 a 2014.
Dino Bouterse: seu pai é ninguém menos que Desi Bouterse, presidente que deu um golpe de estado no Suriname em 2010.
Ebrahima Jawara: é filho do ex-presidente da Gambia, Sir Dawda Jawara.
Maksim Bakiyev: filho do ex-presidente do Quirguistão, Kurmanbek Bakiyev.
Nenhum dos ex-presidentes dessas republiquetas reclamou das autoridades que atocaiaram os seus filhos…
Lemos agora na reportagem de Katia Seabra que o ex-presidente Lula passou a tarde dessa segunda-feira imprecando contra Dilma, contra seu ministro da Justiça e contra a PF: atribuindo a todos um “golpe”, pelo fato da PF ter entrado no escritório de seu filho Luis Claudio.
Até entendo que no lugar de Lula eu levaria um chazinho de maracutaia à família para acalmar os ânimos dessa segunda-feira gorda (o serviço secreto francês, chamado de DGSE, gosta também de operar às segundas-feiras gordas, a que chamam de “lundi-gras”)
Pois bem: agora ficou mais clara a bipolaridade de Lula: quem o critica é da “direita golpista” – e quem investiga o seu filho, no governo, quer destruir o seu legado genético.
Para o bom entendedor, meia palavra bos.
Lula e o imperativo de sobrevivência
Ao completar 70 anos, amanhã, pode o Lula considerar-se na plenitude de sua capacidade para realizar o Bem ou o Mal?
Como já se dedicou a ambos os objetivos, ora atendendo os pobres e os necessitados, ora privilegiando os ricos e os vigaristas, continua em aberto a possibilidade dele tentar voltar ao palácio do Planalto. Não se diz voltar ao poder porque deste jamais se afastou, tanto controlando o PT quanto interferindo no governo Dilma. Muita gente considera inviável o retorno do ex-presidente, dado o desgaste do partido dos companheiros e o fracasso hoje evidente da administração da sucessora. Madame deixou de ser a esperança de continuidade de um período ao menos em parte voltado para os menos favorecidos. Transformou-se em instrumento fisiológico de uma base parlamentar ávida de sinecuras e favores variados. Atende sugestões esparsas do antecessor mas permanece a maior parte do tempo lambuzando o país de incompetência.
Caso decida ou não possa evitar candidatar-se em 2018, o Lula carregará o fracasso da Dilma. Talvez o peso venha a ser demasiado para obter a vitória, como revelam as pesquisas atuais. Nessa hipótese, precisará encontrar quem o substitua como candidato, mas quem? Nos quadros do PT a safra revela-se decepcionante. Jacques Wagner, Aloísio Mercadante, Ricardo Berzoini? Não dá. Será, o ex-presidente, obrigado a aceitar o encargo, por falta de alternativas? Mas, se perder, não estará acionando a pá-de-cal na aventura um dia saudada como capaz de mudar o Brasil? Apoiar um candidato de origem diversa, tipo Ciro Gomes, será um risco, mas pior seria aceitar Michel Temer, do PMDB.
Nesse cipoal encontra-se o ex-torneiro-mecânico, ao completar 70 anos. Desejando ou não retornar, quando tiver 73, sua candidatura será um imperativo de sobrevivência, não apenas pessoal, mas do movimento que criou. Só que obstáculos levantam-se de todos os lados. As acusações de haver-se tornado milionário, envolvendo também sua família. Relações pouco claras com empreiteiros hoje morando na cadeia. O desgaste natural da idade. A falta de renovação no próprio partido. O distanciamento da classe operária, atualmente órfã de lideranças em condições de reivindicar melhores condições de vida e de trabalho. E mais o desemprego crescente, o aumento de impostos, taxas e tarifas, a redução de direitos sociais, a queda nos índices de crescimento econômico e a inflação.
O diabo é que, mesmo enfrentando tamanha carga negativa, o Lula poderá não encontrar argumentos para recusar a candidatura. Arriscado a enfrentar a derrota, não lhe será possível saltar de banda.
Como já se dedicou a ambos os objetivos, ora atendendo os pobres e os necessitados, ora privilegiando os ricos e os vigaristas, continua em aberto a possibilidade dele tentar voltar ao palácio do Planalto. Não se diz voltar ao poder porque deste jamais se afastou, tanto controlando o PT quanto interferindo no governo Dilma. Muita gente considera inviável o retorno do ex-presidente, dado o desgaste do partido dos companheiros e o fracasso hoje evidente da administração da sucessora. Madame deixou de ser a esperança de continuidade de um período ao menos em parte voltado para os menos favorecidos. Transformou-se em instrumento fisiológico de uma base parlamentar ávida de sinecuras e favores variados. Atende sugestões esparsas do antecessor mas permanece a maior parte do tempo lambuzando o país de incompetência.

Nesse cipoal encontra-se o ex-torneiro-mecânico, ao completar 70 anos. Desejando ou não retornar, quando tiver 73, sua candidatura será um imperativo de sobrevivência, não apenas pessoal, mas do movimento que criou. Só que obstáculos levantam-se de todos os lados. As acusações de haver-se tornado milionário, envolvendo também sua família. Relações pouco claras com empreiteiros hoje morando na cadeia. O desgaste natural da idade. A falta de renovação no próprio partido. O distanciamento da classe operária, atualmente órfã de lideranças em condições de reivindicar melhores condições de vida e de trabalho. E mais o desemprego crescente, o aumento de impostos, taxas e tarifas, a redução de direitos sociais, a queda nos índices de crescimento econômico e a inflação.
O diabo é que, mesmo enfrentando tamanha carga negativa, o Lula poderá não encontrar argumentos para recusar a candidatura. Arriscado a enfrentar a derrota, não lhe será possível saltar de banda.
Sobre o medo, bruxas e cozinheiros
Seria bem bom se tivéssemos alguns poderes mágicos que nos dessem condição de mudar o mundo, ou ao menos controlar alguns de seus detalhes sórdidos. Crescemos sonhando com a magia, nas histórias que ouvimos, nos livros que lemos. Nas fábulas que acabamos depois vivendo de verdade quando adultos, lembrando daqueles bichos que falavam e que eram os seus personagens. Tudo feito, de um lado, para nos incutir o medo e o respeito ao limite; mas é esse medo que acaba nos tornando dependentes
Pode ser um esconderijo interessante para esses tempos difíceis. Rever alguns dos ensinamentos de nossos livros infantis, onde sempre existe alguma conclusão embutida, a tal moral da história – moral da história, vejam só. Quando um não quer, dois não brigam. Quando dois brigam, um terceiro tira proveito.
Sempre também nos contaram histórias aterrorizantes, embora muitas vezes sua carinha fosse doce e meiga, parecendo inofensivas. Não é cruel o diálogo da formiga e da cigarra? Não é triste imaginar a desilusão da tal menina do leite diante da jarra despedaçada?
Ah, não se lê mais fábulas para as crianças? Nem La Fontaine, Esopo? Elas agora vivem só de princesinhas patricinhas com seus enormes guarda-roupas e caixas de maquiagem? E os meninos? De heróis musculosos com roupas colantes ou seminus e viris? Ou aqueles de videogames que estão sempre desferindo golpes mortais e pulando obstáculos?
Como hoje se prepara uma pessoinha para a vida? Sem a sovinice do Tio Patinhas, sem a generosidade do Riquinho, o loiro garoto milionário meio socialista. Sem os trambiques da magra Maga Patalógica e da estrambelhada descabelada Madame Min, com suas sopas de asas de morcego, aranhas e pernas de sapos, que ambas mexiam e remexiam em seus caldeirões fumegantes.
Crianças se enfrentam em campeonatos, e os marmanjos em casa ficam postando suas piores fantasias. Na minha época não podia chegar nem perto do fogão, quanto mais poderia de um torneio sob mais pressão que a válvula da panela; era como se houvesse uma muralha que me mantivesse distante e a qualquer criança pelo menos a cinco metros dele. Minha mãe tinha um trauma: quando era pequena lá no interior de Minas teve uma amiga que virou uma chaleira de água fervente em cima de si própria; sobreviveu, mas pelo tanto que minha mãe sofria em lembrar creio que ficou realmente monstruosa.
Tudo isso para dizer que ando pensando se as pessoas não estão tanto nas cozinhas em busca de criar o elixir da vida, a poção da imortalidade, o néctar dos deuses, e extraem essa mágica nos pratos que fazem diante de plateias e torcidas. Vencendo limites.
Outros buscam nos esportes radicais o seu encontro particular com a morte. E há os que flertam com ela dia e noite em atitudes.
São as novas caras da morte. As das fantasias bonitas que vão aparecer nas inúmeras festas de Dia das Bruxas que também se comemora por aqui; são as cores vivas da festa mexicana que esse ano quase que um furacão com nome de mulher tornou ainda mais dramáticas.
É também esse bang-bang que enfrentamos nas grandes cidades, que nos fazem temer e tremer, nos afastando das ruas, assustados com qualquer estampido que pode selar nossas vidas.
SUS, subserviência ao mercado
A redução dos recursos públicos para a saúde contrasta com as tendências internacionais e terá impactos negativos. O pagamento de impostos condensa uma relação de reciprocidade, orçamentos públicos se destinam a pagar compromissos estabelecidos no passado e investimentos em projetos futuros.
A interrupção de cuidados à saúde e a destinação do fundo público para atender interesses privados imediatistas oneram injustamente os contribuintes, quebram o SUS, desvalorizam um empreendimento coletivo, remetem a saúde brasileira à insustentável e insegura condição de subalternidade aos mercados internacionais.
Ligia Bahia, "Atmosfera malsã"
Estado esmaga sociedade, e não apenas pelo custo
O Brasil sempre aparece mal colocado em rankings que avaliam a capacidade de países abrigarem empresas, estimularem seu crescimento e o empreendedorismo em geral. No mais conhecido deles, o “Doing Business”, do Banco Mundial, o ambiente de negócios do país estava, na última versão do relatório, apenas em 120º lugar. Uma discrepância diante do tamanho da economia brasileira, uma das dez maiores do mundo. Esses levantamentos, feitos junto a empresários e executivos, avaliam diversos aspectos que afetam a vida das empresas e de suas populações, como carga tributária, qualidade das instituições etc. E um dos problemas que mais pesam negativamente para o Brasil é a espessa burocracia que inferniza a vida de pessoas físicas e jurídicas. No caso das empresas, ela aflige acionistas e administradores não apenas com o pagamento de inúmeros impostos, taxas e similares, mas com o enorme trabalho que é manejar guias de recolhimento, mantê-las em dia e devidamente arquivadas, até porque sempre o ônus da prova cabe ao contribuinte.
Um dado ilustrativo: segundo o “Doing Business”, empresas de São Paulo consomem, em média, 2.600 horas por ano para recolher impostos, contra apenas 365 horas na América Latina como um todo. Dados como este não surgem por acaso. Há por trás de cada via-crúcis burocrática um enorme aparato estatal, de tempos em tempos cevado com mais verbas bilionárias, mais cargos. E nisso os últimos 12 anos de hegemonia do PT em Brasília foram pródigos.
Basta consultar os gráficos nesta página para constatar-se o avanço do contingente de servidores no Executivo federal. Até 2013, eram 1.952 mil, ou 13,3% mais que os 1.722 mil servidores lotados na máquina do Executivo, em 2002, último ano de FH no Planalto, incluindo os aposentados.
Os sinais do inchaço da máquina com Lula e Dilma, a partir de 2003, são mais visíveis na distribuição de cargos ditos de confiança. Eles eram aproximadamente 66 mil em 2002 e chegaram a 100.313 em julho deste ano, um crescimento robusto de 52%.
Por trás dos números há o apadrinhamento político e ideológico. É um termômetro fiel do aparelhamento, mesmo com servidores concursados, pois não se pode achar que inexistam militantes petistas entre eles, e que estes não tenham prioridade no recebimento de “adicionais por cargo”.
Não falta espaço na máquina burocrática. Só esses cargos, designados por indecifráveis siglas, são 41. Entre eles, o mais ambicionado é o DAS (Direção e Assessoramento Superior), o destaque nesta sopa de letras. Mas também é possível, se bem apadrinhado, a pessoa acumular adicionais até chegar a, por exemplo, R$ 152.220,97, caso da remuneração total de um funcionário da estatal Eletronorte, mostrado em reportagem do GLOBO.
Os defensores do mastodôntico Estado brasileiro costumam argumentar que a folha dos servidores se mantém estável no nível de 4% do PIB. Mas a questão, aqui, é menos este número isolado e mais analisá-lo “por dentro”, saber se os servidores estão alocados da melhor forma para atender a população, se os salários pagos são compatíveis com a produtividade do funcionário. Ou se a máquina se move por si mesma, impulsionada pela lógica da burocracia, por seus interesses específicos e de aliados políticos de ocasião. Um milhão de funcionários ativos do Executivo receberão este ano mais de R$ 100 bilhões, ou três Bolsas Família, um aumento real (acima da inflação) superior a 55%, desde 2002. Além de tudo, este monstruoso aparato gera mais burocracia. Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento, a máquina produz 520 novos regulamentos por dia.
E tudo somado, o Estado consome 40% do PIB, e ainda precisa pedir dinheiro emprestado. É muito, principalmente quando se avaliam estes índices e cifras por meio da qualidade dos serviços prestados à população. Uma exorbitância, também se analisarmos pela ótica de quem padece com a burocracia pública.
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Basta consultar os gráficos nesta página para constatar-se o avanço do contingente de servidores no Executivo federal. Até 2013, eram 1.952 mil, ou 13,3% mais que os 1.722 mil servidores lotados na máquina do Executivo, em 2002, último ano de FH no Planalto, incluindo os aposentados.
Os sinais do inchaço da máquina com Lula e Dilma, a partir de 2003, são mais visíveis na distribuição de cargos ditos de confiança. Eles eram aproximadamente 66 mil em 2002 e chegaram a 100.313 em julho deste ano, um crescimento robusto de 52%.
Por trás dos números há o apadrinhamento político e ideológico. É um termômetro fiel do aparelhamento, mesmo com servidores concursados, pois não se pode achar que inexistam militantes petistas entre eles, e que estes não tenham prioridade no recebimento de “adicionais por cargo”.
Não falta espaço na máquina burocrática. Só esses cargos, designados por indecifráveis siglas, são 41. Entre eles, o mais ambicionado é o DAS (Direção e Assessoramento Superior), o destaque nesta sopa de letras. Mas também é possível, se bem apadrinhado, a pessoa acumular adicionais até chegar a, por exemplo, R$ 152.220,97, caso da remuneração total de um funcionário da estatal Eletronorte, mostrado em reportagem do GLOBO.
Os defensores do mastodôntico Estado brasileiro costumam argumentar que a folha dos servidores se mantém estável no nível de 4% do PIB. Mas a questão, aqui, é menos este número isolado e mais analisá-lo “por dentro”, saber se os servidores estão alocados da melhor forma para atender a população, se os salários pagos são compatíveis com a produtividade do funcionário. Ou se a máquina se move por si mesma, impulsionada pela lógica da burocracia, por seus interesses específicos e de aliados políticos de ocasião. Um milhão de funcionários ativos do Executivo receberão este ano mais de R$ 100 bilhões, ou três Bolsas Família, um aumento real (acima da inflação) superior a 55%, desde 2002. Além de tudo, este monstruoso aparato gera mais burocracia. Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento, a máquina produz 520 novos regulamentos por dia.
E tudo somado, o Estado consome 40% do PIB, e ainda precisa pedir dinheiro emprestado. É muito, principalmente quando se avaliam estes índices e cifras por meio da qualidade dos serviços prestados à população. Uma exorbitância, também se analisarmos pela ótica de quem padece com a burocracia pública.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2015
Delírio tropical
Dilma lembrou-me, esta semana, de uma piada que li na velha revista “Esquire”. Alguém dizia para Nikita Kruschev na ONU: seu alfaiate deveria ser mandado para a Sibéria. No caso de Dilma não é quem faz a roupa, mas a agenda, que deveria passar um tempo na Sibéria. No auge da crise econômica, condenada por um rombo no orçamento que pode ser de R$ 50 bilhões, desemprego em alta, lojas fechando, carros oficiais sem gasolina, ela decide ir à Suécia reafirmar uma compra milionária de caças.
Compreendo que a Aeronáutica precise dos caças e que a opção pela tecnologia sueca tenha sido acertada. Sou, entretanto, de um tempo em que os presidentes analisavam o momento e, em função dele, definiam sua agendas. Qual o sentido, no auge dessa crise, de acenar, de novo, com a compra dos caças de US$ 4,5 bilhões? Não queriam provocar, creio. Talvez tenham pensado que esse gesto de Dilma, posando ao lado dos caças milionários, iria elevar o ânimo da galera no Brasil.
Montada no maior escândalo mundial, gastando US$ 10 mil com a diária, Dilma foi mais longe no seu delírio: deu a entender que tudo foi obra de um homem só, Eduardo Cunha. “Lamento que isso aconteça com um brasileiro.” “No meu governo não há corrupção.” São algumas de suas frases lapidares.
Os fatos diários mostram ex-ministros encrencados com propina (como é o caso de Edson Lobão, Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann), ministros atuais investigados pelo Supremo (Edinho Silva e Aloizio Mercadante), uma Petrobras arruinada, milhões de pessoas nas ruas protestando contra a corrupção. Isso não é com ela, nem com seu governo. É raro um momento histórico em que a verdade dos fatos seja espancada com tanto vigor e cinismo.
Às vezes, a verdade sofre grandes abalos, como mostra Isaiah Berlin em seu ensaio sobre o romantismo alemão do século XVIII. Naquele momento, tratava-se da afirmação de uma verdade subjetiva, uma espécie de inversão, de dentro para fora. Berlin aponta esse momento como um dos decisivos no pensamento ocidental. Os próprios modelos humanos se deslocavam. Saía de cena, o sábio que alcança a felicidade ou a virtude pela compreensão. E entrava o herói trágico que busca realizar a si próprio, a qualquer custo, sem se importar com as consequências. Para Berlin, isso era uma virada quase tão grande como a produzida pelas ideias de Maquiavel, para quem os valores políticos não são apenas divergentes, mas podem ser contraditórios, com os valores cristãos.
O que acontece hoje, no entanto, não me parece uma versão decadente dessas teorias que abalaram o pensamento ocidental. Os franceses descrevem a cara de pau dos políticos com a expressão langue de bois. E a definem como discursos cortados da realidade com o objetivo de manipular o interlocutor. O que acontece, na verdade, me parece um pouco mais com a descrição da linguagem infantil de Jean Piaget. Ele notou que, até uma certa idade, a linguagem das crianças era egocêntrica: falavam sem se preocupar em serem entendidas, falavam para si próprias.
A visão de que a luta política é uma sucessão de narrativas — eu crio a minha, você cria a sua e vamos em frente — acaba dando margem a uma conversa infantil e egocêntrica. Não importa se o outro acredita, essa é a minha verdade. Vou continuar repetindo-a, independentemente dos fatos. Eles são secundários, pois tenho uma narrativa.
Num país onde política e delinquência andam juntas, a atmosfera não está apenas coalhada de versões, mas de álibis. Para entendê-los, valho-me da experiência de repórter policial e não da política. Nesse campo, as negativas costumam ser radicais, como o criminoso que diz que estava fora de si, o corpo desobedeceu a mente.
Paulo Maluf diz que não tem conta na Suíça, a assinatura não é sua. Eduardo Cunha diz que apenas seu advogado pode dizer se tem ou não contas na Suíça. Dilma diz que no seu governo não há corrupção, Lula que não tinha intimidade com o pecuarista José Carlos Bumlai, a quem deu acesso livre ao seu gabinete.
Na verdade, não estão falando para a sociedade, mas para a polícia. Sua linguagem pode me parecer egocêntrica, pelos padrões de uma conversa adulta. Mas é a única que conseguem falar nesse momento. Os suspeitos seguem em cena e a vida do país se degradando, na economia com o desemprego, no meio ambiente com El Niño. Mais de uma centena de cidades do Rio Grande do Sul em emergência. Seca no Sudeste e no Nordeste. Em Minas, aumentou em 77% o número de incêndios em área de preservação ambiental. Três grandes metrópoles — São Paulo, Rio e Belo Horizonte — vão ter menos água ainda. Falar de El Niño nesse universo político é arriscar o álibi uníssono; mas esse filho não é meu. Se as versões são livres, que tal esta, que o poeta Affonso Romano dizia, quando jovem pregador em Minas: “Arrependei-vos, ó raça de víboras, o juízo final está próximo".
Compreendo que a Aeronáutica precise dos caças e que a opção pela tecnologia sueca tenha sido acertada. Sou, entretanto, de um tempo em que os presidentes analisavam o momento e, em função dele, definiam sua agendas. Qual o sentido, no auge dessa crise, de acenar, de novo, com a compra dos caças de US$ 4,5 bilhões? Não queriam provocar, creio. Talvez tenham pensado que esse gesto de Dilma, posando ao lado dos caças milionários, iria elevar o ânimo da galera no Brasil.

Os fatos diários mostram ex-ministros encrencados com propina (como é o caso de Edson Lobão, Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann), ministros atuais investigados pelo Supremo (Edinho Silva e Aloizio Mercadante), uma Petrobras arruinada, milhões de pessoas nas ruas protestando contra a corrupção. Isso não é com ela, nem com seu governo. É raro um momento histórico em que a verdade dos fatos seja espancada com tanto vigor e cinismo.
Às vezes, a verdade sofre grandes abalos, como mostra Isaiah Berlin em seu ensaio sobre o romantismo alemão do século XVIII. Naquele momento, tratava-se da afirmação de uma verdade subjetiva, uma espécie de inversão, de dentro para fora. Berlin aponta esse momento como um dos decisivos no pensamento ocidental. Os próprios modelos humanos se deslocavam. Saía de cena, o sábio que alcança a felicidade ou a virtude pela compreensão. E entrava o herói trágico que busca realizar a si próprio, a qualquer custo, sem se importar com as consequências. Para Berlin, isso era uma virada quase tão grande como a produzida pelas ideias de Maquiavel, para quem os valores políticos não são apenas divergentes, mas podem ser contraditórios, com os valores cristãos.
O que acontece hoje, no entanto, não me parece uma versão decadente dessas teorias que abalaram o pensamento ocidental. Os franceses descrevem a cara de pau dos políticos com a expressão langue de bois. E a definem como discursos cortados da realidade com o objetivo de manipular o interlocutor. O que acontece, na verdade, me parece um pouco mais com a descrição da linguagem infantil de Jean Piaget. Ele notou que, até uma certa idade, a linguagem das crianças era egocêntrica: falavam sem se preocupar em serem entendidas, falavam para si próprias.
A visão de que a luta política é uma sucessão de narrativas — eu crio a minha, você cria a sua e vamos em frente — acaba dando margem a uma conversa infantil e egocêntrica. Não importa se o outro acredita, essa é a minha verdade. Vou continuar repetindo-a, independentemente dos fatos. Eles são secundários, pois tenho uma narrativa.
Num país onde política e delinquência andam juntas, a atmosfera não está apenas coalhada de versões, mas de álibis. Para entendê-los, valho-me da experiência de repórter policial e não da política. Nesse campo, as negativas costumam ser radicais, como o criminoso que diz que estava fora de si, o corpo desobedeceu a mente.
Paulo Maluf diz que não tem conta na Suíça, a assinatura não é sua. Eduardo Cunha diz que apenas seu advogado pode dizer se tem ou não contas na Suíça. Dilma diz que no seu governo não há corrupção, Lula que não tinha intimidade com o pecuarista José Carlos Bumlai, a quem deu acesso livre ao seu gabinete.
Na verdade, não estão falando para a sociedade, mas para a polícia. Sua linguagem pode me parecer egocêntrica, pelos padrões de uma conversa adulta. Mas é a única que conseguem falar nesse momento. Os suspeitos seguem em cena e a vida do país se degradando, na economia com o desemprego, no meio ambiente com El Niño. Mais de uma centena de cidades do Rio Grande do Sul em emergência. Seca no Sudeste e no Nordeste. Em Minas, aumentou em 77% o número de incêndios em área de preservação ambiental. Três grandes metrópoles — São Paulo, Rio e Belo Horizonte — vão ter menos água ainda. Falar de El Niño nesse universo político é arriscar o álibi uníssono; mas esse filho não é meu. Se as versões são livres, que tal esta, que o poeta Affonso Romano dizia, quando jovem pregador em Minas: “Arrependei-vos, ó raça de víboras, o juízo final está próximo".
De Hércules-Quasímodo e ornitorrincos
Uma imagem de Euclides da Cunha ao caracterizar o sertanejo com que se deparava em sua viagem para cobrir a Guerra de Canudos pode ser mobilizada de maneira produtiva na construção de uma representação do País em meio a esta crise aguda: Hércules-Quasímodo. Uma alegoria surpreendente que associa um personagem da mitologia grega a outro que compõe a conhecida ficção de Victor Hugo cujo cenário é a Catedral de Notre-Dame, em Paris. O Brasil seria uma espécie de Hércules-Quasímodo, a figura de um gigante deformado, uma força bruta, de impossível conexão com qualquer narrativa edificante da Nação em busca da sua modernidade.
Esse Hércules-Quasímodo, como se sabe, vem de longe, atravessou o século e depois de cada fracasso emerge evidenciando as imensas dificuldades de se aproximar do seu suposto desígnio. Conscientes ou não, partilhamos essa história e, de crise em crise, reconhecemos que, apesar de vivenciarmos modernizações sucessivas, o moderno escorre por entre nossos dedos sem que possamos apreendê-lo coletivamente e seguir sua trilha. E assim, aparentemente, nos convencemos de que o Brasil faz jus a essa imagem que comunga simultaneamente força e grandeza, tropeço e repulsa a si mesmo.
Em "Existe um Pensamento Político Brasileiro?" (1994), Raymundo Faoro resgata a imagem de Euclides ao repensar os problemas históricos da “modernização nacional”. A coincidência com a turbulência que o País vivia devida ao processo de impeachment de Fernando Collor de Mello não é fortuita.
Com outros autores, Faoro compartilhava a visão de que o Brasil era a expressão de uma história sem síntese. Nossas modernizações se inscreveriam num tempo circular, numa “história fossilizada”, num “cemitério de projetos, de ilusões e de espectros” em que modernizações sepultavam modernizações, sem que o moderno pudesse enfim se estabelecer. Estava seguro de que o desenvolvimento não poderia ser “uma matéria de decretos” e uma elite política não poderia, pela compulsão e pela ideologia, “gerar a Nação”. Duvidava desse dirigismo e lamentava a ausência do liberalismo, um “elo perdido” da nossa trajetória histórica. A metáfora de Euclides servia-lhe para representar o Brasil como “uma enfermidade”, uma deformação produzida historicamente.
Hércules-Quasímodo, essa representação de uma “história torta” que, mesmo assim, segue seu curso, ganharia outra configuração num tempo mais próximo de nós por meio de uma metáfora de caráter similar. Com o petismo triunfante, a partir de 2002, o Brasil anunciava mudanças sem precedentes. Rapidamente elas ganhariam a conotação de uma “grande transformação”, anunciando a mais recente tentativa de mobilizar, com recursos modernos, as “vantagens do atraso” com vista à sustentação e reprodução de uma elite dirigente e de seu projeto de modernização. De acordo com o sociólogo Chico de Oliveira, esse Brasil petista seria como um ornitorrinco, um animal exótico, mescla de mamífero, ave e réptil, único em toda a “história natural”. O sentido dessa nova alegoria se prendia à incapacidade de se caracterizar um processo cuja natureza estava no fato de que a classe operária estaria a comandar, a partir de Lula, a revolução capitalista no Brasil, invertendo os termos gramscianos e realizando uma espécie de “hegemonia às avessas”.
Contudo o lulismo não processou o trânsito das “vantagens do atraso” para as “vantagens do moderno”, distanciando-se de um projeto que superasse o dirigismo, o patrimonialismo e o corporativismo e estabelecesse um novo nexo entre mercado, democracia, autonomia e bem-estar. Os governos de Lula e do PT se inserem, portanto, no longo processo de “revolução passiva à brasileira” (Luiz Werneck Vianna), transformista e inconcluso. Houve alguma ilusão de que poderia sobrevir um momento de clivagem no qual se reverteriam os termos da revolução passiva e a mudança pudesse dirigir a conservação. Mas esse momento não veio e, ao que tudo indica, não virá.
Há um caráter histórico no fracasso do petismo, que mostra, mais uma vez, que não haverá possibilidades de seguirmos em frente reproduzindo o passado de maneira farsesca. Cada dia que passa o País acumula sinais tenebrosos. A crise anuncia-se como inaudita, com regressão econômica e grande desorientação política, apenas comparável à magnitude da crise ético-moral. Os sinais são de mais um ciclo de modernização que colapsa. O “Brasil petista” foi tão somente um autoengano no qual Hércules-Quasímodo e ornitorrincos vagueiam sem direção.
Esse Hércules-Quasímodo, como se sabe, vem de longe, atravessou o século e depois de cada fracasso emerge evidenciando as imensas dificuldades de se aproximar do seu suposto desígnio. Conscientes ou não, partilhamos essa história e, de crise em crise, reconhecemos que, apesar de vivenciarmos modernizações sucessivas, o moderno escorre por entre nossos dedos sem que possamos apreendê-lo coletivamente e seguir sua trilha. E assim, aparentemente, nos convencemos de que o Brasil faz jus a essa imagem que comunga simultaneamente força e grandeza, tropeço e repulsa a si mesmo.
Em "Existe um Pensamento Político Brasileiro?" (1994), Raymundo Faoro resgata a imagem de Euclides ao repensar os problemas históricos da “modernização nacional”. A coincidência com a turbulência que o País vivia devida ao processo de impeachment de Fernando Collor de Mello não é fortuita.
O jurista gaúcho, notabilizado pelo seu "Os Donos do Poder", de 1958, no qual examinara nossas raízes patrimonialistas, fazia um diagnóstico duro a respeito do fracasso sucessivo das modernizações vivenciadas pelo Brasil. Recorrendo à teoria das “vantagens do atraso” (Veblen), na qual se admite o avanço do capitalismo em países retardatários desde que orientado no sentido de buscar alcançar o patamar estabelecido pelos países precursores, Faoro enfatizou que as crises brasileiras eram provocadas pelo esgotamento do “dirigismo estatal” adotado com vista a mobilizar tais vantagens em favor da modernização. Seguindo esse argumento, advogava que até o final do século 20 o País não havia descoberto o que ele chamava de a “pista da lei natural do desenvolvimento” que lhe proporcionaria um encontro histórico com a modernidade. Um desígnio que deveria ser cumprido em etapas sucessivas, desconsiderando quaisquer tipos de atalhos. Faoro compartilhava a crença de que Lula e o PT poderiam ser os atores que iriam possibilitar ao País essa descoberta e essa reviravolta na trajetória do Brasil. Ele morreu em 2003 e, assim, torna-se insondável, porém não insuspeitável, o que ele nos poderia dizer a respeito dos dias que correm.
Com outros autores, Faoro compartilhava a visão de que o Brasil era a expressão de uma história sem síntese. Nossas modernizações se inscreveriam num tempo circular, numa “história fossilizada”, num “cemitério de projetos, de ilusões e de espectros” em que modernizações sepultavam modernizações, sem que o moderno pudesse enfim se estabelecer. Estava seguro de que o desenvolvimento não poderia ser “uma matéria de decretos” e uma elite política não poderia, pela compulsão e pela ideologia, “gerar a Nação”. Duvidava desse dirigismo e lamentava a ausência do liberalismo, um “elo perdido” da nossa trajetória histórica. A metáfora de Euclides servia-lhe para representar o Brasil como “uma enfermidade”, uma deformação produzida historicamente.
Hércules-Quasímodo, essa representação de uma “história torta” que, mesmo assim, segue seu curso, ganharia outra configuração num tempo mais próximo de nós por meio de uma metáfora de caráter similar. Com o petismo triunfante, a partir de 2002, o Brasil anunciava mudanças sem precedentes. Rapidamente elas ganhariam a conotação de uma “grande transformação”, anunciando a mais recente tentativa de mobilizar, com recursos modernos, as “vantagens do atraso” com vista à sustentação e reprodução de uma elite dirigente e de seu projeto de modernização. De acordo com o sociólogo Chico de Oliveira, esse Brasil petista seria como um ornitorrinco, um animal exótico, mescla de mamífero, ave e réptil, único em toda a “história natural”. O sentido dessa nova alegoria se prendia à incapacidade de se caracterizar um processo cuja natureza estava no fato de que a classe operária estaria a comandar, a partir de Lula, a revolução capitalista no Brasil, invertendo os termos gramscianos e realizando uma espécie de “hegemonia às avessas”. Contudo o lulismo não processou o trânsito das “vantagens do atraso” para as “vantagens do moderno”, distanciando-se de um projeto que superasse o dirigismo, o patrimonialismo e o corporativismo e estabelecesse um novo nexo entre mercado, democracia, autonomia e bem-estar. Os governos de Lula e do PT se inserem, portanto, no longo processo de “revolução passiva à brasileira” (Luiz Werneck Vianna), transformista e inconcluso. Houve alguma ilusão de que poderia sobrevir um momento de clivagem no qual se reverteriam os termos da revolução passiva e a mudança pudesse dirigir a conservação. Mas esse momento não veio e, ao que tudo indica, não virá.
Há um caráter histórico no fracasso do petismo, que mostra, mais uma vez, que não haverá possibilidades de seguirmos em frente reproduzindo o passado de maneira farsesca. Cada dia que passa o País acumula sinais tenebrosos. A crise anuncia-se como inaudita, com regressão econômica e grande desorientação política, apenas comparável à magnitude da crise ético-moral. Os sinais são de mais um ciclo de modernização que colapsa. O “Brasil petista” foi tão somente um autoengano no qual Hércules-Quasímodo e ornitorrincos vagueiam sem direção.
Quem são e o que querem os que negam a internet?
| Sede central da Oracle no Vale do Silício, na Califórnia |
De bom grado, a maioria das pessoas foi outorgando um crescente poder ao setor tecnológico sobre suas mentes e suas vidas. No fim das contas, os computadores e a Internet são úteis e divertidos, e os empresários e engenheiros se dedicaram a fundo para inventar novas maneiras de fazer com que desfrutemos dos prazeres, benefícios e vantagens práticas da revolução tecnológica, geralmente sem ter que pagar por esse privilégio. Um bilhão de habitantes do planeta usam o Facebook diariamente. Cerca de dois bilhões levam consigo umsmartphone a todos os lugares e costumam dar uma olhada no dispositivo a cada poucos minutos durante o tempo em que passam acordadas. Os números reforçam o que já sabemos: ansiamos as dádivas do Vale do Silício. Compramos no Amazon, viajamos com o Uber, dançamos com o Spotify e falamos por WhatsApp e Twitter.
Mas as dúvidas sobre a chamada revolução digital têm crescido. A visão imaculada que as pessoas tinham do famoso vale tem ganhado uma sombra inclusive nos Estados Unidos, um país de apaixonados pelos equipamentos eletrônicos. Uma onda de artigos recentes, surgida após as revelações de Edward Snowden sobre a vigilância na Internet por parte dos serviços secretos, tem manchado a imagem positiva que os consumidores tinham do setor de informática. Dão a entender que, por trás da retórica sobre o empoderamento pessoal e a democratização, se esconde uma realidade que pode ser exploradora, manipuladora e até misantrópica.
As investigações jornalísticas encontraram provas de que nos armazéns e escritórios do Amazon, assim como nas fábricas asiáticas de computadores, os trabalhadores enfrentam condições abusivas. Descobriu-se que o Facebook realiza experiências clandestinas para avaliar o efeito psicológico em seus usuários manipulando o “conteúdo emocional” das publicações e notícias sugeridas. As análises econômicas das chamadas empresas de serviços compartilhados, como Uber e Airbnb, indicam que, apesar de proporcionarem lucros a investidores privados, é possível que estejam empobrecendo as comunidades em que operam. Livros como o de Astra Taylor The People’s Platform [A Plataforma do Povo], publicado em 2014, mostram que com certeza a Internet está aprofundando as desigualdades econômicas e sociais, em vez de ajudar a reduzi-las.
As incertezas políticas e econômicas ligadas aos efeitos do poder do Vale do Silício vão além, enquanto o impacto cultural dos meios de comunicação digitais se submete a uma severa reavaliação. Prestigiosos autores e intelectuais, entre eles o prêmio Nobel peruano Mario Vargas Llosa e o romancista norte-americano Jonathan Franzen, apresentam a Internet como causa e sintoma da homogeneização e a trivialização da cultura. No início deste ano, o editor e crítico social Leon Wieseltier publicou no The New York Times uma enérgica condenação do “tecnologicismo”, em que sustentou que os “gangsteres” empresariais e os filisteus tecnológicos confiscaram a cultura. “À medida que aumenta a frequência da expressão, sua força diminui”, disse, e “o debate cultural está sendo absorvido sem parar pelo debate empresarial”
A encarnação da cretinbice
O grande problema com aqueles que querem o meu impeachment é a falta de motivação
Dilma ao jornalista Fareed Zackaria na CNN.
Cinismo e desespero
A história mundial está repleta de exemplos inspiradores. E a saga brasileira também. Os defeitos pessoais e as limitações humanas dos homens públicos, inevitáveis e recorrentes como as chuvas de verão, não matavam a política. Hoje, no entanto, assistimos ao advento da pornopolítica e ao avanço de um inclemente deserto de liderança. A vida pública, com raras e contadas exceções, transformou-se num espaço mafioso, numa avenida transitada por governantes corruptos, políticos cínicos e gangues especializadas no assalto ao dinheiro público.
Não bastasse tudo isso, e não é pouco, o Brasil foi tomado por um grupo disposto a impor à sociedade um modelo ideológico autoritário de matriz marxista: o bolivarianismo. Optaram, esperta e pragmaticamente, pelo atalho gramsciano: o populismo democrático. O lulopetismo, como bem lembrou recente editorial do jornal O Estado de S.Paulo, “aplicou um ‘nova matriz econômica’ que priorizou os investimentos de alto retorno eleitoral –como programas sociais que efetivamente ajudaram a tirar milhões de brasileiros momentaneamente da miséria, mas sem nenhuma garantia de efetiva inserção na atividade econômica”.
“De acordo com a constatação insuspeita de Frei Betto, nas favelas que se multiplicam por todo o país se encontram hoje barracos devidamente equipados com geladeira, eletrodomésticos, televisores moderníssimos, às vezes até mesmo carros populares e outros objetos de consumo, mas quando saem porta afora as pessoas não encontram escolas, postos de saúde e hospitais decentes, transporte público eficiente e barato, segurança adequada, enfim, os bens sociais que são muito mais essenciais a um padrão de vida digno do que os bens de consumo que lhes oferecem a ilusória sensação de prosperidade”, concluiu o editorial.
O bolivarianismo tupiniquim, estrategicamente implantado por Lula, rendeu bons resultados aos seus líderes: muito poder e muito dinheiro. Não contaram, no entanto, com três fatores complicadores: a força inescapável da realidade econômica, o papel da liberdade de imprensa e a independência das instituições.
A política econômica populista, que, como hoje se constata, não tinha possibilidade de se sustentar, provocou a catastrófica crise que aprisionou Dilma Rousseff no figurino de um zumbi, reduziu a pó o capital político do PT e transformou Lula num náufrago que se agarra à miragem de sua candidatura em 2018. Não vai funcionar. Lula é um manipulador, mas tudo tem limites. Armado de um cinismo afiado, procura transformar irresponsabilidade fiscal em pedalada social. Uma tentativa, mais uma, de lançar pobres contra ricos. Mas a mentira não se sustenta. Como lembrou a jornalista Miriam Leitão, das “pedaladas” de R$ 40 bilhões, R$ 6 bilhões foram para os pagamentos de programas sociais. “A maior parte da dívida é com programas do bolsa empresário.” A população sentiu a mordida da traição populista: desemprego, inflação, saúde que definha nos corredores da morte do SUS.
Os sucessivos e raivosos ataques de Lula à mídia, balanceados com declarações formais de adesão à democracia, não conseguem mais esconder seus dragões interiores. O ex-presidente está desesperado com o avanço da Lava Jato.
As instituições estão funcionando. Felizmente. O juiz federal Sergio Moro não é um contínuo do Palácio do Planalto. É representante de outro poder da República. A Polícia Federal, independente e eficiente, não é um departamento subordinado aos interesses, caprichos e ordens da doutora Dilma Rousseff.
A Operação Lava Jato vai compondo um quadro de corrupção que arranhou gravemente a história, a saúde financeira, a marca e o futuro de um ícone do Brasil: a Petrobras. Lula e Dilma, queiram ou não, estão no olho do furacão.
A crise econômica e política é gravíssima. Mas a sua raiz é ética e moral. O espaço público é um deserto de princípios, de valores e de grandeza. Virar o jogo não depende de salvadores da pátria, mas de trabalho, honestidade e competência. A democracia tem o melhor remédio: o voto. O Brasil vai ganhar o jogo.

“De acordo com a constatação insuspeita de Frei Betto, nas favelas que se multiplicam por todo o país se encontram hoje barracos devidamente equipados com geladeira, eletrodomésticos, televisores moderníssimos, às vezes até mesmo carros populares e outros objetos de consumo, mas quando saem porta afora as pessoas não encontram escolas, postos de saúde e hospitais decentes, transporte público eficiente e barato, segurança adequada, enfim, os bens sociais que são muito mais essenciais a um padrão de vida digno do que os bens de consumo que lhes oferecem a ilusória sensação de prosperidade”, concluiu o editorial.
O bolivarianismo tupiniquim, estrategicamente implantado por Lula, rendeu bons resultados aos seus líderes: muito poder e muito dinheiro. Não contaram, no entanto, com três fatores complicadores: a força inescapável da realidade econômica, o papel da liberdade de imprensa e a independência das instituições.
A política econômica populista, que, como hoje se constata, não tinha possibilidade de se sustentar, provocou a catastrófica crise que aprisionou Dilma Rousseff no figurino de um zumbi, reduziu a pó o capital político do PT e transformou Lula num náufrago que se agarra à miragem de sua candidatura em 2018. Não vai funcionar. Lula é um manipulador, mas tudo tem limites. Armado de um cinismo afiado, procura transformar irresponsabilidade fiscal em pedalada social. Uma tentativa, mais uma, de lançar pobres contra ricos. Mas a mentira não se sustenta. Como lembrou a jornalista Miriam Leitão, das “pedaladas” de R$ 40 bilhões, R$ 6 bilhões foram para os pagamentos de programas sociais. “A maior parte da dívida é com programas do bolsa empresário.” A população sentiu a mordida da traição populista: desemprego, inflação, saúde que definha nos corredores da morte do SUS.
Os sucessivos e raivosos ataques de Lula à mídia, balanceados com declarações formais de adesão à democracia, não conseguem mais esconder seus dragões interiores. O ex-presidente está desesperado com o avanço da Lava Jato.
As instituições estão funcionando. Felizmente. O juiz federal Sergio Moro não é um contínuo do Palácio do Planalto. É representante de outro poder da República. A Polícia Federal, independente e eficiente, não é um departamento subordinado aos interesses, caprichos e ordens da doutora Dilma Rousseff.
A Operação Lava Jato vai compondo um quadro de corrupção que arranhou gravemente a história, a saúde financeira, a marca e o futuro de um ícone do Brasil: a Petrobras. Lula e Dilma, queiram ou não, estão no olho do furacão.
A crise econômica e política é gravíssima. Mas a sua raiz é ética e moral. O espaço público é um deserto de princípios, de valores e de grandeza. Virar o jogo não depende de salvadores da pátria, mas de trabalho, honestidade e competência. A democracia tem o melhor remédio: o voto. O Brasil vai ganhar o jogo.
Lula e o imperaivo de sobrevivência
Ao completar 70 anos, amanhã, pode o Lula considerar-se na plenitude de sua capacidade para realizar o Bem ou o Mal? Como já se dedicou a ambos os objetivos, ora atendendo os pobres e os necessitados, ora privilegiando os ricos e os vigaristas, continua em aberto a possibilidade dele tentar voltar ao palácio do Planalto. Não se diz voltar ao poder porque deste jamais se afastou, tanto controlando o PT quanto interferindo no governo Dilma. Muita gente considera inviável o retorno do ex-presidente, dado o desgaste do partido dos companheiros e o fracasso hoje evidente da administração da sucessora. Madame deixou de ser a esperança de continuidade de um período ao menos em parte voltado para os menos favorecidos. Transformou-se em instrumento fisiológico de uma base parlamentar ávida de sinecuras e favores variados. Atende sugestões esparsas do antecessor, mas permanece a maior parte do tempo lambuzando o país de incompetência.
Caso decida ou não possa evitar candidatar-se em 2018, o Lula carregará o fracasso da Dilma. Talvez o peso venha a ser demasiado para obter a vitória, como revelam as pesquisas atuais. Nessa hipótese, precisará encontrar quem o substitua como candidato, mas quem? Nos quadros do PT a safra revela-se decepcionante. Jacques Wagner, Aloizio Mercadante, Ricardo Berzoini? Não dá. Será o ex-presidente obrigado a aceitar o encargo, por falta de alternativas? Mas, se perder, não estará acionando a pá-de-cal na aventura um dia saudada como capaz de mudar o Brasil? Apoiar um candidato de origem diversa, tipo Ciro Gomes, será um risco, mas pior seria aceitar Michel Temer, do PMDB.
Nesse cipoal encontra-se o ex-torneiro-mecânico, ao completar 70 anos. Desejando ou não retornar, quando tiver 73, sua candidatura será um imperativo de sobrevivência, não apenas pessoal, mas do movimento que criou. Só que obstáculos levantam-se de todos os lados. As acusações de haver-se tornado milionário, envolvendo também sua família. Relações pouco claras com empreiteiros hoje morando na cadeia. O desgaste natural da idade. A falta de renovação no próprio partido. O distanciamento da classe operária, atualmente órfã de lideranças em condições de reivindicar melhores condições de vida e de trabalho. E mais o desemprego crescente, o aumento de impostos, taxas e tarifas, a redução de direitos sociais, a queda nos índices de crescimento econômico e a inflação.
O diabo é que, mesmo enfrentando tamanha carga negativa, o Lula poderá não encontrar argumentos para recusar a candidatura. Arriscado a enfrentar a derrota, não lhe será possível saltar de banda.
Ela não quer. Ela não vai
No começo, eles acharam que a vida estava ganha. Melhor ainda, ganha sem esforço.
Pelo menos pelos próximos anos, sejam eles quatro ou oito. Mas os humoristas viveram a ilusão de que haviam encontrado fonte inesgotável, incomparável, inestimável, de matéria prima.
Respingam de sua boca palavras sem nexo, pensamentos ininteligíveis, ideias desconexas. Tudo empacotado por linguagem confusa, cheia de erros. Onde concordância é coisa renegada ao ostracismo. E o português, pobre, tratado a pontapés.
Os mais realistas se envergonham. É duro admitir que ela nos representasse. Que nos governa. Nem Garcia Márquez poderia ter criado caricatura semelhante. O realismo, ali, é mais do que fantástico. Vai do inaceitável ao inacreditável.
Com muita forca, sua chegada ao topo pode trazer uma réstia de esperança. O nível ficou tão baixo que as oportunidades não mais dependeriam de qualificação. Ou de qualquer critério que exija competência, clareza, coerência, ou simples capacidade de comunicação. Se ela foi eleita e (pior!) reeleita, isto quer dizer que qualquer um pode chegar lá. Qualquer um mesmo.
O problema é que governar é coisa séria. Traz consequências, impactos e repercussões. E ser governado por uma piada é perigoso. Em todos os sentidos.
Poderia abreviar o sofrimento. Poupar os ouvidos. Afagar nossa inteligência. Bastava renunciar. Se tornar ausente. Ir embora. Nem os humoristas lamentariam. Mas ela não quer. Mas ela não vai. É duro.
Pelo menos pelos próximos anos, sejam eles quatro ou oito. Mas os humoristas viveram a ilusão de que haviam encontrado fonte inesgotável, incomparável, inestimável, de matéria prima.

Alegria de humorista dura pouco. De matéria prima, ela rapidamente tornou-se personagem. Dispensou a intermediação de humoristas, cartunistas, ou profissionais da sátira. Passou (ou talvez apenas tenha continuado) a oferecer o ridículo a granel, a todos, sem necessidade de intermediação, interpretação ou caricatura. Passou de inspiração a concorrente. A piada já vem pronta. O gosto, duvidoso.
Respingam de sua boca palavras sem nexo, pensamentos ininteligíveis, ideias desconexas. Tudo empacotado por linguagem confusa, cheia de erros. Onde concordância é coisa renegada ao ostracismo. E o português, pobre, tratado a pontapés.
Os mais realistas se envergonham. É duro admitir que ela nos representasse. Que nos governa. Nem Garcia Márquez poderia ter criado caricatura semelhante. O realismo, ali, é mais do que fantástico. Vai do inaceitável ao inacreditável.
Com muita forca, sua chegada ao topo pode trazer uma réstia de esperança. O nível ficou tão baixo que as oportunidades não mais dependeriam de qualificação. Ou de qualquer critério que exija competência, clareza, coerência, ou simples capacidade de comunicação. Se ela foi eleita e (pior!) reeleita, isto quer dizer que qualquer um pode chegar lá. Qualquer um mesmo.
O problema é que governar é coisa séria. Traz consequências, impactos e repercussões. E ser governado por uma piada é perigoso. Em todos os sentidos.
Poderia abreviar o sofrimento. Poupar os ouvidos. Afagar nossa inteligência. Bastava renunciar. Se tornar ausente. Ir embora. Nem os humoristas lamentariam. Mas ela não quer. Mas ela não vai. É duro.
Fim da linha
A crise de tudo que estamos vivenciando subiu no telhado. Mais do mais, ela é especialmente grave porque o país perdeu o seu eixo. Em qualquer crise, em qualquer momento e em qualquer nação ou tribo, o que sempre se sobressai é a figura de um líder ou de uma ideia, de uma instituição, um suporte, um norte, cunhados ou eleitos pelas circunstâncias ou pela sociedade e identificados como referência de mudança, de reconstrução, para se avançar.
No caso da atualidade brasileira, o xadrez é outro. Vivemos uma enorme crise política com a presidente da República nas cordas, lutando contra o nocaute e sempre salva pelo gongo. Dilma, ainda que tardiamente, precisa conter a enxurrada de gastos, alimentada pela irresponsabilidade, pela corrupção, pela histórica falta de critério e austeridade da gestão pública sempre presentes como nota tônica nos projetos de governos, no seu inclusive.
O ajuste fiscal é a única solução ainda possível mas ele não interessa a grupos com mando ou influência política, a partidos da oposição ou mesmo da situação, a setores do empresariado, do sindicalismo e do próprio governo. Aprová-lo requer a liberação de emendas parlamentares, a concessão de cargos e favores imorais, segurar (ou tentar) o Judiciário para que coloque ou não na cadeia A, ou B, ou E, de Eduardo. Requer a dança das cadeiras, a troca de ministérios, de verbas do orçamento, tudo que, se feito para se aprovar o ajuste, significará nada porque as mudanças ou o tempo vão comer o próprio ajuste.
Não há investimentos em nenhuma atividade econômica, por falta, especialmente, de segurança jurídica. Todas as nossas instituições estão sobrevivendo em regime de concordata ou mesmo de falência. Com toda essa indigência de ideias e de recursos, o único assunto que se discute é se Eduardo Cunha fica na Presidência da Câmara, embora contra si já se tenham colecionado centenas de provas de sua cara presente, sorrindo, em quase todas as janelas da corrupção ou outros malfeitos de tudo que é bras nesse Brasil. Nada anda, nada muda, nada se constrói.
Além desse pouco, políticos, federações e outros iluminados parecem mais preocupados se Levy, que apesar de banqueiro é quem sabe ler cartas geográficas, nas quais, indo e vindo, se pode chegar a algum lugar, vai ficar ou não na tentativa de fazer chegar a um porto seguro essa nau sem rumo. Só uma situação caminha e se avoluma: a que reflete a miséria, o desespero, a absoluta falta de alternativas da população. Se assim continuarmos, a violência irá para as ruas porque não haverá mais caminhos. E aí tudo será tarde demais.
No caso da atualidade brasileira, o xadrez é outro. Vivemos uma enorme crise política com a presidente da República nas cordas, lutando contra o nocaute e sempre salva pelo gongo. Dilma, ainda que tardiamente, precisa conter a enxurrada de gastos, alimentada pela irresponsabilidade, pela corrupção, pela histórica falta de critério e austeridade da gestão pública sempre presentes como nota tônica nos projetos de governos, no seu inclusive.
O ajuste fiscal é a única solução ainda possível mas ele não interessa a grupos com mando ou influência política, a partidos da oposição ou mesmo da situação, a setores do empresariado, do sindicalismo e do próprio governo. Aprová-lo requer a liberação de emendas parlamentares, a concessão de cargos e favores imorais, segurar (ou tentar) o Judiciário para que coloque ou não na cadeia A, ou B, ou E, de Eduardo. Requer a dança das cadeiras, a troca de ministérios, de verbas do orçamento, tudo que, se feito para se aprovar o ajuste, significará nada porque as mudanças ou o tempo vão comer o próprio ajuste.
Não há investimentos em nenhuma atividade econômica, por falta, especialmente, de segurança jurídica. Todas as nossas instituições estão sobrevivendo em regime de concordata ou mesmo de falência. Com toda essa indigência de ideias e de recursos, o único assunto que se discute é se Eduardo Cunha fica na Presidência da Câmara, embora contra si já se tenham colecionado centenas de provas de sua cara presente, sorrindo, em quase todas as janelas da corrupção ou outros malfeitos de tudo que é bras nesse Brasil. Nada anda, nada muda, nada se constrói.
Além desse pouco, políticos, federações e outros iluminados parecem mais preocupados se Levy, que apesar de banqueiro é quem sabe ler cartas geográficas, nas quais, indo e vindo, se pode chegar a algum lugar, vai ficar ou não na tentativa de fazer chegar a um porto seguro essa nau sem rumo. Só uma situação caminha e se avoluma: a que reflete a miséria, o desespero, a absoluta falta de alternativas da população. Se assim continuarmos, a violência irá para as ruas porque não haverá mais caminhos. E aí tudo será tarde demais.
Perigo do Estado aparelhado
Onde quer que encontremos uma grande parcela de liberdade individual, alguma dose de progresso no conforto material à disposição dos cidadãos comuns e uma esperança generalizada de mais progresso no futuro, lá veremos também que a atividade econômica está organizada principalmente com base na economia de mercado. Onde quer que o Estado assuma o controle detalhado das atividades econômicas de seus cidadãos, ou seja, onde quer que reine o planejamento econômico central detalhado, lá os cidadãos comuns estão com algemas políticas, têm um baixo padrão de vida e pouco poder para controlar o seu próprio destino. O Estado pode prosperar e produzir monumentos impressionantes. Classes privilegiadas podem usufruir plenamente do conforto material. Mas os cidadãos comuns são instrumentos a serem usados para os propósitos do Estado, recebendo nada além do necessário para serem mantidos dóceis e razoavelmente produtivos.Milton Friedman
Poder público tem cultura de sigilo
Gestores públicos brasileiros se sentem donos da informação e promovem uma cultura de sigilo, afirmam especialistas. Tal postura impede um controle social externo, o que prejudica a eficiência da gestão estatal e a própria democracia.
"O administrador público brasileiro tem uma mentalidade retrógrada. Ele pensa que é detentor da informação. Ele não entende que a informação é apenas gerida por ele, e que é sua obrigação, por lei, mapear essa base de dados e divulgá-la", diz a diretora da Transparência Brasil, Natália Paiva.
Em outubro, veio à tona que a administração do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), havia decretado sigilo a documentos oficiais do Metrô, da Companhia de Saneamento Básico do estado de São Paulo (Sabesp), da Polícia Militar e da administração penitenciária.
No caso do metrô, o público só poderia ter acesso a informações sobre o andamento das obras, por exemplo, depois de 25 anos. Dados sobre o sistema penitenciário, só um século depois. E, em meio a uma crise hídrica histórica, projetos técnicos e operacionais da Sabesp só seriam de conhecimento público em 15 anos.
Após a repercussão negativa dos decretos, Alckmin revogou o sigilo das informações estaduais e estabeleceu que apenas o próprio governador, o vice, secretários e procuradores poderiam determinar novas restrições.
Na mesma semana, também foi descoberto que a gestão do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), havia decretado sigilo de cinco anos para dados da Guarda Civil Metropolitana, como imagens de câmeras de monitoramento das ruas da cidade. O prefeito afirmou depois que ia rever o decreto – a decisão, entre outras, desgastou o secretário de Segurança Urbana, que foi exonerado.
Para a maioria dos especialistas, essa sequência de decretos de sigilo faz parte da normalidade do comportamento das administrações públicas. A diferença é que desde 2012, quando a Lei de Acesso à Informação (LAI) entrou em vigor, há embasamento para questionar tais restrições.
Isso porque a LAI regulamentou o direito à informação – que já estava previsto na Constituição – e estabeleceu critérios claros para o sigilo de dados, além de mecanismos e punições para o descumprimento da lei.
Alguns especialistas acreditam que a "onda de sigilos" pode ser uma reação à própria LAI, como é o caso da secretária-executiva do Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Marina Atoji.
"Agora que as pessoas podem pedir [informações] e os governos precisam entregar, eles procuram esconder. Por exemplo: a Polícia Militar começou a colocar documentos sob sigilo depois das manifestações de 2013, como procedimentos de ação em tumultos públicos", diz Atoji.
Leite com petróleo
O crime nos rodeia. Está em quase todos os cantos e o assédio é tanto que, às vezes, o confundimos com abraço. E tudo se torna ainda mais terrível por sermos envolvidos pelo engano. Nos anos 1940, nos chuveiros dos "banheiros" dos campos de extermínio nazistas, o odor adocicado do gás Zyklon B transmitia, nos segundos iniciais, agradável sensação aos civis prisioneiros, que respiravam fundo e enchiam o pulmão em busca de ar puro. Em menos de um minuto, se retorciam asfixiados e morriam.
O engano é o elemento mais perturbador do crime. Ou é, até, a arma fundamental, sem a qual o criminoso não seria capaz de consumar o ato. A não ser aqueles criminosos escancarados, que se orgulham da morbidez de matadores, todos se ocultam no engodo. Agora, quando velhos e imensos escândalos vêm à luz pela primeira vez, deixamos de ser o país em que os grandes ladrões nunca chegavam à Justiça. Ou, nas raras vezes em que respondiam a processo, escudavam-se na condição de "elegantes senhores" e jamais eram condenados.
Além dos já condenados no escândalo da Petrobras, agora dezenas de outros estão a caminho das grades. A independência de Rodrigo Janot e seus procuradores e o destemor do juiz Sérgio Moro fizeram a Justiça perder o "temor reverencial" com que tratava os "graúdos".
***
Até Pizzolato já está na Papuda, mas a "graudagem" não desiste. Escrevo de São Paulo, onde a falta d'água é tão visível quanto as pressões do PT para que Dilma demita o ministro da Justiça, Joaquim Cardozo.O PT paulista chama Cardozo de "traidor" por "ter permitido" que a investigação da Polícia Federal na Operação Lava Jato chegasse ao ex-presidente Lula, dois filhos e nora. Queriam que o ministro apontasse, de antemão, a quem investigar ou culpar?
Além de Lula, dezenas de políticos de diferentes partidos aparecem na "delação premiada" de Fernando Baiano, coordenador dos subornos ao PMDB na Petrobras. E não só os já conhecidos gatunos do PP, PMDB e PT, mas até Sérgio Guerra, ex-presidente nacional do PSDB, tido como "acima de toda suspeita" (falecido em 2014), recebeu R$ 10 milhões para evitar uma CPI sobre a Petrobras. Também o ex-deputado do PSDB Alexandre Santos, "mandão" na empresa no tempo de Fernando Henrique. E ainda Antônio Palocci, ministro da Fazenda de Lula. Além do ex-presidente Collor, que teria recebido R$ 26 milhões numa venda de álcool superior a R$ 1 bilhão...
Nenhum desses aprendizes de gângster, porém, teve a audácia de Eduardo Cunha, do PMDB, ao depositar em bancos suíços milhões de dólares oriundos do suborno, convencido de que era impune e intocável. O procurador Janot já localizou US$ 5 milhões e busca outros US$ 34 milhões do presidente da Câmara dos Deputados e familiares.
***
Não há petróleo no Rio Grande, mas nos orgulhamos sempre do úbere de nossas vacas e do leite produzido. Mas também aí o engodo viceja. Em 2013, procuradores estaduais descobriram vasta rede de adulteração do leite e 66 implicados foram presos. Mas a fraude continuou. Agora, nova descoberta, ainda mais grave: os já condenados ou denunciados à Justiça continuaram a adulterar. Os TACs, "Termos de Ajustamento de Conduta" impostos aos "condenados" foram leves e a Lactibom, principal empresa implicada, mudou de nome e continuou a envenenar.Sim, envenenar! Ou adulterar um alimento essencial não é um envenenamento programado?
O escândalo do leite não tem a dimensão financeira do assalto à Petrobras, mas é mais pernicioso. Está em jogo a saúde da população. Equivale a um ato terrorista que afeta indiscriminadamente a todos.
Já misturaram formol ao leite. Só falta que adicionem óleo diesel e nos vendam como "café com leite".
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