quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Os sofistas

É muito conhecida a alegoria da caverna de Platão, uma das passagens mais importantes do livro A República, o clássico dos clássicos da política, no qual o filósofo grego discute o papel do conhecimento, da linguagem e da educação no Estado ideal. Nela, resumidamente, prisioneiros acorrentados no interior de uma caverna dão nomes às sombras bruxuleantes de homens, animais e plantas projetadas na parede pela luz de uma fogueira.

Um dos prisioneiros se livra das amarras e, ao percorrer a caverna, percebe que as imagens não eram de seres reais, mas de estátuas cujas silhuetas eram projetadas pela fogueira. Descobre que passou a vida inteira julgando apenas sombras e ilusões, desconhecendo a verdade, isto é, a verdadeira realidade. Arrastado para fora da caverna, ao sair, o homem é ofuscado pela luz do sol. Depois de se habituar com a nova realidade, volta a enxergar fora da caverna.

Encantado com os seres de verdade, regressa para a caverna e conta o que viu para os prisioneiros. Entretanto, é ridicularizado pelos demais, que só conseguem acreditar na realidade que enxergam na parede da caverna. É chamado de louco e ameaçado de morte porque suas ideias são consideradas absurdas.

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Como esses prisioneiros da caverna, muita gente se recusa a compreender que houve um esgotamento do modelo de capitalismo de Estado e do padrão de financiamento da política adotado nos governos Lula e Dilma. Ambos estavam em contradição com o Estado de direito democrático e, no fundo, a serviço do velho patrimonialismo e do saque predatório dos cofres públicos como forma de acumulação de capital, cujo maior símbolo é o escândalo da Petrobras.

Foi para os que ainda vivem nesse mundo das sombras bruxuleantes que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou, em sua mensagem de ano-novo. Candidato à Presidência da República por antecipação, nas redes sociais, propôs a convocação imediata de eleições e prometeu mundos e fundos à custa do aumento da inflação, do endividamento e do déficit fiscal. Não, não há exagero, ele prometeu girar a roda do crescimento dessa maneira mesmo, ou seja, à moda populista da pior espécie.

Lula age como os antigos sofistas tão criticados por Platão. Encantavam os espíritos com argumentos que nada tinham a ver com a verdade, só visavam a conquista de opiniões. A diferença entre os sofistas e Lula, porém, é que os antigos se satisfaziam com a vitória passageira dos argumentos à custa da verdade, enquanto o líder petista quer uma vitória à custa da realidade. Mais uma vez os fins 

A mensagem de fim de ano do petista, porém, contrasta fortemente com os discursos de posse dos prefeitos eleitos. Há uma certa dose de demagogia em algumas atitudes tomadas ontem, como a do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), ao se vestir de gari na primeira ação do governo ou do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), ao posar como doador de sangue. O primeiro gesto simbolizou uma faxina na administração paulista; o segundo, uma entrega total à gestão da cidade.

Em ambos os casos, porém, há uma diferença da água para o vinho em relação à mensagem do petista. A maioria dos prefeitos eleitos que tomaram posse não fez promessas mirabolantes, não apresentou projetos faraônicos, não prometeu mundos e fundos. Apenas sinalizaram que pretendem trabalhar duro e se entregar à missão para a qual foram eleitos. É uma das características dessa nova safra de prefeitos: defender propostas mais condizentes com a situação real do país, o que é um sinal muito bom.

O mau sinal, porém, é a catilinária dos que acham que a União deve resolver os problemas fiscais de estados e municípios, mais uma vez. Essa pressão vem sendo feita pelos governadores encalacrados nas dívidas, que agora tentam mobilizar os prefeitos recém-eleitos com os mesmos objetivos. Não há como fechar essa equação. Todos os níveis de governo precisam se ajustar à realidade e redimensionar as estruturas administrativas, garantindo, porém, os serviços básicos. Sem isso, o resultado inevitável será o colapso desses serviços e a incapacidade de pagamento de fornecedores e servidores.

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Mika Suutari

Austeridade ostentação

Ano novo, desculpa para sonhar. Imagine um entediado hacker russo de férias em Copacabana. Vermelho – pelo sol, não por ideologia –, refugia-se no ar condicionado de sua quitinete alugada pelo Airbnb. Após assistir ao enésimo telejornal, ele, por vingança e diversão, infecta e desabilita de vez todas as câmeras de vídeo e foto apontadas para governantes brasileiros. Ao primeiro sinal de uma autoridade no visor, elas se apagam. Nem os smartphones escapam. Imaginou as consequências?

Para começar, nunca mais um prefeito se fantasiaria de gari. Qual a graça de vestir uniforme e exibir falta de intimidade com a vassoura se ninguém fotografa ou grava? Salvo o prefeito crer que o melhor jeito de exercer seu mandato é fingir que trabalha enquanto anônimos limpam a cidade dignamente, é claro.

Os frequentadores de botecos e padarias não mais teriam sua rotina interrompida pela turba que acompanha governadores, deputados e similares em visitas oportunistas a esse tipo de estabelecimento durante as campanhas eleitorais. Em compensação, os políticos nunca mais seriam flagrados fazendo careta ao tomar o cafezinho saído direto do banho-maria ou comendo aquela coxinha resgatada do esquecimento na vitrine do balcão.

Tremendo pelos efeitos da abstinência midiática, um hierarca perguntaria aos assessores apalermados: “Mas nem uma selfie?”.

A repentina escassez de imagens de dignatários seria devastadora para os canais de TV oficiais e oficiosos. Nada de transmissões ao vivo dos salões do Congresso – muito menos dos plenários dos tribunais superiores. Silenciadas e deprimidas, togas falantes do Supremo cogitariam se aposentar antes da hora. Por outro lado, os julgamentos seriam sumários, e os votos, sintéticos.

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Sem poder aparecer no vídeo, procuradores da República recorreriam cada vez mais a PowerPoints para apresentar suas denúncias. Mas sem as imagens dos políticos algemados, os escândalos de corrupção perderiam audiência.

Nem entrevista coletiva de tecnocrata escaparia ao filtro do hacker siberiano. Longe das câmeras, cerimônias de posse e assinaturas simbólicas de atos oficiais cairiam em desuso. Ociosos, burocratas a cargo do cerimonial dos palácios seriam dispensados – mas os governantes nem sequer faturariam com suas demissões: sem refletores não existe ostentação de austeridade.

Em contrapartida, os porta-vozes adquiririam status inédito. Se transformariam na única cara dos governos – até acharem que eram a própria autoridade e serem também censurados pelas câmeras.

Como efeito colateral do vírus russo, os microfones emudeceriam ao detectarem o som da voz do presidente ou de um simples vereador do interior. “Pra que discursar se não vai sair nem na Voz do Brasil?”, se questionariam parlamentares em crise existencial. O pequeno expediente da Câmara se transformaria em um deserto de homens (de ideias já é faz tempo).

Concessões de rádio e TV perderiam seu capital eleitoral. Sem poder aparecer nas próprias emissoras – nem mostrar adversários em situações vexatórias –, políticos mandariam seus laranjas se livrarem dos canais e investirem em mídias sociais, as únicas poupadas do ataque cibernético.

Sem a contraprova das imagens nem dos sons gravados, declarações atribuídas a autoridades se multiplicariam pela internet. Boatos não poderiam ser desmentidos. Da revogação da lei da gravidade às fofocas sobre as libertinagens de ministros, tudo seria crível. A era da pós-verdade chegaria à fase terminal. Até o hacker ser chamado de volta para ajudar o recém-empossado presidente de um país que se tornara o mais novo aliado russo.

Paraísos extintos

Hoje em dia se empregam eufemismos como "globalização" e "acordos comerciais". Isso implica que a comida já não se define como alimento, e sim como mercadoria.
A tortura do consumismo...:  
Onde outrora as pessoas podiam comer o que colhiam em seus campos, hoje se cultivam cada vez mais produtos inúteis, a que somente os países mais ricos domundo podem ter acesso. Não vivemos mais da natureza. Foi-se o tempo dos paraísos
Jostein Gaarder

A gaiola dourada da popularidae

Houve quem criticasse Nizan Guanaes quando ele recomendou ao presidente Michel Temer aproveitar a sua impopularidade para adotar medidas duras, a fim de restabelecer o equilíbrio fiscal e promover a retomada do crescimento econômico. Eu estava a seu lado no Conselhão quando ele fez a recomendação.

Em síntese, ele dizia que o presidente deveria tratar de temas duros sem se preocupar em ser popular. A declaração foi longe e gerou debate, mas Nizan estava coberto de razão. O estado em que o Brasil se encontra demanda medidas que dificilmente serão populares.

Ninguém acredita que uma Previdência Social tecnicamente quebrada possa ser reformada sem dor. Muitos sabem que os salários devem ser congelados e os benefícios cortados, conforme feito em Portugal. A questão da popularidade, porém, persegue os governantes assim como os autores de novela perseguem o Ibope.

O filósofo suíço Alain de Botton é de uma sinceridade devastadora ao explicar a obsessão em querer ser popular, buscar o elogio e o reconhecimento, querer agradar sempre. No Brasil rasteiro, há quem considere a popularidade a medida do sucesso, em especial quando se mistura espetáculo com política. Não importa como se consegue ser popular nem em que circunstâncias.

Muitos acham que o presidente deve ter a preocupação de agradar sempre por conta do ciclo eleitoral. Que deve tomar medidas duras de início e guardar os agrados para o último ano e meio do mandato, numa dinâmica que atende ao interesse eleitoral e não ao nacional.

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A busca da popularidade extrapola o limite dos mandatos. É o caso da antecipação de aumentos salariais pelo governador que deixa o cargo para que sua decisão seja cumprida pelo governador que acabou de ser eleito. Uma espécie de bomba-relógio para as finanças públicas na ânsia de ser eleitoralmente popular.

Agradar deveria ser a última das preocupações de um presidente. E sua popularidade deveria decorrer de uma análise fria dos acontecimentos. Algo que jamais acontecerá, considerando a profundidade de nosso entendimento sobre o cotidiano. Afinal, vivemos em um país raso, onde quem explica também busca a popularidade.

Daí a espetacularização do noticiário. As manchetes são movidas pelo espetáculo. As fotos de capa mostram o detalhe do cabelo despenteado ou um leve roçar no nariz, de forma a forçar a vista para o inusitado. Popularidade a qualquer preço.

Recorrentemente, vemos celebridades e subcelebridades artísticas que, por conta de sua exposição, se acham no direito de dar opinião sobre o que não conhecem. Surfam nas ondas baixas do senso comum em busca de popularidade. Confirmam, usando o axioma “com certeza”, o que o senso comum espera ser confirmado em círculo vicioso de intensa mediocridade.

O francês Michel Houellebecq, mesmo sendo um dos mais respeitados escritores da atualidade, se diz escritor e não intelectual. E afirma que não deve dar opinião sobre tudo. No Brasil rasteiro, falta pudor às nossas celebridades e juízo aos comunicadores, que se encarregam de propagar as besteiras ditas em favor da popularidade. Assassina-se, diariamente, uma das maiores conquistas do século passado: a reflexividade.

Dilma Rousseff, a mais incompetente presidente de nossa história, foi, paradoxalmente, a presidente mais popular. No início de 2013, bateu recordes de popularidade e aprovação. Acabou melancolicamente descartada no lixão político de nossa República. É uma prova de que popularidade não é tudo e pode terminar mal, se não vier acompanhada de decisões políticas consistentes.

Mesmo sendo uma armadilha terrível, a busca pela popularidade é a tônica da nossa sociedade. Daí muitos não terem entendido quando o grupo Los Hermanos desprezou a sua mais popular canção, “Ana Júlia”. Eles queriam ir além da popularidade pop que a canção lhes trouxe. Se não fizessem isso, teriam se transformado, certamente, em uma espécie de “one hit wonder” nacional, como o Sylvinho, do “Ursinho Blau-Blau”.

Na explicação do fenômeno político, as armadilhas são cotidianas. Seguir o “bom senso” ou o “senso comum” pode ser o caminho para a popularidade. Mas não o caminho para o sucesso do analista. Usar a indignação como ponto de ênfase para as explicações também é outro atalho para a popularidade. Mas leva para longe a verdade dos fatos. Na política, a indignação pode justificar, mas não explica.

O mais grave não é apenas o desejo doentio do reconhecimento. É o fato de que a verdade deixou de fazer sentido. São tempos de pós-verdade. Era de factoides. Fatos que parecem mas não são verdades, assim como os julgamentos indignados sobre o porquê das coisas.

Quando Nizan, mago da publicidade e celebridade internacional, recomendou que o presidente aproveitasse as vantagens da impopularidade, machucou um dos objetivos mais caros da vida de milhões: ser popular. Para a imensa maioria, a sugestão de Nizan é algo absolutamente incompreensível. Neste momento, se formos medir o governo pela popularidade, certamente estaremos aprofundando a vala comum de nosso fracasso coletivo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

2016: um ano que não deixará saudades, mas que valeu a pena

Não sei se é o calor, que há anos vem-se apoderando da outrora cidade vergel, a principal causa do meu enfastio. Ou se são as notícias de afugentar sono, de todas as origens, tanto indígenas quanto alienígenas. Ou se é, na verdade, o peso da idade, que vai me deixando mais sensível, ao contrário do que muitos pensam, sobretudo os jovens, que só mais adiante, na maturidade, darão valor à vida que gratuitamente esbanjam. A idade, leitor, não torna o velho mais cascudo.

Tento desfiar, um por um, argumentos convincentes (que existem, não sou um parvo!) para explicar aos meus nove netos (de 27, 25, 23, 23, 22, 21, 18, 18 e 11 anos) que vale a pena permanecer em nossa terra e trabalhar para transformar nosso enorme território num país e, finalmente, numa nação. Pedro, o de 11, resiste, com seus argumentos.

No melhor estilo jornalístico, em 1989, o escritor e jornalista Zuenir Ventura, em seu mais festejado livro, “1968: O Ano Que Não Terminou”, retratou acontecimentos, no Brasil e no mundo, que o marcaram para sempre, sobretudo em nosso país. Na época, padecíamos sob férrea ditadura civil-militar, mas havia gente convencida de que residiam nesse regime soluções para nossos inúmeros e cada vez mais complexos problemas. Vinte anos mais tarde, depois de vivermos a decepção de não termos eleições diretas; de saudarmos a vitória de Tancredo Neves nas eleições indiretas pelo Congresso Nacional; e de passarmos pelo pusilânime governo Sarney, com o advento da Constituição Federal de 1988, começamos a respirar, de novo, os ares do bem mais precioso do ser humano – a liberdade, cujo preço, para mantê-lo, continua hoje o mesmo, “a sua eterna vigilância”.

Digo sempre aos filhos e netos: basta uma rápida olhada no que já passou para concluir que outros anos também nos deixaram a impressão de que não terminaram. Esse 2016, por exemplo, é só a amostra mais recente. Um ano horroroso para você, leitor, para mim, para todos os brasileiros, e que, por enquanto, não sentimos, na prática, a melhora (prometida pelo governo Temer) que viveríamos logo depois do impeachment de Dilma Rousseff. Um ano que ainda teve, quase em seu final, a presença trágica de uma brasileira: Françoise Amiridis, casada com o embaixador grego Kyriakos Amiridis há 15 anos, mãe de uma filha de 11 anos, teria sido coautora ou mandante (ou incentivadora) do covarde assassinato do marido, que contou – como não poderia deixar de ser – com a ajuda de um soldado da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

Confesso que jamais esperei que, na despedida de 2016, fôssemos nos deparar, em Campinas, com uma barbárie fora de qualquer previsão, cometida por Sidnei Araújo, que matou, além de sua ex-mulher e de seu filho de 8 anos, mais dez pessoas. Sidnei, 46, técnico de laboratório, disputava a guarda do filho e suicidou-se.

Como se não bastassem os horrores que vêm por aí, oriundos da operação Lava Jato, 2017 nos brinda com a matança de 56 presos, no presídio Anísio Jobim, em Manaus, consequência inegável, sem dúvida nenhuma, da omissão criminosa de nossos representantes.

Se você não é um ególatra, e se não tem condições de se escudar na esperança, leitor, jamais aceitará declamar, apenas por declamar, sequer este verso do poeta Ferreira Gullar: “Sei que a vida vale a pena”, para depois concluir: “Como um tempo de alegria/ Por trás do terror me acena/ E a noite carrega o dia/ No seu colo de açucena”.

Fico com o poeta. Ele sempre tem razão.
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Como será 2017? Responda que puder

Na virada do ano milhões de brasileiros jogaram flores a Iemanjá, consultaram os búzios ou cartas de tarô, pediram para a cigana ler as suas mãos. Tudo para saber o que o destino reserva para 2017, se as suas vidas passarão pelo mesmo sufoco de 2016 ou se há sinais de que vai melhorar.

Nunca as divindades foram tão consultadas como agora, tal o mar de incertezas sobre o ano que se inicia.

As previsões vão do apocalipse da “dilmização de Temer” ao otimismo cauteloso, segundo o qual, apesar dos raios, trovões, tempestades e terremotos, ao final do ano Michel Temer ainda residirá no Palácio da Alvorada em um ambiente mais favorável na economia e na política.


A singularidade de 2017 é ser um ano-sanduiche. De um lado, dá continuidade a 2016, com toda a sua pauta negativa, de outro, está imprensado pela agenda de 2018, com as forças políticas agindo para ocupar posições para a sucessão presidencial.

Ou, em outras palavras, é o ano da transição da transição, se essa for entendida como a construção das bases necessárias para o Brasil passar de um país desestruturado pela era lulopetista para o advento de um novo modelo de bases mais sólidas, institucional e economicamente. A consolidação de tal modelo será uma missão dos pós 2018.

Esse caráter do ano em curso aparece com nitidez na área econômica, onde fatores positivos e negativos se combinam. Ao final do ano, o crescimento será raquítico, o desemprego continuará sendo um tormento na vida dos brasileiros e a dívida bruta chegará a 76,2% do PIB.

Mas é preciso levar em conta a movimentação das placas tectônicas da economia. A política macroeconômica pode começar a dar resultados. A inflação de 2016 ficará no teto da meta. Sua tendência aponta para uma aproximação para o centro da meta, em 2017. Ou seja, estarão dadas as condições para uma queda consistente da taxa básica de juros.

As medidas microeconômicas adotadas em dezembro podem surtir efeito no médio prazo, principalmente se Temer conseguir destravar as privatizações e se a recuperação em marcha dos preços das commodities tiver continuidade.

Vista em estado neutro, a tendência é de uma melhoria do ambiente e de um horizonte no qual o Brasil rompa o círculo de ferro do baixo crescimento com inflação e juros altos.

Como a economia não é um estado neutro e sofre a incidência do mundo da política, o presidente vai precisar de muita reza brava, banho de cheiro e proteção dos orixás para se livrar das duas espadas de Dâmocles que pairam sobre a sua cabeça; o julgamento das contas de Dilma e Michel Temer pelo TSE e o maracanã de delações da Odebrecht, que podem provocar um abalo sísmico no mundo da política formal e no seu governo.

José Dirceu dá de barato que 2017 será o ano do juízo final de Michel Temer, razão pela qual expediu uma carta conclamando a militância para ir às ruas e “justiça para todos, a renúncia de Temer et caterva, eleições gerais, Constituinte”.

Em campo oposto, Ronaldo Caiado vai quase na mesma direção, propondo a antecipação das eleições de 2018, e Miro Teixeira engrossa o caldo com sua emenda das diretas, como se fosse o Dante Oliveira redivivo.

A história, porém, não se repete, a não ser como farsa. Nada indica que as massas que foram às ruas pelo impeachment junte seu grito à voz cavernosa do lulopetismo ou de quem está atrás de quinze minutos de glória.

O fim do mundo de Temer pode não acontecer. Aliás, o mais provável é que não aconteça. Sua margem de manobra não se esgotou.

No dia dois de fevereiro, quando os baianos vão ao Rio Vermelho festejar Iemanjá, dará início à sua reforma ministerial, que pode servir tanto para acomodar insatisfações latentes em sua base de sustentação como para lhe dar condições de fazer política também para as ruas; como, apropriadamente, reivindica o governador de Pernambuco, Paulo Câmara.

Por falar na terra do frevo e do maracatu, os profetas do apocalipse deveriam ler a entrevista do sociólogo Marcus Melo sobre o equívoco da tese da “dilmização de Temer”.

O Congresso é hoje a grande casamata do presidente. Até por uma questão de sobrevivência, Executivo e Legislativo devem atuar em dobradinha em torno de uma agenda positiva, o que, indiretamente, favorecerá o ambiente econômico, com a aprovação das reformas da Previdência e outras medidas.

A cigana pode ter enganado quem aposta em 2017 como o ano do inferno astral dos brasileiros. Os astros podem nos ajudar.

Portanto, desde já, um bom ano novo a todos.

Equação difícil: Como recuperar serviços cortando recursos públicos?

Esta equação reflete bem, creio, o grande desafio que está colocado sobre a mesa dos prefeitos que assumiram os cargos agora e também para os governos estaduais, como o do Rio de Janeiro que têm grandes dívidas a resgatar. O passivo existente, como se está vendo todos os dias, tem origem em desregramentos financeiros, mas seus efeitos não se esgotam nesse ponto.

Os serviços médicos, saneamento, segurança e até de limpeza urbana vivem uma calamidade que coloca diretamente em risco a saúde da população que paga pelos efeitos nocivos de fatos que não cometeram e que deram origem a eles. Ontem, por exemplo, para citar o Rio de Janeiro, em municípios da Baixada Fluminense quantidades enormes de lixo se acumularam nas ruas, exigindo providências imediatas.

Os prefeitos de modo geral assumiram com base no compromisso de melhorar os serviços públicos expandindo-os ao nível que a realidade exige. Mas ao mesmo tempo sentaram-se à mesa do poder prometendo cortes de verbas. Não quero dizer que cortes não sejam necessários. Desejo apenas frisar a dificuldade entre as duas fontes da questão tanto administrativa quanto social.
Os cortes necessários não eliminam todos os focos da questão. Pois é preciso que sejam eles acompanhados pelo aumento da receita pública, uma vez que as prefeituras, a exemplo de governos estaduais, encontram-se com grandes débitos acumulados. São contas atrasadas para as quais a explicação lógica torna-se difícil.

Diante desse quadro, é indispensável que as Prefeituras tomem a iniciativa de cobrar o que empresas lhe devem, porque sem isso dificilmente poderão enfrentar o desafio triplo de pagar salários em atraso, melhorar os serviços e recuperar a credibilidade que a população exige de todos aqueles que chegaram ao poder político com base no voto popular.

Não há mágica possível para ultrapassar esse desafio e superar a equação na qual residem as esperanças de populações cansadas de, pelo menos esperar ver cumpridos seus legítimos direitos. Esta é a questão essencial.

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Angel Boligan

A primeira crônica do ano

No velho bar do Soares e no último dia de 2016, encontrei minha turma. Um mal-encarado Mario Batalha repetiu o chavão:

— Interminável...

— A cerveja que ainda não tomamos?

A lourinha gelada, servida pelo sempre bem-humorado Soarezinho, chegou com o resto do grupo.

— Brindemos a mais um ano novo. Que ele não seja campeão absoluto em tudo de que um país não precisa: desonestidade, mendacidade, roubalheira e vergonha — começou o Mendonça, levantando o copo. — E o intelectual e cronista, o que nos diz?

Olharam para mim. Sorvi um largo gole do meu Joãozinho Andarilho e pensei para fora.
— Essas épocas de Boas Festas me deixam saudoso. Eramos seis irmãos: a vida levou a metade. Gostaria de voltar a acreditar em Papai Noel, no Brasil, no mundo, no progresso e no futuro. Mas perdi minha inocência.

— Fomos treinados para isso — disse o sociólogo Fuldêncio. — A solução estaria em algum lugar do futuro, mas eu vejo que ele está no presente, porque o futuro encolhe a cada dia. O desastre ecológico sintoniza o fim do amanhã e do próprio planeta. Teria falhado a teoria evolucionista?

— Com essa chamada “civilização” que confunde avanço tecnológico com superioridade moral, sem dúvida — respondi.

— É triste pressentir que o futuro nos escapa e se transforma numa “pós-verdade”. Aliás, moda é inventar novos rótulos para velhas garrafas. “Melhor idade” para velhice, “disfunção erétil” para broxada e “pós-verdade” para mentira e ignorância. Isso que a internet, infelizmente, também dissemina. Ao contrário do que se dizia, quem muito se comunica se trumbica! — falou o Levy, com a segurança dos comentaristas políticos.
Alguns riram e pensaram no Chacrinha. Continuei:

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— O futuro era tudo para nós, meninos parcialmente educados pelo cinema americano. Um dia donos de automóveis e namorados daquelas louras de cabelos esvoaçantes que não tinham pai, mãe ou parentes. Moravam sozinhas...

O ano novo leva ao passado, e eu recordei como víamos o nosso futuro nos quadrinhos do Flash Gordon, o herói interplanetário.

— E lutava contra o imperador Ming do planeta Mong — lembrou meu tio Mário.

— Acho que era o oposto: contra o Mong do planeta Ming! — soltou, sorrindo, tio Silvio...

— E que mundo imenso era aquele — falou o engenheiro Naninho, com a juventude dos seus 82 anos. — Lembra, Roberto, o dia em que pegamos um mapa para localizar a tribo de Muviro, o amigo africano de Tarzan? E quando discutimos se as cidades perdidas de Castrum Mare e Castrum Sanguinare representavam Atenas e Esparta transplantadas para o universo de Edgar Rice Burroughs?

— Tempos de Papai Noel...

— Você vai escrever sobre o quê? — perguntou o professor de Línguas Mortas Mario Roberto.

— Não sei. Talvez meu tema seja sobre o começo, pois vai ser a primeira crônica do ano. O inaugurar, o abrir, o começar... Inícios e genêses, prefácios e prólogos, a primeira letra do alfabeto sempre são bons para escrever. O tempo dissolve tudo, mas sempre haverá um primeiro banho de mar na Praia das Flechas.

— Eu choro quando a vejo — disse o nosso militar reformado Celso, triste, consolando-se com mais uma cerveja.

— Sem dúvida, vou falar do começo, mas não posso deixar de pensar no fim. Porque um dia ele virá... É curioso — continuei. — No Ocidente, o futuro sempre foi maior do que o presente. Preocupar-se com o presente, o aqui e agora, era a missão dos revolucionários que rejeitavam um paraíso no outro mundo. Já nas sociedades que tenho estudado, as tais “tribos primitivas”, passado, presente e futuro são, de um ponto de vista cósmico, uma mesma coia. Como disse Lévi-Strauss, as sociedades tribais são fieis a si mesmas. Nós, ao contrário, pensamos em ir para Marte sem termos nos resolvido aqui na Terra.

— Que está sendo destruída — disse o Mauricio, o nosso fazendeiro falido pelo agronegócio.

— Acho que o segredo da vida está em como construir um espaço entre a primeira e a última vez...

O sexo da esquerda

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Diferentemente dos anjos e dos partidos de direita, a esquerda tem um sexo. Declara-se feminista, como o PSOE espanhol desde a liderança de José Luis Zapatero; ou quer feminizar a política, como o Podemos, partido fundado na Espanha em 2014. A esquerda ganhou rótulos. Além de socialista, é ecologista, feminista e defensora das minorias. Essa diversidade oferece oportunidades, mas também riscos.

Por um lado, a esquerda se adaptou às mudanças sociais que dizimaram seu eleitorado clássico, os trabalhadores homens. Não se pode viver da nostalgia e, no século XXI, a defesa da igualdade deve incorporar considerações culturais, de gênero e de orientação sexual. A esquerda faz bem em propor medidas contra a discriminação de qualquer grupo em qualquer frente: escola, trabalho ou esfera privada.

Mas tudo o que há de bom nessas políticas integradoras há de mau no discurso político que as acompanha. Esse é o tendão de Aquiles da esquerda contemporânea. À custa de insistir nos direitos de alguns grupos, a esquerda deixou de ser vista como representante da sociedade em seu conjunto. Caiu no que Bo Rothstein, em relação à Europa, e Mark Lilla, em relação aos Estados Unidos, denunciam como a política da identidade. A esquerda enfatiza mais as diferenças entre os distintos grupos sociais do que as semelhanças entre todos os cidadãos.

A falida campanha de Hillary Clinton é uma séria advertência para os progressistas de todo o mundo. Hillary substituiu uma visão geral para o país por menções a grupos concretos: afro-americanos, latinos, LGTBI e, sobretudo, mulheres. Em princípio, parecia ser um bom marketing político. Particularize seu produto. Coloque nome e sobrenome, sexo e etnia em seus potenciais clientes. Mas a política não é como a moda. Quando você tenta atrair um grupo concreto, aliena outro. Nesse caso, o homem branco.

A esquerda em muitos países corre o perigo de escorregar na mesma ladeira: quando a defesa de políticas para os mais desfavorecidos desemboca em um conflito de identidade. Para evitar isso, os progressistas têm que ser como os anjos: inteligentes e assexuados.

Um mito e um clássico

Massacre de Manaus mostra que o país não é civilizado, mas ainda ha esperanças

Nascido em 1903, o londrino Kenneth McKenzie Clark foi um dos mais conhecidos intelectuais de sua geração. Escritor e especialista em História da Arte, estudou na Universidade de Oxford e aos 30 anos já era diretor da National Gallery, e no ano seguinte, superintendente da Royal Collection. Professor em Oxford e chanceler na Universidade de York, aos 35 anos foi ordenado cavaleiro, depois a Rainha Elizabeth lhe outorgou o título de barão Clark de Saltwood, no Condado de Kent. Provocador, costumava ironizar o estágio da evolução social em meados do século passado. Dizia: “Civilização? Jamais conheci nenhuma. Mas sei que, se algum encontrar alguma civilização, saberei reconhecê-la”.

Lord Kenneth Clark morreu em 1983 sem ter conseguido encontrar uma verdadeira civilização na face da Terra. Mas agora, 35 anos depois, algumas sociedades evoluíram bastante e o grande pensador britânico certamente já poderia vislumbrar a existência de uma quase civilização nos países nórdicos e na Suíça, embora ainda deixem a desejar em vários aspectos.


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Se avaliasse o Brasil neste início do Terceiro Milênio, Clark constataria que o país nada tem de civilização, mas nada mesmo. Pelo contrário, vive em meio à barbárie, provocada pela insistência suicida de tentar fazer com que a riqueza total possa conviver com a miséria absoluta. E qualquer idiota percebe que isso jamais dará certo.

Mesmo sob a barbárie, que transmite ao exterior a imagem de uma sociedade violenta e corrupta, ainda assim o Brasil tem muitos atrativos e continua a receber turistas do mundo inteiro. Mas verdade seja dita, a maioria dos estrangeiros vem atrás de alegria, para participar das grandes festas, como Réveillon e Carnaval, e grande parte dos turistas busca mais especificamente o turismo sexual, que inclui até mesmo pedofilia, sejamos francos.

Nossa imagem no exterior está péssima, massacrada pela insegurança pública nas grandes cidades e pelas mortes de estrangeiros em pontos turísticos. Mesmo assim, as atrações do Brasil são tantas que eles não resistem, e aí está Leonardo DiCaprio que não nos deixa mentir. As celebridades vivem por aqui e quase sempre chegam dissimuladamente. Certa vez, eu e meu filho entramos no elevador no Aeroporto do Galeão e demos de cara com Alec Baldwin e Kim Bassinger, que estavam de passagem, rumo ao Amazonas. Aliás, se fosse bem trabalhada, a Amazônia seria o maior pólo turístico do mundo. Um dia será. Mas agora esse importante polo turístico sofreu um baque, com o massacre no presídio privatizado.


O fato concreto é que o Brasil está glauberianamente em transe. É um país maravilhoso e sinistro, ao mesmo tempo. Quinto maior do mundo em extensão e número de habitantes, a oitava economia do mundo, tem um clima ideal para curtir a natureza e viver à vontade, ao ar livre. Mas o Brasil está dividido e desgovernado. Precisa ser passado a limpo, para começar de novo e se tornar o país do futuro de Stefan Zweig, e isso tem de acontecer o mais rápido possível.

A nova geração de delegados federais, procuradores da República, juízes federais e auditores da Receita está mostrando que isso é possível, apesar do claro boicote que sofrem das cúpulas dos três Poderes. O trabalho desses jovens na Lava Jato tem uma força descomunal, está destinado a servir de exemplo nos Estados e Municípios, e esse bendito fenômeno é irrepreensível, jamais será vencido por articulações de bastidores na calada da noite. Essas manobras que ainda são tentadas no Planalto, no Congresso e no Supremo chegam a ser patéticas e ridículas. Este país vai mudar, porque nós queremos mudar. E isso já está acontecendo. Agora, é só uma questão de tempo.

Tudo passa, quase nada fica

As nuvens que estão ali agasalhadas numa quase baixa altura um pouco acima do sol nascente devem ser as vencedoras de alguma olimpíada que a noite distraída encomendou.

Vencedoras da corrida e por isso, só por uma madrugada, amancebadas com o sol, as nuvens agora se banham em raios dourados que refletem sobre as águas do lago realçando o branco das garças, o verde das arvores e o cinza dos prédios ao longe em derredor.

Isso tudo e mais o enorme azul que se esparrama pelo céu denunciando os arquipélagos das nuvens fracas, sem brilho.

Penso no Eclesiastes 4/1 –“ Depois, voltei-me e atentei para todas as opressões que se fazem debaixo do sol; e eis que vi as lagrimas dos que foram oprimidos e dos que não tem consolador, e a força estava do lado dos seus opressores; mas eles os oprimidos, não tinham consolador.”

É terrível viver sob a opressão e não ter em quem confiar. Não que faltem profetas. Há profusão deles. Não que a indiferença campeie sufocando os clamores nas cidades e nos campos, inclusive os rumores das selvas seculares.

São incontáveis os que se digladiam querendo a confiança dos oprimidos. A diferença, contudo, é enorme entre obter a confiança e se manter confiável para vencer as refregas em favor dos oprimidos. A história dos que padecem de fome de direitos e de sede de justiça tem páginas e mais páginas manchadas pelas tintas da decepção popular.

Os que não se desgarram da verdade tem dificuldades enormes para obterem a confiança dos oprimidos, o que é compreensível porque as pessoas que sofrem a opressão têm pressa, querem estar livres dos que lhes aperreiam o quanto antes.

Quem é comprometido com a verdade não transige com a mentira. Sabe que concretamente nada é possível de uma hora para a outra. As coisas devem ser feitas com eficácia duradoura. Nada de arremedos.

O líder de verdade não cede à ilusão das promessas miríficas, aliás, não cede a ilusão nenhuma. Pode despertar esperanças? Sim. Afinal, agarrar-se a uma esperança não é agarrar-se a uma ilusão.

A mentira que move os falsos profetas, e eles são tantos e até incontáveis, é pródiga nas miríades, convincente nas promessas inalcançáveis que eles inventam e despertam. Compreensível que os oprimidos mais se inclinem em confiança aos falsos profetas.

A multidão condenada à opressão das desigualdades sociais, à tirania dos seus direitos, à sonegação da sua dignidade, à cegueira da desinformação pela falta total de instrução escolar, é presa fácil da demagogia, a qual nem existiria se o seu oxigênio não fosse a mentira.

Demagogo é o especialista em dizer às pessoas aquilo que elas estão exatamente querendo ouvir. Não lhe interessa se o que diz é viável, se tem alguma aparência de verdade ou se é descarada mentira. Interessa, sim, atrair a confiança da multidão ou de uma só pessoa para depois então vitima-la, lhe frustrando a esperança não sem antes usufruir tudo nos dividendos que a eventual liderança possa arrecadar.

Penso no Eclesiastes – “depois me voltei e atentei para todas as opressões que se fazem debaixo do sol”. Os oprimidos nem sempre tem ao seu lado quem verdadeiramente os represente e os console.

As nuvens que amanheceram hoje agasalhadas sob o sol já se banharam com os raios dourados e já flutuam no azul, vestidas de algodão. Amanhã serão outras.

Edson Vidigal

Paisagem brasileira

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Itapuã (1954), Georges Wambach (1902 – 1965)

O triunfo da tolice

A cada início de ano o futuro desponta como indagação. A expectativa é o grande componente da vida e ansiamos por oráculos, mesmo sem confiar neles. Não visitamos videntes ou cartomantes e similares, mas o longo amanhã ainda nos perturba.

Não podemos recorrer ao sabichão Dr. Google, que guia o planeta, pois sabe apenas do presente e do passado. E nem é preciso. No Brasil, basta analisar, medir e pesar os fatos do cotidiano para vislumbrar como será o amanhã.

Nosso país se intitula República mas, em verdade, vivemos no Reino da Malandragem, sob gigantesca monarquia de tons absolutistas (como as da Idade Média) que, a cada dia, aperfeiçoa os métodos de governança em proveito pessoal dos governantes.

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Felix Nussbaum
Nós, os governados, ficamos de fora. Para disfarçar, Suas Majestades (no plural, pois vários são os reis e as reinações) encobrem o crime atirando sobre nós as migalhas do banquete. Ou não foi esse o presente de Natal com que o presidente Temer “estimulou a economia” ao “liberar” a retirada das contas inativas do FGTS?

Dias antes, o presidente (junto a seu círculo íntimo) aparecera citado entre os grandes beneficiários da corrupção desvendada pela Operação Lava Jato. As delações premiadas dos antigos diretores da Odebrecht revelaram a engrenagem profunda do conluio entre políticos e o setor empresarial. Com detalhes, mostraram algo que nem a mais fantasiosa pitonisa ousaria apontar como possível – os políticos atuavam como serviçais das grandes empresas, cumprindo à risca o que elas mandavam.

Cláudio Melo Filho, então diretor do departamento de subornos da Odebrecht, foi categórico: “Para fazer chegar a Michel Temer os meus pleitos eu me valia de Eliseu Padilha ou Moreira Franco, que o representavam. Era via de mão dupla, pois o atual presidente da República também utilizava seus prepostos para atingir interesses pessoais, como no caso de pagamentos de que participei, operacionalizados via Eliseu Padilha”.

Para evitar erros de interpretação, explicou como funcionava a engrenagem: “O propósito da empresa era manter uma relação frequente de concessões financeiras e pedidos de apoio com esses políticos, em típica situação de privatização indevida de agentes políticos em favor de interesses empresariais nem sempre republicanos”.

A delação premiada foi adiante: na orgia dos subornos apareceram muitos dos chamados “grandes nomes” dos grandes partidos – do PMDB ao PT, do PSDB ao PP e ao DEM – e dos nanicos da “base alugada”. Era início de dezembro e a modorra de fim de ano fez esquecer quase tudo. Até mesmo a reação de Temer, que culpou a “ilegítima divulgação” do conteúdo das delações pelo “clima de desconfiança e incerteza” na economia...

Pouco antes havíamos visto o presidente da República descer da majestade do seu posto e intervir na disputa em que seu velho amigo, o então ministro e articulador político Geddel Vieira Lima, exigia (para mero deleite pessoal) que o ministro da Cultura burlasse a lei, o bom gosto e o bom senso. Em seis meses de governo foi o quinto escândalo envolvendo ministros, três deles da intimidade presidencial.

A monarquia da malandragem tem reinações surpreendentes e, ao mesmo tempo, perigosas. A série de delações premiadas recorda a bomba atômica sobre Hiroshima. Talvez desnude a corrupção por inteiro e leve a vencer a guerra. Todos festejaremos, então, mas sob o impacto do medo, pois talvez não sobre ninguém sem mácula ou sem culpa na área política. Como na radiação nuclear, vestígios imperceptíveis ficarão no ar, poluindo ainda mais o tosco ambiente político e transformando a chusma reles num monturo de messias.

A Alemanha que abriu caminho ao Hitler messiânico era uma balbúrdia financeira, mas sem corrupção. Os aventureiros, porém, são encantadores de serpente e guiam o fanático escondido em nosso ego.

Aqui, cada nova investigação aprofunda mais o horror. Agora atuam também promotores da Suíça e do Departamento de Justiça dos EUA. Os suíços constataram que, de dezembro de 2005 a junho de 2014, mais de 440 milhões de francos (1 bilhão e 400 mil reais) da Odebrecht passaram por bancos de Genebra e Zurique, destinados a políticos e altos funcionários. Cada dólar de propina significava um lucro de quatro vezes mais em sobre preço. Os norte-americanos afirmam que, de 2003 a 2006, mais de R$ 1,1 bilhão foram pagos em propina.

Nada, porém, supera o tragicômico do horror da mais recente descoberta da Polícia Federal envolvendo a “LILS Palestras e Eventos”. A empresa, cuja sigla são as iniciais de Luiz Inácio Lula da Silva, de 2011 a 2016 recebeu R$ 28 milhões das empreiteiras Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, UTC, Odebrecht e de outras boas companhias às quais o ex-presidente prestou serviços.

A Cervejaria Petrópolis pagou R$ 1,5 milhão por três discursos em que Lula – tal qual garoto-propaganda – recomendou “beber a cerveja Itaipava”, ostensiva e abertamente. Em novembro de 2013, em mensagem a Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, o dono da cervejaria, Walter Faria, apontou até o que ex-presidente devia dizer ao inaugurar nova fábrica na Bahia: “... dizer que ‘a Itaipava é a cerveja preferida por ser 100% brasileira’ e também, como ele já disse em Atibaia – ‘não bebo muita cerveja, mas quando bebo é Itaipava’, seria ideal”.

E Lula discorreu longamente sobre os sabores e benefícios da cerveja!

Essa ridícula mercantilização da figura política não foi superada sequer pelas compras de alimentos e bebidas para o avião de Temer, no total de R$ 1,74 milhão, suspensas depois que a imprensa divulgou o edital com preços duas vezes além dos usuais. Além de “finesses”, iam comprar 600 rolos de papel higiênico e gastar R$ 42 mil em gelo.

O triunfo da tolice seria apenas anedótico e hilariante se não envolvesse aqueles que foram ou são nossos governantes. Vindo deles, é afrontoso.

Banalização da violência

Ao lado da crise política e econômica que se abateu sobre o Brasil, outra tragédia maior se destaca no ano que se inicia. A banalização da morte provocada pela violência. A leitura dos jornais diários, com suas informações sobre o país selvagem em que nos tornamos, é um verdadeiro soco no estômago. Assistir ao noticiário da televisão rouba o sono de qualquer pessoa com um mínimo de noção de civilidade. Dois jovens espancando até a morte, no metrô de São Paulo, um ambulante que tentou defender homosexuais , é das cenas mais dantescas dos últimos tempos. Cada pancada, cada pontapé na cabeça do homem já caído no chão ressoa na consciência dos que ainda preservam lucidez.

Mas não se ouve uma voz oficial sobre o ocorrido. É como se esse tipo de crime fosse completamente aceitável no nosso dia a dia, não havendo razão para providências capazes de impedi-lo, ou ao menos dificultá-lo. Nenhuma reflexão por parte das nossas lideranças políticas sobre as razões para o crescimento desse tipo de violência. Estão todos muito ocupados com a próxima eleição dos Presidentes da Câmara e do Senado e no loteamento dos cargos das suas mesas diretoras. Os dois assassinos foram detidos, é verdade, mas com certeza logo estarão nas ruas novamente. Há também os casos patológicos, como o homem que assassinou 12 pessoas da mesma família, incluindo um filho de oito anos e a ex-esposa. Parece que ninguém fica mais chocado com essas mortes brutais. Anestesia geral. Pelo menos, enquanto não forem atingidos pessoalmente.

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Cerca de 60 presos foram mortos numa penitenciária de Manaus. Logo invocadas as repetidas explicações creditando a carnificina à disputas de quadrilhas ligadas ao tráficos. Uma cadeia com capacidade para apenas 580 pessoas encerrava amontoadas, no momento da tragédia, cerca de1800. Mas a culpa é dos traficantes ali detidos e não da falta de interesse dos nossos dirigentes em resolver os graves problemas das penitenciárias brasileiras e todos os demais que interessam à maioria da população. Não é de hoje que pessoas mais responsáveis e especialistas no assunto denunciam esses fatos, mas somente quanto ocorre a repetição de um novo Carandiru, noticiado pela imprensa, é que as autoridade se manifestam Afinal,precisam dizer qualquer coisa aos jornalistas.

O Ministro da Justiça se dispõe até a enviar forças especiais e a aceitar a transferência de alguns dos delinqüentes para prisões federais. Não é caso para rir, mas ele até vai lá. É claro que não será isso que vai resolver o problema, mas como a autoridade não quer ficar mal na fotografia, é preciso marcar presença, com toda certeza amplamente divulgada pela assessoria de imprensa do Ministério. Mas esse assunto, que logo será esquecido, não interessa aos nossos dirigentes e políticos, ocupados que estão com questões que consideram mais importantes para sua sobrevivência eleitoral.

Em meio a quase 3000 mil acidentes nas rodovias brasileiras, nesse final de ano, cerca de 10% resultaram em mortes, mas isso também virou nota de rodapé. Mais grave é que estamos todos ficando acostumados com a violência, assassinatos brutais, mortes torpes, atrocidades e o estado de barbárie que se implantou no Brasil. Este é um dos mais acentuados sinais do abismo onde caímos. E que mais uma vez expõe o país à critica da imprensa internacional por tão insólitos e macabros acontecimentos. Aos quais se soma o assassinato do Embaixador da Grécia, em circunstâncias que chocaram o mundo civilizado.

É possível apontar dezenas de causas e explicações para esse estado de coisas, mas, entre elas, destaca-se a desigualdade social que tornou o Brasil um local onde sentimos medo,insegurança,desamparo e falta de perspectiva. A desigualdade social é altamente corrosiva e alimenta mais violência. A desigualdade apodrece a sociedade internamente. A repercussão da alta concentração de riqueza no país levou algum tempo para se desnudar. Mas já não é possível deixar de enxergar suas terríveis conseqüências.

Cada vez mais os poucos que detém o máximo de riqueza experimentam uma crescente sensação de superioridade, proporcional aos seus bens materiais. Indiferentes e obstruindo iniciativas capazes de reverter essa situação, prosseguem na sua trajetória egoísta como se fosse impossível construir um mundo melhor e mais justo. Cristalizam-se os preconceitos contra os mais pobres, agravando todas as formas de violência contra o ser humano. A herança da criação desregulada da riqueza é atualmente nosso maior legado.

Sobre o fim e o recomeço

Tenho medo de dezembro e de janeiro. Suspeito de que nesses dois meses morre mais gente do que nos outros. Não consegui estatísticas globais que confirmassem ou desmentissem tal suspeita. Descobri, todavia, que nos países com invernos bem marcados morrem realmente mais pessoas no início dessa estação. Em Portugal, por exemplo, o dia 3 de janeiro é aquele que concentra o maior número de mortes. É como se Dona Morte tivesse uma cota a cumprir. Por vezes preguiça ao longo do ano, adormece, relaxa, e então chega dezembro e ela lembra-se de que ainda tem muitos milhares de cabeças para cortar: levanta-se, pega na grande foice e lá vai, aos tropeções, cortando aqui, cortando acolá. Chega janeiro e o novo ano e a Dona Morte, de tão excitada, continua a ceifar vidas. Só sossega quando surge fevereiro.

Imagino que muitas pessoas doentes resistam até o final do ano por pura teimosia, como atletas exaustos, na maratona, com os olhos fixos na meta que se aproxima. Alcançada esta, deixam-se cair.

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No fundo, as pessoas tenderiam a morrer mais em dezembro porque esse mês carrega a ideia de fim. Acontece, no entanto, que também morre muita gente em dezembro e janeiro vítima de desastres naturais e não me parece provável que os cataclismos consultem o calendário. Por exemplo, o dia em que terão morrido mais pessoas na história da Humanidade, em consequência de um único evento, terá sido a 23 de janeiro de 1556, quando um terremoto devastador atingiu a província de Shaanxi, na China. Calcula-se que nesse dia desapareceram mais de 800 mil pessoas.

Evidentemente, não existe proteção possível contra a crueldade natural de certos meses. Não há nada a fazer. Então, sigo o exemplo das avestruzes e tento enfiar a cabeça na areia. Evito assistir a noticiários. Passo os olhos, rapidamente, pelas capas dos jornais, concentrando-me nas pequenas notícias perdidas nas páginas interiores. Ainda assim, sou atingido, de surpresa, pela morte de George Michael. Não tenho tempo de me recuperar pois logo a seguir morre Carrie Fisher. No dia seguinte, Debbie Reynolds, por sinal mãe de Carrie. Recuso-me a saber os pormenores e é então que encontro uma pequena nota sobre um cientista chinês que dedicou vários anos ao estudo dos stradivarius. Segundo Hwan-Ching Tai, da Universidade Nacional de Taiwan, o som único dos stradivarius originais resulta não apenas das particularidades de construção dos violinos, e da madeira com que foram construídos, mas também dos produtos químicos utilizados, há mais de três séculos, no combate aos insetos que os poderiam destruir. A nota agrada-me porque me parece uma belíssima alegoria já pronta. O que Hwan-Ching Tai nos está a dizer é que o essencial, nesse caso o som único dos stradivarius, depende de algo que ninguém até agora havia sido capaz de ver nem de valorizar. Ou seja, o essencial busca amparo em irrelevâncias. Agradam-me igualmente os pequenos erros que resultam, por puro acidente, em grandes acertos, como esse veneno que se revela capaz de dar à voz dos stradivarius a sua luz soberba.

Esta minúscula descoberta ajuda-me a retornar ao tema do fim e a estes dois meses que atravessamos entre o luto e a festa. Acontece que, enquanto lia o artigo sobre os stradivarius, me ocorria que luto e festa são parte de um mesmo processo. No meu país, em Angola, como em vários outros países africanos, o luto faz-se em festa, uma festa — o kombaritokwê — durante a qual os amigos do falecido se juntam para o lembrar e festejar, comendo, dançando e divertindo-se. A morte, ou a ilusão da morte, é que nos permite intuir a grandeza da vida.

O Natal cristão recuperou, como se sabe, festividades pagãs muito antigas, relacionadas com o culto do sol. Festejando o nascimento de Cristo estamos, mesmo sem nos darmos conta disso, a celebrar o sol. Ou Horus, o velho deus egípcio, filho de Osíris e de Ísis, com um olho que era o sol e o outro a lua. Horus foi concebido estando Osíris já morto. Ísis terá engravidado ao pousar, na forma de um pássaro, sobre a múmia do esposo. Nas suas mãos, Horus carrega as chaves da vida, da morte e da fertilidade. Mais tarde, Horus mata o seu irmão, Set, o deus da escuridão, da violência, da traição, do ciúme, da inveja, das serpentes, dos desertos e da guerra.

Portanto, Horus nasceu e está em expansão. Por ora, pode parecer-nos que é Set quem está a ganhar. Sim, o mês de janeiro de 2017, que estamos estreando, vem sombrio e violento. Há mortos. Há guerra. Há desertos que crescem, e serpentes e ciúme e inveja e traição. Porém, no fim, Horus triunfa. Ao que diz a lenda, cego de um olho. Mas triunfa
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José Eduardo Agualusa

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

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Cortaram a cabeça do Brasil

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Não se iludam: a barbárie que ocorreu no presídio do Amazonas é resultado das barbaridades que são cometidas continuamente nos centros de poder político e econômico.

O Brasil é um país cuja cabeça foi cortada pelas organizaçōes criminosas travestidas de partidos políticos e grandes empresas.

O Brasil é um país retalhado pela corrupção, pela ignorância, pela imoralidade, pelo abandono, pela ferocidade.

Calem-se, ufanistas. Somos uma vergonha como nação.

O cárcere da memória

Um céu sombrio cobre o país. A maioria das pessoas trabalha numa coisa de que não gosta, luta a vida toda por nada, vive em conflito porque ama. O Brasil não funciona na forma em que foi concebido. A elite do Estado não quer se integrar à vida normal da sociedade. Continua forçando o governo a se endividar e pagar juro a milionário. Seu procedimento é regular, pensado, alegre. As instituições não conhecem a tristeza. Não têm interesse em estimular a normalidade, pacificar o território. São nobres humilhando plebeus.

O Estado é “carceral” em sua lógica fechada. O juiz precisa do criminoso; o promotor, do crime; a polícia, do bandido; o Supremo, da inconstitucionalidade; a política, da mentira; a Receita, da fraude. A riqueza é agiota do governo; o câmbio ri da afinidade da ideologia com a moeda. O juro sempre soube que não haveria uma City em Salvador como o chanceler sonhou para a Odebrecht.

A liberdade de um ser "livre"  arte: John Holcroft:
John Holcroft
Não é o povo, o trabalhador ou o empresário. Nem mesmo os ventos vindos do estrangeiro. É a elite, dos Três Poderes, no município, no estado e na União, que semeia o sobressalto. Nada é o suficiente para seus membros. A despesa de esbanjador demora para causar repulsa. Muito poucos percebem que grandes talentos não brotam do chão. Quantos aceitam a ideia de que o dinheiro não pode dominar o mundo moral do homem público?

Falta às autoridades um Konversationslexikon, o dicionário alemão destinado a fornecer às pessoas conhecimentos mínimos para manter algum diálogo sem precisar manipular, mentir ou agredir. Já é hora de o Brasil parar de admirar quem faz uso político de dados econômicos incorretos, estatísticas insuficientes, ou se vale de crises para fortalecer corporações.

No canto da cela, o encarcerado e seu advogado não se entendiam.

— Todas as vezes que alguém se aproximou dele como amigo, ele aproveitou para se afastar do dever de autoridade;

— Mas como condenar quem relaxa de seus cuidados para servir a alguém que comparte com ele seus assuntos?

— Em assuntos de governo nenhuma regalia ou servidão pode haver em tal afeto que a tantos inebria. Só a desmedida ambição tira do governante a meditação e o recolhimento. E faz seus prazeres eclipsar qualquer senso de limite e de justiça;

— Ora, se nem a ajuda de Deus o socorreu, de que índole são os amigos do poder? Você parece com ele indisposto, o que enfraquece muito seus conselhos;

— Não sou inimigo dele. Sou inimigo dos seus erros, todos desnecessários. Tudo lhe chegou de tal maneira que ele dispensou o futuro de sua preocupação.

— Ele sempre foi ingênuo na ambição. Não compreende que quem se aproxima do poder rouba um pouco de poder. Nem se dá conta de que é do poderoso parte do interesse de quem o visita interesseiramente;

— Está aí sua defesa! O crime não se coaduna com os deveres de um governante;

— Ele não acha que praticou crime. É ambiguidade, da política a maior das salvaguardas;

— A implacável lei da dupla face: você acaba sendo o que parece;

— Não é melhor ser escrupuloso, dormir tranquilo?

— Mas acordar fora da política? Para quê? O calor do golpe na honra só é imperdoável no fracasso.

Gigante pequenininho

Um povo não se define tanto pelo que é, mas pelo que quer vir a ser. Nosso horizonte está muito rebaixado, ficou pequenininho. Os políticos se apresentam como campeões da caridade, e não como portadores de projetos para o país. O Lula disseminou isso, com sua enorme capacidade de nivelar por baixo e cooptar. O MST tem convênios com o Incra, o PC do B tem o Ministério dos Esportes, o banqueiro tem o juro, o pobre tem o Bolsa Família. Todo mundo se dá um pouquinho bem, enquanto o Brasil caminha alegremente para o cu do mundo.
 
Estamos virando um país em que tudo é malfeitinho: o professor não dá uma aula decente, passa trabalho; o aluno não aprende, faz trabalho para ganhar a nota; o Congresso Nacional vira uma casa de despachantes; a polícia arma o bandido. As instituições estão deixando de funcionar, substituídas por uma enorme farsa
Cesar Benjamin “1968: o que fizeram de nós”

A crise e a força da Nação

Não é preciso carregar nas tintas para afirmar que a dimensão social da crise que atinge o País é grave. O desemprego atingiu patamar recorde registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com 12,132 milhões de pessoas em busca de uma vaga. Até mesmo a atividade econômica informal, que geralmente cresce em tempos de crise, retrocedeu pelo segundo ano consecutivo – informou recentemente a Fundação Getúlio Vargas (FGV) –, em razão da forte e duradoura recessão.

É cada vez maior o número de pessoas, em todas as faixas etárias, que não têm perspectivas profissionais. E mesmo quem está empregado sofre os efeitos da crise, pela diminuição do poder aquisitivo do salário – corroído pela inflação dos últimos anos – ou pela aflição com a possibilidade de perda do trabalho. A crise faz com que os sonhos e projetos – pessoais, familiares ou profissionais – sejam adiados, à espera de dias melhores.

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Não se trata apenas – como se isso já não fosse doloroso o suficiente – de viver as agruras do presente. A crise torna a população mais vulnerável perante os riscos inevitáveis do futuro. Não é pequena, por exemplo, a quantidade de famílias que, sem condições econômicas, precisaram abandonar o plano de saúde complementar e agora contam apenas com o serviço público de saúde, com suas conhecidas deficiências.

Não é fácil enumerar e mensurar todos os efeitos da crise. Muitos deles serão notados em toda a sua extensão apenas daqui a vários anos. Basta pensar, por exemplo, nos jovens que estão saindo do ensino médio. Muitos deles se veem, por causa da recessão, sem condições econômicas de continuar sua formação acadêmica e precisam buscar de imediato um trabalho – que, na maior parte das vezes, não existe. A interrupção do estudo afeta todo o horizonte vital desses jovens. Não se trata apenas de deixar de consumir determinados produtos nos próximos meses ou trocá-los por mais baratos – a crise afeta de forma decisiva a vida de toda uma geração.

O desamparo da população diante da crise social deve estimular a atuação responsável de todo o governo – Executivo, Legislativo e Judiciário. O poder público não pode dar as costas à população, como se o drama social não lhe dissesse respeito. É nessas horas de necessidade e aflição que o serviço público deve mostrar para que existe: para servir ao público.

A preocupação governamental com a crise social que o País atravessa pode se revelar por meio de várias maneiras práticas. O Executivo não pode, por exemplo, ser tíbio na condução da política econômica e fiscal. Também não pode se omitir na condução das reformas estruturais tão necessárias para recolocar o País nos trilhos do desenvolvimento econômico. Se titubear, prolongará desnecessariamente os sofrimentos da Nação. Nesse sentido, a crise impõe que o governo concentre todas as energias no que é prioritário, deixando de lado o que é acessório. A crise deve ser, portanto, um estímulo à eficiência.

Mas a crise social não é um tema apenas do Executivo. Ela afeta diretamente os outros Poderes. É o momento de o Legislativo bloquear todas as investidas corporativas por mais privilégios, especialmente as pretensões de aumentos salariais. É também ocasião para trabalhar com diligência aqueles projetos de maior relevância pública, que podem aliviar a crise. Muitos desses projetos não são propriamente populares, mas isso não pode fazer hesitar os representantes do povo que tenham verdadeiro espírito público. É nessa hora que devem tomar a frente, na defesa do interesse nacional e do futuro do País.

O Poder Judiciário deve ser também esteio nessa hora de crise. Em primeiro lugar, sendo um remanso de institucionalidade, bloqueando soluções mágicas, fora da lei ou eivadas de um excessivo protagonismo. Deve ser também exemplo de trabalho e de diligência. É imperiosa, nesse sentido, a continuidade do combate à corrupção, em todas as suas esferas e sempre dentro da lei.

Ao exigir que todos exerçam com responsabilidade suas funções e habilidades para que os momentos de aflição sejam mais prontamente superados, a crise expõe a miséria e a grandeza dos homens que lideram a Nação. Se tiverem valor, o País sairá dessa quadra turva mais forte e saudável do que antes. É o que veremos no correr do ano que se inicia.

Música para a bela Grace


Cherry Pink and Apple Blossom White", com Eddie Calvert, sucesso inglês de 1955, 
virou tema do filme "Ladrão de casaca", de Alfred Hitchcook, com Grace Kelly e Cary Grant

Brasil liberou geral em matéria de usura, agiotagem e extorsão

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Não causa surpresa saber que uma instituição financeira possa cobrar juros de 1.358% ao ano no rotativo do cartão de crédito. O que me deixa revoltado e indignado são essas demonstrações de surpresa por parte do Banco Central e de autoridades específicas quanto a esta prática absolutamente corriqueira de usura, agiotagem e extorsão contra o povo brasileiro.

Quanto às pessoas que se sujeitam a pagar essa assombrosa e inimaginável taxa de juros ao ano, o que deve dar por mês mais de 40% (!), seja para pagar uma conta ou ficar em dia com algum credor, infinitamente melhor é deixar de pagar esse compromisso, e depois saldá-lo com a cobrança de juros mesmo alta, porém muito menor do que esta aplicada para um empréstimo!

O brasileiro se deixa levar por agiotas e espertalhões muito facilmente, e nem reclama, pois não se dá ao trabalho de recorrer a um advogado, a um defensor público ou mesmo ao Procom.

Basta constatarmos o quanto o brasileiro permite ser lesado, prejudicado, roubado, explorado, aviltado, violentado, pelos governantes, que a dedução é lógica também sobre essas financeiras que agem exatamente no meio do povão, no pessoal que não sabe calcular e que precisa de crédito mais desburocratizado, digamos assim.

Ora, se uma ou duas pessoas pagarem em dia, muitas outras podem atrasar as mensalidades que as primeiras já quitaram o compromisso de todas elas. Trata-se de auferido de forma simplesmente criminosa, sem que as autoridades demonstrem o mínimo interesse em tomar providências.

No entanto, como se trata de dinheiro, o verdadeiro deus do brasileiro e dos três Poderes da nação, esses bandidos operem como se não infringissem leis que combatem a usura, a agiotagem e a extorsão, mostrando que a economia popular está totalmente indefesa.

Governantes, parlamentares, magistrados, ministros, procuradores, promotores e policiais reverenciam o cifrão, ajoelham-se perante os números e permitem que as instituições financeiras explorem o cidadão brasileiro, cobrando-lhe os mais elevados juros já praticados em países com inflação sob controle e abaixo dos 10% ao ano.

Há decisões judiciais questionando as elevadíssimas taxas de juros, mas são exceções em meio à aceitação da prática da agiotagem oficial.

Definitivamente o Brasil não é mais para brasileiros, pois comandado e dirigido por gente da pior espécie, governantes incompetentes, parlamentares corruptos e desonestos, e com magistrados que atuam à margem da realidade do país. É assim que estamos iniciando um novo ano.

Caverna de Ali Babá

É curioso como os preconceitos desumanizam. Ficamos estarrecidos com o ato terrorista que, na Alemanha, invadiu uma feira de Natal e ao ver as imagens, em São Paulo, de um vendedor ambulante sendo cruelmente pisoteado por dois assassinos. Mas quem se importa com a morte de dezenas de presos na penitenciária de Manaus?

Os mortos em Berlim eram gente como a gente. O ambulante paulista, um trabalhador honesto que ganhava a vida no comércio informal. Mas e os presos? Não vemos autoridades públicas proclamarem, sem o menor pudor, que “bandido bom é bandido morto”? A Justiça de São Paulo não considerou que o massacre do Carandiru, que deixou 111 mortos, foi apenas um “ato de legítima defesa” da PM?

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Ao preconceito étnico que sonega ao preso a sua condição humana para reduzi-lo a mero “elemento” ou “verme” soma-se o de classe. Se amanhã houver uma rebelião na penitenciária de São Carlos do Pinhal (PR) e um único preso da Lava Jato morrer no confronto, então será um deus nos acuda!

O Brasil necessita urgente de uma profunda reforma do sistema prisional. Todos sabem que a omissão do poder público, contentando-se em usá-lo como mero depósito de presos, favorece o empoderamento de facções criminosas. Dentro das grades elas se organizam para comandar o crime aqui fora e assim obter recursos para pagar advogados, corromper funcionários públicos, fomentar o tráfico de drogas e comprar armas.

Em suma, nossas penitenciárias são a caverna do Ali Babá. Embora a chave da caverna esteja nas mãos da Justiça, lá de dentro ele comanda o crime aqui fora, e quem o mantém preso quase nada faz para resgatá-lo à sociedade.

Quando já nem os sinos dobram por homens entregues ao cuidado do poder público é sinal de que a nossa humanidade se esvai na cegueira, na surdez e na indiferença.

Frei Betto

'Deus', palavra mágica nos discursos de posse de prefeitos

Talvez seja a sensação de impotência, a falta de confiança na política ou a forte influência das Igrejas Evangélicas, a verdade é que o Brasil parece se refugiar cada vez mais em Deus, algo que não desagrada seus governantes e muitos até exploram isso.

No dia primeiro de janeiro, quando milhares de prefeitos assumiram seus cargos, uma das palavras que mais foram repetidas em seus discursos foi “Deus”. E também a mais aplaudida.

“Não tenho medo de assumir essa responsabilidade porque Deus está comigo”; “Vamos mudar esta cidade porque Deus decidiu”, foram frases que se repetiram em muitos dos discursos dos recém-eleitos.

No Rio de Janeiro, o novo prefeito, o bispo evangélico Marcello Crivella, citou Deus seis vezes em oito minutos de seu discurso. Disse a uma multidão entusiasmada: “Tenho certeza de que Deus estará comigo enquanto governar”. E algo incomum nesses casos, em um país laico por Constituição, o evangélico Crivella abriu o ato recitando o Pai Nosso, um aceno para os católicos.

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Não só aqueles que tomaram posse apelaram a Deus, mas também aqueles que se despediram depois de ter perdido a eleição. Um caso emblemático foi o da prefeita da pequena cidade de Sapezal (MT), Ilma Grisoste, 55 anos, formada em Pedagogia e doutora em Psicopedagogia.

Em vez de entregar as chaves da cidade ao seu sucessor, emitiu um documento no qual afirmava: “Decreto a entrega das chaves desta cidade a Deus”. E acrescentou: “Desejo que esta cidade pertença a Deus e que toda a prefeitura esteja sob a proteção do Todo-Poderoso”. Mais ainda: “Cancelo em nome de Jesus todos os pactos feitos por qualquer outro Deus ou entidade religiosa”.

Então, não é de estranhar que 90% dos brasileiros pensem que ser rico ou pobre depende de Deus, de acordo com uma pesquisa recente da Datafolha, publicada no jornal Folha de S. Paulo.

Esta pesquisa indica que nove de cada dez brasileiros estão convencidos de que “seu sucesso financeiro se deve a Deus”. E o mais estranho é que a alegação foi feita não só pelos crentes, mas também por 70% das pessoas sem religião e 23% daqueles que se declaram ateus.

E não apenas os mais pobres e menos escolarizados atribuem a Deus seu sucesso ou fracasso econômico, mas também 77% das pessoas que concluíram a universidade e ganham até 8.800 reais.

Esse Deus acaba sendo um perigo porque anula os próprios esforços das pessoas para avançar na vida, enquanto elimina sua capacidade de protestar e se rebelar contra o poder injusto.

Esse Deus empurra os pobres à resignação porque seria ele, e não o esforço e capacitação pessoal, ou a luta por seus direitos, que decide seu presente e seu futuro.

Os políticos devem ser os mais felizes com essa convicção de 90% dos brasileiros. Para que se esforçar muito, realizar reformas sociais que melhorem a vida das pessoas, se no final é Deus que decide sobre as finanças delas?

Ou para que melhorar a educação e elevar o nível cultural do povo, se 77% das pessoas com título universitário também acham que tudo depende de Deus?

Em qualquer sociedade laica do mundo, especialmente aquelas que possuem melhores índices de qualidade de vida, a situação econômica dos indivíduos e das famílias não depende de Deus, mas do esforço pessoal de cada um, sua capacidade e preparação profissional, bem como dos sistemas econômicos e políticos em que vivem.

Como diz o ditado espanhol: “A Deus rogando, mas com martelo batendo”. Ou, como respondeu Jesus (tão traído e distorcido nos discursos dos políticos brasileiros) aos judeus: “Dê a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

O resto é vontade de tirar sarro dos pobres e dar ao poder o álibi de que é Deus que vai cuidar deles.

A fé religiosa deveria ser, ao contrário, a primeira a exigir que o poder seja desmascarado sempre que pretende alienar as consciências com falsas promessas messiânicas ou perigosas bajulações aos pobres.

Um Deus curinga dos governantes para se esquivar de suas responsabilidades e adormecer os mais desamparados é um Deus perverso.

Imagem do Dia

Praia de Cordoama (Portugal) 


Não h´dinheiro para nada, mas o pagamento dos juros da dívida está garantido

Como se estivesse reproduzindo os antigos anúncios fúnebres dos jornais,o Banco Central cumpriu o doloroso dever de comunicar que a dívida bruta fechará 2017 a 76,9 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), acima do patamar de 71,0 % estimado para 2016. As projeções do BC levam em conta a expectativa de déficit primário consolidado de 163,9 bilhões de reais para o setor público neste ano, e rombo de 143,1 bilhões de reais para o ano que vem, ambos fixados em lei, como se fosse possível conduzir a economia baixando decretos. Aliás, se isso funcionasse, nenhum país entraria em crise.
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Ninguém gosta desse tipo de assunto, é uma chatice. Mas acontece que a dívida pública é o maior problema brasileiro, pois todos os demais dependem dela. Simples assim. No entanto, a estratégica questão não costuma frequentar o noticiário da grande imprensa. É como se a atual farra do boi pudesse se eternizar, sem maiores consequências.

Como ensinava Delfim Netto, aquele professor de Economia que virou político e recebia propinas em dinheiro vivo, mandando entregar no escritório do sobrinho, “dívida não se paga, apenas se rola”. Não é nenhuma regra, trata-se somente de uma frase de efeito, mas presidentes, governadores e prefeitos acreditaram nessa idiotice e o resultado catastrófico está. Mesmo assim, ninguém se interesse em discutir a dívida pública, que se transformou numa bomba-relógio.
Não adianta argumentar que outros importantes países têm dívidas muito maiores do que o Brasil, em relação a seus respectivos PIBs. Essa falácia é propositadamente difundida para enganar os otários e manter intocável o capitalismo sem risco – regime criado e praticado apenas no Brasil, uma espécie de jabuticaba econômica. Mas a comparação com outras nações logo desmorona diante das taxas de juros que incidem sobre suas dívidas.

Por óbvio, altas taxas de juros jamais beneficiam o país, suas empresas e seus habitantes. Pelo contrário, destroem qualquer economia. E o caso do Brasil é estarrecedor, nos padrões internacionais. Em que país minimamente civilizado é permitido que bancos pratiquem juros médios de 482% ao ano na rolagem de dívidas de simplórios cartões de crédito, e financeiras possam chegar a 1.358% ao ano, sem ninguém ser algemado perante as câmeras de TV?
Até o governo Itamar Franco, a situação estava sob controle. O maior problema era a dívida externa, que nem preocupava, pois os juros eram baixos, e naquela época a dívida interna chegava a ser ridícula em comparação ao PIB nacional.

Foi o irresponsável presidente Fernando Henrique Cardoso que inverteu a situação, elevando desmesuradamente a dívida interna. Foi sucedido por outro irresponsável, o presidente Lula da Silva, que continuou aumentando a dívida pública e incentivou artificialmente o consumo, sem que as consequências dessa política suicida fosse discutida em termos nacionais.

E tudo piorou depois de entrar em cena a suposta gerentona Dilma Rousseff, que implantou a “contabilidade criativa”, maquiando as contas públicas para apresentar resultados sempre positivos, e pedalando sem parar, enquanto a dívida pública se multiplicava.

Agora, já na gestão de Michel Temer, o próprio Banco Central revela que o resultado nominal (quando se incorporam à conta as despesas com pagamento dos juros da dívida) é um rombo nas contas públicas que até novembro, no acumulado de 12 meses, chegou a espantosos R$ 581,4 bilhões, o equivalente 9,28% do PIB.

Esse rombo é acompanhado pelas agências de classificação de risco para a definição da nota de crédito dos países. E nesta comparação, o patamar do déficit brasileiro é bem mais alto que o de outros países emergentes.

Estranhamente, porém, ninguém debate a disparada da dívida pública. É como se tudo estivesse sob controle, e não está. Não há dinheiro para servidores, aposentados e pensionistas, mas o pagamento dos altos juros da dívida pública está mais do que garantido. É claro que há algo de podre nesse esquema, que vem dando muito mais prejuízos ao país do que a corrupção político-administrativa propriamente dita.

Paradoxos do progresso: dados para ser otimista

Os dados indicam que a humanidade vive o melhor momento da sua história, e, no entanto, a maioria acredita que o mundo está piorando. Os políticos populistas, para aproveitar essa percepção, fingem ignorar que estamos melhorando em todos os parâmetros. Segundo uma pesquisa, 81% dos eleitores de Donald Trump acreditam que há 50 anos vivia-se melhor, que o mundo era um lugar melhor. Uma opinião que poderia ser definida como reacionária, pois considera que as mudanças estão piorando as coisas.

Tal visão está longe de se limitar ao eleitorado trumpista.Há uma ampla percepção de que o mundo retrocede, de que nos dirigimos para uma espécie de caos. Segundo um levantamento do Instituto Motivaction, 87% da população mundial acredita que nos últimos 20 anos a pobreza global permaneceu igual ou se agravou. O paradoxo é que os dados deixam claro que essa é uma ideia falsa. O mundo melhorou ao invés de piorar.

Não significa, que fique bem claro, que o mundo seja um lugar perfeito. Nem sequer um bom lugar. Padecemos de injustiças, guerras, fome e violência. Uma minoria da população detém a maior parte da riqueza, enquanto 760 milhões – os 11% mais pobres – sobrevivem com menos de dois dólares (6,50 reais) por dia. A pobreza é cotidiana. Mas, de todos os cenários globais que já conhecemos (não que imaginamos ou desejamos, mas que conhecemos), este é o melhor.

O cientista cognitivo Steven Pinker, professor da universidade de Harvard, é um dos autores que mais forneceram dados em defesa dessa tese. Seu livro Os Anjos Bons da Nossa Natureza (Companhia das Letras) busca demonstrar que vivemos na época mais pacífica e próspera da história. “As pessoas, em todos os cantos do mundo, estão mais ricas, gozam de mais saúde, são mais livres, têm mais educação, estão mais pacíficas e desfrutam de uma maior igualdade do que nunca antes”, diz Pinker ao EL PAÍS. “Todas as estatísticas indicam que melhoramos. Em geral, a humanidade se encontra melhor que nunca.”


O escritor e historiador sueco Johan Norberg é outra das vozes destacadas dessa corrente de pensamento. Defende em seu livro Progress: Ten Reasons to Look Forward to the Future (“progresso: dez motivos para olhar para frente”) que o capitalismo é o sistema que mais fez o ser humano progredir, e que vivemos no melhor momento da nossa história. “O mundo está melhorando rapidamente. Na verdade, nunca antes o mundo melhorou tão rápido. A cada minuto desta conversa, cem pessoas saem da pobreza”, argumenta.

Mostram-nos, por exemplo, que os adultos desfrutam de vidas mais longas, e que a mortalidade infantil caiu a um quarto do que era há algumas décadas. Em 1960, segundo a Organização Mundial da Saúde e o Banco Mundial, de cada cinco crianças nascidas vivas uma morria antes de completar cinco anos; agora, 19 de cada 20 sobrevivem.

A riqueza também se multiplicou. Desde 1980, o percentual de pessoas que vivem na pobreza extrema foi reduzido em 75%. No sul da Ásia, ela atingia 50% da população, e agora só castiga 15%. No leste da Ásia e no Pacífico, a incidência da pobreza extrema passou de 80% (quatro de cada cinco pessoas) para apenas 3,5%.

A alfabetização está a caminho de se universalizar: em 1980, 44% das pessoas sobre o planeta não sabiam ler nem escrever; agora, são só 15%, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da UNESCO (órgão da ONU para a educação). Além disso, está diminuindo a disparidade educacional entre homens e mulheres no mundo todo. Muitos desses dados provêm do site Our World in Data, um projeto que reúne indicadores para mostrar como estão mudando as condições de vida das pessoas do mundo todo.

Desde os anos 1980, as guerras também vêm se tornando menos frequentes e agressivas. A violência retrocede: nas sociedades agrícolas, ela causava cerca de 15% de todas as mortes, segundo o pensador israelense Yuval Harari, autor do livro Sapiens – de Animais a Deuses. Durante o século XX, ela provocou 5% das mortes, e hoje só é responsável por 1% da mortalidade global.
Por que não vemos este progresso

Se os dados mostram melhoras, por que existe a percepção de que pioramos? Há muitas respostas. Todas corretas, e nenhuma completa. A primeira é que nos tornamos mais críticos, muito menos tolerantes com os erros e injustiças do sistema. Nunca antes a humanidade havia sido tão exigente consigo mesma. Coisas que hoje nos parecem intoleráveis eram a norma: em 1980, 54% dos espanhóis consideravam que ser homossexual era injustificável (essa cifra caiu para 8%). Essa exigência nos faz sentir que não melhoramos (ou que, pelo menos, não melhoramos o suficiente).

Johan Norberg acrescenta outra resposta: “Temos melhor acesso do que nunca às notícias e à comunicação. E, na imprensa, as más notícias são as que vendem. Ficamos sabendo de alguma má notícia ou algum novo incidente a cada minuto. Os desastres e as tragédias não são algo novo, mas os celulares e as câmeras são. E isso causa a impressão de que esses horrores são mais frequentes do que eram”.