domingo, 9 de agosto de 2026

A impunidade do genocídio e a perda da conquista histórica de Nuremberg

“A única pista para aquilo que o ser humano pode fazer é aquilo que o ser humano já fez.” A advertência de R. G. Collingwood, utilizada no encerramento do filme Nuremberg, não deveria ser recebida como uma reflexão melancólica sobre um passado encerrado. Ela contém uma profecia política: os mecanismos que permitiram as grandes barbaridades do século XX não desapareceram com a derrota militar do nazismo. Podem reaparecer sempre que o Estado converte o medo em doutrina, o preconceito em identidade nacional, a obediência em virtude e a destruição de outro povo em requisito de segurança.

A formulação exige, porém, uma precisão indispensável. Não são os transtornos psiquiátricos que explicam o nazismo, os crimes de guerra ou os projetos contemporâneos de extermínio. Associar doença mental à barbárie seria cientificamente frágil e injusto com milhões de pessoas que convivem com sofrimento psíquico sem jamais praticar violência. A descoberta mais perturbadora de Douglas Kelley foi justamente a inversa: pessoas sem uma patologia psiquiátrica incapacitante podem participar de crimes extraordinários quando determinadas circunstâncias políticas, institucionais e morais tornam o crime normal, recompensado ou socialmente aceitável.

Não precisamos ser clinicamente insanos para participar de uma sociedade criminosa. Basta que nos adaptemos, que obedeçamos, que racionalizemos e que aceitemos o sofrimento do outro como preço inevitável de nossa própria segurança

Em O nazista e o psiquiatra, Jack El-Hai reconstrói o encontro entre Kelley, então psiquiatra do Exército norte-americano, e os principais dirigentes nazistas presos antes do primeiro julgamento de Nuremberg. Kelley deveria avaliar se aqueles homens possuíam condições mentais para responder perante o tribunal. Esperava talvez encontrar uma estrutura psicológica especificamente nazista, uma deformação que separasse aqueles acusados da humanidade comum. O livro mostra que sua investigação não produziu uma fronteira confortável entre monstros e pessoas normais. Encontrou homens inteligentes, ambiciosos, socialmente funcionais e capazes de adaptar consciência, linguagem e comportamento às oportunidades oferecidas pelo poder.

A conclusão de Kelley antecipa uma questão que atravessaria o pensamento político do pós-guerra: o mal organizado não depende apenas de uma personalidade excepcionalmente perversa. Depende da criação de um ambiente em que a responsabilidade individual seja diluída entre ordens superiores, procedimentos administrativos, discursos patrióticos e interesses profissionais. A profecia de Nuremberg não é a de uma doença psiquiátrica que se repete. É a de uma possibilidade humana e institucional que permanece disponível.


Hannah Arendt encontrou na figura de Adolf Eichmann não a ausência de responsabilidade, mas a incapacidade de pensar criticamente sobre aquilo que fazia. Sua ideia de banalidade do mal foi muitas vezes reduzida à afirmação simplista de que os criminosos seriam burocratas inocentes. O argumento é mais exigente: atos monstruosos podem ser praticados por pessoas que substituem o julgamento moral pela linguagem administrativa, pela carreira e pela obediência. A banalidade não está no sofrimento causado, mas na normalidade com que o agente aprende a administrá-lo.

Christopher Browning, em Homens comuns, examinou como integrantes de um batalhão policial composto majoritariamente por alemães de meia-idade se transformaram em executores de milhares de judeus. Não eram todos militantes fanáticos nem foram todos obrigados sob ameaça imediata de morte. Pressão do grupo, conformismo, carreira, medo de parecer covarde, antissemitismo e adaptação progressiva tornaram possível aquilo que inicialmente poderia ter parecido impensável.

Robert Jay Lifton, ao estudar os médicos nazistas, demonstrou outra dimensão decisiva. Profissionais treinados para curar puderam participar da seleção, da experimentação e da morte porque construíram uma separação interna entre a identidade médica e a função exercida no sistema de extermínio. O conhecimento científico não impediu o crime; foi colocado a serviço dele. A medicina, quando capturada pelo Estado totalitário, deixou de proteger a vida concreta e passou a administrar uma suposta saúde racial da nação.

Essas contribuições não eliminam a responsabilidade pessoal. Fazem exatamente o contrário. Demonstram que não podemos esperar sinais de loucura para reconhecer o perigo. Um governante pode discursar racionalmente, vencer eleições, dominar estatísticas, reunir especialistas e, ainda assim, conduzir políticas criminosas. Um oficial pode amar sua família e ordenar a destruição da família de outro. Um médico pode preservar a saúde de determinados cidadãos e aceitar a privação médica de uma população considerada inimiga. Um eleitor pode defender valores democráticos para seu próprio grupo e tolerar a suspensão desses valores para quem foi colocado fora da comunidade nacional.

O Museu Memorial do Holocausto, dos Estados Unidos, resume as motivações dos participantes e colaboradores do nazismo em dois grandes campos: elementos culturais e ideológicos, como o antissemitismo, e mecanismos psicossociais, como medo, oportunismo e pressão para conformar-se. Muitos europeus testemunharam perseguições, violência, deportações e apropriação de bens, mesmo sem conhecer a extensão completa da chamada Solução Final. A propaganda ocultou métodos e utilizou eufemismos, mas a exclusão dos judeus da sociedade ocorria diante de vizinhos, funcionários, comerciantes e beneficiários diretos da desapropriação.

O Estado nacional-socialista criou as circunstâncias em que o crime deixou de parecer crime. O judeu foi primeiro transformado em problema jurídico, econômico, biológico e territorial. Vieram as classificações, as proibições profissionais, a expropriação, a segregação, a deportação e, finalmente, o assassinato industrializado. O Holocausto foi um processo em evolução: a perseguição sistemática iniciada em 1933 culminou, entre 1941 e 1945, na política de assassinato em massa denominada pelos nazistas “Solução Final”.

A Alemanha nazista e seus aliados e colaboradores assassinaram seis milhões de judeus europeus, além de milhões de outras vítimas perseguidas pelo regime. Aproximadamente 9,5 milhões de judeus viviam na Europa em 1933. Ao final da guerra, dois de cada três haviam sido mortos – uma destruição equivalente a cerca de 63% da população judaica europeia anterior ao nazismo. Nenhuma comparação contemporânea deve apagar a especificidade histórica, continental, racial e industrial desse processo.

Comparar, contudo, não significa declarar equivalência. A história comparada não coloca tragédias em uma competição macabra. Ela identifica mecanismos, ritmos, proporções e estruturas de impunidade. O Holocausto e a destruição de Gaza não são acontecimentos idênticos: diferem em duração, escala absoluta, tecnologia, configuração territorial e contexto histórico. Mas a singularidade do Holocausto não pode ser utilizada para proibir toda comparação, porque os princípios jurídicos construídos em resposta a ele foram deliberadamente formulados como universais.

Nuremberg estabeleceu que o indivíduo responde por crimes internacionais; que a legislação interna não elimina essa responsabilidade; que a condição de governante não oferece imunidade absoluta; e que a alegação de cumprimento de ordens não basta para absolver aquele que possuía possibilidade de escolha. A Convenção do Genocídio, aprovada em 1948, incluiu entre os atos proibidos o assassinato de integrantes do grupo, a produção de danos físicos ou mentais graves e a imposição deliberada de condições de vida calculadas para provocar sua destruição física total ou parcial

É precisamente por isso que Gaza não pode ser analisada apenas pela comparação entre números absolutos. O universo populacional é decisivo. Segundo a UNICEF, 71.803 palestinos haviam sido registrados como mortos na Faixa de Gaza entre 7 de outubro de 2023 e 3 de fevereiro de 2026, entre eles pelo menos 21.289 crianças. Outros 171.230 haviam sido registrados como feridos, incluindo cerca de 44.500 crianças. Em uma população estimada em 2,1 milhões de habitantes, as mortes diretas registradas correspondem aproximadamente a 3,4% da população; as crianças mortas, isoladamente, superam 1% de todos os habitantes; e os feridos representam mais de 8%. Trata-se de uma aproximação proporcional baseada nos números publicados, não de uma estimativa de mortalidade total ou de uma comparação de equivalência com o Holocausto.

Essa contagem também não representa necessariamente toda a dimensão humana da catástrofe. Ela registra mortes oficialmente reportadas, não todas as pessoas desaparecidas sob escombros nem os efeitos futuros de ferimentos, doenças, desnutrição, contaminação da água e interrupção de tratamentos. O rigor exige que não inventemos números além dos documentados. Exige também que não reduzamos a destruição aos corpos já contabilizados.

Aproximadamente 1,9 milhão dos 2,1 milhões de habitantes de Gaza permaneciam deslocados em julho de 2026 – mais de 90% da população. Cerca de 82% das famílias enfrentavam insegurança hídrica, e até 70% não conseguiam acesso a seis litros de água por pessoa ao dia, volume inferior aos padrões mínimos de emergência. Dos 633 caminhões de ajuda da UNICEF provenientes do Egito em maio e junho, apenas 280 conseguiram descarregar seus suprimentos.

Mais de 60 milhões de toneladas de escombros haviam sido geradas desde outubro de 2023. Somente uma fração havia sido removida. Nos centros coletivos avaliados pela OCHA, 69% apresentavam esgoto visível e 80% não possuíam iluminação funcional. No primeiro semestre de 2026, foram registradas quase quatro mil perdas gestacionais; mais de 57% das gestantes apresentavam anemia, e a morbidade materna grave chegou a 82 casos para cada mil partos.

Esses dados dimensionam uma forma de destruição que ultrapassa o ataque militar direto. Uma sociedade é atingida em sua possibilidade de continuidade quando hospitais deixam de funcionar, mulheres não conseguem realizar partos seguros, crianças adoecem por falta de água, escolas desaparecem, áreas agrícolas se tornam inacessíveis e famílias são obrigadas a deslocar-se repetidamente sem lugar seguro para permanecer.

Mesmo depois do anúncio de um cessar-fogo em 10 de outubro de 2025, a OCHA informou outras 1.180 mortes e 3.810 feridos até 22 de julho de 2026. Entre 15 e 22 de julho, 59 palestinos foram registrados como mortos e mais de 190 como feridos. O termo “cessar-fogo” perde parte de seu conteúdo quando a população continua submetida a ataques, mortes e deslocamentos.

Nada disso justifica os crimes cometidos pelo Hamas e por outros grupos armados em 7 de outubro de 2023. A Comissão Internacional Independente de Investigação da ONU concluiu que foram praticados ataques intencionais contra civis, assassinatos, tratamentos cruéis, tortura e tomada de reféns. Condenar esses crimes é uma obrigação moral e jurídica. Contextualizá-los historicamente não significa legitimá-los.

Mas a história palestina não começou naquele 7 de outubro. Em 1948, mais de 750 mil palestinos foram arrancados de suas casas, muitos deles à força, no processo conhecido como Nakba. A crise dos refugiados palestinos tornou-se a mais longa crise prolongada desse tipo no mundo contemporâneo. Em 2007, Israel intensificou o bloqueio terrestre, marítimo e aéreo de Gaza, aprofundando restrições anteriores e produzindo impactos profundos sobre a economia, a mobilidade e o tecido social do território.

A violência posterior ao atentado não surgiu do nada. Foi a intensificação colossal de uma estrutura anterior de ocupação, bloqueio, deslocamento e desigualdade jurídica. O ataque terrorista ofereceu ao governo Netanyahu a oportunidade política de transformar o trauma israelense em autorização para uma campanha cuja escala destrutiva passou muito além da responsabilização dos autores do ataque.

Em setembro de 2025, a Comissão Internacional Independente de Investigação das Nações Unidas concluiu que autoridades e forças israelenses haviam cometido e continuavam cometendo genocídio contra os palestinos em Gaza. Israel rejeita essa conclusão. A Corte Internacional de Justiça ainda não proferiu uma sentença definitiva sobre o mérito da ação apresentada pela África do Sul, embora tenha determinado medidas provisórias de proteção. Essa diferença deve ser preservada: uma comissão da ONU apresentou uma conclusão jurídica de genocídio; o processo de responsabilidade estatal perante a CIJ permanece em andamento.

No campo da responsabilidade individual, o Tribunal Penal Internacional expediu mandados de prisão contra Benjamin Netanyahu e Yoav Gallant por alegados crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo o uso da fome como método de guerra, assassinato, perseguição e outros atos desumanos. O mandado contra Netanyahu permanece registrado pelo tribunal. Não é uma condenação antecipada, mas uma ordem para que o acusado seja apresentado à Justiça, conheça as provas, exerça sua defesa e seja submetido ao devido processo.

Prender Netanyahu em território de um Estado obrigado a cooperar com o TPI seria juridicamente legítimo. A presunção de inocência não significa o direito de evitar o julgamento. Significa o direito de ser julgado por tribunal competente, de contestar a acusação e de não ser condenado sem prova. Impedir a prisão não protege o devido processo; impede que ele aconteça.

A reação dos Estados Unidos confirma a perda da conquista histórica de Nuremberg. Washington apoiou o Tribunal Penal Internacional quando a instituição expediu mandado contra Vladimir Putin, mas passou a atacar o tribunal quando a mesma lógica de responsabilização alcançou Netanyahu. Uma norma aplicada aos adversários e suspensa diante dos aliados deixa de ser norma universal. Converte-se em arma geopolítica.

Essa seletividade também aparece no cerco contra Cuba. As situações de Gaza e Cuba não são equivalentes: uma população está submetida a uma campanha militar destrutiva; a outra sofre há décadas com um bloqueio econômico, comercial e financeiro. A lógica comum é o uso das condições materiais de vida de uma sociedade para impor submissão política.

Cuba não deve ser idealizada nem isentada de críticas sobre liberdades, participação política, gestão econômica e direitos civis. Mas suas contradições internas não autorizam uma potência estrangeira a decidir, pela escassez de combustível, crédito, tecnologia e medicamentos, qual regime os cubanos devem adotar.

A experiência socialista cubana produziu conquistas reconhecidas internacionalmente. A UNESCO descreve a Campanha Nacional de Alfabetização de 1961 como o acontecimento mais marcante da educação e da cultura cubanas no século XX. O método Yo, sí puedo contribuiu para alfabetizar mais de seis milhões de pessoas em 29 países. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, a expectativa de vida em Cuba alcançou 78,3 anos em 2024, superando a média das Américas. Reconhecer esses resultados não exige silenciar os problemas do regime; exige apenas analisar a trajetória histórica de Cuba sem as caricaturas construídas por Washington.

Em outubro de 2025, 165 países votaram na Assembleia Geral das Nações Unidas pelo fim do embargo norte-americano contra Cuba; apenas sete votaram contra e doze se abstiveram. A votação mostra a amplitude da rejeição internacional, mas também a impotência da Assembleia para obrigar a maior potência econômica e militar a modificar sua conduta.

Gaza e Cuba revelam, por métodos diferentes, o mesmo limite da ordem internacional. O TPI emite um mandado, mas não possui força policial para executá-lo. A Assembleia Geral condena um bloqueio, mas não possui meios para encerrá-lo. A norma existe, porém, a aplicação depende daqueles que controlam armas, sistemas financeiros, alianças e sanções.

A sociedade israelense não pode ser responsabilizada coletivamente pelas decisões de Netanyahu. O povo judeu, o judaísmo, os cidadãos israelenses e o governo de Israel não são a mesma coisa. Transformar judeus em culpados por sua identidade seria reproduzir a lógica antissemita de culpa étnica. Mas negar a culpa coletiva não elimina a responsabilidade democrática individual.

A lição de Kelley dirige-se também aos cidadãos. O fato de uma pessoa não emitir ordens, lançar bombas ou administrar bloqueios não encerra sua responsabilidade moral. Há momentos em que permanecer neutro diante do que é feito em nome de sua sociedade significa permitir que o sistema continue funcionando. A resistência necessária em Israel deve ser civil, democrática e não violenta: nas ruas, nos sindicatos, nas universidades, na imprensa, nos tribunais, nas eleições e na recusa de participar de condutas incompatíveis com o direito humanitário.

A memória do Holocausto não concede imunidade a um Estado. Seu valor universal está precisamente na recusa de que qualquer população seja expulsa da humanidade. Honrar os seis milhões de judeus assassinados não significa silenciar diante da morte de crianças palestinas. Significa reconhecer nelas o mesmo direito à vida que o mundo jurou proteger depois de Auschwitz.

O desafio ultrapassa Israel e Palestina. O que se decide é se a civilização aceitará uma ordem em que tribunais são obedecidos quando acusam inimigos e sancionados quando investigam aliados; em que a fome pode ser administrada como instrumento militar; em que a energia se converte em arma de mudança de regime; e em que o destino de povos inteiros depende da conveniência de uma potência.

A resposta precisa chegar às instituições políticas. No Brasil, o primeiro turno das eleições gerais ocorrerá em 4 de outubro de 2026, com eventual segundo turno em 25 de outubro. Nos Estados Unidos, as eleições federais parlamentares serão realizadas em 3 de novembro. Esses pleitos não resolverão sozinhos Gaza, o bloqueio contra Cuba ou a crise do direito internacional, mas podem alterar a correlação política que sustenta a hegemonia pela força.

Derrotar eleitoralmente o trumpismo e seus representantes brasileiros não significa hostilidade contra o povo norte-americano nem submissão acriticamente a qualquer governo adversário de Washington. Significa rejeitar uma política que sanciona tribunais, protege aliados procurados, ameaça a soberania econômica de terceiros países e trata a força como fonte última de legitimidade.

Nuremberg será perdido não quando seus documentos forem queimados, mas quando se transformarem em objetos cerimoniais sem eficácia contra os poderosos. Será perdido quando a responsabilidade individual valer para os derrotados e a imunidade política permanecer reservada aos aliados. Será perdido quando a humanidade concluir que determinados povos podem ser destruídos desde que o responsável disponha de proteção militar suficiente.

A profecia de Douglas Kelley permanece diante de nós. Não precisamos ser clinicamente insanos para participar de uma sociedade criminosa. Basta que nos adaptemos, que obedeçamos, que racionalizemos e que aceitemos o sofrimento do outro como preço inevitável de nossa própria segurança.

A história já demonstrou aquilo que pessoas comuns podem fazer sob as circunstâncias de um Estado que organiza a desumanização. Cabe às sociedades de Israel, dos Estados Unidos, do Brasil e do mundo demonstrar aquilo que pessoas comuns também podem impedir quando se recusam a entregar sua consciência ao poder.

O desafio de cumprir a lei contra o clã Bolsonaro

Quantas vezes o ministro Alexandre de Moraes já não ouviu o conselho de fazer vista grossa para os sucessivos atos de desrespeito dos Bolsonaro às medidas restritivas impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ao chefe do clã? Julgado, condenado e preso em sua residência por tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e danos ao patrimônio histórico, ele segue sob a mira da Corte.

Punir tais atos, a essa altura, só beneficiará a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República — é o que Moraes escuta em silêncio e, às vezes, rebate. Em tese, não cabe a ele, nem a nenhum juiz na aplicação de penas, levar em conta a conjuntura política. Se algo, à luz das leis, requer punição, não o fazer beneficiaria diretamente o infrator.


Ao ser autorizado a cumprir em regime domiciliar parte dos seus 27 anos e três meses de prisão, Jair Bolsonaro ficou sujeito a medidas cautelares determinadas pelo tribunal. As principais e mais recentes são:

Uso obrigatório de tornozeleira eletrônica;


Obrigação de permanecer em tempo integral em sua residência oficial em Brasília;
Impedimento absoluto de utilizar qualquer rede social, seja por contas próprias, de terceiros ou por meio de canais de seus filhos;

Proibição de portar ou utilizar aparelhos celulares, diretamente ou por intermédio de assessores, o que resultou na busca e apreensão de aparelhos em seu endereço;

Proibição de receber visitas sem autorização prévia do STF, abrindo exceção apenas para seus advogados constituídos, médicos e moradores da própria residência;

Obrigação de entregar todas as armas registradas em seu nome às autoridades.

Apesar das ordens, Bolsonaro valeu-se de uma solda para livrar-se da tornozeleira eletrônica. Além disso, manifestou-se diversas vezes sobre assuntos políticos nas redes sociais por meio de perfis de terceiros. Ele também guardava em casa uma arma com defeito, que acabou apreendida pela polícia quando foi enviada para reparos. Para completar, um vídeo feito com Inteligência Artificial mostrou o político pedindo votos para Flávio na convenção do Partido Liberal (PL).

Em resposta às transgressões, Moraes suspendeu as visitas a Bolsonaro durante 30 dias e, no caso de Flávio, até o fim das eleições. Ontem, sua decisão foi reafirmada ao ser provocado por um pedido da defesa para que o condenado recebesse a visita dos filhos no Dia dos Pais.

Moraes fez bem ou mal ao agir assim? Flávio se beneficiará politicamente disso? É o que mais importa a 56 dias do primeiro turno das próximas eleições? Ou as leis valem para todos, ou elas simplesmente não deveriam existir.

A palavra aposta

Poucas artimanhas são tão descaradas quanto a palavra “aposta”. Algumas pessoas realmente acreditam que são apostas e nos fazem rir: o mesmo acontece com tantas mulheres, tantos homens. E, além disso, dependem da moda, como quase tudo: a palavra “aposta” de ontem é a palavra cafona de hoje — vamos falar de crisálidas, firmamentos, surrealismo e outras bobagens pretensiosas do gênero. Mas não nos deixemos influenciar pelas palavras e seus truques sujos: hoje não queremos falar da palavra que pensa que é uma aposta; queremos falar da palavra “aposta”.

Suas origens não são particularmente interessantes. Do latim, claro, do verbo apponere, que significa adicionar ou colocar por cima. Em outras palavras: as moedas que um jogador arriscava em uma carta ou um dado . Essa era a aposta, um acordo entre duas ou mais pessoas que se comprometiam a entregar essa quantia a quem vencesse o desafio combinado. Podia ser qualquer um, mas geralmente envolvia dados e cartas ou o resultado de um duelo entre animais: qual cavalo ou cachorro corria mais rápido, qual homem ou mulher corria mais rápido, qual gladiador matava e qual morria.


Assim eram os romanos: um povo rude, portadores do feixe de varas. E assim eram — quase — todos os outros, especialmente depois que os ingleses inventaram os esportes . No início, claro, as pessoas apostavam na vitória deste ou daquele time, mas logo surgiram apostas sobre quem marcaria o primeiro gol, quem marcaria o último, quem chutaria mais canelas nos jogadores adversários, e assim por diante: de repente, apostava-se em tudo, e as possibilidades de trapaça se multiplicaram. Hoje sabemos que muitas dessas partidas insignificantes, esses confrontos quase perdidos, eram arranjados para que algum mafioso pudesse fazer fortuna com apostas combinadas.

Tudo isso é muito bom, um ótimo acervo de filmes incríveis onde o protagonista se vê dividido entre se deixar apanhar para pagar o tratamento da mãe doente — e o Mustang, aliás — ou enfrentar os bandidos como só Hollywood sabe fazer. Sempre muito educativo, uma escola da vida para alunos recorrentes; o problema é que agora você pode apostar em qualquer coisa.

Há apostas para todos os gostos, e há os ídolos dos jovens que os incentivam a apostar o pouco que têm no resultado de uma partida: para se arruinarem, pouco a pouco ou de uma só vez. Mas a novidade está nessas “empresas” americanas que aceitam apostas em tudo e qualquer coisa. “Os Estados Unidos vão atacar o Irã? Taylor Swift vai se casar? Será que fulano de tal vai usar tal palavra em seu discurso amanhã?”, exemplificou o The New York Times há alguns dias . E relatou que a tendência disparou com as apostas na campanha presidencial de 2024, e que somente em dezembro passado, as duas casas de apostas mais ricas , Polymarket e Kalshi , movimentaram cerca de 10 bilhões de euros, quatro vezes mais do que o valor total do prêmio principal da Loteria de Natal espanhola.

Felizmente para eles, Donald Trump Jr. aparece como “consultor” das duas principais empresas. E, para contornar as leis de jogos de azar, essas empresas se autodenominam “mercados de previsão” e adotam estruturas financeiras : você “compra uma ação” que prevê que um avião cairá na China amanhã; se isso acontecer, o preço da ação dispara e alguém a “compra”; caso contrário, ela perde todo o valor. Essas empresas geralmente têm seus servidores em alguma ilha remota e sem regulamentação — o equivalente moderno do paraíso.

Essa tendência é recente, e alguns acreditam que seja a brilhante manobra de um filantropo insano, um americano disposto a gastar seus milhões para oferecer aos espiões e traidores que seu país cria constantemente uma opção inofensiva: que, ao roubarem um importante segredo militar, eles não o vendam por milhões a um inimigo que queira usá-lo para o mal, mas sim ganhem esses milhões em jogos de azar graças ao que aprenderam.

Eles sustentam sua teoria com casos de soldados que, por exemplo, ganharam fortunas apostando na data do ataque democrático ao Irã. Ou com a prisão do sargento Gannon Ken Van Dyke, um veterano de 20 anos, que ganhou US$ 400.000 apostando que Maduro cairia antes de 31 de janeiro. Ou com a prisão do operador de teleprompter de Trump, que apostou no que seu chefe diria em seus discursos.

É um alívio pensar que quem obtiver informações altamente sensíveis não as usará para trair o inimigo do mês, mas sim para embolsar milhões: lealdade sempre ao maior lance. Mas o efeito geral é a “financeirização de tudo”: que cada decisão, cada ação, cada inação, cada aposta se torna a base de um negócio e de uma aposta : eu digo sim, você diz não, quem ganhar leva o dinheiro. E o mundo está se tornando cada vez mais um grande cassino — em italiano, que, afinal, é a nossa língua materna.

sábado, 8 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


A fome dos deuses dos mercados engole o país

Enquanto atravesso a fronteira do Brasil para o Paraguai, o guia fala-me dos índios guarani. Orgulhoso da cultura e da língua – que fala fluentemente e que é, a par do espanhol, a língua oficial paraguaia –, explica-me que o respeito dos guaranis pela natureza e a forma como garantiam a abundância ajudou a formar o mito do brasileiro preguiçoso. “Bastava ficar deitado e esticar o braço para apanhar fruta.” Na verdade, os índios percebiam que, sempre que se tirava alguma coisa à Mata Atlântica, era preciso dar outra de volta. São testemunhas disso as árvores de fruto plantadas pelos guaranis, que ainda hoje resistem como pequenos pomares de citrinos no meio do mato. Também era preciso reconhecer os limites da Natureza. Quando num ponto do rio o peixe começava a escassear, era altura de ir assentar o acampamento noutra zona, para que aquela tivesse tempo de se regenerar.

A sabedoria antiga dos povos da América do Sul contrasta com a nossa enorme ignorância. Não há outra forma de descrever a maneira como insistimos em fazer equivaler “crescimento” e “felicidade”. Na nossa ânsia de fábulas, criámos métricas que adoramos como a deuses. O PIB é o token sagrado, alfa e ómega da civilização. Cálice mágico e salvífico. Em seu nome, fazemos sacrifícios aos mercados, criaturas sedentas, insaciáveis, cegas e irracionais, cuja ira tentamos aplacar, oferecendo-lhes a nossa própria vida e a dos nossos filhos, se for necessário. Vejam como o PIB acaba de crescer 0,8% no segundo trimestre, exultam os jornais económicos. O seu movimento é um daqueles abalos sísmicos impercetíveis, incapaz de mudar a vida de quem continua a ter um mês maior do que o salário. Mas como a fé é o que nos salva, alegramo-nos.


Precisamos de sábios. E por isso chamamos quem vem de longe e nos acena com a nossa própria ignorância. Que alegria é saber que só não crescemos porque não queremos. Somos pobres por opção, dizem-nos os ricos. E trazem-nos a palavra da salvação: reformas. Ninguém sabe muito bem o que são. Mas sabemos que doem. Se não doerem, não servem para nada. Os deuses impõem-nos o sofrimento. Caminhamos de joelhos em sangue no chão. E isso é que vai salvar-nos. Dizem eles, enquanto distribuem mais uns milhões em dividendos e fazem contas à vida, num iate em Ibiza, engolindo ostras e champanhe. Acreditemos.

Atravesso Portugal pelo interior. O interior é o que chamamos a um sítio rico que fizemos pobre. Porque sentimos que precisávamos de umas traseiras para onde atirar o lixo e onde poderíamos cortar tudo o que havia para cortar. Cortámos hospitais, tribunais e escolas. E chamámos-lhe um deserto. Mas fizemos lindas estradas para que os locais pudessem fugir depressa, enquanto pagam portagens, e pudéssemos dar mais uns milhões em PPP.

O interior resistiu. É triste usar o verbo “resistir”, que soa a meia derrota, mas o ataque é tão grande que só podem ser resistentes os bravos que ficam e percebem a riqueza de um território onde a paisagem se come e bebe e nos enche a alma. Uns nunca de cá tinham saído, outros regressaram e outros ainda vieram, com ideias, força, braços e ânimo para dar à terra e receber dela os seus frutos. Convenceram-se de que os governantes, obcecados com os deuses do PIB e do crescimento e depois de terem cortado tudo o que havia para cortar, os deixariam em paz, gozando da felicidade suprema que se consegue atingir nos sítios onde não reinam o PIB e o crescimento e os mercados. Estavam enganados.

Das estradas, vejo umas crostas brilhantes que ao longe quase parecem lagos refletindo o céu. São painéis solares, senhores. Milhares e milhares de painéis solares, tapando o chão, encandeando-os os olhos, abafando toda a vida, crescendo como um derrame. Comeremos um dia estes painéis? Poderemos usá-los como sombra ou agasalho? Não, mas são uma renda certa para quem abandonou os campos e assim os ocupa com este entulho, que podia muito bem estar no topo de edifícios gerando uma energia limpa, mas ficou antes como latifúndio gerando um negócio sujo.

Ao lado do negrume dos painéis faiscando sob o sol implacável do verão, continuam os eucaliptos sorvendo a água desde que alguém os viu como dinheiro rápido nos anos de 1980 e aí ficaram crescendo e sobrevivendo aos incêndios que nos queimam. Mas também isso não chegava. E por isso aí estão as minas de lítio, prontas a escavar as entranhas do País, avançando montadas em ordens administrativas assinadas em Lisboa, escoltadas pela GNR, contra a vontade dos donos das terras – que a propriedade é sagrada, mas só quando não pertence aos pobres. E é uma nova invasão a que resistem os bravos, os que ficaram, os que voltaram e os que vieram. Os que têm como inimigos os que recebem rendas e dividendos à distância de quilómetros, sem nunca tocar a terra, sem nunca sentir como ela seca, sem nunca ver como ela arde.

Os deuses precisam de data centers. E os seus profetas apresentam esses centros de dados como mais um milagre da criação. Mas são só mais umas bocas esfaimadas de água e energia, que é preciso alimentar. Os novos eucaliptos da era da Inteligência Artificial. Estruturas que não dão quase nada e tiram tudo aos sítios onde se alojam.

As leis estão escritas. Ao Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER) chamam Mapa Verde e, com isso, escondem a ideia negra de que até 7% do território nacional pode ficar coberto de painéis solares. Licenças simplificadas, via verde para avançar sobre a Natureza, destruindo-a. Há quem ache que o progresso é isto. Ou quem finja acreditar nisso por assim ver progredir a sua conta bancária. A fatura vamos pagá-la nós, os de sempre, e os nossos filhos e netos.

Vou mudar o verbo. Não “vamos”. Pode não ser assim. Até os monstros se vencem. Podemos arrancar os olhos a estes ciclopes. Podemos arrancar os falsos deuses dos seus altares. Podemos deixar de nos oferecer em sacrifício. Podemos erguer-nos e destruir os mitos. Podemos.

Preso e condenado, Jair Bolsonaro é solução e problema para a campanha do filho

Centralizador, Jair Bolsonaro anunciou ainda em 2025 que a formação dos principais palanques para a campanha dos candidatos de direita nas eleições deste ano passaria pelo crivo dele. Condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente deu instruções sobre a formação das alianças estaduais, escolheu a dedo candidatos do PL ao Senado e, à revelia de conselheiros e para surpresa geral de ninguém, ungiu o primogênito como nome a defender seu espólio como candidato ao Palácio do Planalto. Até poucas semanas atrás, não havia decisão estratégica na campanha presidencial do filho que não passasse por consultas prévias ao antigo mandatário, mesmo preso em regime domiciliar e proibido de ter contato com quem quer que seja do mundo político, a não ser com sua esposa, Michelle, agora candidata ao Senado pelo Distrito Federal. Nas últimas semanas, Flávio Bolsonaro promoveu até algumas correções de rota para aproximar ainda mais sua imagem e seu discurso aos do capitão. A sombra do pai sempre foi — e ainda é — o principal ativo do senador.


Parece um paradoxo, mas Jair Bolsonaro também tem sido uma fonte de problemas para a campanha do filho. Impedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de usar as redes sociais e de transmitir mensagens políticas por meio de terceiros, o ex-presidente escreveu em julho uma “Carta aos Brasileiros” na qual pedia aos aliados que deixassem de lado as diferenças e reforçava que o filho era a melhor opção para disputar a Presidência da República. Depois, na convenção nacional do partido, uma versão do ex-presidente criada por inteligência artificial fez um discurso político saudando a candidatura do filho. Em ambos os casos, o PT recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Resultado: o candidato do PL começará a corrida ao Planalto investigado por crime eleitoral. A Justiça proíbe na propaganda dos candidatos a utilização de imagens e conteúdos que tenham o objetivo de ludibriar os eleitores ou promover campanha negativa. A versão digital do ex-presidente, em tese, não ludibriou ninguém, já que, desde o início, foi informado tratar-se de uma montagem produzida por inteligência artificial (IA).

O caso acelerou o debate sobre o uso da IA nas campanhas políticas. O PT teme que o ex-­presidente assuma à distância o papel de principal cabo eleitoral do filho. O partido mantém uma equipe jurídica de prontidão para ingressar, se necessário, com representações na Justiça para impedir a campanha adversária de veicular novas mensagens do capitão em sua versão digital. Sabe-se que uma expressiva parcela do eleitorado de direita vota em qualquer candidato indicado pelo ex-presidente, e sua “aparição” pode influir decisivamente nas disputas locais. A campanha do PL, por sua vez, não esperava que a peça publicitária tivesse repercussão tão grande. Os marqueteiros do senador afirmam que queriam apenas deixar claro que Flávio é o herdeiro da direita e o escolhido pelo pai para manter vivo seu projeto político.

A equipe jurídica do PL deu seu aval à ideia por entender que as regras valiam apenas para o período em que a campanha fosse oficialmente iniciada, no próximo dia 16. Para evitar problemas futuros, o Bolsonaro virtual ficará arquivado até que fique claro o que é e o que não é permitido nesse território. Discursos que exploraram menções ao ex-presidente motivaram o ministro do STF, Alexandre de Moraes, a encaminhar ao Ministério Público pedido para que os casos fossem investigados como possível campanha eleitoral antecipada. Responsável por acompanhar o cumprimento de pena do antigo mandatário pela condenação na trama golpista, o magistrado ainda cobrou que o político explicasse se havia ou não autorizado o uso de sua imagem em IA. Em caso de uma resposta positiva, o capitão reformado poderia perder o direito à prisão domiciliar e voltar para a cadeia.

O TSE pretende realizar uma reunião a portas fechadas, na quarta-feira 12, para decidir eventuais punições à campanha de Flávio pelo uso de IA. Uma resolução do tribunal proíbe qualquer tipo de mensagem de deep­fake, mesmo as autorizadas pela pessoa cuja voz ou imagem foi fabricada artificialmente, mas a vedação só é válida para a propaganda eleitoral, que ainda não começou. Os ministros devem debater também se serão permitidos avatares, hologramas e discursos feitos em IA nas campanhas de 2026 e levar o tema à votação no dia 17. O diagnóstico é de todo desafiador. O Observatório IA nas Eleições, mantido pela Data Privacy Brasil e pelo Aláfia Lab, identificou 357 conteúdos políticos sintéticos publicados entre 1º de janeiro e 15 de julho de 2026. Prevalecem publicações com ataques (67%), em comparação a endossos a candidatos (32%). Entre os políticos, Flávio Bolsonaro e o deputado Mario Frias despontam como os principais adeptos da ferramenta, segundo o levantamento feito a pedido de VEJA. A maior parte das mensagens, no entanto, foi produzida por usuários anônimos. “O potencial desinformativo é muito maior”, alerta o pesquisador Matheus Soares, um dos coordenadores do Observatório IA nas Eleições.

Responsabilizar uma campanha por postagens publicadas por terceiros ou perfis apócrifos será outro desafio da eleição. Para se chegar aos responsáveis, é necessário iniciar uma investigação judicial e demonstrar que houve coordenação, financiamento ou algum outro vínculo entre os autores e a candidatura beneficiada. Quem for acusado de fabricar deepfakes indevidamente, terá de provar o contrário — uma inversão do ônus da prova promovida pela Justiça Eleitoral por considerar que quem publica o material tem melhores condições de apresentar o arquivo original. Na prática, tais inquéritos têm se revelado pouco eficazes. Por isso, diante de dúvida relevante sobre a autenticidade de um conteúdo potencialmente danoso, a tendência, segundo advogados especializados ouvidos por VEJA, deve ser a simples remoção das publicações. Posicionados entre o avatar e o eleitor, os togados terão de definir o limite entre a criatividade e a fraude.

Em meio à polêmica do uso da IA, com o empuxo do pai, mas ainda sim rejeitado por 54% dos eleitores, segundo levantamento da pesquisa Genial/Quaest, Flávio chega ao início da corrida presidencial com vinte palanques estaduais montados, depois de trombadas na formação de parcerias políticas como a do Ceará, que provocou uma briga pública entre ele e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Chega também sem alianças formais com partidos do Centrão e sem ter conseguido viabilizar uma mulher como candidata a vice, solução que buscava para conquistar a simpatia do eleitorado feminino. A solenidade que oficializou, na quarta-feira 5, o nome do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-­AL) como candidato a vice revela algumas dificuldades da campanha bolsonarista. Apesar do simbolismo que marca cerimônias dessa natureza, nenhum dos irmãos Bolsonaro, nenhum cacique estadual do partido e nenhum dos mais importantes apoiadores do candidato do PL, como o governador Tarcísio de Freitas, foi a Brasília para o anúncio.

A despeito das polêmicas e do isolamento político, Flávio é o candidato da direita mais bem posicionado nas pesquisas. Segundo levantamento da Quaest divulgado na quarta-feira 5, o senador diminuiu de 8 para 5 pontos percentuais a vantagem do presidente Lula em um confronto direto e voltou a centralizar a preferência do eleitor antipetista. Em um eventual segundo turno, o senador teria 81% das intenções de voto da direita não bolsonarista e 95% dos votos daqueles que se declaram bolsonaristas. Manter esses índices inabaláveis é fundamental para as pretensões do senador. Assim como ocorreu no anúncio do nome de Gaspar para vice, em que mais uma vez Jair Bolsonaro foi descrito como um preso “em cativeiro”, não há fala política em que Flávio não mencione o pai ex-presidente. Na convenção que o oficializou como principal nome da direita na corrida pelo Palácio do Planalto, por exemplo, ele se referia a si mesmo como “o filho mais velho do capitão” e disse saber “o tamanho da responsabilidade que o meu nome carrega”. Faltando dois meses para o primeiro turno das eleições, Flávio trocou a equipe de comunicação, isolou alguns coordenadores, promoveu outros e passou a emular em atos públicos uma versão dele mais parecida com o ex-presidente. Atacou as urnas eletrônicas, incorporou críticas ao Supremo como matéria-prima de seus discursos e passou a fazer lives periódicas — virou um avatar do próprio pai.

Tensão nos casos Master e INSS

A tensão entre o relator dos processos do INSS e do Caso Master, ministro André Mendonça, e a Polícia Federal é maior do que a que houve entre a PF e o ministro Dias Toffoli. O ministro Mendonça está exigindo despachar diretamente com os delegados e agentes, sem passar pela direção da Polícia e, pior, requereu todo o material bruto e indexado. E esse indexado não é um detalhe. É o que permite fazer busca específica. Basta colocar um nome que será possível encontrar todas as citações àquela pessoa. É possível direcionar a investigação.

A Polícia Federal levou o caso à Advocacia-Geral da União no dia 23 de julho pedindo que o órgão recorra dessa decisão de André Mendonça, mas a AGU nada fez até agora. Da mesma forma que nada fez quando, em janeiro, a Polícia Federal pediu que recorresse de decisões de Dias Toffoli. A maneira como estão sendo conduzidos os vários inquéritos nas mãos de André Mendonça está provocando uma distorção institucional. O juiz não pode ser o policial, o investigador, o diretor da polícia, a instituição que faz o controle externo, e a autoridade que julga, tudo ao mesmo tempo.


O temor entre autoridades em Brasília é que tudo isso acabe levando à nulidade dos processos, porque está difícil hoje fazer a cadeia de custódia dos documentos e dados para garantir a qualidade do processo. Foi exatamente essa suspeita que pairou sobre a Operação Lava Jato. E foi também o acúmulo de papéis e a tentativa de assumir funções policiais que produziram a tensão na época em que o relator era Dias Toffoli. Com o agravante de que ele estava citado nas investigações, o que não é o caso agora.

O juiz tem que ser equidistante, tem que ouvir a polícia, o Ministério Público e a defesa para tomar suas decisões de magistrado. Se ele concentra tudo, até o material bruto sobre seus cuidados, que distanciamento terá para julgar?

A Polícia Federal fica na estranha situação de mobilizar todos os recursos para as equipes funcionarem, mas as informações são levadas para o gabinete do ministro relator, às vezes diretamente pelos agentes, sem sequer a supervisão do delegado que preside o inquérito. A preocupação do ministro Mendonça, segundo interlocutores, é que a investigação seja isenta. Mas quem faz esse tipo de controle é o Ministério Público e não é desta forma que se garante a isenção.

Esse acúmulo de papéis produz distorções como a de tratar investigados de maneira diferente. A decisão sobre o senador Jaques Wagner demorou nove dias, a do ex-governador Cláudio Castro, dois meses e meio. O ministro retirou o sigilo da sua decisão no caso de Wagner, o que fez bem, mas não retirou de Castro ou do senador Ciro Nogueira.

O que se ouve entre investigadores é que até agora ficou provado que a Polícia Federal não escolhe politicamente seus alvos, tanto que as investigações atingem o filho do presidente, o líder do governo no Senado, e agora o vice-líder do Senado. Portanto, a desconfiança sobre a PF não se justifica.

Os próximos dois meses serão intensos, há operações que podem acontecer, novos desdobramentos, requerimentos pendentes. O pior que poderia acontecer a essa altura é a paralisia da Polícia Federal por excessiva e arbitrária centralização de informações no STF e pela captura das funções da Polícia Federal.

Os casos Master e INSS são graves demais, se espalharam no meio político, e para chegarem a um bom resultado é preciso que cada instituição faça o seu papel com autonomia e sem invasão de prerrogativas. A confiança na higidez do processo virá da distribuição dos papéis entre as instituições e não do acúmulo de tudo nas mãos de um ministro do STF.

O cérebro autoritário

Adorei a reação de Eduardo Bolsonaro à escolha do polêmico Alfredo Gaspar para disputar o cargo de vice na chapa do irmão: "Com Alfredo Gaspar não compensará fazer impeachment de Flávio Bolsonaro". Não é uma observação inédita. Bolsonaristas disseram praticamente a mesma coisa quando o general Hamilton Mourão foi escolhido para concorrer como vice de Jair em 2018.


O raciocínio denota uma certa paranoia institucional. Em vez de ver o vice como alguém que agrega apoios e ideias à chapa, Eduardo e outros bolsonaristas preferem descrevê-lo como uma apólice de seguro contra tentativas de destituição. Esse tipo de paranoia projetiva, que pressupõe um mundo repleto de inimigos ocultos e conspirações, é uma das características marcantes de personalidades autoritárias. Outros traços incluem convencionalismo, submissão ao líder e agressividade.

O interesse por tentar entender a mente de pessoas que aderem a ideologias totalitárias ganhou impulso após a derrota do nazismo. É nesse contexto que foi publicado, em 1950, o livro "A Personalidade Autoritária". Theodor Adorno é nome famoso associado à obra, mas ela resultou de um esforço coletivo e é assinada por vários autores. Um dos mais importantes é Else Frenkel-Brunswik. Foi ela quem coordenou e analisou as mais de 2.000 entrevistas que deram base empírica ao livro. Também é dela a famosa escala F, que permite calcular numericamente quão fascista é uma pessoa.

Um dos muitos achados interessantes da obra é que o autoritarismo tem base familiar. Estaria vinculado a um poder patriarcal rígido que condiciona afeto a desempenho e obediência. Outra constatação fascinante é que a rigidez psicológica de perfis autoritários não fica limitada à política, mas vaza para todas as dimensões do pensamento, incluindo a matemática e a solução de problemas.

Autoritários resistem a mudanças e não aceitam bem respostas diferentes daquelas a que estão acostumados, mesmo que mais eficientes. O cérebro autoritário é autoritário por inteiro.

Nem dormindo a gente descansa

Foi meu relógio que primeiro me acusou. Numa manhã dessas, o smartwatch me informou, com a frieza de um perito criminal, que eu havia dormido “abaixo do ideal” pela quinta noite seguida. Sono profundo insuficiente. Sono REM fragmentado. Nota 61 de 100, seguida de uma sugestão gentil: que tal se deitar mais cedo hoje? Não basta mais dormir mal. Agora sou todas as manhãs reprovado pela traquitana, com argumentos, gráficos coloridos, métricas e boletins diários. Não estou sozinho nessa. Nem na insônia, muito menos na vigilância.


Uma pesquisa recente do Ministério da Saúde mostra que 20% dos brasileiros das capitais dormem menos de seis horas por noite e 31,7% relatam sintomas de insônia. A Associação Brasileira do Sono também tem seus dados e estima que 73 milhões de brasileiros convivam com o problema. É quase um terço do país rolando na cama, contando carneirinhos, olhando para o teto ou se valendo de qualquer fórmula para cair nos braços de Morfeu.

As razões passam longe da escolha individual. O sono, esse gesto aparentemente mais íntimo e biológico que existe, é profundamente social e impactado pelas transformações culturais. O sono passou a competir com outras atividades e vem perdendo de goleada para as jornadas extensas no trabalho, os deslocamentos longos e as múltiplas demandas do cotidiano que reduzem o tempo disponível para o descanso.

Não por acaso, a privação atinge mais as mulheres, os idosos e quem tem menor escolaridade. Como quase tudo no Brasil, o sono tem CEP e tem classe. Dormir bem virou privilégio de quem mora perto do trabalho, ganha mais e não precisa enfrentar transporte público na madrugada para bater ponto às sete da manhã.

Diante de um problema estrutural, todos os dias surgem novas soluções mágicas. Vivemos o boom das tecnologias do sono: aplicativos de meditação, colchões inteligentes, anéis que medem batimentos, relógios vigilantes dos ciclos de descanso. Boa parte desses aplicativos exige levar o celular ou alguma traquitana luminosa para a cama. Mas o aparelho que promete te fazer dormir é o mesmo que te mantém acordado, uma vez que a luz das telas suprime a melatonina, hormônio fundamental à regulação do sono. Quem consegue dormir, na manhã seguinte, checa desesperadamente os gráficos da performance da noite, já certo do fracasso de uma jornada que, até outro dia, se resumia a fechar e abrir os olhos.

Quando transformamos o sono em performance, levamos para o quarto a mesma lógica que nos exauriu o dia inteiro. Do outro lado da cama, entre você e a parede, deitam-se as grandes empresas de tecnologia, anotando a hora em que você apagou, quantas vezes se virou, o volume do ronco. O último território que escapava ao mercado (aquele terço da vida em que estávamos inconscientes e, portanto, livres) foi colonizado, mapeado e convertido em dados. Nem dormindo a gente descansa.

É preciso otimizar o descanso, bater metas de sono profundo, superar a nota da noite anterior. O sono deixou de ser refúgio e virou tarefa. Descansar, cobrança final do dia. Acabou o tempo em que se media a qualidade do sono pela disposição ao acordar. Solteiros ou não, dormimos sempre acompanhados.

Solidão eleitoral

Flávio Bolsonaro tenta agrupar e liderar a direita que está fragmentada na disputa pela Presidência da República. Não conseguiu grande coisa, mas sobram oito semanas até a votação no domingo, 4 de outubro.

É caso curioso de político que não se emancipou, embora já tenha atravessado metade dos 45 anos de idade em mandatos no Legislativo. Ele segue dependente do sobrenome, seu principal ativo desde os 21 anos, quando o pai, na época deputado federal, conseguiu elegê-lo deputado estadual no Rio. Até hoje Flávio Bolsonaro evoca a figura do pai quando se apresenta aos eleitores, como se fosse um cartão de visita.

Repetiu a fórmula do “candidato do pai” ao confirmar a candidatura à Presidência pelo Partido Liberal. Em vinte minutos de discurso fez uma dúzia de citações a Jair Bolsonaro — uma a cada minuto e meio.


Um grupo de anônimos se reuniu no dia seguinte no Instituto Democracia em Xeque, em São Paulo, para nova sessão da pesquisa qualitativa sobre motivações, valores e atitudes do eleitorado autodeclarado de direita, que há meses é dirigida pelos sociólogos Esther Solano e Beto Vasques.

— Não conheço nenhum projeto nem ideia do Flávio, nem de quando ele era senador — provocou um eleitor.

— Atrapalha muito que ele só tenha o passado do pai dele… — atalhou outro.

— Concordo… São as coisas do pai, não tem uma visão própria dele… Me lembra quando a Dilma (Rousseff) entrou (na disputa presidencial de 2010). As pessoas votaram nela pelo Lula, né? As pessoas sabiam que o Lula estaria por trás dela. Então, é a mesma coisa com o pai do Flávio.

Os pesquisadores deixaram suas impressões na “ata” dessa roda de conversa: “Flávio segue vivo porque o desejo de mudança permanece (…). A candidatura se mostra isolada, sem coligações claras, sem propostas reconhecidas, sem autonomia diante do pai, e sem maturidade e previsibilidade suficientes para se impor como alternativa. A mudança continua desejada, mas (ele) não conseguiu demonstrar que seria uma mudança governável nem segura (…). Flávio precisa provar que a sua ‘novidade’ não é tutela paterna, improviso, fragilidade ou mergulho no escuro. A mudança segue aberta como desejo. Mas, para vencer, (a candidatura) terá que parecer adulta, autônoma, concreta, confiável e capaz de governar”.

Ele continua sendo o candidato da oposição mais destacado nas pesquisas de intenção de voto. No primeiro turno, está atrás de Lula (30% a 39%), segundo a pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta 5. Sua distância para o líder é de 9 pontos, o triplo do que era no trimestre passado, antes das revelações sobre suas transações obscuras com o antigo dono do Banco Master, preso por fraudes bilionárias.

O principal oposicionista, no entanto, agora está mais isolado do que no verão passado, quando se proclamou candidato designado pelo pai, inelegível e condenado à prisão até completar 97 anos de vida, no ano 2052, por crimes contra a Constituição, entre eles tentativa de golpe de Estado.

Nos últimos dias, Flávio Bolsonaro foi protagonista de um espetáculo singular na política — o da rejeição pública, coletiva, sucessiva e terminante às propostas de aliança que fez aos partidos Progressistas, União Brasil, Republicanos, Podemos e PSDB, entre outros, que nos plenários do Congresso integram o bloco conhecido como Centrão.

Experimentou a solidão eleitoral no confuso e frustrado processo de escolha do seu candidato a vice-presidente. Começou procurando uma mulher para vice em diferentes partidos. Seria, em tese, uma forma de compensar a desconfiança do eleitorado feminino, expressa na vantagem (cerca de 12 pontos à frente) do adversário Lula nesse segmento.

Deu tudo errado, e acabou abraçado ao deputado Alfredo Gaspar, do Partido Liberal de Alagoas. Pode não ter resolvido o seu problema, mas ajudou Arthur Lira, principal líder do Progressistas. O ex-presidente da Câmara disputava com Gaspar por uma vaga ao Senado. O concorrente virou vice de Flávio Bolsonaro, que tem a eterna gratidão de Lira.

Até agora, ele fracassou naquilo que parecia essencial: agrupar e liderar a direita. É exatamente o contrário do que faz o adversário. Pela primeira vez em 37 anos de disputas presidenciais, Lula reúne sete partidos na sua chapa eleitoral (PT, PSB, Rede, PDT, PSOL, PCdoB e PV).

O isolamento do “candidato do pai” na campanha mostra o clã Bolsonaro em inédita vulnerabilidade à direita.

A tirania da mediocridade: quando nivelar por baixo adoece

A palavra mediocridade vem do latim mediocritas, medius, “meio”, e ocris, “elevação” ou “monte”: a imagem de quem está no meio da subida. Originalmente, designava uma posição entre dois extremos e podia indicar moderação, condição comum ou ausência de excessos, sem sentido depreciativo. Não há indignidade em estar no meio do caminho: ninguém é excepcional em todos os domínios.

A mediocridade se torna problema quando a metade do caminho se declara cume e transforma a própria insuficiência em medida para os demais. Vira tirania quando grupos, instituições ou culturas premiam a superficialidade, punem a complexidade e obrigam quem sabe mais, pergunta melhor ou trabalha com rigor a se reduzir para pertencer.

Na Grécia antiga, idiṓtēs, de ídios – “próprio, particular” –, designava o indivíduo privado, o leigo ou quem não dominava uma função na vida pública. Com o tempo, passou a indicar inexperiência, ignorância e falta de discernimento. A mesma raiz aparece em idiossincrasia, aquilo que é próprio de cada pessoa, e idiopatia, doença de causa desconhecida.

O problema não é não saber, mas negar os próprios limites e transformar a própria insuficiência em autoridade. Quando essa característica individual é normalizada, premiada e ampliada, surge uma espécie de “idiopatia social”: a mediocridade deixa de se reconhecer e passa a governar. A ignorância é humana; a tirania da mediocridade, uma forma de poder.

O problema não é todos terem voz – isso sustenta a democracia. Surge quando opinião vira evidência, repetição vira verdade, popularidade vira competência e lealdade vira obediência. O erro ganha proteção, deixa de ser corrigido e quem o aponta passa a ser visto como ameaça.

 “Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina”

Nas organizações, esse mecanismo começa discretamente: um profissional aponta um risco, uma decisão mal fundamentada ou uma injustiça. É ignorado; se insiste, vira “difícil”, “arrogante” ou “pouco colaborativo” e aprende que alertar custa mais que calar. Pesquisas sobre silêncio organizacional sugerem que voz e silêncio dependem menos de canais formais do que da cultura, do poder e da resposta a quem fala. Quando a organização pede opiniões, mas pune quem contraria a liderança, não escuta – encena participação.


Esse custo não fica só no ambiente de trabalho, mas se inscreve no corpo de quem cala. O sofrimento moral ocorre quando barreiras hierárquicas, institucionais ou sistêmicas impedem a conduta considerada correta. Associa-se a estresse, exaustão, desmoralização e perda de profissionais qualificados. Estudo recente da Universidade da Califórnia mostra que estressores ocupacionais persistentes atuam por várias vias, gerando desgaste biológico, psíquico e com efeitos estruturais nas organizações.

Bruce McEwen chamou de carga alostática o desgaste acumulado pela ativação repetida dos sistemas de adaptação ao estresse. Protetora no curto prazo, essa resposta, quando contínua, pode comprometer a regulação cardiovascular, metabólica, neural e imunológica. Humilhação, imprevisibilidade, impotência e vigilância defensiva mantêm esses sistemas ativados. A tirania da mediocridade adoece ao obrigar pessoas competentes a perceber e fingir que não perceberam.

Quando falar não muda nada, pode surgir o desamparo aprendido: experiências repetidas de falta de controle reduzem a iniciativa e a expectativa de que agir produza efeitos. Nas empresas, isso aparece como desistência silenciosa, conformidade defensiva e perda da curiosidade. A pessoa permanece, mas entrega apenas o mínimo para evitar punição. A organização acredita ter alcançado harmonia quando, na verdade, perdeu inteligência.

A imunologia ajuda a compreender esse processo, sem equivalência literal. Um sistema imune saudável não ataca nem tolera tudo: reconhece infecção, dano e perigo e regula alvo, intensidade e duração da resposta. Na alergia, reage em excesso a estímulos geralmente inofensivos; na anergia ou exaustão, células deixam de responder adequadamente – como no câncer, que pode escapar da vigilância e induzir tolerância imunológica; na inflamação crônica, a resposta persistente lesa o organismo; e, na hiperinflamação, como na tempestade de citocinas da Covid-19 grave, pode destruir tecidos e órgãos sem controlar o perigo.

Organizações podem desenvolver alergia à diferença, anergia diante da incompetência e inflamação crônica por conflitos persistentes e não resolvidos; também podem tolerar práticas que corroem o coletivo ou reagir de forma tão excessiva que destroem pessoas, vínculos e competências que deveriam preservar. Como alerta o paradoxo da tolerância, de Karl Popper, sociedades e organizações se desorganizam quando não distinguem a diversidade que as fortalece das condutas que destroem suas regras: limites saudáveis não reprimem a diferença, mas protegem as condições que a tornam possível.

A saída não é trocar a tirania da maioria pela dos especialistas. Conhecimento sem revisão vira autoridade fechada; excelência sem responsabilidade, arrogância. O antídoto são critérios públicos, contestáveis, auditáveis e verificáveis, diante dos quais hierarquia, fama ou número de seguidores não dispensem ninguém de apresentar razões. Isso exige segurança psicológica para perguntar, discordar, admitir erros e comunicar riscos sem humilhação ou retaliação, além de lideranças capazes de distinguir dissensão de deslealdade e diversidade de desordem. Ambientes saudáveis não eliminam o conflito: metabolizam-no.

Quem são, então, “os melhores”? Não são uma casta, um diploma ou uma elite autoproclamada, mas aqueles que, em cada situação, reúnem mais conhecimento, experiência ou lucidez e continuam dispostos a rever o que sabem. O antigo idiṓtēs não era culpado por ser leigo. A mediocridade começa quando alguém nega seus limites, esconde a insuficiência atrás do poder e obriga os demais a se acomodarem a ela. Assim, uma idiossincrasia individual, normalizada e ampliada, torna-se coletiva e, ao adoecer o conjunto, uma idiopatia social, o que Nelson Rodrigues, em O Óbvio Ululante, já condensara: “Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.”

Em tempos de intolerância e polarização, reconhecer o que não sabemos é condição de lucidez. Usamos nossos limites para aprender ou para julgar? O que nos convence: impressões ou razões?
Rubens Harb Bollos

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


A implosão da mentira

Mentiram-me.
Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.

Affonso Romano de Sant’Anna, "A implosão da mentira e outros poemas"

Quando as nações deixam de aprender

“A maior necessidade de um Estado é a de governar-se segundo a razão, e não segundo a opinião.”
Baruch Spinoza

Quando uma guerra termina, é relativamente fácil identificar os danos sofridos por um país. Pontes destruídas, cidades reduzidas a escombros, usinas bombardeadas, ferrovias interrompidas e fábricas transformadas em ruínas tornam-se imagens emblemáticas da devastação. A reconstrução costuma começar exatamente por esses símbolos mais visíveis: reerguem-se edifícios, restauram-se estradas, substituem-se máquinas, recompõem-se linhas de transmissão de energia. Aos poucos, a paisagem volta a transmitir a impressão de normalidade.

Existe, porém, uma forma de destruição mais silenciosa – e talvez mais profunda. Ela não aparece em fotografias aéreas, não pode ser detectada por satélites e não deixa colunas de fumaça, crateras ou edifícios em ruínas. Seus efeitos só se tornam visíveis muitos anos depois, quando uma sociedade percebe que já não consegue compreender a realidade, corrigir os próprios erros nem responder aos desafios de seu tempo. Trata-se da destruição de seus ecossistemas de aprendizagem.


Universidades, laboratórios nacionais, escolas de engenharia, institutos tecnológicos, bibliotecas, sociedades científicas, agências de fomento, empresas inovadoras e comunidades de pesquisadores constituem uma infraestrutura tão estratégica quanto os portos, as hidrelétricas ou as redes de transporte. É nesse ambiente que as informações se transformam em conhecimento; este converte-se em tecnologia, e tecnologia passa a sustentar prosperidade, segurança e soberania.

Uma fábrica produz muito mais do que bens. Ela articula engenheiros, fornecedores, técnicos especializados, universidades, laboratórios e competências produtivas acumuladas ao longo de décadas. Quando uma fábrica fecha, não desaparece apenas uma linha de produção. Desfaz-se um ecossistema inteiro de conhecimento tácito, relações de confiança e capacidades tecnológicas cuja reconstrução exige muito mais do que investimentos financeiros: exige tempo, continuidade e novas gerações de profissionais. O mesmo ocorre com as instituições científicas.

Um laboratório não produz apenas artigos. Uma universidade não produz apenas diplomas. Uma agência de pesquisa não distribui apenas recursos. Todas elas integram uma complexa rede de organizações cuja função mais importante talvez seja a mais difícil de perceber: permitir que uma sociedade aprenda continuamente com a realidade, revise suas convicções à luz das evidências e transforme esse aprendizado em desenvolvimento nacional.

Talvez essa seja uma das maiores conquistas institucionais da civilização: aprender continuamente com a realidade e corrigir os próprios erros.

E é justamente essa capacidade que o obscurantismo ameaça.

Existe uma pergunta simples capaz de iluminar alguns dos episódios mais dramáticos da história moderna.

O que acontece quando governos deixam de perguntar “o que a realidade nos ensina?” e passam a perguntar apenas “o que confirma aquilo em que já acreditamos?”

À primeira vista, a resposta parece evidente. A experiência histórica, entretanto, revela algo muito mais inquietante.

O obscurantismo raramente chega ao poder prometendo ignorância. Ao contrário, costuma apresentar-se como uma alternativa prática à lentidão da ciência, oferecendo respostas rápidas para os problemas reais e complexos. É justamente essa promessa de simplicidade que lhe confere enorme força política.

Na Alemanha nazista, a pseudociência racial buscava legitimar o projeto de supremacia ariana sob a aparência de rigor científico. Por influência de Heinrich Himmler, instituições como a Ahnenerbe mobilizaram arqueólogos, antropólogos e até ocultistas em expedições e estudos destinados a “comprovar” uma ancestralidade ariana superior. O objetivo não era produzir conhecimento, mas conferir autoridade científica a uma ideologia previamente definida. Sempre que a ideologia passa a determinar quais respostas são aceitáveis, a ciência deixa de corrigir os erros da sociedade e passa a servi-los.

Na União Soviética, o contexto era dramaticamente diferente. A Revolução de 1917 dera origem a um regime ainda jovem, que enfrentara guerra civil, intervenções militares estrangeiras, isolamento internacional e a profunda desorganização da produção agrícola. As políticas de coletivização agravaram ainda mais a instabilidade no campo, e as sucessivas quebras de safra transformaram a segurança alimentar em uma questão de sobrevivência política.

Os geneticistas ofereciam um caminho cientificamente sólido, mas inevitavelmente lento. O melhoramento genético exige sucessivas gerações de plantas, experimentação rigorosa e acumulação gradual de conhecimento. A natureza simplesmente não obedece ao calendário dos governos. O agrônomo Trofim Lysenko, ao contrário, prometia aumentar rapidamente a produtividade agrícola sem esperar pelo longo trabalho da pesquisa genética. Enquanto os cientistas pediam tempo para compreender a hereditariedade, Lysenko oferecia exatamente aquilo que dirigentes pressionados pela urgência desejavam ouvir: uma solução imediata.

No Haiti, após chegar ao poder em 1957, em um país marcado por extrema pobreza, uma baixa escolarização e instituições frágeis, François “Papa Doc” Duvalier compreendeu que o medo poderia ser um instrumento de governo tão eficaz quanto a violência. Em vez de depender apenas da repressão exercida pelos Tontons Macoutes, seu temido grupo paramilitar, apropriou-se deliberadamente do imaginário religioso popular, explorando símbolos associados ao vodu e cultivando a imagem de um líder dotado de poderes sobrenaturais. O objetivo não era promover uma religião, mas dificultar a distinção entre autoridade política, superstição e obediência, tornando a resistência psicológica tão difícil quanto a resistência física.

Os contextos históricos eram profundamente diferentes. As ideologias também.

O mecanismo, porém, era notavelmente semelhante.

Em todos esses casos, instituições destinadas a produzir conhecimento foram gradualmente substituídas por organismos dedicados a confirmar crenças. A evidência deixou de orientar o poder; passou a ser selecionada por ele. E, quando uma sociedade perde a capacidade de corrigir seus próprios erros, inicia-se um processo de deterioração que dificilmente se limita à ciência. Mais cedo ou mais tarde, ele alcança a economia, a tecnologia, a educação, a capacidade militar e, em última análise, a própria soberania nacional.
Quando uma civilização decide voltar a aprender

Se a história terminasse com Lysenko, Himmler ou Papa Doc, o quadro seria profundamente desalentador. Restaria concluir que sociedades que destroem seus ecossistemas de aprendizagem estão condenadas a um lento e inevitável declínio. A experiência histórica, entretanto, oferece uma resposta muito mais interessante. Ela mostra que essas capacidades podem ser reconstruídas. Não rapidamente. Não sem enormes custos humanos, econômicos e institucionais. Mas podem.

A história recente da China oferece um dos exemplos mais impressionantes desse processo de reconstrução.

Durante boa parte do século XIX, uma civilização que, por séculos, estivera entre as mais sofisticadas do mundo descobriu, da forma mais dolorosa possível, que havia perdido a liderança tecnológica. A derrota nas Guerras do Ópio representou muito mais do que um mero revés militar. Pela primeira vez, uma potência asiática milenar era obrigada a reconhecer que ciência, engenharia e indústria haviam se tornado os verdadeiros fundamentos do poder internacional. A humilhação não decorria apenas da derrota; decorria da constatação de que um império inteiro podia ser submetido por nações que haviam aprendido a transformar conhecimento em capacidade militar, econômica e tecnológica.

Nascia ali aquilo que os chineses passaram a chamar de “século de humilhação”. A expressão não designa apenas a perda de territórios ou imposição de tratados desiguais. Ela traduz uma memória histórica muito mais profunda: a percepção de que a dependência tecnológica representa uma vulnerabilidade nacional. Essa ideia atravessou gerações, sobreviveu à queda do Império, às guerras civis, à invasão japonesa e à própria fundação da República Popular. Tornou-se parte da maneira como a China passou a interpretar sua posição no mundo.

Porém, paradoxalmente, a própria Revolução Cultural produziu um segundo trauma. Ao fechar universidades, perseguir professores, interromper pesquisas científicas e enviar intelectuais para programas de “reeducação”, a China passou a destruir internamente exatamente aquilo que pretendia recuperar diante do mundo: sua capacidade de aprender. Poucas experiências históricas mostram de modo tão dramático até que ponto uma sociedade pode se voltar contra o próprio patrimônio intelectual.

A inflexão iniciada em 1978 foi, por isso, muito mais profunda do que uma simples abertura econômica. Ela representou uma mudança na própria compreensão do desenvolvimento. A prioridade deixou de ser a pureza ideológica das teorias e passou a ser a aptidão de resolver problemas concretos. Em vez de perguntar quais ideias eram politicamente mais corretas, o Estado passou a perguntar quais permitiam aumentar a produtividade, acelerar a inovação e ampliar a capacidade tecnológica do país.

Essa mudança de perspectiva reorganizou todo o ecossistema nacional de aprendizagem. Universidades foram reconstruídas, institutos de pesquisa voltaram a funcionar, laboratórios receberam investimentos maciços, milhares de estudantes foram enviados às melhores instituições do exterior e empresas passaram a incorporar, de forma crescente, o conhecimento produzido nas universidades. Tratava-se de reconstruir a capacidade de uma sociedade inteira de produzir, transmitir e renovar conhecimento.

Reconstruir universidades significava, portanto, muito mais do que restaurar campi destruídos. Significava ampliar extraordinariamente o acesso ao ensino superior, formar uma nova geração de pesquisadores, conectar ciência e indústria e transformar o conhecimento em patrimônio nacional compartilhado. A verdadeira reconstrução não ocorreu apenas nos laboratórios; ocorreu sobretudo na ampliação da base humana capaz de fazê-los funcionar.

Costuma-se atribuir o extraordinário desenvolvimento da Alemanha, do Japão, da Coreia do Sul e da China a fatores culturais, como a suposta valorização tradicional da educação. Embora essa interpretação contenha parte da verdade, dificilmente ela explica o conjunto da história.

Os quatro países passaram por algumas das maiores catástrofes do século XX. A Alemanha terminou a Segunda Guerra Mundial com cidades destruídas, infraestrutura em ruínas e boa parte de sua comunidade científica dispersa. O Japão sofreu duas bombas atômicas, devastação industrial sem precedentes e anos de ocupação estrangeira. A Coreia saiu da guerra dos anos 1950 como um dos países mais pobres do planeta. A China enfrentou décadas de guerra civil, invasão estrangeira e uma Revolução Cultural que praticamente desarticulou suas universidades.

Nenhum deles dispunha de abundância excepcional de recursos naturais. Nenhum encontrou atalhos tecnológicos. Nenhum escapou ao elevado custo da reconstrução.

O que reconstruíram, acima de tudo, foram instituições capazes de aprender.

Talvez essa seja a verdadeira riqueza das nações. Não apenas universidades, empresas ou laboratórios, mas também a capacidade de formar, geração após geração, engenheiros, pesquisadores, empresários, professores e gestores públicos capazes de aprender com a realidade e transformar esse aprendizado em inovação, produtividade e desenvolvimento. É essa capacidade – muito mais do que qualquer descoberta isolada, recurso natural ou vantagem geográfica – que ajuda a explicar por que algumas sociedades conseguem recuperar-se de derrotas aparentemente irreversíveis, enquanto outras permanecem aprisionadas, por décadas, nas consequências de seus próprios equívocos.

Naturalmente, essas relações não são mecânicas nem inevitáveis. Ecossistemas de aprendizagem podem preservar capacidades importantes mesmo sob ambientes políticos adversos, assim como países dotados de organizações científicas sólidas nem sempre conseguem convertê-las plenamente em desenvolvimento econômico. Ainda assim, a experiência histórica sugere que, no longo prazo, o aprendizado contínuo constitui uma condição necessária, embora não suficiente, para a prosperidade e a soberania das nações.

Os efeitos mais profundos do obscurantismo raramente recaem sobre os cientistas que ele persegue.

Recaem sobretudo sobre aqueles que ainda nem chegaram às universidades.

Existe uma característica das instituições de conhecimento que costuma não receber a devida atenção. Elas não produzem apenas descobertas; produzem sucessores. Cada professor forma novos professores. Cada pesquisador forma novos pesquisadores. Cada engenheiro experiente transmite aos mais jovens conhecimentos que dificilmente aparecem em livros: métodos experimentais, critérios de julgamento, maneiras de formular perguntas, hábitos intelectuais e, talvez acima de tudo, a disposição para abandonar convicções quando elas deixam de resistir às evidências.

Essa transmissão constitui um patrimônio essencialmente cultural. Ela ocorre lentamente, de geração em geração, e, exatamente, por isso representa uma das formas mais valiosas de riqueza acumulada por uma sociedade.

Raramente as sociedades ensinam o mundo tal como ele é no presente. Com frequência, ensinam o mundo tal como foi compreendido pela geração que ocupa as salas de aula, as redações, os governos e as instituições. Cada geração transmite à seguinte algo que vai além de informações: transmite mapas mentais, critérios sobre o que considera plausível, confiável, ameaçador ou verdadeiro. Por isso, mudanças profundas na maneira de pensar raramente acompanham o ritmo dos ciclos eleitorais. Elas se propagam lentamente, como uma herança cognitiva.

É justamente nesse ponto que o obscurantismo revela sua face mais duradoura.

Quando uma geração cresce aprendendo a desconfiar da ciência, dificilmente formará organizações que valorizem o conhecimento técnico. Quando especialistas passam a ser apresentados como inimigos, universidades como centros de doutrinação e evidências científicas como simples opiniões políticas, o dano ultrapassa em muito a esfera do debate público. Ele modifica a própria forma pela qual uma sociedade aprende a distinguir fatos de narrativas, conhecimento de crença, investigação de propaganda.

Por isso, reconstruir um ecossistema de aprendizagem é muito mais difícil do que reconstruir seus edifícios.

Universidades podem ser reabertas em poucos anos. Laboratórios podem receber novos equipamentos. As agências científicas podem recuperar seus orçamentos. Muito mais lenta, entretanto, é a reconstrução da confiança social na ciência, do respeito à investigação independente e da cultura intelectual necessária para que novas gerações voltem a produzir conhecimento de qualidade.

Essa talvez seja uma das maiores assimetrias do desenvolvimento.

Destruir leva poucos anos.

Reconstruir exige uma geração inteira.

Essa constatação convida a ampliar o próprio conceito de infraestrutura.

Costumamos associar essa palavra a pontes, portos, ferrovias, usinas hidrelétricas, rodovias ou redes elétricas. Todas são indispensáveis ao funcionamento da economia moderna. Existe, porém, outra infraestrutura, muito menos visível, sem a qual nenhuma delas consegue sustentar prosperidade por muito tempo.

O substrato cognitivo de uma sociedade é formado por escolas, universidades, laboratórios nacionais, institutos tecnológicos, bibliotecas, sociedades científicas, agências de pesquisa, sistemas de avaliação por pares, editoras acadêmicas e por uma cultura pública que reconhece o valor da evidência, da crítica e do debate racional.

Há, entretanto, um aspecto frequentemente negligenciado. Ecossistemas de aprendizagem não dependem apenas da existência dessas instituições; dependem também da capacidade de mobilizar o talento disponível em toda a população. Sempre que barreiras de origem social, raça, gênero, religião ou outras formas de discriminação impedem parte da sociedade de desenvolver plenamente suas capacidades, o prejuízo ultrapassa a esfera dos direitos individuais. Trata-se também de uma perda de inteligência coletiva. Nenhuma nação alcança liderança científica desperdiçando sistematicamente parte de seus próprios talentos.

Essa infraestrutura produz algo que nenhum decreto consegue criar: capacidade nacional.

Ao longo deste ensaio, argumentou-se que o fechamento de uma fábrica representa muito mais do que a simples interrupção de uma linha de produção. Desaparece um ecossistema de fornecedores, engenheiros, técnicos, laboratórios e conhecimentos acumulados durante décadas. Com as organizações científicas ocorre exatamente o mesmo. Quando uma universidade perde seus pesquisadores, quando uma agência científica é sistematicamente deslegitimada ou quando bibliotecas passam a retirar livros de circulação por razões ideológicas, não desaparecem apenas organizações isoladas. Começa a deteriorar-se o próprio sistema responsável por produzir e renovar conhecimento.

Os efeitos dessa erosão dificilmente aparecem nas estatísticas do ano seguinte. Manifestam-se 20 ou 30 anos depois, quando aquela geração chega às empresas, aos hospitais, às universidades, aos laboratórios, às escolas e aos governos. É nesse momento que um problema aparentemente cultural revela sua verdadeira dimensão. O atraso deixa de ser apenas científico. Converte-se em atraso tecnológico, econômico, institucional e, por fim, geopolítico.

É por isso que as grandes civilizações raramente entram em declínio de maneira súbita. Antes que suas fábricas parem de produzir ou que seus indicadores econômicos se deteriorem, seus ecossistemas de aprendizagem já começaram, silenciosamente, a perder a capacidade de formar as gerações que construirão o futuro.

Talvez a grande transformação geopolítica do século XXI ainda não tenha sido plenamente percebida.

Durante boa parte da Guerra Fria, a competição entre as grandes potências era medida pelo número de divisões militares, de ogivas nucleares, de navios, de aeronaves ou pela quantidade de aço produzida. Esses indicadores continuam importantes. Mas deixaram de ser suficientes.

A competição estratégica deslocou-se progressivamente para outro terreno: aprender mais rapidamente do que os concorrentes.

Inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia, novos materiais, computação quântica, energia limpa, farmacêutica avançada ou sistemas espaciais pertencem a setores aparentemente distintos. Todos, entretanto, compartilham uma característica fundamental. Nenhum deles depende apenas de recursos financeiros ou de abundância de matérias-primas. Todos exigem ecossistemas de aprendizagem extraordinariamente sofisticados, capazes de produzir conhecimento novo, formar recursos humanos altamente qualificados e transformar descobertas científicas em capacidades produtivas.

É nesse contexto que as transformações recentes nos Estados Unidos adquirem uma importância que ultrapassa em muito a política doméstica norte-americana.
Quando o maior ecossistema de aprendizagem do mundo começa a vacilar

Ao final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos haviam compreendido uma lição que moldaria toda a segunda metade do século XX. A superioridade militar conquistada durante o conflito não fora resultado apenas de sua capacidade industrial. Ela nascera da extraordinária articulação entre universidades, laboratórios, empresas, agências governamentais e Forças Armadas. O radar, a penicilina produzida em escala industrial, o Projeto Manhattan, os primeiros computadores eletrônicos e inúmeras outras inovações demonstravam que ciência, tecnologia e Estado haviam passado a constituir um único sistema de produção de capacidades nacionais.

Poucas semanas antes do fim da guerra, Vannevar Bush entregou ao presidente Harry S. Truman o relatório “Science, the Endless Frontier”. Mais do que um documento administrativo, aquele texto tornou-se um verdadeiro projeto de país. Sua mensagem era revolucionária: a pesquisa básica não deveria ser tratada como um luxo acadêmico, mas como infraestrutura estratégica para a prosperidade econômica, a saúde pública, a segurança nacional e a liderança tecnológica.

Foi essa visão que permitiu aos Estados Unidos construir, ao longo das décadas seguintes, o mais poderoso ecossistema de aprendizagem já organizado por uma nação.

Universidades, laboratórios nacionais, agências federais, fundações de pesquisa e empresas privadas passaram a atrair talentos do mundo inteiro. Brasileiros, chineses, indianos, coreanos, europeus e latino-americanos encontraram naquele ambiente financiamento e também uma cultura institucional baseada na liberdade de investigação, na competição de ideias e na permanente revisão crítica dos resultados.

Em certo sentido, aquele ecossistema deixou de pertencer apenas aos Estados Unidos.

Grande parte da ciência mundial passou a gravitar em torno dele.

Nada sugere um colapso iminente desse ecossistema. Pelo contrário. Sua densidade institucional – construída ao longo de oito décadas por universidades, laboratórios nacionais, agências federais, empresas inovadoras e redes internacionais de colaboração – lhe dá uma capacidade de adaptação e resiliência sem paralelo histórico. Por isso, mudanças que, em outros contextos, poderiam parecer pontuais devem ser observadas com atenção quando atingem organizações responsáveis por produzir, validar e difundir conhecimento.

É justamente por isso que as transformações recentes merecem atenção.

O debate não se limita a diferenças legítimas sobre prioridades orçamentárias, políticas energéticas ou modelos de desenvolvimento. Democracias vivem dessas divergências. A questão mais profunda é outra: o que acontece quando organizações encarregadas de produzir conhecimento passam, elas próprias, a ser alvo de desconfiança sistemática?
Celso P. de Melo
O que acontece quando universidades deixam de ser percebidas como um patrimônio nacional e passam a ser apresentadas como adversárias políticas? Quando agências científicas passam a ser julgadas menos pela qualidade de suas evidências do que por sua suposta orientação ideológica? Quando bibliotecas, currículos escolares e programas de pesquisa tornam-se objetos de disputas cuja lógica deixa de ser acadêmica e passa a ser predominantemente política?

Essas perguntas extrapolam qualquer governo e qualquer partido.

Elas dizem respeito ao funcionamento do próprio ecossistema de aprendizagem.

Ecossistemas dessa natureza dependem de confiança institucional, continuidade administrativa, liberdade intelectual e da capacidade de mobilizar talentos provenientes de toda a sociedade. Sempre que disputas políticas passam a restringir a autonomia dessas instituições, reduzir sua capacidade de atrair pesquisadores, questionar sistematicamente sua credibilidade ou limitar a participação de parcelas da população na produção do conhecimento, a questão deixa de ser apenas jurídica ou ideológica. Passa a envolver a própria capacidade nacional de inovar.

Nos últimos anos, e de forma particularmente evidente durante o atual governo de Donald Trump, essas tensões ganharam nova intensidade. Mudanças em agências federais de saúde, conflitos envolvendo universidades, disputas sobre políticas climáticas e de saúde pública, a crescente politização da atuação de especialistas e organizações científicas, bem como controvérsias em torno de livros, currículos escolares e programas de diversidade, não devem ser vistos como episódios isolados. Em conjunto, revelam algo mais profundo: uma disputa sobre quem detém a autoridade para definir o que constitui conhecimento legítimo na esfera pública.

Essa talvez seja a questão decisiva. Grandes ecossistemas de aprendizagem não entram em colapso de um dia para o outro. Seu declínio costuma começar de forma quase imperceptível: primeiro enfraquece-se a confiança nas instituições, depois reduz-se a capacidade de atrair talentos, em seguida são interrompidas as redes de colaboração e, somente muitos anos mais tarde, tornam-se visíveis os efeitos sobre a inovação, a competitividade e a própria capacidade estratégica do país.

Isso não significa, entretanto, que os primeiros sinais dessa erosão demorem a aparecer. Algumas consequências tornam-se visíveis quase imediatamente. Protocolos institucionais frequentemente incorporam conhecimentos acumulados ao longo de gerações; por isso, sua revisão exige cautela proporcional à experiência histórica que representam.

Uma geração de pesquisadores pode exigir 30 anos de formação. Um instituto de excelência consolida-se lentamente, ao longo de sucessivas gerações de professores, estudantes e pesquisadores. Sua degradação, entretanto, pode começar em poucos anos.

Essa assimetria do tempo institucional constitui uma das maiores vulnerabilidades das grandes civilizações. Construir ecossistemas de aprendizagem exige décadas de investimento contínuo. Desorganizá-los pode ser obra de um único ciclo político. Reconstruí-los, entretanto, jamais se fará no ritmo dos calendários eleitorais[13].

Essa constatação conduz a uma conclusão que transcende governos, partidos e conjunturas. Proteger universidades, laboratórios, escolas, bibliotecas e agências de fomento não significa defender interesses corporativos. Significa preservar a capacidade coletiva de aprender, corrigir erros e preparar-se para desafios ainda sequer imaginados.

Talvez essa seja a principal lição da história. Grandes civilizações raramente entram em declínio por falta de recursos naturais, de território ou de população. Antes disso, enfraquecem as instituições que transformam conhecimento em capacidade nacional. O futuro de uma nação depende menos das riquezas que herdou do passado do que da capacidade de preservar e renovar seus ecossistemas de aprendizagem.

Em última análise, o verdadeiro patrimônio estratégico de uma nação não é aquilo que ela possui, mas o que é capaz de aprender. Recursos naturais podem ser explorados. Infraestruturas podem ser reconstruídas. Exércitos podem ser reequipados. Ecossistemas de aprendizagem, porém, levam gerações para florescer. Protegê-los talvez seja, hoje, a forma mais profunda de defender a soberania nacional.

Réquiem por Karl Marx

O economista Pedro Noblat acerta na mosca ao comentar o anacronismo que acomete o debate econômico. “A relação capital trabalho sofreu transformações profundas nas últimas décadas, mas os condicionantes da teoria econômica do século XIX seguem equivocadamente fundamentando os analistas em pleno antropoceno digital”. A essa altura, não seria exagero, inclusive, afirmar que discutir desigualdade social anda meio fora de moda, apesar de ela não parar de crescer. O assunto ganhou altitude na esteira do debate mundial pós-guerra sobre a independência das últimas colônias europeias do ‘terceiro mundo’. Ao mesmo tempo, na América Latina, o tema era abafado durante o surto de ditaduras que durou três décadas. Nos anos 1980, com a redemocratização da maior parte dos governos da região, as desigualdades voltaram ao radar das políticas públicas. No Brasil não foi diferente. Nessa época, pensadores progressistas deram destaque ao agravamento persistente da concentração de riqueza e renda, alavancado pela globalização financeira e produtiva, e turbinado por um consumismo insaciável.


Pior ainda com a escalada caótica das mudanças climáticas. Na verdade, o assunto da pobreza como expressão da injustiça social fora debatido desde o final do século XVIII, associado às formas de exploração do trabalho e ao imperialismo internacional, que aqui e ali resultaram ora em revoltas sociais, ora na humanização do capitalismo liberal. Saudades de Marx, Engels e, por que não, de Adam Smith. Em 1912 o matemático italiano Conrado Gini apresentara seu Índice de Gini, que media a distância entre pobres e ricos. As duas guerras mundiais embolaram o meio de campo dessa discussão, que ainda enfrentou resistências políticas expressivas durante a chamada guerra fria. Mesmo assim, o debate da desigualdade social chegaria à virada do milênio de vento em popa. Exemplo disso é a publicação do IDH Índice de Desenvolvimento Humano, idealizado pelo indiano Amartya Sen nos anos 1990.

O século XXI chegou repleto de esperança e novas ideias. O Fórum Social Mundial estava no auge, atraindo pensadores como Noam Chomsky, Lula, Boaventura, Viviane Forrester, Naomi Klein e Paul Singer. Outro mundo seria possível. Manifestações como a ‘batalha de Seattle’ davam o tom de um Comércio Justo e uma Economia Solidária. Ninguém esperava que o atendado de 11 de setembro desencadeasse uma espécie de macarthismo (quem não estiver com o capitalismo está contra ele). O efeito foi como um balde de água fria nos movimentos, nos ativistas e organizações que cutucavam a ferida aberta das diferenças socioeconômicas.

Desencadeou-se uma fragmentação das causas sociais em temas diversos e específicos, enfoques importantes para o desenvolvimento humano e a sustentabilidade da natureza, mas é preciso retomar o foco primordial – a questão política central – de todos esses problemas da humanidade, seja como causa, seja como consequência: a desigualdade social. A polarização (com tempero de costumes) nas eleições brasileiras de 2026 reedita os extremos Lula x Bolsonaro, varrendo para baixo do tapete as causas e os propósitos que explicam porque tantas pessoas sofrem privações enquanto o andar superior do PIB e da Política detém o maior pedaço do poder e dos ganhos. Fala-se em nova esquerda pós-Lula 2030. Pura falácia. Novos políticos praticando a velha política. O caminho para o futuro é revitalizar a sociedade civil. Reacender a luz e reabrir as janelas do diálogo social. Deixar as convergências e as divergências aflorarem. A política e os políticos são produtos da sociedade.
Felipe Sampaio

Flávio joga parado na economia e não é cobrado

O presidenciável Flávio Bolsonaro joga parado nas promessas que faz para a economia durante a campanha eleitoral.

Ele tem sido beneficiado por não ser o candidato incumbente, diferentemente do presidente Lula, e pelo baixo nível de cobrança dos analistas do mercado financeiro, dos eleitores e também da mídia que acompanha seu périplo diário na disputa pelo Palácio do Planalto.

Instado a falar sobre medidas econômicas que adotará caso ganhe as eleições, o candidato do PL fala de "tesouraço" nas despesas do Orçamento, gatilhos para contenção de gastos, redução de ministérios, corte de cargos comissionados e mudanças na reforma tributária.

Enquanto pega carona nas críticas ao crescimento da dívida pública no governo Lula, ele promete o maior corte da história da carga tributária do país via redução de impostos e desoneração da folha de pagamento das empresas.

Com a declaração de que "não fará economia em cima de aposentados" —frase moldada pelos seus estrategistas de marketing político—, repete a tática do pai.

É sempre bom recordar. Para barrar medidas do seu ministro da Economia, Paulo Guedes, voltadas ao financiamento do Auxílio Brasil (o antecessor do atual Bolsa Família), Jair Bolsonaro saiu-se com a histórica frase de que "não tiraria de pobres para dar para paupérrimos".

Ao final, o Auxílio Brasil foi bancado pela PEC dos Precatórios, que empurrou parte do pagamento dessas despesas com sentenças judiciais.

Flávio também já admitiu em entrevista ao SBT que não daria detalhes sobre onde cortaria os gastos. Fazer isso, segundo ele, geraria "um castelo de cartas".

Por outro lado, ele já disse que não pretende dar fim aos pisos constitucionais da saúde e da educação nem acabar com a vinculação do salário mínimo à inflação ou realizar uma reforma da Previdência.

Com base no pouco que o candidato disse e também no que falou que não faria, a conclusão a que se chega é que a conta não fecha.

Ninguém acredita. Ou ele não fala a verdade, ou vai praticar estelionato eleitoral se ganhar a eleição.
Adriana Fernandes

O ajuste fiscal e a pergunta que o Brasil precisa fazer

Toda vez que o tema volta à mesa, a receita já vem pronta. Desindexar o salário mínimo do crescimento do PIB. Afrouxar os pisos constitucionais de saúde e educação. A justificativa é sempre a mesma: não há alternativa, o país precisa escolher entre o ajuste e o abismo. Há, de fato, um problema real. As despesas obrigatórias crescem mais rápido que a receita, e a trajetória da dívida pública preocupa quem acompanha o tema com seriedade.

O que incomoda não é o diagnóstico. É a certeza com que se encerra o debate antes mesmo de ele começar, como se existisse apenas um caminho possível e ele passasse, inevitavelmente, pelo bolso de quem tem menos margem para reclamar. Setenta por cento dos benefícios do INSS seguem o salário mínimo. O SUS depende de seu piso constitucional para manter o atendimento onde ele é mais necessário. Quando a sustentabilidade fiscal escolhe justamente esses dois alvos como prioridade, cabe perguntar: por que o ajuste começa sempre por quem mais depende do Estado? E, afinal, quem deve pagar essa conta?

Porque existe outra estrutura no orçamento brasileiro e ela raramente é submetida ao mesmo rigor crítico. Em 2026, o Congresso reservou R$ 61 bilhões para emendas parlamentares, a maior parte de execução obrigatória. É mais do que o país investe no PAC. As renúncias fiscais concedidas a empresas e setores ultrapassam a meio trilhão de reais por ano, mais de um quinto da arrecadação federal, crescendo continuamente há duas décadas e concentradas, em sua maior parte, nas regiões mais ricas. O próprio ministro da Fazenda classificou esse conjunto como uma caixa-preta do orçamento.

A economia política chama esse fenômeno de institucionalismo discursivo: certas ideias se tornam dominantes não necessariamente porque venceram o debate, mas porque seus defensores ocupam espaços privilegiados de influência. Não se trata de questionar a boa-fé de ninguém. Trata-se de reconhecer que muitos dos economistas mais influentes trabalham em bancos e gestoras de patrimônio, setores diretamente afetados pela remuneração da dívida pública. Isso não invalida seus diagnósticos, mas ajuda a entender por que, entre várias soluções possíveis, sempre a mesma chega primeiro às manchetes.

Wolfgang Streeck descreveu esse deslocamento ao distinguir o povo que vota do povo que financia o Estado. Quando as decisões sobre as prioridades do orçamento passam a dar mais peso às expectativas de quem empresta dinheiro ao governo do que as necessidades de quem depende da aposentadoria, da saúde e dos outros serviços públicos, a democracia perde seu equilíbrio. O interesse financeiro passa a influenciar mais do que o interesse da maioria da população, dos que mais precisam do Estado. No Brasil, Leda Paulani já alertava, há quase duas décadas, que a política econômica frequentemente prioriza manter a confiança de quem financia a dívida pública, mesmo quando isso limita o crescimento da economia e o bem-estar da população.

Reconhecer esse quadro não significa negar a necessidade de ajuste. Significa que ele deve ser feito sem impor o maior sacrifício justamente a quem depende do Estado para viver com dignidade. Não se trata de privilégio, mas de justiça social. Existem alternativas que raramente recebem igual atenção: revisar benefícios tributários com prazo efetivo de validade; tributar dividendos, hoje isentos; reformar o sistema de emendas parlamentares impositivas; e, caso a desindexação avance, fazê-la de forma gradual, distinguindo benefícios previdenciários das políticas assistenciais, como o Benefício de Prestação Continuada - BPC.

Há ainda um efeito pouco lembrado. Desde 2006, a valorização do salário mínimo tornou-se um dos principais motores do consumo das famílias de menor renda, sobretudo nas pequenas e médias cidades. Esse dinheiro movimenta o comércio local, sustenta prestadores de serviço e alimenta a economia de milhares de pequenos empreendedores. Reduzir esse mecanismo em troca de um benefício futuro e incerto significa impor uma perda imediata justamente a quem dispõe de menos proteção. É também retirar recursos da economia real. A renda das famílias mais pobres retorna rapidamente ao consumo, movimentando o comércio, os serviços e os pequenos negócios das comunidades. Já a renda dos mais ricos tende, em maior proporção, a permanecer aplicada no sistema financeiro.

O Brasil não carece de conhecimento técnico para enfrentar seu desafio fiscal. O que falta é abrir espaço para que diferentes caminhos sejam discutidos com o mesmo respeito concedido à solução de sempre. A pergunta central já não é se o ajuste é necessário. É como ele será feito e sobre quem recairá seu custo. 

Enquanto essa discussão permanecer restrita a um único roteiro, o ajuste continuará recaindo sobre quem sempre paga a conta e poupando quem quase nunca participa dela. Afinal, a pergunta que o Brasil ainda não fez é a mais importante de todas: quem deve pagar a conta do ajuste?
Giovanni Bevilaqua