sábado, 18 de novembro de 2023

O morde e assopra do governo Biden dá passe livre à matança em Gaza

Uma no cravo, outra na ferradura, e assim o governo do presidente Joe Biden vai levando a guerra que Israel trava com o Hamas. Não quer dizer que Biden ora apoia, ora desapoia Israel. Ele apoia incondicionalmente o maior aliado do seu país no Oriente Médio.

Acontece que esse apoio custa caro a Biden, dentro dos Estados Unidos e principalmente fora. E ele está a menos de um ano de tentar se reeleger. Será uma parada dura derrotar Donald Trump pela segunda vez. Daí porque tem de agradar todos os lados.

Então, um dia ele exalta o direito de Israel à defesa e diz que a guerra só terminará quando o Hamas for destruído; e no outro se opõe a ataques aéreos a hospitais e defende a criação de um Estado palestino. Israel entende a conduta de Biden e vai em frente.


O Programa Alimentar Mundial da ONU (PAM) alertou que a Faixa de Gaza enfrenta agora uma “enorme” lacuna alimentar e uma fome generalizada. Quase toda a população do enclave palestino necessita “desesperadamente” de assistência alimentar.

Disse na quinta-feira Cindy McCain, a diretora executiva do PMA, que “apenas uma fração” da ajuda humanitária necessária chega ao território através das fronteiras:

““Com o inverno a aproximar-se rapidamente, os abrigos inseguros e superlotados e a falta de água potável, os civis enfrentam a possibilidade imediata de morrer de fome. A única esperança é abrir outra porta de entrada em Gaza.”

A escassez de combustível também prejudica a distribuição de água, alimentos e remédios. A agência da ONU para os refugiados palestinos (UNRWA) revelou que hoje não haverá entregas de ajuda a partir da passagem de Rafah, na fronteira com o Egito.

Todas as comunicações caíram em Gaza na noite da quinta-feira. Quando isso ocorre é um mal sinal para os palestinos. Ou os bombardeios se intensificam ou Israel lhes reserva uma surpresa. Deixou de ser surpresa perto da meia-noite.

Anunciou o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant:

“Concluímos a retomada e limpeza da parte ocidental da Cidade de Gaza e estamos agora a passar para a próxima fase da ofensiva”.

Ao que acrescentou o chefe do Estado-Maior do exército, general Herzi Halevi:

“Estamos perto de destruir o sistema militar que existia no norte da Faixa de Gaza. Vamos completar isto.”

O hospital indonésio no norte de Gaza foi completamente fechado, e 45 pacientes que precisam de cirurgia deixados na área da recepção. O hospital está sitiado por tanques israelenses, informa a Sociedade do Crescente Vermelho Palestino.

Continua o cerco israelense ao hospital de al-Shifa. Houve relatos de tiroteio no hospital. As Forças de Defesa de Israel IDF acusaram o Hamas de usar o hospital como centro de comando e controle à medida que as tropas avançam e aumenta a raiva global.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Pensamento do Dia




O entretenimento engole a política

Você olha e fica boquiaberto. Mas como pode ser? Você esfrega os olhos, não é possível que esteja vendo o que vê. O modo como as pessoas reagem às notícias desperta no seu espírito uma incredulidade perplexa. Tudo na política – tudo mesmo, sem exceção – virou uma questão de torcida organizada, de arrebatamento de almas (pequenas) e de furor irracional. Nos tempos da covid a gente viu de perto: a hidroxicloroquina vai dar certo porque eu tenho fé; a ivermectina vai salvar vidas porque eu acredito; a vacina chinesa carrega um chip oculto que vai rastrear os desejos de consumo da vizinha, eu sei, eu vi um vídeo na internet. Parece loucura. É loucura.

A polarização se faz de ânimos conflagrados, não mais de opiniões divergentes. A metáfora da ágora grega não serve mais para representar o debate público. A imagem da disputa de pontos de vista entre seres racionais perdeu a validade. Agora, as multidões se sentem em guerras santas, em cruzadas sanguinárias, se sentem no Coliseu de Roma apontando o polegar para baixo. O script do tempo são os linchamentos virtuais. O fundamentalismo corre solto. Intolerância na veia. Nos Estados Unidos, os numerosos radicais do Partido Republicano trabalham com o dogma tácito de que as eleições de 2020 foram roubadas, e ai de quem discordar. Para muita gente, o aquecimento global é um mito fabricado. Eis o colégio eleitoral do nosso tempo.


Como explicar esses efeitos de estrondos e de fúria? As hipóteses são múltiplas, não necessariamente excludentes, mas uma delas fala mais alto: o universo da política foi inteiramente tragado pela linguagem do entretenimento – e, no entretenimento, a reafirmação do ego (ou do eu) vale mais do que a verdade dos fatos. Ponto. Parágrafo.

É verdade que, desde que o mundo é imundo, a política traz na sua fórmula ingredientes teatrais, elementos lúdicos e temperos passionais. Sempre foi assim. A partir da prevalência das plataformas sociais, contudo, a coisa mudou de patamar. Todas as escolhas que antes se resolviam na esfera da pólis hoje se decidem num imenso reality show interativo, onde o desejo íntimo sobrepuja com folga (e com gozo) o interesse público. A razão e a objetividade escasseiam, enquanto as emoções eclodem, em apoteoses surdas.

O que vemos diante de nós não combina mais com os conceitos que valiam até algumas décadas atrás. É outra coisa, outro bicho. Já deram a esse ambiente, em que as questões políticas se comportam como atrações circenses, o nome de “era da pós-verdade”. Foi com essa expressão, aliás, que a revista The Economist se referiu à campanha presidencial de Donald Trump, numa reportagem de capa em setembro de 2016. Por certo, podemos nos referir à nova geleia geral como a “era da pós-verdade”, mas o fenômeno é maior do que imaginávamos em 2016. É mais monstruoso e mais profundo.

Vejamos o que se passa com a comunicação dos partidos, das autoridades estatais, das ONGs ou dos organismos internacionais. Essa comunicação já não interpela a razão, mas a emoção – e faz isso em formatos melodramáticos. Ou a mensagem segue o alfabeto visual estabelecido pela indústria do entretenimento, quer dizer, ou a propaganda assimila as narrativas baseadas no modelo bonzinhos-contramalvados, ou não encontrará eco nas mentes e nos corações.

A que se reduziu o impasse da guerra do Oriente Médio? A uma disputa interminável sobre quem é que merece ser posto no papel de vítima. Os escombros da Faixa de Gaza – escombros urbanos, escombros humanos – são apenas o epicentro cenográfico de uma imensa guerra de imagem para ver quem consegue tomar para si o papel de vítima. Quem fizer jus a esse lugar merecerá o amor incondicional da plateia (antes conhecida como opinião pública). Acostume-se. A realidade se comporta como um filme de aventura, com princesinhas desprotegidas, cavalos suados e rapazes incultos, mas valentes.

Assim como o ideólogo do início do século 20 cedeu seu posto ao marqueteiro do início do século 21, o instituto da razão perdeu terreno para as identificações pulsionais, libidinais, fáceis e acachapantes propiciadas pelas técnicas industriais do entretenimento. A política hoje integra o vasto comércio das diversões públicas. O cidadão, que era a fonte de todo o poder, acomodou-se na condição de consumidor voraz de sensações estupefacientes. Não é mais como cidadão que ele se mobiliza, mas como torcedor fanático, como religioso fiel ou, ainda, como fã ardoroso. Se você ainda tem dúvidas, releia as mensagens que chegam nos grupos de WhatsApp. Lá estão os sintomas: os abaixo-assinados sentimentais, as figurinhas animadas que defendem uma tese em um único segundo, as subcelebridades desocupadas pontificando sobre assuntos complexos como se discorressem sobre o uso da cebola numa receita vegana. Está na cara, não está?

Não, isso aí não vai dar certo. Quando as decisões que afetam a ordem do comum repelem o entendimento do que seja o bem comum, é porque vai dar ruim. O conceito de República se desfaz na poeira do tempo.

Conselho aprova pausa na guerra, mas Israel não aceita

Imaginem um terremoto na Faixa de Gaza maior do que aquele que ocorreu em fevereiro passado na Síria e na Turquia, quando morreram 7, 2 mil pessoas e 35 mil ficaram feridas. Todos os países da região, inclusive Israel, se mobilizariam para socorrer as vítimas, enviando bombeiros, médicos, enfermeiros, psicólogos e outros profissionais. Doações de mantimentos e medicamentos, bem como equipamentos hospitalares e de construção civil, seriam providenciados, com a mobilização de organizações humanitárias para fazer com que tudo isso chegasse aos flagelados no menor espaço de tempo possível. Feridos e desabrigados seriam levados para hospitais e abrigos, respectivamente.

As imagens da destruição causada pelos bombardeios de Israel em Gaza são muito piores do que as de um terremoto daquelas proporções, mas nada disso está sendo feito, muito pelo contrário, a destruição continua. Apesar de o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), pela primeira vez, aprovar uma resolução sem vetos sobre a guerra na Faixa de Gaza, que possibilitaria a mobilização humanitária descrita acima. Israel já avisou que não pretende acatar a decisão e continuará os ataques contra o Hamas, como aconteceu no hospital Al Shifa, ocupado desde quarta-feira.


Nesta quarta-feira, as Forças de Defesa de Israel (FDI) anunciaram ter encontrado armas do Hamas no hospital e infraestrutura que seria o “coração” do grupo terrorista. Os soldados interrogaram dezenas de civis antes de liberá-los, mas há denúncias de violência contra pacientes e intimidação de médicos e enfermeiros. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o estabelecimento da ONU abriga, atualmente, 2.300 pessoas, entre pacientes, profissionais da saúde e deslocados pela ofensiva israelense no território palestino.

A resolução do Conselho de Segurança foi proposta por Malta, com foco nas crianças da Faixa de Gaza, que estão sendo mortas, muitas das quais soterradas nos bombardeios. Determina uma pausa nos ataques, para que ajuda humanitária chegue à população civil, principalmente às crianças que estão na área de conflito, muitas delas feridas ou recém-nascidas, que precisam ser resgatadas. O objetivo da pausa seria facilitar “o fornecimento contínuo, suficiente e sem entraves de bens e serviços essenciais — incluindo água, eletricidade, combustível, alimentos e suprimentos médicos”.

Entretanto, o Ministério das Relações Exteriores de Israel anunciou que não haverá pausa até que os reféns em poder do Hamas sejam libertados. A narrativa do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para justificar os bombardeios é de que os civis, sobretudo mulheres e crianças, são usados como escudo pelo Hamas.

Por ora, a decisão do Conselho de Segurança é uma declaração de intenções: Israel e o Hamas devem evitar privar a população de Gaza de serviços básicos e da assistência humanitária indispensáveis à sua sobrevivência; reparações de emergência em infraestruturas essenciais em Gaza; evacuação de crianças doentes ou feridas, e de seus cuidadores; ações de resgate de pessoas que desapareceram nos bombardeios, após edifícios do território palestino terem sido danificados e destruídos.

As resoluções do Conselho de Segurança, pela Carta da ONU, deveriam ter efeitos práticos. Nesse caso, permitir o acesso total à Faixa de Gaza das agências da ONU e de seus parceiros, como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha e outras organizações humanitárias. Para isso, é necessária a pausa na guerra e a liberação do acesso aos hospitais e às instituições que abrigam os palestinos. Isso é impossível sem autorização do exército israelense.

A resolução da ONU, porém, reflete uma mudança de postura do governo dos Estados Unidos, que se absteve na votação, ao lado da Rússia e do Reino Unido. A resolução foi aprovada por 12 votos. China, que agora preside o órgão, e França, que tem poder de veto, votaram a favor. Albânia, Brasil, China, Emirados Árabes Unidos, Equador, França, Gabão, Gana, Japão, Malta, Moçambique e Suíça, sem poder de veto, garantiram a aprovação.

Apesar de não condenar Israel nem classificar o Hamas como grupo terrorista, a resolução tende a aumentar o isolamento internacional de Netanyahu, que não demonstra nenhuma preocupação quanto a isso, porque sabe que os Estados Unidos não romperão os compromissos financeiros e militares que já assumiram nesta guerra. A abstenção norte-americana na votação deve-se à enorme pressão da opinião pública mundial e do desgaste junto aos países muçulmanos, principalmente países árabes da região.

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil, que muito se empenhou pela aprovação, comemorou a decisão, que vai facilitar o resgate dos brasileiros que ainda estão em Gaza. A abstenção dos EUA coincide com o encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o presidente da China, Xi Jinping, que não trataram do assunto publicamente. Entretanto, Biden vem reiterando a posição favorável à existência de dois Estados e que a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, após a guerra, sejam administradas pela Autoridade Palestina, posição que o atual governo de Israel não aceita.

Antissemitismo 2.0

Está sendo difícil acompanhar o noticiário da guerra em Gaza e, ao mesmo tempo, perceber a onda de antissemitismo que varre o mundo. Para nós, judeus e descendentes de judeus, o antissemitismo não é novidade; novidade é ver como está naturalizado. Até outro dia, pessoas antirracistas e defensoras de minorias tinham vergonha de se declarar abertamente antissemitas; não mais. Ser antissemita agora é cool, virou tendência.

Tento não ser paranoica e não ver um monstro em cada esquina. Tento acreditar que os pagodeiros que batucavam em São Paulo com bandeiras do Hamas, usando camisetas do Hamas, cantando slogans pró Hamas, não fazem ideia do que realmente seja o Hamas (ainda que não tenha ilusões quanto às pessoas que lhes forneceram tais camisetas e bandeiras).

Tento imaginar que as imensas manifestações nas grandes cidades cosmopolitas são de fato pró-Palestina, e não anti-Israel; mas é difícil. Não dá para ignorar os cartazes pregando o fim do povo judeu, nem deixar de perceber que boa parte dos manifestantes cobre o rosto à maneira dos terroristas do Hamas (e não do povo palestino em geral). Vários chegam a usar a faixa verde dos terroristas, com a clássica inscrição em árabe (o que está escrito é “Não há deus senão Alá, e Maomé é o seu profeta”).


Não dá para fazer a Pollyanna por muito tempo ao constatar que o Irã continua matando mulheres que não usam o hijab e não se ouve um pio de protesto; que a China continua dizimando os uigures e só há silêncio; que mais de 150 mil pessoas já morreram na guerra que a Arábia Saudita promove no Iêmen, ou que mais de 500 mil morreram na Síria, e quem se importa?

Quem foi aos Champs Élysées por elas, ao Times Square, à Cinelândia?

Não quero ser sommelier de manifestações, mas é difícil não juntar os pontos — e é difícil também não concordar com aqueles manifestantes que, sincera e genuinamente, sofrem pelo povo palestino e querem ver o fim da guerra.

Eles existem, e eu estaria entre eles se isso não me pusesse em tão má companhia.

* * *

A despeito do que venha a acontecer, o Hamas já ganhou a guerra da opinião pública. Não há ser humano que consiga absorver a violência em Gaza, dia após dia, sem um baque no coração. Diante do horror que sofreu, Israel deveria ter se recolhido e pensado com extrema cautela nos próximos passos, de preferência concentrando-se no destino dos reféns. Ao contrário, agiu exatamente como o Hamas esperava que reagisse. Xeque-mate.

Um país não pode lutar contra o terrorismo reagindo com o fígado. Países precisam ter cérebro, não vísceras, especialmente diante de um inimigo que cultiva o martírio de inocentes.

Fala-se muito da desproporção entre o poderio militar israelense e os recursos do Hamas, mas ela vai além de uma simples contagem bélica. O desequilíbrio não favorece Israel: não há exército que possa com fanáticos que almejam o paraíso (e dominam as redes sociais). Nada justifica que Benjamin Netanyahu ainda esteja no poder. O seu governo é uma praga bíblica, uma maldição que, pelo resto dos tempos, vai desafiar a compreensão do mundo.

Política criminosa de Netanyahu é derrota moral de Israel

É um sinal de que as coisas não andam bem no mundo do sionismo real quando vemos porta-vozes de Israel se desdobrando para tentar explicar a diferença entre o morticínio de crianças e civis provocado pelo Hamas e o morticínio de crianças e civis provocado por Binyamin Netanyahu.

Lembro-me aqui de atrocidades do socialismo soviético, vistas por intelectuais comunistas como efeitos colaterais da luta inarredável contra os inimigos da grande revolução. Eram claros os sinais, então, de que havia algo de podre no reino do socialismo real.

Já escrevi que Israel não é um Hamas às avessas, mas o país e seus aliados precisam querer manter essa diferença. Não borrá-la, no final das contas, a favor do antissemitismo e das desconfianças consideráveis que rondam a criação de um estado judeu na Palestina. A colonização acintosa da Cisjordânia é outro parafuso central dessa engrenagem ideológica que gira em falso.


Sob o fundamentalista e autocrático Bibi, o aperto metódico do cerco aos palestinos tem provocado reações expressivas mesmo na opinião pública judaica. A deriva radical e inescrupulosa para a extrema direita, que não poupa nem mesmo hospitais, vem erodindo o que restava de consenso moral em torno da defesa de Israel. Os tempos estão mudando e argumentos tradicionais estão em crise.

A "rua árabe" que se abriu no Ocidente, as periferias influentes do Sul Global e as desigualdades no coração do sistema chamam ao mínimo de realismo governos que dormitavam no piloto automático com Israel. Até Biden sentiu o bafo, baixou uma oitava em sua retórica, passou a falar em pausa humanitária no Vietnã de Bibi e agora aprovou uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que basicamente repete a proposta brasileira, que estava na vanguarda, vetada por eu país.

O entendimento dessa guerra se inscreve no contexto de um anunciado "turning-point" da geopolítica internacional; ela é apenas mais um capítulo do rearranjo em curso das relações de força globais, a falada e perturbadora transição para um mundo multipolar.

As reivindicações que embasaram a defesa da criação do Estado de Israel são respeitáveis e se tornaram incontrastáveis depois do Holocausto e do histórico sinistro de perseguições que antecedeu a atrocidade nazista. Tudo então parecia fazer muito sentido para grande parte da opinião humanista do século 20.

Hoje, com a eternização do conflito, ganha mais projeção uma revisão historiográfica consistente do sionismo e de suas associações com o projeto colonialista inglês de criar um país judeu naquela parte do mundo. As evidências de que se procedeu a uma prévia limpeza étnica na região, entre outros episódios sombrios, são um segredo de polichinelo.

Bem, diante de tudo isso, caberia também perguntar: que Estado nacional não tem atrás de sua formação um rastro de violência? Guerras, colonialismo, escravidão, genocídios ou barbáries outras? O nosso querido Brasil? Os Estados Unidos? O Irã? La France? Por que Israel deveria ter uma história impoluta? Porque são judeus?

Na juventude intelectual, um filho de rabino chamado Karl Marx viu no seu ainda recente século 19 uma humanidade se debatendo com a pré-história. Eu adoraria ter nascido no futuro. Mas o que veria? Judeus e palestinos pescando e fazendo crítica literária no reino da sociedade sem classes? Ou o triunfo distributivo do capitalismo pós-financeiro numa pós-Los Angeles sem barracas nas ruas? Sabe-se lá.

Agora, Israel está perdendo a guerra que importa. Não será mais possível sustentar esse estado de coisas. Podemos esperar pelo milagre de uma mudança política profunda? Só me arrisco a dizer, neste final acaciano, que o caminho será longo e tortuoso.

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Algo terá de mudar

Israelenses dificilmente trocarão de premiê em meio a uma guerra —e é aí que mora o perigo. Binyamin Netanyahu tem uma agenda pessoal que não coincide com a dos interesses de Israel no médio e longo prazo.

O ataque do Hamas em 7 de outubro mostrou que Israel só terá segurança real se surgir um Estado palestino, o que eliminaria ou pelo menos reduziria o apelo por movimentos teocrático-terroristas como o Hamas e o Jihad Islâmico. E o problema é que Netanyahu, por razões tão banais como manter-se no poder e evitar a cadeia (ele responde a processos por corrupção), fará o que estiver a seu alcance para bloquear iniciativas que possam resultar num Estado palestino.


Interessa a Netanyahu agora prolongar ao máximo o estado de guerra e reforçar seus vínculos com os partidos ultrarreligiosos de extrema direita, com o que iria adiando sua provável defenestração do poder.

Um eventual entendimento com os palestinos, porém, exige exatamente o contrário disso. O morticínio que Israel está impondo à população civil de Gaza precisa parar o quanto antes, e a pauta dos ultrarreligosos, que é essencialmente a de ampliar os assentamentos judaicos da Cisjordânia, tem de ser revertida. O Estado palestino precisa ser territorialmente viável, o que exige desmantelar ao menos parte das colônias.

A melhor chance de isso acontecer é por pressão dos norte-americanos. Joe Biden tem os meios e o interesse em recolocar israelenses e palestinos para discutir a paz. Se o processo não naufragar antes mesmo de começar, poderia ser vendido como trunfo eleitoral no pleito norte-americano do ano que vem. Para isso, o presidente dos EUA vai ter de falar duro com o premiê israelense.

Se é verdade que apostar em paz no Oriente Médio é jogar dinheiro fora, também é fato que, depois dos acontecimentos do último mês, o status quo se tornou insustentável. Algo vai ter de acontecer.

'Humanidade vive divórcio da vida na Terra'

Olha, eu podia dizer que não espero nada. Mas seria uma resposta curta demais para um problema amplo, global. Por ser global, seria uma grave omissão os países ricos da Europa fingirem não ver que nós estamos fritando. Não só na Amazônia. Nós estamos degelando, torrando, fritando, em diferentes lugares do planeta. O El Niño e outros fenômenos que são marcadores das situações extremas climáticas não acontecem só na América do Sul, acontecem no planeta inteiro. Enquanto a Europa achar que é o centro do mundo, não vai poder ajudar ninguém em lugar nenhum. A gente deveria questionar essa ideia de ajuda e começar a pensar em corresponsabilidade de quem faz a governança global.

Quem está governando qualquer lugar do mundo teria que estar envolvido num programa obrigatório de corresponsabilidade. Esses países que estão se lambuzando na guerra agora, quando cessarem a hostilidade um com o outro, deveriam ser obrigados a pagar uma contribuição trilionária para os países que não participaram de guerra nenhuma enquanto eles estavam cagando no mundo. Porque nós vamos ter que limpar a merda deles. Aí, a gente ia criar uma economia um pouquinho mais cooperativa e menos caritativa. A Europa acha que faz caridade, tirando um pouco da sua fortuna para ajudar os outros que estão afundando. Mas é ela que afunda o mundo. As pessoas têm que ter corresponsabilidade, parar com esse papo furado de caridade.


Nós estamos imersos num oceano de ignorância, onde as pessoas querem dinheiro a todo custo. Os que não têm acham que vão ganhar, enquanto os que têm muito só querem aumentar suas fortunas. Isso é tão óbvio, mas é óbvio para quem já viveu e entendeu como é que funciona. Não é óbvio para as pessoas que acham que finalmente chegou a sua vez. Lá em Óbidos, no Pará, e em outras regiões carentes da Amazônia, se chegar uma mineradora na praça, eles vão adorar, porque nunca tiveram tanta facilidade para ter dinheiro de graça, para consumir tudo o que todo mundo consome. Essa sansara, essa roda da fortuna, onde sempre vai ter alguém chegando e falando "oba, agora é minha vez!”, é o motor que vai comer o mundo. O mundo vai ser comido assim, por idiotas que acham que chegou a sua vez.

Se você olhar a história, do século 19 ao 21, não vai ver nenhuma outra variante. O que apareceu no meio do caminho? O socialismo? Tem socialismo em algum lugar do mundo? O capitalismo virou a única religião planetária. Como você quer, dentro de uma religião planetária dessas, abrir rotas de fuga para outro tipo de vida que não seja a disputa constante contra a fúria da mercadoria? Como o genial (Davi) Kopenawa Yanomami nomeou, a sociedade não indígena se tornou a sociedade da mercadoria. Quer dizer, não tem outra coisa que justifica a vida dessas pessoas, é a mercadoria. É como se a mercadoria fosse o altar do capitalismo. É uma religião. Quem pensa que capitalismo é economia está enganado, é religião.

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Pensamento do Dia

 


Os limites da guerra

Em 1209, a população de Béziers, na França, foi massacrada. As cruzadas, a mando do Papa Inocêncio III, realizaram a tarefa. O representante do Papa, Arnaud Amalric, incapaz de distinguir hereges e religiosos, disse a frase que entrou para a História:

— Matem todos, Deus reconhecerá os seus.

A questão da morte de inocentes em guerra perpassa os séculos. Depois da Segunda Guerra, houve grandes julgamentos: Nuremberg e Tóquio. As potências ocidentais passaram a sensação de que as leis humanitárias internacionais seriam respeitadas a partir daquele momento.

Depois disso, vieram conflitos no Vietnã, Afeganistão, Iraque, e os americanos não foram julgados. De nada adiantaria, pois não aceitam o Estatuto de Roma, muito menos um tribunal internacional.

No entanto, em 2022, em Dublin, Estados Unidos, Brasil e mais 81 países firmaram um importante documento de proteção a civis durante uma guerra. O compromisso é não apenas restringir bombardeios que possam matar inocentes, mas reparar os possíveis danos colaterais.

Israel não assinou o documento. Mas poderia ser levado pelos Estados Unidos a considerar cada vez mais a questão de poupar vidas. Há um longo caminho subjetivo para chegar lá. É importante contestar a tese de que não existem inocentes em Gaza e de que mesmo as crianças são educadas para odiar. Da mesma forma, é essencial ver Israel como uma sociedade diversa, em que nem todos partilham a ideia de povo prometido ou mesmo da supremacia judaica.

As próprias organizações terroristas tornaram-se mais frias e cruéis que no passado. Há algum tempo, Moacyr Góes encenou a peça de Camus “Os justos”. Participei de um debate sobre ela em que se discutia o adiamento de um atentado ao arquiduque por causa das crianças na carruagem.

Os estigmas que a guerra produz em massa estão chegando ao Brasil. Há uma ideia de que a Tríplice Fronteira é uma retaguarda de terroristas. Essa ideia foi inspirada nas investigações da CIA e do Mossad. De fato, houve um caso de colaboração financeira com o Hezbollah. De fato, andando pelas ruas de Foz de Iguaçu, sente-se a presença forte da colônia árabe, assim como nos hotéis de luxo inúmeros visitantes muçulmanos são vistos no saguão.

Mas a colônia árabe em Foz do Iguaçu parece perfeitamente integrada ao clima pacífico do Brasil. Durante a guerra, não houve manifestações de rua como em Londres ou Paris. Nessas capitais europeias, o apoio aos palestinos é muito evidente. Em algumas concentrações, as pessoas chegam a gritar o slogan “From the river to the sea”, a geografia de um Estado árabe que vai do Rio Jordão ao Mediterrâneo, portanto, suprimindo Israel.

Tenho lido artigos em jornais londrinos criticando as organizações muçulmanas, como o Conselho Muçulmano Britânico. Na França, houve proibição de manifestações porque elas associavam o terrorismo do Hamas aos palestinos. Rigorosamente, portanto, as capitais europeias são um centro de apoio à causa palestina muito mais ativo, rumoroso e radical. No entanto não há o estigma, como não poderia haver, de associá-las ao terrorismo

Digo isso tudo porque fui à Tríplice Fronteira, falei com muita gente, e a maioria não entende por que se suspeita tanto da região, mergulhada em seu cotidiano e vivendo a relativa harmonia da vida no Brasil. Não significa que não se deva investigar. Pelo contrário, se o Hezbollah pensou em fazer atentados no Brasil, é algo muito sério em termos de relações internacionais.

O Hezbollah depende do Irã, que sempre recebeu um tratamento respeitoso do Brasil. Recentemente, um porta-helicópteros e uma fragata do Irã atracaram no Rio. Houve críticas dos Estados Unidos e de Israel. Esse período de guerra se apresenta também como um campo minado, no campo subjetivo.

É preciso andar com muito cuidado, pois, se as guerras ainda aniquilam vidas civis, preconceitos servem para racionalizar o massacre. No calor da paixões, contribuímos inconscientemente, às vezes, para que frases do tipo “matem todos” não desapareçam da história da humanidade.

'Tudo que posso dizer é que esperamos a morte a cada segundo'

“Eu não consigo encontrar as palavras. Tudo o que posso dizer é que esperamos a morte a cada segundo”, mensagens do nosso colega Rewaa via WhatsApp. As famílias em Gaza estão a tomar decisões diárias que nenhum de nós, sentados no conforto das nossas casas, pode compreender: ficar lá ou apostar na mudança para outro lugar, permanecer juntos ou separados, morrer como uma unidade ou permitir que a linhagem familiar tenha a melhor oportunidade de perdurar. . Até mesmo sair para comprar pão para barrigas desnutridas, ou viajar para a fronteira numa ambulância para evacuação médica urgente, traz agora o risco muito real de morte.


Rewaa é uma enfermeira qualificada que acabou de concluir seu treinamento em cuidados paliativos. O seu marido, Ahmed, trabalha como coordenador de educação no Hospital da Amizade Turco-Palestina. Apenas um dia antes do início da guerra, Rewaa e Ahmed deram as boas-vindas ao seu segundo filho, uma linda menina. A mãe de Rewaa ficou com eles para ajudar, mas voltou para casa, para Khan Yunis, quando a guerra começou: “Todos os dias ela me pedia para ir à casa deles porque é uma área mais segura”, escreve Rewaa. Rewaa e Ahmed optaram por permanecer na sua casa em Deir al-Balah, no centro de Gaza .

Numa mensagem dolorosa, Rewaa continua: “Às 5h30 da manhã do dia 27 de outubro, Ahmed recebeu um telefonema da minha irmã. A casa da família em Khan Yunis foi bombardeada e eles não puderam sair porque estavam presos sob as paredes e o fogo estava por toda parte. Ele ouviu vozes da minha família gritando e das crianças chorando.” A linha telefônica foi cortada. Os blecautes de comunicação tornaram ainda mais difícil para as famílias alcançar o suporte vital de ambulância, contatar os vizinhos para obter ajuda ou ouvir o destino de seus entes queridos.

À medida que a notícia foi sendo divulgada horas depois, a extensão das perdas e ferimentos angustiantes para a família de Rewaa que vivia em uma área supostamente segura tornou-se clara: “Minha mãe tem 70% de queimaduras, minha irmã tem 40% de queimaduras de terceiro grau, meu irmão tem fraturas no ambas as pernas, meu pai tem queimaduras no rosto e nas mãos. Meu parente morreu com sua esposa e três filhos. Três sobreviveram, mas um teve as duas pernas amputadas.” E depois a notícia mais traumática: “Perdi minha amiga e parente que estava grávida na mesma época que eu. Ela morreu com seus filhos de 10, 8, 6 e 10 horas. Sim, ela deu à luz o bebê e eles morreram juntos 10 horas depois.”

‘Famílias querem morrer juntas’ em Gaza

A primeira ligação informando a Fares Alghoul que a casa de um parente havia sido atingida por um ataque aéreo israelense chegou na noite de sexta-feira. A Internet em Gaza foi cortada momentos depois, obrigando-o a esperar 12 horas para saber os nomes dos 18 mortos. Ele teria que esperar ainda mais pela confirmação de que outros 18 familiares presos sob os escombros também haviam sido mortos, elevando o número de mortos de sua família para 36.

Como jornalista, Alghoul cobriu todas as guerras anteriores de Gaza, mas agora vive no Canadá, onde teve de observar à distância a extinção de gerações da sua família.

As famílias que sofrem perdas tão grandes tornaram-se uma característica do actual bombardeamento de Gaza. De acordo com as últimas estatísticas fornecidas pelo Ministério da Saúde palestino no território, 312 famílias perderam 10 ou mais membros.


Pelo menos 70% da população de Gaza foi deslocada, segundo a ONU , e muitas famílias agruparam-se, aglomerando dezenas delas nas suas casas, na esperança de poderem evitar o pesado bombardeamento ou, pelo menos, reunir recursos cada vez mais escassos, como água, combustível e comida.

“Dias depois, perdi as minhas três sobrinhas, com idades entre os 10 e os 16 anos, quando foram mortas com o pai na sua casa na Cidade de Gaza. Minha irmã estava em Deir al-Balah com minha mãe – foi assim que ela sobreviveu”, disse Alghoul.

“Você não tem tempo para processar seu medo e tristeza porque sempre espera que o pior esteja por vir. Mesmo que você perca familiares, você adia suas condolências”, disse ele. “Você gostaria que as pessoas não lhe enviassem condolências porque você não sabe quando as próximas [mortes] virão.”

A Airwars, que monitoriza os danos causados a civis durante conflitos, lançou recentemente uma base de dados de vítimas que está em constante atualização, mas que já acumulou vários casos envolvendo a morte de dezenas de pessoas num único incidente.

A organização registou relatos de até 69 pessoas mortas na sequência de um ataque aéreo perto de um mercado no campo de refugiados de Jabalia, incluindo 13 pessoas na casa de Abu Ashkian, em 9 de Outubro. Registou 16 membros da família al-Nabahin mortos em 8 de outubro e 25 membros da família do cirurgião Dr. Medhat Mahmoud Saidam em 14 de outubro.

Israel contra Israel

O dicionário deixa clara a diferença entre os verbos explicar e justificar. O primeiro diz respeito a decisões lógicas, o outro, a gestos morais. Alguns podem explicar o ato terrorista do Hamas em 7 de outubro como reação a décadas de ocupação do território palestino, mas não há como justificar moralmente o crime de atirar contra pessoas desarmadas e indefesas, jovens se divertindo, crianças dormindo, idosos em visitas familiares e sequestrar reféns. Da mesma forma, as ações do governo de Israel podem ser explicadas como reação ao assassinato de seus cidadãos indefesos, mas não há como justificar o uso de sua poderosa máquina de guerra para atacar os milhões de moradores em Gaza, destruindo suas escolas, hospitais e moradias. Cada lado pode ter explicação lógica, mas nenhum tem justificativa moral. O ato terrorista do Hamas no sul de Israel e o bombardeio de Gaza pelas forças armadas de Israel ficarão registradas para sempre nos livros de história como crimes contra a humanidade.


A diferença é que o Hamas não tinha preocupação com imagem, nem com longo prazo. Para eles, o bombardeio de Gaza é explicável, para Israel, é um equívoco por causa das consequências para seus próprios interesses no longo prazo. O Hamas cometeu crime moral contra a humanidade, mas conseguiu a indecente vitória de mostrar os bombardeiros e tanques de Israel transformando Gaza em escombros, soterrando crianças, produzindo imagens do primeiro genocídio filmado e divulgado mundialmente, identificado.

Os terroristas não têm Estado, não são estadistas, depois de enterrados desaparecem, alguns viram heróis para jovens, que certamente vão repetir seus gestos tresloucados. Eles sabiam que o assassinato de israelenses não promoveria a independência da Palestina, ainda menos de Gaza. Desejavam que a reação de Israel fabricasse milhões de novos Hamas, ainda mais violentos, com apoio dos palestinos que sobreviverem e de seus descendentes. Cometeram um obsceno acerto com seu ato criminoso. O Hamas teria fracassado se o governo de Israel usasse o ato terrorista para criar um movimento internacional de apoio ao sionismo e contra o terror, e usasse a competência militar para eliminar aos criminosos sem assassinar crianças, destruir uma cidade, perseguir e maltratar um povo.

Não há justificativa moral para o terror dos tiros do Hamas contra israelenses nem para o terror dos bombardeios de Israel contra a população de Gaza, mas foi Israel quem perdeu ao errar logicamente. A bomba atômica sobre Hiroshima foi um gigantesco crime contra a humanidade, mas não foi um erro lógico, porque apressou o fim da guerra por alguns dias.

O bombardeio de Dresden foi tão violento quanto o de Gaza, mas não foi erro, porque levou ao fim do nazismo, à descoberta dos campos de concentração e do holocausto, ao surgimento de solidariedade mundial com os judeus e até à criação de um Estado para eles. A destruição de Gaza é um pecado do tamanho de Dresden, mas também um erro porque dos seus escombros surgirão mais ameaças contra Israel e judeus no mundo. Os escombros de Dresden levaram os nazistas à Nuremberg, Gaza talvez leve Israel. Embora explicável como reação à perda de vida de israelenses inocentes, o que hoje Israel faz com a população de Gaza, é um erro estratégico porque no longo prazo não aumentará sua segurança e diminuirá o sentimento de apoio Israel.

A história vai registrar como lamentável que o país com maior intensidade de saber em todo o mundo, graças à educação que oferece, à ciência e à tecnologia que realiza, tenha se deixado levar por seus líderes na busca de popularidade por eleitores corretamente traumatizados e desejos de vingança e proteção imediata.

Há muitos exemplos de erros históricos. Bill Fawcett escreveu “100 grandes erros da história”, Barbara W. Tuchman escreveu “A Marcha da Loucura – de Troia ao Vietnam” sobre atitudes políticas perseguidas contra o próprio interesse do país ou grupo social. A guerra de Israel contra a Palestina ficará como um destes grandes erros, mostrando que talvez tivesse razão o grande escritor judeu Arthur Koestler quando alertou, ainda nos anos 1960, dos riscos suicidas do ser humano ao desenvolver uma lógica capaz de construir bomba atômica e uma moral que permite usá-la contra os vizinhos, morrendo ao matar.

O mito da Bazinha

Ainda em Maceió, eu ainda era uma criança. Uma negra baixinha e magra, carinhosa, que a gente chamava de Bazinha, costumava me botar para dormir cantando canções e contando histórias que, para mim, só ela devia conhecer. Numa dessas histórias, Bazinha dizia que o Zumbi dos Palmares ainda estava vivo, escondido nas matas da Serra da Barriga, ali pertinho de Maceió. Ninguém pegava o Zumbi, porque ele sabia voar.

Não preciso explicar a impressão que essa história produzia em mim, nem a importância que ela teve ao longo de minha vida como cidadão e artista brasileiro. O Zumbi se tornou, para mim, um herói a decifrar.

Mais recentemente, comecei a entender melhor a história da Bazinha e por que ela me impressionara tanto. Nenhum inimigo alcançava o Zumbi, porque ele sabia alçar voo acima de suas cabeças, longe da perfídia de suas armas vulgares, aquelas que só podem ferir quem não é capaz de deixar o duro chão do que costumamos chamar de realidade. O Zumbi sabia voar.

Cícero Dias
Contei essa história e suas consequências pessoais na homenagem que me prestaram na Universidade Estadual de Alagoas, a Uneal, no momento em que o estado festejava 200 anos de sua emancipação. Disse que, hoje, são os pensadores e os artistas brasileiros que têm a obrigação de aprender a voar.

Estamos vivendo num país que se desmantela política e culturalmente entre ódios falsos e falsas ideias sobre um futuro que já cortejamos tanto. Um futuro que nunca chega e, às vezes, até parece que já passou.

Apesar de tudo, durante a ditadura militar, era mais fácil pensar o Brasil daquele momento e escolher um rumo a tomar. Tínhamos quase todos o mesmo horror ao que nos sucedia, ninguém duvidava de que a luta prioritária era contra o autoritarismo, a ausência de liberdade.

Da esquerda mais radical ao mais radical liberalismo, ninguém precisava pensar muito para se unir em torno desse projeto de superação da ditadura. Ninguém precisava voar.

Hoje, apesar das causas justas, das justas críticas a governantes e políticos em geral, da indispensável denúncia de desgoverno, estamos também usando nossa liberdade para nos autodestruir, mesmo que involuntariamente.

Enquanto enfrentamos o que escolhemos por inimigo, atingimos muitas vezes a liberdade de outras pessoas a nosso lado, às quais não damos o direito de pensar diferente de nós, “inimigos” inventados por nossa histeria que devem ser eliminados apenas por não pensarem como nós.

É nosso direito combater as ideias com que não concordamos. Mas nenhum pensamento, mesmo o mais pérfido, merece ser eliminado porque não estamos de acordo com ele. Essa é a única garantia de que vivemos uma cultura democrática.

Precisamos refundar o Brasil já, reinaugurá-lo do ponto de vista cultural, político e institucional, do ponto de vista de sua economia seletiva e da gigantesca desigualdade social em que vivemos. Precisamos dar um fim à tradição da escravidão em nossa história, aos males deixados pelas oligarquias que nos governaram e ainda governam. Dar um fim à dor da fome, toda fome, entre nós.

Essa invenção do Brasil não pode ser construída com um pensamento excludente, que precisa eliminar o seu contrário para existir, que propaga o ódio à diferença. Nós, que somos o resultado de um caldinho de culturas, que somos o único país do mundo originado de uma improvável sopa ibero-afro-indígena, não podemos desprezar nenhuma fonte do que somos.

Apesar de toda injustiça cometida ao longo de nossa história, sempre sonhamos com uma cultura mestiça numa sociedade miscigenada, um mito nunca realizado.

Mas onde existe um mito, existe necessariamente um projeto, mesmo que seja inconsciente. Ou inconsistente. E esse projeto, de vez em quando, se revela entre nós, como na adoção da música de origem africana como a música brasileira por excelência ou na eleição romântica do índio como símbolo popular da pátria.

Temos uma vocação evidente para a criação e a poesia, vivendo constrangidos entre a miséria humana e a exuberância da geografia, nessa mistura de exaltação e melancolia que somos.

Como está em Jorge de Lima, meu poeta preferido: “Debruça-te sobre tua voz e escuta as vozes que vêm nela./ As ressonâncias de ti próprio que nasceram contigo./ Os bramidos dos ventos nas tuas velas rotas”.

Confiando em nossas pobres velas rotas, mas firmes e fiéis, aprenderemos a voar como o herói da Bazinha nos Palmares.

sábado, 11 de novembro de 2023

Pensamento do Dia

 


A guerra de cada um

Existiram um dia a Ucrânia, a Palestina, Israel, e têm direito de continuar existindo? Como? São perguntas que afloram ao ler A Ucrânia de cada um, livro organizado por Flávio Limoncic e Monica Grin na emoção da guerra fratricida da Ucrânia, publicado agora à sombra da também fratricida batalha de Gaza.

Não é um livro propriamente sobre a Ucrânia nem sobre as guerras, mas um conjunto de relatos e testemunhos de descendentes de judeus do leste europeu que sobreviveram ao holocausto e reconstruíram sua vida no Brasil e em outros países das Américas. São memórias pouco conhecidas, porque a velha geração preferia poupar os filhos das histórias de sofrimento e horror por que passou. E estes, estimulados a construir sua vida no novo mundo, olhavam para a frente, nem sempre com tempo e espaço interno para os relatos de seus pais. Agora, as décadas de relativa paz que sucederam à guerra parecem estar se esgotando, os fantasmas voltam a assombrar e é preciso lembrar de onde viemos.


Os velhos se foram, os filhos e netos amadureceram e buscam nos fragmentos de memória, em velhos papéis e fotografias, em registros e nas redes de internet as histórias de seus pais e o sentido de suas origens. Para alguns, os documentos e as histórias familiares foram mais preservados. Mas para a maioria o que resta são pouco mais que referências desencarnadas de localidades e pessoas que mudaram de nomes ao sabor das migrações, das diferentes línguas e dos poderes que se alternavam no domínio de cada uma das antigas cidades e regiões – Vilna, Minsk, Volhynia, Podolia, Lublin, Galicia, Edinet, Kishinev – quase todas hoje partes da Ucrânia, da Moldova e da Polônia.

As histórias familiares fazem parte da identidade de cada um, mas não determinam seu destino. Em razão do que passou, é inevitável que os relatos de perseguições, guerras e estratégias de sobrevivência sejam o que mais aparece. Mas existem outras histórias importantes a ser contadas. A da persistência de uma forte cultura local, baseada numa língua comum e em instituições comunitárias, de cunho religioso ou não, que estruturavam a vida no dia a dia nas pequenas localidades da Europa oriental; uma cultura do cotidiano que encontrou expressão numa importante tradição literária que acompanhou as levas de imigrantes que partiram para as Américas e que, aos poucos, vem desaparecendo com a perda de lugar do ídiche como a língua franca destes povos. A do judaísmo renovado, seja pela volta à tradição do messianismo religioso do hassidismo, seja no sionismo secular em suas diferentes vertentes. Ou, finalmente, pela busca de identidades novas: participar da cultura cosmopolita, profissional, universitária, científica e empresarial que se desenvolvia na Europa e nas Américas, ou se filiar aos movimentos políticos e sociais de esquerda que se formavam, pela militância nos sindicatos e partidos socialistas e comunistas locais. Não fossem o nacionalismo e o nazismo, a integração de parte dos judeus na sociedade e na cultura de países europeus como Alemanha, Áustria e Polônia teria sido tão bem-sucedida quanto o foi nos Estados Unidos e na Europa Ocidental.

A Ucrânia foi por muito tempo lugar de coexistência de russos, ucranianos e judeus de diferentes identidades, da mesma forma que a antiga Palestina tem sido, por séculos, lugar de coexistência de árabes cristãos, judeus e muçulmanos. Nem sempre foi uma coexistência pacífica, mas os historiadores falam mais dos momentos dramáticos de guerras e conflitos do que dos longos tempos de paz, que também existiram e precisam ser reconhecidos e apreciados.

Meu tataravô materno, no século 19, fazia parte da próspera comunidade judaica de Varsóvia e decidiu, por razões religiosas, terminar sua vida em Sfat, a cidade sagrada da Cabala. Era na antiga Palestina, parte do Império Turco, para onde haviam ido muitos dos sábios judeus expulsos pela inquisição espanhola, onde nasceu minha mãe. Meu pai se dizia romeno, nascido numa das pequenas aldeias da Bessarábia, hoje parte da Moldova, e recentemente soube que minha avó paterna pode ter nascido em Vinnytsia, na Ucrânia. Os avós de minha mulher eram árabes cristãos, sírios e libaneses, que mandavam as moças da família a uma escola católica em Haifa, hoje parte de Israel, e nossos filhos são cidadãos do mundo.

Nada disso nos dá uma solução simples para as guerras de hoje, mas fica, ao menos, um princípio moral que nos ajuda a pensar. Na apresentação do livro, Flávio e Monica citam Bashevis Singer dizendo que, na língua ídiche, não havia palavras para designar armas, munições, exercícios militares ou táticas de guerra. Hoje, são estas as palavras que mais se ouvem nos conflitos do Oriente Médio. Não parece que haja outro caminho para a região senão a plena implementação dos acordos de Oslo, com a constituição de um Estado palestino autônomo e viável. Pode ser que nunca se chegue lá, da mesma forma que o nacionalismo e o racismo destruíram as esperanças de paz depois da Primeira Guerra Mundial. Mas não podemos perder a lucidez que adquirimos ao reencontrar as origens e possibilidades de cada um de nós.

Entre o ódio e a vingança, o trauma do cerco e aniquilamento de Gaza

O Adeus às Armas, de Ernest Hemingway, publicado em 1929, é um romance quase autobiográfico, cujo protagonista é um americano que participa da Primeira Guerra Mundial como voluntário no exército italiano. É uma história de amor entre um soldado ferido na perna e uma enfermeira, que se conheceram no hospital. O relacionamento se consolidou e resultou num filho do casal, mas o soldado teve que voltar à guerra. Ao retornar, já estava exausto do conflito, como a maioria dos seus companheiros. O herói deserta. A guerra se estendia por tempo demais.

Esse tipo de situação fora comum no front da Primeira Guerra Mundial, entre soldados alemães e ingleses, que chegaram a se confraternizar no Natal e realizar animadas partidas de futebol. Com base no que ocorreu, o Estado-maior britânico desenvolveu o conceito de “sombra de futuro”: os soldados procuram ganhar tempo, em ataques e retaliações quase que combinadas, à espera de que os políticos e os generais assinem um armistício. Era mais ou menos o que acontecia entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza, até 7 de outubro passado, quando a milícia palestina realizou um inédito ataque terrorista a Israel, que matou 1.400 pessoas, das quais 828 civis e 31 crianças. Mais de 240 pessoas foram feitas reféns.

A retaliação de Israel ao Hamas na Palestina é uma operação de cerco e aniquilamento na cidade de Gaza e seus arredores, com bombardeios implacáveis, às vezes, indiscriminados, que deslocaram mais de um milhão de palestinos do Norte para o Sul da região. Até o dia 6, segundo a BBC, somavam 25, 4 mil palestinos feridos e 10 mil mortos, sendo 2,55 mil mulheres, 596 idosos e 4,1 mil crianças. Estão desaparecidos 2,5 mil palestinos, sendo 1,3 mil crianças, provavelmente soterradas nos bombardeios. Na Cisjordânia, 114 palestinos já foram mortos em ações do Exército de Israel. Mais de 200 mil habitações foram destruídas, e há 1,5 milhão de desalojados, de uma população de 2,2 milhões da Faixa de Gaza.


A doutrina da guerra justa (Bellum iustum ou jus ad bellum) define em quais condições a guerra é uma ação moralmente aceitável. O conceito foi cunhado por Agostinho de Hipona (354-430), inspirado em Cícero, e também foi usado como justificativa para as Cruzadas. Além de Agostinho, Tomás de Aquino (1225-1274) e Hugo Grócio (1583-1645), em O direito da guerra e da paz, defenderam essa doutrina. A expressão guerra justa faz parte da cultura jurídico-política do Ocidente. Na Roma Antiga, Cícero ensinou que havia bellum iustum quando os romanos entravam em guerra contra uma nação estrangeira por eventuais danos sofridos ou temidos.

As Forças de Defesa de Israel (FDI), fundadas em 1948, estão entre os exércitos mais experientes em batalhas no mundo, tendo participado de seis grandes guerras. Suas responsabilidades são defender a soberania e a integridade territorial do Estado de Israel, deter todos os inimigos e coibir todas as formas de terrorismo que ameacem a vida diária. Em tese, suas tarefas são a consolidação de acordos de paz, como os celebrados com o Egito e a Jordânia; garantir a segurança na Cisjordânia em coordenação com a Autoridade Palestina; liderar a guerra contra o terrorismo, dentro e além de suas fronteiras; e manter a capacidade de dissuasão de ataques.

A estratégia militar de Israel é defensiva, mas suas táticas são ofensivas. Como não possui profundidade territorial, precisa tomar a iniciativa e, rapidamente, levar a batalha para o território do inimigo. Embora em menor número do que os exércitos vizinhos, as FDI possuem vantagem qualitativa, graças aos recursos e ao apoio estratégico que recebe dos Estados Unidos, e os sistemas de armas avançadas de que dispõe, entre os quais a bomba atômica, um segredo de polichinelo.

O efetivo regular do exército de Israel é pequeno, porém muito operacional. Sua força maior reside na capacidade de mobilizar homens e mulheres reservistas bem treinados, em todas as regiões do país. Todo o seu poderio está sendo demonstrado nessa operação de cerco e aniquilamento do Hamas, que já destruiu praticamente todo o norte da Faixa de Gaza. Entretanto, o conceito de guerra justa está sendo posto em xeque em razão dos sofrimentos impostos aos palestinos, sobretudo idosos, mulheres e crianças, além de destruição de seus lares, hospitais e escolas. A ONU afirma que 88 funcionários da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA) já foram mortos, com 18 trabalhadores da defesa civil. Até 5 de novembro, também morreram 46 jornalistas nos ataques de Israel.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou a ocupação da Faixa de Gaza pelo exército de Israel “por tempo indeterminado”. Entre o ódio e a vingança, há uma guerra de narrativas sobre o que acontece em Gaza. Os refugiados palestinos têm seu lugar de fala, assim como os soldados de Israel, que agora caminham sobre escombros e entre milhares de cadáveres. Nos Estados Unidos, o chamado transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) atingiu 800 mil veteranos do Vietnã, 175.000 combatentes da Guerra do Golfo e outros 300 mil retornados do Iraque e do Afeganistão. Nos “corredores da morte” nos EUA, 10% dos condenados são veteranos. O trauma da guerra, como na obra de Hemingway, sempre atinge os soldados.

A hipocrisia da linguagem: o que é terrorismo?

As palavras também podem matar como armas. Elas estão fazendo isso neste momento das duas guerras que assustam o mundo e fazem correr rios de sangue. Basta olhar as notícias para compreender que, por exemplo, a palavra terrorismo acumula vítimas mortais.

Sob o toldo do terrorismo, esconde-se a vingança e infiltram-se interesses puramente políticos. Não é necessário recorrer aos dicionários para saber que o termo terrorismo evoca agora e sempre medo, pânico, horror, vingança, morte, dor e injustiça.

Se fosse feito um estudo sobre as palavras que estão sendo usadas em todo o mundo devido, por exemplo, à guerra em Israel, veríamos que o terrorismo domina a língua.


A palavra terrorismo não necessita de exegese excessiva. Até as crianças sabem o que é e por vezes são as maiores vítimas, como está a acontecer no Oriente Médio.

Aqui no Brasil, o governo progressista de Lula e principalmente os líderes de seu partido, o PT, sofrem com a discussão se o Hamas é ou não um grupo terrorista ou simplesmente de libertação.

Lula tem usado a desculpa de não admitir que o Hamas é terrorista porque a ONU também não o considera porque o Hamas foi eleito nas urnas. É novamente a ambiguidade da linguagem. Negar, a esta hora, depois de tanto sangue derramado de ambos os lados, que o terrorismo invadiu o conflito entre Israel e a Palestina, é infantil.

Neste momento o governo brasileiro ainda luta para libertar 30 dos seus cidadãos que não podem sair de Gaza e especula-se que seja a vingança de Israel pela ambiguidade em não considerar o Hamas como terrorista.

Mais uma vez a linguagem ao serviço da violência e da morte. E neste momento e depois do horror que o mundo inteiro vê nesta guerra, pouco importa se o sangue derramado, a dor acumulada, as crianças e mulheres sacrificadas e o peso da vingança atávica são chamados de uma forma ou de outra. Nada pior e mais perigoso do que a hipocrisia.

O que o mundo precisa é que acabe esta guerra, o que esperamos que aconteça o mais rapidamente possível; que volte o espírito da razão para poder chamar as coisas pelo seu nome próprio e que a luz da paz reemerja para ambos os povos em eterno conflito, sem que nenhum deles tente eliminar o outro.

A ideia, por exemplo, que sempre falhou, de que Israel e Palestina podem coexistir em paz, como dois povos que, em suma, têm as mesmas raízes históricas, de alguma forma até o mesmo Deus a adorar, pode parecer banal ou ingênua. E para que esta utopia se torne realidade é necessário começar a rever a linguagem até agora utilizada que evoca apenas dor, morte e vingança.

Se política e democracia são palavras que devem evocar tempos de paz e harmonia entre os diferentes, é necessário que sejam novamente espanadas à luz do sol, sem serem distorcidas.

Se pode parecer difícil definir qual violência é terrorista e qual é libertadora, até que ponto pode ir a legítima defesa e a sede de vingança, é fácil compreender o que cada um de nós carrega gravado na pele e que evoca a sede de paz, de felicidade, de harmonia, de diálogo, de culturas reunidas que nos enriquecem.

É lamentável o fato de neste momento palavras malditas como genocídio e holocausto, ou o apelido de ratos para definir os judeus, serem mais uma vez ouvidas e defendidas na boca de alguns políticos de extrema direita, mesmo aqui no Brasil

Não se trata de pessimismo ou otimismo. Estão em jogo valores fundamentais que, se forem quebrados, poderá arrastar-nos para o pessimismo daqueles que continuam a pensar que os tempos passados foram melhores.

Hoje, figuras que um dia pegaram em armas em movimentos revolucionários de várias cores e que foram descritos como terroristas estão a entrar na política e a abraçar os valores da democracia. Nem sempre é fácil para eles.

A ascensão no mundo da extrema direita golpista e nostálgica das antigas ditaduras ressuscita mais uma vez a linguagem do terror, do medo, da vingança e da literatura da morte contra a vida. Talvez não seja precisamente com a nova onda de extremismo fascista e mesmo com conotações nazistas que as velhas guerras que pareciam apenas um pesadelo do passado tenham rebentado novamente.

Vemos que a linguagem e a força que ela implica podem ser objeto de paz ou de guerra nas palavras de ordem dos novos e obscuros líderes populistas que começam a emergir juntamente com os novos conflitos armados.

Palavras de dicionário que pareciam ter sido abandonadas com a chegada das democracias e dos valores libertários, como ditadura, tortura, genocídio, guerra, censura e até holocausto, começam a levantar a cabeça, ameaçando nos devolver a tempos que pensávamos derrotados.

Daí a importância que atinge hoje a liturgia do voto nas urnas. Não é mais simplesmente um jogo ou esporte democrático. É um novo imperativo, o último refúgio que temos contra o perigo de que os velhos demônios do terror possam ressuscitar.

Talvez, como aqui no Brasil, a guerra contra as urnas e contra o voto livre estivesse prestes a devolver o país aos tempos de terror fascista.

Israel perde a guerra pelos corações e mentes do mundo ocidental

O presidente francês Emmanuel Macron disse o que está na cabeça da maioria dos seus colegas europeus. Em entrevista à BBC, falou que “não há justificativa” para o contínuo bombardeio de Gaza por Israel, acrescentando que um cessar-fogo beneficiaria Israel.

O líder francês afirmou que reconhece o direito de Israel de se defender, mas pediu a Israel que pare com os bombardeios:

“De fato, civis são bombardeados. Estes bebês, estas senhoras, estes idosos são bombardeados e mortos. Portanto, não há razão para isso nem legitimidade. Nós pedimos a Israel para parar com os bombardeios”.


Perguntaram a Macron se ele queria que outros líderes, incluindo os dos Estados Unidos e Reino Unido, se juntassem aos seus apelos por um cessar-fogo. Macron respondeu:

“Espero que o façam”.

Macron foi um dos primeiros chefes de Estado a visitarem Tel Aviv depois do atentado terrorista do Hamas em 7 de outubro. Foi solidário com Israel e advogou seu direito a defender-se.

Mas reconhece que crimes de guerra como os cometidos pelo Hamas não podem ser respondidos com crimes de guerra. Observa Francesca Albanese, relatora da ONU:

“Atirar, matar, abusar de civis ou sequestrá-los como fez o Hamas é crime de guerra. Mas a resposta de Israel com ataques a hospitais, escolas e casas de civis também é crime de guerra”.

O secretário de Estado americano Antony J. Blinken comentou na sexta-feira  que “muitos palestinos foram mortos” em Gaza:

“Muitos palestinos foram mortos. Muitos sofreram nas últimas semanas. E queremos fazer todo o possível para evitar danos a eles e maximizar a assistência que lhes chega.”

O comentário de Blinken é a mais recente indicação de que o governo Joe Biden está cada vez mais preocupado com o número de civis mortos sob o bombardeio e a invasão terrestre de Israel.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu respondeu a Macron, dizendo que “a responsabilidade pelos danos aos civis cabe ao Hamas e à organização Estado Islâmico, não a Israel”.

Netanyahu parece uma barata tonta. Já disse que Israel ocupará a Faixa de Gaza tão logo destrua o Hamas. Pressionado por Biden, recuou e disse que não seria assim. Agora, repete que será assim.

A Faixa de Gaza virou um campo de concentração como os campos de concentração onde mais de 6 milhões de judeus foram exterminados durante a Segunda Guerra Mundial.

A guerra entre Israel e o Hamas é o holocausto do povo palestino.
Blog do Noblat

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

De Gaza, cidade onde nasci, a notícia impensável

A casa da minha família deveria estar numa zona segura no Sul de Gaza. Mas na semana passada as bombas chegaram mesmo assim, sem aviso prévio. Caíram por volta das 10 horas da manhã de quinta-feira, em quatro ou cinco grandes explosões. Um bairro residencial inteiro do campo de refugiados de Khan Yunis, onde nasci e cresci, foi reduzido a escombros. Todos ali vivenciaram isso como um terremoto; um terremoto causado pelo homem. Todo o acampamento estava tremendo.

Contei 49 mortos – entre eles estão 36 membros da minha família. Mais uma dúzia ou mais ainda estão desaparecidos sob os escombros de oito casas, segundo me disseram, e mais de 100 estão feridos.

Agora moro no Canadá, mas a casa da minha família ainda fica no mesmo campo de Khan Yunis, a poucos metros de onde as bombas caíram, e é onde grande parte da minha família ainda vive. Esta casa é tudo o que restou dos nossos falecidos pais e avós depois de terem sido expulsos da aldeia de Beit Daras para a Faixa de Gaza em 1948 – a expulsão em massa dos palestinianos. Milhares de pessoas foram forçadas a deixar a nossa aldeia naquela época e muitas seguiram para Khan Yunis. Inicialmente concebido como uma paragem temporária até que pudessem regressar às suas casas, as famílias de Beit Daras preferiram viver próximas umas das outras. Com o tempo, esse arranjo evoluiu para outro duradouro.



Essas casas estavam repletas de pessoas que tinham fugido do bombardeio israelense à cidade de Gaza – uma família por cada quarto. Quero contar a vocês sobre algumas vidas interrompidas.

Julia Abu Hussein, de dois anos, neta da minha irmã, estava na sala da casa da minha família, aguardando ansiosamente a chegada da minha sobrinha, Rasha, para levá-la à loja para comprar doces. Quando as primeiras bombas caíram, a mãe de Julia, Rawan, agarrou a filha e correu para a cozinha com o resto da família. Mas um estilhaço atingiu a cozinha e matou Júlia nos braços da mãe.

Há apenas duas semanas os pais de Júlia – o meu sobrinho Amjad e a sua mulher, Rawan – seguiram as ordens dos militares israelenses de saírem de Gaza, abandonando a sua casa e deslocando-se para Sul em busca de segurança. Juntamente com a família da minha irmã, levaram três dias para viajar menos de 32 quilómetros até Khan Yunis, Durante três dias acreditávamos que estivessem mortos. Estamos em 2023, mas é como se tivéssemos acordado em 1948. Pessoas voltando a correr em busca de segurança. Quando chegaram à “zona segura” perceberam que nenhum lugar na Faixa de Gaza era realmente seguro.

Meu tio-avô de 79 anos, Nayif Abu Shammala, professor aposentado, e sua mulher, Fathiya, estão entre os sobreviventes da expulsão em massa dos palestino em 1948. Eles moravam bem na nossa frente e morreram sob as bombas. Suas três filhas e quatro filhos também foram mortos.

Quando ela era jovem, uma delas, Aisha, era conhecida como o rosto mais fofo do acampamento. Ela era uma daquelas pessoas que irradiava felicidade. Sua irmã Dawlat morava nos Emirados Árabes Unidos e estava visitando sua casa para ver sua família quando as bombas caíram. Ela deixa dois filhos e um marido que nem teve a chance de se despedir dela. A mais nova das irmãs, Umaima, e a sua filha Malak também fugiram do bombardeio no Norte. Mas as bombas os alcançaram de qualquer maneira.

Os filhos de Nayif e Fathiya – Zuhair, Hassan, Mahmoud e Mohammed – morreram todos junto com suas mulheres. As vidas dos três filhos de Hassan também foram sacrificadas pelas bombas. Essas crianças não são estranhos distantes; eram almas lindas que eu conhecia bem. Crianças cujos rostos cheios de personalidade ainda consigo ver. Crianças que me contaram seus sonhos para as vidas que teriam pela frente. Tudo agora foi reduzido ao pó.

Por que Israel os matou? A família não tem filiações políticas. Nada pode justificar o crime hediondo de matar três gerações, a menos que o criminoso seja palestino.

Minha tia-avó, Um Said, viveu uma vida longa, pelo menos. Ela tinha 92 anos e estava em casa com a filha, Najat, quando as bombas caíram. Ambas agora encontram seu lugar de descanso sob os escombros.

No verão passado, quando visitei Gaza, Um Said gentilmente me deu um vestido bordado que ela usou uma vez. Ela insistiu que eu o levasse de volta para o Canadá comigo. Estou grata por ter feito isso. É tudo o que me resta para me lembrar dela.

Estou lutando para encontrar novas maneiras de descrever a morte – desaparecidos, levados, mortos, sob os escombros, suas almas no céu. A máquina de propaganda israelemse diz-me que eles não estão mortos porque os palestinos devem estar a mentir sobre o número de mortes, mesmo enquanto as lamentamos. Ou se de fato morreram foi porque devem ser “terroristas”.

A nora de Um Said, Suhaila, era professora. O mesmo acontecia com Imtiyaz, mulher de Asa’ad, meu primo-irmão que administrava uma pequena mercearia, o lugar favorito de meu próprio filho, Aziz, quando voltávamos para nossa terra natal.

Asa’ad era conhecido em todo o acampamento Khan Yunis como uma alma gentil que vendia mercadorias por pouco dinheiro. Ele mantinha um denso registro com os nomes das pessoas que lhe deviam dinheiro, mas muitas vezes se esquecia de cobrar. Seu rosto radiante, sua loja, sua gentileza e sua família foram todos roubados de nós em plena luz do dia. Quando as bombas caíram, a loja de Asa’ad estava lotada. Contei pelo menos seis crianças que morreram lá. Os filhos de Asa’ad, Hussein e Abdelrahman, um estudante do terceiro ano de medicina, estavam entre os mortos.

Quero perguntar ao presidente Joe Biden porque é que ele apoia isto. Será que ele acredita que a dor de uma mãe israelense é diferente da de uma mãe palestina? O sangue dela é mais valioso do que o sangue dos que estão em Gaza? Esta é a única explicação que consigo encontrar para o que Biden apoie o que se passa em Gaza.

Os familiares sobreviventes me enviaram fotos de Khan Yunis. Do corpo ensanguentado de Julia enrolado em um lençol branco e carregado por meu primo Jameel, de casas destruídas. Esta é apenas uma pequena fatia do sofrimento que é servido em Gaza. Entendo que numa guerra morrem civis. Mas este é um padrão.

Israel fala em escolas geridas pelo Hamas e em hospitais geridos pelo Hamas para continuar a desumanização dos palestinos e preparar o terreno para mais crimes. É apenas uma desculpa para matar mais civis. Isto tem como alvo a própria existência dos palestinos. Para mim, isso é genocídio.
Ghada Ageel, uma refugiada palestina de terceira geração, trabalhou como tradutora para o The Guardian em Gaza de 2000 a 2006. Atualmente é professora visitante no departamento de ciência política da Universidade de Alberta.

Lugar mais solitário do mundo


Não há lugar mais solitário no mundo do que a cama de uma criança ferida que já não tem família para cuidar dela
Ghassan Abu Sittah, médico em Gaza

Planos morais

Vamos lá, pessoal, não é tão difícil assim. Dá para condenar os brutais ataques terroristas do Hamas e, ao mesmo tempo, criticar a resposta israelense, que vem causando um morticínio entre palestinos. Os planos morais em que atuam um e outro não são idênticos, mas, para quem morre no processo, o resultado é rigorosamente o mesmo.

Por mais justa que seja a sua causa, ela não lhe dá o direito de entrar no território inimigo e assassinar civis desarmados, incluindo crianças, a sangue-frio. A violação moral do Hamas no 7 de outubro é incontestável, quer você abrace éticas deontológicas, da virtude ou consequencialistas. Se o ataque tivesse tido como alvo apenas militares e colonos armados, ele ainda poderia ser descrito como ato de resistência. Não foi o caso.


A ação do Hamas deu a Israel o "ius ad bellum", o direito de ir à guerra, e eventualmente matar, para recuperar os reféns e neutralizar o poderio do grupo terrorista. Mas Tel Aviv ainda tem a obrigação de agir em conformidade com o "ius in bello", as leis de guerra definidas pelas convenções de Genebra, notadamente as proteções à população civil. E nem com muito boa vontade dá para dizer que Israel esteja se empenhando ao máximo em evitar as mortes de civis.

É verdade que o fato de o Hamas deliberadamente esconder seus QGs e armamento em túneis sob hospitais e escolas torna essa tarefa bem mais complexa, mas, se Israel quer manter superioridade moral sobre seu adversário, precisa encontrar uma forma de conciliar esses objetivos contraditórios.

Há uma pegadinha aí. Pelo menos nas visões mais cínicas, age-se moralmente por uma questão de reputação. Se Israel se convencer de que sofrerá condenação da opinião pública mundial independentemente do que faça —tivemos uma prévia disso no caso do hospital Al-Ahli Arab, em Gaza—, poderá concluir que é inútil tentar agir moralmente. Aí o que já é feio ficaria muito pior.

E todo o mundo ouve

Hitchcock afirmou que “drama é a vida sem os pedaços aborrecidos” — drama is life with the dull bits cut out. E tem razão: a ficção salienta os momentos em que se vive mais intensamente, por boas ou más razões. Mas, para que esses momentos sobressaiam de forma notável, é necessário estabelecer contextos que lhes permitam revelar-se.


No filme Sozinho em Casa, por exemplo, é crucial sabermos que Kevin é o mais novo de uma família de 11 crianças, justificando-se assim que seja esquecido em casa. Em O Tubarão, de Spielberg, importa ficarmos a conhecer a vida social e política da pequena ilha estival onde aparece um tubarão devorador de pessoas: a ação dos protagonistas é enquadrada por este contexto narrativo inicial. Aliás, Spielberg vai desde logo direto ao assunto: desenha o breve contexto de uma praia em que jovens convivem em redor de uma fogueira à noite, de onde passa para o ataque do tubarão a uma jovem que decide tomar um banho ao luar. Logo de seguida conhecemos o xerife local, a sua família e a relação com o mayor da ilha. Em ambos os casos, sendo breve ou longo, atrás ou à frente do momento do incidente inicial, o contexto tem de ser dado, sob pena de a narrativa se tornar aleatória ou injustificada.

Em cinema é comum considerar-se que o contexto é a pedra angular da clareza narrativa, que, por sua vez, será tanto maior quanto mais forte for a relação de causalidade entre as cenas: passamos do ataque do tubarão para o xerife da vila e não para qualquer outra personagem sem a responsabilidade de manter a população em segurança — estaríamos, nesse caso, perante uma causalidade mais fraca.

Na realidade, assim é na vida: tudo é causal. Uma série de acontecimentos exteriores a este texto motivaram a sua escrita. Os meus actos derivam do meu contexto e das leituras que dele faço. Nesse sentido, um filme sobre a atual guerra no Médio Oriente até poderia começar no dia 7 de Outubro, com o hediondo ataque do Hamas. Mas — e este “mas” é tudo —, sem posterior contextualização e sem uma leitura das várias e fortíssimas causalidades em campo, ficamos reduzidos a uma narrativa aleatória, à mercê de interesses e interpretações das forças em conflito.

Nesse hipotético filme sem contexto para trás, assistiríamos apenas a um bando de homens maus a atacar pessoas felizes que viviam em paz nos seus territórios. Uma vez estabelecido o contexto, viria à luz uma informação relevante: esses territórios, onde estas pessoas felizes foram atacadas e raptadas, são, na sua larga maioria, terras ocupadas de forma ilegítima, ao arrepio do direito internacional e com enorme perda e dor para a população palestiniana. Pelo menos em cinema, a identificação do problema inicial pode não legitimar ou justificar todas as ações subsequentes, mas, narrativamente, está sempre presente; faz parte do plot.

Enquanto a montante estiverem reunidas as condições para o conflito, Israel não terá nunca toda a razão do seu lado. Não pode nenhum povo, em nome da sua sobrevivência, ou por qualquer outro motivo, ocupar e/ou aniquilar outro. Não existe nenhum contexto humano que o justifique — e Israel devia sabê-lo.

Para muitos de nós, tornou-se insuportável ver as imagens tristes que chegam de Gaza, que sucederam às terríveis imagens de Israel. Porque nos fazem chorar, de tristeza, vergonha, raiva ou impotência. No entanto, sugiro que as vejamos. E que choremos, à vontade e com vontade. Porque são estas lágrimas, instintivas, causais, que chegam ao coração de pessoas justas, que falam em nosso nome — e todo o mundo ouve.