quinta-feira, 5 de maio de 2016

Janot torpedeia Dilma, Lula e o PT

As decisões da Procuradoria-Geral da República divulgadas na última terça-feira criam sérios obstáculos ao futuro político do ex-presidente Lula – além de reforçar a tese do impeachment contra a presidente Dilma Rousseff e colocar figuras proeminentes do “lulopetismo” em maus lençóis, com potenciais riscos de se tornarem inelegíveis para a disputa de 2018.

O mais grave dos movimentos da PGR foi o pedido de abertura de inquérito contra Dilma, Lula, José Eduardo Cardozo, atual advogado-geral da União, e Aloízio Mercadante, ministro da Educação, por tentativa de obstrução da Justiça. O processo já está com o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), e deve resultar em condenação, tendo em vista que tanto o ambiente no Supremo – bastante hostil a Lula – quanto a abundância de provas comprometem os investigados.


A acusação contra Dilma – ter tentado obstruir o andamento da Operação Lava-Jato – reforça, sem nenhuma dúvida, a tendência de aprovação do impeachment no Senado e deve levar à adesão de mais alguns senadores à tese. Hoje, mais de 54 apoiam a saída da presidente do governo.

Outra consequência é o enfraquecimento da imagem de Dilma no STF, reduzindo dramaticamente as suas chances de obter alguma decisão interlocutória na Corte sobre o andamento do impeachment no Senado. À espera de fato novo, Dilma poderia recorrer ao STF. Mas como fazê-lo se seu advogado está sendo acusado de promover obstrução da Justiça?

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu ainda a inclusão de Lula, Ricardo Berzoini, ministro da Secretaria de Governo, Jaques Wagner, entre outros, no inquérito da Operação Lava-Jato que já tramita no STF. Cabe ao ministro Teori Zavascki, relator da Lava-Jato no Supremo, autorizar a inclusão ou não dos novos suspeitos no inquérito, que já abrange 39 pessoas. No pedido, Janotsugere que Lula era o “chefe da organização criminosa”que explorou a Petrobras.

Para piorar o que já estava muito ruim, o empresário Ronan Maria Pinto, envolvido nas investigações do assassinato, em 2002, do petista Celso Daniel, ex-prefeito de Santo André, foi indiciado pelo juiz Sergio Moro no âmbito da Lava-Jato. A prisão de Ronan pode ter impacto no andamento do caso, sob exame no STF há mais de dez anos!

Os fatos da última terça-feira apontam para o comprometimento definitivo de Lula, que provavelmente gastará o resto de sua vida política se defendendo no STF de acusações variadas. Inclusive aquelas que poderão afetar casos antigos, como o mensalão e o já mencionado assassinato.

A acusação a Lula, caso confirmada, pode resultar em sua inelegibilidade para 2018, bem como a de próceres do PT como Wagner, Mercadante, Berzoini e Cardozo. Enfim, trata-se de um verdadeiro Titanic partidário que pode ceifar lideranças importantes que poderiam sustentar a bandeira do PT com alguma chance eleitoral.

Ânimo! Só faltam mais sete dias...

Ao contrário do que se imagina e muito se cita em discursos e textos clássicos ou comuns, a matriz do pensamento da esquerda ocidental contemporânea não é mais o comunismo de Marx e Engels nem a teoria da revolução proletária de Lenin. Mas se inspira numa frase do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre: “O inferno são os outros”. Ante a angústia de ter de decidir como viver a própria vida, o ser humano, como fica explícito em sua peça Huis Clos (Entre Quatro Paredes), habitua-se a delegar ao “outro” a responsabilidade pela própria existência. A militância esquerdista, desde a adesão do pai do existencialismo à tirania pós-stalinista do chinês Mao Tsé-tung, assumiu a fraqueza humana como justificativa para as próprias vilezas.

Mesmo não sendo o autor de O Ser e o Nada o melhor exemplo de caráter ilibado, seria injusto conceber que ele possa ser o maior responsável pelo comportamento do lulodilmopetismo na exacerbação amoral e imoral desse raciocínio. Como Lula se orgulha de detestar ler e Dilma tem dificuldade de entender o que ouve, lê e repete, é mais sensato constatar que esse paradigma da apropriação do bem que o outro faz e da responsabilidade deste sobre os próprios delitos é um acréscimo prático às lições de Nicolau Maquiavel aos cruéis príncipes da Florença renascentista. Durante a bonança da primeira gestão Lula, os benéficos resultados da revolução social planejada, gerada, produzida e gerida nas administrações de Itamar Franco e Fernando Henrique foram tratados como “herança maldita”. E os bens causados pelo equilíbrio fiscal e monetário, incluídos no legado “bendito” do padim dos oprimidos.


Apresentada a conta dos frutos podres desse pomar, onde foram queimados em fogo-fátuo o suor e as lágrimas dos desvalidos, especialmente dos 10,9% de desempregados, hoje eles passam a usar mentiras maledicentes contra quem ouse denunciar seus crimes. E a tratar suas vítimas como cúmplices no que as prejudicaram, forçando-as a perdoá-los.

Acolitada por Lula e repetindo o discurso à Goebbels do marqueteiro João Patinhas Santana, Dilma vendeu o paraíso na terra na campanha pela reeleição, em 2014. Mas desde o primeiro dia do segundo governo iniciou a transferência para os derrotados da própria culpa pelo inferno da maior crise econômica da História. O PT e seus aliados formaram, em 13 anos e quatro meses de desgoverno, uma organização criminosa que esvaziou os cofres da República, feito um Robin Hood às avessas. Assim, a crise moral que assolou as máquinas burocráticas federal e estaduais, roendo as conquistas do Plano Real, a maior revolução social da História, produziu a maior crise econômica de todos os tempos.

Flagrado tapando, de forma ilícita, rombos do Tesouro com saques em aberto em bancos públicos, o bando no poder, sob o comando de madama, cometeu crimes de responsabilidade e tornou o impeachment dela uma urgência para a salvação nacional. Ao longo dos quatro anos do primeiro mandato, ela moeu a maioria no Congresso, herdada do antecessor e padroeiro, com sua inusitada incapacidade de conviver com membros de outros Poderes, gerada no ventre da serpente de seu trato truculento e intolerável com outrem.

Demonstrando enorme desapreço pela Constituição, revelado quando só a assinaram a contragosto, seus correligionários petistas tentaram, em vão, espalhar pelo mundo a hipótese estapafúrdia de que “impeachment sem crime é golpe”. Esse slogan parte de duas mentiras grosseiras: a de que ela é inocente e a da possibilidade de êxito de uma conspiração tramada nos porões (como os da tortura na ditadura militar) por 61% da população, representada por milhões nas ruas, 69% dos deputados federais, 61% dos senadores (conforme revela o placar do Estadão) e pela maioria do Supremo Tribunal Federal (STF).

O absurdo, que chacoalha o esqueleto de Aristóteles, não resiste a fatos. Os brasileiros que querem apeá-la do poder são em maior número do que o total dos que nela votaram. A oposição, que ela acusa de culpa pela crise por ter aprovado pautas-bombas que tornaram inviável seu insustentável ajuste (?) fiscal, é minoria insignificante no Congresso. E dos 11 juízes do Supremo, oito foram nomeados por Lula e por ela.

A insistência com que sua defesa mente tira a harmonia do samba de uma nota só do “golpe”. José Eduardo Cardozo, advogado-geral da União, de fato seu causídico pessoal, já arengou tanto no Congresso, no STF e na “mídia” que merece uma citação no Guinness como o mais loquaz camicase na história dos “golpes”.

Não só de acusações à oposição sobrevive sem governar o atual desgoverno. Quem não apoia tal desvario tem sido açoitado no pelourinho petralha. A professora da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) Janaína Paschoal teve de explicar à “bancada do chororô” na comissão de impeachment no Senado por que defendeu um procurador que bateu na mulher. Seus detratores, que ainda a acusaram de ser “tucana”, não replicaram com um só argumento válido à acusação por ela lida. Nem se lembraram da sentença romana de que acusados devem gozar da presunção de inocência, tão citada pelo PT para defender cúmplices na roubalheira.

Na dita sessão, a ministra da Agricultura, Kátia Abreu, chamou os brasileiros de caloteiros, ao perguntar quem nunca deixou de pagar uma conta, ousando comparar a irresponsabilidade da chefona com o estado de extrema necessidade do desempregado que não consegue manter o crédito na praça porque perdeu o salário. Ocupada em contar reses, não sabe que ninguém entende mais de crédito do que o pobre, incapaz de sobreviver sem ele.

Contra tantas ignomínias, com as quais Sartre nada tem que ver, há uma salvação: o emprego de Dilma e o protagonismo de seu partido estão a sete dias do fim anunciado. Amém!

STF precisa dizer o que Dilma pode fazer fora do poder

A Dilma anda espalhando que vai sair por aí fazendo campanha contra o “golpe” a bordo dos aviões da FAB se realmente for afastada da presidência. Isso mesmo, a presidente, destituída temporariamente, quer gastar mais dinheiro, agora insuflando os brasileiros contra as medidas legais do Congresso Nacional que devem afastá-la do poder. Como não bastasse o desastre promovido por ela na economia e o seu envolvimento nos maiores escândalos de corrupção da história do país, a presidente acha-se no direito de manter todas as regalias do cargo mesmo sendo afastada das suas funções.


Ora, se a legislação é omissa em relação aos direitos de um presidente afastado, cabe ao STF, desde já, determinar quais são as atribuições da Dilma longe do poder. Por exemplo: deve usar o avião presidencial? Manter o séquito de servidores ao seu lado? A frota de veículos e a segurança com todo o aparato? Permanecer no Palácio da Alvorada, residência oficial da presidência? Usar verba de gabinete e dispor do cartão corporativo para fazer compras em nomes da segurança nacional, nunca revelados? Fazer supermercado com o dinheiro do contribuinte? Receber autoridades internacionais usando as prerrogativas presidenciais? Viajar no avião oficial? Falar em nome do governo brasileiro em assuntos internos e externos?

Pois bem, essas interrogações devem ser esclarecidas aos brasileiros antes que a Dilma meta os pés pelas mãos e sinta-se no direito de gastar o dinheiro do contribuinte sem fiscalização dos órgãos competentes como fez irresponsavelmente com os bancos oficiais no caso das pedaladas, crimes pelos quais está sendo processada e apeada do poder. Na condição de presidente afastada temporariamente, a Dilma deve ser vigiada de perto para não abusar das suas prerrogativas, caso ainda tenha algumas depois de sair da presidência.

Cabe ao STF – e não mais ao Congresso Nacional – regulamentar as atividades da ex-presidente, já que essa situação, como é atípica, não está regida pela Carta Magna. O afastamento da presidente é uma punição pelos crimes que ela cometeu à frente do governo, portanto, a lógica é de que ela não teria direito a nenhum tipo de benefício fora das suas funções, se o STF assim o entender. Se voltar ao poder, aí sim, teria seus direitos restabelecidos como determina a Constituição.

Espera-se, portanto, que o STF não se sensibilize com a destituição da presidente e, como prêmio de consolação, mantenha regalias que ela não teria por omissão das leis vigentes. Pelo menos é assim que o Supremo Tribunal Federal vem agindo nos últimos tempos. Quem não se lembra, por exemplo, do mensalão quando a Corte se utilizou de uma brecha casuística para reduzir a pena de vários criminosos petistas que depois seriam soltos beneficiados por esses artifícios?

É preciso desde já ditar as regras do jogo. Se o STF for benevolente em relação aos direitos da presidente que sai, não esclarecendo o que ela pode ou não pode fazer, cabe então ao presidente que entra vigiar os gastos e as mordomias da ex e de seus auxiliares para que o contribuinte não arque com o ônus de sustentar dois presidentes.

A intenção da Dilma, quando perder o cargo, é juntar-se aos movimentos sociais, que vivem às custas do dinheiro público, para promover badernas no país, como bem já disseram o ex-presidente Lula e o fundamentalista Rui Falcão. Querem provocar arruaças e promover uma convulsão social espalhando o medo e o terror sob o pretexto de que foram injustiçados e vítimas de um golpe, ignorando todo o trâmite legal que depôs a presidente a sua turma.

A notícia de que o STF freou um gasto de 80 milhões de reais que a presidente pedira ao Senado Federal em regime extraordinário é um bom sinal de que as instituições estão atentas às artimanhas do PT que iriam permitir, de última hora, encher os cofres do governo para promover a campanha contra o golpe.

A primeira mosca

Uma sequência do fotógrafo Bruno Santos na primeira página da Folha de segunda-feira mostra a presidente Dilma Rousseff perturbada por uma mosca em seu rosto durante promovido em São Paulo pela CUT (Central Única dos Trabalhadores), no Dia do Trabalho. Nas primeiras fotos, Dilma parece apenas contrariada pelo inseto impertinente que insiste em passear sem audiência marcada por nariz e boca presidenciais. Na última foto, Dilma aparece com a mão espalmada, pronta a aplicar um safanão na mosca e mandá-la, literalmente, para o espaço.


A mosca não sabia com quem estava se metendo. Foi atazanar a vida de uma mulher que nunca precisou de motivo para desferir safanões verbais em quem estivesse à sua volta e, agora, tem motivos reais para isto. Em poucos dias, descerá do posto a que foi levada por 54 milhões de eleitores — dos quais, a julgar pelas últimas manifestações a seu favor, não lhe restam nem 4 milhões — para submeter-se a 180 dias de férias forçadas, com grandes possibilidades de que estas se prolonguem pelos próximos oito anos.

Por outro lado, a dita mosca podia apenas fazer parte de uma equipe exploratória — uma batedora avançada do batalhão de moscas que deverá fazer companhia à futura ex-presidente no palácio da Alvorada, onde cumprirá um doce exílio entre seus próprios lençóis e fronhas. As perspectivas são as de que não terá muitas visitas enquanto estiver afastada — ninguém de fato a estima, nem entre os seus colaboradores mais íntimos, e os correligionários que ainda a defendem o fazem apenas em nome de uma estratégia política.

Limitada nos próximos tempos a presidir um sofá ou uma cômoda e impossibilitada de continuar quebrando o país, Dilma será grata a qualquer um que se interesse em ir vê-la.

Um bom presente a levar-lhe: um mata-moscas.

Senta, o leão é manso

O PT é bom de grito, todo mundo sabe, é inegável essa competência. O ex-presidente Luiz Inácio da Silva, então, esbraveja como ninguém. Quesito no qual a presidente Dilma Rousseff tem se mostrado digna de graduação.

Mestre em ameaçar fazer e acontecer quando acuado pelas evidências, o grupo não tem tido o mesmo êxito - louve-se aos céus - no tocante à eficácia de suas (más) intenções. Muito provavelmente porque elas se chocam com a lei e contradizem a realidade. No mundo das palavras tudo é possível, já no mundo das ações há regras a serem obedecidas e circunstâncias a serem observadas.


Quando os habitantes de um universo tentam atuar no outro sem mudar instrumentos nem critérios, o resultado é o fracasso. Isso quando não incorrem na perda do senso de ridículo.

O PT iniciou essa travessia já na época do mensalão, quando tentou imprimir a seus correligionários condenados por crimes comuns pelo Supremo Tribunal Federal a aura de presos políticos e se dispôs a recorrer a cortes internacionais para rever a decisão e fazer crer a estrangeiros incautos que o STF era um tribunal de exceção. Nada aconteceu.

Anos antes de cumprir sentença por corrupção, José Dirceu havia deixado a Casa Civil anunciando que retomaria o mandato de deputado para “comandar”, do Congresso, o governo. Não conseguiu sequer terminar o discurso que fez da tribuna no dia da volta, tal a sorte de apartes contestadores por parte do plenário, que pouco tempo depois aprovaria sua cassação.

Transitado em julgado o processo, Lula anunciou que como ex-presidente dedicaria seu tempo e energia para provar que o mensalão não existiu. O desmonte da “farsa”, como se viu, era a farsa em si. Lula não provou nem tentou. Por impossibilidade fática, a tal da “narrativa” caiu no vazio.

Foi retomada com força total e acrescida de novas alegorias agora que o fim do ciclo do PT no poder se aproxima e se dá em cenário de triste espetáculo. A presidente da República prestando-se ao papel de revolucionária sem causa, transformando o Palácio do Planalto em trincheira de resistência imaginária, improvisando um governo de esquerda “fast-food”, com medidas destinadas a reunir as tropas militantes ao arrepio das contas públicas, cuja implosão já se encarregara de comandar.

O ex-presidente Lula, o habilidoso articulador político, desprovido do proverbial tirocínio, deixa São Bernardo para entrar no Palácio do Planalto como dono de uma jogada de excelência para sair dele prisioneiro da arapuca em que se transformou sua nomeação para ministro-chefe da Casa Civil.

De lá, seguiu para um quarto de hotel em Brasília, de onde comandaria a “virada” de votos na Câmara, evitando a admissibilidade do impeachment. Não levou uma nem duas, mas várias rasteiras dos “picaretas” que acreditava serem ainda seus súditos.

Nesse meio tempo, houve o anúncio de fogosa resistência. A militância iria para as ruas e nelas montariam barricadas pelas quais o impeachment não passaria. Passou e continua seu caminho, indiferente à denúncia internacional do “golpe” à qual nem o Itamaraty aderiu.

A solução quase final de recorrer à proposta de eleição direta já não conseguiu a concordância sequer dos aliados. Alguns deles por uma questão de bom senso, outros pela convicção de que isso daria a impressão de que a presidente estaria considerando seu afastamento inevitável. Como se houvesse a possibilidade de outro desfecho.

Mas, claro, é preciso resistir. Como? Com a mobilização das entidades que não terão mais verbas públicas para se mobilizar e a montagem de um bunker no Palácio da Alvorada, onde darão expediente Dilma, 15 assessores e os funcionários domésticos que atendem à residência oficial.

De onde, sentemo-nos que o leão é manso.

No fim, um mau negócio

Não sobrou ninguém. O trator de Rodrigo Janot passou em cima do Lula, porque uma organização criminosa como a Lava Jato não funcionaria sem ele. Dilma é denunciada por obstruir o Judiciário ao indicar um ministro do Superior Tribunal de Justiça e, mais, por nomear o Lula para a chefia da Casa Civil. José Eduardo Cardozo, ex-ministro da Justiça e atual Advogado Geral da União, por tentar obter a liberdade de empreiteiros presos na Operação Lava Jato. Incluem-se na quadrilha Eduardo Cunha, presidente da Câmara, ao receber propinas variadas; Renan Calheiros, presidente do Senado, pelos mesmos motivos.


E mais Aloizio Mercadante, ministro da Educação, Edinho Silva, ministro da Comunicação Social, Jader Barbalho, Romero Jucá e Waldir Raupp, senadores, além de Jacques Wagner e Ricardo Berzoini, ministros, Giles Azevedo, Antonio Palocci, Erenice Guerra, Paulo Okamoto e José Sérgio Gabrielli, ex-ministros. Sem esquecer Delcidio Amaral

Ao todo o Procurador Geral da República denunciou 29 personagens dos governos Lula e Dilma, todos às voltas com processos conduzidos pelo ministro Teori Savaski, do Supremo Tribunal Federal. Somados aos antigos dirigentes e líderes do PT, una já presos, outro quase, eles compõem uma quadrilha para ninguém botar defeito. Recomenda-se a quem quiser saber o nome de todos, recorrer aos arquivos da Judiciário e da Procuradoria, bem como à memoria e às coleções de jornais.

Se alguém buscava razões para o país estar em fragalhos, eis a principal: o número de bandidos, vigaristas e ladrões incrustados nos dois governos dos companheiros.

Anulam-se os efeitos dos benefícios que puderam ser prestados por eles em favor dos menos favorecidos. Aliás, boa parte está desfeita. Evaporou.

Fora os que já se encontram na cadeia, por obra de investigações e sentenças anteriores, essa nova relação conduz a iguais previsões.

Fazer o quê? Pelo menos imaginar que o exemplo frutifique e que cabe se tornando um mau negócio botar a mão nos dinheiros públicos...

Poema da purificação

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.
As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.
Carlos Drummond de Andrade


Atalhos da cretinice

Depois que Lula conseguiu com Dilma uma habeas-corpus para fugir do juiz Sérgio Moro, os políticos descobriram uma nova saída para continuarem santos e de certa forma protegidos. Outro investigado como o governador Fernando Pimentel, com foro privilegiado, acabou de conceder à própria mulher o mesmo privilégio. Anunciam agora a vez de Jacques Wagner com o fim do governo Dilma, conseguir junto ao governo baiano do apadrinhado Rui Costa cargo no secretariado para também fugir à Justiça.

É o PT procurando protelar o quanto puder a ida de outra leva ainda maior de seus corruptos para a cadeia. A dança das cadeiras, mesmo como no caso de Pimentel ser crime de nepotismo, é aceita como normalidade no país. Mas é criminalidade descarada e escarrada.

O país aceita passivamente, contra toda a ética, até mesmo se rasgar a lei. Não é o caminho de quem se diz democracia. 

A descoberta de novos atalhos pelos petistas - sempre eles - entre o emaranhado político para correr da prisão mostra o que são capazes esses corruptos com máscara de santos. São os mesmos que vociferam contra o que apelidaram de golpe, criticam o réu Eduardo Cunha e fazem festas a Renan Calheiras, velho conhecido da Justiça, com nove processos nas costas. Tacham de bandidos todos os ex-aliados desde que isso lhes sirva.

Há algo de podre na canalha política, e não são apenas os adversários. Fedem mais os aliados, que sorrateiramente tramam suas escapulidas. Dilma "pedalou" e continua a rasgar a Lei de Responsabilidade. É de uma irresponsabilidade federal para com o país. Os aumentos prometidos nos últimos dias, as "bondades", são mais um agrado - ilegal - aos mais pobres para que continuem a defender o mandato de uma tresloucada de olho em manter a chama dos diabos para 2018. Também vai exigir regalias em seu afastamento, que custarão mais dinheiro aos cofres públicos já tão minguados por sua incompetência e arrogância.

Dilma está entrando para a história como a presidente que mais causou danos ao país, na entra e na saída. Acha o país como propriedade particular com a mesma sanha dos escravagistas. Entre um senhor de engenho e Dilma não há qualquer diferença. Ambos desprezam o trabalho e se conferem donos do mundo.

Essa mediocridade de políticos corruptos e governantes destrambelhados está corroendo o dinheiro do cidadão que ainda mantém uma aristocracia política do submundo como s ministros indicados neste fim de mandato, que ficarão abastecidos de altos salários por mais quatro meses.

O momento exige precisão e parcimônia no uso das palavras

Para quem lida com palavras, mesmo para os que não têm a escrita como hábito ou profissão, todo cuidado é pouco. O escritor Otto Lara Resende advertia que “as palavras sangram, elas são sangrentas”.

Busco sempre a clareza para transformar em letras, jamais em sangue, o que penso. Ontem, ao me assentar à mesa da máquina de escrever, de saudosa memória, ou, hoje, ao me aventurar diante do computador, acendo logo uma luz amarela: devo ser verdadeiro, mas também elegante. O leitor, parceiro e, claro, crítico de quem arrisca opinião sobre assunto tão difícil (como é a política), qualquer que seja o veículo, não é nem desaguadouro de mágoas, nem muito menos lixeira.

Quando digo, leitor, por exemplo, que o governo Dilma acabou, não estou exagerando nem muito menos sendo grosseiro. Isso ressalta-se aos olhos de quem quer enxergar. A reação a essa afirmação, da presidente e de alguns de seus defensores, preocupados com o que de ruim o futuro lhes reserva, só reforça a tese de que o desespero tomou conta de todos. Dissentir é da natureza humana, mas a presidente e seus defensores ultrapassaram os limites. Tornaram-se patéticos. E, no caso do advogado José Eduardo Cardozo, estou convicto de que ele se arrependerá do triste papel que vem fazendo em defesa do indefensável.

Quando aceito o impedimento da presidente Dilma como recurso legal e legítimo, previsto na Constituição, não estou sendo golpista nem estou dizendo que ela é uma criminosa. O crime de responsabilidade não tem nada a ver com os crimes comuns, tratados no Código Penal. Seu impedimento não a levará para a cadeia, pois, na verdade, trata-se de uma infração político-administrativa. E seu julgamento, depois de aceito por dois terços dos votos na Câmara Federal, será feito pelo Senado Federal e não exige prova de atos de corrupção.

À maneira do poeta Ferreira Gullar, que escreve semanalmente (aos domingos) na “Folha de S.Paulo”, “surpreendo-me com a reação de pessoas reconhecidamente inteligentes e bem-informadas, em face da crise pela qual passa o país neste governo. Não é que não tolere – longe de mim tal propósito! – suas opiniões contrárias à minha, e sim os tipos de argumentos que adotam, contrários aos fatos e aos princípios constitucionais que regem nossa vida política e social”.

A mim intriga, enfim, sobremaneira, a manifestação de alguns intelectuais, juristas ou não, sobre o impedimento. Repetem o mantra “não vai ter golpe” e negam o crime de responsabilidade. Fico imaginando uma situação inversa, isto é, Dilma vice e Temer na Presidência. Já imaginou, leitor, o que fariam o PT e seus aliados? Transformar-se-iam em feras e usariam quaisquer armas. Ou não foi assim que agiram em favor do afastamento do ex-presidente Fernando Collor, com quem, depois, fizeram as pazes? E olhe que, como disse o jornalista Ricardo Noblat em sua última coluna em “O Globo”, se comparado à operação Lava Jato, “Collor não passou de um trombadinha, desses que atacam mulheres indefesas no meio das ruas”.

Se a situação fosse inversa, qual seria a reação do PT diante de uma proposta de eleições diretas, por meio da apresentação de uma PEC inconstitucional, como a que estaria para ser apresentada pela presidente logo depois da admissibilidade do impedimento no Senado?

Obediência severa à Constituição é o caminho para se estancar a crise. Impedida a presidente, assume o vice. Cabe a este uma missão histórica. Em pouco tempo, saberemos se estará à altura dela.

Quem viver, verá.

Acílio Lara Resende

PT, uma antipatia nacional

As notícias desconcertantes que Dilma, Lula e o PT ouvem todo dia recebeu do povo, em sua maioria, ruidosa condenação, somada a uma antipatia que o PT acumulou em seus longos anos de agitação.

Os fundadores e os ideólogos do Partido dos Trabalhadores devem preocupar-se com este fenômeno de repulsa da maioria dos eleitores pela sigla e pelas vozes sempre altas, um tanto intimidativas, de sua militância.

Quem leu sobre aquele período triste da história da França revolucionária, quando o sangue de nobres e de suspeitos corria indistintamente pelas pedras daquela hoje eloquente cidade de Paris, associa seus capítulos de panfletagem e execuções sumárias às lideranças surgidas da precipitação, da solércia e da valentia circunstancial. Dentre os manifestantes virulentos estavam os jacobinos (os petralhas, na versão atual), designação atribuída aos pregoeiros do caos e dos enfrentamentos, os que apostavam no terror da revolução (José Dirceu foi aluno da guerrilha, em Cuba, em sua juventude). Todos se lembram de que o PT, entre outras façanhas, se colocou contrário ao plano real, o mesmo PT que, no poder, transmudou-se completamente, adotando práticas político-econômicas antes apedrejadas.

As bandeiras que hoje empunhamos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, tanto quanto a Declaração dos Direitos do Homem, que os revolucionários tiveram oportunidade de desfraldar, não decorreram aqueles princípios e aquele documento de ações de bravura pessoal dos panfletários da desordem. Não. São, aliás, muito antecedentes, a primeira atribuída a Étienne de la Boétie em conjunto com Montaigne (meados do séc. XVI). Já a Declaração de Direitos é obra soprada pelo iluminismo francês, período áureo que deu ao mundo, por sábios e intelectuais, enunciados que hoje nos governam.

Comentários infelizes já insinuaram que o Partido dos Trabalhadores possui folha de serviços comparável aos prestados pela Revolução Francesa. Ridícula a afirmativa. A primeira antipatia granjeada pelo PT é o fato de que sua fundação adotou linha programática socialista ultrapassada, e, como Partido dos Trabalhadores, é definição excludente. Só se filiam a ele os trabalhadores ? E as donas de casa ? E os intelectuais ? E os assistentes administrativos ? E os jovens ? E os militares ? E os aposentados ? O fato é que o PT, em resposta agressiva ao movimento de 64, quis enfrentá-lo com uma ideia que aproximasse o povo dos operários (principalmente os de São Paulo) e de suas desordens para uma conjugação de interesses e votos, de adesão enfim, a propósitos pouco transparentes, que serviriam à expansão da liderança do sindicalista Lula. 

Outra fosse a inspiração dos fundadores do partido, de amor à causa operária, teriam prosseguido na doutrina construída pelo trabalhismo, aquele sim, Getúlio, o verdadeiro timoneiro da bandeira trabalhista, o único sinceramente empenhado e solidário com o escravagismo do operariado, e que verdadeiramente encarnava o ideário trabalhista. Porque não seguiram os petistas o catecismo legado por Getúlio, onde reuniriam forças para conjugar o capital e o trabalho ? É porque já havia lugares ocupados no trabalhismo.

Como indutora da antipatia ao PT, coroa a insolência da corrupção que alcança grande número de membros do governo e da família de Lula. Com o episódio do mensalão, de triste memória, que indignou os brasileiros, junto com a negativa de que nada sabia, o ex-presidente enterrou as chances que pudessem reerguer a ética no PT.

A opinião pública não esqueceu esta afronta, e o judiciário agora a investiga e a investigará até as raízes.

José Maria Couto Moreira 

quarta-feira, 4 de maio de 2016


Lula perdeu, o Brasil ganhou

Não há qualquer dúvida de que Michel Temer é o novo presidente da República. O Senado vai receber o processo e aprovar o impeachment de Dilma Rousseff. A interinidade deve ser breve — inferior aos 180 dias constitucionais. O projeto criminoso de poder e seus asseclas foram derrotados.

A história — e não é a primeira vez — traçou um caminho surpreendente. Apesar do desastre do primeiro governo, Dilma conseguiu ser reeleita na eleição mais suja da República. Imaginava-se que faria um governo cinzento. E que Lula deveria ter um papel mais ativo, preparando o caminho para retornar à Presidência em 2018, ser reeleito em 2022 e eleger um poste em 2026. A pouca combatividade da oposição, a inércia das entidades empresariais, as benesses obtidas pelo grande capital e o estabelecimento de relações nada republicanas com o Congresso Nacional e as Cortes superiores de Brasília davam ao petismo um protagonismo e uma força desproporcional à realidade.


Quando o pedido de impeachment deu entrada na Câmara — em outubro de 2015 —, poucos acreditavam que seria apreciado. Outros já tinham sido rejeitados. Pouco depois, o STF decidiu, equivocadamente, que caberia monocraticamente ao presidente da Câmara a decisão de receber o pedido. Falou-se que seria rejeitado por Eduardo Cunha. Porém, a 2 de dezembro, acabou sendo recebido. Seis dias depois, foi eleita a Comissão Especial por 272 votos a 199, com uma composição independente do Palácio do Planalto. Mais uma vez, o STF interferiu inconstitucionalmente, obrigando a Câmara a anular a votação e criar uma comissão “eleita” pelos líderes. Considerou-se uma vitória, pois os partidos da base governamental eram maioria.

O recesso parlamentar deu ao governo uma aparente sobrevida. Ficou na aparência. O agravamento da crise econômica — o ano fechou com a queda do PIB em -3,8% —, as investigações da Lava-Jato e a participação da sociedade civil com as manifestações de rua — quatro em 2015 — e a fantástica mobilização das redes sociais foram paulatinamente deslocando a balança para os adversários do petismo, mesmo quando os partidos oposicionistas ainda patinavam no enfrentamento do projeto criminoso de poder.

O ano legislativo de 2016 começou sem que estivesse claro qual o rito que deveria ser seguido na Câmara, pois o STF tinha tomado uma decisão pouco clara e, pior, invadindo a esfera do Legislativo. Após os esclarecimentos, o caminho ficou aberto. Mas o fato determinante do processo foram as grandes manifestações de 13 de março, especialmente a de São Paulo, a maior da história do Brasil. Nesse momento, as ruas, pela primeira vez, empurraram o Parlamento, deixando de ser coadjuvantes para serem protagonistas.

O PMDB foi se afastando do governo — a 12 de março declarou-se independente. A resposta do Planalto foi um suicídio político: a nomeação de Lula para chefia da Casa Civil. Uma demonstração de fraqueza travestida de uma grande jogada política. Um golpe de Estado, dando a Presidência, de fato, a um procurado da Justiça. A suspensão da nomeação e a divulgação dos áudios foram fatais. Desnudaram as razões da nomeação e as conversas de ministros e dirigentes petistas. Apresentaram um governo de cafajestes e celerados. Ficaram ainda mais isolados. E novamente as ruas deram resposta enérgica à manobra golpista.

A 17 de março foi constituída a Comissão Processante. Para evitar questionamentos jurídicos, foi seguido estritamente o rito determinado pelo STF. Diferentemente de 1992, desta vez houve amplo direito de defesa. A solidão do Planalto ficou maior quando o PMDB rompeu com o governo. De nada adiantou a presença constante de Lula em Brasília e a transformação de um quarto de hotel em gabinete presidencial — triste momento que aproximou o Brasil de uma república bananeira.

A Comissão Processante teve seus trabalhos conduzidos com muita propriedade e equilíbrio pelo presidente Rogério Rosso, e o parecer do relator Jovair Arantes não deixou pedra sobre pedra — e a 11 de abril foi aprovado por ampla maioria. As respostas do governo na comissão, na Câmara e na sociedade foram desastrosas. Chamar de golpe o que está previsto na Constituição foi um desastre. A defesa feita pela AGU foi patética. Os atos no Planalto com os “movimentos sociais” afastaram ainda mais o governo de parlamentares que estavam indecisos. E, para piorar, Dilma pediu a intervenção de organismos internacionais, caso de crime de lesa-pátria.

A votação de 17 de abril foi histórica. De nada adiantaram as transações criminosas de Lula tentando comprar parlamentares. O quorum constitucional foi suplantado. E a admissibilidade do processo, aprovada. O PT — que funciona mais como uma organização criminosa do que como partido político, basta recordar as inúmeras condenações judiciais — tentou — e ainda tenta — desqualificar a decisão. Criticou o “nível” dos deputados — como se a média dos parlamentares, desde 1826, quando o Parlamento foi aberto, fosse muito distinta; além do que teve sustentação congressual durante 13 anos —, ameaçou o país com guerra civil, incentivou a desmoralização das instituições e colocou em risco a paz pública.

Temer não deve esquecer que chegou à Presidência graças à mobilização das ruas. Vai ter de organizar um ministério competente, enfrentar os graves problemas econômicos, melhorar a qualidade do gasto público, não compactuar com a corrupção, despetizar o Estado e levar o país às eleições de 2018. Não será fácil. Mas muito mais difícil foi o povo derrotar a quadrilha petista e seu chefe, Lula.

Marco Antonio Villa 

Denúncia contra Lula tem o peso de uma lápide

O cronista Nelson Rodrigues ensinou que a morte é anterior a si mesma. Começa antes, muito antes. É todo um lento, suave, maravilhoso processo. O sujeito já começou a morrer e não sabe. Tome-se o caso de Lula. Fenece politicamente desde 2005, quando explodiu o mensalão. Mas demorou dez anos para que a Procuradoria-Geral da República providenciasse a lápide.

Veio na forma de uma denúncia e de uma petição ao STF. Na denúncia, o procurador-geral pede a conversão de Lula em réu por ter tentado comprar o silêncio do delator Nestor Cerveró. Na petição, requisita a inclusão de Lula e outras 29 pessoas no “quadrilhão”, como é conhecido o principal inquérito da Lava Jato. Nesse texto, Janot esculpiu um epitáfio com cara de óbvio:

“Essa organização criminosa jamais poderia ter funcionado por tantos anos e de uma forma tão ampla e agressiva no âmbito do governo federal sem que o ex-presidente Lula dela participasse.''


A conclusão do procurador-geral elimina uma excentricidade dos governos do PT. Está chegando ao fim a era da corrupção acéfala. Janot fez, finalmente, justiça a Lula, protegendo-o de si mesmo. A pose de Lula diante da roubalheira não fazia jus à sua fama.

O mal dos partidos políticos, como se sabe, é que eles têm excesso de cabeças e carência de miolos. O PT sofre da mesma carência, mas com uma cabeça só. Desde que empinou a tese do “não sabia”, Lula vinha renegando sua condição de cérebro solitário do PT. Reivindicava o papel de cego atoleimado.

Se aceitar a denúncia da Procuradoria, o STF não irá apenas transformar Lula em réu. Restabelecerá a lógica, acomodando o personagem no topo da hierarquia da quadrilha.

Mirando para baixo, Janot disparou várias balas que muitos davam como perdidas. Requereu a inclusão no inquérito do “quadrilhão” de vários nomões do PT, do PMDB e da vizinhança de Dilma.

Gente como os ministros palacianos Jaques Wagner, Ricardo Berzoini e Edinho Silva; os ex-ministros Erenice Guerra, Antonio Palocci e Henrique Alves; os senadores Jader Barbalho e Delcídio Amaral; o deputado Eduardo Cunha… De quebra, foi alvejado o principal assessor de Dilma, Giles Azevedo.

Como se fosse pouco, Janot requereu a abertura de inquérito contra a própria Dilma, o advogado-geral do impeachment, José Eduardo Cardozo e, de novo, Lula. Acusa-os de tentar obstruir as investigações.

No início de março, quando foi conduzido coercitivamente para prestar depoimento à Polícia Federal por ordem do juiz Sérgio Moro, Lula reagiu com uma entrevista de timbre viperino. “Se quiseram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo, porque a jararaca está viva.'' Pois bem. Janot acertou a cabeça da víbora.

Lula estava zonzo desde o dia em que o doutor Moro atrapalhou sua nomeação para a Casa Civil jogando no ventilador os diálogos vadios captados em grampos legais. Numa conversa com Dilma, a jararaca destilara todo o seu veneno:

“Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada, nós temos um Superior Tribunal de Justiça totalmente acovardado, um Parlamento totalmente acovardado. […] Nós temos um presidente da Câmara fodido, um presidente do Senado fodido. Não sei quantos parlamentares ameaçados. E fica todo mundo no compasso de que vai acontecer um milagre e vai todo mundo se salvar…”

Depois disso, a Suprema Corte avalizou o rito do impeachment, o presidente da Câmara coordenou a goleada de 376 X 137, o presidente do Senado passou a flertar com o vice-presidente “conspirador”, os parlamentares traem madame gostosamente e Lula revela-se uma cobra sem veneno. Tornando-se réu, talvez chegue a 2018 mai perto da cadeia do que das urnas.

Quanto a Dilma, ninguém estranharia se o noticiário sobre sua Presidência migrasse da editoria de política para o espaço que os jornais reservam aos avisos fúnebres. Os curiosos lêem compulsivamente, à espera de uma surpresa agradável. Jurada de morte, madame tenta se convencer de que ainda está cheia de vida. Mas todos sabem, inclusive seus aliados, que, mais dia menos dia, acaba o seu dia a dia. Tudo passa, exceto o PMDB, que é imortal.

'A última trincheira da cidadania'

Quando o ministro Marco Aurélio Mello, entrevistado no programa Roda Viva, fortemente pressionado por José Nêumanne, indagou-lhe se não confiava no STF, desde minha poltrona respondi com o jornalista: “Não, não confio!”

E por que não? Porque muito mais vezes do que minha tolerância se dispõe a aceitar, assisti o STF legislar contra a Constituição e invadir competência do Congresso Nacional. Sempre que isso aconteceu, a maioria que se formou despendeu boa parte de seu tempo afirmando não estar fazendo o que à vista de todos fazia. Ademais, como conceder a confiança que o ministro esperava colher depois de o STF, na ação penal referente ao mensalão, haver decidido que nele não ocorreu crime de formação de quadrilha? Vinte e cinco condenações envolvendo três núcleos interconectados não compunham uma quadrilha? Como cortejar um ponto tão fora da curva?

Como esquecer o ministro Joaquim Barbosa, com seu linguajar ríspido, reprovando o que via acontecer nas sessões finais daquele julgamento? Recordo sua advertência sobre a “maioria de circunstância” e “sanha reformadora”.

Pergunto: não ficam nítidos, em certas entrevistas concedidas por alguns senhores ministros, os desapreços internos? Nêumanne não está só.

Ao estabelecer que o provimento das cadeiras da Suprema Corte se dê por nomeação da presidência da República após aprovação da escolha pelo Senado, nossos constituintes confiaram em que o natural rodízio das tendências nas eleições presidenciais permitiria um equilíbrio das orientações jurídicas e sensibilidades políticas dentro do STF.

Tal presunção foi rompida com a sequência de quatro governos petistas, que indicaram oito dos 11 ministros. Numa democracia, seria muito saudável que o Supremo, em sua composição, exprimisse equilibradamente o espectro dessas sensibilidades presentes e atuantes na vida social. Não parece razoável que na prática, a posição conservadora ou liberal ali só se manifeste no microfone de onde, suplicantes, falam advogados e amigos da corte. Nunca no plenário. Nunca com direito a voto.

Não bastasse isso, nos últimos meses, relevantes figuras da República têm manifestado dispor de uma intimidade, que vai além de todo limite, com membros do poder situado no outro lado da praça. O governo contabiliza votos na corte como se fossem seus. Ministros opinam sobre assuntos em deliberação no Congresso Nacional. Divergem publicamente sobre questões cruciais do momento político. Onde buscar razões para a ambicionada confiança?

Há mais. A nação tem imensa dificuldade de entender como podem tantos processos dormir, tirar férias, entrar em remanso e envelhecer nas prateleiras do STF. Num país com tão angustiante necessidade de combater a corrupção não é aceitável que políticos corruptos sejam agraciados com o sigilo sobre seus crimes, a dormição de seus processos e, não raro, a prescrição dos crimes praticados. De que vale a lei da ficha limpa quando a ficha suja encontra abrigo numa gaveta do tribunal e criminosos seguem influenciando a vida do país?

Por fim, uma questão institucional. O ministro Marco Aurélio tem afirmado que o STF se encaminha para ser o Poder Moderador da República…

Vai que dá certo?

Não se ignora a dramaticidade do quadro social, econômico e político no qual Michel Temer terá de operar como futuro presidente da República. Os desafios são imensos. Mas não está escrito nas estrelas que o próximo governo, apropriadamente caracterizado de “emergência nacional”, dará com os burros n’água, como preconizam algumas pitonisas de plantão. Vai que dá certo, como ficam as premonições catastrofistas?

É cedo para avaliações. O novo governo sequer assumiu e encontra-se na fase de costura. Mas seria muita má vontade não enxergar que os primeiros movimentos do atual vice-presidente vão, no essencial, na direção correta. Seu sucesso ou insucesso será medido, principalmente, pelo enfrentamento da crise econômica. E é aqui que Temer dá os primeiros passos de forma acertada.

Há consciência de que é preciso restabelecer a credibilidade da política macroeconômica e a confiança na solvência do Estado, ambas detonadas nos anos de desgoverno do lulopetismo. Fundamentos econômicos sólidos, previsibilidade e credibilidade são pré-requisitos para a atração dos investimentos necessários à retomada do crescimento.

A sintonia fina a ser feita no ajuste fiscal deverá ter exatamente este objetivo e será por aí que a taxa básica de juros pode ser puxada para níveis mais civilizados e entrar em curva declinante, ainda em 2016. Diferentemente do período Joaquim Levy, o provável futuro ministro não está propondo o “ajuste pelo ajuste”, mas sim uma ponte para o resgate da boa política macroeconômica.

Trata-se, portanto, de criar um ambiente favorável à retomada do crescimento, condição essencial para se enfrentar o enorme drama do desemprego, que hoje atinge 11 milhões de brasileiros.
E por onde o crescimento pode ser retomado?

As pistas estão dadas. O foco é um amplo programa de concessões, livre das amarras criadas pelo dirigismo tão presente nos anos Dilma. Em qualquer lugar do planeta, os investidores empregam seu capital onde estejam asseguradas duas condições: regras claras e possibilidade de retorno do investimento.

Um dos graves erros do governo Dilma foi querer definir por decreto taxas de retorno nas concessões, além de impor, em muitos casos, um sócio compulsório aos investidores: o Estado. Vide o caso das privatizações dos aeroportos onde a Infraero se transformou em sócio incômodo dos investidores. Nesses quase seis anos, as privatizações não andaram porque, entre outras coisas, o governo mudava as regras do jogo a toda hora.

A equipe de Temer acena com o fim dessa camisa de força. Isto é positivo. As privatizações podem deslanchar e atrair fortes investimentos.

Outra trilha para crescer é o incremento das exportações, com a adoção de uma política agressiva no comércio exterior visando conquistar novos mercados. Por questões puramente ideológicas, o Brasil nos últimos 13 anos priorizou as relações Sul-Sul, deu as costas aos mercados dos EUA e da União Europeia. Mais grave: ficou imobilizado pela camisa de força do Mercosul, impedido de assinar acordos bilaterais sem o consentimento dos outros países do bloco.

Hoje levamos um banho do Chile, do Peru e do México.

A economia não é tudo e nem mesmo aqui se está perto de vencer a guerra. Aliás, será uma batalha dificílima, a crise econômica não será superada da noite para o dia. E não há espaço para ilusões quanto às resistências a serem enfrentadas na hora de se avançar nas reformas estruturantes e na desindexação da economia e do Orçamento da União.

Tampouco será fácil construir um governo de ampla coalizão sem fazer concessões ao patrimonialismo, ao clientelismo e ao corporativismo, ervas daninhas que tanto prejuízo causam ao país. Talvez esta seja a batalha mais árdua. Tais forças criarão enormes obstáculos a qualquer mudança que ameace seu espaço e privilégios no aparato estatal.

São muitos desafios a serem vencidos em pouco espaço de tempo. Não se espera que a administração Temer consiga resolvê-los de uma só vez. Mas, se avançar nos primeiros passos para a reorganização do país, seu governo já terá dado certo.

Nossa terra em transe

Minha avó sempre dizia: “Toda desgraça tem seu lado bom”. Ou então, “Deus escreve certo por linhas tortas”. Será que Deus, brasileiro, está nos levando a um Bem, através dessa chuva ácida que nos arrasa?”

Temos de encontrar um lado bom nessa crise que atravessamos. O Brasil virou um espelho, refletindo nossa imagem. Isso porque o Brasil não está nas cachoeiras e florestas; o Brasil é uma região interior dentro de nossas cabeças. E, sem dúvida, nossas cabeças estão mudando nesta crise. Hoje, somos atores e espectadores. Não nos interessa nada, nem cinema, nem teatro, nada – só o filme de suspense de nossa vida. Nunca aprendemos tanto quanto nessa novela sem fim. O País está viciado em si mesmo. Nossa crise tem personagens principais, coadjuvantes, vilões, peripécias e a expectativa de se atingir um clímax, que nos seja leve. Estamos viciados até na sujeira que presenciamos. Queremos o excremento, que nos ocultaram por tanto tempo, queremos nos deliciar com esta salada tropical de crimes, sangue, miséria, mentiras.


O verdadeiro golpista foi esse partido que nos desmanchou. O PT deu um golpe que arrebentou o discurso lógico sobre o País. Um golpe de que eles, hoje, acusam os adversários. A mentira virou a verdade oficial dessa gangue que vai deixar o Planalto, graças a Deus. Deixarão um legado de disquetes apagados, de sabotagem de todos os dados, que possam servir ao governo que vai entrar. Eles são o Bem; nós somos o Mal.

Suas ações foram tão incoerentes, tão irracionais, que os fatos superam as interpretações. Explicações políticas ou econômicas não bastam. Para entender a cabeça desses elementos, temos de recorrer à psiquiatria. Movidos por estupidez ideológica (para eles, nem o Muro de Berlim caiu), arrasaram a República. Dizendo-se revolucionários, eles refizeram todos os problemas do Brasil arcaico. Por isso, o Brasil Colônia finalmente ressurgiu, depois das maquilagens da República patrimonialista e das repressões da ditadura. Por isso, muita gente diz que o Brasil é o inferno dos cientistas políticos e o paraíso de jornalistas. Será que sairemos deste trem fantasma para a calma administrativa de uma política normal ou a política anômala vai ficar intacta, como sempre foi, depois do vendaval?

Qual será o “lado bom” desse transe que atravessamos?

Bem, a paralisia terminou, por ora. Haverá cirurgia? A crise cria um suspense, a vida fica mais excitante. Algo está se movendo. A crise foi boa para despertar a sociedade civil, já que ninguém sabia onde estava a sociedade civil. Agora, ela está viva e influindo, dando medo nos congressistas e vagabundos aparelhados.

Do ponto de vista histórico, a crise é boa por ser intempestiva, para ensinar que não há “sentido dialético”, nem “contradições negativas”, nem lógica alguma; o mundo se move em pingue-pongue eterno e injusto. Fica claro que nada tem fim. Nem começo. Nunca teremos harmonia.

A crise também é boa para acabar com grandes euforias, pois ela prova que a Lei de Murphy, ao menos no Brasil, é infalível, mais que as leis do mercado: “Se alguma coisa pode dar errado, ela dará”. A crise desnuda nossa tragédia ibérica. A crise nos lembra que não há solução, que a ideia de solução já é um problema.

A crise é boa para que os intelectuais percam a ilusão do Sentido, a perda da ilusão do controle, que sempre tiveram. A dificuldade de tolerar o impalpável é muito grande. Contudo, talvez isso não seja ruim. A fé excessiva na finalidade avariaram muito nosso pensamento. Os intelectuais (muitos) no Brasil têm uma espécie de saudade de um mundo que já “foi bom”. Mas quando? Durante as guerras, no nazismo, no stalinismo?

Hoje em dia, quando a esperança é mais remota, talvez surja uma reflexão mais finita. A crise desqualifica o futuro e valoriza o presente. A crise exige providências urgentes. Estamos descobrindo o óbvio: que os meios são mais importantes que os fins. Só que não temos meios.

Ou melhor, temos; mas só os descobriremos na prática concreta dos fatos. Sem ideias gerais, sem narrativas dedutivas; temos de pensar indutivamente o concreto, uma prática política de erro e tentativa, pelo aumento da qualidade de vida, sem recompensas metafísicas, um “iluminismo de resultados”, uma luta possível. Mas, para intelectuais orgânicos, partidários, a prática é chata. Eles detestam contas, safras de grãos, estatísticas, tudo que interessa à direita, que ganha sempre.

Por isso, é bom que esteja acabando o romantismo revolucionário dos anos 1960, quando havia uma utopia que substituía o “possível” pelo imaginário. Nós só pensávamos em “universais”, mas, no mundo atual, só existe o singular e o mundial.

Ou seja, as coisas são mais complexas que as ideias. A matéria é mais do que o “espírito”; assim, nossos meios possíveis poderão, então, delinear um fim.

Estamos dentro de um momento histórico importante. Dentro e fora de nossas cabeças.

“Nunca antes”, um partido tomou o poder no Brasil e montou um esquema secreto de “desapropriação” do Estado, para fundar um “outro Estado”. Nunca antes, se roubou em nome de um projeto político alastrante em todos os escaninhos do Estado, aparelhado por mais de 30 mil militantes. Estão, agora, deixando todas as gavetas pilhadas para o Temer se ferrar. Creio que teremos no mínimo um período (cem dias?) de conforto ético. Pode ser que um governo de emergência dê conta do drama.

O perigo atual é que, aos poucos, o rabo do lagarto do atraso possa se recompor.

Com um leve sabor de sacrilégio, acho que só um choque de capitalismo e de participação da sociedade poderão destruir o ‘bunker’ do estamento patrimonialista, que nos anestesia. Não adianta anunciar catástrofes; é preciso ensinar a população a se defender do Estado vampírico. O resto é papo morto.

A crise pode ser uma renascença.

Em nome de Brahma

Essa organização criminosa jamais poderia ter funcionado por tantos anos e de uma forma tão ampla e agressiva no âmbito do governo federal sem que o ex-presidente Lula dela participasse
Rodrigo Janot, em indiciamento na Procuradoria Geral da República

Babel política

Babel, palavra de origem hebraica, significa confundir ou confusão, penso eu. Pois bem, num tempo estranho, mais ou menos como este que estamos vivendo, os homens resolveram construir uma torre alta o bastante para chegarem ao céu, e Deus, então, decidiu intervir, criando diferentes linguagens, de modo que ninguém mais se entendesse. Foi o que aprendi nas aulinhas de catecismo quando, aos nove anos, saí de Salinas para o Internato do Instituto Padre Machado.

Será que não estaríamos revivendo a confusão de Babel, em que ninguém entende ninguém? Dona Dilma, aquela da boca porca, está arrumando as malas para uma viagem de seis meses, crente que vai regressar e encontrar a casa arrumada e o almoço na mesa ao meio-dia.

Não me venham com essa cantilena de golpe. Deviam esquecer isso e acordar para a realidade. Diga-me o leitor, com pureza d´alma, se acredita nisso. Sim, o cansaço pode produzir miríades de absurdos. E mesmo visões, como a que enxerga o também boca porca ex-Luiz, ao se imaginar no Governo em 2018... Mas cansaço de quê? Dessa coisa de “não roubei nada, não há prova de nada, eu não bebo...” Que coisa mais chata! Então essa mulher e esse metido a messiânico do Lula nunca ouviram falar em Lei de Responsabilidade Fiscal, no rombo de mais de 200 bilhões que estão deixando? Quem gasta sem ter o recurso correspondente é, no mínimo, irresponsável. Ah... mas todos fizeram assim... Mentira, alguns procederam assim antes da referida lei, que entrou em vigor no governo FHC dia 04/05/2000. Mas chega de falar de quem não merece sequer consideração. Desejo à presidente que está sendo defenestrada do palácio o mesmo que ela deseja para todos os seus subordinados: o ostracismo. Tchau!

Ao presidente que vai entrar, votos de saúde e discernimento para desatar os nós e rombos que propositalmente foram feitos e estão sendo deixados por um governo incompetente e sempre mal intencionado. Se puder, que o novo presidente facilite as coisas para quem o suceder em 2018, diminuindo os ministérios para 20, no máximo, e propondo emenda constitucional para reduzir o número de deputados para 150, no máximo, e acabar com o senado.

Nós somos hoje um país pobre – que o novo presidente se lembre disso e reduza pela metade as embaixadas no exterior, cuide da educação, melhore como puder a vida dos pobres, aumente os auxílios moradia e saúde, obrigue todos os que trabalham pelo e para o país a tratar os mais humildes com urbanidade. E que diminua os juros para um patamar de gente civilizada: este ano, vamos pagar aos ricos da Europa e dos Estados Unidos mais de 600 bilhões de reais de juros. Isso não é coisa de gente certa, isto aqui não pode continuar como um manicômio...

Dilma já monta o seu 'bunker', mas para quê?

Na minha infância, ouvia muito falar nesta palavra alemã “bunker”, como eram chamados os abrigos subterrâneos, onde minha mãe se refugiava com a família, durante os bombardeios na Segunda Guerra Mundial. Eram lembranças muito tristes, que me marcaram para o resto da vida.

Setenta e um anos após o final da última grande guerra, esta palavra volta ao noticiário, agora no Brasil. Já certa da derrota na batalha do impeachment, Dilma começou a preparar o desembarque do Planalto e a montar um “bunker da resistência” no Alvorada, segundo relato dos repórteres Marina Dias e Valdo Cruz, na Folha desta terça-feira.

Pergunto: vai resistir para quê, resistir contra quem, quais são os seus planos?

Até onde sei, nenhuma força inimiga está preparando um bombardeio sobre o Palácio do Planalto. A guerra política é travada no parlamento e nos tribunais, com acusação e defesa citando a Constituição Federal. Não há no horizonte, até onde minha vista alcança, aviões militares, canhões ou navios de guerra.


São ambiciosos os planos de Dilma para o período em que ficará afastada do poder central. Em nada lembram a retirada discreta de Fernando Collor, quando caiu em 1992, esperando em silêncio e resignação, isolado na Casa da Dinda, pelo julgamento final. A quase ex-presidente quer montar uma estrutura de 15 assessores, mais seguranças, carros oficiais e um avião da FAB, além de manter todas as mordomias do Palácio da Alvorada.

Ao contrário de Collor, que deixou o Planalto pela porta dos fundos acompanhado apenas pela mulher, Dilma está pensando num final grandioso para a despedida, programada para o próximo dia 12, segundo o cronograma do Senado. Quer descer a rampa solenemente ao lado do que restou do ministério de seu desastrado governo que quebrou o País.

Em seus atos de desespero nos últimos dias, a ainda presidente deixou claro que pretende cair atirando, para infernizar a vida do seu sucessor constitucional (e, por tabela, a de todos nós, que pagamos a conta), como fez no 1º de Maio, ao anunciar um “pacote de bondades” que aumenta as despesas e diminui a arrecadação, no apagar das luzes, deixando um rombo perto de R$ 100 bilhões nas contas públicas.

Mesmo que o possível governo Michel Temer fracasse em sua tentativa de ressuscitar a economia brasileira, é consenso no meio político, até no PT, que não há a menor chance de Dilma voltar ao cargo no final dos 180 dias de afastamento. Então, eu só gostaria de entender: para quê tudo isso? Para continuar repetindo ao Brasil e ao mundo que ela está sendo vítima de um “golpe”, colocando em risco a estabilidade institucional?

Jânio e Jango também ficaram esperando que as multidões saíssem às ruas para pedir a volta deles. Morreram esperando.

O fim da história: governo nenhum resiste a tamanha soma de erros

Naquela noite amena de domingo, quando a Câmara dos Deputados aprovou a admissibilidade do processo de impeachment de Dilma Rousseff, tanto o ex-presidente Lula quanto o vice-presidente Michel Temer tinham certeza de que o resultado era mais do que previsível. Era certíssimo. Lula, por saber que cometera o maior erro político de sua longa vida pública ao escolher Dilma para sucedê-lo. Temer, por saber que governo nenhum resiste a tamanha soma de erros. Não houve um irmão, como no caso de Fernando Collor, que, de repente, por acaso, saiu contando as peripécias presidenciais nas páginas da revista “Veja”. O acaso foi a própria Dilma. Ela jamais deveria ter sido escolhida.

Com impressionante regularidade, Dilma Rousseff solapou todas as suas possibilidades de ter sucesso como presidente da República. E, com seu retumbante fracasso, enterrou o sonho das esquerdas brasileiras. Vai desalojar milhares que vivem de verbas públicas por meio de convênios. Causará maciço desemprego entre os ocupantes de cargos de confiança. Abalará a receita das centenas de pessoas que trabalham em conselhos de estatais. Muitas delas, nem eu, nem o leitor sabemos que existem.

A ironia das ironias é que Dilma conseguiu fazer o que a oposição jamais teve ou teria competência para fazer: destruiu o lulopetismo. Arrasou a competitividade do PT e, provavelmente, acabará com qualquer possibilidade de Lula voltar a ser presidente da República. É evidente que ela não tem culpa sozinha. Outros fatos contribuíram para a derrocada. O julgamento do mensalão e a instalação da operação Lava Jato, que desvendaram as entranhas do capitalismo tupiniquim, foram decisivos. E revelaram, também, os equívocos cometidos nas relações com o mundo privado.

Porém, quando Lula se encantou com aquela ministra séria, assertiva, ríspida e compenetrada, que sabia de tudo e era ótima nas apresentações, foi o começo do fim. A possibilidade de ser colocada na Presidência adoçou a dura Dilma. A doença que teve de enfrentar e, até mesmo, a solidariedade em torno do fato pareciam que amoleceriam a alma de ferro da candidata.

Foi por pouco tempo. O poder, literalmente, subiu a sua cabeça. Não apenas à dela, mas à de alguns outros também, que demoliram o lulopetismo com doses cavalares de inconsciência. O número 1, sem dúvida, foi Arno Augustin, magistral artífice das mágicas contábeis. Uma espécie de Mister M das contas públicas.

Lula bem que tentou, mas, fragilizado pela própria doença e pela retumbante popularidade de Dilma, nada pôde fazer. O “volta, Lula” veio tarde. Ele tentou emplacar Henrique Meirelles no Ministério da Economia em 2013. Avisou que o Conselhão tinha de funcionar e que as reuniões do conselho político com líderes e presidentes de partidos deveriam ocorrer semanalmente. Avisou que as emendas dos parlamentares ao Orçamento, mesmo da oposição, deveriam ser em grande parte executadas. Avisou tudo. Não serviu para nada.

Dilma será afastada do governo e a ele não deverá voltar. Foi inacreditavelmente incompetente para pilotar a mais poderosa Presidência da República do mundo ocidental. Afinal, o presidente do Brasil é dono de 50% do sistema financeiro nacional, emprega discricionariamente mais de 30 mil pessoas, usa e abusa de medidas provisórias e executa o Orçamento da União a seu bel-prazer. Enfim, o presidente da República do Brasil, por nossas omissões e ignorâncias, tem todos os instrumentos para ser um ditador benevolente. Nem assim ela conseguiu se manter.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Charge (Foto: Moisés)

Contra a democracia

Dilma Rousseff se refere agora à Presidência da República como “minha cadeira” – quando aquela “cadeira” é pública, a ninguém pertence. Mas não é disso que vou me ocupar aqui. O sociólogo Gustavo Falcón, autor do excelente “Reformismo e Luta Armada no Brasil”, me leva a detalhar o artiguete onde afirmei que, durante a ditadura militar, Dilma jamais defendeu a democracia no Brasil.

Falcón sabe que Dilma, expert em falsificar fatos, mente sem pudor quando se apresenta como alguém que, entre o AI-5 e os tempos de Médici, foi uma brava militante democrata. Conhecemos a história política de Dilma. Ela criou uma fantasia deliriosa para consumo próprio, bem distante da realidade da esquerda militarista em que se enrascou.


Dilma veio jovem para a esfera de influência da organização “marxista-leninista” Política Operária (onde ficou um semestre na célula da Faculdade de Economia) – a Polop, que considerava imbecilidade essa conversa de “democracia”. Livro-de-cabeceira dos polopianos era “Estado e Revolução”, de Lênin, pregação acesa a favor da destruição do Estado representativo-parlamentar.

Para o Brasil, o programa era unívoco: derrubar a ditadura dos patrões para, em seu lugar, implantar a célebre ditadura do proletariado. A democracia era olhada como manipulação alienada, desprezível. E deveria ser combatida em nome da revolução socialista. Dilma, embora militante sem qualquer relevo (na verdade, naquele arremedo de luta armada, ela nunca foi além da “intendência”), rezava por essa cartilha.

Chegou na Polop no momento do racha da organização, optando então pela facção militarista, que se confinou no Colina – Comando de Libertação Nacional. Adiante, duas vertentes da esquerda armada, o Colina e a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), se fundiram na VAR (Vanguarda Armada Revolucionária)-Palmares. E em todos esses momentos e organizações, “democracia” era palavrão. Mistificação execrável para sustentar a dominação da classe burguesa. O projeto continuava o mesmo: substituir a ditadura militar da burguesia pela ditadura militar do proletariado.

Agora, por que Dilma esconde esses fatos e se dispõe a mentir tão safadamente para o conjunto da sociedade brasileira? Simples: porque hoje fica muito bem na foto quem diz que enfrentou heroicamente a ditadura em nome do princípio maior da democracia. Mas fica mal quem admite que, como os militares, também achava que a solução estava numa ditadura. E Dilma prefere a morte do que ficar mal na foto.

Liberdade de imprensa ameaçada

Nesta terça se comemora o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, um dia que as organizações não governamentais aproveitam para chamar a atenção para as ameaças sobre o direito a uma informação independente, plural e transparente. Em muitos países, os jornalistas sofrem perseguições e assédio, são fustigados, torturados e presos. No ano passado, 67 pagaram com a vida o exercício de sua profissão, segundo a organização Repórteres sem Fronteiras, uma organização que coloca o foco em quatro países –Egito, Turquia, Rússia e México– para denunciar a violação dos direitos dos jornalistas no exercício de sua profissão.

Os Estados totalitários nos quais a democracia brilha pela ausência têm a imprensa comprometida com a defesa dos direitos fundamentais como um dos seus principais inimigos. Os jornalistas tornaram-se o alvo de todo tipo de regime corrupto e estão sendo assediados pelo crime organizado em áreas cada vez maiores da América Latina, às vezes com a dilacerante conivência da polícia e das autoridades locais. Intimidar a imprensa é também objetivo do terrorismo jihadista, que atentou contra meios de comunicação e assassinou brutalmente repórteres ocidentais sequestrados na Síria.

As leis antiterrorismo e as políticas de segurança –em todos os países– podem se tornar um grave perigo para a informação. Nessas circunstâncias, é necessário que tanto as organizações profissionais como os próprios meios de comunicação lutem contra as tentativas de cercear a liberdade de expressão e obstaculizar o controle dos governantes. Uma imprensa livre é a pedra angular da democracia e as medidas de combate ao terrorismo não podem ser uma desculpa para silenciá-la. E certamente seria uma má notícia que os jornalistas se lançassem nos braços da autocensura.

É difícil explicar o Brasil


As TVs locais mostraram um pronunciamento da Dilma em que ela fala de um “golpe especial” para retirá-la do poder. Os patrícios não entenderam muito bem e insistiram para que eu explicasse que modalidade é essa de “golpe especial”, já que por aqui não existem variações de golpes. Foi difícil explicar, mas procurei o atalho mais simples: a presidente do Brasil é assim mesmo: uma pessoa destrambelhada, confusa, mente turva, não consegue juntar bem as palavras. Disse que ela vai continuar batendo na mesma tecla do golpe porque não consegue justificativa para o caos que provocou na economia e para o maior escândalo de corrupção da história do país em que ela e o seu partido se envolveram.

Disse também para alguns amigos por aqui que o governo petista atrasou o Brasil em mais de vinte anos, depois de pegar o país com as finanças equilibradas, inflação baixa e pleno crescimento. Agora, na saída da Dilma, eles tentam, como aves de rapina, limpar mais ainda os cofres. Se não fosse a intervenção do ministro Gilmar Mendes, do STF, a Dilma iria torrar 85 milhões de reais em propaganda institucional da presidência como se o país estivesse nadando em dinheiro. O pedido extraordinário desses recursos foi feito ao Senado e, em bom tempo, o ministro barrou a farra ao apagar das luzes.

Os patrícios por aqui, como a gente aí, já se convenceram de que o Brasil só sairá do buraco com a saída da Dilma e da quadrilha petista que continua assaltando os cofres públicos. Eles não entendem, contudo, como o Eduardo Cunha, outro corrupto de carteirinha, continua presidindo a Câmara dos Deputados. Explico que a assepsia também chegará a ele que responde a dezenas de processos no Supremo Tribunal Federal por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Eles acham, contudo, que com a posse de Michel Temer dificilmente Cunha será punido porque, a exemplo de Lula protegido por Dilma, a tendência de Temer é livrar a cara de Cunha com a conivência do STF. Irrespondível.

Atualizados com as notícias sobre o Brasil, segundo eles, uma das maiores potências econômicas do mundo, os patrícios discutem sobre o destino político da nação e ficam surpresos e, até perplexos, com as notícias que chegam daí. Por exemplo, eles não entendem como um ex-governador faz um discurso nas suas bases chamando um ministro do STF de “corno” e o Procurador-geral da República de “ladrão” e nada acontece. Tento explicar que os irmãos Gomes, lá do Ceará, são desbocados, afetados por um profundo complexo de inferioridade. Estão acostumados a dizer impropérios contra as instituições e as autoridades e nada acontece pela passividade da nossa justiça.

Eles acham que o Brasil está passando por uma crise moral e ética (irrespondível). Os poderes, segundo eles, estão decadentes e, por isso, pessoas como o ex-governador Cid e o irmão dele, o Ciro, destratam as pessoas dessa forma sem que haja punição exemplar. É verdade, não se entende essa falta de respeito contra o ministro Teori Zavascki, do STF, e o procurador Rodrigo Janot, responsáveis pela apuração da operação Lava Jato. Entramos no fundo do poço, numa anarquia geral.

Outros patrícios que conheço por aqui, homens de negócios, escritores e jornalistas também estão assustados com a demência do país, o vazio e o abandono das instituições. Eles são unânimes em afirmar que o governo não só acabou como fechou os ministérios. Explico-lhes que existem vários ministérios sem os titulares porque as pessoas se negam a ocupar as pastas. Temem ter seus nomes ligados ao governo corrupto do PT. Preferem se preservar a se envolverem nas maracutaias que já levaram muitos à cadeia.

Não faz muito tempo, eu fazia perguntas semelhantes a esses mesmos patrícios de como Portugal tinha chegado ao fundo do poço, com a sua economia destroçada. Existia por aqui, à época, um clima de pessimismo e de derrota quando José Sócrates, ex-Primeiro Ministro, e a sua turma, estavam no poder. Agora, Sócrates e seus amigos, estão na cadeia e a economia do país em franco desenvolvimento. Somos irmãos siameses.

Agora vai!

Os que já viveram muito - meio século, ao menos - são familiarizados com os Agora vai aqui vividos. São os orgasmos da nossa história. Momentos em que o povo vai à rua para protestar ou reclamar por mudanças e – parece – o pretendido ocorre. Ufa. Agora vai. Foi-se embora o mal, virá o bem.

Voltamos para o nosso cotidiano das pequenas e caseiras reclamações e deixamos o país para os que são do ramo tocar o barco. E eles tocam. Aos costumes.

E os costumes são velhos. Há quantos anos eu, você e a torcida do Corinthians, convivemos com a violência – a geral e a policial? Desde quando convivemos com a precariedade na saúde e na educação? Com as péssimas estradas? Com o trânsito caótico nas grandes cidades, com os horrorosos serviços das empresas (ditas) de serviços?

Desde sempre, qualquer Mané sabe, comenta e debocha sobre relações promíscuas de agentes públicos e da política com empresas. Vez por outra vira escândalo – inho ou ão, como os de agora. E é um Deus nos acuda. Ai, ui, que horror! Nunca imaginei que era tanto!

Pois devia imaginar. Pistas não faltam desde sempre.

A propina deve ser o mote mais antigo de comédias e comediantes nacionais. (E vá fazer política, por exemplo, sem dinheiro pra ver se consegue! No mínimo, cabos eleitorais e até eleitores ficariam muito putos de não levar o seu. É ou não é?)

Qualquer brasileiro sabe que existe Caixa 2, dinheirinho "não contabilizado”. Quem não sabe que a sonegação fiscal dos grandes é quase regra geral e que, podendo, dá-se sempre um jeitinho de escapar do fisco? “Esse dinheiro vai ser roubado mesmo”, argumenta-se. E a consciência fica limpinha da silva.

Essas coisinhas todas sabidas e vividas são apenas nossa lista básica do que não há Agora vai que tenha conseguido mudar.

Por que será que não muda e, às vezes, até piora?

Porque, de verdade, de verdade mesmo, a gente vai levando com a nosso histórico conformismo, nossa também famosa síndrome de vira-lata. Tudo lá fora é melhor. Aqui não tem jeito mesmo.

O povo, essa entidade concreta e difusa que é o conjunto de nós todos, vez por outra, precisa arranjar alguém/algo para amar muito e algo/alguém para odiar mais ainda. O amado da vez é o bem em forma de gente, aquilo ou aquele que representa ideal de perfeição, modelo a ser seguido. O herói, enfim. Joaquim Barbosa, Moro.
O que seria da gente sem achar um deles de vez em quando?

O mal é para ser odiado. E concentrar o ódio nacional nuns desses maus é tudo de bom, desopila nosso fígado daqueles pequenos ódios todos que temos acumulado. Ai cabendo o vizinho barulhento, a inveja do filho do amigo que tem mais sucesso do que o nosso e outras pequenezas mais.

Por elas não vamos às ruas. Só ficamos entalados até a próxima chance de gritar um basta coletivo, por um Brasil Melhor, que vem acoplado à crença de que Agora Vai!

Se não for, vamos tocando. Nos costumes. De novo. Quem tem mais dinheiro instala alarme, bota grade, cerca, contrata segurança, põe filho em escola particular. E se conseguir um pouco mais de grana, manda os garotos estudarem em escola americana. (Aqui, esse sistema de cotas, baixou muito o nível da universidade, né não?)

A saúde não tem conserto? Fecha com um bom convênio e vai pagando preço de Sírio Libanês por serviços privados no padrão público – ruim, claro. Esses desacertos antigos do dia a dia não nos levam às ruas. Não têm jeito mesmo, não é?

A gente só vai pra rua quando o mal fica muito mauzão. Daí a gente impicha e bota fé: Agora vai!

segunda-feira, 2 de maio de 2016


A reconstrução como fogo

Neste momento em que palavras se liquidificam e argumentos tornam-se cusparadas, até por dever de ofício sempre me pergunto o que é importante e como não perder o foco. O processo de impeachment segue seu rumo no Congresso, é hora de apressar o processo de reconstrução econômica, buscar atrair investimentos mais rapidamente, atenuar a crise no mercado de trabalho.

Os diagnósticos já conhecidos parecem convergir para um objetivo de retomada do crescimento com proteção dos mais vulneráveis. Uma das críticas ao Bolsa Família era a ausência de foco nos mais vulneráveis, precisamente para alcançar o melhor efeito com o dinheiro. A dispersão do modelo petista traz mais votos, mas tem menos eficácia. Vamos esperar a dança dos nomes e a chegada do momento em que possamos reagir, saindo logo desse pesadelo nacional. Uma capa de revista com cartaz “help” na estátua de Cristo expressa esse sentimento.

A energia de reconstrução talvez seja mais leve do que dos embates políticos do momento. Um segundo e importante front é a transparência sobre o que se passou no governo. Só a Lava-Jato colheu 65 delações premiadas. Num único fim de semana, três importantes depoimentos apareceram. Um deles, da publicitária Danielle Fonteles, revela como o esquema de propina sustentou a propaganda do PT e a folha dos blogueiros chapa-branca. Em outro, Mônica Moura, mulher de João Santana, revela que recebeu dinheiro por interferência do ex-ministro Guido Mantega. Finalmente, o dono da Engevix, José Gomes Sobrinho, revelou seu esquema de propinas pagas ao PT e ao PMDB, citando Renan e Temer. Todo esse conjunto de dados vai estar à disposição para que todos se interessem, leiam e saibam como operou o governo, como se venceram as eleições. Depois de tudo isso digerido, será mais fácil conversar. De vez em quando chegam críticas pesadas. No mesmo tom raivoso das ruas. Para alguns deles, sou velho e amargurado. Minhas ideias são medidas pelos anos e não pela sua consistência.

Bobagem. Quando todas as cartas estiverem na mesa, será mais fácil mostrar como se enganam os que veem em 2016 uma repetição de 1964. Talvez pressintam isso, mas são prisioneiros da tese de que Dilma sofreu um golpe e não um impeachment. O próprio Lula parece não compreender a diferença entre um golpe militar e um impeachment. Afirma que não entende pessoas perseguidas e exiladas pela ditadura apoiarem o impeachment. Como se estivéssemos apoiando censura, prisões, exílios e banimentos. A tese de que isto é uma repetição de 64 iguala o pensamento da esquerda ao de Jair Bolsonaro, que, no seu discurso, disse “vencemos em 64, vencemos de novo”, como se os tanques do General Mourão marchassem contra o Planalto.

O Brasil mudou, vivemos um momento diferente. A própria Guerra Fria, a atmosfera envolvente da época, foi embora com a queda do Muro de Berlim. No entanto, existe um dado na experiência pós-64 que ainda me intriga. Depois da derrota do populismo de esquerda, os jovens fizeram uma pesada crítica aos líderes, uma grande renovação, a partir do movimento estudantil que buscou um outro caminho, equivocado, mas um outro caminho. Hoje, os populistas levam o país para o buraco e ainda convencem seus seguidores que a derrota é fruto da maldade do adversário. Um dos artifícios é fragmentar a realidade, fixar-se numa era de bonança internacional, escamoteando uma longa gestão perdulária que acabou resultando nisto: retrocesso econômico, desemprego. Assisti no século passado ao fim do socialismo real. Agora assisto aos últimos suspiros do chamado socialismo do século XXI, com as mesmas filas para comprar produtos essenciais. Minha rápida incursão na Venezuela, já na fronteira, indicava o fracasso boliavariano. Ainda no lado brasileiro, em Pacaraima, via pessoas com imensos maços de notas em busca de reais ou dólares. Os caminhões de carne brasileiros voltavam cheios porque já não conseguiam pagá-los.

Aceitar a realidade não significa amargura. Talvez por isso tanta gente se refugie na ilusão e persiga tantos moinhos. Aceitar a realidade abre caminho para novas ideias, reinvenções. No século passado, foi possível abrir novos caminhos para uma esquerda limitada pela luta de classes. Ao cooptar as lutas emergentes e colocá-la sob sua asa financeira no Estado, a esquerda conseguiu levar algumas dessas lutas à caricatura. De todos os princípios que tentei preservar do desastre do século passado, ao lado da preocupação com o meio ambiente, os direitos humanos, a redução da desigualdade social, um deles é básico: a democracia como objetivo. Por mais que fale em democracia, o governo do PT a utilizou para seus próprios fins, esgrimiu seu nome sempre que isto era bom para ele.

Quando passar toda essa emoção, pode estar aí um bom roteiro para descobrir o ovo da serpente. Não adianta brigar ou cuspir, mas tentar entender a ruína do próprio projeto político. O governo vai dizer que caiu por suas qualidades. O marketing exige assim. Uma sociedade malvada rejeitou seus salvadores. É uma canção de ninar. Sofremos na terra, mas será nosso o reino dos céus. Perdemos mais uma batalha, mas será nossa a vitória final. Se conseguir interessá-los por esse paradoxo, talvez tenha valido a pena ouvir os seus insultos.