sábado, 7 de janeiro de 2017

Ano novo, vida nova: A necessidade de refletir sobre o politicamente correto

Começo dizendo que, quando as pessoas começam a pensar que um mero agradecimento a Deus é sinônimo de ser retrógrado ou até mesmo de burrice, deixando de fazê-lo, aí estaremos diante de um caos absoluto chamado politicamente correto e que vai evoluir na perda de nossa individualidade até nossos sentidos ou sentimentos humanos. O pensar será desnecessário, já que existem pessoas que pensam por mim. Tirando um sentimentalismo que, espero, é o último reduto para uma bondade natural, de resto o que sobra é uma mera máquina de repetição do senso comum.

Os afazeres e a correria do nosso dia a dia quase sempre nos impedem de pensar e refletir sobre se nossas ações estão sendo boas ou más, se são capazes de nos atingir positiva ou negativamente. O cotidiano feroz que entendemos como uma necessidade nos é como um obstáculo intransponível ao reconhecimento de nossa necessidade de reflexão sobre a própria vida. A pressa, a necessidade de dar conta de tudo, o trabalho, ganhar dinheiro, enfim, tudo que ocupa nossa mente e nossa atenção objetiviza nossa vida e faz de nosso reflexo no espelho parecer tudo muito estranho.

Embora politicamente correto, o apelo ecológico que abrilhantou a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016, se choca com a dura realidade da poluição na Baía de Guanabara, onde alguns jogos serão disputados e também com a própria conduta do povo brasileiro no que se refere a ações de preservação do meio ambiente que muito deixam a desejar.:

Aí, surge final de ano com a expectativa de um novo marco zero a partir do começo do ano, onde se pensa em tudo se iniciar para fazer melhor, ou fazer do contrário, diferente, enfim, desta vez fazer dar certo. Parece que somente nesse tempo é que temos a chance de vermos o espelho de nossa alma, de observarmos nossa própria vida e do jeito que a estamos conduzindo, se positiva ou negativamente. A começar pelo simbolismo representativo do natal, que nos cai como momento necessário de reflexão e avaliação para posterior, se for o caso, mudança, os dias que sucedem após a data em que se comemora o nascimento de Jesus nos servem para pensar. Nesse grande momento, não duvido que devem existir pedidos ateus de socorro a Deus.

Tudo isso é muito louvável. O bom e o ideal seria que isso acontecesse todos os dias, numa pausa reservada para meditação ou em algum intervalo de pensamento no trabalho. Theodore Dalrymple faz esse exercício sempre quando vai em livrarias e pega livros ao acaso, neles também tendo encontrado os mais diversos objetos que os faz pensar. Desse seu costume fez publicar O prazer de pensar, onde cita: “Encontramos coisas em livros velhos: principalmente insetos mumificados, é claro, mas também manchas de sangue, flores secas prensadas, bilhetes velhos de ônibus, listas de compras, fichas de embarque, orçamentos de consertos a serem feitos, contas de açougue, marcadores de páginas de livros anunciando seguros de vida, festivais de arte e livrarias e alguns chegam a chamar o leitor para a fé e o arrependimento.” (o destaque é meu). Ou seja, não duvido que as livrarias e os livros aleatoriamente pegos sejam os seus oráculos.

Porém, se é sempre apenas em momentos de descanso prolongado que nos tornamos mais introspectivos e subjetivos é porque tem algo de muito errado acontecendo…

Às vezes caímos na armadilha enganosa de sempre agradar aos outros mais até do que a nós mesmos. Nessa trilha auto fraudulenta, deixamos de opinar, aconselhar, manifestar o que pensamos, enfim, até mesmo de ajudar quem não tem o conhecimento e precisa dele, quando nós o temos. Há, de nossa parte, um receio de perder alguma coisa que nos é muito valioso. Politicamente, achamos que o correto é ser o isento, o neutro, o que ainda não tem opinião formada sobre o assunto. Há sempre algo mais valioso a ser preservado do que a manifestação de uma opinião que pode custar, em tese, muito caro.

Vivendo enredados, os politicamente corretos estão dispostos a acreditar sempre na bondade natural de Rousseau e acreditar que o ser humano é sempre bonzinho e esquecer do pecado original e da queda que leva a uma consciência cética, a qual acredito estar correta para os dias que seguem. A gênese de um tal estado de coisas digamos “modernas” ou “progressivas” (como se tudo que estivesse acontecendo fosse algo natural e rumo a um bem comum de mais liberdade, igualdade e fraternidade em escala mundial) remonta a Jean Jacques Rousseau, que pregou uma sementinha do mal com os seus discursos (romantismo, totalitarismo, moderna antropologia, revolução sexual e da família foram deflagrados em parte por força de suas idéias). Para ele, o homem primitivo era bondoso e inocente. Ao contrário do que o cristianismo prega e parece ser uma impressão falsamente difundida no meio público, o homem nasceu bom mas pecou e, por isso, os conceitos de queda e de pecado original que estão a permear, sem discriminação, as impressões sobre todos.

Isso prejudica, pois encerra um alto preço pessoal a pagar, um sentimentalismo tóxico que impregna o fundo da alma humana. Não se quer ser egoísta e ao mesmo tempo há necessidade de não se desprezar o “eu” que fala muito alto dentro de cada um. Há a criação impensada de um paradoxo a ser resolvido.

A postura politicamente correta de hoje em dia, na sua grande maioria extremada e ressentida, acaba por reprimir sentimentos e interesses maiores e mais valiosos do que aqueles defendidos pela postura contrária. Se esses politicamente corretos deixassem de o sê-lo, veriam o quão grande e autêntico galardão que ganhariam. No entanto, não é o que ocorre e as consequências são de uma larga desvantagem para os interesses pessoais, pois eles são deixados em segundo plano. Aqueles que, por conta de posturas politicamente corretas, sufocam os seus sentimentos mais ou menos aflorados, deixam de lhe garantir uma vida altamente qualificada se adotassem proceder contrário. Em resultado na própria saúde física e mental, a ciência já detectou que reprimir gritos de denúncia, de socorro ou de mera manifestação pessoal de um sim ou de um não sintomatizam o corpo com as mais variadas doenças cuja origem é a repressão.

Afora isso, pode-se contar também que terceiros resultam como pessoas atingidas e vitimizadas pela negligência ou condescendência politicamente correta. Foi divulgado na internet o caso de um pai que deixou de denunciar o abusador de seu filho por receio de estar lhe agredindo. Ou seja, quis mais proteger o abusador do que o seu próprio filho! A escolha mais acertada para esse ajuste de condutas é pensar no coletivo, no bem comum, no outro, sabendo-se que agindo de forma contrária estará sendo ofertado à comunidade um bem maior, que é o resgate da consciência da verdade e possibilidade de reflexão e mudança dali em diante. Exemplos de uma cultura sentimentalista e politicamente correta vemos diariamente. É o professor e os pais que não disciplinam o aluno e os filhos por acharem desnecessária a correção ou por quererem ser modernos. São os desvios de intelectualidade com os novos direitos que vieram em prol de desprotegidos ou supostos desprotegidos, os quais acabam sendo deturpados em seu núcleo essencial e virando abuso de direito.

Theodore Dalrymple diz que o triunfo da visão romântica da educação foi desastroso por coincidir com o triunfo da visão romântica das relações humanas e, em especial, da família. Ou seja, traz-se a falsa ideia de que todas as relações humanas devam ser perfeitas, sem desavenças ou sempre sorridentes, inclusive na relação entre pais e filhos, uma falsa prática e um ideal a ser perseguido em continuidade, quando o contrário é o que se tem. Nada é perfeito e tudo tem os seus momentos de crise. Quando se mistura interesse financeiro com dever e se tem desgaste, nada além do amor e do afeto deve ser mais observado, dizem os românticos. Aí, não temos mais estabilidade nas relações sociais, inclusive familiares, e qualquer crise, por mais simples que seja, é motivo de ruptura total. Aqui, neste ponto, há uma verdadeira inversão de valores em jogo, algo que se está deixando acontecer por imperceptível diante de uma cultura transformada ou que se quer transformadora de uns tempos para cá. As artimanhas esquerdistas e extremadas caiu num senso comum e faz parecer que tudo seja verdade, objetivo último do fim socialista e comunista dos antigos ainda em perseguição. De um certo cárcere italiano, já que preso a mando de Mussolini, levou ao mundo seus cadernos com a fórmula para a destruição cultural no ocidente judaico-cristão. A inversão de valores que hoje se sente, o sentimentalismo impregnado na mente e como resultado de uma bondade natural são o norte do agir de um politicamente correto. Theodore Dalrymple escreve que “O politicamente correto é muitas vezes a tentativa de tornar o sentimentalismo socialmente obrigatório ou aplicável por lei”.

A postura politicamente correta é de cunho político, já que por trás dela existe uma ideologia tida por salvadora e ela pode ser considerada um instrumento de cunho neutralizador de seus opositores. Apesar dessa sua natureza, carrega em si uma grande carga de cunho emocional e psicológico, já que é resultado de um ato do pensamento ou espiritual. Sabendo-se que é em nossas mentes que circulam os menores e maiores demônios, não devemos jamais desprezar o passado nessa luta, o histórico, o legado que nos foi deixado até o presente momento. Cito Jesus Cristo como o homem que mais influenciou a história no caminhar da humanidade até aqui, tendo ele dado criação a uma cultura que se vê em nós até os dias atuais, assim como, por sua causa, guerras e revoluções foram desencadeadas e estão sendo ainda planejadas nos dias hodiernos e em escala global. Não somente guerras com material bélico de fato, mas, principalmente, no espaço cultural e espiritual (novamente cito Antônio Gramsci, muito embora o pessoal “pensante” ou auto endeusado que lhe antecedeu também quis aniquilar o legado judaico-cristão e cujas mazelas se sentem ainda hoje). E a saga politicamente correta nada vê, nada ouve, nada sente, nada sabe, nada manifesta em uma conduta que chega a ser criminosa (o caso da imigração em massa e que está levando inocentes à morte na Europa). Jesus trata o politicamente correto dessa forma: pelo amor. O seu legado não foi de moralidade, e sim de relacionamento. E também desta: sim sim ou não não. Ou seja, sejamos firmes e não fiquemos em cima do muro. E, por fim, também desta: ser humilde e não passivo. Ser isentão é querer viver à sombra dos outros e do destino que nos é imposto, o qual pode ser por nós mesmos construídos e do nosso próprio jeito.

Sergio Renato de Mello

E a responsabilidade dos governos, enfia aonde?

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Cada cidadão é responsável por combater o mosquito
Ricardo Barros,  ministro da Saúde

O riso do diabo

Em 1963, consegui meu primeiro emprego. Tinha 18 anos recém feitos e fui contratado para trabalhar como auxiliar de administração no Presídio Central de Porto Alegre. Cursava o último ano do Científico (etapa final do ensino médio da época), preparava vestibular, ganhava uma merreca, mas sabia que, com aquela idade, deveria comprar meus próprios cigarros (levei 40 anos para me livrar disso!). O presídio que me permitia fumar com o suor do meu rosto fora inaugurado quatro anos antes e era o mesmo hoje apontado como o pior do país. No ano seguinte, fui aprovado num concurso e efetivado como funcionário do órgão que administrava os institutos penais do Estado. Novo em folha, articulado com outros dois estabelecimentos da região metropolitana, o Central cumpria perfeitamente bem suas funções.

Faço esse relato para referir a degradação do sistema penitenciário brasileiro. A exemplo de tantos outros aspectos da vida nacional - mal sabem disso os leitores jovens - nosso sistema penitenciário já foi melhor. Aliás, o Brasil, também já foi melhor. Imperfeito, claro, mas em quase tudo superior a este onde nos trouxeram as filosofias que adotamos e as políticas que escolhemos.

Entre 1959, ano-base deste relato, e 2015, a população do Rio Grande do Sul apenas duplicou, o Produto Interno Bruto cresceu 10 vezes (se não me enganei nas contas que pude fazer a partir das tabelas da FEE disponíveis na rede) e as alíquotas dos tributos estaduais sofreram diversas majorações. Apesar disso, o poder público estadual não tem, no horizonte, a menor perspectiva de recuperar capacidade de investimento e retirar o sistema penitenciário da falência.


Impossível recusar o que explode diante de nossos olhos. Sucessivas décadas de imprudência, imperícia e negligência, levaram as unidades da Federação e a própria União Federal à atual ruína. Ela foi gerada por governos perdulários e suas prodigalidades; pela ávida busca das manchetes e benefícios políticos de planos de impacto meramente publicitários; pela corrupção e pelo histórico patrimonialismo que confunde e funde o público e o privado; pelos corporativismos espraiados nos poderes de Estado, contaminando a atividade privada e transformando o que é público num botim sob múltiplos e permanentes ataques.

A miséria do sistema penitenciário tem outras causas adicionais. A sociedade brasileira foi, deliberadamente, submetida a uma sistemática destruição de seus valores. Ridicularizou-se o bem e se relativizou a verdade; o errado fala do alto das torres e o certo sussurra nos porões; silenciaram-se as consciências e se tornou proibido proibir; jogou-se sobre a alma da vítima o peso de todos os males sociais e se aliviou a do criminoso, de quem não seria possível exigir outra conduta. Nossos policiais não temem enfrentar os bandidos. É das críticas da sociedade e das manchetes que têm receio. Por causa delas muitos morrem, desnecessariamente, em combate.

Antes da carnificina nos presídio de Manaus e Roraima, houve a chacina da lei e o estupro da ordem. Lá atrás, bem antes de tudo, reprimiu-se a necessária repressão ao mal. Lavrou-se, cuidadosamente, o terreno para a insanidade geral, enxotando-se a propagação do bem, do verdadeiro sentido da liberdade e da responsabilidade. Foram décadas de elogio à loucura! Agora, o diabo ri seu riso sarcástico diante das cabeças decepadas. Ali estão as oferendas da estupidez, dispostas frente ao seu altar. E a ironia o faz seguir gargalhando de uma nação que se extraviou ao ponto de perder, para as facções criminosas, o controle de seus presídios.

Percival Puggina

Audrey Hepburn cantando

Audrey Hepburn, no filme "My fair lady", foi dublada por Marni Nixon,
a voz por trás de muita outras atrizes. Aqui é a própria Audrey cantando

Estado que humilha

As grandes corporações dominam a economia e isso cria uma grande leva de pessoas pobres. O Estado deve apoiá-las, mas não quer ou não tem recursos. Por isso cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua. Porque você não preencheu seu currículo direito ou chegou tarde a uma entrevista.  
B2/C1: ¿Qué ves en la imagen?, ¿qué es la globalización?, ¿qué aspectos positivos y negativos tiene? ....:
Montam um sistema burocrático que te pune por ser pobre. A humilhação é um elemento-chave na pobreza. Rouba a sua dignidade e a sua autoestima. E o Estado contribui para a humilhação com toda essa burocracia estúpida
Ken Loach, diretor de "Eu, Daniel Blake", que conta a história de um homem bom abandonado por um sistema mau. Sem renda, solicita apoio do Estado e se vê enroscado em uma cruel espiral burocrática. Esperas absurdas ao telefone, entrevistas humilhantes, formulários estúpidos, funcionários desprovidos de empatia por causa do sistema

Atrás das grades

– Alô, José, pode me passar o que foi encontrado aí atrás das grades?

– Sim, senhor. Deixa ver, deixa ver: aparelhos de ar-condicionado, móveis de luxo, celulares, dólares, joias, drogas…

– Peraí, conseguiram as drogas com quem?

– Com o nosso pessoal, né? Também o básico: facas, garfos, colheres, torradeiras, micro-ondas, frigobar, TV…

– De que tipo?

– Daquelas com tela plana e sinal digital.

– Ah, essas vítimas da sociedade! Se justificam dizendo o quê?!

– Dizem que têm o direito de ter.

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– Hummm. E nossa vigilância? Viu tudo isso entrar no mole?

– Acho que qualquer um vê, né? Essas coisas não entram sem serem notadas.

– Cara, e ainda se queixam…

– Se queixam muito, senhor. Principalmente da opressão. E que não podem dar um passo sem uma câmera de vigilância controlar. E que há muitas regras e horários, a revolta de sempre.

– Nosso homem infiltrado já sabe como melar isso tudo?

– Sim, senhor. Deu todo o serviço. Operação armada.

– Bom, bom. Manda estourar. Pra já.

– Com violência ou sem violência?

– Vai depender deles. Não reagiu, violência moderada, só pra mostrar quem manda. Reagiu, pode aloprar!

– Beleza! E o senhor, senhor, sai aí da cadeia quando?

– Eu? Ah, não f*! Aqui dentro só tem irmão e eu sou topo da cadeia alimentar. Aí fora tu sabe: ninguém tá seguro.

Rubem Penz

Paisagem brasileira

Wilson Vicente

A culpa não é do mordomo, Temer

A maior epidemia no Brasil não é a da chikungunya. A carnificina de 56 detentos, mutilados e decapitados no presídio de Manaus, filmada sem vergonha ou medo, desnuda uma endemia histórica e nacional: a mediocridade de nossos quadros públicos, a omissão federal, estadual e municipal na segurança, o jogo de empurra venal que faz vítimas dentro e fora das cadeias e as parcerias suspeitas entre a política e o narcotráfico, que envolvem dinheiro, poder e empresas.

Vivemos a terceirização da culpa. É uma endemia, não uma epidemia, por ser crônica. Mata a credibilidade de instituições e autoridades. Visa diluir a responsabilidade e confundir a opinião pública. Não chegaremos a lugar nenhum se não houver mea-culpa no cartório. Vemos o desespero para encontrar um bode expiatório, seja na matança de Manaus, no descalabro do Maracanã ou no crime ambiental de Mariana. Planos e programas redigidos às pressas, com medidas paliativas e espetaculosas, não exterminarão o vírus. É preciso enfrentar algumas verdades duras.

Não temos um ministro da Justiça à altura dos desafios da segurança pública. Por quanto tempo ainda ouviremos as bobagens de Alexandre de Moraes, o mesmo que defende “a erradicação da maconha”? No dia 18 de outubro, Moraes chamou de “mera bravata” a briga entre facções de detentos, ao comentar mortes em presídios do Norte. Disse não enxergar coordenação entre facções de vários estados. Moraes não deve enxergar um palmo diante do nariz. Para o ministro, a matança de Manaus foi “uma clara falha” da empresa Umanizzare, contratada pelo governo do Amazonas para administrar o presídio.

A aparição do presidente Michel Temer, depois de silêncio ensurdecedor, também foi desastrosa. Chamar de “acidente pavoroso” o massacre anunciado de Manaus não tem justificativa. Era normal que Dilma Rousseff, conhecida por seus tropeços na língua, cometesse uma gafe após a outra. Mas quem adora uma mesóclise e uma mesura precisa estar ciente de que não se pode chamar de acidente ou fatalidade o que aconteceu no Amazonas.


Todos os alertas já tinham sido emitidos em relatórios da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. Havia um plano de extermínio. Havia mensagens. A facção FDN (Família do Norte) planejava torturar e matar os presos da facção rival PCC (Primeiro Comando da Capital). Era investigado um suposto acordo entre o governador do Amazonas, José Melo, e a FDN. Já se sabia da ligação entre a FDN e o Comando Vermelho (CV) do Rio de Janeiro.

Pavorosa mesmo foi a omissão do governo federal e do governo estadual. O descaso com as condições carcerárias medievais não começou com o mandato de Temer – mas um presidente precisa saber o que falar à nação nessas horas dramáticas, para não parecer perdido. A emenda foi pior que o soneto.

Temer, a exemplo de Moraes, colocou a culpa no mordomo, a Umanizzare. Disse que “a responsabilidade direta e imediata” era da empresa. Não cola. Numa parceria público-privada para gerir um presídio, é evidente que a segurança dos presos e a entrada de armas de fogo são responsabilidade do Estado. Os presos estão sob custódia do Estado. Como colocar vida e morte nas mãos de uma empresa privada que ganha por preso, que subcontrata empresas do mesmo dono e é dona de concessões para administrar oito complexos prisionais no Amazonas e no Tocantins?

A maioria da população não sente a menor empatia pelos presos. Quando o governador José Melo diz que “não havia nenhum santo” na pilha de mortos, mas sim “estupradores e matadores”, sabe que fala em nome de quem não sente pena de bandido e não acredita em ressocialização. Muitos não analisam o quadro geral. Há presos “provisórios”, sem julgamento, nas cadeias. Há presos que já cumpriram sua pena, esquecidos. Há inocentes e ladrões de galinha junto a homicidas. E, fora dos presídios, também está difícil encontrar santo, não é mesmo, senhores ministros, governadores, prefeitos, deputados, senadores?

De que adianta construir uma rede de presídios que só fará cócegas no déficit de 250 mil vagas e elevará ainda mais o custo do preso? Uma das informações que mais indignaram o cidadão honesto nesse “acidente pavoroso” foi saber que o governo do Amazonas paga por mês à Umanizzare R$ 4.709,78 por preso – enquanto o salário mínimo é de R$ 937. Isso está acima da compreensão popular.

Outro dado que não comove a população, por mais terrível para os padrões internacionais, é que uma pessoa é assassinada por dia em prisões do país. Em 2015, foram assassinadas 58.492 pessoas no Brasil. A imensa maioria fora dos presídios. É macabro. E não vejo no Ministério da Justiça ou no Planalto alguém com capacidade e estratégia para aglutinar a sociedade, repensar a fracassada política contra drogas e amenizar nossa guerra civil.

A austeridade é progressista

Na política, ser progressista é pensar e agir olhando o futuro, sem medo do novo e querendo domá-lo para servir a propósitos de liberdade, igualdade e sustentabilidade. Neste sentido, a política brasileira não foi progressista nas últimas décadas, porque se caracterizou pela irresponsabilidade do desperdício e não considerou as consequências no futuro.

Buscamos aumentar aceleradamente o consumo, sem perceber os limites ecológicos; gastamos desenfreadamente, sem perceber os limites fiscais. Em busca de votos e apoio para o imediato, as forças que deveriam ser progressistas caíram nas mesmas promessas dos reacionários, com o agravante da demagogia de prometer elevado consumo privado para todos.

Gastos públicos, lucros privados (Imagem da internet)

A esquerda brasileira abandonou os filósofos socialistas e adotou a economia keynesiana; preferiu abandonar a luta pelo público prometendo que o Estado proveria a renda necessária para o consumo individual por transferências de renda para os consumidores e subsídios para os industriais. O resultado desta aliança perdulária ficou visível na crise fiscal dos estados, municípios e da União.

Foi a pedagogia da catástrofe que despertou nossos prefeitos recém-empossados para a defesa e imposição de medidas de austeridade. O Brasil e cada estado e cidade estariam melhores se, décadas atrás, a política brasileira tivesse descoberto o valor moral e a eficiência fiscal da austeridade. Se no lugar da bandeira da renda e do consumo, as esquerdas tivessem adotado bandeiras educacionais com escola pública de igual qualidade para todos; e se no lugar de os prefeitos se vangloriarem por gastar muito em educação, eles fossem prestigiados pelos bons resultados, se possível com gastos menores.

A austeridade sempre foi uma bandeira histórica da política e dos políticos de esquerda, antes de eles serem corrompidos pelo imediatismo, pelo corporativismo, pela renda e o consumismo. A literatura mostra que a vida pessoal de cada militante era austera, quase franciscana, e suas bandeiras tinham rigor nos gastos, os desperdícios eram caracterizados como pecados burgueses.

Para ser progressista, a austeridade tem de fazer escolhas que beneficiem a população e o país, ao invés de benefícios individuais, benefícios públicos; tem que se preocupar com a essencialidade (escolas ou estádios) e com a eficiência (sem corrupção, nem desperdícios), dois fatos renegados nas últimas décadas; em vez de gastar mais, gastar melhor; no lugar de atender às vozes das corporações de eleitores de hoje, entender o que desejam as crianças para o Brasil onde elas viverão.

Esta é a austeridade progressista que a esquerda abandonou e que a pedagogia da catástrofe está forçando ser adotada por todos os partidos, a um alto custo; porque abandonada no passado, a austeridade agora é necessária mesmo provocando dificuldades. Teremos de enfrentá-la e, depois, praticá-la não como medida emergencial, mas como prática moral permanente: uma austeridade progressista, comprometida com o interesse público e com eficiência técnica.

A barbárie que dá lucro

O governador do Amazonas, José Melo, não é um político muito original. Depois do massacre de 56 detentos no maior presídio do Estado, adotou a velha tática de culpar os mortos. “Não tinha nenhum santo”, disse, em entrevista à CBN. “Eram estupradores e matadores que estavam lá dentro”, acrescentou.

Ao repetir o discurso brucutu que prolifera nas redes sociais, Melo tenta se eximir de responsabilidade pela matança. Antes que alguém pergunte se existem santos no governo amazonense, é preciso questionar o que as autoridades locais fizeram para evitar o banho de sangue. Ao que tudo indica, não fizeram nada.

Caminhão transporta corpos de mortos em chacina em Manaus

O presídio estava superlotado, com quase três detentos por vaga. Armas e drogas circulavam livremente, e os presos usavam celulares para comandar o crime de trás das grades.

Em outubro, o CNJ classificou a unidade como “péssima”. A inspeção constatou que os detentos não recebiam assistência jurídica, educacional, social ou de saúde. Tratados como animais, reagiram à altura, como sugerem as imagens de corpos decapitados na rebelião.

Além de evidenciar a falência do sistema carcerário, a barbárie de Manaus lembra que a privatização não é uma solução mágica para todos os problemas brasileiros. O palco da chacina foi terceirizado em 2014, quando Melo assumiu o Estado.

Nesta quarta-feira, o Ministério Público de Contas pediu a rescisão do contrato por indícios de superfaturamento. Uma das empresas sob suspeita doou R$ 300 mil à campanha do governador à reeleição. Ao que parece, a desordem nas cadeias amazonenses era um negócio lucrativo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Television Leads Us, Angel Boligan:
Angel Boligan

Meia dúzia de coisas que incomodam, para dizer o mínimo

O ano de 2017 entrou violento, como a querer dizer que fomos precipitados em comemorar a saída de 2016. O Brasil está numa fase que, Deus nos perdoe, torna quase que impossível ter esperança por dias melhores.

Mas há salvação... Segundo a capa da revista VEJA do último fim de semana, a grande cartada do Palácio do Planalto para tirar a popularidade do Governo do atoleiro é a agenda de aparições da jovem e bela primeira-dama, Marcela Temer. E, como todos sabemos, um governo popular pode muito mais.


Ao ler que os grandes desafios do governo, aqueles que farão 2017 um ano a ser amado, dependem pois da beleza, dom que Santo Agostinho associava à Verdade; fico mais animada pois, de fato, dona Marcela é o tipo da beleza clássica que agrada aos Céus.

Mas, e os pequenos desafios? Que entra ano sai ano, só continuam a estressar, a irritar, a incomodar o cidadão, esse ser sem importância, anônimo, sem poder? Quem vai cuidar deles? Será que o poder da Beleza dará para tudo isso, tanto os detalhes monumentais quanto os infinitesimais?

Por exemplo:

1) O descuido com as calçadas: falta manutenção permanente, para que não haja tombos que causam danos muitas vezes sérios, sobretudo em idosos; cuidar para que haja rampas de acesso para cadeirantes; não permitir objetos como caixas, mesas, cadeiras, escadas, que obstruem a passagem do pedestre que é, é bom sempre repetir, o verdadeiro dono das cidades!

2) Iluminação pública maluca: lâmpadas acesas durante o dia ou apagadas à noite. Absurdo comum em muitas ruas do Brasil.

3) A Internet: geralmente cai a linha no meio de um trabalho. Ou quando estamos enviando ou recebendo uma mensagem. Ligo para o provedor. Depois de ouvir o robô oferecer muitas opções, escolho a que me interessa: falar com o atendente. A espera é longa e duas coisas podem acontecer: ou me informarem que está havendo uma manutenção na área ou um atendente pedir para eu desconectar cabos em profusão e aguardar alguns minutos para reconectá-los e quando nada acontecer, ouvir que vão agendar uma visita da assistência técnica.

Pior: você liga, já estressado, para perguntar o que houve com sua conexão com a Internet e ainda tem que ouvir o robô lhe aconselhar a acessar o serviço via Internet!

4) Ida aos bancos: nas grandes agências, fieiras de guichês e dois ou três dedicados funcionários para atender aos clientes. Resultado, longas filas. Saio sempre intrigada: por que tantos guichês e tão poucos ocupados por funcionários?

5) Teles, ah! as teles! – Mensagem comum: Telemar: esse número não existe. Como assim, não existe, penso eu: é o número da minha casa há uns quinze anos. Está em débito automático no banco. Mas é o que a Telemar me informa. Desligo, ligo de novo e aí, miracolo! ele volta a existir!

Ainda a Telemar: Não é possível completar a sua chamada com o número discado. Por favor, consulte o serviço de auxílio às listas. Auxílio às listas? Onde? Vou é verificar onde anotei. O número é esse mesmo. Volto a ligar, ele continua inexistente. Tento mais tarde e, de repente, ele existe!

E o telemarketing? Será que existe alguém no mundo que goste de receber – e ouça? – ligações de telemarketing? Ou mensagens de celebridades que você nem conhece e que mais aborrecem que colaboram com quem quer que seja?

6) Poucas coisas me incomodam mais do que o uso estranhíssimo do verbo Estar. Antes da hecatombe que o abateu, era normal ouvi-lo para informações do tipo: estarei aí depois de amanhã. Hoje em dia, o pobre do verbo Estar aparece em horas inusitadas: estarei enviando seu vestido amanhã; estarei agendando sua hora; estarei pedindo sua receita ao médico... O que será que houve com o futuro que não pode prescindir do verbo Estar?

Uma amiga muito inteligente e arguta sugere que isso nada mais é que a pouca vontade de assumir compromissos. Tem lógica: se dissesse agendarei, em vez de estarei agendando, a pessoa assumiria um compromisso. Já com o uso do subjuntivo, o compromisso é atenuado. Concordo.

Portanto, nas coisas graves, como nas mais simples, estarei torcendo por 2017. Pela Beleza, sempre!

Escarro no pobre


O que explica um preso de Manaus custar R$ 4.100 por mês? O que sente um trabalhador ao saber disso, quando ganha um salário mínimo de R$ 937?
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E, por fim, a empresa privada que administra o presídio onde morreram 56 pessoas se chama Umanizzare. É ou não sarcasmo?
Eliane Catanhêde

Imagem do Dia

Toscana8
Marcin Sobas, Toscana (Itália)

Sistema carcerário japonês

A filosofia que dirige o sistema carcerário japonês é diferente da que rege todos os outros presídios ocidentais, que tentam reeducar o preso para que ele se reintegre a Sociedade. O objetivo, no Japão, é levar o condenado ao arrependimento. Como errou, não é mais uma pessoa honrada e precisa pagar por isso.

“Além de dar o devido castigo em nome das vítimas, o período de permanência na prisão serve como um momento de reflexão no qual induzimos o preso ao arrependimento”, explica Yutaka Nagashima, diretor do Instituto de Pesquisa da Criminalidade do Ministério da Justiça.

Os métodos para isso são duros para olhos ocidentais, mas em nada lembram os presídios brasileiros, famosos pela superlotação, formação de quadrilhas, violência interna e até abusos sexuais.

Organização e limpeza imperam. Os detentos têm espaço de sobra e ficam no máximo seis por cela. Os estrangeiros têm um quarto individual. Ninguém fica sem trabalhar e os detentos não têm tempo livre para arquitetar fugas.

O dia do preso japonês começa às 6h50min. Às 8h ele já está na oficina trabalhando na confecção de móveis ou brinquedos. Só para o serviço por 40 minutos para o almoço e trabalha novamente até às 16h40min. Durante todo este período nenhum tipo de conversa é permitido, nem durante as refeições.

O preso volta à cela e fica ali até 17h25min, quando saí para o jantar. Às 20h tem que retornar ao quarto, de onde só saíra no dia seguinte.

Banhos não fazem parte da programação diária. No verão eles acontecem duas vezes por semana. No inverno apenas um a cada sete dias. “Não pode ser diferente porque faltam funcionários. Mas damos toalhas molhadas para eles limparem o corpo”, justifica-se Yoshihito Sato, especialista em segurança do Departamento de Correção do Ministério da Justiça.


Apesar das reclamações, os presos estrangeiros recebem um tratamento melhor que os japoneses: além do quarto individual, ganham cama e um aparelho de televisão onde são transmitidas aulas de japonês.

A comida é diferenciada. Não é servido nada que desagrade religiosamente qualquer crença de um povo. Para os vegetarianos, por exemplo, não é oferecida carne bovina.

O Japão não aceita acordos de extradição. Afinal, como causou sofrimento à população, o criminoso tem que pagar por isso no Japão mesmo.


Logo ao chegar à penitenciária, os presos recebem uma rígida lista do que poderão ou não fazer. Olhar nos olhos de um policial, por exemplo, é absolutamente proibido. Cigarro não é permitido em hipótese alguma. Na hora da refeição o detento deve ficar de olhos fechados até que ouça um sinal para abri-los.

Qualquer transgressão a uma das determinações o detento termina numa cela isolada. Apesar de oferecer tudo o que teria num quarto normal (privada, pia e cobertor), ela tem pouca iluminação. Se houver reincidência na falha, será punido com algemas de couro, que imobilizam os braços nas costas. Sem a ajuda das mãos, o preso tem que comer como se fosse um cachorro. Também tem dificuldades para fazer as necessidades fisiológicas.

Assim, conhecido o caso japonês, é interessante ver que nenhuma ou quase nenhuma “ONG” de direitos humanos interfere no sistema, dita políticas ou o governo permite que senador (como fez, numa ocasião, o senador Eduardo Suplicy) durma entre os presos, sob a justificativa de impedir represálias do Estado após rebeliões.

Aliás, como se diria “rebelião de preso” em japonês? Esta expressão lá não existe.

Expresso Carandiru-Manaus-Brasília

O Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo. Aqui morrem a cada ano mais brasileiros do que o total de americanos mortos nos 20 anos da Guerra do Vietnam.

Quase metade dos congressistas (deputados e senadores) respondem a inquéritos ou ações penais.

Um presidiário, em Caratinga, Minas Gerais, reeleito em outubro de 2016, tomou posse como vereador, trajando o uniforme prisional e algemado. Vai continuar frequentando a Câmara Municipal, recebendo salário e dormindo no presídio. É legal, mas é moral?

O presidente do Senado, acusado em 11 processos, virou réu em ação na qual é acusado de peculato e recusou receber uma intimação do Supremo Tribunal Federal.

Governadores e ex-governadores estão sendo investigados. Pelo menos um já está preso. Diversos dirigentes partidários foram ou estão presos por corrupção.

São diversos processos contra juízes; há condenados.

Nos quatro primeiros dias do ano, estão internados, em 15 hospitais diferentes do Rio de Janeiro, 38 presos, que são custodiados por 41 policiais militares trabalhando em turnos de 12 horas, sem descanso para comer e com salários frequentemente atrasados. Nenhum desses hospitais tem uma enfermaria exclusiva para isolar os detidos dos demais pacientes. Os policiais estão lá para impedir que esses indivíduos sejam resgatados por parceiros ou assassinados por desafetos. Isso já ocorreu.


Esse ano, já são seis policiais assassinados, oito fuzis apreendidos e nenhuma rua fechada com protestos contra esses covardes assassinatos.

No Presídio do Carandiru, São Paulo, em outubro de 1992, a Polícia Militar foi chamada a intervir para conter uma rebelião provocada por centenas de presos armados, num ambiente de confinamento e cujo desfecho era imprevisível. O resultado foi a morte de 111 detentos e 74 policiais processados por crime de homicídio. É possível que esse fato tenha contribuído para o surgimento do Primeiro Comando da Capital (PCC), em 1993, como uma organização criminosa (ORCRIM) disposta a desafiar o Estado. Gradualmente, assume uma dimensão nacional e se expande ao Paraguai, Colômbia e Bolívia, países tradicionais fornecedores de cocaína, maconha e fuzis de guerra.

Agora ocorreu o massacre de Manaus, com 60 mortos, metade decapitada ou mutilada. Dessa vez, não há policiais para serem acusados, pois a opção do governo do Amazonas foi terceirizar a administração dos presídios. Um negócio milionário e estranho.

Esse massacre é um sinal de que a promissora rota norte do tráfico, tipo exportação, está mudando de dono. Após esse “choque de arrumação”, é possível que se criem novas alianças, basta o Estado brasileiro continuar não se organizando de forma patriótica.

Isso tudo é descrito no livro “ZeroZeroZero”, de Roberto Saviano, que avalia que o dinheiro das drogas e a lavagem de dinheiro, de qualquer origem, indicam alianças entre organizações - de qualquer natureza -, numa interligação complexa e generalizada.

Já partiu da estação o expresso Zero-Carandiru-Zero-Manaus-Zero-Brasília.

Paisagem brasileira

Sao Luis Do Maranhao Brazil Stock Photos, Images, & Pictures – (193 Images):
São Luís (Maranhão)

A intolerância mora ao lado

A capacidade humana de se inventar é admirável. Em cada lugar habitado, pouco importa em que tempo, nós nos atribuímos uma origem diferente. Na América do Sul, alguns povos acreditavam que surgimos do milho. Outros preferiram a batata ou a mandioca. Na Noruega, viemos de árvores. Na Índia, da manteiga. O barro foi uma opção no Oriente Médio, na Grécia, na China, nas Américas do Norte e Central. No Tibete, surgimos da união de um ET com um macaco. Na Coreia, substituíram o macaco pelo urso.

No Quênia, ora descemos do céu, ora saímos de dentro de um joelho. Na Oceania, brotamos de vermes. Sim, a capacidade de nos inventarmos não tem fim.

Também não tem fim nossa capacidade de acreditar. Vi, no México, mulheres se arrastando de joelhos nus no adro da Basílica de Guadalupe, largando trilhas de sangue. Uma atmosfera de beatitude as seguia, como se estivessem fora deste mundo. No Brasil, testemunhei um pajé, em transe, entrando em contato com os deuses da tribo. Em Mianmar, num templo que comemorava 2 500 anos de existência, centenas de pessoas rezavam para encontrar o caminho ensinado por Buda. Enquanto balançavam a cabeça, queimavam incenso, e o ar adquiria cheiro de nirvana.

Editorial Illustrations 2015 - Vol. 2 on Behance:
Davide Bonazzi
Na Mesquita Azul, na Turquia, logo após o chamado do muezim, que me remeteu aos contos das Mil e Uma Noites, os muçulmanos curvavam-se em direção a Meca, em rogos compenetrados. Alá parecia estar entre eles. No templo Tanah Lot, na Indonésia, as orações, durante o incêndio de cores trazido pelo mergulho do sol no oceano, criaram clima de transcendência mesmo para quem não participava da cerimônia. Em Katmandu, no Nepal, uma garota, transformada em deusa viva, fazia cegos enxergar e paralíticos jogar fora cadeiras de roda e muletas. O mesmo aconteceu no norte da Índia, onde uma aguinha a escorrer do lingam de Shiva, pedra cinzenta com meio metro de altura, transformava a força vital do deus em milagres. Na Alemanha, na época do Natal, conheci celebrações pré-cristãs para o solstício de inverno, mantidas por uma tradição multimilenar. Na Tailândia, fiéis cobriam as imagens sagradas com folhas de ouro ao fazer pedidos ou agradecer as graças alcançadas. Sim, nossa capacidade de acreditar não tem fim.

Diante de tanta diversidade, nossa capacidade de respeitar a crença alheia teria fim? Sempre apostei na tolerância dos brasileiros. Afinal, somos o país do sincretismo religioso.

Já não estou tão seguro. Ao entrar, em Belo Horizonte, em dois templos onde se prometem milagres em troca de dinheiro, testemunhei radicalismo contra os demais credos: segundo os pregadores, quem não pertencia à seita era indigno de viver, um condenado, um intocável. Fiquei duplamente assustado. Com o discurso e com a cara de pau dos manipuladores. Em determinado momento, um deles disse que os seguidores da seita deveriam evitar até conversar com os não membros para não ser contaminados. Também precisavam, em casa, se livrar de qualquer escultura ou pintura com figuras humanas.

​O mundo conhece o efeito dos excessos. A história está cheia de exemplos. A humanidade, em sua múltipla capacidade de se inventar e de acreditar, é maior que qualquer culto. Cultos passam, a humanidade fica. A intolerância não é o caminho, nem a verdade, muito menos a vida. É apenas o casamento da presunção com a sede de poder.

Autoridades em transe

O sistema de Justiça do Brasil é muito reativo e espetaculoso. Foi preciso que a Família do Norte, máfia amanuense, arrancasse as cabeças de 60 integrantes do Primeiro Comando da Capital, a máfia paulista, para as autoridades entrarem em transe e começarem a anunciar soluções para tudo.

Pela reação da presidente do Supremo e do ministro da Justiça, tem-se a impressão de que eles não sabiam de nada sobre o que acontecia nos presídios brasileiros.


De repente, bilhões que estavam guardados começaram a ser distribuídos para os estados – parte para construção de novos presídios, cerca de 1,2 mil vagas por unidade da Federação, totalizando 30 mil, parte para aquisição de aparelhos para detectar a entrada de drogas, celulares e armas nas prisões.

A presidente do Supremo correu para Manaus e reuniu juízes e promotores para saber onde estão as falhas do sistema: estamos prendendo demais, soltando de menos ou deixando a execução penal a cargo das organizações criminosas?

O ministro da Justiça, chamando os chefes das organizações criminosas de “lideranças”, anunciou, com pompas, a montagem de um grupo especial para monitorar os presídios, dando ênfase ao trabalho de Inteligência. Isso já é feito há anos no Distrito Federal. As outras unidades não o fazem porque não querem.

Enquanto isso, os lobistas já começaram a vislumbrar oportunidades de negócios, a partir dos recursos que serão liberados em tempos de vacas magras.

Será que pacientes dos hospitais públicos vão ter de começar a arrancar as cabeças uns dos outros para o governo iniciar uma mobilização com o objetivo de resolver o caos na área de saúde?

Espera-se que o dinheiro não seja desviado quando se aplacar o clamor das instituições internacionais e a população brasileira esquecer o episódio.

Miguel Lucena

O silêncio de Temer

Estão reclamando que o presidente Michel Temer não disse uma palavra a respeito do massacre de Manaus, quando até o Papa pediu orações para as famílias dos massacrados. Realmente, o chefe do governo bem que poderia ter lamentado ou prometido que de agora em diante tudo vai ser diferente. Só que não adiantaria nada. Os 56 mortos estão sendo enterrados, as cadeias continuam privatizadas e as diversas entidades criminosas permanecem mandando nos presídios. O que poderia Temer fazer?

Primeiro, mudar o ministro da Justiça. Alexandre de Moraes chegou atrasado na capital do Amazonas. Se a Polícia Federal tinha sido avisada, a informação perdeu-se no trajeto até Brasília. Alguém foi responsável pela inação.

A intervenção federal no sistema penitenciário dos Estados também seria oportuna, porque não apenas o governador amazonense tem sua parcela de culpa. Os demais governadores também, sem exceção. Todos aceitaram a privatização dos estabelecimentos penais, em maior ou menor grau. Deixaram de investigar os efeitos dessa ação celerada onde atuam grupos econômicos empenhados em receber centenas de milhões dos cofres estaduais, sem contribuir para a recuperação da massa carcerária. Pelo contrário, ampliam o número de presos amontoados nas prisões porque recebem por internação.

Poderia o presidente da República, também, apelar para a participação do Ministério Público e do Poder Judiciário para enfrentar o caos que os Estados não conseguem debelar.

Em suma, nem só da reforma da Previdência Social e de outras reformas o palácio do Planalto deveria cuidar. Existe um outro Brasil à margem, abandonado, dentro e fora das penitenciárias.

Django, o mágico

Muito além de Deus e do diabo

O excelente artigo de Juan Arias, publicado neste dia 3 de janeiro, chama a atenção para o crescente aumento da importância dos pentecostais e neopentecostais na política, que começou de maneira discreta na década de 1990, ganhando força ao longo dos anos seguintes até se tornar fundamental no balcão de negócios em que se transformou o Congresso Nacional. Hoje, a bancada evangélica, composta por 87 deputados federais e três senadores, conquistou poder suficiente para determinar o rumo das discussões que preocupam a população brasileira, contribuindo de maneira cabal para o conservadorismo moral e a hipocrisia social que vem caracterizando o país.

Resultado de imagem para deus e o diabo

Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de evangélicos cresceu 61,5% entre 2000 e 2010, passando a representar 22,2% do total da população, contra 64,6% dos católicos. Com seu assistencialismo e sua fé de resultados, algumas das denominações tornaram-se verdadeiros fenômenos. A participação política de pentecostais e neopentecostais ganhou maior visibilidade a partir da aliança estratégica com o PT, no começo do século XXI, apoio que possibilitou a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República em 2002, após três derrotas consecutivas. Um dos aliados mais importantes do PT, na época, foi a Igreja Universal do Reino de Deus, chefiada por Edir Macedo, que em 2005 fundou o Partido Municipalista Renovador, hoje Partido Republicano Brasileiro (PRB), ao qual era filiado o vice de Lula, o católico José de Alencar, que exerceu papel essencial na aproximação do empresariado e dos evangélicos com o petista.

O PRB funciona informalmente como o braço político da Igreja Universal. Nas últimas eleições municipais cresceu 33% em relação ao desempenho em 2012, elegendo 106 prefeitos, inclusive Marcello Crivella, que encontra-se agora à frente da segunda mais importante cidade do Brasil, o Rio de Janeiro. Crivella, cantor de música gospel com mais de uma dezena de discos gravados e senador, já foi ministro na administração Dilma Rousseff. Além disso, o partido possui uma bancada formada por 23 deputados federais, entre eles o mais votado do país, Celso Russomano, com 1,5 milhão de votos, candidato derrotado à Prefeitura de São Paulo em 2016. Mas, para provar que os evangélicos não têm outros interesses que não os próprios, o PRB desembarcou do governo petista diretamente para o governo do presidente não eleito, Michel Temer. O titular do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Marcos Pereira, foi diretor da TV Record do Rio de Janeiro entre 1995 e 1999, e vice-presidente da Rede Record de Televisão, entre 2003 e 2009.

Fundada em 1977, a Igreja Universal conta hoje com cerca de 12 mil pastores, sete mil templos e quase sete milhões de seguidores no Brasil, e outros quase dois milhões de fiéis espalhados por mais de uma centena de países, segundo estimativas da própria entidade. Sua receita é estimada em cerca de R$ 1,4 bilhão de reais por ano – mas não há qualquer controle sobre esse valor, já que por lei as instituições religiosas estão isentas de impostos. Além dos fiéis, a Igreja Universal controla a Rede Record, que cobre 93% do território nacional e está presente em 150 países, a TV Universal, com mais de 20 retransmissoras, e a Rede Aleluia, que possui quase oitenta emissoras de rádio AM e FM, presente em 75% do território nacional. Faz parte ainda do grupo o portal universal.org., o jornal Folha Universal, as revistas Plenitude, Obreiro de Fé e Mão Amiga, a editora Unipro, que registra milhões de exemplares vendidos de livros de Edir Macedo e de outros pastores, e a gravadora Line Records, especializada em música religiosa.

Os evangélicos progridem onde se ausenta o Estado. Assim como os traficantes de droga. As periferias das cidades hoje estão divididas entre eles. O Primeiro Comando da Capital (PCC), uma das maiores facções criminosas do Brasil, vem expandindo seus interesses para fora dos limites de São Paulo, onde nasceu, e já domina cadeias no Rio de Janeiro, Maranhão, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. A mais recente investida, segundo parece, resultou em um massacre de 56 presos em Manaus (AM). Ambos os grupos almejam o mesmo objetivo: ampliar as suas hordas. Assistimos impotentes à ampliação do fanatismo e da violência, que hoje se encontram infiltrados no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. Em nome de Deus, uns, e do Diabo, outros, pouco a pouco submetem o que resta do Brasil.

Os decapitados

Cortar cabeças e esquartejar adversários no Brasil foi uma prática corrente nos conflitos sociais e políticos. Na História do Brasil, são inúmeros os exemplos, a começar pelo massacre dos paulistas por portugueses e baianos no Capão da Traição, nas proximidades de Tiradentes (MG), na Guerra dos Emboabas (1707-1709). O próprio alferes Joaquim José da Silva Xavier, nosso mártir da Independência, foi enforcado e esquartejado (21/4/1792). Muitas cabeças rolaram na Balaiada (1838-1841), no Maranhão, e na Cabanagem (1835-1840), no Pará. Ninguém sabe direito o que aconteceu a Solano Lopes e seus últimos combatentes em Cerro Corá. A ira do Conde D’Eu foi implacável no fim da Guerra do Paraguai (1864-1870).

Em Canudos (1896-1897), o coronel Moreira Cesar, herói da guerra do Paraguai, foi esquartejado pelos jagunços e seus pedaços pendurados nos galhos. Euclides da Cunha relata no Os Sertões o destino dado a Antônio Conselheiro e aos que o acompanharam até a liquidação do arraial baiano. “Ao entardecer, quando caíram os últimos defensores, que todos morreram. Eram apenas quatro: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.”

Destino não muito diferente teve o bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, cuja cabeça foi cortada, como a de Maria Bonita, sua companheira, e outros cangaceiros do bando, em Angicos, no Sertão de Sergipe, em 1938. Acusado de atacar pequenas fazendas e cidades em sete estados além de roubo de gado, sequestros, assassinatos, torturas, mutilações, estupros e saques, foi tratado por muitos como uma espécie de Robin Hood do sertão brasileiro.

Maria Bonita ainda estava viva, apesar de bastante ferida, quando foi degolada. O mesmo ocorreu com Quinta-Feira e Mergulhão, que também tiveram as cabeças arrancadas em vida. Luís Pedro, Elétrico, Enedina, Moeda, Alecrim, Colchete e Macela foram os demais decapitados. Os corpos mutilados e ensanguentados foram deixados a céu aberto, atraindo urubus. As cabeças, arrumadas cuidadosamente na escadaria da Prefeitura de Piranhas, junto com armas e apetrechos dos cangaceiros, e fotografadas.

Depois, foram levados a Maceió e ao Sudeste do Brasil, de onde seguiram para Salvador, onde permaneceram por seis anos na Faculdade de Odontologia da UFBA e, depois, por três décadas, no Museu Antropológico Estácio de Lima localizado no prédio do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues. O enterro dos restos mortais dos cangaceiros só ocorreu depois do Projeto de Lei nº 2.867, de 24 de maio de 1965, que teve origem nos meios universitários de Brasília. As cabeças de Lampião e Maria Bonita foram sepultadas em 6 de fevereiro de 1969. Os demais integrantes do bando tiveram o enterro uma semana depois.

lampiao

A glamourização de Lampião e bando não foi apenas obra da cultura popular. Câmara Cascudo atribui a ele a autoria de Mulher Rendeira. Foi graças ao premiado filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, de 1953, com diálogos de Raquel de Queiroz, que a fama correu mundo. Chegou à academia como um dos personagens estudados pelo historiador britânico Eric Hobsbawn, autor do polêmico conceito de “bandido social”, claramente inspirado no mito de Robin Hood, ao lado de Salvatore Giuliano (Itália), Pancho Vila (México), Jesse James (Estados Unidos). O estudo foi publicado em livro na década de 1950, com o título acima, e já está na quinta edição aqui no Brasil (Editora Paz e Terra).

Talvez venha daí a glamourização da malandragem e de marginais como Lúcio Flávio, que não se misturava com policiais corruptos: “Bandido é bandido; polícia é polícia”. É nessa categoria romanesca que poderia ser enquadrado Marcinho VP, que inspirou o jornalista Caco Barcellos a escrever o livro Abusado, a história do tráfico de drogas no Morro Dona Marta, da qual o traficante é personagem principal. Uma cultura de violência rege a vida do andar de baixo nas favelas e periferias e, de forma concentrada, nos presídios.

Domingo, durante 16 horas de rebelião no maior presídio do Amazonas, o Complexo Penitenciário Anísio Jobim, 56 presos foram assassinados, muitos dos quais decapitados; na tarde de segunda, na Unidade Prisional do Puraquequara, mais quatro presos morreram. Retificando: Atribui-se à facção Família do Norte, que controla os presídios, a ordem para o massacre. Vídeos mostram que os integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) levaram a pior no confronto. Marcos Willians Herbas Camacho, mais conhecido como Marcola (Osasco, 13 de abril de 1968), é o líder do PCC. Comanda com mão de ferro uma organização que já manda na maioria dos presídios brasileiros, domina o tráfico de drogas em São Paulo e entrou nas favelas do Rio de janeiro. Agora, tenta controlar as fronteiras brasileiras e se internacionalizar.

O Estado precisa de indiferentes, fracos e covardes para alastrar-se irrefreadamente

Você está caminhando pela calçada, quando, abruptamente, tem início um enfrentamento entre duas pessoas, bem ali na sua frente; é visível que uma delas encontra-se em franca desvantagem, e começa a apanhar copiosamente, de forma covarde (podemos até imaginar a cena do vendedor ambulante espancado até a morte em São Paulo); de súbito, você se dá conta de que a única coisa que pode por fim aquele padecimento é você mesmo. Mas para prestar este auxílio – ou seja, lutar contra o algoz juntamente com a vítima e equilibrar a disputa – faz-se necessário reunir, no mínimo, três elementos sem os quais não há chance de uma reação sequer ser esboçada: empatia, coragem e força.

A empatia costuma ser definida como a capacidade psicológica para sentir o que sente outra pessoa caso estivéssemos na mesma situação vivenciada por ela. In your shoes, como dizem os usuários da língua inglesa, ou seja, estamos tratando da predisposição em imaginar como seria levar tamanha surra sem possuir recursos para reverter o quadro – e, consequentemente, concluir que algo precisa ser feito a respeito.

O conceito de coragem, ajustado ao caso em tela, nada mais seria do que a força espiritual necessária para ultrapassar aquela circunstância difícil, ou o destemor requerido para, mesmo ciente da real possibilidade de apanhar feito condenado e ter sua integridade física comprometida, ainda assim partir para o embate.

E a força adquire, nestas circunstâncias, um conceito amplo: seria a energia necessária para subjugar e eliminar a ameaça que põe em risco a vida do cidadão que está sendo massacrado. Pode ser a inteligência (gritar que a polícia está chegando e afugentar o valentão), a habilidade motora (uma gravata bem aplicada), a capacidade de improviso (usar objetos próximos como arma), a potência física (um bom soco no queixo) ou, melhor ainda, uma pistola na cintura (nem precisa explicar). É o espinafre do Popeye, em suma.

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Gonzalo Obes
Reunidos os três atributos em uma mesma pessoa, ela certamente irá intervir no conflito e evitar o que pode vir a ser uma tragédia – sorte que não teve Luis Carlos Ruas quando da agressão brutal que ceifou sua vida. Mas minha intenção aqui não é julgar os transeuntes que testemunharam a cena na estação de metrô e nada fizeram em socorro do pobre senhor (até porque, humildemente, reconheço que não sei qual seria meu comportamento perante um episódio de tamanha violência), e sim correlacionar esta omissão com a inaptidão de nosso povo em conter o avanço desenfreado do Estado sobre sua vida.

Quando o governo começa a querer ditar regras demais na sociedade, e passa a determinar até mesmo como a pizza deve ser vendida ou proibir o comerciante de dar descontos, certamente é porque já chegou a hora de dar um basta no intervencionismo estatal. O enfrentamento contra esta imoderada invasão da esfera de mútuo entendimento entre os cidadãos já deveria ter sido deflagrado há tempos.

O cenário atual, todavia, mostra que estamos a assistir impavidamente às casas legislativas (e até mesmo o Executivo, com seus decretos draconianos, e o judiciário, com suas decisões teratológicas) emitirem leis e regramentos que nos dizem como criar e educar nossos filhos, especificam quem pode trabalhar ou não em determinada profissão, proíbem estados confederados de cobrarem menos tributos para atraírem empresas, estipulam qual cerveja pode ser vendida na praia, resolvem quanto deve custar para estacionar no shopping, desautorizam a extração de gás de xisto pelo método de fracionamento de rochas (processo que possibilita que os Estados Unidos sonhem com a independência energética), submetem a processo penal quem mata bandido em legítima defesa, e por aí vai.

E lá está o brasileiro, estático na calçada, vendo sua liberdade, sua autodeterminação, ser pisoteada sem misericórdia. E aí vem o questionamento: o que falta ao nosso povo para tomar uma atitude condigna? Empatia? Coragem? Força? Quem aguentou ler até aqui já deve ter deduzido que a situação de nossa autonomia como cidadãos não é animadora; provavelmente ela ainda vai tomar uma sova antes que alguém levante um dedo em seu favor. Mas por quê?

A predileção de nossa cultura por princípios coletivistas nos fornece uma boa pista. Na medida em que se exacerba a renúncia individual (pretensamente) em favor da sociedade, a submissão do cidadão aos supostos interesses comunitários (decididos por meia dúzia de “intelectuais”), perde-se, gradativamente, a noção de cooperação voluntária para com o próximo. Se o natural e aceito passa a ser convergir boa parte de nossos recursos para uma entidade centralizadora a partir da qual, aí sim, nossa ajuda poderá (em tese) chegar aos mais necessitados, a assistência direta de um indivíduo para o outro deixa de ser uma prática comum. Se eu já pago tanto imposto para o Estado, ele que ajude quem está precisado. E este sentimento, após décadas de cultivo no inconsciente coletivo, leva à indiferença mútua.

A empatia, neste cenário, resta deveras comprometida, e escasseia ainda mais quando distrações das mais diversas naturezas desviam o foco dos indivíduos dos reais problemas enfrentados diariamente por seus concidadãos. Enquanto a violência, a falta de saneamento básico, o desemprego, o transporte caótico são adversidades que assolam parcela significativa da população, os demais membros nada podem fazer a respeito, visto que estão “ocupados” demais sendo bombardeados pela mídia com libertinagem sexual, drogas em profusão e a cultura de que a única forma de “aproveitar a vida” é farrear 99% do tempo. É o circo dos tempos modernos – mas neste picadeiro só entram adultos; bom, isso enquanto o tal de “amor intergeracional” não for insuflado mais vigorosamente pela rede progressista de televisão.

Já a coragem torna-se artigo de luxo a partir, especialmente, do conforto proporcionado pelo próprio capitalismo. Se eu posso fazer quase tudo do sofá de casa, a comodidade toma conta do estado anímico do homem médio, e aquilo que, a priori, é extremamente benéfico para nossa evolução, acaba por nos “emascular”. Some-se a isso o efeito do politicamente correto e da ideologia de gênero, que convence a todos que “palavras machucam” e que o sexo das pessoas pode “flutuar” ao sabor do vento, e esse processo de amansamento excessivo dos membros de nossa sociedade ganha contornos de filme de terror. O resultado: marmanjões “pacifistas” protestando contra estupros usando saias e europeus recebendo “refugiados” (de países que não estão em guerra?!) com flores na mão (síndrome de Estocolmo – ou seja, medo – em estado puro).

Na medida, outrossim, em que o contínuo processo de divisão e especialização do trabalho permite que muitas pessoas desempenhem tarefas puramente intelectuais (e mesmo trabalhos outrora pesados foram “amaciados” pela tecnologia), diversos desafios enfrentados pela humanidade em períodos remotos (como caçar para sobreviver, lutar contra invasores de espada em punho, arar a terra manualmente ou até rachar lenha) e que forjavam um caráter beligerante na sociedade deixaram de existir, contribuindo, também, para que a intrepidez se tornasse uma qualidade rara. Quando os “protestos” de nossa era resumem-se a hashtags revoltadas, fica mais fácil visualizar este inconveniente. Podemos terceirizar a segurança de nossas casas, mas o preço disso é o relaxamento do espírito combativo instintivo do ser humano.

E de que servem coragem e empatia, pois, se não possuirmos meios de contrapormo-nos a imposições contrárias a nossos valores? Não por acaso, o desarmamento da população é questão de honra para todo governo com pretensões totalitárias. A noção mais comezinha de qualquer estratégia tirânica é a de que o cidadão ordeiro, cumpridor das leis, não pode portar um artefato com o qual ele possa opor resistência ao detentor do monopólio do uso da força. Ademais, uma vez desarmado, sem a menor chance contra marginais que até armas militares ostentam (amparados por legislações penais caricatas), este indivíduo honesto irá sentir-se impotente e amedrontado – dois coelhos com uma cajadada, portanto. Quem assiste ao seriado The Walking Dead e conhece o personagem Negan sabe do que estou falando.

Já o desenvolvimento da inteligência, uma das mais poderosas armas do indivíduo contra a dominação, também é sonegado em nossas paulofreirianas escola: se o conhecimento deve ser “construído” pelo próprio aluno, desobriga-se o professor de transmitir conhecimento e o aluno, em verdade, não constrói coisíssima nenhuma em sua mente; bom, talvez ele saia do colégio entoando canções de cunho marxista. Cidadãos idiotizados não tem como resistir ao avanço do Estado sobre suas vidas. Sequer dar-se-ão conta do que está acontecendo a sua volta.

Outra forma de enfraquecer um povo é levá-lo ao estado de penúria. A miséria humilha o ser humano na medida em que reduz suas ambições a, tão somente, sobreviver mais um dia. Toda sua energia precisa ser canalizada para sua própria subsistência e a de seus dependentes. Não deve estar nada fácil, neste contexto, para que os venezuelanos deem um basta nos desmandos de Maduro.

Já a comunicação entre os potenciais agredidos e a decorrente possibilidade de expressarem publicamente seu descontentamento independentemente da mídia tradicional – recurso materializado pelas ferramentas da grande rede mundial de computadores – também representa uma poderosa arma em favor da liberdade, e, por isso, é alvo de ofensivas constantes, tais quais o medonho marco civil da Internet e, mais recentemente, a lorota do “fakenews” ou “pós-verdade” – mero bater de pés dos descontentes com o avanço do conservadorismo e do liberalismo clássico.

Por fim, existe um núcleo de convivência que costuma agregar muita força quando unido: a família. Eis porque esta sofre ataques constante das milícias “progressistas”, visto ser um dos últimos focos de resistência contra aspirações absolutistas governamentais. Afinal, o paternalismo estatal pode perfeitamente substituir a falta de referências paternas, não é mesmo?

E, neste sentido, torna-se mandatório agredir a cultura judaico-cristã, especialmente permitindo a entrada indiscriminada de muçulmanos no Ocidente, visto serem eles, juntamente com os regimes comunistas, os principais responsáveis pela caça aos “infiéis” no último século – apenas em 2016, foram 90.000 que perderam a vida por sua fé. Ainda, como muitos grupos religiosos costumam promover inúmeras campanhas visando ajudar ao próximo, “usurpando” a competência do Estado em distribuir esmolas, fica mais claro ainda porque eles precisam ser malditos dia e noite por quem nos quer ver debilitados e dependentes da administração pública.

Por nos sentirmos enfraquecidos, acovardados e não contarmos com a empatia de nossos semelhantes, clamamos, pois, por mais e mais proteção estatal – justamente o ente mais interessado e maior beneficiário de nossas insensibilidade, fraqueza e covardia.

E isso tudo, por acaso, faz parte de uma conspiração orquestrada por indivíduos reunidos em uma sala e fumando charutos, e que possui agentes em todos os cantos infiltrados? Não creio – muito embora o Foro de SP não corrobore com este entendimento. A maioria das pessoas que colabora com a perpetração deste processo de agigantamento do Estado o faz por…medo, fraqueza e apatia! É, pois, um sistema que se retroalimenta, e cresce como uma bola de neve. E impor obstáculos a livre descida desta bola é dever de todo cidadão dotado de empatia, coragem e força, especialmente transmitindo tais predicados, em suas mais diversas facetas, ao maior número possível de pessoas. Muito embora não seja possível comprá-los na esquina, até o menor dos animais, quando acuado, encontra força e coragem para contra-atacar. E o Leão já nos encurralou na parede faz tempo…

O hino gaúcho afirma que “povo que não tem virtude acaba por ser escravo”. E acaba mesmo…escravizado por membros de seu próprio povo!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

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Trolls, bots, populistas e a guerra da informação

O que têm em comum o autor do atentado de Würzburg, os direitistas indignados de Bautzen, os russos residentes na Alemanha em protesto pelo suposto sequestro da menina Lisa de 13 anos, e os adeptos do Movimento Identitário? À primeira vista, não muito. No entanto, todos eles obtêm suas informações na internet, e lá se conectam em rede, se fortalecem e radicalizam.

O espaço público está se modificando fundamentalmente na Alemanha: aquilo que se inicia como tuíte ou post é capaz de desencadear violência concreta, tem efeito imediato sobre a coesão social no país e também sobre os resultados eleitorais.

Já há abundantes exemplos disso em 2016: as agressões direcionadas na comemoração da Reunificação Alemã em Dresden, em 3 de outubro, o incêndio de uma mesquita na mesma cidade, apenas uma semana antes, a necessidade de proteção policial para deputados críticos à Turquia, o acréscimo mensurável dos crimes de motivação política, a quintuplicação dos ataques a alojamentos de requerentes de asilo.

Angel Boligán   -POPULISMO:
A campanha para as eleições legislativas de 2017 mostrará: estamos diante de uma transformação radical do espaço público na Alemanha. Qual foi a última vez que um editorial jornalístico desencadeou debate por todo o país? E os debates fundamentais, que dão orientação política e influenciam as decisões eleitorais: eles ainda transcorrem nos parlamentos ou nas associações partidárias locais? Ou será que tudo se desloca para a internet, onde muitas vezes o debate é travado de forma desconsiderada, desumana, sem fatos, como mero embate de opiniões?

Não se trata nem de opiniões equivocadas de uma minoria na rede nem de discussões entre supostos excluídos da sociedade. Quem crê nisso, está no caminho errado. Pois os diferentes movimentos estão em conexão estreita na internet, do movimento xenófobo de protesto Pegida, passando pelos extremistas de direita e o Movimento Identitário (na Alemanha, sob observação dos órgãos de segurança interna), até a agência de notícias russa Sputnik ou as diversas ramificações regionais do partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD).

Eles se fortalecem reciprocamente, para além das fronteiras nacionais, e expandem sua influência constante e mensuravelmente através das mais diferentes plataformas. A rede transforma suas posições políticas em histórias, aglutina seus motivos e conceitos.

Tais campanhas online criam heróis – grandes vencedores políticos como, por exemplo, Donald Trump. Mas também informam os adeptos fundamentalistas na rede sobre os devastadores "atos heroicos" dos autores de atentados jihadistas.

E as campanhas dão aos milhões de seguidores e membros de grupos que compartilham essas histórias a certeza de terem encontrado correligionários e de finalmente ter alguém que os escute. Assim, eles têm a boa sensação de ser porta-vozes em suas comunidades virtuais, determinantes de agenda nos grupos do Facebook, no Twitter, nos comentários dos usuários dos grandes sites de notícias.

Da agenda desses protagonistas ultradireitistas e populistas de direita da rede constam temas centrais para todos: censura e liberdade de opinião, como tramitam os processos democráticos, quanta justiça há na Alemanha? E aí é colocada em questão, em diversos momentos, a credibilidade e capacidade de ação de nossos processos e instituições democráticas, assim como os valores de uma sociedade aberta e tolerante.

Nunca é demais enfatizar, pois na campanha eleitoral de 2017 será decisiva a forma como os partidos e a mídia da Alemanha vão se posicionar quanto a esses temas altamente sensíveis. Quem achar que pode se esquivar deles em seu programa eleitoral, está no caminho errado.

Aprender com Trump significa aprender como vencer – isso é algo que os representantes da AfD não tentam esconder em suas aparições públicas. A convicção de Trump é, sabidamente: "Não preciso de partido, nem de mídia. Eu sou um movimento!"

O mesmo, aliás, também vale para antidemocratas como os presidentes turco, Erdogan, e russo, Putin. Todos eles apostam na rede e na forma como ela funciona, em sua comunicação direta, sua interconexão e na maciça multiplicação dos conteúdos.

"É preciso poder dizer isso", tem reivindicado o AfD regularmente em suas declarações. Linguagem simples e um conjunto reduzido de mensagens claras contribuem para o sucesso da legenda. Termos de luta centrais se consolidam na internet, sendo, então transferidos para a discussão política: "imprensa da mentira", "canalha migrante", "traidores do povo", "islamização", "inversão étnica", "clube de swingers político" – em 2017 a lista seguramente continuará se estendendo. Essa linguagem é um fator de êxito decisivo para a AfD.

Qual é a reação adequada? Para a política como para a mídia: manter a credibilidade – o que inclui nem ignorar os temas e emoções na internet, nem minimizá-los. Compreender que política e mídia existem para abordar os temas que movimentam as pessoas, e que ambas lhes devem contas; que a fidelidade aos fatos é o que fará a diferença, o mais tardar depois das eleições.

E que a corrida já está perdida se nos furtarmos a esses debates – difíceis, mas tão importantes para nosso futuro social e político – e simplesmente contornarmos esses assuntos: isso não vai funcionar!

Como o discurso político virou entretenimento

Igor Morski:
Igor Morski
A denúncia de que a comunicação política se rebaixou definitivamente a um circo de bufões populistas virou um mantra mundial em 2016. Em setembro, a revista The Economist publicou uma capa sobre a “pós-verdade”. Segundo o semanário inglês, os políticos – e mesmo os estadistas – não precisam mais ter compromisso com a verdade dos fatos, e a maior demonstração do fenômeno seria Donald Trump, que fez sua campanha movida a mentiras escalafobéticas. Os eleitores também não estão nem aí: tomam suas decisões com base em fanatismos e mistificações, estimulados pela performance do histrião da vez. Se o que ele diz é verdade ou mentira, ora, isso é um detalhe irrelevante.

É claro que a distorção não vem de hoje. Nem de ontem. A própria expressão “pós-verdade” – que, por sinal, foi eleita pelo Dicionário Oxford como “a palavra do ano” – entrou no circuito ainda em 2004, quando foi título de um livro de Ralph Keyes – The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life. Bem antes disso, Alain Touraine, em tons comedidos, já lamentava a transformação da política num jogo de “atores”. Mentira e política, enfim, são íntimos há muito tempo. A novidade é que a coisa piorou muito.
“Durante um breve período tivemos a ilusão de que poderíamos (...) voltar à argumentação racional, de modo que a retórica pudesse substituir os ritos. (...) As sociedades complexas e de mudanças rápidas, contudo, pouco a pouco deixam de ser sociedades de intercâmbio, da comunicação e da argumentação, para ser cada vez mais sociedades da expressão. A unidade de comunicação entre o emissor e o receptor vai se quebrando. Cada vez menos tratamos com comunicadores e cada vez mais com atores”
Alain Touraine, Communication politique et crise de la représentativité (1989)
Hoje, os discursos políticos se encaixaram perfeitamente bem na grande indústria do entretenimento. Seja nas campanhas eleitorais, seja nas mensagens que o poder público dirige aos cidadãos, a comunicação política segue cada vez mais as regras, os formatos e os ritmos estabelecidos pelo entretenimento. Não é preciso que nos lembremos do palhaço Tiririca, um supercampeão das urnas, para nos rendermos a essa constatação. Não é preciso citar o êxito de um Silvio Berlusconi na Itália, de um Arnold Schwarzenegger na Califórnia, de um Marcelo Crivella no Rio de Janeiro ou de um João Doria em São Paulo, todos adestrados pelo cinema e pela televisão, para sabermos de vez que os ideólogos perderam seu lugar para os marqueteiros, que os pensadores vêm sendo substituídos pelos animadores de auditório, que a razão vai sendo revogada pela diversão e que os palanques, depois de convertidos em palanques eletrônicos, agora fulguram como picadeiros virtuais. O respeitável público ora gargalha, ora espuma de ódio, e vota como quem aplaude.

Não é mais pelas leis da retórica, da oratória e da lógica que se entende a identificação entre governantes e governados. Elementos estéticos incidem fortemente nos laços de atração entre os “atores” do teatro político e seus seguidores acríticos. Não custa alertar que falamos aqui de uma estética menos “artística” e mais industrializada, fabricada pela indústria cultural. Falamos de uma “estética” artificial, que se vê em rodas de liga leve, em acessórios do vestuário, na decoração de interiores, na fachada de agências bancárias. É essa “estética” rebaixada, tão característica da indústria do entretenimento, que explica o comportamento da massa seduzida. Não é a economia que define o eleitor – é o circo, por mais que a economia tenha seu peso.

Nas redes sociais isso é flagrante. Por que notícias abusivamente mentirosas – como a de que o papa teria dado seu apoio a Trump – ganharam tanta adesão de tantos americanos? A resposta é tão simples quanto desalentadora. As calúnias, infâmias e invencionices extraem sua força do desejo do eleitor. Passam longe da razão. Se a notícia falsa cai no agrado das fantasias que ele nutre, será proclamada verdade suprema naquele instante de puro prazer.

As pessoas escolhem suas causas políticas com os mesmos neurônios com que escolhem um estilo de game, um gênero de filme (drama, ação, suspense, etc.), um time de futebol ou um ídolo do sertanejo universitário. A opinião pública é uma criança mimada: supõe que a realidade existe para diverti-la, para vingá-la, para lavar-lhe a alma ressentida.

A esse deslocamento estético corresponde um redimensionamento ético. Com isso a ética do discurso político vai mudando. Antes, ele se comportava como um discurso lastreado na verdade dos fatos. De uns tempos para cá, parece comportar-se como um discurso de ficção, de entretenimento. Numa telenovela, por exemplo, é aceitável que, lá pelas tantas, a personagem diga que tal refrigerante é uma delícia (trata-se do famigerado “merchandising”). O telespectador não se incomoda, em nada, mas, se o telejornal adotasse a mesma prática, ele se sentiria traído.

Eis, então, que na era da “pós-verdade” até mesmo “merchandising” o discurso político deu de fazer. É inacreditável. Soube-se agora que em 2013, ao fazer uma palestra paga na inauguração de uma fábrica de cerveja, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atendendo a encomenda expressa daqueles que o contrataram, afirmou em sua fala: “Eu duvido que a gente tome no mundo uma cerveja melhor que a Itaipava. A melhor cerveja que o povo nordestino vai beber. Cerveja de qualidade”. (Ver reportagem de Ricardo Brandt, Fábio Serapião, Julia Affonso, Beatriz Bulla e Fausto Macedo, Propaganda de cerveja em palestra, publicada no Estado de 29 de dezembro, página A6.) Identidade mais perfeita entre a marca de um político e a marca de uma mercadoria, impossível.

Mais um pouco, vão legalizar o “merchandising político” como solução para o financiamento das campanhas eleitorais. O entretenimento tomou o poder e sai caro.

Petite Fleur

Sándor Benkó com Vilmos Halmos (piano) e Zsolt Kelemen (bass) 

Assim a sociedade de consumo destrói a biodiversidade do planeta

Os humanos começam a admitir que somos como um meteorito que vai provocar a nova megaextinção de espécies no planeta Terra. Mas ainda nos falta muita informação sobre o tamanho desse meteorito coletivo e o alcance da devastação que juntos causaremos. Sabemos, por exemplo, que a exploração maciça dos recursos naturais é um dos grandes fatores associados à devastação da biodiversidade, mas são necessários mais dados para conectar esse fenômeno com nosso consumo desmesurado.

Um estudo pioneiro, divulgado nesta quarta-feira, mostra a grande responsabilidade do comércio global na extinção maciça de espécies no mundo, traçando uma clara correlação entre a cesta de compras dos países mais consumidores e as selvagens pressões que massacram os tesouros naturais. O cafezinho que alguém toma nos EUA, por exemplo, está ligado ao desmatamentoda América Central – onde esse café é cultivado –, e esse é o habitat do acuado macaco-aranha, o mais ameaçado do planeta.

“Pelo menos um terço das ameaças à biodiversidade em todo o mundo estão vinculadas à produção para o comércio internacional”, dizem os autores do estudo publicado na Nature Ecology & Evolution. Em seu trabalho, eles mapearam locais do planeta onde há quase 7.000 espécies ameaçadas, estabelecendo sua conexão com a cadeia de consumo nos EUA, China e Japão. Desse modo, pode-se ver facilmente como os animais sob risco em determinados pontos do planeta sofrem com a demanda de bens por parte dos grandes consumidores.
Pescando en un futuro cercano.  Por Ricardo Bermúdez.:

Por exemplo, o lince e dúzias de outras espécies sofrem na península Ibérica pela pressão da produção agrícola que abastece os mercados europeus e norte-americanos. “É digno de menção o importante rastro dos EUA na biodiversidade do sul da Espanha e Portugal, ligado aos impactos sobre uma série de espécies ameaçadas de peixes e aves, já que esses países raramente são percebidos como pontos de ameaça”, afirmam os autores no estudo.

“O que este trabalho nos mostra é que os humanos estão assaltando o planeta”, resume David Nogués-Bravo, especialista em macroecologia da Universidade de Copenhague. Nogués-Bravo, que não participou do estudo, diz que os impactos humanos sobre a natureza podem ser representados como um redemoinho que engole a diversidade de seres vivos sobre a Terra. “Esse turbilhão é constituído por três nós: poder, comida e dinheiro. A capacidade da nossa espécie de sugar energia e recursos do planeta é quase ilimitada, e é o que está provocando a sexta extinção maciça na história da Terra”, denúncia o ecologista.

Para ele, tanto o enfoque como os resultados são muito pertinentes, porque põem em perspectiva as perdas de biodiversidade, principalmente em países tropicais em vias de desenvolvimento, e os fluxos de demanda que se originam nos países mais ricos e industrializados.

“O planeta inteiro se tornou uma fazenda, tudo está a serviço de fornecer cada vez mais bens”, critica Juan Carlos del Olmo, secretário-geral da organização conservacionista WWF na Espanha. “O maior vetor de destruição da biodiversidade é a produção de alimentos numa escala brutal”, aponta. Os autores do estudo relatam, por exemplo, sua surpresa ao comprovar que o principal foco de ameaça aos tesouros naturais do Brasil não está na Amazônia. “Apesar da grande atenção dedicada à selva amazônica, o rastro norte-americano no Brasil é maior no sul, no planalto brasileiro, onde há práticas agropecuárias extensivas”, ressalta o trabalho.

“E o rastro ecológico não para de crescer", acrescenta Del Olmo, “mas reduzir esse rastro não é fácil; não podemos fomentar um consumo responsável se depois vamos jogar fora 25% do que se produz”. Como alterar a influência negativa destes fluxos? “Com este enfoque, do rastro de cima para baixo, examinamos todas as espécies ameaçadas e a atividade econômica em conjunto, razão pela qual pode ser difícil estabelecer vínculos claros entre consumo, comércio e impacto”, admitiu ao El País um dos autores do estudo, Keiichiro Kanemoto, da Universidade de Shinshu.