domingo, 26 de maio de 2019

Bolsonaro vê nas ruas o álibi para culpar alguém

Quando Jair Bolsonaro trombeteou no Twitter o texto que se referia ao Brasil como um país "ingovernável", dizia-se que a manifestação deste domingo seria contra o Congresso, o Supremo, a mídia e todos os grupos que puxam o tapete do capitão. Com o passar dos dias, o presidente ajustou seu linguajar nas redes sociais aos conselhos dos militares que o rodeiam. E a pauta dos atos de rua foi se tornando mais aguada. Há três dias, em café da manhã com jornalistas, Bolsonaro cuidou de imunizar-se contra eventuais excessos : "Quem defende o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional está na manifestação errada."

Inventou-se, supremo paradoxo, um protesto a favor. Alega-se que os mosqueteiros da infantaria pró-governo decidiram ocupar o asfalto para prestigiar o presidente e endossar as causas que lhe são caras. Um por todos, todos por hummmmmm... Louve-se o direito inalienável de qualquer um de sair às ruas para defender qualquer coisa. Entretanto, como 57 milhões de eleitores acabaram de comparecer às urnas para fazer a mesma coisa, fica evidente que a serventia desse do protesto a favor pró não é senão oferecer a Bolsonaro um álibi para botar a culpa em alguém. O presidente vê culpados pelo fiasco dos primeiros cinco meses de sua gestão em toda parte, exceto no espelho.

Governantes como Bolsonaro, que cultivam teorias conspiratórias para tudo, inspiram o mesmo sentimento que os céticos nutrem em relação a pessoas religiosas. É difícil acreditar no que elas acreditam. A metafísica acaba sendo mais divertida do que o materialismo chato, que procura uma lógica por trás de cada fato. Desde que tomou posse, o capitão revelou-se um mágico. Transforma calmaria num roteiro de intriga, emoção e perfídia. Faz aparecer uma crise do nada. Retira uma crise de dentro da outra. Magnifica crises pequenas, tornando-as gigantescas, barulhentas e ameaçadoras. Depois, tira da cartola as teorias conspiratórias.

Todos sabiam que a renovação das urnas de 2018 não havia extirpado do Congresso o tumor do centrão. Mas Bolsonaro dizia ter encontrado uma vacina contra o fisiologismo. Governaria acima dos partidos, vinculando-se às bancadas temáticas do Congresso. Deu no que está dando. O capitão ainda não se dignou a chamar para uma conversa os deputados e senadores sérios (sim, eles existem). Tampouco aproximou-se dos novatos (sim, eles também estão lá). Com 28 anos de experiência política, Bolsonaro dedica-se no momento a não fazer política. E acredita que não tem nada a ver com as derrotas que sofre no Legislativo. Isso é obra de conspiradores.

Em campanha, o capitão dissera que não faria concessões ao troca-troca. Acenou com um ministério de notáveis. Entregou três pastas ao DEM sem obter os votos do partido. Acomodou no Turismo um dono de laranjal do PSL. Confiou o Meio Ambiente a um condenado por improbidade que conspira contra o ambiente inteiro. Colocou para cuidar dos Direitos Humanos uma pastora evangélica que enxerga lesbianismo em desenho animado.

Como se fosse pouco, Bolsonaro revelou-se um presidente da cota pessoal do polemista Olavo de Carvalho. Criou uma cota ministerial para o encrenqueiro da Virgínia. Pelo Ministério da Educação, já passaram dois "olavetes". O primeiro ergueu barricadas contra o "marxismo cultural". Tropeçou nas próprias pernas. O segundo dedica-se a combater comunistas que enxerga sob a cama e a brigar com as universidades. O "olavete" do Itamaraty guerreia contra o "globalismo" e faz cara feia para o principal parceiro comercial do país, a China. Quando não está desorientando seus ministros, o guru Olavo está desqualificando os militares.

Juntos, o polemista predileto de Bolsonaro e os notáveis da equipe ministerial ajudam o presidente no seu esforço diuturno para executar a tarefa prioritária do Planalto: fabricar crises. São tantas e tão frequentes, que oferecem farta matéria-prima para os que desejam retardar no Congresso as únicas pautas benfazejas que o governo foi capaz de erigir: a reforma da Previdência e o pacote anticrime e anticorrupção. Paulo Guedes ameaça ir embora. Sergio Moro sonha com uma poltrona no Supremo. Mas Bolsonaro não tem nada a ver com o desânimo dos ex-superministros. É culpa dos conspiradores da mídia.

Qualquer criança de cinco anos consegue perceber que a imprensa não se confunde com as crises que infestam Brasília. Os repórteres mudam de assunto sempre que o governo substitui uma confusão por outra. No dia em que cessarem os curtos-circuitos, as manchetes vão parar de dar choque.

No momento, o ano de 2019 está indo a pique. O IBC-BR, espécie de prévia do PIB divulgada pelo Banco Central, registrou queda de 0,68% no primeiro trimestre de 2019 em comparação com o mesmo período do ano passado. O Ministério da Economia, que já sonhou com um índice próximo dos 3%, anotou no relatório bimestral de execução orçamentária uma estimativa de crescimento anual de 1,6%. A pesquisa Focus, na qual o BC reúne a posição dos especialistas do mercado, anotou em sua penúltima edição uma estimativa ainda mais magra: 1,24%. Há na praça quem aposte num desempenho abaixo de 1%.

Bolsonaro, naturalmente, não tem nada a ver com a perda de tempo que enferrujou o otimismo dos investidores e lubrificou o desespero dos mais de 13 milhões de brasileiros que se encontram no olho da rua. Isso é coisa dos conspiradores da oposição. O mal maior não está escondido: é a herança maldita dos governos anteriores. Os problemas se revelaram tão maiores do que pareciam que, no futuro, quando os feitos do atual governo não baterem com as promessas feitas na campanha, os conspiradores do passado, esmigalhados nas urnas, é que serão culpados.

Neste domingo, quando os manifestantes erguerem cartazes a favor das reformas econômicas e morais, estarão culpando o Congresso, no atacado, e o centrão, no varejo. Quando gritarem palavras de ordem a favor da Lava Jato, é contra o Supremo que estarão se insurgindo. Para usar uma terminologia da moda, os manifestantes se auto-converteriam em "idiotas úteis" se tratassem Bolsonaro como parte do problema. Seria o mesmo que admitir que o capitão virou um conto do vigário no qual seus eleitores caíram. Melhor enaltecer o presidente. Não resolve o problema. Mas fornece a Bolsonaro o álibi para que ele, aliviado, terceirize todas as culpas.

Inundação censória

Angel Boligan 
No passado, a censura funcionava bloqueando o fluxo de informação. No século XXI, ela o faz inundando as pessoas de informação irrelevante
Yuval Noah Harari

Bolsonaro nada aprendeu, mas nada esqueceu

Dê no que der as manifestações bolsonaristas marcadas para hoje, o Congresso não se deixará abater por elas. Muito menos o Supremo Tribunal Federal, alvos preferenciais dos que desejam governar com braço forte e a salvo das restrições próprias da democracia.

O presidente Jair Bolsonaro pode contar com muito apoio nas redes sociais que o ajudaram a se eleger, mas não foram elas que mais pesaram para o milagre registrado em outubro último. Pesou o efeito facada. E pesou, e muito, a rejeição ao PT e ao seu chefe preso.

As pesquisas de avaliação do governo feitas de janeiro passado para cá mostram que uma parte dos eleitores de Bolsonaro começa a debandar de suas fileiras. Cresce o número daqueles que o culpam pela desalentadora situação econômica do país que só faz se agravar.

Os donos do dinheiro querem as reformas, mas já concluíram que elas dependem pouco de um governo amador, estabanado, sem projeto para o país, e que aposta invariavelmente em conflitos. Elas dependem do Congresso onde o governo carece de maioria.

A parte mais poderosa e influente da mídia é hostil a um governo que lhe devota desprezo e que só deseja manietá-la. Não há sinais no horizonte de que Bolsonaro planeje se reinventar, convertendo-se em um presidente normal e capaz de compartilhar o poder.

Se ele pensa que o eventual fracasso do seu governo causará uma convulsão social que se reverterá ao seu favor, arrisca-se a se frustrar ou a colher um impeachment. Dilma não caiu por causa das pedaladas fiscais, mas porque perdeu as condições para governar.

No parlamentarismo, um governo fracassado é substituído por um governo novo. E segue a vida. No presidencialismo, troca-se de presidente em meio a uma crise de grandes proporções. Dois foram embora assim (Collor e Dilma). Quase foi embora outro (Temer).

Foi Bolsonaro que acendeu o pavio para animar seus seguidores a saírem às ruas em seu socorro. Procedeu como de costume – compartilhando um texto apócrifo nas redes sociais que dizia que o país é ingovernável com o Congresso e a Justiça que tem.

Não se deu conta de que por causa disso poderia ser alvo de um processo de impeachment. É crime de responsabilidade, segundo a Constituição, atentar contra o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário e dos poderes constitucionais dos Estados.

Alertado por assessores, recuou. Passou a dizer que não haveria lugar nas manifestações para os que defendem o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal – é só o que se verá a partir de logo mais. Se antes cogitara de ir para as ruas, desistiu.

Amanhã será outro dia. E os desafios de um governo sem rumo e movido a crises continuarão do mesmo tamanho que têm hoje, se não maiores.

Passeata é inútil quando o problema é o despreparo

Vai mal um presidente quando precisa de grupos na rua em manifestações de apoio. Collor precisou. Pode ir mal um país quando seu presidente recomenda aos apoiadores evitar ataques ao Congresso e ao Judiciário. Que apoiadores são esses? Estarão enganados quanto às convicções democráticas de seu líder? Podem ter-se enganado, talvez, quando esse líder repassou em rede um texto sobre a impossibilidade de governar com as instituições. O tom do texto era golpista, mas ele declarou, depois, havê-lo simplesmente repassado. Por que repassou, se discordava, e sem adicionar uma palavra de rejeição? Isso nunca foi explicado, mas explicar nunca foi o forte desse presidente. Ele comprovou essa qualidade, mais uma vez, ao anunciar um projeto capaz de render mais que o trilhão de reais pretendido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, com a reforma da Previdência. O projeto, soube-se depois, é uma fórmula para o governo ganhar dinheiro com a atualização de valor de imóveis incluídos na Declaração de Renda. Na prática, seria uma antecipação do imposto pago depois da venda. E se esse bem nunca for vendido? A ideia básica já foi rejeitada em países do mundo rico. Para o presidente e alguns de seus auxiliares, deve ser uma grande novidade. A propósito: o ganho para o Tesouro, se houver, ficará muito longe do trilhão, segundo fonte do próprio governo.


Enquanto o presidente se ocupava da manifestação, estranhamente descrita por alguns como um “protesto a favor do governo”, congressistas ocupavam espaço político, aprovavam na Câmara a medida provisória de recomposição dos ministérios e punham em tramitação um projeto próprio de reforma tributária.

Para alguns, a movimentação na Câmara foi um recuo do Centrão, pressionado pelo governo e por seus apoiadores. A visão oposta parece mais adequada. Afinal, os deputados, além de mostrar serviço, negaram a transferência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para o Ministério da Justiça e se anteciparam ao projeto governamental de mudança dos impostos e contribuições. Pode-se discutir o alcance de cada um dos projetos, o da Câmara e o do Ministério da Economia, mas o Executivo foi inegavelmente atropelado – e sem invasão de atribuições, acusação dirigida ao presidente no caso do decreto sobre porte de armas. Mais importante ainda, parlamentares de peso, a começar pelos presidentes da Câmara e do Senado, já se declararam comprometidos com a reforma da Previdência, com ou sem atuação do Executivo.


Contestado no Parlamento e no Judiciário, o presidente acabou forçado a editar um novo decreto sobre o assunto, para restringir, por exemplo, o acesso a certo tipo de fuzil. Um dia antes, as ações da Taurus haviam disparado na bolsa paulista, depois de anunciada pela empresa uma fila de 2 mil pessoas interessadas na compra daquela arma. Entre outras mudanças, o segundo decreto reduziu as facilidades para crianças ingressarem nas escolas de tiro e iniciarem a vida no mundo do bangue-bangue, tão valorizado entre muitos bolsonaristas.

Mais um recuo foi incluído, portanto, na lista bolsonariana. O presidente já havia recuado, por exemplo, da tentativa de controlar o preço do diesel. Não parece ter abandonado totalmente a ideia, mas foi forçado a amaciar sua atitude depois de uma desastrada pressão sobre a diretoria da Petrobrás. Recuou também da decisão de impor seus critérios, formalmente, à publicidade das estatais. A bobagem estava claramente encaminhada, na área de Comunicação, quando o secretário de Governo, general Santos Cruz, chamou a atenção para a Lei das Estatais. Não pode o Executivo, segundo essa lei, meter-se em decisões administrativas como a publicidade estritamente mercadológica.

No começo do mandato o presidente já havia abandonado, ou pelo menos adiado, o plano de mudar para Jerusalém a embaixada em Israel. Advertido para o custo de uma encrenca com países muçulmanos, grandes importadores de alimentos produzidos no Brasil, reviu sua ideia e substituiu a mudança da embaixada pela instalação de um escritório comercial. Mais que uma decisão econômica, esse remendo foi uma tentativa de mostrar-se fiel ao compromisso de seguir, algum dia, seu líder Donald Trump e ao mesmo tempo contentar os apoiadores evangélicos. Nenhum desses motivos tem relação com os interesses políticos e econômicos de uma diplomacia de respeito.

O Executivo brasileiro recuou também do anunciado abandono do Acordo de Paris sobre o clima. Deu mais um passo atrás ao confirmar, depois de havê-la negado, a realização, em Salvador, de uma conferência regional preparatória para uma grande reunião sobre a questão climática em Santiago do Chile. Alguém próximo do presidente deve ter-lhe apontado os enormes custos diplomáticos e comerciais de suas bravatas anticonservacionistas. Os custos internos do empobrecimento ambiental deveriam ser suficientes, mas a esses o presidente e vários de seus auxiliares parecem absolutamente insensíveis.

Enquanto o presidente passava mais uma semana tropeçando, perdendo tempo e sendo forçado a recuar mais de uma vez, o vice Hamilton Mourão participava de reuniões em Pequim, era recebido pelo presidente Xi Jinping e tentava anular os danos causados por seu chefe e pelo ministro das Relações Exteriores na relação com a China, maior cliente das exportações brasileiras.

Além de ser grande compradora, a China tem um importante programa internacional de investimentos em infraestrutura. É preciso, sim, avaliar a conveniência de cada projeto, mas isso é função normal de um governo tecnicamente preparado, competente na ação diplomática e levado a sério pelas autoridades estrangeiras.

Sem essas qualidades, nenhuma passeata de apoio será suficiente para fortalecer um presidente e sua equipe. A ruindade será do governo. Não adianta culpar a democracia.

Pensamento do Dia


Fumaça, ruído e desertos

O que faz um governo eleito governar? A resposta canônica é conhecida, mas nem sempre é praticada. Consta de três pontas. Em primeiro lugar, apoio social, expresso na manifestação eleitoral dos cidadãos, mas reproduzido ao longo da gestão. Votos que elegem nem sempre são os votos que sustentam os atos governamentais ou coonestam as atitudes do governante. São colhidos em muitos cestos e orientados por variadas escolhas, até a de impedir a vitória de alguém. Precisam ser organizados enquanto se governa. É a batalha da legitimidade. A tentação de permanecer em campanha após a eleição demonstra o medo do eleito de perder os apoios manifestados nas urnas, muito mais do que a pretensão de conquistar novos. Sem novas adesões, porém, restringem-se suas condições de futuro.

Em segundo lugar, uma boa equipe de governo, um bom Ministério, com adequada estrutura de pessoal, técnica e gerencial, sem o que o governo não terá como formular propostas, levá-las à execução, controlá-las, avaliar o que consegue realizar. Em sociedades complexas, com Estados avantajados e repletos de atribuições, a equipe de governo responde por boa parte do sucesso. Ministros pouco qualificados, estranhos às suas pastas, guindados ao primeiro plano com pretensões eleitorais ou em busca de prestígio são tão perniciosos quanto ministros que se prestam a funcionar como meras extensões do chefe (e de seu partido, se for o caso) ou como lobistas de segmentos da sociedade.


Em terceiro lugar, capacidade de articulação política e disposição para construir consensos parlamentares, algo decisivo em qualquer situação. Num regime presidencial como o brasileiro, por exemplo, por suas características, isso implica manter uma agenda aberta à interação com dezenas de partidos e grupos de parlamentares, dialogar com governadores e corporações, movimentar-se para ouvir demandas, auscultar os humores políticos, conceder entrevistas. É o trabalho principal do chefe, que só em pequena dose pode ser delegado a auxiliares, posto que a parte nobre, mais pesada, dependerá sempre da palavra final e da modelagem do vértice superior.

Essas três pontas sofrem o efeito do que se poderia chamar de “carisma” do chefe do governo. Quanto mais brilho próprio e trajetória heroica tiver um presidente, por exemplo, mais facilidade terá de municiar a articulação política ou converter apoios eleitorais em apoio político. Sua capacidade de comunicação e sua clareza de visão estratégica são fundamentais para dar coesão e rumo à equipe de governo. Presidentes ou chefes sem dotes políticos costumam infernizar a vida dos assessores e contribuem demais para o desgaste da imagem governamental.

Considerando a situação brasileira, pode-se dizer que o governo Bolsonaro conta somente com a primeira dessas pontas. E mesmo aí não de forma perfeita, tanto que “continua em campanha”, sem conseguir ampliar sua base social e conquistar novas adesões. Seus índices de popularidade não estão subindo, mas declinando, e o governo, para tentar sair do isolamento, chega mesmo a impulsionar uma mobilização de rua para manifestar apoio social, o que pode piorar ainda mais a situação.

Sua promessa inicial era compor uma equipe avessa ao intercâmbio parlamentar e integrada por técnicos qualificados. O Ministério formado, porém, não corresponde a isso. Flutua ao sabor de jatos de personalismo, de fanatismo hidrófobo, de subserviência à camisa de força ideológica e nefasta de provocadores estranhos à vida nacional. Alguns ministros funcionam, mas a maioria vive a bater cabeça e a tartamudear. Os filhos do presidente intrometem-se em tudo, distribuindo cotoveladas em ministros, aliados e parlamentares. A ideologia, processada em dimensão obscurantista e paranoica, intoxica o discurso do Executivo, atritando os demais Poderes e abrindo fendas profundas no que deveria ser a coesão governamental. Como consequência, impossibilita a ampliação dos apoios, a negociação das propostas no Congresso, a criação de um clima “positivo” que abra espaço para a atuação “construtiva” do governo.

Ainda que haja indícios de que falte inteligência política ao governo, não se trata de um governo irracional. Há nele uma dose de cálculo, um estilo de atuação, uma opção por certas armas de combate no lugar de outras. É um governo que faz escolhas, sendo a principal delas a da hostilidade como procedimento, método com o qual cria crises e inimigos para justificar sua falta de ação e, ao mesmo tempo, agregar sua base mais fanatizada. A “velha política” e a oposição de esquerda seriam, para ele, a expressão de um sistema que não permitiria governar.

A hostilidade como procedimento tem mantido o governo em campanha, mas não o faz governar. Cria fumaça e ruído, produz problemas sucessivos e nenhuma solução, destrói sem construir, como se seu programa fosse mais negativo do que positivo. Vai assim demolindo pontes, envenenando áreas, erodindo a sociabilidade, criando desertos por onde passa. Oferece em troca tão somente a promessa redentora do “mito”, a cavalo de um Deus confuso e vingativo.

O resultado é que o componente propriamente bolsonarista do governo continua do mesmo tamanho, se não menor. Permanece heterogêneo e sem coesão, sem estrutura organizacional, dependente de bots e ativistas digitais, falando consigo próprio. Mantém-se, na verdade, como uma seita, que tem seus ritos e símbolos, seus devotos, sua máquina de descobrir traidores e inimigos a cada dia.

No caso brasileiro, o horror e o espanto crescem na opinião pública. O governo desfila sua indigência e nada entrega, a crise econômica se aprofunda, a ético-política se prolonga. O presidente não percebe que sua atuação corrói a República ao esvaziar o principal mecanismo que a dignifica, a atividade política. Ou estaria ele querendo precisamente isso?

Cala-te, boca!

O governo é refém de si mesmo. Ele saiu fortalecido do processo eleitoral, poderia aprovar tudo muito rapidamente, mas não aprova por causa das caneladas entre si 
Kim Kataguiri (DEM-SP)

Não vou à manifestação pró-Bolsonaro, porque o presidente não merece nosso apoio

Não vou a esta passeata ou sair de casa para apoiar o governo de Bolsonaro, mas não, mesmo. E de forma alguma condeno quem for, longe disso, pois respeito a decisão de cada pessoa – assim, se você entender que deve comparecer, que atenda à sua vontade.

Deixarei de me juntar aos apoiadores do atual governo porque a essência desta manifestação é o protesto contra o Supremo e o Congresso, que merecem as críticas, porém o movimento não é do povo, para o povo e pelo povo, que continuará de fora das decisões palacianas, mesmo sendo solidário ao Executivo.

Fosse a reação dessas pessoas em favor do pobre, do miserável, do necessitado, por uma outra educação e de nível, como protesto pela saúde pública deteriorada … confesso que eu iria, e de bandeira em punho.


Porém esta manifestação, exclusivamente para auxiliar Bolsonaro a mostrar que ainda tem a confiança do povo, estou fora. Na verdade, quem deveria fazer uma passeata imensa, com extrema sinceridade e verdade, são os Três Poderes, implorando para que o cidadão brasileiro volte a confiar nas autoridades constituídas!

Apoiar um dos poderes, o mais incompetente, sem criatividade, que apenas aumenta impostos ou inventa novos, foge completamente às minhas intenções de solidariedade aos que hoje ainda não se alimentaram, e não sabem se vão conseguir algum resto de comida!

Eu sairia às ruas berrando pelo nome de Bolsonaro, se ele tivesse apresentado medidas imediatamente à sua posse, no sentido de incentivar o emprego, se tivesse criado frentes de trabalho, se abrisse o Brasil para licitações à construção de ferrovias, rodovias, pontes, elevados, viadutos, túneis, escolas, hospitais … até mesmo pedisse ao inútil e corrupto Congresso que liberasse a instalação de cassinos, meio excelente de empregar centenas de pessoas diretamente e milhares indiretamente!

A ideia do presidente era uma só, e continua, uma espécie de obsessão: a reforma da Previdência!

Se dizem que não vai prejudicar o pobre, mentem desbragadamente, incluindo alguns comentaristas que tentam negar a realidade, pois se alguém me provar que o pobre não terá de trabalhar bem mais para ter a sua aposentadoria completa, logo, mais tempo para ter o que é seu, que antes poderia ser quando completasse 35 anos de semiescravidão, o engodo, enganar o povo é a intenção!

A tal reforma poderia ser feita após a metade do tempo governamental, quando o emprego tivesse reagido, a economia mais forte, uma auditoria da Previdência, a caça aos sonegadores, outra auditoria sobre a dívida pública, incluindo reformas fiscais, políticas, educacionais…

Nada disso Bolsonaro levou adiante.

Logo, o meu apoio ao seu governo, Bolsonaro não o terá. Não que eu seja contrário à passeata, às manifestações populares, claro que não.

Eu apenas gostaria que o povo que sairá às ruas hoje se lembrasse dos que não têm voz, representatividade, solidariedade e respeito de nossos governantes. Além disso, os mais carentes são sistematicamente esquecidos pelas faixas mais privilegiadas da população. É como se eles não existissem.

Parlamentarismo cinzento

Toda vez que o presidencialismo à brasileira passa por alguma crise – e bota crise nisso – aparece alguém falando em parlamentarismo. A mudança no sistema de governo já o remédio altamente ineficaz para driblar a posse de João Goulart em 1961, quase entrou na Constituição de 1988 e foi cabalmente rejeitada pelo voto popular em dois plebiscitos, o último deles em 1993. Volta e meia, porém a ideia reaparece. O modelito da estação é o “parlamentarismo branco”.

O parlamentarismo da moda não vem, como de outras vezes, sob a forma de uma proposta de emenda constitucional destinada a mudar o papel institucional e as relações entre os poderes, dando ao Congresso, oficialmente, as funções de governo. Trata-se, agora, de um arranjo informal, até reforçado por medidas que fortalecem as prerrogativas do Legislativo – como o orçamento impositivo, por exemplo mas que não mudaria substancialmente as regras da Carta presidencialista.

Nesse momento, todo mundo que fala em “parlamentarismo branco” refere-se à disposição do Congresso de preencher o vazio político deixado por um presidente frágil, despreparado e com perda acelerada de apoio na própria sociedade. A fórmula parlamentarista de hoje seria uma maneira de passar Jair Bolsonaro, uma aliança entre as forças majoritárias do Congresso e o establishment econômico do país, com o apoio de setores do governo, como a equipe econômica, para controlar a pauta do país.

A provável aprovação de uma reforma previdenciária pelo Legislativo – independentemente do Executivo seria o primeiro e bem sucedido ato desse modelo de governo congressual a ser mostrado ao país. Abriria caminho a outras agendas, como a da reforma tributária e medidas articuladas com a equipe de Paulo Guedes. E a vida seguiria até as eleições de 2022.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas será que isso dá certo? Pouco provável. Ainda que a equação de nosso presidencialismo contraponha sempre um Executivo fraco a um Congresso forte – e vice-versa, há limites claros para esse tipo de corta-e-cola institucional.

Por mais que o Legislativo comece a aprovar medidas esvaziando os poderes do presidente da República, limitando suas prerrogativas em relação ao orçamento e restringindo sua capacidade de editar medidas provisórias, por exemplo, há todo um arcabouço constitucional a reforçar seus poderes como chefe do Executivo e detentor maior dos mecanismos legais para governar. O que torna insustentável a condução de qualquer governo em outras bases sem reforma profunda na Carta.

É o presidente quem tem a caneta e nomeia dos ministros do STF ao procurador geral da República, passando pelos cargos da administração direta, indireta e estatais. É o presidente que edita decretos, medidas provisórias e tem competência privativa para encaminhar ao Congresso propostas sobre determinados assuntos. É o presidente o comandante em chefe das Forças Armadas.

Toda essa conversa de “parlamentarismo branco”, portanto, parece destinar-se a entreter os ingênuos. Ou bem – ainda que contra as expectativas - Executivo e Legislativo se acertam em torno de regras mínimas de convivência, ou em breve, logo após a votação da Previdência, assistiremos a um novo capítulo da saga dos últimos 30 anos, que já engoliu dois presidentes da República via impeachment.

É possível, e talvez seja até desejável, implantar o parlamentarismo no país. Mas por caminhos claros, constitucionais, submetidos a novo e obrigatório plebiscito, para vigorar para mandatos futuros. Sem nódoas.

sábado, 25 de maio de 2019

Cadeia de controle



A massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa
George Orwell

Um presidente ingovernável

São imprudentes, obscuros e arbitrários os objetivos por trás da manifestação arquitetada por idólatras do “Mito” e fomentada pelo capitão em pessoa nas redes sociais. Não vá se falar em mero protesto. A insurgência contra os poderes constituídos flerta diretamente com o autoritarismo — ainda mais levada a cabo diretamente pelo mandatário. Ele, prudentemente, depois de alertado, resolveu recuar da ideia tresloucada de estar à frente participando ativamente nas ruas. Se assim o fizesse poderia incorrer em crime de responsabilidade por atentar, de maneira insofismável, contra a Carta Magna que no artigo 85, incisos II, III e IV condena qualquer afronta ao livre exercício dos Poderes. Uma mobilização com esse intuito empurraria Bolsonaro à porta do impeachment. De qualquer maneira, ele procura impor o conceito de um governante vivendo sem a necessidade de dialogar com forças moderadoras, tal qual um monarca absolutista com pendores ditatoriais. Não se engane: o problema de Bolsonaro não é com o Congresso ou com a massa amorfa de políticos classificada como “Centrão” que, no seu julgo, converteu-se em inimigo número um do Brasil. O mandatário tem algo mesmo, de verdade, contra a democracia e daí a ofensiva às instituições basilares que lhe dão respaldo — Parlamento, Judiciário, imprensa e Forças Armadas. Sim, por que até na direção delas mirou a artilharia de descrédito recentemente. Redes bolsonaristas, de maneira inflamada e raivosa, pedem o fechamento do Congresso, a deposição de ministros do Supremo, a invasão de autarquias e conclamam o povo a servir de massa de manobra nessa marcha da insensatez, indevida e beligerante. A intentona tem método e fim: manietar todos aqueles que lhe pareçam adversários, pelo mero princípio de discordar de suas estultices e ambições. O chefe da Nação sonha em comandar fora das regras do jogo, sem interposições ou freios. Diante da desconcertante inabilidade que exibiu para governar, Bolsonaro transfere a responsabilidade dos erros aos outros. Na sua visão, desconectada dos fatos, não conseguiu fazer o que precisava porque o “sistema” não deixou, e não em virtude da incapacidade nata deveras exibida. Orientou os “eleitores-raiz”, menos de seis meses após a posse, a tomarem as ruas munidos do ingrediente autocrático para a disruptura. Na prática, diversas organizações, movimentos sociais e mesmo empresariais — aliados de primeira hora — evitaram embarcar na aventura, com traços golpistas. O MBL e o “Vem Prá Rua”, que deram a argamassa de mobilização do impeachment de Dilma Rousseff, não avalizaram a articulação oficialesca e oportunista da claque de Bolsominions. A pergunta concreta, ainda sem resposta, coloca o presidente no foco da pregação: Bolsonaro busca protestar contra o quê? Se foi ele, justamente, no exercício da militância ideológica, quem travou o diálogo com as demais instituições, por que agora se acha no direito de anarquizar o convívio? O País vive os impactos devastadores de uma guerra ideológica que dá as costas às necessidades elementares do povo. Emprego, renda e crescimento ficaram em segundo plano. Problemas cotidianos não são atacados. Restou óbvio que o mandatário considera impossível governar sem semear o conflito, demonizando os demais esteios constitucionais. Há poucos dias veiculou em sua rede digital um texto, qualificado por ele como de “leitura obrigatória para quem se preocupa em antecipar os fatos”, apontando o País como “ingovernável” sem os “conchavos”, deixando-o de mãos atadas. A mensagem atribuía o fracasso prematuro da nova gestão à influência de forças ocultas, corporações que impedem qualquer presidente de governar – uma versão rotineiramente incutida pela claque do mandatário nos áulicos seguidores. Inevitável traçar um paralelo com a carta-renúncia do ex-presidente Jânio Quadros, nos idos dos anos 60, que também atribuía seu naufrágio presidencial a terríveis forças do “sistema”. Daí à conclamação para a tomada das ruas, sitiando Legislativo, Judiciário ou quem mais atravessar suas pretensões, foi um passo. Bolsonaro busca transformar o Brasil numa versão venezuelana à direita, com protestos diários contra e a favor de um modelo arbitrário de poder. De uma maneira ou de outra terá de perceber que não existe espaço para governar na base do grito por aqui. A ideia, ventilada por ele, de um Brasil livre de “impedimentos institucionais” é abjeta. Jair Messias Bolsonaro, do alto dos 57 milhões de votos angariados nas urnas, precisa deixar de lado o papel de mero chefe de um grupo sectário e assumir devidamente, movido a princípios republicanos, a dimensão do cargo recebido por outorga da maioria da população. O Messias não foi ungido por Deus, como tentou fazer crer em outro de seus posts desconexos, mas pelo poder do povo (na tradução literal de democracia). Até aqui se comportou como um presidente ingovernável, guiado por devaneios, espírito conspiratório e intrigas geradas no núcleo duro de seus filhos indóceis com a inestimável colaboração do Rasputin da Virgínia. Levado a rompantes inexplicáveis e indevidos — como o de chamar estudantes de “idiotas úteis”, dentre outras baboseiras — converteu-se, ele próprio, em fator de instabilidade, ameaçando a Nação. Se persistir nessa trilha esbarrará, certamente, nos freios e contrapesos institucionais, com desfecho traumático.

Medo

"Aqui tem olavetes, intervencionistas, católicos e templários", explicou uma certa Elizabeth Rezende, que está entre os organizadores das manifestações deste domingo mas esqueceu-se de elencar os trilobitas, os entoproctos, os braquiópodes, os caminhoneiros e os reptilianos.

"Aqui", contudo, não tem Bolsonaro. O líder inconteste, "Mito" e "Messias", traiu a fauna paleozoica de seus devotos. O porta-mentira oficial, general Rêgo Barros, precisou ler uma nota que qualifica os eventos como "espontâneos". De fato, a mobilização foi incitada (com "c", viu Weintraub?) pelas redes do clã presidencial, mas o capitão recuou para a retaguarda, abandonando seus soldados na trincheira enlameada.


Medo. A incitação e a fuga têm motivo idêntico. Mais: o medo é a melhor chave explicativa do comportamento geral do presidente da República.
Na política, o medo está sempre presente. FHC temia, mais que tudo, o retorno do monstro inflacionário. Daí, a sobrevalorização do real, seu único grave erro de política macroeconômica. Antes de surfar a onda ascendente do ciclo global, Lula temia a ruptura da estabilidadeeconômica herdada.

Daí, o acerto decisivo na escalação da equipe econômica de seu primeiro mandato. Os medos de FHC e Lula referenciavam-se, principalmente, no interesse nacional. O medo de Bolsonaro, pelo contrário, referencia-se exclusivamente no interesse pessoal. Ele fomentou a mobilização de rua porque teme governar na democracia e desertou, assustado, porque teme o impeachment.

O medo é a sombra inseparável de Bolsonaro. Cabe ao psicanalista investigar a dimensão íntima de seu medo, que se manifesta na conjunção da homofobia com a obsessão pelo cano de uma arma. Já a ciência política deve iluminar seu temor de exercer o cargo de chefe de Estado.

Nos idos da minha infância, as crianças ainda brincavam na rua. Lembro de um garoto ruivo, provocador, geralmente ignorado pelos demais, que corria para o refúgio de sua casa quando algum de nós reagia a suas afrontas. Durante 28 anos, Bolsonaro habituou-se a praticar o esporte do insulto e da difamação, abrigando-se na barra da saia da imunidade parlamentar. A fortuita ascensão ao Planalto privou-o da redoma protetora. Fora do santuário, exposto às sanções da democracia, ele experimenta o peso insuportável de sua inadequação. Estamos, todos, condenados a participar da aventura do valentão de opereta cindido entre seus dois medos.

Originalmente, as manifestações foram convocadas sob as bandeiras do fechamento do STF e do Congresso. "Essa pauta está mais para Maduro", esclareceu Bolsonaro, finalmente. Mas, mesmo após a operação sanitizadora, a presença do presidente nas ruas o implicaria em atentado contra as instituições, um crime de responsabilidade bem mais sério que as pedaladas fiscais dilmistas.

Cedendo ao medo do impeachment, Bolsonaro ganha a chance de viver mais um dia no Planalto. O problema é que essa perspectiva o aterroriza: no poder, o gesto adolescente da arminha não substitui o imperativo de entregar resultados seguindo as regras da democracia.

A saída é ceder ao medo de governar, utilizando o pretexto clássico da facada nas costas. "Dolchstosslegende": o mito nasceu na Alemanha, na esteira da derrota na Primeira Guerra Mundial, como fonte da narrativa da extrema direita. A Alemanha, diziam, teria vencido a guerra se o Exército não tivesse sofrido a traição doméstica dos políticos de esquerda, da imprensa esquerdista e dos diabólicos judeus.

O discurso bolsonaro-olavista segue trilha paralela, invocando as facadas nas costas desferidas pelo Congresso, pelo STF e pela imprensa "comunista" (Folha, Globo) como justificativa antecipada do eventual fracasso do governo.

Dessa vez, Bolsonaro recuou diante do medo do impeachment. Na próxima, movido pelo medo de governar, avançará até o abismo?
Demétrio Magnoli

Gente fora do mapa


Ninguém solta a mão do capitão

Desaceleração da economia, desarticulação política, milhões nas ruas em protesto de estudantes e suspeitas sobre o filho presidente são apenas ficção nos grupos por onde a militância bolsonarista se alimenta e se anima para manifestação de domingo, dia 26. Nos 12 grupos acompanhados por esta coluna, a histeria do período eleitoral não passou, tampouco há espaço para frustração com os cinco primeiros meses do governo.


Desemprego e cortes no orçamento da educação são “problemas do PT”, apesar de Dilma Rousseff ter descido a rampa do Palácio do Planalto há três anos. A inabilidade das lideranças bolsonaristas no Congresso é culpa da velha política. “Brasília está tensa. Políticos mais antigos dizem nunca ter visto nada igual. Os negócios acabaram, as malas de dinheiro não circulam mais. Não sei por quanto tempo o capitão vai aguentar, 1.000 generais não bastam a seu lado, só quem o colocou lá poderá mantê-lo: Deus”, descreve texto compartilhado dezenas de vezes, em vários grupos.

No altar com Bolsonaro estão apenas Paulo Guedes e Sergio Moro. O verde-amarelo pisca em alta velocidade na mensagem de 50 segundos lembrando que chegou a hora de defender os pacotes propostos pela dupla: “É agora!”. Em meio à convocação, desqualificam-se as manifestações estudantis do último dia 15. O tom é de quem está disposto a dar um troco. E tocar fundo, em cada um: “O governo não é do Bolsonaro. É nosso! E nós vamos defendê-lo!”. Pisca, pisca. Aqui, bordão da esquerda se adapta: “Ninguém solta a mão do capitão”.

Quem estava cabreiro com os tiros cruzados de militares do governo ficou aliviado ao receber a convocação do Clube Militar para a manifestação. Não há outra solução para a governabilidade que não a pancada. O desestímulo de empresários e de parte da direita ao ato de domingo serve de ajuste ao calibre de ataque: “A esquerda já era nossa inimiga, a visão agora é outra: STF, Rodrigo Maia, MBL, centrão. Esqueçam a esquerda, temos de ter foco!”, diz um militante do grupo Pátria Amada, recebendo uma enxurrada de aplausos em forma de emoticons.

Alguns sugerem a caça às bruxas ao MBL, no mundo real e no virtual. Os ataques também atingem Danilo Gentili, Janaina Paschoal e Lobão. O distanciamento do MBL e do movimento de empresários que apoiam Bolsonaro “é coisa do Rodrigo Maia”, especulam. As mensagens incendiárias do filho Carlos Bolsonaro, os exageros e devaneios do guru Olavo, o compartilhamento pelo próprio presidente de um texto que estimula o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Tudo misturado, a narrativa é uma só.

Vegeta-se

Coimbra, 4 de junho de 1992

O mundo está irremediavelmente perdido, porque é incorrigível a voracidade capitalista e a nossa obstinação consumista. Queremos, queremos, queremos. E os abnegados senhores do progresso fabricam, fabricam. Saturam, diligentes, os mercados do útil e do inútil. Atravancam o planeta das suas sedutoras mercadorias. Para tanto, esventram-no, derrubam-lhe as florestas, empestam-lhe os rios, os mares e os ares.

(...) Contemporâneos passivos de uma civilização técnica e industrial, que nos serve o necessário poluído e o supérfluo esterilizado, já nem sequer nos indignamos de a ver acabar assim pletórica e podre. Sornamente, vamos vegetando intoxicados, na esperança secreta de que o dilúvio não acontecerá na nossa vida, e, se acontecer, haverá sempre na Arca de salvação lugar para mais um.

Miguel Torga, "Diário"

Qual é o Bolsonaro verdadeiro?

O novo presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, chamado por seus apoiadores da ultradireita de “mito”, poderia acabar sendo mais perigoso e menos evidente do que se costuma pensar. Poderia até querer encarnar o mito grego do embuste do cavalo de Tróia. Cada dia parece mais evidente que não se trata de um simplório que chegou por pura casualidade ao máximo poder do país. Nem é alguém que não apenas não sabe governar, mas que, dada sua incapacidade, estaria disposto a se retirar e passar o bastão para alguém mais bem equipado politicamente do que ele.


Começa a se revelar que o capitão reformado joga com vários baralhos ao mesmo tempo. Dá a impressão de que gosta de desorientar com suas súbitas profecias e suas atitudes capazes de serem mudadas do dia para a noite. Confessou aos jornalistas que “não nasceu para ser presidente”, ao mesmo tempo se sente mais ungido do que ninguém pela divindade para mudar o país. A esses mesmos jornalistas que há poucas semanas disse que não sabia “como tinha podido se tornar presidente”, confessou ontem: “Não sou o dono da verdade, mas vou mudar o Brasil”.

O humilde presidente que confessa que governar não é sua melhor qualidade diz que poderia ter ficado mais confortável no Congresso como deputado ou senador, mas que está “feliz” como presidente, embora às vezes sua missão seja difícil como “um parto sem respiração”. E acrescenta com altivez: “Tive de engolir sapos pela fosseta lacrimal”. Qual é o Bolsonaro verdadeiro? Os estudantes que tomaram as ruas às centenas de milhares para protestar contra os cortes na educação propostos pelo Governo foram chamados por Bolsonao de “idiotas úteis”. Poucos dias depois, recuou dos cortes anunciados.

As manifestações do próximo domingo em defesa de seu Governo e contra as instituições que o impedem de governar serão, portanto, um sinal importante para decifrar sua personalidade e os riscos que ela pode acarretar dado o comportamento contraditório e ambíguo que está revelando sobre as mesmas.

Essas manifestações já fazem parte da perigosa estratégia que o presidente começa a revelar. Por exemplo, denunciou nas redes, para espanto de não pouca gente, que o Brasil é “ingovernável” e que as demais instituições, a começar pelo Congresso e pelo Supremo Tribunal Federal, o impedem de fazê-lo. Em seguida suas hostes mais exaltadas decidiram sair às ruas no domingo, dia 26, para incendiar Brasília.

O presidente não só não vetou a perigosa marcha contra as instituições, como também estava disposto a participar do cortejo. No seu melhor estilo, aceso o fogo, trocou de camisa, anunciou que não iria e pediu a seus ministros que também não fossem. Além disso, foi visitar o presidente do Supremo Tribunal Federal para tranquilizá-lo. Assegurou-lhe que respeitará as outras instituições do Estado e a divisão de poderes. Nada, portanto, de autogolpe. Recordou à opinião pública que quem sair no domingo às ruas “contra o Congresso e o STF estará na manifestação errada”. Qual dos dois Bolsonaros é o verdadeiro e mais perigoso?

Será interessante ver na próxima semana, seja qual for o resultado das manifestações, a reação do Presidente, que com uma mão as estimulou e com a outra se faz de inocente. Só por causa desse mistério e dessa ambiguidade do presidente a marcha em Brasília já adquiriu uma importância que as outras não tiveram.

Essa fúria destrutiva que o invade contra a educação, a floresta amazônica e as relações internacionais chega ao limite de deixar, sem se perturbar, que seu filho, o deputado federal Eduardo, defenda que o Brasil construa a bomba atômica. Essa sua obsessão patológica de querer armar a população, inclusive os menores de idade, como se o Brasil estivesse se preparando para uma grande guerra, está levando a pensar que quem “não nasceu para presidente” pode acabar sendo mais perigoso do que parece hoje. Daí que faça pensar que Bolsonaro estaria ressuscitando o antigo mito grego do cavalo de Tróia. Um mito que lembra quando os gregos enganaram os habitantes de Tróia preparando um grande cavalo de madeira que deixaram às portas da cidade inimiga como um presente dos deuses.

Os troianos, com medo de provocar a ira divina, tomaram o cavalo que se revelou uma armadilha, já que seu interior estava cheio de soldados armados que acabaram destruindo a cidade. Desde aquele episódio narrado na Odisséia de Homero e que atravessou os séculos inundando a literatura e as artes e foi analisado politicamente, o cavalo de Tróia se tornou uma metáfora do “presente dado com o propósito de enganar”.

Não sei se Bolsonaro, apelidado de “mito” e convencido de que Deus lhe pediu para desconstruir o Brasil para reconstruí-lo à medida de seu afã iconoclasta, também pensou em se tornar o novo cavalo de Tróia do Brasil. E se, como os troianos, não estará disposto a enfrentar o perigo em vez de irritar os deuses que o escolheram.

Um presidente assim não deveria ser tratado pelas outras forças do poder e por aqueles que acreditam nos valores da democracia como alguém inócuo que está de passagem, se divertindo com suas contradições diárias e seus delírios. Poderia ser um novo cavalo de Tróia com todas as suas consequências.

É melhor levar a sério desde já, para que as forças democráticas não tenham amanhã de chorar como os ingênuos troianos, incapazes de compreender que, às vezes, é melhor enfrentar os deuses do que temê-los e se ajoelhar diante deles.
Juan Arias

Seria governo isso aí?

Ainda nem sequer se completaram cinco meses, e a pergunta no ar tem resposta na bucha: Faz de conta. Há um presidente eleito e empossado democraticamente. Quanto a governo, há controvérsias. A impessoalidade do cargo foi mandada às favas em nome de uma nova política orientada por quem há 29 anos se banqueteou na velha política, inclusive com seus cacoetes e métodos nada politicamente corretos como viver do achincalhe dos opositores, além de otras cositas más.

A esperança de milhões, orientada pela pauta de luta contra a corrupção e pela melhora da economia, vem a cada dia sendo jogada pelo lixo em troca de uma governança de apressar apenas o cumprimento da lista de promessas aos apoiadores. A batalha contra a corrupção e o crime vem sendo relegada, ou tocada em câmera lenta. A reforma da Previdência, pó de pirlimpimpim para desencantar o país, se esvai como poeira para se tornar pó de traque.

Contra a violência, acena-se com a violência de mais armas nas mãos de quantos tiverem dinheiro para comprar armamento e frequentar cursos de tiro. Nenhuma ação, sequer indicativo, de medida para conter a onda de crimes. Disparam-se as armas de bandidos e mocinhos, mas quem cai morto é trabalhador, mulheres mortas são contadas por hora, e nenhum ai presidencial. Para esses não existe presidente.


Por sinal, o governo não se manifesta em nenhum momento - a não ser o que lhe interessa - sobre criminalidade, desemprego, destruição ambiental, mortandade hospitalar, falta de medicamentos. Há um silêncio tumular no Planalto quanto aos dramas que envolvem a população, enquanto se trombeteia as próprias favas mágicas.

Se não houve lua de mel, tumultuada pelo laranjal familiar- fantasma que apavora por não se poder intervir descaradamente no Judiciário como se fez no Ibama -, com as bençãos presidenciais, no melhor estilo Nicolás Maduro, se organiza uma marcha em favor da pessoa do governante e sua "administração" eivada de erros constitucionais sem qualquer projeto de curto ou médio prazo para mitigar os sofrimentos de quem não tem dinheiro ou passa fome. Os pobres ficam à beira da miséria até o pó de 
pirlimpimpim dar resultado. Se der. Se não, continuam à beira da cova, mas pagarão os tributos devidos.

O capitão Messias faz do país sua imagem e semelhança: medíocre.
Luiz Gadelha

Imagem do Dia


Se Guedes for embora, Bolsonaro ficará perneta

A equipe ministerial de Jair Bolsonaro, por precária, equilibra-se sobre duas escassas pernas. No campo moral, escora-se no prestígio de Sergio Moro. Na seara econômica, apoia-se no destemor liberal de Paulo Guedes. As derrotas impostas a Moro e as concessões do capitão à imoralidade deixaram o governo manco. Se Guedes for embora, a gestão Bolsonaro ficará perneta. E seguirá, aos pulinhos, em direção ao brejo.

Em entrevista à Veja, o Posto Ipiranga ameaçou fechar as portas</a></span> se a proposta do governo para a Previdência virar uma "reforminha" no Congresso. "Pego um avião e vou morar lá fora. Já tenho idade para me aposentar", declarou Guedes. "Se não fizermos a reforma, o Brasil pega fogo. Vai ser o caos no setor público, tanto no governo federal como nos estados e municípios."

Não se trata de uma declaração qualquer. É uma ameaça. Um observador desatento pode imaginar que o ministro da Economia aderiu à cruzada de Bolsonaro contra o Congresso. Engano. O endereço da advertência de Paulo Guedes é o Palácio do Planalto, não o Legislativo.


Conforme já foi comentado aqui, há dois governos em Brasília, o oficial e o alternativo. No oficial, Bolsonaro ataca "o grande problema" do Brasil, que "é a nossa classe política". No alternativo, Guedes, faz política. Enquanto o presidente atiça uma manifestação hostil ao Congresso, o ministro pede ajuda aos congressistas para retirar sua agenda reformista do incêndio.

De passagem pelo Nordeste, Bolsonaro como que abriu a porta de saída para Guedes: "É um direito dele, ninguém é obrigado a continuar como ministro meu. Logicamente, ele está vendo uma catástrofe, é verdade, eu concordo com ele, se nós não aprovarmos algo realmente muito próximo ao que enviamos no Parlamento. O que Paulo Guedes vê, e ele não é nenhum vidente, nem precisa ser, para entender que o Brasil vai viver um caos econômico sem essa reforma." Para Bolsonaro, o caos empurraria Guedes para a "praia".

O que Bolsonaro ainda não percebeu é que, diante da visão do caos, o presidente precisa responder à seguinte pergunta: o que eu posso fazer para resolver o problema? Talvez se dê conta de que precisa tomar três providências: 1) Procurar aliados; 2) Descartar amigos inconvenientes; e 3) Evitar brigas. Fazer crises é fácil, difícil é desfazê-las.

Quando Bolsonaro admitiu, ainda em campanha, que não entendia nada de economia, inspirou medo. Mas muita gente ficou tranquila quando o capitão esclareceu que dispunha de um Posto Ipiranga. Imaginou-se que o presidente não teria um ministro da Economia. O ministro é que teria o presidente. Engano. Bolsonaro revelou-se um personagem indomável.

Ou Bolsonaro revela uma insuspeitada capacidade de agir com serenidade ou se arrisca a fazer parte do imaginário popular como o primeiro Saci-Pererê da história a ocupar a poltrona de presidente da República. Nomeará outro ministro. E passará a comandar outro governo, ainda pior do que o atual.

Centenas de milhares protestam contra mudanças climáticas

Centenas de milhares de jovens ativistas do clima se manifestaram por todo o planeta nesta sexta-feira, como parte dos protestos mundiais reivindicando ação contra o aquecimento global do movimento "Fridays for Future" (ou Greve pelo Futuro, como vem sendo chamado no Brasil).

Na Europa, de Lisboa a Oslo, crianças e jovens "mataram aula" para protestar contra a perspectiva de herdar um planeta com calotas polares se derretendo, e tempestades, enchentes e secas cada vez piores.

Como explicou um dos manifestantes da Alemanha, "os estudantes se dão conta de que não faz sentido ir à aula se não têm um futuro". Apenas nesse país, "320 mil pessoas se reuniram nas ruas para a #GreveDoClima de hoje – nossa maior greve até o momento!", escreveu no Twitter o grupo Fridays for Future.

"Vocês estão ficando sem desculpas, nós estamos ficando sem tempo", dizia uma mensagem dirigida aos políticos em Berlim, enquanto outra questionava: "O clima está mudando, por que nós não estamos?"

No icônico Portão de Brandemburgo, cerca de 15 mil gritaram: "O que a gente quer? Justiça climática! Quando a gente quer? Agora!" Um adolescente escreveu em sua faixa: "Clima agora, trabalho de casa depois!" e "Não existe um Planeta B" – um slogan visto em diversas cidades, como, por exemplo, Istambul.

Os protestos ocorrem em meio às eleições para o Parlamento Europeu, que se realizam nos diferentes países membros da União Europeia de 23 a 26 de maio. Um faixa em Freiburg, no sul da Alemanha, explicitava a relação: "Eleição na Europa = Escolha do clima".


Em Varsóvia, cerca de mil estudantes se deitaram por algum tempo num cruzamento importante, fazendo-se de mortos, "simbolizando o que vai nos acontecer no futuro", como explicou um dos organizadores.

"Estamos todos no mesmo barco", lia-se numa faixa em Madri, expressando os sentimentos dos jovens que protestavam num total de mais de 120 países.

Em Londres, reunidos na Parliament Square, os estudantes exigiram reformas do currículo escolar para incluir mais material sobre as mudanças climáticas, sob o slogan "Ensinem o futuro".

Em Paris, a marcha reuniu pelo menos 15 mil ativistas, alguns portando os dizeres "Je suis climat" (Eu sou clima). Cem deles adentraram uma subprefeitura levando faixas que exigiam "Temos que abandonar os combustíveis fósseis, não subvencionar".

A iniciadora do movimento, a estudantes sueca Greta Thunberg, de 16 anos, falou em Estocolmo diante de um público de 4 mil: "Vamos ter uma crise existencial se não cortarmos pela metade nossas emissões de CO2 dentro de 20 anos. Estamos iniciando uma reação em cadeia fora do controle da humanidade. O tempo está acabando."

Entre outras palavras de ordem, seus seguidores entoavam: "Os oceanos estão se levantando, e nós também". A multidão aplaudiu ao chegarem notícias de que Bermuda, Jordânia e Serra Leoa estavam entre as novas adições aos protestos globais.

Parte das mensagens divulgadas nos protestos abordou a grave questão climática de forma bem-humorada. Como o cartaz em Oslo, segundo o qual "em breve a Terra vai estar mais quente do que um jovem Leonardo di Caprio".

Em Montpellier, no Sul da França, vários jovens foram às ruas trajando apenas roupa de baixo e folhas de parreira, com os dizeres "O chaud não deve continuar" – num trocadilho entre "show" e a palavra francesa para "quente". Em Turim, um cartaz mostrava o presidente americano, Donald Trump, com água até o peito.

Numa alusão ao famigerado slogan republicano das últimas eleições presidenciais americanas, manifestantes da Alemanha reivindicaram "Make the world cool again" (Faça o mundo fresco / legal de novo") e "The snow must go on!" (A neve tem que continuar). Outro cartaz advertia os adultos: "Se não nos levarem a sério, vamos cortar a aposentadoria de vocês".

A União Europeia e seus atuais 28 Estados-membros comprometeram-se em 2015, no Acordo do Clima de Paris, a limitar o aquecimento global a 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais. Para tal, as emissões de gases do efeito estufa deveriam reduzir-se até 2030, no mínimo, em 40% em relação a 1990.

Segundo diversos cientistas e ambientalistas, contudo, a Europa e todas as grandes economias precisam ampliar significativamente suas ambições. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU alertou em outubro de 2018 que o aquecimento está atualmente se encaminhando para um catastrófico incremento de 3ºC a 4ºC.

A chama

Há mais de um mês que as chamas faiscavam no forno da vidraria onde se faziam as garrafas e os copos.

Um dia , as chamas viram uma vela que encimava um belo e brilhante candelabro. Com grande ansiedade tentaram aproximar-se dela até que uma das chamas, escapulindo-se do tição de que se alimentava, virou costas ao forno e, passando por uma pequena fenda , lançou-se sobre a vela.

Mas, ao fazê-lo, a voraz chama consumiu rapidamente, até ao fim, a pobre vela. Não querendo morrer com ela a chama tentou regressar ao forno donde fugira.

Mas não conseguiu libertar-se da cera mole em que estava envolvida e, em vão pediu ajuda às outras chamas.

Chorando e gritando transformou-se num inoportuno fumo, deixando as suas irmãs no esplendor de uma vida duradoura e bela.

Leonardo da Vinci, "Fábulas"

A política das redes sociais

Foi-se a época em que a política era monopólio dos políticos, dos militares e dos diplomatas. Na política moderna, principalmente depois da II Guerra Mundial, passou a ser também o universo de atuação da burocracia e dos cidadãos, em razão da ampliação da presença do Estado na vida da sociedade e do surgimento de partidos de massas de caráter democrático. Eram esses os grandes atores da democracia representativa, que parecia consolidada após o fim da União Soviética e o colapso do chamado socialismo no Leste Europeu, até que a crise fiscal colocou em xeque as políticas social-democratas e social-liberais e os partidos políticos e a imprensa foram ultrapassados pelas redes sociais na formação da opinião pública.

O Brasil não está fora desse contexto, muito pelo contrário. O que vem acontecendo no governo Bolsonaro, a rigor, é anterior à sua eleição e faz parte desse processo, assim como foi a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, a vitória do Brexit na Inglaterra, a emergência de lideranças populistas em praticamente todos os países da Europa e a eleição de governos de extrema-direita em alguns países do Ocidente. O que acontece, em perspectiva, é uma corrida para reinventar o Estado e dar conta das mudanças provocadas pela globalização e o multilateralismo, nas quais as democracias do Ocidente enfrentam mais dificuldades do que os países autoritários do Oriente que estão se modernizando mais rapidamente.

Estados Unidos e China protagonizam essa corrida. Nas últimas décadas, houve uma mudança de eixo dos fluxos de comércio mundial, que se deslocaram do Atlântico para o Pacífico, o palco principal da guerra comercial entre essas duas potências econômicas, que lideram a economia do planeta. No passado, essa disputa se deu entre a Inglaterra e a Alemanha, de igual maneira, uma potência marítima e outra continental, provocando duas guerras mundiais. Espera-se que agora ocorra num ambiente de paz. O Brasil foi arrastado para essa disputa de maneira esquizofrênica, porque optou por um alinhamento automático com os Estados Unidos ao mesmo tempo em que não pode abdicar da China como principal parceira comercial. O mais correto seria tirar partido dessa disputa.

A eleição de Trump, com sua guinada nacionalista na política externa, nacionalista na economia e ultraconservadora nos costumes, foi uma resposta dos eleitores norte-americanos mais conservadores, ao desemprego e à grande massa de imigrantes latinos. De certa forma, os indicadores econômicos dos Estados Unidos mostram que a guerra comercial de Trump com a China e a contenção da chegada de imigrantes estão rendendo dividendos econômicos favoráveis, revertendo as altas taxas de desemprego. Não se deve subestimar a influência que isso vem tendo na política do Ocidente. Aqui no Brasil, a eleição de Bolsonaro, sua política econômica ultraliberal e conservadorismo radical nos costumes seguem o exemplo de Trump.

É aí que entra a política nas redes sociais. Sem elas, Trump não seria sequer candidato do Partido Republicano. De igual maneira, Bolsonaro não teria sido eleito presidente da República. As redes adquiriram tal protagonismo que já não se pode fazer política como antigamente, mesmo fora dos processos eleitorais. Isso vale sobretudo para os políticos, cuja relação com eleitores mudou radicalmente. O tsunami que varreu boa parte do Congresso mudou radicalmente o modo de atuar no parlamento brasileiro. Basta ver as “lives” que os deputados eleitos pelas redes sociais fazem constantemente no próprio plenário da Câmara e do Senado, com as transmissões ao vivo de sua atuação e narrativas “customizadas” sobre as sessões legislativas, com posts e vídeos com a interpretação de cada um sobre o que acontece no Congresso em tempo real.

A relação entre o Executivo e os demais poderes, inclusive o Judiciário, cujo vértice, o Supremo Tribunal Federal (STF), também é midiático, mudou significativamente, em meio a disputas pela afirmação de cada poder. Tudo mediado pelas redes sociais, nas quais partidos, grupos de pressão e cidadãos influenciam o posicionamento de cada parlamentar nas votações. Mesmo os meios de comunicação de massa tradicionais, inclusive a televisão, estão sendo obrigados a serem cada vez mais interativos e presentes nas redes sociais, para manterem seus públicos e influenciarem os novos atores. Os políticos tradicionais que sobreviveram ao tsunami de 2018 estão aprendendo a lidar com a nova situação e repensando sua forma de atuação, levados pelo instinto de sobrevivência e pela nova experiência que estão passando no próprio Congresso.

Entretanto, os políticos que emergiram das redes sociais, como o próprio presidente Jair Bolsonaro, também estão passando pelo aprendizado de ter que lidar com a política institucional, com as regras do jogo democrático e a dura realidade da distância existente entre o mundo virtual de redes sociais e a capacidade de dar respostas efetivas e velozes à crise do sistema representativo e do modelo de capitalismo de Estado colapsado pela crise fiscal. No caso do presidente da República, o caráter bonapartista de seu governo não o coloca acima de classes sociais bem definidas e partidos políticos, como no modelo clássico de “regime do sabre”, mas numa espécie de tapete voador ao sabor das ondas telemáticas de uma “sociedade líquida”, com risco permanente de volatilização da própria imagem. E aí que todos os atores em cena — políticos, militares, diplomatas, burocratas, formadores de opinião, influenciadores digitais e cidadãos — estão desafiados a encontrar saídas robustas para os impasses que se apresentam à democracia brasileira.
Luiz Carlos Azedo

Colapso do colapso

Nos dias de hoje, há uma sensação se colapso no ar. Não apenas por causa de represas rompidas, ruas inundadas, prédios tombados, mas também pelo sentimento de desgoverno provocado por partidos desmiolados, corporações insanas, governo destrambelhado, judiciário esquizofrênico e ostentatório no meio da pobreza persistente, economia em resistente recessão, filas imensas de desempregados, feminicídios diários e muitos outros sintomas de caos. Mas este colapso é histórico, vem de séculos de uma sociedade sem liga.

Nascemos ocupando um território deste lado, mas olhando para o outro lado do Atlântico. Não fizemos escolas e ainda menos universidades até diversos séculos depois da ocupação. Avançamos destruindo índios e explorando negros. Tropeçamos há cinco seculos nas divisões de grupos, classes, raças, regiões, sem um projeto comum sem perspectiva para o futuro: sem coesão nem rumo. Progressamos colapsando como um edifício sem alicerce nem estrutura.


Ocupamos o território, mas não montamos as necessárias redes de ocupação eficiente; criamos um sistema escolar, inclusive universitário, mas não demos substância educacional; nos transformamos em uma das maiores economias do mundo, mas concentrando a renda social e, sem produtividade, não avançamos na renda per capita.

No meio deste colapso, o governo corta recursos para a universidade, provocando o desabamento do que foi realizado até aqui.

Será uma tragédia se estes cortes levarem ao colapso das universidades, mas será uma tragédia também se não percebermos que que antes mesmo das malditas decisões do atual governo, nosso sistema universitário já vem colapsando, menos por falta de recursos financeiros e mais por falta do fundamental recurso de toda universidade: seu aluno vindo do Ensino Médio. Ainda bem que a universidade desperta e luta contra o colapso da falta de recursos, mas pena que não perceba nem lute contra a maior de suas tragédias: o colapso da falta de alicerce por causa do desprezo à educação de base.
Cristovam Buarque 

Pensamento do Dia


A pergunta que não quer calar: O que Bolsonaro vai ganhar com a manifestação?

Jair Bolsonaro é um político estranho e demonstra grande ingenuidade. Deu declarações dizendo que os atos públicos deste domingo são “uma manifestação espontânea do povo”. Mas na verdade isso não é verdade, conforme já revelamos aqui, porque a iniciativa partiu dos filhos de Bolsonaro e do escritor Olavo de Carvalho, em represália ao fato de terem sido afastados das atividades governamentais por ordem expressa do presidente, atendendo a expresso pedido do núcleo duro do Planalto e dos comandantes das Forças Armadas, no último dia 7, em almoço no Quartel-General do Exército.

Não houve a menor dificuldade para convocar a manifestação nacional deste domingo. O filho Zero Dois, vereador Carlos Bolsonaro, apenas mobilizou o esquema das redes sociais que vem usando desde a campanha eleitoral e rapidamente a conclamação era uma realidade.


Mas houve um erro estratégico na organização do evento. Ao instruir os internautas a divulgarem a realização dos atos públicos e organizá-los em cada cidade, Zero Dois foi logo dizendo que os eventos estavam sendo organizados para mostrar a força do presidente Bolsonaro, com o objetivo de esculachar o Congresso e o Supremo, que não apoiam o pacto anticrime, a Lava Jato e o decreto das armas.

Surgiram, assim, os cartazes virtuais defendendo o impeachment dos ministro Gilmar Mendes e Dias Toffoli, mostrando as fotos dos dois integrantes do Supremo, enquanto outras mensagens de convocação preferiam atacar os presidentes da Câmara e Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre..

No início, Bolsonaro adorou a ideia dos filhos e de Olavo de Carvalho, sem perceber que não iria ganhar nada com os ataques ao Supremo, à Câmara e ao Senado, muito pelo contrário. No Planalto e fora dele foi aconselhado a cancelar a manifestação, mas já estava muito em cima, os aliados mais fanáticos se desapontariam, o presidente mostraria ser um vacilão.

A solução encontrada foi Bolsonaro continuar apoiando a manifestação, mas passando a fazer a ressalva de que nada havia contra o Congresso e o Supremo. Além disso, esclareceria que se trata de manifestação popular espontânea, o governo e seu partido, o PSL, nada tinham a ver com o evento. E foi justamente por isso que o presidente cancelou sua participação e pediu que os ministros não comparecessem.

O resultado é que, ao invés de unir os aliados de Bolsonaro, tal a demonstração de força dividiu as bases e causou desentendimentos internos antes mesmo de acontecer. Essa situação fez surgir a perguntar que não quer calar – O que Bolsonaro e o governo têm a ganhar com essas manifestações?

Exército vermelho



País onde os inocentes pagam pelos errados
Luciana Nogueira, viúva do músico Evaldo Rosa dos Santos, fuzilado por militares soltos pelo STM

O verdadeiro algoz da direita

Em tempos de manipulação das massas, com o atual governo apelando para um discurso que ameaça nossas instituições democráticas de modo a encobrir a própria incompetência, torna-se impossível não evocar exemplos passados.

Talvez surpreenda os mais jovens, porém Fernando Collor de Mello usou da mesma estratégia: tentou inflamar a parcela da sociedade que o elegeu presidente, ao acusar o establishment de atrapalhar o seu governo. Por falar em manipulação das massas, talvez ninguém tenha feito tanto pela idiotização generalizada, decerto não por tanto tempo, quanto Lula durante o período em que esteve no poder. Antes e depois disso, inclusive.

Tratando dos dias atuais, contudo, devemos reconhecer o mérito da gestão Bolsonaro em alcançar um feito jamais sonhado por qualquer político – em especial pelo próprio Lula, o PT e a esquerda como um todo: inviabilizar o estabelecimento formal de uma direita conservadora relevante e do liberalismo econômico no Brasil.

Após quase duas décadas de domínio político irrigado financeiramente por um esquema corrupto que visava a hegemonia, o compreensível impulso do pêndulo eleitoral para longe do campo progressista possibilitou um momento oportuno para o ensejo de novas ideias. Chance única de mostrar aos brasileiros alternativas na forma de se administrar o País. De que, se patrulhas ideológicas em qualquer área não são toleráveis, isso é ainda mais verdadeiro quando afeta políticas públicas. E que o discurso radical deveria ser deixado de lado, se realmente estivermos interessados em prosperar como nação, tanto no aspecto econômico quanto no social.

Pois, avis rara, tal chance está sendo desperdiçada. Na esteira da incompetência, dos disparates do presidente, de seus filhos, ministros e sustentadores, a mácula é inevitável. Respinga não apenas em outra visão de mundo, mas também em um modo diferente de fazer as coisas.

Assim, se à época de Lula a direita era propagandeada como insensível, até mesmo cruel, Bolsonaro faz de tudo para reforçar esse estigma. Se o conservadorismo era vendido como obscuro, até mesmo tirano, eis que surge o bolsonarismo para dobrar a aposta. E ainda sobrou para o liberalismo econômico, já que o mercado, de gaiato, resolveu entrar como padrinho nessa barafunda. Inês é morta, já dizia o outro. Que sirva de lição para não votarmos mais com o fígado. E sim, com a cabeça.

Os tristes efeitos da miséria

Ontem, ao ler o artigo da jornalista Rebeca Scatrut neste blog de seu marido, Ricardo Noblat, senti a mesma aflição experimentada ao assistir o filme ‘They shoot horses, don’t they?’, baseado no livro de Horace McCoy e dirigido pelo brilhante Sydney Pollack.

A história se passa durante a grande depressão americana da década de 30, quando a pobreza e a falta de oportunidades para sair do sufoco fizeram surgir situações dramáticas e deprimentes naquele país que até então era considerado o farol que levava ao paraíso.

O filme gira em torno de uma dessas situações: a maratona de danças, programa ininterrupto que em vez de girar em torno da alegria que a música e a dança geralmente provocam, gira em torno da tristeza e da desesperança que a miséria da Depressão espalharam por aquele país.

É, sem dúvida um dos grandes filmes produzidos em Hollywood. Os participantes da maratona, desesperançados e tendo como única ambição o prêmio de 1.500 dólares que o par que resista até ao fim essa exaustiva e dolorida maratona receberá. Os maratonistas, cansados, exaustos, fracos, vão largando o salão e no fim, sobram três pares em péssimas condições físicas, sendo que uma das moças, interpretada por Jane Fonda, pede para morrer alegando: “cavalos lesionados nas corridas são mortos, não são?”.


Estamos numa fase quase tão negra quanto a da depressão americana. Ou talvez mais. O desemprego está num nível indecente. A saúde pública inexiste. A segurança da população é uma farsa. Ande pelas ruas das grandes cidades brasileiras e sinta a miséria que perpassa pelo ambiente.

E como se não bastasse essa angústia, leio em nossos jornais sobre um evento macabro que aconteceu em Cuiabá: um desfile de crianças apresentadas ao público como passíveis de adoção. Maquiadas, bem vestidas, como se da realeza fossem, para serem escolhidas como filhas ou filhos por pessoas dispostas a adota-las.

Quem quer criar e amar uma criança pensa em muitas coisas antes de adota-las. E é bom que pense. Mas se estão bem vestidas, maquiadas, penteadas, perfumadas, serão essas as qualidades que farão a diferença entre uma ou outra criança?

Desculpe, organizador da Campanha da Adoção, mas será que não houve um engano aí? O desfile era mesmo para adoção?
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa