quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Não é bonito alguém na universidade ter medo de ler

"Transforma em um tuite ou não irei responder”

Foi isso que ouvi do presidente de uma organização da qual participei enquanto embaixador há alguns anos. Na época, precisei falar com ele sobre uma demanda séria e que simplesmente não poderia ser transformada em um texto com até 280 caracteres. Esta coluna mesmo, neste trecho, já possui mais caracteres.

Atualmente lidero o maior programa social de educação do Brasil. Tenho contato direto com milhares de jovens da rede pública de mais de 1.557 cidades do país e com estudantes e graduados de todas as universidades públicas do país.

Minha maior dor no trabalho hoje em dia é o fato de que, salvo exceções, as pessoas não estão lendo mais. Não me refiro a ler Machado de Assis ou obras literárias, mas sim a recados e instruções simples e diretas.

Anos atrás, isso era muito comum entre os jovens secundaristas com quem tenho contato. Eu entendia todo o contexto e a questão da idade, mas no pós-pandemia, houve um crescimento assustadoramente notável. E isso se tornou comum também entre nosso time voluntário e com membros das melhores instituições de ensino superior do país.

Já havia escrito uma coluna sobre este tema, já citei a problemática em outras oportunidades e agora estou aqui novamente, pois nada muda minha ideia de que o problema é grave.


Sei que hoje em dia as pessoas precisam lidar com inúmeras demandas diárias. Sei que muitas pessoas não têm quase nenhum tempo livre, para além do dedicado às obrigações básicas. Sei que o mundo é muito mais dinâmico e rápido. Sei que estamos nos acostumando com outros formatos de comunicação, com a predominância de vídeos curtos.

Sei de tudo isso, mas sejamos honestos: não é bonito alguém que está na universidade ou que se graduou em uma ter medo ou preguiça de ler instruções ou comunicados básicos.

Recortei o público entre os estudantes universitários e graduados por uma razão. Sou natural de um bairro da periferia e o primeiro da família que entrou na universidade. Minhas irmãs não tiveram o mesmo privilégio e nem meus pais. Minha mãe, vira e mexe, compartilha uma fake news acerca da morte de algum famoso nas redes sociais e há alguns dias atrás caiu em um golpe. Tudo isso por pura falta de atenção.

O ponto é que entendo que ela é de outra época e que não teve os mesmos privilégios que eu. Não só ela, mas milhões de outros brasileiros. Alguns textos e linguagens, sobretudo as mais formais, são de fato muito difíceis para que eles interpretem.

Agora, para uma pessoa privilegiada o bastante para estar no ensino superior ou ter concluído a graduação, sobretudo em universidade pública, é um grande problema ter medo de ler, ter preguiça e não dispor da atenção necessária para interpretar um comunicado.

Precisamos parar de romantizar, de banalizar ou de maquiar a problemática com argumentos pautados na correria dos dias de hoje.

Há alguns dias um amigo me contou uma história. Ele tem uma amiga médica que admitiu não saber fazer regra de três. Antes que alguém questione a relevância dessa informação, eu digo: ela é pediatra. É extremamente relevante que ela domine essa técnica para conseguir calcular as dosagens dos remédios. Segundo meu amigo, a médica se confortava com o fato de que havia uma tabela e que isso, inclusive, a desestimulou a tentar aprender. E, se um dia a tabela não estiver à mão, como ela vai se virar? Preocupante.

Há alguns dias, assisti a uma palestra online de 2018 do professor Miguel Nicolelis. um médico e cientista brasileiro de reconhecimento internacional e que atualmente integra o time de docentes da universidade de Duke, em Durham, nos EUA.

"Porque o cérebro é o camaleão que ele é, a nossa imersão no mundo digital, e a recompensa que isso traz, porque o cérebro está sempre calculando uma relação de custo benefício. Na verdade, estamos moldando nosso cérebro e muito provavelmente aparando os processos analógicos dele, para que ele se aproxime de uma máquina biológica digital, ou seja, a nossa imersão contínua em lógica digital está induzindo o cérebro a achar que esse é o caminho que deve ser seguido para receber as recompensas da vida cotidiana de todos nós”

Ele continua: "O efeito da hiperconectividade digital foi produzir milhões de tribos, ou seja: nós regredimos para os comportamentos sociais da origem da nossa espécie, mas todos os comportamentos sociais como empatia, interatividade, vocabulário parecem estar sendo contraídos. A dicotomia é muito interessante e o que vemos hoje em dia é que porque o cérebro é tão plástico e porque a função de recompensa mudou drasticamente. A sua transformação em um zumbi digital biológico é quase que uma necessidade de sobrevivência, mas estamos esquecendo que isso está afetando o cérebro e pode estar afetando de uma forma que não queremos”

Quando ingressamos em uma nova instituição, é comum nos sentirmos perdidos e nos depararmos com um cenário repleto de informações que demandam leitura. Isso é natural e faz parte da vida real e adulta. O que fazer nesses casos? Não ler? Desistir? Fazer um monte de perguntas aleatórias? Não é muito mais maduro e eficiente ler as informações com calma, quantas vezes for necessário, e depois tirar as dúvidas?

Sinto que estamos diante de um grande problema, mas a sociedade não apenas não está dando a devida importância, como também está banalizando e romantizando o tamanho do problema. Espero não ser tarde demais para que algo seja feito.

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Pensamento do Dia

 


Efeito borboleta

"A gente se move facilmente no que é grande e distante / difícil é apreender o que é próximo e singular", ironiza um epigrama do austríaco Franz Grillparzer. É outra luz de compreensão para o momento político norte-americano, em que a candidatura de Kamala Harris parece avivar chamas da democracia em meio ao seu declínio incipiente na maior potência mundial. Para o escritor angolano João Melo, a eventual vitória de Harris será boa para a sociedade americana e para o mundo, não por qualquer razão geopolítica, mas pelo "efeito borboleta" nos demais países.


O raciocínio é vizinho ao do epigrama, pois se atém a uma singularidade, deixando na sombra o "grande e distante", isto é, a geopolítica imperial. Essa é a dimensão em que circula o slogan trumpista "Maga" ("torne a América novamente grande"), que só parece algo de novo quando se esquece que o mote de Reagan era"America is back again", ou seja, "a América está de volta". Mero delírio cinematográfico de conforto à nação fragilizada pela derrota no Vietnã, acompanhada à distância televisiva por um povo cujos filhos precisavam se drogar na cena de guerra para aceitar que estivessem morrendo por nada.

Mas um delírio autopublicitário, que obtém confiança paradoxal, "aquela que se dá a alguém em função de seu fracasso ou de sua ausência de qualidades" (Jean Baudrillard, em "América"). Nada de credibilidade real, e sim crença sectária nas profecias de um chefe qualquer. Desde Reagan, a América estaria atravessando o que Baudrillard chamou de "histeresia de potência", isto é, um efeito que continua depois que a causa desapareceu e se desenvolve por inércia. Trump, puro efeito de tevê, é imagem dessa potência mítica e publicitária, agora impulsionada por redes protofascistas.

Por trás dessa grande ilusão, está a realidade da aliança do complexo militar com o capitalismo financeiro. Se eleita, Harris nada poderá fazer para alterar o capitalismo bélico, assim como nada puderam Obama ou Biden. Pelo contrário, estimularam a simulação imperial, incrementando guerras e matando inimigos mundo afora. Foram, porém, operadores do "efeito borboleta", que é o percebido como próximo nos países às voltas com instabilidades democráticas.

Neles, o discurso democrata de Kamala Harris, por mais ambíguo que seja, ainda oferece o melhor da América, a sugestão de liberdade política, que faz a diferença entre o horror do grande e a normalidade do singular. Para quem vive em espírito público de qualidade negativa, movido a ódio e baixarias, é uma oferta confortável. Trump, claro, é a obscenidade da cena primitiva americana. Se eleito, não será apocalipse nenhum, mas um "flatus" desagradável da impotência moral da potência.
Muniz Sodré

Venezuela é um caso perdido para Lula

Quem quiser que se iluda: a não ser que haja uma grande rebelião popular, Nícolás Maduro se consolidará como ditador da Venezuela. Usará de todos os recursos institucionais de que dispõe para sua permanência no poder por mais seis anos, reprimirá duramente a oposição e contará com apoio internacional suficiente para sustentar essa posição. Ainda que enfrente grande reação no Ocidente democrático, liderada pelos Estados Unidos. Os esforços do Brasil, do México e da Colômbia para que o resultado das urnas seja respeitado fracassaram.

A Venezuela conta com forte apoio dos seus militares e do eixo euroasiático formado por Rússia, China, Coréia do Norte e Irã, além do apoio de Bolívia, Cuba, Honduras e Nicarágua. Esse sistema de alianças garantirá a sobrevivência do regime venezuelano, mesmo diante do bloqueio econômico que certamente sofrerá dos Estados Unidos e da União Europeia, além de Argentina, Chile, Costa Rica, Panamá, Peru, República Dominicana e Uruguai, países com os quais rompeu relações diplomáticas. Os esforços do Brasil e da Colômbia, que ainda tentam uma saída negociada para a crise venezuelana, estão fracassando.

É uma situação delicada para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que sofre grande desgaste interno em razão de suas relações históricas com o chavismo e uma posição que muitos consideram dúbia, por causa de declarações que contemporizam com Maduro e, de certa forma, teceram o roteiro que o venezuelano pretende seguir para se legitimar perante o Brasil. Lula havia dito que a oposição deve contestar os resultados oficiais na Justiça, como se houvesse independência do Legislativo e do Judiciário na Venezuela. Maduro agarrou a proposta com as duas mãos.


É uma espécie de feitiço contra o feiticeiro. O ativismo diplomático de natureza ideológica de Lula na América Latina, desde a posse, coleciona fracassos, porque não dá conta das contradições e diversidade política da região, ao contrário da nossa tradição de política externa pragmática e independente, que poderia ser mais bem sucedida sem esse viés esquerdista. Todos os setores democráticos que apoiaram Lula contra Jair Bolsonaro, em 2022, para interromper a deriva autoritária em que o país estava, agora cobram seu posicionamento contra a permanência de Maduro no poder. Não foi por falta de aviso.

A possibilidade de o Brasil, a Colômbia e o México serem fiadores de uma solução negociada do impasse subiu no telhado: Maduro precisaria reconhecer a derrota ou convocar novas eleições, sob supervisão internacional. Isso dependeria de uma escalada de endurecimento da posição dos Estados Unidos e de uma fissura interna nas Forças Armadas. Não parece ser o que vai acontecer.

A América Latina passa por uma curva da história, moldada pela presença crescente da China, com investimentos em infraestrutura e recursos vitais, que desafiam a influência dos Estados Unidos na região. A China é um parceiro valioso, principalmente para o Brasil, apesar dos riscos de dependência econômica.

Essa disputa com os Estados Unidos, porém, no caso da Venezuela, tem um ingrediente muito perigoso: o pacto militar com a Rússia, que fornece equipamentos bélicos às Forças Armadas venezuelanas. Os militares ganham mais força e poder durante o governo de Hugo Chávez, entre 1999 e 2013. Sua fidelidade ao governo sustenta-se no poder (ocupam cargos importantes), no dinheiro (controlam petróleo e minérios) e no medo (a dissidência não é tolerada).

A tensão entre Venezuela e Guiana sobre o território do Essequibo, por causa do petróleo, exacerba essa influência militar. A presença dos Estados Unidos na América Latina continua hegemônica, mas precisa oferecer alternativas aos investimentos chineses, manter o equilíbrio geopolítico e respeitar a soberania dos países da região. Diplomacia e cooperação precisam caminhar de mãos dadas com a democracia, os direitos humanos e o desenvolvimento sustentável.

Um ambiente de paz e equilíbrio na região depende muito do posicionamento do Brasil, que tem 1.987.000 militares na ativa, além de 84 milhões de reservistas. O Brasil possui 723 aviões, 255 helicópteros, 1.707 veículos terrestres, 180 lançadores de foguetes, 110 embarcações e cinco submarinos de combate. Em contraste, a Venezuela conta com 280 aviões, 104 helicópteros, 700 veículos terrestres, 52 lançadores de foguetes, 50 embarcações e dois submarinos.

Entretanto, por causa da Venezuela, crescem a instabilidade e o risco de confrontos na região. No caso da Guiana, a presença de ExxonMobil e as ameaças de anexação de Essequibo pela Venezuela farão com que os americanos queiram implantar uma base militar no país vizinho, uma ex-colônia britânica. O foco dos Estados Unidos na América Latina é a garantia dos seus interesses comerciais, políticos e geoestratégicos, e a consolidação de sua posição como liderança em todo o continente americano.

O Brasil precisa ser claro em relação à sua parceria com os Estados Unidos, um aliado estratégico regional para questões de segurança, como na Segunda Guerra Mundial, quando o país se juntou aos aliados no combate ao nazifascismo na Europa. Mas também como um parceiro comercial, pois é o principal destino de nossas exportações industriais, afora o potencial de parcerias nos campos do pré-sal.
Luiz Carlos Azedo

O governo da Venezuela é uma ditadura de esquerda

O governo da Venezuela é uma ditadura. Não importa que Lula, seu assessor Celso Amorim e o PT afirmem o contrário. O regime de Nicolás Maduro não preenche nenhum dos requisitos de uma democracia, a começar pelas eleições farsescas, como a realizada no domingo (28).

Além de se recusar a divulgar as atas do pleito, o governo interferiu na disputa ao impedir candidaturas da oposição e coagir eleitores.

Como em toda ditadura, o aparato policial do Estado persegue jornalistas e dissidentes. No Índice de Liberdade de Imprensa da ONG Repórteres sem Fronteiras, a Venezuela é a 159ª colocada entre 180 nações.


Estima-se que 125 pessoas foram mortas nos protestos de 2017. O Tribunal Penal Internacional levantou mais de 1.500 denúncias de abusos das forças de segurança, enquanto a ONU computou 122 casos de tortura e violência sexual.

O governo da Venezuela é de esquerda. Não importa que militantes e até parte da imprensa digam que não é —no caso dos jornalistas, solapar dados históricos e princípios básicos da economia e da ciência política desse modo é vergonhoso.

Maduro é cria do chavismo, uma ideologia populista passadista que se apoia no anticolonialismo de Simón Bolívar e no discurso socialista dos anos 1960, como a crítica ao livre mercado e ao imperialismo dos EUA. No Índice de Liberdade Econômica de 2023, a Venezuela está na posição 174 —à frente apenas de outras duas ditaduras de esquerda, Cuba e Coreia do Norte.

Diz-se que seria de direita pois é militarista, tem apoio de evangélicos, não legaliza o aborto, nem respeita homossexuais. Mas tal argumento é um disparate, já que o esquerdismo de Maduro é datado, relativo ao período da Guerra Fria, não o em voga identitário, focado nos costumes.

O governo da Venezuela é uma ditadura de esquerda. Os cerca de 8 milhões de refugiados do país, que escaparam da fome e da violência estatal, a sentiram na pele. Não importa o malabarismo conceitual do PT, da militância e de parte da imprensa.

A mentira voa, a verdade coxeia

Os episódios de violência baseados na difusão de falsidades não começaram agora. Há uma história longa de notícias falsas potenciarem movimentos de violência coletiva ou condenações judiciais infundadas, invariavelmente com o racismo e a xenofobia como panos de fundo. Os Protocolos dos Sábios de Sião, o caso Dreyfus ou o julgamento de George Edlji no Reino Unido são casos exemplares do início do século XX, todos sobejamente retratados, que vale a pena recordar por demonstrarem que as notícias falsas não nasceram hoje e têm consequências.

Sintomaticamente, Jonathan Swift, no século XVIII, alertava já que “uma mentira voa, enquanto a verdade vem a coxear atrás dela”. Mas, do mesmo modo que é errado olhar para a forma como a difusão de falsidades se traduz em violência como uma novidade histórica, é também equívoco desvalorizar a originalidade como isso acontece nos nossos dias.


Recordo isto depois de esta semana, no Reino Unido, um jovem de 17 anos ter assassinado três crianças — e ferido outras oito com gravidade — e ainda dois adultos, num ataque com uma faca durante uma aula de dança dedicada a Taylor Swift. A polícia britânica divulgou pouca informação sobre o ataque bárbaro, até porque o acusado é ele próprio menor. Entretanto, sempre foi assegurando que o crime não estava a ser investigado como ataque terrorista, e o The Guardian escreveu que terá sido motivado por perturbações mentais, enquanto a BBC avançou que o suspeito não tinha ligações a movimentos islâmicos radicais.

De pouco valeu esta informação de duas fontes credíveis ou os apelos dos familiares das vítimas para que o luto fosse respeitado. Nas redes sociais, em particular no X, figuras proeminentes da extrema-direita britânica logo se apressaram a sugerir que o atacante tinha chegado de barco ao Reino Unido e que aguardava resposta a um pedido de asilo. As palavras tiveram consequências: primeiro em Southport, depois por todo o Reino Unido um conjunto de motins levou à detenção de mais de cem pessoas, com 50 polícias feridos.

É natural que uma tragédia como a de Southport gere revolta, mas como é que se passa da justa indignação com a barbárie para motins de pendor racista? A resposta está num ecossistema sociopolítico disponível para acreditar em falsidades e na existência de mecanismos rápidos para a sua propagação.

São complexos os motivos pelos quais a ansiedade económica se transformou também em ódio face ao outro e, em particular, num poderoso movimento de islamofobia. A ambição securitária de regresso a sociedades culturalmente homogéneas (um passado mitificado que nunca existiu) é, hoje, uma alavanca política poderosa. Dir-me-ão, sempre foi: o racismo e a xenofobia estiveram na génese da maior barbaridade do século XX, o Holocausto. É um facto. Mas não secundarizemos o que é novo.

Ao contrário do passado, a inexistência de um movimento social organizado não impede a mobilização política. Pelo contrário, a fragmentação política até se revela vantajosa, pois acaba por se transformar em convergência na ação. Acima de tudo, as redes sociais transformaram a validade da centenária asserção de Jonathan Swift. Em particular o X, agora detido pelo entusiasta do trumpismo Elon Musk, funciona com cada vez menos regulação e promove um ciclo imparável: primeiro, contas anónimas difundem uma falsidade, que logo é amplificada por figuras proeminentes da extrema-direita, para depois ser transformada em ação política nas ruas.

As mentiras hoje voam à velocidade da luz, enquanto a verdade fica paralisada a assistir. Também aí radica o deslaçar político das nossas sociedades.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Pensamento do Dia

 


A insurgência verde

Antes mesmo de se difundir o que vem sendo chamado de consciência ambiental, começavam a ter visibilidade, entre nós, manifestações populares espontâneas de outra variante dessa consciência. A que pode ser definida como consciência prática da relação homem-natureza, a consciência do vivido.

Migrantes vindos da roça, em recantos de favelas, na beira de riachos, nas sobras de terra urbana, semearam hortas e pomares, na tradição dos tempos coloniais das terras comunitárias. Acompanhei em São Paulo e no subúrbio a proliferação, nessa perspectiva, de versões populares do que Ernst Götsch, na Bahia, em seu notável experimento de regeneração produtiva do solo, chama de agrofloresta.



O antagônico da destruição decorrente da expansão da economia neoliberal, do capitalismo rentista, lucrativo no curto prazo e anticapitalista no tempo histórico. A desvalorização de tudo que não é imediatamente lucrativo, como tradições e pessoas.

Um senso comum de amadores da economia foi ocupando o lugar do que o pensador italiano Antonio Gramsci definiu como bom senso. A satanização de Gramsci pelos porta-vozes dessa modalidade de pobreza mental é bem expressão da visão redutiva de mundo dos patronos do lucro sem moral. Ou o que Thompson, em estudo célebre, define como economia moral, a que motivou a derrubada da Bastilha em 1789.

Coisa de gente tosca que se autodefine “de direita”, não porque saiba o que quer e o que pode, mas justamente porque não o sabe. Os que definem como de esquerda, supondo estigmatizá-los, quem e o que lhes revela as irracionalidades e a mentalidade do caos. Gente daquela melancólica reunião de governo de 22 de abril de 2020, quando o ministro da área ambiental sugeriu a possibilidade legal de, através de normas infralegais, contornar e violar as regras ambientais passando por baixo do arame farpado da lei.

Direita, como a brasileira, que não tem propriamente medo do comunismo, pois não sabe o que ele é. Tem, sim, medo do conhecimento cientificamente fundamentado que explica a realidade e suas tensões inovadoras. Tem medo do humanismo da tradição popular. Afirma-se conservadora, quando é apenas reacionária. Agarra-se ao presente de contradições e irracionalidades lucrativas porque tem medo das transformações sociais que emancipam e libertam as vítimas da injustiça econômica e da opressão social.

Basicamente, seus agentes sabem que não têm competência para construir o país do futuro nem para nele viver. Cospem no amanhã da pátria e no seu futuro histórico. É o escarro da sociedade do absurdo.

É justamente a concepção popular da questão ambiental, em países como o nosso, um dos refúgios da tradição conservadora, como expressão de um modo de vida excluído das relações econômicas dominantes. Último reduto dos grandes legados da história social e cultural, das pequenas maravilhas do saber dos simples.

Âmbito em que o ser humano se reconhece como ser totalizador e de totalidade em movimento. Isto é, como ser conectado com todos os domínios da vida na relação entre o homem e a natureza, o todo que propõe desafios e dá sentido à vida. Nessa perspectiva, as lutas sociais são lutas contra a vida sem sentido. Essa é a visão de mundo de esquerda. O resto é resto.

Quem é o protagonista desse mundo da liberdade, da superação, da humanização do homem e da transformação social? Teve momento em que os pensadores sociais demonstravam que o protagonista era a classe operária. Mas a sociedade capitalista sujeitou e fragilizou a classe trabalhadora ao minimizar o trabalho e transformar o próprio desemprego em fator de lucro e de lucratividade.

O sujeito da nova realidade possível é o homem simples, sujeito da contradição representada pelas vítimas incapturadas do desenvolvimento econômico socialmente excludente.

É nessa perspectiva que a questão ambiental não é apenas a questão do meio ambiente, mas a questão social da relação homem-natureza, a relação mediadora da necessidade de transformação social. A que propõe o homem de necessidades como autor das mudanças sociais. O homem não como produtor de coisas, de porcas e parafusos.

O homem dessa realidade é produtor do seu destino possível. Seu modo residual de ser, de viver e sobreviver e de pensar é fundamento da crítica de um modo capitalista de lucrar que já não coincide com um modo capitalista de participar nem mesmo na produção. Milhões de desempregados são disso o documento vivo.

No mundo inteiro, são muitíssimas as formas de insurgência contra a devastação da natureza e o negócio da destruição ambiental. O que com Lefebvre defino como insurgência da vida residual e insubmissa de resistência à alucinada economia da destruição lucrativa.
José de Souza Martins

Isolacionismo velho de guerra

Famílias sinti alemãs em frente a barracão
para isolá-las de r
Ravensburg,, em 1937

O radicalismo de direita está em ascensão na Europa. Temos que nos defender contra ele. Temos de educar os jovens!
Christian Pfeil,  sobrevivente sinti dos campos nazistas

A próxima guerra total

A cada dia cresce meu temor de estarmos caminhando para uma guerra total. Não mais “conflitos locais”; guerra sem limites, com múltiplas Hiroshimas e Nagasakis em todos os continentes.

Isso porque vejo escalarem os confrontos entre Ocidente x outras potências, assim como falas cada vez mais abertas de agentes da guerra afirmando a inevitabilidade de um confronto total. Chamo “agentes da guerra” àqueles ligados ao complexo industrial-militar-consumista, inclusive autoridades da OTAN e dos “inimigos” desta. Há, ainda, movimentos geopolíticos explicáveis como preparação da guerra total.

Analisando as próximas eleições nos EUA a revista The Economist afirmou recentemente (25/07/24): “O senhor Trump tem uma visão [equivocada] de magnata do ramo imobiliário, de que a força é simplesmente músculo; a força é ampliada quando enraizada em princípios”. Todos os agentes da guerra sabem muito bem que a força e a segurança nacional não se baseiam apenas em mais músculos, isto é, armas; é fundamental manter coerência com certos princípios. No entanto, insistem em fechar os olhos à frequência com que nações ocidentais quebram aquele que é, talvez, o mais fundamental de seus princípios fundadores e legitimadores: os direitos humanos! Assim procedendo, enfraquecem suas nações.


Interessante notar que a visão de mundo dos chineses se fundamenta na noção, que remonta à Confúcio, de “poder nacional abrangente”. Nesta, o “abrangente” explicita a necessidade de equilíbrio entre os vários pilares da força nacional, entre eles a educação, a ciência, a satisfação popular com sua vida etc. Neste último sustentáculo, as mais ricas nações ocidentais estão patinando ou regredindo desde os anos 1980, ao contrário da China!

Como ainda reivindicar o monopólio da defesa dos direitos humanos e continuar a enviar armas para Netanyahu tentar se manter no poder aniquilando palestinos e ampliando a guerra para outras frentes?

Quanto às falas, o último ministro da defesa do Reino Unido, ainda no cargo, disse ser inevitável a guerra total. Neste corrente julho de 24, um ex-secretário geral da OTAN, Lord George Robertson, recém nomeado para rever a política de defesa da Inglaterra, disse que “a Inglaterra e seus aliados enfrentam um quarteto mortal, composto por Rússia, China, Iran e Coréia do Norte, que agem em conjunto contra o Oeste, compartilhando armas, componentes e inteligência”. E não é verdade que a Inglaterra e seus aliados agem em conjunto contra aqueles quatro, também compartilhando armas, componentes e inteligência? Assim agindo, negando o princípio da coerência e da realidade, como a semelhança entre ações dos dois campos, não estão os “agentes da guerra” tentando nos preparar para o confronto total, desejado apenas por eles e seus sócios?

E não aprenderam ainda, esses agentes da guerra, após milhares de conflitos, que não existe vitória total e permanente baseada na força? No mundo pós-Hiroshima e Nagasaki, não é tempo de mentes menos obtusas assumirem o comando?

A banalização do mal e o fim da política

Enquanto peço o café, o olhar desvia-se para a televisão. Páro. Estremeço ao ver a notícia que ocupa o ecrã. Um homem, um avô, violou o neto de três anos. Sento-me e continuo a olhar, enojada. Em estúdio, o apresentador lança a discussão. “Este homem merecia o quê?”. Ouve-se, ainda fora do plano, alguém a responder “castração”. Os minutos seguintes são para uma psicóloga discorrer sobre como a castração química, por não impedir o desejo, pode tornar os abusos ainda mais perversos.


No dia a seguir, deixo as crianças na escola e, junto ao portão, tropeço no fim de uma conversa. Comenta-se a forma como algumas pessoas se recusam a dar prioridade a grávidas e bebés. Um pai, de ar plácido, reage perante um desses relatos, com uma voz que não denuncia sequer irritação. “Esse homem merecia a pena de morte”. Nenhuma reação.

Ponho os auscultadores e sigo pela rua, ouvindo um podcast. A reportagem do The New York Times é sobre o que será um Trump 2.0 e fala sobre a forma como o agora candidato à Casa Branca tem um plano para remover os obstáculos que refrearam o seu primeiro mandato.

O microfone vai para Ed Young, de Brick, New Jersey, que está num comício de Donald Trump. É 78.º comício de Trump a que vai. “Espero que quando for reeleito se acabe o Mr. Nice Guy. Espero que haja um acerto de contas”. E como? “Bem, sabe, esta é a minha fantasia, aquilo de que este país precisa mesmo. Quer dizer, não vai acontecer. Na minha fantasia aquilo de que precisamos é de um julgamento ao estilo de Nuremberga para este país. E que todos os eleitos democratas sejam julgados por traição. E, se forem condenados, que sejam castigados, tal e qual como os nazis em Nuremberga. Espero por Deus ver criminosos malvados e traidores como os democratas serem presos e condenados”.

A castração, a pena de morte, a prisão política. O desejo de aniquilação do outro, motivado por um suposto sentido de justiça. A forma como a racionalidade desapareceu de um discurso público inflamado por uma indignação contínua e estéril, está a ter efeitos profundos.

Pode dizer-se que são efeitos de linguagem. Talvez a comentadora que, em estúdio, fala na castração estivesse a agir sob o efeito da repulsa óbvia que o crime provoca. Talvez o apresentador não se tenha sequer questionado sobre os efeitos que a pergunta que lançou tem sobre quem acaba de ser confrontado com um ato tão abjeto. Certamente que o pai que conversava à porta da escola não pretendia matar quem recusa dar a vez a uma grávida. E o apoiante de Trump usa mesmo a expressão “fantasia” e tem o cuidado de afirmar que aquilo que deseja “não vai acontecer”. E, no entanto, esta forma de agir sobre o mundo com a vontade de aniquilar o outro é cada vez mais frequente, ao ponto de se tornar banal. É com a banalização do mal que estou preocupada.

Estamos perante o fim da política. Aniquilar aquele com quem não se concorda, de forma real ou simbólica, é renunciar à política. Quem nos instiga a indignação excitada, quem promove o ódio sobre o outro, quer verdadeiramente que renunciemos à política, deixando o campo aberto para que sejamos conduzidos sem reação para um mundo que promete lei e ordem, mas que se alimenta do caos necessário para que uma pequena elite reine incontestada sobre a turba oprimida e alienada.

Do que precisamos não é de indignação. É de pensamento crítico. Aquele que obriga a tudo o que está fora de moda. Ouvir, ler, refletir, atrasando a reação, aceitar o erro, mudar de ideias, abdicar de certezas. Seremos ainda capaz disso?

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Pensamento do Dia

 


O que o Fed está fazendo com nossa eleição, nosso clima e nossa economia

Enquanto todos os olhos estão em Donald Trump e Kamala Harris, um dos maiores fatores que influenciam o humor dos eleitores americanos está acontecendo em outro lugar. A forma como o Federal Reserve lida com a inflação está azedando o público em relação à nossa economia, prejudicando os americanos vulneráveis, desacelerando nossa luta contra as mudanças climáticas — e dificultando a luta contra a inflação em si.

Nos últimos meses, o Fed tem resistido a reduzir as taxas de juros em um ambiente que claramente exige taxas mais baixas. Veja sua medida de inflação favorita, o índice de preços de Despesas de Consumo Pessoal. O Fed declarou repetidamente que não reduziria as taxas até ter confiança de que o PCE estava voltando para 2%. No entanto, já estamos lá: enquanto o PCE anualizado está em 2,5%, o PCE anualizado de três meses é de apenas 1,5%.

Enquanto o Fed continua esperando, a dor continua se acumulando. Ao aumentar as taxas a uma velocidade não vista em mais de quatro décadas e, em seguida, mantê-las em ou perto das máximas de 25 anos, o Fed praticamente congelou o mercado imobiliário e manteve uma geração de potenciais compradores de imóveis pela primeira vez presos no mercado de aluguel, onde os picos de preços têm sido especialmente acentuados. Essa tendência tem sido devastadora para muitas pessoas — a propriedade de imóveis é onde muitos americanos de classe média armazenam a maior parte de sua riqueza, e o proprietário médio ganhou cerca de US$ 210.000 em patrimônio líquido na última década.


Há também o dano que taxas de juros desnecessariamente altas estão causando em nossa batalha contra as mudanças climáticas. Projetos de energia limpa normalmente envolvem custos de financiamento iniciais mais pesados ​​que se tornam mais caros com taxas mais altas. Um relatório de 2020 estimou que aumentar as taxas de 3% para 7% poderia aumentar o custo de um projeto de energias renováveis ​​em cerca de um terço para projetos nos Estados Unidos. E, claro, taxas de juros mais altas prejudicaram os consumidores mais pobres que dependem de taxas variáveis ​​de cartão de crédito e empréstimos para automóveis.

Enquanto isso, alguns economistas acreditam que os riscos de recessão estão aumentando: o desemprego está agora em 4,1%, em comparação com 3,7% em janeiro.

Além de tudo isso, há uma razão ainda mais fundamental para que o Fed reverta o curso mais cedo. Não está claro se as taxas de juros são a melhor ferramenta para reduzir o tipo de inflação que os Estados Unidos vêm vivenciando.

A inflação que tem atormentado os Estados Unidos e a Europa desde 2021 veio substancialmente dos chamados fatores do lado da oferta , ou choques que dificultam a capacidade da economia de produzir bens: uma pandemia que fechou fábricas, guerras que aumentaram os preços dos grãos, quebras de safra induzidas pelas mudanças climáticas que fizeram o mesmo, rebeldes Houthi lançando ataques de drones em um dos pontos de estrangulamento marítimo mais movimentados do mundo e assim por diante. Para muitos desses problemas do lado da oferta, taxas mais altas estão piorando as coisas. "A principal ferramenta do Fed para reduzir a inflação", como o economista Mark Zandi disse ao The Atlantic, "está na verdade fazendo o oposto".

Considere a habitação. Moradias para aluguel foram recentemente responsáveis ​​por dois terços estimados da inflação acima da meta de 2% do Fed. A solução para aluguéis muito altos é construir mais moradias. No entanto, taxas de juros que empurram hipotecas para altas históricas são extremamente contraproducentes para novos começos de moradias, porque tornam mais difícil e caro para construtoras e incorporadoras financiar novas construções.

O mesmo vale para a energia, outra grande fonte de inflação recente. Como qualquer commodity essencial, até mesmo pequenos déficits de fornecimento — do tipo frequentemente causado por gargalos de refino ou membros da OPEP brincando de geopolítica com cotas de produção — podem causar picos massivos de preços. Mudar as redes de energia dos EUA para funcionar com energias renováveis ​​ajudaria a imunizar a economia das altas que são tão comuns com petróleo e gás. Mas as altas taxas atuais estão se mostrando um verdadeiro obstáculo para esses investimentos, que os Estados Unidos acabaram de aprovar uma legislação para acelerar.

É por isso que, por décadas, os formuladores de políticas rotineiramente distinguiam entre diferentes tipos de inflação e personalizavam suas respostas de acordo. Onde a inflação decorria mais desses drivers do lado da oferta, as taxas de juros eram vistas como uma ferramenta atenuada e excessivamente contundente; a melhor resposta era simplesmente encontrar e remediar esses bloqueios ou escassez, ou preveni-los em primeiro lugar.

Mas na década de 1970, o economista Milton Friedman começou a recrutar seguidores para sua visão da inflação como "sempre e em todos os lugares um fenômeno monetário", significando que a inflação ocorria sempre que a oferta de moeda ultrapassava os bens ou serviços sendo produzidos. As políticas monetárias restritivas do Sr. Friedman surgiram como parte da revolução mais ampla que ele inaugurou na economia.

Décadas depois, há dúvidas reais e crescentes sobre se o Sr. Friedman estava certo. Além de exacerbar alguns motores da inflação, os últimos aumentos de taxas não fizeram muito para esfriar o consumo, e há muita confusão , mesmo entre alguns dos principais economistas, sobre como eles funcionam.

Precisamos voltar a entender os diferentes sabores da inflação, pois o mundo provavelmente passará por muito mais dessas dores de cabeça de inflação do lado da oferta — mais agitação geopolítica, mais seca, possivelmente mais pandemias, uma força de trabalho envelhecida . Aumentos nas taxas de juros — que, na melhor das hipóteses, são irrelevantes e, em muitos casos, são ativamente inúteis para desfazer esses problemas de oferta — não são uma solução particularmente boa para nenhum deles.

Para abordar a raiz do problema, os Estados Unidos precisam de um uso mais criativo de reservas estratégicas e estoques de proteção, especialmente para certas indústrias que abrangem inúmeras cadeias de suprimentos. Assim como o governo Biden expandiu o uso da Reserva Estratégica de Petróleo para amortecer picos de preços, devemos desenvolver reservas semelhantes para minerais críticos, como lítio e grafite, que são essenciais para a fabricação de baterias e são incomodados por grandes oscilações de preços. A especulação financeira em commodities agrícolas — desencadeada quando os Estados Unidos desregulamentaram os mercados de commodities há mais de 20 anos — frequentemente cria aumentos de preços desconectados das realidades físicas de fornecimento. Estoques de proteção mais bem coordenados poderiam acabar com esse jogo financeiro.

O Fed ou o Congresso também devem seguir o exemplo de outros bancos centrais (o Banco da Inglaterra, o Banco Central Europeu e o Banco do Japão vêm à mente) que têm programas destinados a aliviar as condições financeiras para certos bolsos da economia. Fazer isso para projetos de habitação e energia limpa nos Estados Unidos — mesmo temporariamente, digamos, nos próximos 24 a 36 meses — ajudaria a transformar o Fed de antagonista em aliado no alívio de pelo menos dois grandes culpados por trás da inflação recente. Na verdade, no caso da energia limpa, ele estaria usando a política monetária para ajudar a cortar as pressões inflacionárias de picos frequentes de preços em petróleo e gás.

Por fim, o Fed deveria começar a cortar as taxas agora, em vez de esperar até setembro ou mais tarde, como tem sinalizado até agora.

Depois de anos vivendo na névoa da Covid e suas consequências inflacionárias, é importante que os americanos, que estão tentando entender a economia antes da eleição, se beneficiem dos fatos mais claros possíveis. A inflação é uma batalha de ontem. Já passou da hora de nosso governo parar de confiar reflexivamente em uma ferramenta que distribui consequências previsivelmente duras e benefícios não confiáveis ​​quando um bisturi mais preciso e eficaz poderia muito bem ser suficiente.

Onde podemos fazer melhor, devemos fazê-lo.

A partir de hoje estaremos a viver acima das nossas possibilidades

O Dia da Sobrecarga da Terra assinala-se este ano mais cedo e o planeta habitado pelo Homem já está a consumir recursos referentes a 2025.

Todos os anos, esta data é assinalada num dia diferente e cada vez mais cedo no calendário – um cálculo da Global Footprint Network, organização internacional de sustentabilidade, pioneira na pesquisa e medição da pegada ecológica.

Se todos os resíduos eletrónicos fossem reciclados ou reutilizados seria possível atrasar a efeméride em aproximadamente quatro dias.

Na verdade, não é apenas com as entidades bancárias que as pessoas contraem dívidas. Neste momento, os mais de 8,2 mil milhões de habitantes do planeta Terra estão a viver a crédito dos recursos naturais, ou seja, consome-se mais do que a capacidade do planeta para regenerar esses recursos.


Ainda não reduzimos o consumo o suficiente, nem reciclamos, reutilizamos e recondicionamos que chegue para equilibrar a balança natural e ambiental.

“As consequências dos gastos ecológicos excessivos são evidentes na desflorestação, na erosão do solo, na perda de biodiversidade e na acumulação de dióxido de carbono na atmosfera, o que leva a fenómenos meteorológicos extremos [secas, inundações e incêndios florestais] mais frequentes e à redução da produção de alimentos”, lê-se no site da Global Footprint Network. E ainda, segundo a Associação Zero, o colapso dos stocks de peixes, a escassez e a poluição da água.

A empresa independente com sede nos EUA, Bélgica e Suíça aconselha a população mundial a progredir através do foco para ter sucesso e acabar com o excesso intencional.

“Em 1968, Dick Fosbury revolucionou o salto em altura nas Olimpíadas do México, numa época em que a humanidade usava apenas 0,9 Terras. Em 1988, quando o velejador olímpico Lawrence Lemieux parou no meio da corrida para resgatar dois competidores que se viraram, a procura da humanidade pela natureza cresceu para 1,3 Terras. Em 2008, quando Usain Bolt bateu os seus primeiros recordes olímpicos, o número cresceu para 1,6 Terras. Poderemos invocar a mesma determinação para reverter o nosso excesso ecológico?”, questiona a Global Footprint Network.

Mas existem soluções práticas para amortizar o crédito e sermos menos devedores? Sim. Vamos a alguns exemplos: reduzir as emissões de dióxido de carbono (CO2) dos combustíveis fósseis em 50% significaria um recuo de três meses no Dia da Sobrecarga da Terra.

Segundo as Nações Unidas, a produção mundial de resíduos eletrónicos atingiu 62 milhões de toneladas em 2022, o suficiente para encher 24 800 piscinas olímpicas, mais 82% do que em 2010. Destas, 4,6 milhões de toneladas de resíduos eletrónicos provêm da categoria de pequenos equipamentos tecnológicos e de telecomunicações, como computadores portáteis ou telemóveis e apenas 22,3% foram reciclados de forma adequada.

Um estudo da refurbed, mercado online de produtos recondicionados, fundada em 2017, em Viena, na Áustria, contabilizou que em média, cada pessoa, guarda 2,72 smartphones sem uso. O recondicionamento desses e outros aparelhos eletrónicos, em comparação com os novos, pouparia em média 83% de CO2, 89% de água e 77% de resíduos.

Com os computadores recondicionados a poupança pode chegar a 872,9 kg de CO2 por unidade.

Se cinco em cada dez smartphones vendidos em Portugal fossem recondicionados poupar-se-ia o equivalente a um dia de emissões de CO2 no País, de acordo com dados da refurbed e da Fraunhofer.

Portugal esgotou os seus recursos a 28 de maio (o ano passado aconteceu 21 dias antes), enquanto a totalidade da União Europeia (UE), com 27 Estados-Membros, já tinha consumido o plafond a 3 de maio. “Apesar de a UE representar apenas 7% da população mundial, seriam necessários três planetas Terra para satisfazer a procura se toda a gente na Terra vivesse como os europeus”, alerta a Associação Zero.

“A Europa está a caminhar para sofrer aumentos de temperatura duas vezes superiores aos de outros continentes devido às alterações climáticas. E os riscos ligados à exploração dos recursos, como a violência, a pobreza e a má governação, põem em risco a paz e a segurança mundiais”, sublinha a organização não governamental.

É preciso recuar mais de 50 anos, até 1973, para encontrar um Dia da Sobrecarga da Terra atingido só no final do ano (3 de dezembro).

Se cada pessoa no planeta vivesse como uma pessoa portuguesa, a humanidade precisaria de 2,9 planetas para sustentar a sua utilização de recursos. O consumo de alimentos (30% da pegada global do país) e a mobilidade (18%) estão, assinala a Zero, entre as atividades que mais contribuem para a pegada ecológica de Portugal.

Eleição é rito de passagem

Toda mudança de papéis e de espaço social é uma “passagem”, e tal movimento requer uma ritualização confirmadora. Arnold van Gennep, que estudou e cunhou essa dinâmica ritual num livro clássico (“Os ritos de passagem”, publicado em 1909 e introduzido no Brasil em 2013, com minha apresentação), dizia que todas as passagens implicam separação, marginalidade e integração.

Dessas três fases, a mais perigosa é a intermediária. Fase na qual o grupo ou a pessoa não está onde estava, mas ainda não se encontra onde deveria estar. Rituais de sucessão como eleições periódicas — essa exigência da democracia liberal — expõem a ambiguidade dos limbos, purgatórios e viagens. Na campanha eleitoral, a dramaticidade dessa etapa intermediária da sucessão exibe o seu momento crítico.

Não é por acaso que a consagração de reis e papas é repleta de vestes, adornos e gestos de sujeição e autoridade transcendentes. Nos tempos pós-modernos, porém, coroas e espadas foram substituídas por códigos digitais, como profetizou Stanley Kubrick no filme “Dr. Fantástico”. Um automatismo que autoriza iniciar ou terminar uma guerra nuclear capaz de destruir o planeta. Essa capacidade digital é, sem dúvida, o aterrorizante símbolo que acompanha o cargo de presidente ou ditador das potências mundiais.

A eleição presidencial americana traz de volta a simbologia dos ritos de sucessão na sua fase mais delicada: o momento em que um presidente conduz uma eleição na qual ele tem partido, e o seu adversário é um ex-presidente marcado por uma selvagem agressividade verbal e um comportamento incompatível com o papel, mas que foi vítima de uma tentativa de assassinato. Culmina esse tumulto numa disputa eleitoral com uma candidata negra que desempenhou o papel de vice-presidente do atual chefe da nação, que preside essa passagem eleitoral com um alto teor de ambivalência e polarização. É um bom exemplo de evaporação das racionalidades que, afinal, são os guias de nosso modo de vida.

Os iluministas delinearam a República com poderes interdependentes e um sistema sucessório destituído da parafernália sacrossanta. Mas não se pode deixar de assinalar que, nos ritos de posse presidencial dos Estados Unidos, o eleito levanta sua mão direita para os céus e pousa a outra mão numa Bíblia (o livro sagrado dos puritanos). Ao compromisso transcendental realizado com a mão direita (a mão das preces e contratos voltada para o alto), segue a promessa de cumprir um outro livro equivalente à Bíblia — um código que é o espírito dos Estados nacionais modernos: a Constituição que governa governos.

Um antropólogo abusado perguntaria: qual é o livro mais sagrado, mais idealizado e mais removido do mundo diário e das espertezas políticas, focadas no apetite de vencer?

Tais gestos rituais reafirmam o credo liberal americano e, com ele, o conceito rousseauniano de “religião civil”. Crença ameaçada por Donald Trump.

Nos Estados Unidos existe uma arrepiadora tradição de assassinar presidentes. Na América Central e na do Sul, ainda se corre o risco dos “golpes” que dissolvem a tripartição dos Poderes e instauram furiosa repressão e um Executivo centralizado. Ao lado disso, há a competição pelo extremismo de ideologias que deteriam o segredo da felicidade. Valores transcendentes são relativizados pela força bruta do poder ou do poder como força bruta.

Em matéria de vida coletiva, precisamos de instituições perenes e de gestos praticados em nome de uma terra que foi feita por certos ideais e estilo de vida que estão inscritos nos nossos corações. É mais do que terra: é pátria.

Foi o que vi e admirei em Joe Biden. Há quem diga que o altruísmo é um mero gesto político. Sem dúvida. Mas lembro que, num estudo sobre o suicídio de 1897, Émile Durkheim chamou a atenção para os “suicídios altruístas”, realizados em nome de valores coletivos. Então, o egoísmo que caracterizaria a renúncia não seria somente uma forma de esperteza. O egoísmo do altruísmo é o cerne de nossa maravilhosa contradição humana. É ela que distingue “heróis” e “salvadores do mundo”. Esses “egoístas” que se sacrificam em nome da democracia.
Roberto DaMatta

Mortos de Gaza


Não tenho vergonha de ficar na frente da câmera e dizer que estou com fome. Muitas crianças me pedem algo para comer sem saber que, como elas, fico acordado à noite com fome
Ismail Al-Ghoul, o mais recente dos 164 jornalistas mortos por Israel em Gaza

Construir a paz, sim, mas sem sectarismos

Um grupo de trinta laureados com o prémio Nobel encetaram uma iniciativa muito louvável ao pedirem diretamente a ajuda a líderes religiosos, através de carta, no sentido de desenvolverem iniciativas de paz neste mundo turbulento. Segundo o jornal digital 7 Margens: “enviaram uma carta aberta ao Papa Francisco, ao Patriarca Ortodoxo Bartolomeu, ao Dalai Lama e a vários representantes do Islão e do Judaísmo, pedindo-lhes que façam um apelo global a todos os governos para que, no espírito dos Jogos Olímpicos, seja alcançado um cessar-fogo à escala mundial.”

A ideia está muito para lá de sugerir uma trégua olímpica, sabendo-se que há um grupo de refugiados de dezenas de países do mundo que vai competir sem bandeira nacional, e sob a égide do próprio Comité Olímpico Internacional, sendo a segunda delegação a desfilar na cerimónia de abertura dos Jogos, logo após a Grécia, berço histórico do olimpismo.

O que se pretende é ir além da circunstância de Paris e pedir a libertação de quaisquer reféns, a devolução dos corpos dos que caíram em combate e o início efetivo de negociações para acabar com os mais de cinquenta e cinco conflitos em curso no planeta. Mas claro que há uma referência especial para a agressão da Rússia sobre a Ucrânia, pois “as consequências deste conflito prolongado, que entrou no seu terceiro ano, se repercutiram em vários países, provocando o aumento da fome nas nações africanas, uma crise migratória na Europa e a libertação de substâncias nocivas de cada bombardeamento para reservas de água, alimentos e leite que chegarão às pessoas dos seis continentes. Até ao final deste ano, o número de mortos e feridos na Europa Central deverá ultrapassar um milhão, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial”.


A carta, que é assinada por vários prémios Nobel da Medicina, da Literatura, da Química, da Física e da Paz, faz uma reflexão sobre o aumento dos orçamentos de defesa no mundo, e apresenta uma exortação frontal: “Em vez de sustentar a vida, desperdiçam-se recursos na propagação da morte”. Os signatários da missiva enviada às lideranças religiosas assumem que não representam Estados, mas fazem-no por força das circunstâncias: “(…) se os esforços dos Estados para restaurar a paz forem insuficientes, devemos agir. E imploramos que façam isso também! Pedimos-vos que apelem a um cessar-fogo e às ações necessárias para o alcançar. Devemos parar o fogo. Parar a perda de vidas humanas. Evitar uma catástrofe nuclear”.

Se a ideia era ter uma representação alargada das religiões abraâmicas, então por que razão ficou de fora um segmento religioso que engloba mais de 600 milhões de fiéis, como é o caso da World Evangelical Alliance (Aliança Evangélica Mundial)? De resto, em termos de números, a WEA tem muito mais peso do que alguns convocados do campo judaico ou budista. De igual modo se excluiu o World Council of Churches (Conselho Mundial de Igrejas), que congrega mais de 340 igrejas e denominações cristãs que representam para cima de 550 milhões de fiéis, presentes em mais de 120 países, em especial vastos sectores do protestantismo.

Uma coisa é certa. Não se pode esperar que investigadores de diversas áreas científicas tenham conhecimento da realidade religiosa do mundo, mas já seria razoável pensar que se poderiam ter tentado informar minimamente. Por outro lado, os líderes religiosos contactados sabem que não representam grande parte do espectro religioso global, pelo que poderiam ter tido a iniciativa de aconselhar os promotores a não manter os seus contactos tão limitados.

Todos são importantes nas tarefas de promoção da paz. E no mundo cristão todos conhecem o importante princípio ditado por Jesus Cristo no Sermão do Monte: “Bem-aventurados os pacificadores (felizes os construtores da paz), porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9).

Construir a paz é um processo de inclusão do que é diferente e passa desde logo por não deixar ninguém de fora.

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Filhos de Chávez

A esquerda na região está dividida, não sabe o que fazer com esta criatura indecifrável que é o chavismo.

Existe uma esquerda nostálgica que acredita que a Venezuela dá continuidade à etapa de Hugo Chávez e que age como isso fosse acertado. Essa é uma esquerda mais emocional, que poderia ser descrita como irreflexiva 
José Natanson, cientista político argentino, autor de "Venezuela. Ensayo sobre la descomposición"

Para Maduro, Lula relativiza defesa da democracia

Parecia que Lula adotaria uma postura ligeiramente mais prudente em relação às eleições eivadas de evidências de fraude na Venezuela, mas o temor de que, uma vez encorajado a falar, o presidente brasileiro não conseguiria esconder o viés pró-Maduro se confirmou com as declarações dadas por ele em entrevista ontem.

Seria cômico, se não fosse lamentável e gravíssimo, que Lula decida culpar a imprensa brasileira (!) por, segundo ele, transformar na “Segunda Guerra Mundial” o que seria um processo “normal”.

Fica explícito que, quando não está em ambiente controlado, o presidente não tem nenhuma divergência em relação a seu partido, o PT, que prontamente reconheceu a vitória autoproclamada de Maduro, sem a apresentação dos boletins de urna ou de qualquer comprovação de que os números anunciados pelo cooptado Conselho Nacional Eleitoral (CNE) correspondem à realidade da população que compareceu em massa para votar.


Depois de sua vitória suada contra Jair Bolsonaro, e de denunciar, acertadamente, o 8 de Janeiro como uma tentativa de golpe no Brasil, Lula volta todas as casas no tabuleiro ao demonstrar absoluta falta de compromisso real com a defesa da democracia. Em outras palavras, essa pregação só vale quando o autoritário da vez é identificado pelo presidente e por seu partido com a direita ou a extrema direita, como é o caso de Bolsonaro ou de Donald Trump.

Ao derrapar feio mesmo no script de cautela ensaiada e tardia que o governo montou diante da pantomima chavista, Lula atrela seu mandato e, pior, o Brasil a uma ditadura sanguinária que deixa um rastro de mortes, violações de direitos e miséria na sua luta desesperada por manter o poder pelo poder, sem nenhum projeto visível para resgatar a Venezuela da crise em que ele próprio a mergulhou na sua escalada de terror.

O alinhamento incondicional a um regime que deixou de ter sequer uma plataforma social típica de governos socialistas, como Hugo Chávez e Maduro definem seu bolivarianismo militaresco, mostra quanto a ideologia turva a capacidade de discernimento de Lula e do PT, que preferem colher imenso desgaste doméstico e no front internacional a se dissociar de um tirano.

Assim, por obra e graça apenas do presidente e de sua sigla, sem que a oposição bolsonarista tenha precisado mover uma palha, Lula internaliza uma crise que de forma alguma deveria ser sua, menos ainda do Brasil diante de suas muitas carências urgentes nos campos social, econômico e ambiental.

Faz isso no momento em que sua popularidade vinha melhorando, o que mostra que mesmo o louvado tirocínio político de Lula, que o fez sobreviver a crises políticas e econômicas nos seus mandatos anteriores e, inclusive, renascer nas urnas depois de preso em 2018, está comprometido por uma certa teimosia em reafirmar posições antigas que não encontram mais qualquer respaldo na realidade.

Lula deu a declaração de que está tudo ormal na Venezuela mesmo depois da notícia de que há pelo menos 11 mortos em protestos no país, além da denúncia de perseguição a opositores e a ameaça explícita de Maduro de aprovar novas leis de exceções para se juntar ao seu extenso corolário de medidas ditatoriais.

Foi de improviso? Estava desinformado? Mas não enviou Celso Amorim ao cenário já conflagrado, mesmo com insistentes alertas de que isso seria uma fria? São perguntas simples, que deveriam ser triviais para fazer a um chefe de Estado diante de um cenário tão crítico.

Mas o Itamaraty virou um mero reprodutor de notas burocráticas, o chanceler Mauro Vieira é uma testemunha silente do que Amorim diz a um Lula bastante disposto a ouvir só que foi tudo bem, e o companheiro Maduro está reeleito. Com essa arquitetura, qualquer discurso empolado do brasileiro daqui para a frente louvando a democracia e cobrando déspotas já nasce sem credibilidade.

Lula, o da democracia relativa, passa a mão na cabeça de Maduro

Há pouco mais de um ano, em entrevista à Rádio Gaúcha, ao ser perguntado sobre o motivo de setores da esquerda defenderem o regime de Nicolás Maduro, Lula respondeu que o conceito de democracia “é relativo”. E se explicou:

“A Venezuela tem mais eleições do que o Brasil. O conceito de democracia é relativo para você e para mim. Eu gosto de democracia, porque foi a democracia que me fez chegar à Presidência da República pela terceira vez”.

Ontem, em entrevista à TV Centro América, afiliada da TV Globo no Mato Grosso, Lula comentou pela primeira vez a eleição presidencial da Venezuela realizada no último domingo:

“É normal que tenha uma briga. Como resolvê-la? Apresenta a ata. Se a ata tiver dúvida entre a oposição e a situação, a oposição entra com um recurso e vai esperar na Justiça o processo. E vai ter uma decisão, que a gente tem que acatar. Eu estou convencido que é um processo normal, tranquilo”.



Atas são boletins que registram os votos depositados em cada urna. O governo da Venezuela ainda não as apresentou, alegando ter havido uma falha no sistema. A oposição diz que as atas que acessou provam que Maduro foi derrotado.


Com 80% das urnas apuradas, o Comitê Nacional Eleitoral da Venezuela, sob o comando de um aliado de Maduro, anunciou que ele venceu com 51,2% dos votos contra 44% do candidato da oposição, o diplomata Edmundo Gonzalez.

“Na hora que tiver apresentado as atas, e for consagrado que a ata é verdadeira, todos nós temos a obrigação de reconhecer o resultado eleitoral da Venezuela”, acrescentou Lula. Em nota, o PT adiantou-se e já reconheceu a suposta vitória de Maduro.

Lula ainda não o fez, mas defendeu a nota do PT. De domingo para cá, a polícia de Maduro matou 11 pessoas e prendeu mais de 700 que saíram às ruas de Caracas para denunciar fraudes na eleição. Um líder da oposição foi preso na sua casa.

Em uma democracia, a última palavra é da Justiça. Acontece que na Venezuela a Justiça, as Forças Armadas, a mídia e o Congresso, que por lá atende pelo nome de Assembleia Nacional, obedecem às ordens de Maduro. Lula sabe disso.

Então, como sugerir à oposição venezuelana que entre com um recurso na Justiça para anular a decisão do Comitê Nacional Eleitoral que deu a vitória a Maduro? Talvez porque, para Lula, democracia é de fato uma coisa relativa.

Se é, o Estado de Direito também seria. E com base em tal raciocínio, os golpistas do 8 de janeiro de 2023 no Brasil poderiam justificar o que fizeram para derrubar o governo recém-instalado de Lula. Democracia não é uma coisa relativa.

A Venezuela não é uma democracia porque promove “mais eleições do que o Brasil”. Fatos e conceitos não são meras opiniões. Numa democracia, os Poderes são autônomos, as eleições são livres e fiscalizadas e há liberdade de expressão.

Na ausência de tais condições e de outras mais, o que há é um regime autoritário como o de Maduro, e como foi aqui, durante 21 anos, a Revolução de 1964, uma reles ditadura igual a tantas que existiram e ainda existem.

terça-feira, 30 de julho de 2024

Pensamento do Dia

 


O labirinto da propaganda

Nos períodos de grande polarização social e política, as designações, os conceitos, as ideologias são sujeitos a grande turbulência semântica. A confusão criada é intencional, e é um dos instrumentos privilegiados da guerra de propaganda para manipular a opinião pública. Dilucidar o que o labirinto da propaganda pretende esconder nas bombásticas revelações que faz incessantemente não é tarefa fácil. A dificuldade é tanto maior quanto as mentiras são frequentemente misturadas com meias verdades. Vejamos alguns exemplos.

Extremismos. Faz parte da guerra de propaganda transformar o adversário que se quer alvejar em extremista. O extremismo surge frequentemente associado a fundamentalismo, dogmatismo, etc. O extremista é sempre o outro. Assim, o terrorismo é considerado extremismo, mas o terrorismo de Estado é considerado segurança nacional. Ao extremismo contrapõe-se a moderação e o centrismo. Nos países de democracia liberal manipulam-se dois extremismos contrapostos, a extrema-esquerda e a extrema-direita. Entre elas, está a moderação e o centrismo. Existem, sem dúvida, forças convencionalmente designadas de extrema-esquerda e de extrema-direita, as primeiras estando hoje em vias de extinção e as segundas, em vias de ascensão. Mas em termos de influência política nos nossos dias, o maior extremismo é o centrismo, o extremo-centrismo. A (des)ordem económica imposta pelo neoliberalismo global é constituída por uma ortodoxia económica tão dogmática e fundamentalista que impede aos Estados periféricos ou semi-periféricos qualquer margem de autonomia. Qualquer movimento no sentido de uma maior justiça social é radicalmente punido pelos bancos centrais ou pelas agências internacionais. Aliás, aqui reside outra das manipulações da linguagem: os bancos centrais são “independentes” para poderem estar na estrita dependência do neoliberalismo global. A polarização é assim entre três extremismos, e não entre dois, e aqui reside boa parte da confusão nas opções dos cidadãos. Por outras palavras, a moderação desapareceu da cena política mundial no momento em que é entronizada como virtude política pela propaganda do conformismo.

Esquerda e direita
. A polarização entre esquerda e direita é a grande marcadora das divisões ideológicas desde a Revolução Francesa e permanece vigente na Europa e nas zonas de influência político-cultural da Europa, na América latina, na Índia (em parte) e nas ex-colónias de total supremacia branca: EUA, Canada, Nova Zelândia e Austrália. Em África, é muito menos vigente, e está praticamente ausente em muitas regiões da Ásia. Nestas regiões, as polarizações políticas existem, mas são designadas doutra forma. A guerra de propaganda assume neste domínio duas versões: ou não há distinção entre esquerda e direita, ou troca os significados aos significantes e considera de esquerda o que sempre foi considerado de direita, e de direita o que sempre foi considerado de esquerda. Este é o domínio das meias verdades. De facto, as diferenças entre esquerda e direita têm-se vindo a atenuar. É essa uma das razões porque a extrema-direita assume hoje bandeiras que eram tradicionalmente da esquerda sem que ninguém se sobressalte. O caso extremo é o das recentes eleições no Reino Unido. O partido trabalhista ganhou as eleições por esmagadora maioria. No entanto, ao contrário do que seria de esperar, as diferenças entre os dois partidos não são muito grandes sobretudo no plano internacional. Por exemplo, ambos são fervorosos seguidores do neoliberalismo, ambos são adeptos da continuação da guerra da Ucrânia e ambos continuam a fornecer armas a Israel. Este é apenas um caso extremo de algo que está a acontecer noutros países. Nestas condições, os eleitores estão condenados a votar em eleições (enquanto acreditarem nelas) como voto de protesto. Votando de protesto em protesto, de frustração em frustração. Até quanto a aguentará democracia ser apenas um instrumento de protesto. Sempre que há diferença entre a esquerda e a direita no plano das opções políticas é hoje preciso muito mais cuidado analítico que antes. Por exemplo, na Europa, a grande maioria do que se convenciona ser esquerda está a favor da continuação da guerra da Ucrânia, apoia o militarismo, não se mobiliza para a luta pela paz, deixou de falar de capitalismo e aposta num neoliberalismo de rosto humano (algo impossível de imaginar). Onde as diferenças existem e são importantes são as seguintes: imigração, luta ecológica, defesa da população LGBTQI+, direitos reprodutivos das mulheres, concepções de família. São temas importantíssimos e exigiram muitas lutas para serem conseguidos. Mas não são tudo. Não investem na luta anti-capitalista nem na luta anti-colonialista, que foram das lutas fundadoras da esquerda. Sem estas, nenhuma das outras terá êxito sustentável. Basta ver o que está a acontecer com o direito ao aborto nos EUA. Em conclusão, a confusão entre esquerda e direita é em parte culpa das organizações que se reclamam dessas designações.

Libertação e dependência. Este binarismo teve uma evolução semântica desde meados do século XIX. Aplicou-se inicialmente no período do colonialismo histórico e na resistência contra ele. O oposto de libertação começou por ser colonialismo, mas à medida que as colónias se foram tornando politicamente independentes a aspiração da independência reduziu-se aos termos da dependência a que a ex-colónias foram sujeitas. Estes termos (contratos desiguais, monopólios de empresas do país colonizador, dependência financeira, continuação da exploração dos recursos naturais) constituíram o que se chamou neocolonialismo (Kwame Nkrumah, 1965) ou colonialismo sem adjetivos, para o distinguir do colonialismo histórico (ocupação territorial por uma potência estrangeira). Hoje, o binarismo libertação /dependência assume vários significados, mas todos disfarçam a ausência de libertação e a substituição de uma dependência por outra. Assim, a guerra da propaganda diz-nos que a Europa se libertou da dependência da Rússia no que respeita ao fornecimento do gás natural e do petróleo para esconder o facto de que a Europa se tornou dependente dos EUA, pagando por aqueles produtos um preço quatro ou cinco vezes mais alto do que o que pagava à Rússia, o que está na origem do actual declínio económico da Europa. A organização dos BRICS+ tende a ser uma tentativa de fuga a esta alternância, mas nada garante que a dependência da China não esteja no horizonte

A paz e a guerra. É hoje consensual entre os historiadores norte-americanos que o país esteve quase sempre em guerra desde a sua fundação. Isto não impede a propaganda de converter os EUA no grande arauto da paz, garante da paz mundial, cujas intervenções bélicas no mundo foram sempre para garantir a paz. A mentira é evidente, mas ela só é desacreditada se a guerra de propaganda tiver êxito em identificar quem são os inimigos da paz que ameaçam o mundo com a guerra total. Esses países são, antes de mais, a Rússia, que, segundo a guerra de propaganda, invadiu a Ucrânia como primeiro passo para invadir e conquistar toda a Europa. O facto de a Rússia nunca ter invadido a Europa e ter sido invadida duas vezes, uma por Napoleão e outra por Hitler, não interessa a esta narrativa. Mas o país mais ameaçador é de longe a China, como ficou consagrado na última cimeira da NATO – uma ameaça global à paz. O facto de todos os produtos que os convidados estavam a utilizar durante a cimeira, de canetas e lenços de papel até microfones, instalações sonoras, pratos e talheres terem sido fabricados na China não teve qualquer relevância. Tão pouco tem relevância que nenhum país do Sul global acredite nesta narrativa e pense que a Rússia ou a China estão sedentos de guerra. Sabem bem que o contrário é verdade. Sedento de guerra está o deep state dos EUA e o complexo-militar industrial que hoje o sustenta. Esta manipulação é tão radical que aqueles que no Norte global defendem a paz são suspeitos, considerados “terroristas da paz”, passe a contradição nos termos.

Desta inversão propagandística emergem outras para lhe dar credibilidade. Assim, a NATO é considerada uma aliança defensiva, quando todos sabemos que só o foi durante a Guerra Fria e que, a partir da queda do Muro de Berlim, se transformou numa aliança ofensiva com um sinistro historial, da Jugoslávia à Líbia e à Síria, e que agora, desmentindo o seu próprio nome (aliança do Atlântico Norte), se está expandindo para a África, a Austrália e o Mar da China.

A outra inversão paralela é a substituição do conceito de desenvolvimento pelo conceito de segurança nacional. As missões norte-americanas em África visam predominantemente a segurança nacional (curiosamente, se é nacional, por que razão são estrangeiros a exigirem que os países “ajudados” garantam a sua segurança?). Por sua vez, a palavra “ajuda ao desenvolvimento” quase desapareceu do vocabulário internacional. A própria questão das migrações é tratada como uma questão de segurança (certamente para os países para onde se tenta imigrar, não para os países donde se emigra)

Sionismo e anti-semitismo. Uma das áreas centrais da guerra de propaganda ocidental fazer equivaler a crítica do sionismo ao anti-semitismo. Como o antissemitismo é hoje considerado crime em alguns países, criticar o sionismo equivale a cometar um crime. Não interessa à guerra de propaganda que os dois termos signifiquem coisas muito diferentes, que muitos judeus sejam anti-sionistas. O importante é defender Israel faça o que fizer, seja ou não um Estado pária, esteja ou não a cometer o mais selvagem e bárbaro genocídio depois do que foi cometido conta os judeus sob o comando de Hitler. E aqui surgem outras manipulações da propaganda. Para esta, é impossível comparar o Holocausto com o genocídio de Gaza, porque Holocausto há só um e não pode haver mais nenhum. Na mentira que a guerra de propaganda quer inculcar escondem-se duas realidades, uma velha outra tragicamente nova. A primeira é que Israel está ao serviço do imperialismo norte-americano no Medio Oriente, ou melhor, na Ásia ocidental. É uma peça fundamental para uma eventual guerra com a única potência que lhes pode fazer frente na região, o Irão. Aliás, o papel que os neoconservadores norte-americanos quiseram reservar para a Ucrânia foi o de ser o Israel da Europa, um país capaz de acabar com a pretensão de relativa autonomia que a Europa pretendeu ter depois de 1945. A segunda é que o Holocausto deixou de ter o monopólio dos piores crimes dos últimos cem anos cometidos pelos Europeus. Daqui em diante haverá dois holocaustos, mesmo que a um deles chamemos genocídio. Ambos resultam do mesmo crime europeu, ainda que no segundo a Europa tenha sido entusiasticamente secundada pelos EUA.

A vitória dos néscios

Não nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes têm por vezes de lutar contra si próprios e, como se isso não bastasse, contra todos os medíocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irmãos e é, por espírito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O estúpido só profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que é imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o gênio tem o vício terrível de se contrapor às opiniões dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros.

Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis são tão abundante e solicitamente louvadas - os juízes são, quase na totalidade, do mesmo nível e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paixões medíocres, expressas por alguém um pouco menos medíocre do que eles.

Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares, que são, em todas as gerações, muito poucos, e apenas com o tempo esses poucos conseguem impô-la à apreciação idiota e ovina da maioria. A maior vitória dos néscios consiste em obrigar, com certa frequência, os sábios a atuar e falar deles, quer para levar uma vida mais calma, quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da loucura universal.

Giovanni Papini, "Relatório sobre os homens"

Brasil é impotente perante a fraude de Maduro, mas pode aprender a lição

A esperança é mesmo um veneno. Poucas horas depois de Nicolás Maduro se declarar vencedor de uma eleição roubada do início ao fim, sem nem se dar ao trabalho de publicar as atas eleitorais, já me pego torcendo para que os protestos contra seu regime que pipocam por todo o país cresçam e finalmente o destronem.

Levantes populares massivos podem forçar a renúncia do ditador? Podem. Mas, como ele tem o apoio das Forças Armadas, conta com milícias armadas paramilitares e já mostrou no passado que não tem o menor problema em matar centenas de manifestantes, não parece um desfecho provável. É apenas a esperança completamente irracional que insiste em manter viva sua pequena chama.


O Brasil bem que tentou ajudar na transição para a democracia. Fomos testemunha do Acordo de Barbados, em que Maduro e opositores se comprometeram a ter eleições presidenciais limpas, transparentes e justas em 2024. Esse acordo foi rasgado e jogado no lixo pelo ditador. De nossa parte, a participação cobra um preço: o governo brasileiro tem o dever de se pronunciar.

A urna venezuelana, assim como a nossa, imprime boletins de urna. Esses estão sendo sonegados pelo governo. Quanto mais tempo passa, maior a chance de surgirem boletins falsificados. Além dos boletins, as urnas venezuelanas também imprimem votos. Sua recontagem pública deve ser exigida pela oposição. Cabe ao Brasil se juntar a esse coro.

Nossa diplomacia pode e deve ser cautelosa e cobrar as atas eleitorais e demais provas antes de emitir seu veredito. Mas quando elas finalmente chegarem —ou, o que é mais provável, quando ficar claro que elas não chegarão—, será preciso fazer uma escolha: respaldar a farsa que vimos se desenrolar na Venezuela ou apontá-la com clareza.

O que não significa que o Acordo de Barbados tenha sido um erro. Era um possível caminho para a redemocratização. No passado, tentamos a estratégia oposta: o endurecimento e corte nas relações. O governo Bolsonaro chegou a reconhecer Juan Guaidó como presidente legítimo. Lá atrás, não havia como saber se daria certo. Foi um fracasso. Assim como foi um fracasso a tentativa de influenciar o regime por meio da diplomacia amigável.

Neste momento, mesmo os governos de esquerda não ditatoriais da América cobram transparência da Venezuela: Brasil, México, Chile; todos na mesma toada. Realisticamente, não deve importar muito. Maduro já se prontificou e expulsou os diplomatas de sete países que teceram críticas ao pleito.

A moral da história é que temos muito pouca influência sobre a política de nosso vizinho. Não resta muito a fazer. Sanções já se revelaram um erro. As sanções econômicas impostas pelos EUA aprofundaram a crise social e em nada enfraqueceram o regime. Pelo contrário, seu controle sobre a sociedade se fortaleceu. A sanção cai como uma luva no discurso populista, segundo o qual todos que se opõem ao governo são traidores da nação; e passam a ser lacaios dos inimigos externos.

É do nosso interesse manter comunicação aberta com o regime Maduro tendo em vista diversos objetivos: compra de energia, recebimento de dívidas antigas, questões da fronteira etc. Fora disso, qualquer ambição de ajudar na mudança de um regime que já prendeu centenas, matou milhares e presidiu sobre uma brutal catástrofe humanitária só nos desmoraliza. No momento, podemos apenas torcer pelos manifestantes —sabendo perfeitamente que Maduro não estava brincando quando falou em "banho de sangue". Mantenho viva a tola esperança de que a democracia ainda pode triunfar, bem como a convicção de que todos os que apoiam esse regime ou buscam emular seus atos deveriam ser banidos da vida pública brasileira.

A poeira que cobre o PT ameaça cobrir Lula se ele não abrir os olhos

O PT envelheceu – até aí, nenhuma novidade, é fato. Os partidos envelhecem e são poucos os que se renovam. E muitos dos novos partidos nascem velhos. Estamos repleto deles, alguns já mortos, apenas à espera de baixar à sepultura.

Resta saber se o fundador do PT, Luiz Inácio, que no passado detestava usar macacão de operário e não escondia seu amor pelas gravatas de marca; resta saber se ele envelheceu tanto ou mais do que o PT. Não parece, mas, em todo caso…

Apressado come cru. A Executiva Nacional do PT disse que o processo eleitoral na Venezuela foi uma jornada “pacífica, democrática e soberana”. E que o importante é que Nicolás Maduro, reeleito, “continue o diálogo com a oposição”.

Como foi uma jornada “pacífica e democrática?” Na Venezuela, a justiça é livre ou é controlada do alto por Maduro e os militares? A imprensa é livre? Qualquer cidadão pode manifestar-se livremente sem o risco de ser preso?

País algum é um paraíso. No mais rico do planeta, os Estados Unidos, quase 40 milhões de pessoas, ou 10% dos americanos, vivem em um estado de pobreza excessiva; é um percentual maior da população que o do Canadá e Coreia do Sul.


Mas a Venezuela, desde que Maduro assumiu o poder há 11 anos, já perdeu um quarto dos seus habitantes, pessoas que fugiram da falta de trabalho, de remédios e de condições de levar uma vida decente. Sem falar da falta de liberdade

A maior ameaça à reeleição de Maduro era a candidatura de Maria Corina Machado, professora, deputada da Assembleia Nacional da Venezuela entre 2011 e 2014, quando teve seu mandato cassado depois de liderar protestos contra o regime.

Em junho de 20223, ao sair na frente nas primárias da oposição para a eleição presidencial, Maria Corina foi proibida por 15 anos de ocupar cargos públicos pela Controladoria-Geral da Venezuela. Edmundo González a substituiu.

Menos de 24 horas após o Conselho Nacional Eleitoral anunciar a vitória de Maduro, Maria Corina afirmou que a oposição tem como provar que González foi o vencedor da eleição; é, portanto, o novo presidente da Venezuela.

Segundo ela, a oposição conseguiu reunir mais de 70% das atas de votação de cada zona eleitoral do país: “Acho relevante dizer que essas atas registram 2.759.256 milhões de votos para Maduro, e para Edmundo González, 6.275.130”.

Os dados da oposição mostram números diferentes do órgão eleitoral dirigido por um aliado de Maduro, que proclamou a vitória do ditador por 5.150.092 votos contra 4.445.978 de González, uma vez apuradas 80% das urnas.

Os críticos de Lula começaram a dizer que ele se meteu numa tremenda saia justa ao despachar para a Venezuela seu assessor especial, o ex-ministro Celso Amorim, com a missão de verificar se a eleição de domingo foi limpa ou suja.

Não, Lula fez certo. Meter-se-á, porém, numa tremenda saia justa se avalizar o resultado da eleição sem provas definitivas, e que convençam o mundo, de que não houve fraude. Então, sim, Lula terá envelhecido tanto ou mais rápido do que o PT.