sábado, 22 de maio de 2021

Quem sobreviver verá

Que a economia vai se recuperar, eu não tenho dúvida. A questão é quando e quem estará vivo até lá
João Carlos Brega, presidente da Whirlpool na América Latina, dona das marcas Brastemp e Consul

Brado de um ressurgido da Casa da Morte

Estou internado há quase um mês com Covid. Estive próximo à morte. Estive na UTI. Por pouco, meus filhos não ficaram órfãos. Internado, assisti à CPI da Covid. Vi um general se comportar como estafeta. Vi o Exército brasileiro se associar a uma experiência macabra e quase satânica em que os brasileiros se tornaram cobaia da maldade.


Reconhecer que temos um governo inepto e irresponsável não torna ninguém de esquerda ou de direita. É só ver que estamos à deriva, que nos encaminhamos para algo terrível e sob o comando macabro e irresponsável de gente podre. Não que a oposição seja boa ou razoável. Não é. A oposição de hoje possui parcela de culpa pelo sucateamento do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas o que vivemos no Brasil, hoje, é algo sem comparação, sem precedentes.

Os brasileiros estão sendo exterminados. Brasileiros estão sendo tratados como escória pelo próprio governo. Quantos mais terão que morrer? Quantos mais ficarão órfãos? Eu, por sorte, por graça e misericórdia divina, escapei. Quantos não terão a mesma chance? Até quando o sofrimento causado pelo atual governo nos manterá anestesiados?

1984, distopia premonitória

Raramente releio livros. Ocorreu com alguns clássicos. Mas olho para os livros enfileirados nas livrarias e vejo que ainda gostaria de ler muita coisa na vida. E tendo consciência da finitude de meu tempo pessoal e da infinitude da literatura universal, procuro ler sempre coisas novas. Vez ou outra, consulto livros de economia, ciência política, sociologia ou história para a elaboração de um artigo, texto ou palestra.

O boom de lançamentos e vendas de “1984” e “Revolução dos Bichos” de George Orwell, no entanto, me chamou a atenção e despertou minha curiosidade. Como explicar que os dois livros estejam na lista dos dez mais vendidos nos últimos meses, já que “1984” foi publicado em junho de 1949, refletindo o ambiente do pós-guerra, e o autor tenha morrido há 71 anos?


“1984” é um brado contra o totalitarismo. Li quando tinha 18 anos – 42 anos já se vão – e o Brasil vivia a fase terminal da ditadura militar e a ascensão do movimento pela redemocratização, no qual já militava. Já era um bestseller na época. E agora volta a ser um campeão de vendas.

George Orwell é considerado um dos maiores escritores do Século XX e “1984” sua obra-prima. A qualidade do texto é impressionante e como assinalou o New York Review of Books “... 1984 é uma leitura obrigatória absorvente e indispensável para a compreensão da história moderna”.

As grandes obras-primas muitas vezes são herméticas e difíceis. “1984”, não. Além de encarnar um momento raro da literatura universal, se tornou popular.

A alegoria distópica sobre a vida em Oceânia, o Grande Irmão (Big Brother), o Partido único e totalitário, e o controle ferrenho sobre a dinâmica da sociedade e das vidas individuais, desprovidas de qualquer liberdade, poderiam ser materializadas em diversos eventos históricos reais. As teletelas – que tudo ouviam e transmitiam as notícias e orientações oficiais, os helicópteros espiões, os cartazes e pinturas dizendo “O Grande Irmão está de olho em você”, se espalhavam por todos os cantos de Oceânia.

Os três slogans do Partido, “Guerra é paz”, Liberdade é Escravidão” e “Ignorância é força”, eram difundidos permanentemente. Como parte da lavagem cerebral e anulação do passado era previsto a substituição da língua, a Velhafala daria lugar até 2050 à Novafala, para atender às necessidades ideológicas do Socing e do duplipensamento, cultura dominante em “1984”. A fakenews era institucionalizada e oficial. A verdade não importava.

O Grande Irmão e o partido poderiam ser a encarnação de Stalin e do PCUS, de Hitler e seus nazistas, de Torquemada e a Inquisição, de ditadores latino-americanos ou africanos. No mundo contemporâneo poderíamos fazer um paralelo com as grandes plataformas de internet e sua capacidade invasiva sobre a privacidade de todos, manipuladas pelos “Engenheiros do Caos” em eleições no mundo todo.

A grande ideia vitoriosa no final do Século XX parecia ser a da democracia e da liberdade após a dissolução da URSS, a queda do Muro de Berlim, a decadência de ditaduras mundo afora. Mas provando que a História, ao contrário do que queria Fukuyama, não tem fim, em anos recentes a democracia passou a ser ameaçada, Trump à frente, por diversos governos populistas autoritários.

“1984” nos chama à eterna vigilância na defesa da democracia como valor universal e inarredável.

Falador passou mal

Cadê o telão?

Foi a primeira pergunta que me fiz, na abertura da CPI do Genocídio. Não havia. Uma CPI municiada apenas por depoimentos, papelada e gravações de áudio, pareceu-me um retrocesso tecnológico diante das possibilidades visualmente comprobatórias oferecidas pelo vídeo.

Até agora, os desmentidos e tira-teimas limitaram-se às evidências arquivadas nos celulares dos senadores da oposição. Ainda é pouco.

Só após o depoimento do ex-ministro Pazuello cogitou-se de contratar uma agência de checagem online e em tempo real, um VAR das afirmações negacionistas feitas à Comissão, inclusive por seus integrantes governistas.

Se essa varredura já se mostrara urgente e crucial na inquirição do ex-chanceler Ernesto Araújo, as contradições e mentiras despejadas na CPI pelo ex-ministro da Saúde a tornaram imprescindível, até para conter o ímpeto falaz da tropa de choque do governo, que, alinhada com o modus operandi bolsonarista, não economiza dados, no mínimo discutíveis, quando não comprovadamente defasados e falsos, para livrar a pele do presidente, tumultuar e desacreditar o trabalho da Comissão.


Alguns deles são tão alinhados com o presidente que ainda nem aprenderam a usar a máscara direito, como demonstrou o senador cearense Eduardo Girão, no segundo dia de depoimento de Pazuello.

O escritor J.P. Cuenca resumiu em quatro frases como operam os jagunços parlamentares do Genocida: “Eles sabem que estão mentindo. Nós sabemos que eles estão mentindo. Eles sabem que nós sabemos que eles estão mentindo. Nós sabemos que eles sabem que nós sabemos que eles estão mentindo”.

Políticos mentem para sobreviver e superviver, mas nada se compara aos que compõem e servem ao atual governo. Mentir é a segunda natureza dos bolsonaristas - ou mesmo a primeira no caso do presidente, que, segundo o jornalista José Geraldo Couto, só disse uma verdade desde que assumiu o governo: “Se a esquerda voltar ao poder, vamos todos para a cadeia”. A ver.

Se o depoimento de Ernesto Araújo foi quase um show de rinocerontite à Ionesco, ao qual faltou, para ser completo, quem lhe perguntasse sobre suas crenças terraplanistas, o de Pazuello tirou 10 em cinismo, omissões, enganosa soberba e espantoso autossacrifício.

Embora nada supere, a meu ver, aquele momento em que o ex-chanceler respondeu a Renan Calheiros: “Fui orientado a isso”, o relator insistiu: “Por quem?”, e Araújo confessou: “Não sei”. Não tenho dúvida de que se combinassem encenar, num quartel qualquer, O Mágico de Oz, nem mesmo um marechal tiraria do ex-ministro da Saúde o papel do Leão Covarde.

Poucos aqui talvez ainda se lembrem do caubói medroso consagrado por Bob Hope na comédia O Valente Treme-Treme. Pois bem, Pazuello revelou-se um tremendo general treme-treme. Com ilustre lastro literário-cinematográfico.

Metáfora de ferimento em combate popularizada pelo escritor Stephen Crane, no romance O Emblema Rubro da Coragem, ambientado na Guerra Civil americana e publicado em 1895. Nele, um medroso soldado do Exército da União, perdido de seu batalhão e com vergonha de ser punido como desertor, procura neutralizar sua covardia deixando-se ferir por uma bala inimiga.

O primeiro “emblema rubro da coragem” de Pazuello foi, ironicamente, a covid. Ao tentar fugir da raia, virou chacota na TV e nas redes sociais, comprometendo a imagem do Exército. Tão evidente ficou seu pânico de enfrentar a CPI que Zé Simão não resistiu à tentação de identificá-lo como um “general da Activia”.

O segundo “emblema” foi o apelo a um habeas corpus, que, autorizado, com ardilosa ressalva, pelo ministro Lewandowski, condenou-o à autoincriminação até sem abrir a boca. Só aí, exposto à implacabilidade do se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, o ex-ministro, convencido de que só quem vai a campo ganha por w.o., surpreendeu a todos abrindo o bico. Falou pelos cotovelos e pazuellos. Não sem antes submeter-se a um treino intensivo de lorotagem. Lascou-se.

E nos lascamos. Ouvir Pazuello falar, com todos aqueles ‘esses’ chiados, por alguns e poucos minutos, já é um suplício auditivo, imagine ao longo de seis horas. O general prestaria enorme gentileza aos circunstantes de modo geral se evitasse o uso do plural em público.

Seu terceiro “emblema rubro da coragem” foi o piripaque de que foi providencialmente acometido no intervalo do primeiro para o segundo tempo, depois de confrontado com uma afirmação em contrário da AGU.

“Falador passa mal”, alertava um velho samba gravado por Jorge Veiga, mote retomado, com umas três décadas de distância, por outros sambistas. Falar mentiras, numa CPI, pode “dar cana”, para usar a expressão do ministro Salles, naquela fatídica reunião ministerial em que ele recomendou “passar a boiada” enquanto a covid monopolizava as atenções de suas eventuais futuras vítimas.

O quase desmaio do general foi outra demonstração de bolsonarismo explícito. Na campanha para a prefeitura do Rio, em 2016, Flávio, primogênito do presidente, quase desfaleceu diante das câmeras da Band, quando debatia com Marcelo Freixo. O confronto direto de ideias parece ter sobre a familícia Bolsonaro o efeito de uma criptonita vagotônica.

Gozaram à beça o Pazuello por ter dito que deixou o governo ao dar por cumprida sua missão. O general, ao menos daquela vez, não mentiu. Sua missão não era salvar vidas, nem sua reputação, e sim o presidente, blindá-lo a qualquer custo. É preciso ter um bocado de coragem para ser tão subserviente.

Pensamento do Dia

 


Um desanda, o outro obedece

Finalmente consegui entender tudo. O Brasil não é um país, o Brasil é um reality show. É o BBB, Big Brother Brazil. Sigam-me o meu raciocínio: ninguém pode sair daqui de dentro e todo dia milhares de participantes são “eliminados”por diversos motivos que vão de Covid, fome e até chacina no Rio.

Neste momento terrível, eu gostaria de falar sobre o pancadão sofrido pelo MC Kevin, eu queria dar a minha opinião a respeito da barba do William Bonner, mas não tem jeito: sou obrigado a escrever sobre o General Pançuello, ex-sinistro da Saúde. Fiel como um cão de guarda, o general mostrou na CPI da Covid que é um grande especialista em logística sincronizada: ao mesmo tempo que não comprou as vacinas da Pfizer, deixou de enviar oxigênio para Manaus.



Bem treinado, Panzoeiro livrou a cara do seu dono, o presidente Jair Bolsovac, que prometeu lhe dar uma ração extra de Purina se desse um depoimento a seu favor na TV Senado, a MTV dos velhos. Agora o militar está louco para dar a sua patinha (qualquer uma das quatro) e rolar no chão do Alvorada. Eu não sei por que o senador Renan Canalheiros não deu voz de prisão e mandou o general pro canil.

Mas chega de metáforas caninas, mesmo porque o general Pardiello parece mais um porquinho de desenho animado da Disney. Aliás, a única coisa robusta no “depoimente” do general amestrado foi a sua figura rotunda e adiposa. O peso acima de tudo e Deus acima de todos!

A CPI (Cumichão Parlamentar de Inquérito) agora descobriu a internet e muitos participantes, ao invés de encostar os envolvidos na parede, ficam postando selfies pro Instagrana e até dancinhas pro Tik Tok. Outros, mais espertos, aproveitam para monetizar suas participações e estão fazendo merchandising de automóveis, roupas e até maquiagens, muito utilizadas para esconder as rugas e emendas parlamentares.

Por falar nisso, outro que está enrolado é o ministro de Meio Ambiente, Ricardo Malles. A PF agora quer saber porque o ministro tirou uma comprometedora foto com várias toras de madeira roçando nas suas costas (não tão quentes). Em sua defesa, o ministro cara de pau alegou estar cumprindo ordens do presidente. Como bom militar, Bolsonauro quer pintar de branco até a metade todas as árvores da Amazônia e transformar os pastos em campos de futebol que, quando não tiver pelada, podem servir de pasto para o seus ministros e parentes.
Agamenon Mendes Pedreira é ambientalista de Cristo

Cara de pau também veste farda

[Pazuello] apresentou as razões dele, aí tem aquele contraponto de sempre: ‘Ah, tá mentindo, tá isso, tá aquilo’. Isso faz parte do dia a dia da CPI. Eu acho que o Pazuello foi firme, foi seguro e não deixou nada sem resposta.
Conheço o Eduardo Pazuello já há bastante tempo. Não tenho ele como um mentiroso. Para mim, ele falou a verdade
Hamilton Mourão, general vice-presidente

Mentem, e a CPI nem aí

O general Eduardo Pazuello desferiu o mais grave ataque contra a democracia brasileira desde o início da CPI da Covid. Um ataque que não foi suficientemente apontado. E um ataque que tem por cúmplice involuntário o presidente da comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM). Não há gente suficiente percebendo a gravidade da naturalização da mentira que está ocorrendo ao longo destes depoimentos e de que a CPI é cúmplice. Não estão percebendo que é abrir mão da verdade no debate público que faz corroer a democracia.

O primeiro a mentir foi o ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten. Afirmou que nada tinha a ver com uma campanha desferida sob seu comando contra a política de isolamento social. O relator, Renan Calheiros (MDB-AL), quis prendê-lo em flagrante. Aziz não topou — e a decisão é dele. Aí o ex-chanceler Ernesto Araújo negou ter atacado a China. Há tuítes, artigos assinados, vídeos. Não importa. Fez na cara dura, escondeu-se atrás da máscara e simplesmente mentiu.

Nunca havia se mentido numa CPI de forma tão descarada, com provas do contrário a um Google de distância. E é por isso que o depoimento do ex-ministro da Saúde é muito mais grave do que o dos outros. Wajngarten e Araújo mentiram fingindo falar a verdade. Pazuello não. Ao dizer que jamais recebeu ordens para não comprar vacinas do Instituto Butantan, foi confrontado com o vídeo em que afirmou “um manda, o outro obedece” perante justamente essa ordem. Dada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro. Pazuello não titubeou: “é coisa de internet”, feita por “agente político”.



Ou seja, na lógica torta do ministro, o presidente mente para seus eleitores e fãs, e isso é normal. Pazuello não fingiu que a mentira era verdade. Pazuello chamou a mentira de mentira e falou que é assim que se faz política.

Talvez seja essa a impressão que os generais tenham de políticos. Que seu trabalho é mentir. Se for, estão errados. O trabalho dos políticos é trazer à mesa as diversas correntes de opinião presentes numa sociedade e negociar as diferenças. Sim, sempre houve mentiras. Mas, quando pegos em mentiras, políticos sofriam consequências.

Quem estuda o assunto vem usando um termo — truth decay. Decaimento da verdade. Em química, decaimento é o lento processo pelo qual o núcleo instável de um elemento perde energia por radiação. Em biologia, é o igualmente lento apodrecimento de um corpo pela ação de bactérias ou fungos. A palavra está em voga nas Ciências Humanas. Decaimento da verdade é quando lentamente uma sociedade deixa de ligar para a verdade, para o consenso a respeito de um conjunto básico de fatos.

Decaimento democrático é o que vivemos quando há decaimento da verdade.

Jair Bolsonaro mente. É sua prática corriqueira. Seus eleitores sabem disso — apenas não ligam. Para eles, é até engraçado. Mas, para que a mentira se estabelecesse a ponto de ameaçar a democracia, ela precisou antes ir lentamente se esgueirando até se legitimar. Naquela campanha dura, agressiva e canalha que foi a da eleição presidencial de 2014, Dilma Rousseff tirou Marina Silva do segundo turno com publicidade de TV que mentia. Escancaradamente. Agora, Ciro Gomes, candidato à Presidência em 2022, contratou o marqueteiro que produziu aquilo para ajudá-lo a chegar ao Planalto.

Políticos estão legitimando a mentira.

Alguém precisa fazer algum gesto. O gesto é a prisão de quem mentir sob juramento escancaradamente dentro do Congresso Nacional. Sem um gesto grande, estamos entregues ao apodrecimento da democracia, acelerado pelas redes sociais. É preciso ação. O decaimento lento da verdade está em suas fases finais.
Pedro Doria

Pior mal da Índia é a crônica falta de ética

Não há dúvida de que o governo indiano tem sido altamente incompetente no tratamento da pandemia de covid-19. Antes de desejarmos uma mudança de governo, é necessário compreender o nadir dos valores éticos que desempenhou um papel vital na maior crise humanitária da Índia independente.

Muitas pessoas foram privadas de sua saúde mental, sanidade e dinheiro nesta pandemia. Não há mais regras se você quiser salvar alguém. As pessoas estão pagando até 50 mil rúpias (R$ 3,6 mil) por uma ambulância; e o dobro disso ou mais por dia para internar seu ente querido em um hospital. Estamos pagando preços de mercado negro para comprar itens de necessidades básicas, como oxigênio medicinal e medicamentos antivirais.
Sistema ético fracassado

Como chegamos a esse estágio de desequilíbrio ético e revogação moral?

Tivemos quase 75 anos para criar uma democracia para proteger os necessitados e criar oportunidades para pessoas de diferentes castas e classes. Em vez disso, os privilegiados acumularam mais privilégios, e os pobres ficaram mais pobres.

Nas últimas sete décadas, necessidades básicas como saúde de qualidade ficaram confinadas ao setor privado, que atende principalmente aos privilegiados ou aos que têm bons relacionamentos. Quando a pandemia pressionou o setor privado, os ricos e privilegiados exerceram toda a influência possível para beneficiar seus entes queridos, deixando os necessitados à deriva.


Hoje, o homem mais rico da Índia não está disposto a desperdiçar nem mesmo 10% de sua riqueza para ajudar o mesmo país cujo sistema quebrado lhe permitiu ganhar até um quarto do PIB do país. Enquanto isso, celebridades pedem doações de cidadãos de um país onde quase 30% da população vivem abaixo da linha da pobreza.

A pandemia também revelou a grosseira falta de ética de altamente qualificados membros da administração e policiais. Por que a maioria de nossos burocratas é incapaz de administrar o país com eficiência ou responsabilizar políticos mas pode ser encontrada na linha de frente para garantir favores para si e seus filhos?

Há um ditado comum na Índia que diz que, em qualquer coisa que envolva o governo, o processo será lento e os funcionários públicos serão preguiçosos. Isso aconteceu porque construímos um sistema que reduziu os competentes à incompetência.

Um país que deseja se tornar uma economia de 5 trilhões de dólares deve primeiro inspirar confiança em seu sistema antes de estabelecer metas mais ambiciosas.

É hora de os indianos pararem de procurar modelos para escapar de sua realidade e começarem a defender uma reforma real. Temos que aceitar que nossas vidas não serão resolvidas por dinheiro, bons diplomas, imigração para o Ocidente, gurus religiosos ou por nos tornarmos servidores do governo.

Nossa vida neste país é muito maior do que perseguir objetivos superficiais, e é nossa responsabilidade trabalhar coletivamente para o desenvolvimento.

Mas desenvolvimento é um termo pluralista e requer esforço coletivo. O primeiro passo é valorizar nossa estrutura federal e trabalhar para fortalecer nossos governos estaduais.

O centro político, liderado pelo Partido do Povo Indiano (BJP), do premiê indiano, Narendra Modi, existe para facilitar a administração, mas não para se tornar o palco central do vil fanatismo religioso. A política religiosa simplesmente fará mais mal do que bem à Índia, pois vai dividir a nação. O conceito de dividir para governar foi usado pelos britânicos para dividir a Índia em duas religiões, mas não devemos voltar a essa rota se realmente queremos nos livrar de nossa ressaca colonial.

O partido no poder deve estar à frente da curva e se preparar para a próxima onda da pandemia e criar salvaguardas para os necessitados. O primeiro passo nesse processo é não fazer das vacinas, uma necessidade básica, uma reserva dos privilegiados.

É verdade que a Índia precisa ver mudanças, o mais rápido possível. Mas, antes de clamarmos por mudanças, é necessário que enfrentemos essa podridão dentro de nossa ética que vai rasgar o tecido de tudo que vier em seu caminho – até mesmo um novo governo.
Ankita Mukhopadhyay 

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Pensamento do Dia

 


Bolsonaro governa por procuração e Centrão faz a festa

Não há um único evento ou responsável solitário pelo atoleiro em que se enfiou o Brasil. Do desgoverno da pandemia à economia empacada sem criar empregos nem gerar renda alinhada ao ritmo demográfico, sem acompanhar as transformações tecnológicas e modelos de gestão e de negócios que lhe são inerentes — tudo isso vem de longe.

O presidente Jair Bolsonaro é a consequência da estagnação que já dura 40 anos, com tendência de regressão desde a grande crise global de 2008, assim como Lula fora em 2002, e poderá voltar a sê-lo em 2022, devido à incapacidade da coalizão reducionista que nos governa de reformar a governança do Estado e de pôr pilha no dinamismo empresarial.


Dois equívocos estão claros, embora pouco compreendidos. Primeiro é o desconforto do governante com a faina administrativa, razão de estar sempre desviando a atenção sobre suas responsabilidades e apontando o dedo para inimigos. Tal estilo foi usado pelas lideranças experientes dos partidos que vivem de favores e de nacos de fundos públicos, que o transformaram na rara oportunidade de governar por procuração, dirigindo o que é mais caro ao governo: a execução orçamentária.

Como partidos despreocupados com a imagem que lhes tem o eleitor e com as sequelas de suas ações, o ônus dessa parceria soa leve: deixar aprovar a pauta revisionista do bolsonarismo, como compensação aos projetos dos setores mais atrasados da economia, tipo o desmonte da legislação ambiental, a permissão para a criminosa titularização de terras públicas invadidas na Amazônia, a vandalização de reservas indígenas pelo garimpo, simultaneamente a refazer sem discussão a revisão tributária.

Bolsonaro pode ter dúvidas sobre onde quer chegar, mas o Centrão que lhe deu sobreviva sabe bem o que pretende.

Já esvaziou o direito de expressão da minoria na Câmara, ao dificultar a prática da obstrução e do tempo de fala. E investe, agora, para mudar a legislação eleitoral a fim de facilitar a reeleição dos “parças” e a oligarquia política.

O presidente da Câmara, Arthur Lira, abraçou também a “causa” do voto impresso, como quer Bolsonaro para, diz ele, impedir “fraude com as urnas eletrônicas”, que não seriam auditáveis. Mas isso é falso. O processo tem 25 anos e nunca se comprovou nada que o desabone. Se aprovado, implicará a volta do voto de cabresto e outros ardis.

Não são reformas, são retrocessos, sobretudo nas áreas ambiental e da governança pública, em claro conflito com o previsto nos acordos do clima e pelo chamado ESG, acrônimo em inglês de Environmental, Social and Governance — regras de boas práticas de gestão privada e governamental. Elas recebem a adesão crescente de grandes empresas e investidores internacionais.

Se o revisionismo for endossado pelo Congresso, o custo a ser pago pelo país será alto. A possibilidade que se apresenta é de o Senado (menos exposto ao “bolsolão” governista) conter os disparates.

Ordens e internet

É notório que Jair Bolsonaro governa para e pela internet. Com resultado que está ficando muito nítido pelos trabalhos da CPI da Covid: a existência de uma espécie de dualidade de mando com prejuízos diretos no combate às diversas crises. O pecado original foi o papel importantíssimo das redes sociais na vitória dele em 2018. São ferramentas indispensáveis para ganhar eleições, mas instrumentos precários para governar – e é pensando nelas que Bolsonaro baseia suas ações.

“Postagens na internet não são ordens”, disse seu ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, ao depor na CPI da Covid num esforço bem orientado por advogados para desmentir o óbvio. Sim, no caso do governo Bolsonaro, são ordens (mas em juridiquês não são). O próprio Pazuello postou um célebre vídeo – na internet – ao lado de Bolsonaro, dando conta de que um manda (o presidente) e o outro (o general intendente) obedece.


“Mas era coisa de internet”, desculpou-se Pazuello. O efeito é o mesmo: Bolsonaro consagrou essa dualidade de mando dentro do próprio governo. Dedicado como sempre à atividade de animador de redes digitais, suas “ordens” que não são “ordens” servem no mínimo (com muita boa vontade) para criar confusão interna. No caso da pandemia, a CPI foi razoavelmente bem-sucedida também em demonstrar a existência de uma estrutura paralela de assessoramento governamental que, no fundo, é a avaliação de quais conteúdos obtêm melhor resposta nas redes digitais que Bolsonaro pretende atingir.

Ocorre que dualidade de mando paralisa qualquer administração complexa, como é o caso do governo brasileiro. Na prática, Pazuello e seus antecessores se viram divididos entre o que eram as posturas recomendadas pelas áreas técnicas (na questão de uso de medicamentos, por exemplo) e o que o presidente pregava nas suas redes – além da exigência aos ministros de um tipo de lealdade já fartamente comparado ao “Führerprinzip”, a ideia de que o líder tudo sabe e nunca falha.

O que aconteceu no combate à pandemia já era repetição do que afetara anteriormente setores como economia ou política externa (mas não só). Na economia, por exemplo, Bolsonaro promoveu grande alarido, com enormes prejuízos para a Petrobrás, ao dizer que ia interferir na formação de preços de combustíveis. Repetiu a “fórmula” com o Banco do Brasil, deixando os agentes econômicos nos mais diversos níveis preocupados sobre qual seria, afinal, o limite da intervenção estatal. Era o que vinha dizendo o ministro da Economia ou o que o presidente falava para sua turma na internet?

Na política externa essa “dualidade de mando” criou uma situação esquizofrênica para o principal parceiro comercial brasileiro, a China. Valem os ataques que Bolsonaro reitera nas redes ao regime chinês ou as súplicas dirigidas a Pequim por parte de ministros (como a da Agricultura) e governadores (como o de São Paulo) pela manutenção de laços para garantir exportações e suprimento de insumos para vacinas?

Bons observadores que são da cena brasileira (Pequim sabe cuidar de seus interesses), talvez os chineses se orientem pelo comportamento de duas instâncias políticas hábeis até aqui em lidar com Bolsonaro. Uma é o STF, que lhe impôs limites severos e pensa sempre uma jogada política adiante do presidente e que não mais responde às provocações feitas por ele através das redes digitais.

Outra instância política é a do Centrão, que congrega notórios especialistas em sobrevivência política e defesa dos próprios interesses. Os articuladores da base de sustentação de Bolsonaro no Legislativo chegaram ao acordo tácito de deixá-lo falando sozinho. Com eles não existe mais dualidade de mando, pelo menos no que se refere à distribuição de verbas entre parlamentares: tomaram conta disso, e deixaram o que tem de batata quente para ser decidido entre os ministros do Desenvolvimento Regional e o da Economia, por exemplo.

O resto é Bolsonaro falando para a internet.

Não há chance de dar certo

Além das mentiras já comprovadas do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, que o noticiário em tempo real já explora desde ontem, e os jornais de hoje estão certamente aprofundando, os depoimentos à CPI da Covid até agora estão desvelando a maneira primitiva com que as decisões não são tomadas no governo Bolsonaro.

Juntando com a operação da Polícia Federal realizada ontem sobre a venda ilegal de madeira para os Estados Unidos, denunciada pelo próprio governo americano, temos a prova cabal de que não é apenas a questão ideológica que interfere na formação de um governo totalmente disfuncional.

O (ainda?) ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e diversos escalões do Ibama, inclusive seu presidente, foram apanhados por uma investigação sigilosa que incomodou Bolsonaro, que fez trocas no Ministério da Justiça e na Polícia Federal na tentativa de controlar as instituições do Estado brasileiro e viu-se surpreendido com a independência da PF.


Um exemplo típico, e fundamental, dessa disfuncionalidade é a crença de que as palavras de Bolsonaro nas redes sociais e nas lives fazem parte apenas do seu “etos político”, e não representam orientações do governo. Ao explicar a famosa frase “um manda, outro obedece”, Pazuello disse que era “uma frase de internet”, isto é, uma resposta para ajudar o político Bolsonaro, que estava sendo criticado por seus seguidores nas redes sociais porque o Ministério da Saúde havia anunciado a compra da CoronaVac, a “vacina chinesa” do Doria.

Seria uma releitura abrutalhada de Maquiavel, que separava a ética política da ética moral, ou então de Max Weber, uma referência para os que querem ser servidores públicos conjugando a “ética da convicção”, dos princípios morais aceitos em cada sociedade, e a “ética da responsabilidade”, que prevalece na atividade política.

Se houvesse um lado B de Bolsonaro, que para fora do governo enviasse uma mensagem, e agisse com bom senso, não teríamos tido a tragédia sanitária de que Pazuello é cúmplice. Basta assistir ao vídeo da famosa reunião ministerial que precipitou a saída do ex-ministro Sergio Moro para ver que o Bolsonaro das redes sociais é o mesmo nas entranhas do governo.

Ao mentir na CPI, tentando livrar a cara do presidente, o ex-ministro da Saúde comete um “crime continuado”, mesmo fora do governo. Os fatos o desmentem. O caso do avião oferecido pelos Estados Unidos para levar oxigênio para Manaus, na crise sanitária ocorrida dentro da pandemia no Brasil, é exemplar da incapacidade de trabalho em equipe deste governo.

O ex-chanceler Ernesto Araújo não falou com o governo da Venezuela, nem com o dos Estados Unidos, por questões ideológicas. E também não encaminhou, segundo Pazuello, um pedido formal com as características dos cilindros que seriam apanhados na Venezuela para levar a Manaus. Já havia feito isso quando recebeu a carta da Pfizer oferecendo vacinas. Não comunicou ao presidente Bolsonaro porque supôs “que o governo tinha recebido a carta”.

Pazuello soube que havia um avião dos Estados Unidos pronto para trazer oxigênio, mas não fez nada, pois não lhe perguntaram nada, só informaram. Ernesto Araújo disse que cabia ao Ministério da Saúde dar as informações técnicas para o voo. Os dois não se falaram, demonstrando que as autoridades do governo tiveram comportamentos burocráticos durante a crise humanitária em Manaus.

Pazuello reafirmou uma visão provinciana das negociações internacionais sobre as vacinas. Disse que mostrou ao representante da Pfizer o tamanho do Brasil num mapa, assim como o presidente Bolsonaro dissera anteriormente que o mercado brasileiro era tão grande que poderíamos negociar o preço das doses. Deu tudo errado, e, ao final, compramos a vacina da Pfizer pelo preço definido no início das negociações, perdendo tempo e prioridade na distribuição das doses.

É um governo completamente disfuncional. Com esses depoimentos e declarações, não há a menor chance de dar certo.

Pazuello é um Pinóquio que mente sem corar

Eduardo Pazzuelo é um cínico que, aparentemente, foi treinado por um desses “gerenciadores de crises” que, como abutres, planam em torno do poder. Essa gente ensina, basicamente, os clientes a dizer lorotas sem corar.

O ex-ministro mente descaradamente no seu depoimento. Na parte inicial, quando foi inquirido apenas pelo relator Renan Calheiros, ele mentiu três vezes quando afirmou que a) tinha autonomia no Ministério da Saúde, nunca recebeu ordens diretas do presidente; b) o Exército não distribuiu cloroquina, remédio contra a malária, especificamente para o tratamento de Covid; c) o aplicativo TrateCov, desenvolvido para estimular o “tratamento precoce” da doença, nunca foi oficialmente ao ar.

O ex-ministro Pazuello não tinha autonomia coisa nenhuma, como ficou evidente por aquele vídeo no qual, internado no hospital para tratar de Covid, afirmou ao lado de Jair Bolsonaro que ele obedecia ao presidente, para alegria manifesta do sociopata, que já havia defenestrado Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Não foi força de expressão: Pazuello mostrou alinhamento automático com o negacionismo assassino do presidente da República. Se teve autonomia, foi para seguir o chefe sem qualquer hesitação ou dor na consciência.

Jair Bolsonaro mandou o Exército ampliar a fabricação de cloroquina para o “tratamento precoce” da doença em março de 2020, ainda sob a gestão de Luiz Henrique Mandetta. A distribuição do medicamento para ser usado contra a Covid foi mantida mesmo depois de comprovada a ineficácia da cloroquina no combate à doença, já com Eduardo Pazuello à frente do Ministério da Saúde.

A historieta de que o aplicativo TrateCov nunca foi oficialmente ao ar é coisa de Pinóquio sem vergonha. A TV Brasil finalmente teve alguma serventia, ao deixar registrada uma reportagem sobre o lançamento do aplicativo feito “para agilizar o atendimento de pacientes com sintoma de Covid e para garantir o tratamento precoce”.


Sobre o colapso da saúde em Manaus e outras cidades do estado do Amazonas que sofriam com fala de oxigênio, em janeiro, Eduardo Pazuello afirmou que foi avisado tardiamente sobre a situação. Ainda que tenha sido assim, e há sérias dúvidas a respeito, um ministro da Saúde digno desse nome, integrante de um governo digno desse nome, teria trabalhado em coordenação com os secretários de Saúde dos estados, antecipando-se a problemas, diante da pior emergência sanitária dos últimos cem anos.

Quanto às ofertas da Pfizer para a compra da vacina produzida pela farmacêutica, Eduardo Pazuello disse que respondeu às seguidas propostas, mas que as cláusulas eram “assustadoras”. Que se faça uma acareação com o dirigente da Pfizer que prestou depoimento à CPI da Covid, mas o meu palpite é que assustador será ver o nariz de Pazuello crescer ainda mais. O ex-ministro também afirmou que nunca recebeu ordem do presidente para desfazer acordos com o Instituto Butantan sobre o fornecimento da Coronavac. Foi desmentido elegantemente por Dimas Covas, diretor do instituto, que tem o calendário como prova — e, convenhamos, basta pesquisar o noticiário do ano passado sobre o desdém de Jair Bolsonaro pela “vachina do Doria”, para verificar que o ex-ministro está mentindo sem corar, como ensinam os “gerenciadores de crises”.

O senhor Eduardo Pazuello, que tenta a todo custo blindar o presidente, só não sairá preso do seu depoimento porque o ministro do STF Ricardo Lewandowski lhe concedeu um habeas corpus.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

País de Pilatos de todo tipo

O país não suporta mais ser enxovalhado e rotulado de vilão ambiental por conta de erros cometidos no passado na ocupação da Amazônia, habilmente orquestrados por grupos políticos e econômicos a quem convém manter o Brasil acossado, na defensiva, tentando justificar suas ações na região, como se fôssemos maus inquilinos da propriedade alheia
Hamilton Mourão, general vice-presidente

Sair do Brasil

Penso que todo mundo sempre quis sair mais do seu país do que de sua sociedade. Vamos para Paris ou New York, mas sentimos falta da comida e das fofocas, esses símbolos de nossos costumes. Morar é bom, mas viver é uma m...! - como confirmava Tom Jobim.

Muitos deram adeus às suas pátrias por motivos trágicos, e os Estados Unidos são prova de uma coletividade cuja população é feita de milhões de netos e filhos de imigrantes - de nativos que por livre vontade ou por motivos dramáticos foram obrigados a deixar sua terra natal.

No Brasil, este desejo é um paradoxal desabafo, geralmente feito em família ou entre amigos. Ele se amplia e se reduz de acordo com épocas históricas e governos. Nas ditaduras (tanto a de Vargas quanto a militar), muitos deixaram o País por perseguição política.

Ser obrigado a sair da terra onde se nasceu é “perder o chão”. Equivale a morrer ou ser encarcerado. Não se trata apenas de uma cruel punição política. É um assassinato espiritual decretado com o paradoxo de o morto continuar vivo. Veda-se o direito de participação, mas, de fato, esta interdição bloqueia a vida do condenado, impedindo-o de usufruir das muitas dimensões cruciais de todas as vidas. Como um paradoxo, porém, o banido pode retornar com mais potência, como foi o caso modelar do Conde de Monte Cristo e de outros degredados políticos. Antigamente, era a excomunhão que transformava alguém em um leproso social; hoje, Deus foi substituído pela política como credo. Neste sentido, vale lembrar que o exílio, tanto em Roma quanto na Grécia dos velhos tempos, era mais fatal do que a morte.


Neste Brasil polarizado, surge um “cancelamento” - um exílio interno sentenciado por “democratas”. Uma exclusão repleta de desfaçatez na qual um grupo ou uma pessoa são postos no “gelo” (quem sabe siberiano...), em uma vã tentativa de congelar suas opiniões, razões e realizações. A lista, que, como toda lista, tem sempre dois lados, está em vigência. Nela, o inimigo só se descobre como inimigo quando se vê caluniado ou não reconhecido.

Não se pode confundir, sem preconceito, o direito a opinar com crime. Só os nazi-fascistas fazem isso, mas o problema é que, no Brasil, há um nazi-fascismo inconsciente. A perversão nazi-fascista-stalinista acontece justamente quando se criminalizam opiniões e a totalidade (o partido, o grupo ou o coletivo) divide o tecido público ao meio. É como mutilar um corpo seccionando o seu lado direito do seu lado esquerdo.

E o gravíssimo e o absurdo, neste momento, é que quem mais promove tal sectarismo é o presidente da República. O vírus mortal polariza biologicamente e um virulento Jair Bolsonaro polariza moral e ideologicamente.

Sempre ouvi o “quero ir embora do Brasil” mais como um desabado ou uma fantasia. Mas, nestes tempos de “danação”, tenho testemunhado brasileiros deixando efetivamente o Brasil, e muitos adotando e comprando uma dupla cidadania.

A pandemia tem chamado atenção para a premente necessidade de uma corrente mundial de igualdade, solidariedade e abertura - será que nos esquecemos deste conceito generoso e fundamental? Tal corrente torna o mundo mais justo e humano. Mas o que se constata no Brasil é um reacionário fechamento.

Há até quem seja contrário à construção de pontes ou de se criar uma rosiana terceira margem do rio. Um ponto capaz de nos desembaraçar das exigências e dos extremos de modo a vê-los em sua natureza sectária que detesta escolhas. Ora, o escolher é, em condições normais, o avatar do discernimento, da prudência e do democrático.

Não para impedir posicionamentos, mas para evitar o pior que o presidente da República exprime em um absurdo e enlouquecido “Só Deus me tira daqui”. Se as facções invocam igualmente o aval de Deus, o resultado só pode ser o conflito e a destruição das margens e do próprio rio. Um louco não pode justificar a nossa eventual maluquice, ofuscando a nossa lucidez.

O centro, dizem, é o “conhece-te a ti mesmo”. É a vacina contra os arroubos, as hipocrisias, as tentações proféticas e o tirar vantagem das polarizações. A luta é indispensável, mas não se pode deixar de combinar as armas.

Sempre ouvi os surtos de onipotência do clássico “sair do Brasil”. Hoje, um presidente irracional, cercado de filhos radicais de direita e por uma maioria de políticos trêfegos, legalistas, populistas, ressentidos e hipócritas, fez com que a fantasia de “ir embora deste país de m...” virasse mantra. Graças, reitero, a um governo errático e a uma lamentável tradição de governar com malandragem, autoritarismo e roubalheira, esse desmedido brigar com o Brasil como se ele fosse uma pessoa física ganhou legitimidade.

Se acusar negativamente o Brasil era parte da própria cultura “culta” brasileira como testemunho de um “pensamento crítico” sobre um país periférico, colonizado, mestiçado, doente e, ao mesmo tempo, governado por uma elite familística “branca” e educada, criticar e negar o Brasil iam juntos. E o pior é que o governo Bolsonaro, com sua hoje comprovada aliança, confirma essa visada antipatriótica.

Governo entra em processo de autofagia na CPI

O processo de decomposição do governo Bolsonaro na CPI da Covid evoluiu para o estágio da autofagia. Nele, os membros da seita do negacionismo comem suas próprias entranhas. Mastigado pelo ex-chanceler Ernesto Araújo num depoimento de quase seis horas, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello vai ao banco da CPI nesta quarta-feira sangrando. Não lhe restaram muitas opções. Ou morde Bolsonaro ou crava os dentes na própria carne.

Na prática, Araújo confessou sua inépcia. Sob seu comando, o Itamaraty comportou-se como se não houvesse pandemia. Culpou a pasta de Pazuello pela imprevidência de comprar a cota mínima de vacinas ofertadas pelo consórcio Covax Facility, da OMS. Jurou que partiu da Saúde também a ordem para a aquisição de cloroquina na Índia. Nesse ponto, quando apertado, Araújo reconheceu a participação de Bolsonaro, que falou por telefone com o primeiro-ministro indiano.

"Não houve plano único, uma política" para o gerenciamento da crise sanitária, declarou o ex-chanceler, sem se dar conta de que mordia a língua de Bolsonaro. Como "o Itamaraty não age de maneira autônoma", submeteu-se às demandas do ministério de Pazuello, comandado na base do "um manda e o outro obedece."


Na negociação sobre a vacina de Oxford-AstraZeneca, o Itamaraty apenas deu "apoio secundário, logístico, operacional." No colapso hospitalar de Manaus, enquanto o time de Pazuello receitava cloroquina a quem precisava respirar, a diplomacia brasileira fingiu não ver a doação de cilindros de oxigênio feita pela Venezuela. Araújo não pediu nem agradeceu o socorro. Estava envenenado pela "ideologia", acusou o presidente da CPI, Omar Aziz, eleito pelo Amazonas.

Enquanto triturava Pazuello, submetendo-o a uma forma de canibalismo típica dos caetés, que comeram o bispo Sardinha, Araújo atingiu uma espécie de cume do cinismo. Declarou várias vezes que nunca fez declarações ofensivas à China, que fornece o insumo usado pelo Butantan e pela Fiocruz na fabricação de vacinas.

Pior do que a presunção de Araújo de que ninguém se lembraria da sua insanidade retórica é a conclusão e que não havia razão para preocupação. Mesmo sabendo que todos conhecem seus ataques ao maior parceiro comercial do Brasil, o ex-chanceler acha que pode dizer o que bem entender no vácuo sanitário a que chegou o Brasil. Tudo, afinal, pode ser dito e feito quando ninguém se incomoda de ser chamado de "mentiroso" na frente das crianças.

"Eu imagino que o senhor tenha uma memória seletiva, para não dizer uma memória leviana", bateu a senadora Kátia Abreu. "O senhor não se lembra de nada do que importa e do que ocorreu efetivamente; e se lembra de questões mínimas, supérfluas e até mesmo não verdadeiras, como o senhor vem fazendo aqui todo esse momento. A impressão que se tem é que existe um Ernesto que fala conosco, de que nós ouvimos a voz, e um outro Ernesto que eu não sei onde fica, nas redes, na internet, nos artigos, nos blogs, falando coisas totalmente diferentes."

Kátia prosseguiu: "O senhor é um negacionista compulsivo, omisso. O senhor no MRE [Ministério das Relações Exteriores] foi uma bússola que nos direcionou para o caos, para um iceberg, bússola que nos levou para o naufrágio da política internacional, da política externa brasileira. Foi isso o que o senhor fez."

Depois que Ernesto Araújo executou na CPI o segundo ato da ópera da autofagia — o primeiro havia sido encenado na semana passada, com o depoimento do ex-secretário de Comunicação Fábio Wajngarten —, os senadores da CPI aguardam o depoimento de Pazuello mais ou menos como quem espera pela entrada no palco de uma soprano opulenta escalada para cantar no penúltimo ato.

É como se os inquiridores aguardassem um sinal claro de que a confusão final poderia estar próxima. Um fato que resumisse tudo o que a plateia deseja expressar quando diz: "Não é possível!" Muitos imaginam que o melhor sinal seria a imagem de Pazuello comendo o fígado de Bolsonaro: "Ele mandou, eu apenas obedeci." O mais provável, entretanto é que o ex-ministro, em estágio hemorrágico, saia da CPI acorrentado a um novo lema: "Um manda e o outro se lasca."

‘Um manda, outro obedece, leva Bolsonaro à CPI

Se adotar a estratégia do silêncio ou das meias-palavras na CPI da Covid, o general Eduardo Pazuello passará a bola, inevitavelmente, para o presidente Jair Bolsonaro. O gesto do ex-ministro da Saúde de não colaborar com a comissão e não falar pode ser interpretado, sob certo ângulo, também como postura de alguém que rejeita defender o presidente. Nesse caso, o oficial da ativa se comportará em benefício de sua própria sobrevivência e não em prol de um governo.

É uma mensagem que o próprio general e toda a equipe de estrategistas do Planalto não conseguem controlar. Toda vez que deixar uma pergunta sem resposta e selecionar o que pretende rebater, Pazuello demonstrará que não tem nada a falar, pois, como deixou claro, algumas vezes apenas cumpriu ordens. Logo, quem tem de prestar contas aos senadores e ao País é seu ex-chefe no governo e atual chefe militar, o presidente da República.


O governo atuou oficialmente para garantir o silêncio de Pazuello. A pedido da Advocacia-Geral da União, o Supremo concedeu habeas corpus para o general não responder a perguntas que possam levantar provas contra ele. Em suma, Pazuello não sairá preso do Senado.

Se optar mesmo por não falar, o general forçará a lembrança de uma frase decisiva que disse em outubro. Numa “live” ao lado de Bolsonaro, ele foi direto ao ponto: “É simples assim: um manda e o outro obedece”. Era uma reação à atitude do presidente de desautorizá-lo ao mandar cancelar a compra de doses da Coronavac. A frase, que entrou para o anedotário, é o que pode agora salvar o general. Ele tem um álibi: o presidente.

A estratégia do silêncio pode trazer consequências históricas também para a caserna. Por ser um general da ativa, Pazuello pregará nas Forças Armadas a imagem de uma instituição que não tinha resposta, no calor da hora, à denúncia grave de ter colaborado para uma política desastrosa de governo no combate à doença. Até a noite de ontem, o vírus tinha matado 439.379 brasileiros.

O vírus mais contagiante

Seria bom escrever que o vírus mais contagiante é o da esperança. Ou o da solidariedade universal. Talvez até seja verdade – haja vista a melhora no ânimo das esquerdas desde o momento em que Lula despontou como candidato apto a derrotar Bolsonaro em todas as pesquisas.

Só que não. Mais contagiante que a esperança, que a alegria, que o desejo ou o amor, é o vírus da violência – com sua gama de cepas variantes a provocar vários tipos de sofrimento físico e mental: medo, angústia, desespero, traumas. E mortes, mortes, mortes. A intensidade dos sintomas depende do CEP do infectado: favelas, periferias e prisões revelam altos índices de contaminação, somados a baixos índices de imunidade. A polícia brasileira, militarizada desde o período da Ditadura de 1964-85 e nunca mais desmilitarizada age como se estivesse em uma guerra.[1] Fique tranquilo, leitor de classe média, o inimigo não é você. Nem eu. É a população pobre.

Desde que senti urgência em escrever sobre o aumento exponencial da brutalidade num Brasil que nunca foi exemplo de respeito aos Direitos Humanos, venho procrastinando. O tema, angustiante para todos nós, vinha bloqueando meu texto. Pensei pela primeira vez nesse artigo dia 8 de março, quando li a notícia do assassinato do menino Henry Borel. O menino de quatro anos sofria frequentes surras do padrasto, o vereador carioca Doutor Jairinho. A mãe não reagia porque também era espancada pelo companheiro – mas tampouco tentou fugir de casa com o filho. A funcionária da casa relatou à polícia que, no dia do crime, tinha visto Henry “apavorado”. Se a mãe não fez nada imaginem o medo, mas também e a coragem da babá que delatou – ainda que não tenha conseguido impedir – o assassinato da criança.

A perspectiva de escrever sobre o martírio da criança me paralisou durante dois meses.

Pouco mais de um mês após o assassinato de Henry, no dia 16 de abril, Kaio Guilherme da Silva Baraúna, também de oito anos, foi atingido na cabeça por “bala perdida”, durante uma festa em Vila Aliança. Kaio morreu no dia seguinte.

Nenhuma bala é perdida. Em primeiro lugar, elas não se “perdem” nos Jardins (SP). Nem em Ipanema. Costumam se desencaminhar do suposto alvo “correto” quando são disparadas pelos cantos mais vulneráveis e abandonados das grandes cidades. Além da bala, quem costuma “se perder” frequentemente das vistas da justiça e das testemunhas é o responsável pelo tiro. Sobretudo quando veste a farda que o designa como responsável por preservar a segurança da população.

O adolescente João Pedro, de 14 anos, também foi morto a tiros pela polícia do Rio durante uma festa em sua escola. Me parece que ninguém mais pergunta se a PM tinha mandato para entrar atirando na Vila Aliança. Provavelmente não – e daí? Mandato é burocracia requerida apenas para agir nos bairros da Zona Sul.

Oito dias depois do assassinato de Kaio, no dia 24 de abril, mãe e madrasta de Ketelen Vitória espancaram e torturaram com chicote e pedaços de fio elétrico a criança de seis anos. Ketelen agonizou, sem socorro, até o amanhecer. Seu corpo foi jogado num matagal, de uma altura de sete metros.

Aos quatro anos de idade, a menina Maria Clara foi assassinada pela mãe e pelo padrasto que mentiram, no hospital, que a causa da morte teria sido um engasgo com miolo de pão. Maria Clara teve traumatismo craniano e apresentava hematomas pelo corpo todo. Parece que o padrasto não participou do crime – mas preferiu não interferir.

No dia 4 e maio um rapaz de dezoito anos, Fabiano Kepper Mai, invadiu portando um facão uma escola infantil em Santa Catarina e matou uma professora, um agente educacional e três crianças com menos de dois anos. É possível que Fabiano seja doente mental: mas o eventual laudo de esquizofrenia, ou de paranoia, não basta para entendermos por que seu sofrimento psíquico produziu justamente este sintoma: assassinar gente.


Um psicótico é, com frequência, extremamente sensível ao ambiente social em que vive. Bem, isso pode se aplicar a qualquer um de nós. A questão é que o psicótico interpreta à sua maneira os mandatos que circulam na sociedade: estes que nos afetam, nos angustiam e amedrontam, mas que também nos enchem de raiva e indignação. Nem todos os psicóticos – é vital que se diga – respondem com fúria quando são afetados por incitações à violência. Alguns reagem a isso com atos de extrema gentileza. Outros se investem da convicção de que sua missão na terra seja a agir como anjos da paz: espalhar o bem, proteger os indefesos, salvar crianças maltratadas. Há também os que vivem assustados e sofrem com fantasias paranoicas. “Paranoico é quem se sabe perseguido”, diz o verso de Aldir Blanc em parceria musical com João Bosco. São minoria os que reagem ao ambiente violento com mais violência.

Então tivemos Jacarezinho. A orgia da PM. A operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro.[2] O Rio, onde muitas comunidades começaram e cresceram em morros situados na chamada “Zona Sul”, tem um longo histórico de violência policial contra os pobres. Jacarezinho é na Zona Norte: o pretexto da invasão não foi o de proteger a burguesia carioca da suposta bandidagem. A polícia chegou atirando, tanto faz em quem. Preto pobre é tudo igual. Matou vinte e sete moradores (um agente policial foi morto).

Os depoimentos dos sobreviventes, parentes e amigos das vítimas, estão nos jornais. A cor da pele é a mesma dos moços torturados e executados pela PM de Salvador, acusados de roubar carne em um supermercado. Acusados de passar fome. Acusados de passar fome desesperada. Acusados de desamparo. Acusados de ser vítimas de descaso do Estado. Acusados de serem, no dizer do compositor Itamar Assumpção, “iscas de polícia”.

Nada disso é novo no Brasil. A novidade, desde a redemocratização, é que as execuções policiais nesse momento de nossa história têm o DNA do presidente. O mesmo que homenageou, em uma sessão da Comissão da Verdade na câmara dos Deputados, o pior torturador da Ditadura Militar: Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. O mesmo que, em campanha, imitava armas com o polegar e o indicador, como uma criança que brinca de cowboy; e para mostrar que não estava brincando, depois de eleito costuma posar para fotos ostentando fuzis. O mesmo que ameaça de estupro uma deputada da oposição para depois afirmar que só não fará isso porque ela é “feia”.

O mesmo que celebra a devastação da Amazônia e do Pantanal incentivada por seu desprezo pelas populações originárias, pelas reservas ambientais, pelas as águas dos rios que haverão de secar, pelas mudanças climáticas (coisa de “comunista”), e pelo país que supostamente governa. O mesmo que rompe, sem sofrer as consequências diante de uma Câmara dos Deputados venal, todos os limites do decoro imposto por sua posição ao mandar a oposição “tomar no cu” no caso do escândalo das latas de leite condensado. Pelo visto até aqui, com raras exceções, a oposição obedeceu. Não se falou mais no assunto.

Só que muito antes da eleição de 2018 o Brasil já era violento: contra os negros, contra os índios, contra os pobres. O que mudou nos últimos três anos é que todas as manifestações de maldade se banalizaram. Uso propositalmente o conceito de “banalidade”, mas atribuo a ele um sentido um pouco diferente daquele criado pela filósofa Hannah Arendt, diante do julgamento do carrasco Eichmann em Jerusalém. Arendt empregou a expressão “banalidade do mal” para se referir à ausência de implicação subjetiva daquele que mandou milhares de pessoas morrer nas câmaras de gás sob a alegação de ter cumprido ordens.

No caso brasileiro, o mandatário responsável pela explosão de violência que o país atravessa não “cumpre ordens” de ninguém, assim como não respeita ninguém além dos filhos e de um grupo cada vez menor de bajuladores. O mal se banaliza na fala de Bolsonaro a cada vez que ele diz – “e daí?” para os efeitos da violência que ele próprio promove. A cada vez que diz “não sou coveiro”! em vez de lamentar a mortandade que, por culpa de seu desleixo em relação as vacinas, hoje coloca o Brasil no topo dos países mais afetados pela Covid 19.

São frágeis os recursos subjetivos que nos separam dos piores psicopatas. O inconsciente, essa espécie de depositário de nossas memórias esquecidas, de nossas fantasias infantis, de nossos desejos inconfessáveis, é a mesma instância psíquica que abriga vestígios da violência que o laço social nos força, desde a infância, a conter. Quem já presenciou uma birra infantil incontida foi capaz de perceber quanta fúria existe na criança que esperneia, que se joga no chão, que as vezes diz “eu te odeio!” ao adulto que frustrou um desejo seu. A sorte dos pais e educadores é que a criança não tem força de fazer contra nós o que sua raiva e sua frustração incitam. Crescer é, por um lado, conquistar permissão e capacidade para fazer o que até então os pais consideravam arriscado ou além de suas capacidades. Por outro lado, desenvolver recursos para barrar as manifestações de seu ódio e substituir a birra pela argumentação.

O atual presidente, quando contrariado, reage como uma criança. Seria uma gracinha – se não se tratasse de um marmanjo com passagem pelo Exército (de onde foi expulso por insubordinação) e pela Câmara dos Deputados até chegar, with a litlle help from some fake news jamais apuradas, ao posto de líder da nação. Sua maldade, explicitada em palavras e incontáveis ações, tem arruinado não apenas a economia e os rumos da democracia: tem contribuído para a deterioração desse mínimo de civilidade que a sociedade brasileira luta todos os dias para defender.

Não se quebram certos tabus impunemente. A incitação a violência por parte do principal mandatário da nação tem força para inutilizar nosso esforço cotidiano em direção à consolidação de um laço social baseado no respeito, na compreensão das diferenças e na solidariedade. A sociedade, perplexa e ferida – sim, a propagação da maldade nos fere quase tanto quanto a violência sofrida na própria pele – ainda não sabe reagir a isso.

Desencantados, atemorizados, os brasileiros têm se tornado cada vez mais propensos a crises de violência. Às vezes, uma explosão de fúria pode ser apenas a expressão mais extrema da angústia. Mas quando essa fúria se manifesta em atos de pessoas armadas que buscam um bode expiatório para algo que as frustra ou oprime, a criminalidade explode, como tem explodido nos últimos dois anos e meio.

Isso não explica por que, em tantos casos, sejam as crianças – inclusive os próprios filhos de alguns assassinos de ocasião – as vítimas da violência doméstica. O que essas pequenas vítimas representam – isto é, representavam – a ponto de se tornarem intoleráveis para seus pais, mães, padrastos de madrastas?

Representavam a ternura, a candura, a inocência. Mesmo chatinhas, como muitas vezes as crianças são, mesmo teimosas ou birrentas, as crianças ainda manifestam uma capacidade de amar e perdoar seus pais – seus piores pais – com uma grandeza que poucos preservam na vida adulta. As crianças perturbam nossos esforços para nos adaptar sem muita dor ao novo estado deteriorado em que vivemos. Não se trata, nos casos de violência contra elas, de tentativas de matar o mensageiro que nos traz más notícias. As crianças só nos trazem boas notícias. Trata-se, sim, do desejo de eliminar estes pequenos seres que nos fazem lembrar que já fomos melhores. Esses pequenos seres que continuam nos amando ainda, apesar de nossa deterioração.

Devo dizer aqui: este foi o artigo mais penoso que já me escrevi. Peço perdão aos leitores se algumas passagens lhes parecerem bruscas, incompletas ou atropeladas.
[1] A desmilitarização das polícias foi uma das recomendações feitas no relatório final da Comissão da Verdade (2012-2014), criada por empenho da presidenta Dilma Roussef para investigar os crimes cometidos por agentes do Estado contra cidadãos brasileiros.

[2] Esta observação limita-se ao Rio: em São Paulo, sempre à frente do país inteiro, tivemos os cento e onze do Carandiru.

terça-feira, 18 de maio de 2021

A tribo dos idiotas

Fica em casa, usa máscaras, vai à rua apenas para o essencial, lava muiiito as mãos, não economiza álcool em gel, foge de aglomerações como o diabo da cruz. Já soma mais de ano sem abraços. Teme o vírus, respeita a vida – a sua, a dos outros.

São os “idiotas”, segundo o inominável presidente da república. Assim mesmo com letra minúscula. Em dois anos de mandato, o indigitado reduz e desqualifica a Presidência e a República.

Como se o ouvido da república fosse penico, o desqualificador bravateia besteiras diárias. Sempre deselegantes, chulas, rastaqueras.

Ganhou permissão para os abusos quando, em abril de 2016, ao votar pelo impeachment da presidente Dilma, no plenário da Câmara, homenageou um torturador. Não saiu preso. Nem foi oficialmente repreendido.
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O Brasil admitia o sem limite da autoridade constituída, eleita.

Cinco anos depois, aqui estamos a assistir o prazer no desrespeito diário ao cargo, à população que ainda guarda algum sentido de amabilidade e cortesia.

Sorridente, o abusador chefe exibe gosto em avacalhar o bom senso e atiçar os que ainda distinguem espontaneidade de falta compostura, desfaçatez.


Triste assistir suas costumeiras afrontas reproduzidas em milhares de páginas diárias das grandes e pequenas mídias, das sérias, das fakezeiras – essa praga que batizou de mito o nada*.

E ele sabe que desfruta da visibilidade que jamais sonhou, nem merece, porque é uma coisa**. Disso não passará. Na História ficará mesmo como o coiso, um sujeito sem educação, nem postura, que um dia sentou na cadeira de presidente e coisificou o país.

Pois então. Quando precisamos de competência e sobriedade de um estadista, temos esse que se define como imorrível, imbroxável, incomível.

Tocados como “idiotas”, chegamos à liderança mundial de mortos na pandemia – 435 mil ou 0,22% da população, que o imorrível deve considerar uma merreca de morríveis, broxáveis e comíveis. Os que, na tribo dos idiotas, tiveram o “CPF cancelado”.

Difícil não ser monotemático.

Dicionário:

*Nada – substantivo masculino – significando: coisa nula, sem valor; o que não existe; o vazio. Categoria filosófica que representa o não-ser, a ausência de existência.

**Coisa – substantivo feminino, significando: objeto ou ser inanimado.