sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Dilma aproveita-se da epidemia para voltar ao blablablá

No final do ano, como é de praxe, o presidente da república normalmente se dirige à nação para fazer um balanço do ano que se encerra. Em 2015, com medo da reação dos brasileiros que tem reagido com panelaço, a Dilma não se apresentou em cadeia de TV.

Com uma aprovação de apenas 5%, o pior da história do país, a presidente preferiu prestar contas pela rede social. Nesta quarta-feira, no entanto, ela usou a televisão para falar do mosquito aedes aegypti e do zika vírus que promete bravamente exterminá-los para frear a epidemia que se alastra pelo país.

O pronunciamento da Dilma é oportunista e demagogo. Ela tenta fazer o papel de paladina da nação aproveitando-se de uma situação de calamidade pública que o seu governo, por incompetência, não consegue evitar. O mosquito da dengue e o zika vírus se espalham pelo país sob os olhares indiferentes do seu governo. É bem verdade que a população também tem sua parcela de culpa quando relaxa no combate a proliferação. Mas o fato é que até agora o governo mostrou-se incapaz de uma política séria de combate ao mosquito.

O Ministério da Saúde, a quem estaria afeto o problema, foi sempre usado como um órgão de barganha pelos partidos de olho nos recursos que dispõe. O critério de escolha do ministro é feito por políticos medíocres que se alternam no comando da Pasta como aves de rapina de olho no cofre. Nos últimos anos, os escândalos se sucederam dentro do ministério. O maior deles, denominado de Operação Vampiro, tinha entre os seus personagens o então ministro, Humberto Costa, senador, um dos políticos mais influentes do PT.

O depoimento da Dilma sobre o mosquito é mais uma retórica alienígena do seu governo despreparado e ineficaz. Com exceção de alguns anúncios mal ajambrados na mídia, não se conhece uma ação concreta do governo para combater o mosquito antes que o zika vírus virasse epidemia. Para eximir-se da reponsabilidade pela tragédia, a Dilma disse não saber a origem do mosquito. Ou seja, ele não é brasileiro, portanto, estamos combatendo invasores estrangeiros. Talvez, por isso, ela tenha apelado para o Barak Obama, presidente do EUA, antigo desafeto, para enfrentar a batalha.

Ora, os brasileiros assistem todos os dias pela televisão milhares de pessoas em busca de atendimento nos hospitais. Muitos morrem sem assistência e outros nem conseguem marcar consultas. Não se sabe, por exemplo, até hoje a contribuição dos médicos cubanos à saúde do Brasil vendidos, durante a campanha eleitoral, como os salvadores da pátria.

Dilma, na televisão, quer tirar proveito da tragédia, fazer uma média com os brasileiros. Aparece como o general da guerra contra o mosquito. Quer esmagá-lo com a retórica de que “ele não nos vencerá, somos mais forte”, como enfatizou no pronunciamento. Uma bobagem para vender a imagem de uma mulher valente, guerreira, obstinada, preocupada com o bem estar da população.

A epidemia no Brasil não se restringe apenas ao mosquito da dengue. Ela também chegou aos órgãos público na forma de corrupção. O país vive um dos seus piores momentos. Perdeu a credibilidade internacional e precisa recuperar a sua economia em frangalhos, destroçada por um governo tonto e desmiolado tão nocivo ao povo brasileiro como o próprio mosquito da dengue e o zika vírus.

Não é aparecendo na televisão, depois de ser vaiada na abertura dos trabalhos do Congresso Nacional, conclamando o povo para o mutirão contra a dengue e o zika vírus, que a presidente vai se isentar da responsabilidade pelo fracasso na prevenção do combate ao aedes aegypti

A Dilma precisa descer do palanque eletrônico que lhe permite aparecer sob efeitos especiais. Os brasileiros querem menos blablabá e mais ação.

Governo transforma, mas não produz

De vez em quando, afirmo que governo não produz riqueza e não dá nada à sociedade que antes dela não tenha tirado. Leitores indignados escrevem dizendo que isso é um absurdo, pois o governo produz estradas, pontes, assistência à saúde e outros serviços públicos. Imagino que sejam leitores sem instrução formal em teoria econômica, que é a explicação de como o sistema funciona. O problema começa por não compreenderem o significado da palavra “produzir” em economia.

Imagine uma vila de pescadores com mil habitantes. Todos pescam e produzem três mil quilos de peixe diariamente. Eles se alimentam dos peixes e dormem embaixo das árvores. A riqueza criada – os três mil quilos de peixe, que antes de serem pescados eram apenas “recursos naturais” – torna-se bem de consumo somente após o “trabalho” dos pescadores (que são, ao mesmo tempo, produtores e consumidores).
Pois é só isso que o governo faz: retira parte da riqueza produzida pela sociedade e a transforma em outra coisa
Certo dia, eles resolvem construir um conjunto habitacional comunitário, para o que decidem entregar metade dos peixes (1,5 mil quilos diários) a uma construtora da vila vizinha, contratada para fazer a obra. Um pescador chato, que entende de economia, diz: “mas os senhores estão dispostos a reduzir o consumo diário de peixes em 50% para entregar a metade da produção em troca das casas?” Primeira lição: como a produção total de uma nação é limitada, quanto mais investimento (casas), menos consumo (peixes), e vice-versa. Apesar disso, eles decidem ir em frente, pois é a única forma de terem o conjunto habitacional.

Para administrar e fiscalizar toda a operação de recolher os peixes e entregá-los à construtora, os moradores elegem, entre os pescadores, um líder e nove auxiliares. O pescador-economista, chato como sempre, pede a palavra de novo. “Vocês se deram conta de que os dez pescadores eleitos deixarão de pescar, pois terão de trabalhar no ‘serviço público’ de gestão da obra? E que os outros 990 terão de alimentar os 10 eleitos?”

Terminada a obra, todos estão magros, pois tiveram de cortar seu consumo à metade e dar mais 30 quilos diários de peixe para alimentar o líder e os nove auxiliares. Terminada a obra, o líder faz um belo discurso para mostrar o quanto ele e sua equipe produziram. Na prática, o líder e os ajudantes não criaram riqueza alguma, não produziram nada. Eles tomaram metade dos peixes produzidos pela comunidade (impostos) e “transformaram” em casas. Também tomaram mais 30 quilos/dia de peixes para alimentar a si mesmos, os “servidores do povo”.

Pois é só isso que o governo faz: retira parte da riqueza produzida pela sociedade e a transforma em outra coisa. O governo sempre será uma fração do que a sociedade (pessoas e empresas) produz, nunca mais que isso. Uma empresa estatal, como a Petrobras, é classificada na entidade “empresas” e não na entidade “governo”. O governo somente pegou o dinheiro do povo e construiu a empresa, a qual passa a produzir e vender seu produto. Logo, ela vive de vendas e não de impostos.

Mas, quanto aos serviços públicos, o governo os oferece com os recursos obtidos da sociedade via impostos, que são uma fração da produção nacional (renda e produto são as duas faces da mesma moeda). Como os serviços públicos são executados por pessoas e as obras públicas são produzidas por empresas, o governo somente tem a função de transformar uma riqueza (peixes) em outra coisa (casas).

José Pio Martins

Nazismo e liberdade de expressão

Os limites da liberdade de expressão são um tema ainda candente em um país que só se libertou da censura há menos de três décadas, e um desdobramento específico deste debate diz respeito a manifestações de cunho racista. O tema voltou à tona depois que Minha luta, de Adolf Hitler, caiu em domínio público, podendo ser publicado por qualquer editora. Para uma análise clara, em primeiro lugar é preciso examinar como o ordenamento jurídico brasileiro trata de crimes relacionados ao preconceito racial.

Edição crítica lançada recentemente
na Alemanha em dois volumes
Três meses após a promulgação da Constituição Federal, passou a vigorar no país a Lei 7.716/1989, que pune as condutas decorrentes de preconceito racial ou de cor. A lei disciplinou melhor o crime de praticar, induzir ou incitar, pelos meios de comunicação ou por publicações de qualquer natureza, a discriminação ou preconceito de raça, cor ou procedência nacional, com pena de dois a cinco anos. A mesma lei pune também quem fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos ou propaganda que usem a cruz suástica ou gamada para divulgação do nazismo.

Fica claro, portanto, que a liberdade de expressão não é absoluta. Embora essencial na construção e desenvolvimento de uma sociedade democrática, ela pode ser restringida em determinados casos, quando colide com outros direitos fundamentais garantidos constitucionalmente. Além das questões envolvendo preconceito racial ou de nacionalidade, a própria Constituição admite outras hipóteses em que a liberdade de expressão pode ser limitada, como nos casos de conflito com direitos personalíssimos (honra e intimidade), em casos de condutas tipificadas como crimes (apologia), de proteção do sentimento religioso e de proteção do menor.

Na quarta-feira, dia 3, o Juízo da 33.ª Vara Criminal do Rio de Janeiro suspendeu a comercialização da tradução em português de Minha luta. Desde que caiu em domínio público no mês passado, algumas editoras passaram a preparar edições da obra, em formato físico e virtual. O Juízo estabeleceu multa de R$ 5 mil por exemplar para quem descumprir a ordem.

A decisão violaria a liberdade de expressão? A resposta depende do que, exatamente, está sendo publicado. O texto de Minha luta, em si, é preconceituoso e racista, disso não há dúvida. No livro, Hitler chega ao cúmulo de afirmar que, se no início da Primeira Guerra Mundial a Alemanha tivesse submetido 12 mil ou 15 mil judeus ao gás asfixiante, não teria ocorrido o sacrifício de milhões de alemães na linha de frente. É uma retórica tão primária quanto brutalmente agressiva. Analisada à luz do direito brasileiro, a obra viola claramente a Lei 7.716/1989, cujos fundamentos constitucionais são os princípios da igualdade e da dignidade da pessoa humana. Portanto, a divulgação ou comercialização do livro é um abuso da liberdade de expressão, violando os direitos de igualdade e dignidade da pessoa. No caso em concreto, a liberdade de expressão cede espaço para outros direitos que precisam ser necessariamente protegidos.

A avaliação que acabamos de fazer se prende ao conteúdo do livro propriamente dito. Mas vozes ponderadas têm defendido que Minha luta seja publicado em uma edição crítica, com notas e outros recursos que desconstruam o conjunto de falácias apresentadas na obra. Certamente seria necessário um trabalho de grande envergadura intelectual para, passo a passo, demonstrar as centenas de incongruências e deturpações presentes no livro. Alguns editores já se propuseram a levar adiante essa tarefa, inclusive na Alemanha, e quem tiver sucesso nessa iniciativa estará, no fundo, prestando um grande serviço no combate ao racismo. Uma edição brasileira preparada nestes termos não terá como ser nem descartada, nem liberada de imediato: ela exigirá do Poder Judiciário uma análise aprofundada que, no fim, contribuirá para melhorar nosso entendimento sobre os limites da liberdade de expressão.

Editorial - Gazeta do Povo

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O que vamos deixar para nossos filhos

F. tem vinte anos. Na sexta-feira, saiu às nove horas da noite para encontrar alguns amigos em um barzinho. Após acomodarem-se em torno de uma mesa, iniciaram aquelas conversas animadas e exaltadas que mantemos quando guardamos ainda ilusões e sonhos e a vida nos parece o oceano visto da praia, que, embora nos cause temor, ansiamos por desbravá-lo. Em um determinado momento, F. deu falta de sua bolsa e seu universo desequilibrou-se. Roubaram o telefone celular, documentos, cartões de crédito e de débito – mas principalmente turvaram-lhe a vívida confiança em seus semelhantes. Quando chegou em casa, os familiares respiraram aliviados, constatando que F. tivera “sorte”, porque fora “apenas” roubada... já que ela poderia ter sido agredida, violentada, morta...

O Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal, uma organização não-governamental mexicana, divulgou no final de janeiro uma lista que demonstra a areia movediça em que estamos afundando: o Brasil possui 21 das 50 cidades mais violentas do mundo. São dados estatísticos, portanto indiscutíveis, que aferem o número de homicídios por 100 mil habitantes em municípios com população acima de 300 mil habitantes. Em termos absolutos, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS): de cada 100 assassinatos ocorridos no mundo, 13 acontecem no Brasil. Em 2014, 56 mil pessoas perderam a vida – 29 casos por 100 mil habitantes, mais de quatro vezes a média mundial, de 6,9 mortes.

Fortaleza (CE), segundo dados da ONG mexicana, surge como o lugar mais perigoso do Brasil. Das 21 cidades representantes do Brasil, 12 localizam-se no Nordeste (além de Fortaleza, Natal, Salvador, João Pessoa, Maceió, São Luís, Feira de Santana, Teresina, Vitória da Conquista, Recife, Aracaju e Campina Grande), três no Norte (Manaus, Belém e Macapá), duas no Centro-Oeste (Cuiabá e Goiânia), duas no Sudeste (Vitória e Campos dos Goytacazes) e duas no Sul (Porto Alegre e Curitiba). Como se vê, nem Rio de Janeiro nem São Paulo, que ocupam espaço privilegiado no imaginário nacional, em termos de ameaça ao indivíduo, comparecem no ranking.

Mas, infelizmente, a violência não se limita às grandes cidades. A selvageria se espalha como uma metástase cancerígena, atingindo até os mais distantes rincões do país. Em 2014, o município de Caracaraí (RR), de 19 mil habitantes, teve o triste privilégio de ser eleito o mais violento do Brasil – lá foram constatados 40 homicídios naquele ano, o que equivale a um índice de 210 assassinatos por 100 mil habitantes, sete vezes mais alto que a já altíssima média brasileira. Antes de Fortaleza, primeira no mapa da violência das cidades com mais de 300 mil habitantes, aparecem pelo menos 150 municípios pequenos e médios espalhados por todas as regiões do país.

Nós, brasileiros, temos cada vez mais mostrado nosso descompromisso com a coletividade. Ao invés de tentar solucionar conjuntamente os graves problemas que vão surgindo – e que já são inúmeros – preferimos tomar atitudes individualistas que salvem o pequeno núcleo a que pertencemos. Se a violência nos ameaça, construímos prédios. Se os prédios não são seguros, colocamos seguranças. Se eles não dão conta, estendemos cercas elétricas. Se nem isso resolve, mudamo-nos para condomínios fechados, isolamo-nos do mundo, e fingimos que estamos protegidos.

O Institut of Economics and Peace avalia que a violência no Brasil custa por ano cerca de 765 bilhões de reais em despesas com o sistema de saúde, aparato de segurança pública e a máquina do Judiciário, o que equivale a 8% do PIB nacional. Mas, para além de razões econômicas, o maior custo da violência é sem dúvida, por um lado, a perda de qualidade de vida, e por outro a amargura que nos intoxica. Eu sinto vergonha e frustração por legar a meus filhos um país deteriorado socialmente – um lugar onde o maior objetivo é tentar chegar vivo em casa ao fim de um dia de trabalho.

Como não fazemos nada, como cruzamos os braços num misto de fatalismo e indiferença, termino por lembrar o terrível libelo inconformista do pastor alemão Martin Niemöller (1892-1984), que em um sermão proferido em Berlim, em 1933, alertava: “Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram: já não havia ninguém para reclamar”.

Luiz Ruffato

Dilma e Lula decidem se dar o abraço de afogados

Consta da mitologia criada sobre Dilma Rousseff que ela foi, como vou dizer?, professora de marxismo. Eu duvido um pouco. Em primeiro lugar, porque, fora o tatibitate do Marx escrevendo sobre ideologia ou relendo a história, aquele troço não é simples — o que não quer dizer que seja nem bom nem correto. Mas fácil não é. Se, hoje, já bastante madura, a presidente tem um raciocínio notavelmente confuso, a gente pode imaginar como era quando tinha pouca experiência. Como sabemos, ela sempre perde a luta para a sintaxe.

Raciocínio confuso costuma combinar com escolhas igualmente atrapalhadas. Dilma chegou a ter a chance de se salvar, já escrevi aqui, lá pelo começo do ano passado. Deveria ter apeado do PT, enviado ao Congresso uma emenda parlamentarista e proposto um governo de coalizão. Não o fez. Preferiu se agarrar ao partido. Está afundando junto com ele, e continuo a achar que não conclui o seu mandato. O “esfriamento” do impeachment me parece aquela bonança que antecede a tempestade. O povo de verdade ainda não disse o que acha da crise.

A imagem de Lula se desintegra, se esfarela. E não porque alguém conspire contra ele, mas porque, a gente nota, o homem se mostra incapaz de dar explicações convincentes. E que se note: isso só está em curso porque, finalmente, alguém teve a ousadia de cobrar. E, como se sabe, até agora, não foi Rodrigo Janot, não foi o Ministério Público Federal. A Operação Triplo X, no que diz respeito a Lula, por enquanto, é apenas um trocadilho.

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Eis aí. De novo, com um pouco de inteligência política, só um pouquinho, Dilma poderia tentar passar pela porta estreita e tentar se descolar de Lula. Ocorre que ela se cercou de conselheiros… lulistas! E estes a convenceram de que ela só se salva se ele se salvar. Por mim, acho o conselho excelente porque intuo que todos eles naufragarão juntos.

Nesta terça-feira, na abertura do ano legislativo, Jaques Wagner, ministro da Casa Civil, conclamou parlamentares da base a fazer a defesa de Lula. O ministro disse aos aliados que o ex-presidente é alvo de uma perseguição e que a história de Lula “precisa ser respeitada”. Para muitos, a fala de Wagner teve um tom de desabafo, quase um pedido de ajuda.

Wagner só ecoava a cascata dos petistas no Senado, que decidiram argumentar abertamente não em favor de Lula, mas, até onde dá para entender, de sua inimputabilidade e, pois, da impunidade.

O petista Jorge Viana (AC) presidiu a primeira sessão do ano e mandou brasa, prestem atenção:

“Vamos tratar o presidente Lula com respeito porque ele merece o respeito por tudo de bom que fez pelo nosso povo, pelo nosso país. Vamos deixar o presidente em paz com sua família, sua esposa, Marisa, para que ele possa ter o direito de uma vida depois de ter sido presidente da República”.

Como? Observo que Viana nem mesmo se ocupou de declarar que Lula é inocente. Pede que o deixem em paz em razão da sua biografia. Também fazendo de conta que nenhuma suspeita pesa contra o ex-presidente, Humberto Costa (PE), líder do partido no Senado, afirmou: “São ataques sistemáticos, que têm como objetivo desqualificá-lo como homem público e desconstruir a imagem de um presidente que deixou o cargo nos braços dos brasileiros, com mais de 80% de aprovação popular”.

Questão: se Lula tivesse deixado o poder com 100% de aprovação, isso lhe daria o direito de pairar acima das leis? A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), investigada numa operação parente da Lava Jato, também resolveu dar a sua opinião, aí com um pouco menos de, vá lá, sagacidade do que os outros. E provocou: “Talvez vocês pudessem acusar o Lula de ter tirado 40 milhões de pessoas da miséria, de ter feito o maior programa de investimento em moradia popular que este país de já teve”. Digamos que assim seja: Lula está se enrolando todo por isso?

Eis por que, apesar da aparente calmaria, eu duvido que Dilma vá conseguir sair do sufoco e salvar o próprio pescoço. Os petistas ainda não se deram conta do quão velho e ultrapassado é esse discurso. Vá às ruas, converse com as pessoas comuns, vejam a quantas anda a imagem daquele que eles insistem em tratar como demiurgo.

Em vez de se livrar da mistificação e recomendar a seus ministros que se mantenham longe dessa operação, que coisa de governo não pode ser, Dilma se deixa convencer de que ela só será salva se Lula conseguir recuperar o seu prestígio.

Não é um sinal de inteligência política.

Querem saber? Dado o que eles pensam, eu acho é bom.

Primeiro, as comissões de frente

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Aproxima-se o Carnaval. Na Praça dos Três Poderes as fantasias vão ficando prontas. Vale, por hoje, referir as Comissões de Frente que abrirão o desfile. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, virá como Doutor Silvana, o inimigo número 1 da Humanidade, empenhado em implodir senão o planeta, ao menos o país. A informação é de que em seu laboratório secreto, nos porões da Câmara, o deputado pretende apresentar às arquibancadas a mais letal arma da atualidade brasileira, capaz de transferir para contas na Suíça os vencimentos devidos aos deputados.

Como “Paladino das Transformações”, o senador Renan Calheiros voará sobre o Congresso vestido de Capitão Marvel, disposto a proibir a apresentação da bancada do PT e seu patrono. O senador Aécio Neves usará o uniforme do Batman, Antonio Anastasia como Robin. Ambos entoando o samba-enredo “Vão Passar”, referência a José Serra e Geraldo Alckmin.

Ainda na abertura do desfile, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski e suas pastoras, sob os acordes de “Saudades da Amélia”, carregarão imensa fotografia de Joaquim Barbosa.

Para encerrar a passagem das Comissões de Frente, “Branca de Neve e os Vinte e Sete Anões”, com Madame em vestido de gala, estranhamente desfilando de costas e olhando para os derradeiros blocos à procura do Príncipe Encantado. Este, lá longe, em vez de cavalgar um corcel branco, virá montado num burro…

A medida da canalha

Os petistas, para se defenderem e defenderem aos seus, apelam com a costumeira falta de vergonha, que deve vir de berço. Sem vergonha já nasce feito, não se torna.

Para acrescentar a outros atributos de falta de caráter, também dispõem de um arsenal de "conhecimento histórico" adquirido nas coxas. São analfabetos informais desde criancinha, aproveitando-se de tudo e de todos para esconder suas bandidagens, ou as dos companheiros.

A nova pérola da cretinice foi escarrada pelo ex-governador Tarso Genro, conhecido pelo seu idolatrado lulismo. Não fez por menos ao defender o mentiroso Lula como o "judeu da década".

Os salvadores dos pobres e desvalidos, para livrar a cara do poderoso chefão, menosprezam o genocídio, escarram em milhões de judeus mortos pelos nazistas. Lula seria o inocente levado às câmaras de gás da Justiça brasileira?

Tarso Genro demonstra a falta de respeito a tudo e a todos quando está em jogo a defesa do partido dos pobres e seus líderes, comparsas, colaboradores e bandidinhos de beira de estrada.

O partidão que cria, em seu cabideiro eleitoral, secretarias de assuntos religiosos e de direitos humanos é o mesmo que agora compara um mentiroso contumaz e reconhecido marginal da politicalha com inocentes jogados aos fornos, porque respeitavam preceitos morais e religiosos - por sinal, que o endeusado não tem.

O gesto do lulista demonstra que qualquer religião será comparativo para a honestidade de um desonesto em desrespeito a todas as religiões e todos os direitos humanos.

Tarso Genro e seu "judeu da década" são da mesma raça dos antissemitas de ontem e de hoje, dos que atacam as minorias, dos que levarão ao fogo e à bala que discorda deles. Se tiverem que massacrar os outros, os que não comem da mesma propina, que assim seja.

O Brasil está bem arranjado em abrigar gente dessa laia e seus seguidores mercenários pagos com propinas e dinheiro público para cometer qualquer atrocidade. O texto do ex-governador dá a medida do que são capazes, nada diferindo de qualquer ditadura rastaquera.

Sem Lula, Dilma usa mosquito para unir o país

Fraca e impopular, Dilma Rousseff fez o que costumam fazer os presidentes americanos quando precisam unir a nação em seu apoio: declarou guerra. Nada mais conveniente para entusiasmar os compatriotas e resolver as divisões internas do país do que um inimigo comum. “Convoco cada um de vocês para lutarmos juntos contra a propagação do mosquito transmissor do vírus zika”, disse Dilma, em cadeia nacional de radio e tevê. “Esse vírus deixou de ser um pesadelo distante para se transformar em ameaça real aos lares de todos os brasileiros.”

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O país está dividido entre os que acham que Dilma e sua inépcia devem ser banidos do Planalto e os que avaliam que seu castigo não deve chegar a tanto. Essa divisão fulmina a credibilidade da presidente e paralisa o seu governo. Sem poder recorrer a Lula, que se dedica a debater diariamente com sua assessoria os termos da penúltima nota oficial de desmentido sobre o triplex do Guarujá e o sítio de Atibaia, Dilma acionou o mosquito.

O governo poderia ter encomendado uma campanha de utilidade pública para prevenir o brasileiro sobre os novos perigos do Aedes aegypti. Mas Dilma preferiu agir como Dilma. Colocando o marketing à frente dos resultados, cuidou de realçar o caráter traiçoeiro do inimigo que seu governo tardou a enxergar. “Ele só precisa depositar seus ovos em água parada, limpa ou suja, para nascer, se proliferar e picar pessoas de modo a contaminá-las. […] A maneira mais eficaz é não deixando ele nascer, destruindo os seus criadouros, que em mais de dois terços estão dentro das nossas residências”.

Dilma busca novos aliados: “Conversei com o presidente Obama e acertamos colaborar nesse desafio.” Anunciou o envio de tropas à frente de batalha. No próximo dia 13, vão à caça das larvas inimigas 220 mil homens e mulheres das Forças Armadas. “A guerra contra o mosquito transmissor do zika é complexa, porque deve ser travada em todos os lugares e por isso exige engajamento de todos”, a presidente alertou.

Dilma prometera a si mesma que não faria mais discursos na tevê enquanto não recuperasse a popularidade. Mas os sábios do seu governo avaliaram que a declaração de guerra ao mosquito livraria a presidente das vaias e dos panelaços. Não funcionou. Ouviram-se protestos em várias localidades. Dilma talvez devesse considerar a hipótese de eleger novos inimigos. Além do mosquitos, poderia bombardear os parasitas que infestam o seu governo.

Por que precisa acabar o PT

Várias invenções do ser humano foram obra do acaso. São conhecidas como “invenções acidentais”, coisas que estavam sendo imaginadas para um determinado fim, mas que se mostraram mais adequadas para outro. Algumas delas foram decisivas para a melhoria de vida das pessoas - forno de micro-ondas, penicilina, sacarina, baquelite, Teflon, marca-passo, velcro, super bonder, Viagra e o raio-X - e acabaram se tornando invenções acidentais que deram bons frutos. Imagine como seria a vida sem a radiografia atual, sem as panelas antiaderentes, sem a possibilidade de recompor a harmonia dos músculos cardíacos e outras conquistas hoje definitivas.

Outras invenções jamais deveriam ter acontecido. Cigarros e congêneres, armas em geral, principalmente de destruição em massa, bebidas alcóolicas, drogas alucinógenas e viciantes, são maluquices que distorcem a virtude e a potencialidade do intelecto humano. Mas, por Deus, como são populares. De fato, pensando melhor, as maluquices criativas mais destrutivas provocam, em seus usuários ou entusiastas, um frêmito, um desejo quase incontrolável de a elas se submeter. Aumentou a passagem vinte centavos? Alguém inventa os “black blocks” e lá se vão atrás milhares de “usuários”. Surgiu uma droga mais forte no mercado? Sim, sempre há doidos o bastante para experimentá-las. Eis o que chamo de “invenções nefastas”. São aquelas invenções que, tal qual um vício, foram criadas por acaso, são difíceis da gente se livrar e que gostaríamos que jamais tivessem sido criadas.

No Brasil, o PT é uma dessas invenções acidentais que se tornou nefasta. Criado a partir de atividades sindicais que visavam melhoria da qualidade de vida, melhores salários e condições de trabalho para seus filiados, o PT se tornou uma boa ideia gerida pelas cabeças de Lula e vários outros líderes que militavam em outras frentes. O PT foi um partido que desarticulou a tese de que o comunismo iria se apossar sinistramente do Brasil. Lula foi uma ideia, naquele momento, extremamente pertinente, pois não personificava, em momento algum, o ideal socialista rançoso e assustador, mas apenas um desejo de ascensão social e política de um grupo social em crescimento. Aparentemente.

Passado o tempo, os líderes petistas maiores estão presos, Lula está enredado em sua volúpia pessoal e familiar pelo usufruto sequioso do poder e das benesses capitalistas, correndo o risco, também, de ser preso. Dilma Rousseff é um títere sem cordéis e mente funcional, errática e balbuciante, num país submerso em corrupção sem similar na história do universo. Os indicadores sociais, que são fruto de gestão pública mais ou menos eficiente, jogam-se do alto como se cometessem suicídio. O povo brasileiro assiste a tudo isso tal qual um viciado em crack, que observa, dia após dia, sua própria decomposição física e moral. Até mesmo alguns petistas chegam a sonhar com a hipótese de que o PT jamais tivesse sido inventado. Não com Lula, Dirceu, Delúbio, Silvinho, Pallocci, Gushiken, Celso Daniel, Edinho, Gilbertinho, Vaccari e outros tantos “gênios”.

Não podemos mais acabar com a cocaína, com a cachaça e nem com os canhões. Mas o PT precisa, sim, ver sua sigla banida do ambiente político e social do país. A lei eleitoral terá de se encarregar disto, e rápido. Uma boa ideia usada para o mal, nisto está virado o PT. Corrupção, negociatas, destruição de estatais e fundos de pensão onde jaziam as esperanças de milhões. E muito mais. Não bastassem os fatos, soma-se o assombro e a certeza de que nada foi aprendido e que tudo será repetido, se for permitido.

O PT, enfim, acabou se tornando uma péssima ideia. Até mesmo seus filiados já reconhecem. Uma invenção nefasta para o Brasil.

Esforços de Dilma para quebrar o país estão dando frutos

O economista Delfim Neto, desta vez, está com a razão. No Brasil, a crise atual tem semelhança com a Grande Depressão que atingiu os Estados Unidos e grande parte do mundo em 1929. Os números são catastróficos, assustadores, tenebrosos. Basta conferir a estatística do desemprego. No ano passado, segundo o próprio governo, foram fechadas mais de 1,5 milhão de vagas no mercado de trabalho, das quais quase 600 mil no mês de dezembro. Não adianta dizer que foi por causa da sazonalidade do final do ano, isso é conversa fiada. A crise é gravíssima e o verdadeiro número de desempregados nem se consegue calcular, porque quem desistiu de procurar emprego ou está vivendo como camelô, por exemplo, é tido como “empregado”, vejam só que estatística maluca.

Aliás, uma das definições de estatística é bastante apropriada para esse tipo de pesquisa – “a estatística é a arte de torturar os números até que eles confessem o resultadoque se deseja”.

E precisamos lembrar também que no final do ano passado o total de trabalhadores de carteira assinada ganhou a adesão de grande número de domésticas, que passaram a contribuir para o INSS e ter direito ao Fundo de Garantia.

A economia vem descendo a ladeira desde a posse de Dilma Rousseff, em janeiro de 2011, como se o governo Lula tivesse deixado uma bomba-relógio no colo dela, no estilo do atentado do Riocentro. Mais de um ano já se passou e a presidente da República não fez rigorosamente nada. Fala apenas em CPMF e em reforma da Previdência, mas estas duas propostas não resolvem a crise, que é muito mais grave do que se propaga.

A desindustrialização é um fato inquestionável. Ao invés de financiar os empresários brasileiros, como o BNDES fazia no primeiro mandato de Lula, quando o banco era comandado pela dupla Carlos Lessa/Darc Costa e alavancou a economia, os recursos públicos brasileiros passaram a custear obras das empreiteiras no exterior, sob o argumento de que essa política iria abrir empregos no Brasil, demonstrando que a desfaçatez do governo e do economista petista Luciano Coutinho não tem limites.

Todos os setores econômicos estão em crise, à exceção da agricultura e agroindústria, mas é só uma questão de tempo – logo serão também atingidos. E o governo continua inerte, com planos mirabolantes de aumentar a arrecadação num cenário de economia recessiva, deve ser uma nova teoria econômica da falsamente “doutorada” Dilma Rousseff.

Em meio a essa terra arrasada, a Petrobras não consegue se reerguer. A cotação do petróleo não ajuda, as obras inacabadas se tornaram um sorvedouro de recursos, o pré-sal foi um rio que passou em minha vida, porque não adianta investir sem possibilidade de superar o custo/benefício, e a recessão diminui a demanda.

Mas o pior são as ações contra a empresa no exterior. A Justiça norte-americana é implacável com esse tipo de situação, em que uma gigantesca empresa estrangeira entra no mercado de ações com informações falsas e apresenta um quadro de corrupção generalizada jamais visto, lesando fundos de pensão a acionistas dos Estados Unidos e de outros países.

O julgamento da Petrobras em Nova York será em setembro, a empresa não tem a menor chance de se livrar de vultosas indenizações, em moeda forte. E a Petrobras se arruinando significa a ruína também da indústria naval e de uma rede enorme de fornecedores, em efeito cascata (ou dominó).

Enquanto o país mergulha na maior crise de toda a sua História, a chefe do governo se comporta com uma inconcebível falta de responsabilidade. Todos os seus atos visam apenas a evitar o impeachment. Não tomou a menor iniciativa de enxugar a máquina administrativa, para não incomodar o PT e a base aliada, aumentou os gastos de custeio, ao invés de reduzir.

O mais grave é que a presidente Dilma Rouseff trata a dívida pública como se fosse apenas um detalhe. Não vê que é o maior problema da nação. O Congresso aprovou em dezembro a realização de uma auditoria sobre o endividamento e ela simplesmente vetou, argumentando que existe total transparência sobre as finanças públicas.

Enquanto isso, os bancos batem recordes de lucratividade neste país de economia destroçada. Há algo de pobre nesta equação, mas a chefe do governo não consegue perceber. É como se estivesse empenhada em destruir o país, e está sendo muito bem-sucedida nesta sinistra empreitada.

O vetor da corrupção

Ele costuma ser simpático, sorriso fácil, sempre prestativo. Se o hospedeiro precisa ir a algum lugar com rapidez, ele arruma um helicóptero. Se é mais longe, um jatinho. Se o outro quer relaxar, ele descola uma casa na praia, uma fazenda para pescar, um apartamento em Paris. Ele se antecipa e descobre qual uísque o hospedeiro gosta de beber, o que sua mulher gosta de comer e em qual cidade a ex-amante do hospedeiro gostaria de morar.

Ele também entende tudo de reformas: casa na praia, sítio de lazer, cozinha gourmet – seja o que for, tem sempre um conhecido que pode fazer o projeto e tocar a obra “sem custos”. Ainda arruma emprego, sócios ou clientes para os filhos do hospedeiro.

É fazendo favores, gerando oportunidades e apresentando pessoas que o vetor se aproxima de seu alvo. Cria intimidade e, no passo seguinte, cumplicidade. Divide segredos. Ganha confiança.


Ele tem muitos nomes: intermediário, facilitador, lobista. Mas – em tempos de zika, dengue e chikungunya – pode ser chamado também de “Aedes corruptus”. Como um mosquito, ele é o vetor da corrupção. Vive de sugar o sangue alheio e espalhar o vírus “uma mão lava a outra”, o “toma lá dá cá” e o “15% é pro partido”.

Em época de eleição, vira arrecadador de campanha. Se não tiver outro jeito, doa do próprio bolso, mas prefere passar o chapéu entre empresários. Assim, suga dois com uma picada só: fica com crédito junto ao hospedeiro e ainda prospecta futuros clientes.

Estabelecida a confiança mútua, o hospedeiro está infectado: pode pretender ignorar, não apresentar sintomas, chamar o vetor de amigo, mas, conscientemente ou não, será usado para propagar a doença. O “Aedes corruptus” vai explorar sua proximidade com os poderosos para fechar negócios. Vai se gabar de ter acesso fácil para vender serviços – que pode ou não entregar.

É um aspecto singular do contágio. Basta ao mosquito saber antes o que o hospedeiro fará, para vender como obra sua algo que já é certo mas ainda não foi anunciado. Os clientes estão tão acostumados à corrupção que, numa projeção de si próprios, julgam que tudo só acontece se engraxam a mão de alguém. O “Aedes corruptus” conhece sua clientela, e usa isso a seu favor.

Se detectar dúvida, pode cometer uma indiscrição para provar que convive com a família do poderoso infectado. Mostra no celular para o potencial cliente uma foto dele com o hospedeiro, conta um causo do último encontro, revela apelidos de família.

Quando a doença se alastra e o hospedeiro deixa de ser assintomático, o vetor muda de status e vira operador. Começa a intermediar nomeações, distribuir comissões e montar sociedades. Aumenta, porém, o risco de ser descoberto. Se é pego pelas autoridades sanitárias, é o primeiro a delatar. Entrega todo mundo, abranda sua pena e fica com parte do que ganhou. Enquanto isso, o hospedeiro enfraquece e, às vezes, morre, politicamente.

Podem achar que o mosquito acabou, mas ele só está buscando um novo vírus para transmitir. Se ficou manjado como vetor federal, vai traficar no local. Se não der para ele, vai dar para outros de sua espécie. Sempre haverá “Aedes corruptos” zunindo por aí.

A corrupção é endêmica no Brasil. Infecta tantas pessoas que se tornou o comportamento normal – com variações sazonais e espaciais, mas dentro do máximo esperado. Surtos epidêmicos são raros, porém, ocorrem. E sempre na mesma ocasião: quando há troca em massa no poder e uma nova população sem anticorpos vira alvo do “Aedes corruptus”. A propagação, aí, costuma ser explosiva, muito além do desvio padrão. É a festa do mosquito.

Como toda epidemia, uma hora ela acaba – seja porque aquele esquema foi descoberto, seja porque dizimou os hospedeiros. Aí voltamos ao nível endêmico de corrupção ao qual estamos acostumados. Vão-se os hospedeiros, ficam os mosquitos.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

elvis

Na rota do suicídio

O pacote do dinheiro do FGTS, seja para “turbinar o consumo” ou simplesmente “dar um gás na economia”, mostra que a Dilma, ou o PT ou quem quer que esteja regendo essa banda, se é que alguém está, não entendeu ainda de que é feita a crise. E como a crise é feita exatamente da persistência dessa obtusidade; dessa incapacidade de entender que os fatos não atendem chamadas à ordem unida nem com mandados expedidos pelos solertes ministros do colendo Supremo Tribunal Federal, com mais crise ficamos cada vez que eles se movem.


O problema real está identificado e admitido desde o momento em que se aceitou sem aceitar a subida de Joaquim Levy ao palco. Ele demonstrou matematicamente à Dilma e ao PT que não ha como reduzir o tamanho da diferença entre o que se gasta e o que se arrecada até o ponto que se requer para ressuscitar a economia sem reduzir drasticamente o tamanho desse Estado que foi dado em pagamento à militância do partido e seus associados e à nova “nobreza” que acha que R$ 120 mil/mes por “cliente” disputando o seu quinhão é “um preço irrisório para emprestar o seu prestígio” às sucessivas operações de compra de eleições, de “governabilidade” e de boladas de dinheiro público dos últimos 13 anos. Desde então a perspectiva de perder dedos e anéis os têm mantido, a todos, paralisados.

São incontáveis as formas de parasitismo que explicam como um país tão rico quanto o Brasil pode ficar tão pobre. Para efeito dos procedimentos de emergência para a reanimação cardiorrespiratória de uma economia em colapso teriam de ser abordadas ao menos as quatro grandes “contas do apocalipse”: a da Previdência (com rombo indo de 58 para 85 bi/ano), a da desordem tributária (passando de 2 tri em 2015), a da obesidade mórbida da folha de pagamentos da União (129 bi em 2015) e a do estupro “trabalhista” sistemático do empregador brasileiro (passando a casa dos 60 a 70 bi/ano).

A esta altura o PT inteiro já entendeu que o país não se salva sem mexer profundamente nisso. Mas como o partido é dominado por velhotes encantados com o que o poder tem feito pela qualidade dos seus fins de semana – “et aprés leur, le déluge” – os que olham para horizontes mais longos, ainda conservam pruridos de outra natureza e contemplam a ideia de recuar dois ou tres passos em favor dos miseráveis do Brasil só reunem coragem para, quando muito, balbuciar quase propostas que, invariavelmente, engolem de volta ao primeiro “Quiéquiéissocompanheiro”?! dos espertalhões que conhecem-lhes a suscetibilidade ao fraco pavloviano estilo baixo século 20 que lhes foi incutido na faculdade. E aí, mais um milhão de famílias são atiradas ao pântano da insegurança alimentar, mais uns tantos bilhões de reais deixam de ser arrecadados, a pena retroativa a trabalhos forçados da nação salta dos 10 para os 20 anos, e o “debate político” fica reduzido à especulação sobre se quem está montando as apresentações da “presidenta” sobre “aquilo de que não se ousa dizer o nome” à “sociedade civil” nacional e estrangeira é o Nelson Barbosa ou o João Santana…

O país está diante de opções de urgência urgentíssima sobre as quais, até ha bem pouco tempo, não se podia sequer cogitar. Ocorre que o fogo se alastrou até àquele ponto em que pular da janela torna-se a única opção segura e esse momento encontra o PT na rara contingência de só poder fazer oposição a si mesmo, o que põe as pessoas certas nas posições certas em matéria de “condições objetivas” de se quebrar velhos tabus.

Dilma abraçou a causa da reforma da Previdência pelo estabelecimento de uma idade mínima. Falta dizer qual para que a discussão comece, é verdade, mas a causa já está abraçada. Abraçou também a da desvinculação das verbas orçamentárias que torna outras contas “mexíveis”. Tudo isso era impensável até pouco antes dela aprender a dizer “por favor”, o que comprova que o que tem de acontecer tem mesmo muita força.

É daí para a frente, porém, que a conversa descamba para duas determinações em tom anterior ao milagre dos “pedidos encarecidos”: ela quer porque quer mais uma CPMF e repete sem parar que qualquer medida do ajuste “tem de respeitar direitos adquiridos”. Isso coloca o Brasil e o PT em campos opostos. Quem tem “direitos adquiridos” no Brasil é o setor público e o setor público é o PT. O que caracateriza esta crise é extatamente a ultrapassagem de todos os limites, por efeito de acumulação, do maior e mais injusto desses “direitos” que é o de fabricar crises sem sofre-las. Não ha saída, portanto, sem a revisão do conceito mesmo de “direito adquirido” pois, tanto quanto o de “igualdade perante a lei”, o antídoto inventado no século 18 exatamente para substituir pelo “merecimento” a legitimação dos direitos que hoje se “adquire” por outorga de privilégio contra cumplicidade com o crime, o conceito de “direito adquirido” é como a virgindade. “Direito adquirido” e “igualdade perante a lei” são coisas que se excluem mutuamente por definição; qualquer um dos dois ou se tem ou não se tem.

Mais uma CPMF? Depois das quantas que já nos arrancaram via o escorcho do petroleo barato com gasolina cara, da eletricidade multiplicada por três, da falta de correção do IR e da “derrama” geral que a cada dia anuncia mais um tiro nos empregos que sobram? E pra quê, se não se tapar antes o ralo?

A discussão, dentro do PT, é sobre um Brasil resumido a Brasilia onde só se estabelece quem for selecionado pelo demérito. Ela gira exclusivamente em torno de quem vai pagar essa conta, sendo a sua primeira “condição” a de que aquele Brasil de Brasília não paga um tostão.

Aqui fora, onde todos são avaliados online, minuto a minuto, e só se estabelece quem foi selecionado pelo mérito numa disputa planetária, a discussão é como sobreviver até amanhã carregando o outro nas costas cagando-lhe incessantemente regras que ele próprio não cumpre, por baixo de um cartaz que ameaça com dois anos de prisão quem reclamar do mau serviço que lhe for intrujado.

Continuar com isso mais tres anos é puro suicídio.

O Brasil é maior do que o mosquito?

A seis meses das Olimpíadas, quando deveria ser alvo das atenções mundiais e ocupar o noticiário internacional de forma positiva, o Brasil encontra-se no epicentro de uma emergência internacional decretada pela Organização Mundial da Saúde. É algo tão raro e tão grave que a OMS só tomou a mesma atitude em três situações extremas: na gripe suína, no surto de pólio na África do Sul e em países do Oriente Médio, e no surto de ebola no oeste da África.

A letargia e perplexidade das autoridades brasileiras diante da tragédia são bem um espelho da falência do sistema de saúde nesses anos de governo lulopetista.

Especialistas já alertavam, há dois anos, sobre o crescimento populacional do aedes aegypt e dos consequentes perigos para a população. Os números são eloquentes, falam por si. De 2009 a 2015 foram registrados no país cerca de 5,4 milhões de casos de dengue, com duas mil e 300 mortes.

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Enquanto a presidente Dilma Rousseff vendia um país inexistente em sua propaganda eleitoral, o mosquito dizimava brasileiros, alastrava-se pelo país, transmitia dengue, chycungunha e zika.

Combater mosquito não dava voto, daí o governo Dilma nunca ter se empenhado em enfrentar seriamente o vetor. Ao contrário, os recursos repassados às prefeituras tiveram redução de 60% entre 2013 e 2015, segundo o presidente do Conselho Federal de Medicina, Carlos Vital Tavares. Ou seja, enquanto os casos e óbitos de dengue tinham um aumento recorde, a verba destinada ao combate do mosquito transmissor caiu de R$ 366,4 milhões para R$ 143,7 milhões.

Só quando mães desesperadas chegaram à rede de saúde pública com bebês microcéfalos no colo é que o governo começou a desconfiar do efeito devastador do zika vírus. E de forma atabalhoada, em meio a enorme bate-cabeças. Não vamos aqui relembrar os desastrados dizeres do ministro da Saúde, Marcelo Castro, ora em ataques à inteligência, ora em constrangedores sincericídios.

Mas não pode passar batida a declaração do chefe da Casa Civil, Jacques Wagner, segundo a qual o governo encara “com absoluta perplexidade” a situação da saúde pública no Brasil, com a proliferação dos casos de zika vírus.

Se o governo está perplexo, como estão as mães dos bebês deformados pela microcefalia? E como estão as mulheres grávidas dependentes de uma rede onde faltam leitos, medicamentos, tratamentos importantes como hemodiálise, radioterapia, quimioterapia e até atendimentos básicos?

Não, não temos uma rede pública de saúde com capacidade para enfrentar uma emergência global, por melhores e mais dedicados que sejam os profissionais da área. Temos uma contradição que o lulopetismo não equacionou. A concepção do Sistema Único de Saúde, consagrada na Constituição de 1988, é avançadíssima, mas os serviços prestados aos brasileiros são de péssima qualidade. Daí o refúgio, de quem pode, para os planos de saúde privados.

Sim, o lulopetismo foi na contramão do que fizeram os países que experimentaram o “socialismo real” e a social-democracia. Em vez de universalizar serviços básicos de qualidade como a saúde, promoveu o “distributivismo direto”, priorizou o consumo e incentivos fiscais seletivos. Não investiu em saneamento básico. Condenou o Brasil a continuar sendo sujeito a epidemias típicas do terceiro mundo. A ser o país do aedes aegypti.

Vamos ser claros: o PT não disse a que veio, na área da saúde. Algum dos seus ministros da Saúde marcou época? Algum deles pode ser comparado a Jamil Haddad, Adib Jatene ou José Serra?

A tragédia está aí, estampada nos lares de milhões de brasileiros. Para enfrentá-la, os marqueteiros de Dilma já criaram seu slogan: “O Brasil é maior do que o mosquito”.

Algo tão vazio quanto “Pátria Educadora”.

Para Oslo, não há inocentes

Há um ano no comando da Petrobras, o administrador Aldemir Bendine ainda não conseguiu reverter o ceticismo de investidores sobre os rumos da “nova companhia”, como costuma qualificar. Na quinta-feira passada, viu-se confrontado pela desconfiança.

Enquanto Bendine divulgava no Rio o seu “abrangente, estruturante, complexo e revolucionário” projeto de mudanças administrativas na Petrobras, a 10,4 mil quilômetros de distância, em Oslo, o Banco Central da Noruega anunciava a revisão dos investimentos do país em ações da empresa brasileira “por causa do risco de corrupção grave”.


O governo da Noruega é dono de uma fatia de 0,61% do capital da Petrobras. Comprou ações da estatal , no governo Lula, com o dinheiro de um fundo formado com royalties do petróleo.

O aviso sobre a possível retirada de capital ainda neste ano é importante porque esse fundo norueguês é o maior investidor global. Seus ativos superam US$ 750 bilhões, soma do PIB da Argentina e do Chile, e incluem 1,3% das ações de nove mil empresas relevantes em 75 países.

A reclassificação da Petrobras foi recomendada pelo Conselho de Ética do fundo, depois de seis meses de análises e consultas à administração Bendine. O órgão concluiu que “a Petrobras tem responsabilidade pela corrupção grave”. Alertou sobre “o risco inaceitável” de a empresa ter cometido crimes puníveis na Noruega. Também advertiu sobre o perigo de “atos semelhantes no futuro”, por duvidar que o controle anticorrupção da estatal seja “suficientemente eficaz”.

Cinco conselheiros examinaram provas judiciais sobre subornos pagos a diretores e gerentes: “O alcance da corrupção indica que o resto da direção da empresa deve ter tido conhecimento do que acontecia”, escreveram.

A estatal argumentou ser vítima de crimes cometidos por ex-empregados. Eles refutaram: “À luz dos fatos, isso dá a impressão de que a empresa nega qualquer responsabilidade.”

A Petrobras vai enfrentar problemas similares nos Estados Unidos, prevê Isabel Franco, especialista na legislação americana anticorrupção. “A diplomacia pode até conseguir que a promotoria peça uma punição mais leve. Mas na SEC (Comissão de Valores Mobiliários), a Petrobras e seus diretores não têm como escapar. Não haveria como explicar aos que já foram punidos.” Na lista de sanções da SEC por corrupção destacam-se Siemens, Alstom, Halliburton, BAE, Total e Alcoa, entre outras.

Em Oslo, quatro grupos (Sevan, Akastor, Uglands e Acergy) começaram 2016 sob investigação por suspeita de pagamento de US$ 43 milhões em propinas ao ex-diretor da Petrobras Jorge Zelada e o gerente Eduardo Musa, condenados ontem em Curitiba.

A procuradora norueguesa Marianne Djupesland rastreia pagamentos a Zelada e Musa feitos pelos brasileiros, Raul Schmidt Felippe Jr. e João Henriques, e pelo francês Miloud Alain Hassene Daouadji.

A dimensão extraterritorial da corrupção na Petrobras fez o Conselho de Ética do fundo sugerir às autoridades da Noruega que considerem o caso como paradigma, um “sinal claro para o Brasil e o resto do mundo” de que “ninguém vai ficar sozinho — nem os executivos seniores, nem os melhores políticos, nem os funcionários públicos.”

Bendine precisa ser mais eficaz para erguer a “nova companhia”, como imagina.

Falta à humildade de Dilma um quê de contrição

Ninguém quer ver Dilma Rousseff ajoelhando para pedir perdão. Nem de uma gestora em apuros se esperaria semelhante teatro. Mas esta presidente é culpada pela crise econômica que carcome a sua credibilidade. E não obterá a “parceria'' que reivindica enquanto não abandonar a convicção segundo a qual a crise é “internacional”, seus efeitos sobre o Brasil serão “transitórios” e tudo terminará bem porque seu governo dispõe de uma “agenda”.

Dilma foi ao Congresso. Entregou pessoalmente a mensagem do Executivo com as prioridades que defenderá no Legislativo em 2016. O ministro Jaques Wagner disse que a presença da presidente entre os congressistas foi um gesto de “humildade”. O presidente do Congresso, Renan Calheiros, declarou que não é hora de apontar responsabilidades, mas de buscar soluções. Avaliou que Dilma abriu-se para o diálogo.

Humildade? Nenhum movimento dramático seria necessário se a Dilma que cumpre seu segundo mandato já tivesse reconhecido que a Dilma dos primeiros quatro anos foi uma administradora precária. Diálogo? Sem uma boa contrição, dificilmente se estabelecerá uma comunicação sincera entre Dilma e o Congresso.

São notáveis as escolhas que Dilma não fez quando tinha popularidade, base congressual e poder para realizá-las. Ainda que se desconsidere o governo Lula, período em que madame mandou na economia desde 2006, quando Antonio Pallocci se auto-implodiu, há o tempo já decorrido de sua própria administração.

Depois de mais de cinco anos de nenhuma responsabilidade fiscal, de absoluta negligência com o rombo crescente da Previdência, e de um mal disfarçado autoritarismo gerencial, conclui-se: ou a humildade de Dilma é falsa ou a presunção de autossuficiência a impede de reconhecer que também está sujeita à condição humana.

Fragmento de homem

Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras
 
E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em "cadáver adiado que procria", como poderia a arte deixar de refletir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida? 
Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade - eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão. 
Eugénio de Andrade (1923 - 2005) 

A crise e seu espetáculo

Como é possível um governo lambuzado em dezenas de casos de corrupção, e tendo o seu principal líder acusado de graves crimes, continuar agindo e dirigindo os negócios públicos como se o país vivesse em plena bonança econômica e respeito aos valores republicanos? Vivemos uma situação anômala.

O mais estranho é que os dias vão passando, as crises — pois são várias — vão se sucedendo e se aprofundando, mas nada muda. Nada no sentido da interrupção deste perverso processo. É como se estivéssemos condenados ao fogo eterno, cada vez mais quente e mais devastador.

A sucessão das denúncias e as condenações na operação Lava-Jato — quase uma centena, até agora — são recebidas como algo natural, parte intrínseca da política. Diversamente dos Estados Unidos, o nosso destino manifesto seria conviver com a corrupção.

Sempre teria sido assim — e sempre será assim. O que em outros países encerraria a carreira de um político aqui passou a ser entendido como um ato falho, de falta de esperteza.


Não é preciso ir muito longe na nossa história ou buscar formas metafóricas para tratar da conjuntura brasileira e de seus personagens. As acusações que pesam sobre Luiz Inácio Lula da Silva não encontram paralelo na nossa tradição e nem na contemporaneidade ocidental.

Isto porque, além dos indícios de ocultação de patrimônio denunciados pelo Ministério Público, são estabelecidas relações com o maior desvio de recursos de uma empresa pública da história, o petrolão. E que levaram a Petrobras a uma situação pré-falimentar.

Lula continua agindo como se vivesse em um país imaginário e que sobre ele não pesasse nenhuma acusação ou — o que é pior — fosse inimputável. Quando disse que era a alma mais honesta do Brasil, a afirmação foi recebida como chacota. Mas não: ele acredita que é intocável, como os nossos imperadores de acordo com a Constituição de 1824 — ressaltando, claro, que nenhum deles, Pedro I ou Pedro II, cometeram ilícitos da magnitude do petrolão.

Evidentemente que não imagino que Lula leu a Constituição Imperial. Qual o quê. Não leu nem a de 1988 — penso até em sugerir uma edição exclusiva para ele e, para deixar a árdua tarefa mais palatável, poderia colorir artigo por artigo.

Dilma considera que tudo vai bem. Ficou — ou fingiu? — indignada com a avaliação do FMI sobre a economia brasileira. Fala de um Brasil que não existe. As entrevistas com os jornalistas, às sextas-feiras, foram patéticas — patéticos também foram os jornalistas: alguns tiram selfies com a presidente.

Estamos na maior depressão econômica da nossa história, e Dilma age como se tivéssemos crescendo a ritmo chinês. A reunião do tal Conselhão — que não tem legalidade constitucional; o que há na Constituição é o Conselho da República, que nunca foi convocado por ela — foi mais um exemplo de dissociação entre o mundo imaginado pela presidente e o cenário de caos econômico que vivemos. O mais patético foram os representantes empresariais que compareceram e legitimaram a farsa.

Teremos um 2016 onde as crises ética e econômica vão se agravar. A Lava-Jato — e outras eventuais operações da Polícia Federal — deverão devassar ainda mais os crimes deste triste método de governança adotado desde 1º de janeiro de 2003.

Tudo indica que a economia deve ter um desempenho igual ou pior que 2015, ou seja, a recessão deve chegar a um resultado negativo do PIB próximo de 4%. É como se assistíssemos a um naufrágio de dentro do navio, com acesso aos botes salva-vidas, mas sem que façamos qualquer movimento, inertes, passivos, quase que um suicídio histórico.

O projeto criminoso de poder ainda tem muita lenha para queimar. E estão queimando. Destruíram a maior empresa brasileira. Atacaram com voracidade os fundos de pensão dos bancos e empresas estatais.

Agora, estão solapando as bases do FGTS com a complacência das centrais sindicais pelegas. Possuem uma ampla base de apoio que é sustentada pelo saque do Estado. A burguesia petista ainda tem os bancos e benesses oficiais como suas propriedades. Os sindicatos nunca tiveram tanto dinheiro, produto do famigerado imposto sindical.

Os tais movimentos sociais sobrevivem com generosas dotações governamentais sem que haja qualquer controle da utilização destes recursos. E são milhares de sindicatos e associações. Isto sem falar em outros setores, como os blogueiros e jornalistas amestrados, os artistas — em tempo: o que Chico Buarque acha do triplex e do sítio do Lula? São tenebrosas transações? Pseudointelectuais et caterva.

Estamos em meio a uma selva escura. E, pior, sem que um Virgílio nos conduza. Fazer o quê? Este é o paradoxo que vivemos. O projeto criminoso de poder nunca esteve tão debilitado, desmoralizado. Sobrevive porque não encontra obstáculos na estrutura legal do Estado — as instituições, diferentemente do que dizem as Polianas, não funcionam —, e inexiste uma oposição política digna deste nome.

Há esforços isolados, quando muito. Os líderes oposicionistas não estão à altura do momento histórico. São fracos, dispersivos. Não gostam de serem obrigados a ter de enfrentar o governo e seus asseclas. Preferem o ócio, a conciliação parlamentar. Acreditam que a Lava-Jato e a gravidade da crise econômica vão, por si só, derrotar a quadrilha que tomou conta do aparelho de Estado.

Não entenderam que, assim como o hábito não faz o monge, a crise pode não conduzir mecanicamente a uma queda imediata do petismo. Pode sim empurrar o Brasil para uma depressão econômico-social nunca vista na nossa história. E quando forem assumir o governo, só haverá ruínas.

Marco Antonio Villa

Macri e o samba-da-petista-doida

Parrilla
Um dia após assumir a presidência, Macri reuniu-se com candidatos que o enfrentaram nas eleições. Também fez um churrasco para 24 governadores. Excelente maneira de se fazer amigos. Ainda mais quando o corte é argentino. Isso mostra que ele sabe que, num momento de crise, é importante unir as forças políticas do país.

A culpa é deles!
Enquanto isso, o PT de Dilma, no Brasil, utiliza seu tempo de TV para atacar figuras da oposição. Seus defensores, verdadeiros buldogues do governismo, polarizam o debate político berrando insistentemente seus bordões de ódio. Ao invés do diálogo, o discurso de "nós contra eles".

Cobrar menos, arrecadar mais
Macri mostra que é possível fazer ajustes diminuindo impostos. Reduziu de 35% para 30% o imposto de exportação da soja e acabou com o mesmo imposto para carne, milho, trigo, girassol e para as chamadas "economias regionais". Em pouquíssimo tempo, o setor agrícola celebrou um aumento de 100% nas receitas.

Para compensar a diminuição de impostos, o presidente argentino corta gastos e dá exemplo. Cristina Kirchner e sua equipe sempre utilizaram carros importados de luxo. Macri os substituiu por modelos nacionais e mais modestos. Abriu mão de seu salário. O dinheiro será doado para um restaurante comunitário que serve 1.800 pessoas diariamente num bairro pobre de Buenos Aires. Sem cortar gastos, seria demagogia; cortando-os, vira um exemplo.

Menos exemplo, mais cobrança
Já a solução encontrada por Dilma Rousseff é aumentar os gastos e propor novos impostos. Apesar de ter se posicionado contra a CPMF antes das eleições, a presidente agora trata o imposto como uma espécie de panaceia. Felizmente ainda não tem votos para aprova-la. Em 2014, o governo Dilma bateu recorde em gastos secretos com cartões corporativos: R$ 8,7 milhões, o maior valor desde 2001. Neste ano, quase todos os Ministérios preveem aumento de custeio.

Crise para quem?
Em uma de suas idas a Nova York no ano passado, Dilma levou diversos ministros, secretários e até a filha. Todos ficaram num dos hotéis mais luxuosos da cidade. Quando a presidente foi a Paris para participar da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, torraram-se R$ 200 mil com hospedagem e R$ 90 mil com aluguel de carros.

Nem a coxinha ficou de fora do aumento de gastos da presidente. Neste ano, haverá um aumento de 40% nos gastos com pães, biscoitos e salgadinhos que abastecem o Palácio do Planalto. Repito uma das perguntas preferidas dos petistas: "Crise pra quem?".

Imprensa livre
Macri derrubou um dos símbolos da política kirchnerista, a lei contra a concentração dos meios de comunicação audiovisuais, que obrigava o principal veículo da imprensa, o Clarín, a diminuir seu investimento na área. Liberdade de imprensa.

Imprensa golpista!
No Brasil, vândalos depredaram a sede do grupo Abril, que edita a revista Veja. O ataque foi uma reação a uma matéria que denunciou que a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula "sabiam de tudo" em relação ao petrolão. Além disso, o governo insiste em querer regular a imprensa, ou, como líderes do PT dizem, "democratizar a mídia".

Hermanos decolando
O presidente argentino foi ao Fórum Econômico Mundial, em Davos. Viajou com sua equipe num avião comercial. Voltou de lá com a garantia do presidente da Coca-Cola de que a Argentina receberá um investimento de US$ 1 bilhão.

Discurso e cofres vazios
Dilma não foi ao encontro. No seu lugar, compareceu o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, que fez alguns discursos sobre "mudanças estruturais" que "precisam ser discutidas" e defendeu a recriação da CPMF. Voltou com tapinhas nas costas.

Nova liderança
O governo de Macri ajuda até o nosso pais. Recentemente, a Argentina chegou a um acordo com seus sócios (Brasil, Uruguai, Paraguai e inclusive Venezuela) para impulsionar as negociações com União Europeia, Japão, Canadá, Rússia e Índia.

Fala que eu te escuto
Macri também erra. Nomeou por decreto dois juízes da Corte Suprema, alegando que seria importante ocupar cadeiras vagas. A lei argentina permite, mas a democracia se ofende. Duramente criticado, voltou atrás. Erra e se corrige.

Tudo invenção dos golpistas
Já a nossa presidente, cujos erros são incontáveis, nunca recua. Prefere chamar seus críticos de "golpistas" e agir como se Brasil estivesse uma maravilha.

Amigos da Rainha
"Ah, mas esse mauricinho neoliberal com certeza tirou a comida da mesa dos pobres!". Será? Macri não mexeu em programas sociais e até aumentou valores repassados por alguns deles. No Brasil, também é possível fazer cortes substanciais sem cortar um centavo do Bolsa Família, que, apesar de toda a propaganda oficial, recebe muito menos recursos do que o Bolsa Empreiteira, o Bolsa Juros, o Bolsa BNDES e o Bolsa Amigos da Rainha.

Eficiente, não exótico
O presidente argentino defende a austeridade no discurso e, tudo indica, a pratica como política de governo. À diferença do uruguaio José Mujica, parece querer convencer pela eficiência, não pelo exotismo.

Meta aberta
Dilma, em seus discursos, defende um tal ajuste fiscal. Saúda a mandioca, lamenta não poder estocar vento e promete dobrar a meta indefinida. Na prática, vive uma vida de luxo e aprova a gastança generalizada de seus ministérios. A hipocrisia não a preocupa. É só passar a conta para o pagador de impostos.

Bolso esquerdo só tem peixe
Macri fez sua campanha dançando –e bem, diga-se. Dilma fez sua campanha mentindo. O que mais se aproxima da presidente no mundo da música é o funk ostentação. Sem a parte do "funk". E com o detalhe do uso de dinheiro público.

Dança
A Argentina é a terra do tango. Dramático. Trágico até. Macri parece preferir a alegria da cúmbia. No Brasil de Dilma, é carnaval o ano todo. O governo toca o samba-da-petista-doida. Nós dançamos.

Kim Kataguiri

'Só os deuses podem ver-se uns aos outros'

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Calígula reuniu a corte em torno de seu trono para informar que a deusa Lua havia descido do céu e naquele momento preparava-se para beijá-lo. Todos confirmaram e aplaudiram, menos um. O Imperador dos romanos mandou cortar-lhe a cabeça. Antes, indagou do já quase decapitado Vitélio porque não estava vendo o edificante episódio que todos viam. O cortesão salvou-se com a resposta: “só os deuses podem ver-se uns aos outros.”

Guardadas as proporções, repete-se a situação. O PT em peso inclina-se perante o Lula, aceitando sua versão de que não é dono de triplex nenhum, muito menos possui um sítio em Atibaia e nem recebeu propina de empreiteiras para conseguir contratos com governos estrangeiros.

Vitélio está chegando com a resposta na ponta da língua: receber de graça apartamentos triplex, sítios e propina é prerrogativa de ex-presidentes do PT, imperadores que os companheiros devem aplaudir com entusiasmo. É o beijo da deusa Lua, ou melhor, das empreiteiras...

Carlos Chagas

E no país do 'chutômetro'


Esse meu “chutômetro” não tem nada a ver com futebol, mas sim com as mentiras da presidente, que lamenta não poder ensacar vento e se rejubila pela conquista da mandioca, além de outras esquisitices do gênero. Penso que já passou da hora de escutarmos tanta “bestagem” sobre assuntos sérios e de vermos tamanha insensatez praticada pelo atual governo, sem uma reação correspondente do povo ou da parte do povo, que vê o país soçobrar pela incompetência e incapacidade civil de sua comandante.

Eu nunca fui favorável ao impeachment de Dona Dilma, porque sempre achei que seu caso é de interdição por incapacidade civil. Não a incapacidade civil de que trata o Código Civil em seu artigo 1.767. A incapacidade de que falo, na política, é declarada pelo Congresso Nacional, que se resolve no voto, sem pensar em curatela – pois seria necessário, no caso, a indicação de um curador, que poderia ser um pau-mandado do PT, o que significaria trocar seis por meia dúzia...

Uma presidente que não toma conhecimento de que o país está tomado por banqueiros, agiotas, ladrões de casaca – fora da Lava Jato –, que chegam a cobrar juros de 430% ao ano por utilização de cheque especial ou crédito rotativo, e, consequentemente não toma providência para prender essa gente por crime de usura e contravenção contra a economia popular, na forma da Lei 1.521/1951, não pode ser vereadora nem de “currutelas”, quanto mais presidente da República.

Porém, é assim que estamos vivendo, nós, brasileiros... Está ruim viver em um país como o nosso, que mais parece um carro velho, desgovernado pela quebra da barra de direção...

Compreendo, até certo ponto, a incapacidade da presidente para a vida pública, já que demonstrou essa inabilidade também na vida privada. Afinal, como se explicar que uma pessoa equilibrada, no fulgor de seus vinte anos, como no seu caso, tenha saído por aí de metralhadora em punho, para fazer valer seu sonho, possivelmente “robinhoodiano”, de viver numa Sherwood comunista?

Aquele que, estupidamente, se diz o homem mais honesto do mundo deve ter escolhido a candidata por um critério de exclusão, de forma a não deixar dúvida alguma de que foi ele, o tal “honesto em excesso”, que fez sozinho a presidente da República. Não podia ser alguém que se distinguisse na sociedade pela cultura, pelo procedimento, ou por qualquer atributo que pudesse, deixando essa dúvida ferir a vaidade pessoal de um analfabeto.

Digo à presidente o que muitos gostariam de dizer: chute o pau da barraca, assuma sua condição de mulher que precisa ser simples, reconheça suas dificuldades pessoais, peça perdão ao povo brasileiro por sua petulância em fazer o papel de presidente – o mais surpreendente: da República, que muitos acham que é das bananas –, e surpreenda seu criador, reconhecendo que os governos do PT acabaram com nosso orgulho natural de sermos nação de um povo feliz e altaneiro, sem ser pedante e metido a besta. Quebre esse galho pra nós, vai...

Cachaça não é água, não

O PT não nasceu em São Bernardo, São Paulo. Nasceu em Criciúma, Santa Catarina. Eu vi. Em 1978, o prefeito Walmor de Luca, líder estudantil, deputado federal de 1974 no levante eleitoral do MDB, realizou um seminário trabalhista nacional com os políticos que se reorganizavam lutando pela anistia e destacadas lideranças sindicais.

Lula estava lá. E também Olívio Dutra, o bigodudo gaúcho, bancário do Rio Grande do Sul, depois prefeito de Porto Alegre e governador gaúcho, Jacó Bittar, petroleiro de São Paulo e outros dirigentes sindicais do ABC paulista, Rio, Paraná, Santa Catarina, Minas, Bahia, Pernambuco.

Desde a primeira assembleia um assunto centralizou os debates: o movimento sindical devia ter partido político? As lideranças sindicais deviam entrar para partidos políticos já funcionando ou outros a nascerem?

Lula era totalmente contra. O argumento dele era que os sindicatos eram mais fortes do que os partidos políticos e a política descaracterizava o movimento sindical e desmobilizava os trabalhadores.

Discutimos dois dias. Estávamos lá um grupo de socialistas e trabalhistas (José Talarico, a brilhante advogada Rosa Cardoso, o exemplar João Vicente Goulart, eu, outros). Defendíamos a reorganização dos trabalhistas e socialistas em um só partido liderado pelo incansável Brizola, que saíra do exílio no Uruguai e articulava sua volta em Portugal.

Lula não queria partido nenhum. Mas houve tal pressão de líderes sindicais de outros Estados e Lula balançou. O argumento dele era que os sindicatos poderosos, como os de São Paulo, não precisavam de partidos. Mas, e os mais fracos, que eram mais de 90% no país? No último dia vimos Lula já quase mudando de posição. Afinal, em 10 de fevereiro de 1980, nascia o PT, marco da historia política brasileira. Walmor de Luca devia ter ganho carteirinha de padrinho.

Lembro-me bem de que lá em Criciúma já rouco de falar Lula pediu:

– Me dá minha água.

Veio uma garrafinha de água bem branquinha. Aquela “minha água” me chamou a atenção. Joguei um gole no meu copo. Era cachaça e da boa.

Lula continua o mesmo. Sempre misturando cachaça com água.

Em tempos de Carnaval, a marchinha é inesquecível:

– “Você pensa que cachaça é água/ Cachaça não é água não./ Cachaça vem do alambique/ E água vem do ribeirão”.

Lula é um passarinho do céu, como aqueles da Bíblia, que não fiam nem tecem. A casa de São Bernardo não é dele mas é nela que ele mora. O sitio de Atibaia não é dele mas é nele que ele passa os fins de semana e pesca. O triplex de Guarujá não é de ninguém mas quem pôs o elevador lá foi ele, quem fez a churrasqueira lá foi ele, quem construiu as suítes lá foi ele, quem toma os porres lá é ele, quem paga… quem paga tudo… ah, quem paga tudo é a Madrinha Odebrecht, a Titia OAS, o Vovô Teixeira.

Quando os idealistas se perdem

Olho para a foto de José Dirceu, na capa desta Folha no sábado, 30, cercado de policiais, ralos cabelos brancos, um esgar no rosto que parece um sorriso, ao ser conduzido para prestar depoimento ao juiz Sergio Moro. É réu. Volto quase meio século no tempo e vejo, num canto da memória, José Dirceu trepado a um poste da rua Maria Antônia, arengando à multidão de estudantes que protestava contra a ditadura. Era um subversivo idealista.

Olho para a foto do sítio de Atibaia, reformado por empreiteira para o conforto de Luiz Inácio Lula da Silva, frequentador confesso, talvez proprietário oculto. Um luxo só.

Volto outro tanto no tempo e a memória fotografa o estadinho da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, em que um Lula desalinhado e rude arengava à massa de operários em greve, um tanto por melhores salários, outro tanto contra a ditadura. Era um herói popular.

Fico pensando, no meu canto, em que momento o subversivo idealista se tornou um “profiteur” das amizades com poderosos e ricos a ponto de se tornar réu.

Fico tentando descobrir igualmente em que momento o herói popular dedicou-se a enriquecer a ponto de ter de prestar sucessivos depoimentos sobre imóveis em que empreiteiras puseram mais que um dedo para deixá-los ao gosto do novo rico. Um amigo jornalista me conta que frequentou o antigo sítio de Lula, Los Fubangos, às margens da Billings: “Era fuleiro, pior que o meu”.

Sei que os hidrófobos do antipetismo e do antilulismo dirão que não houve um momento de transformação. Eles sempre teriam sido assim, interessados apenas em arrumar-se na vida.

Não concordo. Se fossem desde sempre “profiteurs”, não teriam arriscado a vida, um no combate à ditadura, outro na luta sindical, sempre áspera e mais ainda em épocas autoritárias.

É verdade que Lula, mesmo antes de ser presidente, acomodou-se ao bem-bom ao aceitar morar de graça em casa de seu amigo, o advogado Roberto Teixeira.

Aí, sim, com alguma condescendência, poder-se-ia admitir que se tratava de um mimo de amigo que, talvez, não embutia a necessidade de retribuição futura.

Agora, não. Todo o mundo — e não só no Brasil – está cansado de saber que os negócios das empreiteiras com o poder público são turvos, para dizer o mínimo. Quase 100% dos escândalos que envolvem políticos mundo afora envolvem também empreiteiras de obras públicas.

No caso específico de Dirceu, tornar-se consultor de Carlos Slim, o bilionário mexicano, é desprezar o fato de que fazer fortuna no México (como em quase toda a América Latina) não é um esporte isento de irregularidades, para dizer o menos.

Não há, até agora, provas conclusivas contra Lula (ao contrário do caso de Dirceu, já condenado no mensalão e, agora, preso pelo petrolão). Mas essa é uma ressalva de caráter puramente jurídico.

Do ponto de vista do comportamento republicano, a promiscuidade comprovada com empreiteiras é um crime que ninguém deveria cometer, menos ainda um antigo herói popular.

O 'Concelhão' ausente

A Presidente Dilma convocou de volta um chamado Conselhão para ouvi-la e apoia-la e no máximo dar conselhos sobre as propostas de seu governo.

Segue o mesmo ritual de seu antecessor, que pelo menos começou a ouvir seu Conselhão ainda quando seu governo estava com popularidade elevada.

Ela repete a mesma experiência no momento em que seu governo demonstra fracasso quase absoluto, mergulhado em crises sob todas as frentes e na véspera da retomada de debate sobre seu impeachment.

AUTO_pater

Claro que o Conselhão cai no vazio, todos sabendo que foi um golpe de marqueting que já não surte efeito.

Poderia ser diferente se no lugar do -"s" ela usasse o "c"; no lugar de ouvir falsos conselhos sobre o que ela já decidiu ou pensa decidir, tentasse construir um concerto sobre o que o País deseja e pensa.

Mas para isso teria que perder a arrogância, assumir as dificuldades, reconhecer seus erros, ouvir os críticos profundos e até mesmo representantes da oposição. Isto ela não quer; e sua base de apoio, começando com o PT, mas também os outros partidos aliados, também não quer.

É este "Concelhão" que muitos sugerem desde o dia de sua reeleição: pessoas que percebiam o desastre de um governo sem credibilidade, eleito por campanha mentirosa e com falsas promessas, mas com um mandato constitucional por mais quatro anos.

Só com diálogo seria possível criar um concerto que evitasse os riscos de impeachment e a certeza de desastre. Mas, a arrogância não deixou e no lugar de um concerto político de vontades nacionais, continuamos na busca de consertos usando marqueting, como se o problema fosse dar a impressão de que estamos tapando o furo em um pneu, quando nosso problema é mudar o rumo errado que o veículo insiste em seguir sob a condução de um governo perdido pela irresponsabilidade e incompetência, falta de visão de longo prazo, apego ao poder das mãos na direção, mesmo em um rumo errado; ou, ainda pior para o País, achando que o rumo está certo, quando a realidade mostra e todos percebem que estamos no rumo equivocado.

O Brasil precisa de um Conserto e não de falsos concertos pelo marqueting.
Cristovam Buarque

O inferno são os outros

São sempre os outros. Eles são os culpados. Para os jovens que abordaram Chico Buarque na saída de um restaurante, ele é “um merda”, pois apoia o PT. Os petistas são os outros. Para alguns petistas, os jovens supostamente de direita é que são os outros, são fascistas, pois xingaram Chico após um jantar privado com amigos. Sem dúvida, a atitude dos jovens é autoritária, desrespeitosa. Chico, que nem político é, sofreu injúrias num momento de lazer. Não dá. Não pode.

Mas não dá também para atribuir a quem é contrário ao PT exclusividade em atitudes desse tipo. Petistas às vezes agem de modo opressor e impositivo. Os eleitores de Marina Silva sabem bem. E, em 2014, o ministro Joaquim Barbosa foi hostilizado num bar. Cada caso é um caso: Chico não tem cargo político. Mas, por outro lado, defende sua posição partidária em público. O problema é que, quando os “nossos” fazem as mesmas coisas que os “outros”, não julgamos por um crivo igual. São dois pesos e duas medidas. Não dá. Não pode.

Importa pouco quem são os nossos e quem são os outros para entender o desafio político diante de todos. Importa mais perceber que a crítica está sempre voltada a só um dos grupos: o dos outros, claro. Diante do que ocorreu com Chico Buarque, apenas acusar os “playboys de direita” (se é que eles o são) não adianta. É preciso que os que não são playboys de direita possam identificar, também em si, atitudes similares. E que, isso feito, as repudiem não só nos outros.

Neste ponto, valeria desatrelar a política da moral. Não para desmoralizá-la pela corrupção de seu significado. Mas porque, no âmbito público, não se pode tratar os outros como se fossem o mal e os nossos como se fossem o bem. Isso é uma dualidade moral que diz respeito às intenções das pessoas. O jogo político é mais plural. Ele diz respeito às ações e às palavras. Não interessa o partido: quem age como se agiu com Chico é intrusivo e desrespeitoso com um cidadão.

Defender a vida democrática, nesse sentido, implica acolher a convivência com os outros, os que têm uma posição política diferente da nossa, sem que esses outros sejam considerados uns merdas, sem que eles sejam colocados do lado do mal. “Star Wars” é um ótimo filme, mas política mesmo não se faz apenas contra o lado negro da força. E nem tem jedi. Tem manipulação, interesse, corrupção. Tem briga contra isso, justiça, manifestação, disputa. Tem negociação.

Recentemente, todo mundo tem reclamado que o ódio impera na relação política entre as pessoas. Mas o tom da reclamação parece sempre imputar só ao outro esse ódio. Eu, não. Um pouco como ocorre com a corrupção: ela é sempre a do outro. Já a minha, esta é pequena, é sobrevivência, não tem jeito. O ódio é, ele também, sempre o do outro. Já o meu é justo; afinal, se dirige contra tudo que há de absurdo e errado. Novidade, minha gente: nem todo mundo concorda.

Vamos nos odiar por isso, dizer que os outros são uns merdas? Ou vamos suportar que a diferença institui a realidade democrática? Precisamos deixar de lado clichês, abandonar o gosto por escutar só o que já concordamos. Oposições de opinião não são xingamentos. Diálogo é falar e ouvir. Menos certeza faria bem ao ar político que respiramos. Menos ideologia, autoritarismo. De todos os lados. Política é a arte do dissenso — ao menos quando é democrática.

Pedro Duarte