quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Flávio, mártir do pau oco, quer criar nova revolta dos Bolsonaros contra o 'sistema'

A fuga de Flávio Bolsonaro dá o que pensar sobre o destino da oposição a Lula 4 e sobre a montagem de um projeto da direita para 2030. Talvez os Bolsonaros se façam de mártires da desdemocratização do Brasil, de vingadores dos oprimidos pelo "sistema", mote fundamental da família e das extremas direitas.

Podem meter os pés pelas mãos se tentarem, com sucesso, apoio do governo americano para campanha qualquer contra o Brasil. Por exemplo, Donald Trump poderia aceitar um processo de asilo político para os Bolsonaros. Diria assim que o regime brasileiro não é democrático, que persegue politicamente cidadãos. Pelo meio do caminho, haveria sanções, políticas ou comerciais.


Quanto ao mais doméstico, imediato e previsível, a escafedida de Flávio Bolsonaro promove tumulto nas fileiras dos partidos adversários de Lula 4, a começar pelo PL. Até segunda (26), esse senador com mandato terminal se coroava líder da oposição. A capacidade de Flávio liderar qualquer coisa, mesmo como estafeta ou garoto de recados do pai, causava certa descrença mesmo no PL e entre bolsonaristas de outros partidos. Agora, Flávio está fugido e não se sabe o que pretende —discursaria ainda nesta semana nos EUA. Sim, acontece de haver líderes de oposição que vivem fora do país deles. Em geral, tentam insurreição contra um governo autoritário, sem política viva.

O PL é um tanto gelatinoso, sem coesão. Há implicâncias com bolsonarismos mais extremados e divergências entre bolsonaristas. Que rumo vai tomar? Embarcaria em um projeto "antissistema"? Na oposição, é preciso pensar mais nos custos e no risco de perder emendas.

Por um lado, a família tem muito poder sobre as bases. Por outro, a fuga, uma campanha antinacional ou até golpista podem enfraquecê-la. Essa hipótese inspira aquelas pessoas que os Bolsonaros chamam de "direita cheirosa": deu ânimo àqueles que pregam a ideia de que a direita deve se afastar do bolsonarismo.

Essa direita terá condição de liderar políticos, grupos sociais e econômicos e a massa da militância, de resto em atrito com os Bolsonaros? Note-se que o evangelismo político, o agro, militares e forças de segurança de diversos tipos juntaram-se ao bolsonarismo, o constituíram ou nele pegaram carona para assumir poder direto de fato, de modo inédito. Mudariam de barco assim, sem mais, para essa hipotética ou fantasiosa nova direita?

Essa nova direita conseguiria disputar com sucesso o comando daquilo que o filósofo político Marcos Nobre chama de "partido digital bolsonarista"? Isto é, um partido informal que se estrutura e sustenta pelas redes e assim também cria organizações de base no mundo dito "real", típicas de um "partido de massas", e que parasita um partido formalmente constituído, que agora é no caso o PL.

Quem defende a tese da direita pós-bolsonarista é muito simpatizante do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Como o governador levaria adiante um projeto eleitoralmente viável sem contar com o eleitor bolsonarista de alma? É a questão de qualquer candidato a líder ou a presidente direitista em 2030. Os Bolsonaros concederiam o lugar de liderança sobre esses eleitores? Tarcísio até apareceu nas redes nesta terça (27), como líder de um "a luta continua", da "união e reconstrução", versão direitista, propondo um programa e dizendo "a eleição passou, o Brasil não". Vai disputar o poder com seus mentores?
Vinicius Torres Freire

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