sábado, 11 de julho de 2015

Capitalismo à brasileira é um regime que não deu certo

Presentear o papa Francisco com um crucifixo adaptado para a foice e o martelo do comunismo foi uma atitude patética e altamente reveladora de quem é o presidente boliviano Evo Morales. Com isso, o governante mostrou seu invulgar despreparo político, porque o marxismo ortodoxo é hoje um regime completamente superado pelos fatos, até porque, em sua essência, jamais vigorou em nenhum país do mundo. Mas o papa não passou recibo e fez até um duro discurso contra o capitalismo que ainda é praticado nos países subdesenvolvidos.


Todas as experiências até agora foram de implantação de um marxismo desvirtuado e sem liberdades civis, com censura à imprensa, prisão, tortura e assassinato em massa de opositores, situações que levariam à loucura pensadores libertários como Karl Marx e Friedrich Engels.

Aliás, entre os dois teóricos alemães, tenho preferência especial por Engels, que era um homem rico, sustentava o companheiro e jamais perdia de vista os pecados do capitalismo, dos quais ele próprio acabava se beneficiando, vejam que personalidade fascinante.

Sem jamais ter sido verdadeiramente adotado nos moldes preconizados por Marx e Engels, o comunismo pelo menos serviu para pressionar o aprimoramento do capitalismo, através da criação dos direitos civis e trabalhistas, dando enfim margem ao surgimento do socialismo democrático, amplamente consagrados nos países nórdicos, que se tornaram exemplo de desenvolvimento socioeconômico, com melhor qualidade de vida e justiça social.

Diante da evolução do capitalismo e do advento do socialismo democrático, foi se formando um consenso de que hoje o mais importante é o Estado garantir o básico à população, oferecendo saúde, educação, moradia e segurança em condições dignas, pois a própria sociedade se encarrega do resto, conforme ficou demonstrado no dia a dia dos escandinavos.

O que não é tolerável é que no século XXI ainda tenhamos a manutenção de certos arremedos de capitalismo, como ocorre no Brasil, onde a riqueza total insiste em tentar conviver com a miséria absoluta, como se esta possibilidade pudesse ser viável.


O resultado foi a formação de uma sociedade estranha, em que hipoteticamente somente os pobres se mantêm em suposta liberdade, porque a classe média e os ricos são obrigados a viver literalmente atrás das grades e não podem confiar nem mesmo nos seguranças contratados pelos condomínios de luxo.

O que dizer de um país em que um adolescente de favela, que sonha em comprar uma moto para fazer entregas de pizzas, terá de anualmente pagar IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores), enquanto os milionários estão isentos de taxação sobre seus iates, helicópteros e aviões?

O que dizer de um ensino público com os alunos sendo automaticamente aprovados, ano após ano, mesmo se continuarem analfabetos?

O que dizer de uma nação que divide seus cidadãos entre portadores de planos de saúde e usuários de uma rede pública que não os atende? E o que dizer se, além disso, ainda há uma subdivisão, porque nem todos os planos de saúde funcionam bem e há muitos que não servem para nada?

Por fim, o que dizer de uma sociedade em que o cidadão de bem é proibido de ter uma arma, mas o sistema policial só consegue elucidar 8% dos crimes de morte e apenas 3% dos homicidas são efetivamente condenados?

Esta é a realidade do capitalismo à brasileira, regido por um partido que diz ser dos trabalhadores.

Carlos Newton

PS – Muito interessante o Capitalismo Social preconizado por Martim Berto Fuchs. Minha filha é dona de um estúdio para ensaio de bandas. Consegui convencê-la a adotar o Capitalismo Social. Assim, o operador de som que toma conta do estúdio ganha metade da renda líquida e ela ganha a outra metade. O sistema é muito bom e a gente dorme sem consciência pesada.

O golpe que o PT quer dar


O prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, pelego de carteirinha, acusa o juiz Sérgio Moro de “colocar de joelhos as instâncias superiores”. Vai mais além o cumpañero: “É um absurdo que delatores A, B ou C acusem alguém sob tortura”.

Então os cárceres da Polícia Federal, em Curitiba, estariam servindo de como câmaras de tortura. “O que se ouve de bastidor é que está havendo tortura não só psicológica. E alguém falando nessas condições tem o direito de mentir”.

Em vez de sair em defesa dos trabalhadores sufocados pela inércia e esbanjamento dos governos petistas de Lula e Dilma, o prefeitinho chapa-branca corre para defender os interesses dos grandes empreiteiros que puseram a Petrobras na lama. Não parece nem de longe o PT que reclamava até de salário mínimo e hoje defende qualquer migalha para o assalariado.

“É preciso que as instâncias superiores assumam a responsabilidade por este processo”, conclama Luiz Marinho.

Não é à toa que Dilma e o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, se encontraram sigilosamente em Lisboa, bem longe do país, para tratar da Lava Jato que tanto atrapalha os interesses lulistas e do grande empresariado. Um por temer a queda e outro por perder a boquinha. Assim se acertaria entre dois poderes da República, no exterior, um acordo que envergonha o país. Ter poderes com presidências desse calibre de imoralidade, não se é democracia, mas escravatura. O país ao serviço dos senhores do PT.

O golpe, tão anunciado por petistas como coisa da oposição, está sendo dado em seus porões, os mais sujos da era democrática.

Com o medo de todo um projeto de dominação, com o lulismo imperando intocável por mais de 20 anos, os petistas correm para torpedear qualquer processo legal que impeça continuar com o osso na boca.

São suficientemente cretinos para armarem qualquer jogada, sob uma faixa de “legalidade”, para assegurem o trono como qualquer filho (a) de chocadeira.

A montanha gerou uma ratazana

Favoreceu deputados e senadores, mais do que as instituições democráticas, a reforma política aprovada quinta-feira na segunda votação pela Câmara. Porque, em vez de proibir doações eleitorais de empresas, como seria correto, permitiu que possam ser feitas aos partidos, não aos candidatos, limitadas a 20 milhões de reais. Dá quase no mesmo, tendo como resultado que dinheiro sujo continuará filtrando pelas urnas, com a peculiaridade de favorecer os caciques partidários, que distribuirão os recursos conforme seus interesses, em especial para eles mesmo. As empresas que ultrapassarem o valor fixado ficarão proibidas por cinco anos de participar de licitações e de celebrar contratos com o poder publico, penalidade fácil de contornar dada a multiplicidade de empresas pertencentes a um mesmo grupo. Aquela que estiver realizando obras para o governo federal não poderá doar para campanhas de presidente da República, mas suas irmãs gêmeas poderão.

Favorecimento inexplicável é a permissão para o troca-troca de partidos por trinta dias a contar da aprovação da lei, uma bofetada na fidelidade partidária, de encomenda para acomodar interesses subalternos. Outra aberração aprovada refere-se ao funcionamento dos partidos de aluguel: em vez de exigir votação considerável para cada legenda, a nova lei exige que apenas disponham de um parlamentar, entre 513 deputados e 81 senadores. Com uma solitária presença no Congresso, o partido de brincadeirinha terá direito aos recursos do Fundo Partidário e à propaganda gratuita no rádio e na televisão. Foi também para o espaço a proposta um dia levantada pelo ex-senador Pedro Simon, de que a propaganda gratuita deveria limitar-se a um estúdio, um microfone e um banquinho para o candidato sentar. As grandes e custosas produções continuam permitidas.

Duas medidas acoplam-se às necessidades e à lógica: as urnas eletrônicas deverão dispor de mecanismo para imprimir o voto digitado pelo eleitor, capaz de facilitar pedidos de recontagem; as posses de presidente da República e governador de estado deixarão de realizar-se no primeiro dia de janeiro seguinte às eleições, mas dia 4, para os governadores, e dia 5 para o presidente. Enseja-se que convidados estrangeiros possam vir ao Brasil com mais comodidade, apesar de uma inusitada prorrogação de mandatos.

Uma alteração votada, no entanto, não será aprovada no Senado, nem que a vaca tussa: a limitação de todos os mandatos legislativos e executivos a cinco anos. Os senadores dispõem de oito anos, historicamente. Foram garfados pelos deputados, que por sua vez prorrogaram-se, passando de quatro para cinco anos. Como depois de o Senado vetar essa modificação a matéria retornará à Câmara, basta verificar os números, pois uns são 513, outros 81.

Os deputados revogaram a reeleição para cargos executivos, não podendo mais os presidentes, os governadores e os prefeitos concorrer a um segundo mandato imediatamente depois do primeiro. Ignora-se como reagirão os senadores, mas no caso da manutenção do princípio, no Senado, a segunda volta na Câmara deverá restabelecer a proibição.

Em suma, e com todo o respeito, senão gerou um rato, a montanha deu à luz uma ratazana.

Os próximos capítulos

 Após algumas das semanas mais críticas da crônica de horrores que o acompanha desde outubro de 2014, o governo considera que a pressão foi algo aliviada após a caudalosa entrevista da presidente à Folha e seu sumiço internacional subsequente.

Auxiliares presidenciais pontuam o "algo" do alívio, apesar da retórica de Dilma "Eu Não Caio" Rousseff, de resto reprovada pelos próprios, cientes da fragilidade da chefe.

A prudência se dá pelo óbvio. O governo tem muito pouco a oferecer e está basicamente na mão do PMDB. Será o partido no comando do Congresso e da vice que, considerando improvável a cassação do diploma de Dilma pelo TSE, definirá o ritmo do esticamento de uma corda que para muitos já parece arrebentada.

Por ora, o que o Planalto pode ofertar é fisiologia comezinha, já que o dinheiro acabou. Precisa empacotar melhor os planos que tira do chapéu: a MP flexibilizando salários e jornadas foi um exemplo acabado de como não apresentar uma medida importante à sociedade.

E tem de rezar para a melhora econômica, central para a sobrevivência ou não do governo. Para tanto, a medida "tipo tipo" deixada no ar pelo dilmês empregado na entrevista será uma última tentativa de convencer o mercado de que o ajuste fiscal é sério; o governo sabe que a recessão com inflação está envenenada pela deterioração de expectativas.

Além de buscar mais arrecadação, o que está sendo elaborado agora é algum tipo de corte mais qualificado nos gastos do governo. O "tipo tipo" é tesourada, das bravas.

A questão é que o tempo da economia não é o mesmo da política. A Lava Jato segue implacável, e há o temor de que as ruas voltem a rugir no protesto de 16 de agosto.

Para tentar auscultar o movimento, o Planalto já montou uma central de monitoramento de rede sociais. A essa altura, contudo, é praticamente tudo o que pode fazer.
 Igor Gielow

Lula Massa e a classe operária que não vai ao paraíso

“A classe operária vai ao paraíso” (La classe operaia va in paradiso) é um clássico do cinema engajado. Filme italiano, lançado em 1971 e ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes no ano seguinte, foi dirigido por Elio Petri, com argumento e roteiro dele próprio, e Ugo Pirro. A história mostra a realidade das fábricas e dos ambientes além das linhas de produção. No Brasil, nos anos de chumbo, fez sucesso em cinemas alternativos e cineclubes. Era o contraponto aos sindicatos controlados por pelegos que apoiavam o regime militar, muitos dos quais ex-interventores do Ministério do Trabalho.

O protagonista da história é Lulu Massa, um operário consumido pelo capital e cujo trabalho estranhado consome sua vida. A fábrica adota sistema de cotas (metas) que intensifica a produção. Ele é o operário-padrão da fábrica, sendo hostilizado pelos demais companheiros de chão de fábrica. Após perder um dedo na máquina, Lulu adota uma atitude crítica ao modelo de exploração, confrontando a gerência. Os operários (situação e oposição sindical) contestam as cotas. Após uma greve, Lulu é demitido. Depois de negociações, ele consegue ser readmitido na fábrica, volta à linha de produção. Torna-se um líder autêntico.

É inevitável a comparação com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o líder operário que chegou ao paraíso do poder. Protagonista da primeira grande greve operária do regime militar, depois das paralisações isoladas de Osasco (SP) e Contagem (MG), em 1968, Lula emergiu para a cena política nacional nas greves de metalúrgicos do ABC paulista de 1978. Foi essa a gênese da criação do PT, em 1979, e da CUT, em 1983, instrumentos que o levaram à Presidência da República.

Quatro anos e meio após deixar o poder, Lula está de volta às assembleias e encontros sindicais. Luta para salvar do fogo do inferno o seu legado político. Na sexta-feira, participou da plenária da poderosa Federação Única dos Trabalhadores (FUP), em Guararema, São Paulo, vestido de macacão laranja, a cor dos uniformes da Petrobras. Já não organiza a defesa de empregos e salários, seu objetivo é a preservação do poder, que escorre pelos dedos com o fracasso do governo Dilma Rousseff.

Mais uma vez, Lula puxou a orelha da presidente , a pretexto de defendê-la: “Eu penso que ela tem que priorizar andar por esse país. Ela tem que botar o pé na estrada. Em vez de ficar na televisão ou na internet ouvindo os que falam mal dela, ela tem que ir para a rua conversar com o povo, que está torcendo e querendo que ela governe esse país da melhor maneira possível”. Acontece que Dilma não tem condições de correr para o abraço com o povo. Aonde for, será vaiada; aplausos, só da claque organizada, como a de Guararema.

A CUT, como o PT, perdeu capacidade de mobilização. De nada adianta o “Lula lá” dos sindicalistas reunidos no litoral paulista diante das consequências da roubalheira na Petrobras, para a qual os sindicatos fizeram e ainda fazem vista grossa. Na véspera do encontro, por exemplo, o Estaleiro Mauá, localizado em Niterói, suspendeu suas atividades por tempo indeterminado. Cerca de 2 mil trabalhadores foram dispensados após o término do expediente. O setor já cortou mais de 14 mil vagas desde o início do ano, atingindo mais de 100 mil pessoas indiretamente. Motivo: atrasos nos repasses da Transpetro e da Petrobras.

A Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE mostra que a massa salarial real habitual (sem o 13º salário) diminuiu 10% entre novembro do ano passado, pico dos últimos anos, e maio deste ano. E a situação se agrava. A Volkswagen negociou com o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC a inclusão de mais 2.350 trabalhadores no sistema de lay-off. A Ford promove “parada técnica” de produção e férias coletivas para trabalhadores nas fábricas de São Bernardo e Taubaté. Até a JBS, “campeã nacional” do processamento de carne, anunciou que concederá férias coletivas a 400 funcionários da sua unidade de bovinos em Nova Andradina, em Mato Grosso do Sul. Um dia antes, suspendeu as operações em sua planta industrial de Cuiabá (MT).

Em vez do prometido aos trabalhadores durante a campanha eleitoral, em seis meses de segundo mandato, o governo Dilma abriu-lhes a porta do inferno. A inflação esperada para 2015 era de 6,4%; hoje, a expectativa está na casa dos 9%. A elevação estimada da taxa Selic para o ano é de 14,25%, em comparação com 12,5% previsto em janeiro. Previa-se, no início do ano, uma contração de 0,5%. A recessão, porém, é mais acentuada e pode chegar a menos 2%. Numa imagem figurada, é como se Lulu Massa travasse a engrenagem da linha de produção com uma barra de ferro. O país enguiçou.

E como falta ainda o que ver!

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Há ainda muita água a correr debaixo da ponte, é o que se sabe. Falta raciocínio e sobra fígado
Ruy Fabiano, "O governo e o xadrez"

Para que serve um jornal

O que um jornal não deve ser:

* apenas um prédio cheio de gente e de máquinas capazes de produzir a cada expediente um número variável de folhas com um apreciável volume de informações;

* apenas a soma de registros necessários para orientar a vida das pessoas a curto prazo.

* ou uma espécie de ata do cotidiano de um lugar ou de um ajuntamento de lugares.

* muito menos deve ser acima de tudo uma oportunidade de negócios para proveito dos que são os primeiros a dele beneficiar-se. A saber: acionistas, empregados e fornecedores.

O que um jornal deve ser:

* um espelho da consciência crítica de uma comunidade em determinado espaço de tempo Um espelho que reflita com nitidez a dimensão dessa consciência.

Um jornal pode estar até mesmo adiante do sentimento das pessoas que o leem. E feri-las por causa disso. Mas se for crível e honesto, poderá operar a mudança do sentimento.

A única coisa que um jornal não pode é deixar-se ficar para trás quando seus leitores avançam. Porque não haverá futuro para ele.

A democracia depende de cidadãos bem informados.

Jornal depende da confiança pública.

Antes de ser um negócio, jornal é um serviço público. E como servidor público deverá proceder.

Mais do que informações e conhecimento, o jornal deve transmitir entendimento. Porque é do entendimento que deriva o poder. E em uma democracia, o poder é dos cidadãos.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Edital

Miguel Castello

Foi afixado
nos locais do costume
que É PROIBIDO MENDIGAR.

Logo mão que se descobre
escreveu a tinta por baixo
MAS NÃO É PROIBIDO SER POBRE.

Joaquim Namorado (1914 – 1986)

Social-democracia favelada e pau-de-arara


Desde o trabalhismo de Getúlio Vargas, a partir de 1932, a sociedade brasileira escolheu ser social-democrata. Afinal, todos os países chiques são pelos menos um pouco disso, certo? Por que, então, haveríamos de não ser?

Fizemos a opção pelo well-fare state (dito assim fica mais chique ainda) há 83 anos e jamais renunciamos a ele mesmo sabendo que nunca se viu um país pobre tornar-se rico por implantar um "Estado de bem-estar social". Isso só pode acontecer (se é que pode) naqueles que se tornaram ricos com o capitalismo, conforme constatou, por primeiro, o ex-marxista alemão Eduard Bernstein. Mas não há como recolher, desse modelo de Estado, condições para enriquecer um país pobre. Ao optar pelo Estado benevolente, ao qual todos recorrem em suas necessidades, garantidor de direitos reais e imaginários, provedor inesgotável, inclusive das mais insaciáveis demandas, o Brasil fez e faz, ao contrário, uma opção fundamental pela pobreza.

Jamais criamos ou nos ocupamos seriamente dos pré-requisitos do desenvolvimento: a) educação de qualidade para todos, habilitando a juventude brasileira à realização de suas potencialidades e inserção produtiva na vida social, política e econômica; b) estímulos ao mérito e às manifestações de talento em todas as dimensões do humano; c) saneamento básico e adequada atenção à saúde; d) geração da infraestrutura necessária às atividades produtivas; e) segurança jurídica e respeito ao direito de propriedade; f) rigorosa proteção constitucional do cidadão contra o Estado; g) contenção da máquina pública dentro dos limites da capacidade contributiva da sociedade; h) economia de mercado; e i) um modelo político racional que separe Estado, governo e administração.

Tendo optado pelo Estado provedor-empreendedor, inclusive durante os governos sob orientação militar, o Brasil olha para o horizonte eleitoral de 2018 movido pelas mesmas cismas que orientaram os partidos políticos e o eleitorado em todos os últimos pleitos: nenhum candidato do quadrante liberal-conservador, nenhum de centro, todos do centro-esquerda para a esquerda. A crise em que estamos será a pior conselheira para as eleições por vir. Não faltarão candidatos para receitar ainda mais do mesmo veneno a uma nação enferma. Pretenderão resolver a crise do Estado oferecendo ao eleitor mais e mais Estado. Trarão pás e escavadeiras para aprofundar o buraco.

Percival Puggina

Palavras no avesso

A palavra pode ser um instrumento poderoso de conhecimento, de mistificação ou de convencimento e persuasão.

Nunca antes na história deste pais, como diria um popular político em busca da canonização, o sentido das palavras foi tão maltratado como neste difícil momento histórico que atravessamos.

A cacofonia das redes sociais, que tiveram o mérito de democratizar o debate, ainda que provocando o perverso efeito colateral de dar “voz aos imbecis”, segundo a observação de Umberto Eco, institucionalizou várias formas daquilo que os linguistas chamam de “deslizamento de sentido”.

Nada se presta mais ao "deslizamento de sentido” do que o mau uso de conceitos banalizados pelo senso comum, que às vezes provocam um divórcio irreversível entre significados e significantes.

O campo do debate político se revelou um bom terreno para esse gênero de descasamento entre a palavra e o seu real significado.


Nesse terreno, uma das palavras mais pronunciadas, escritas e maltratadas pelo vozerio popular nestes dias é “golpe”. Como se sabe, ela é usada para definir movimentos que visam retirar do poder governantes democraticamente eleitos, através de manobras ilegais e anticonstitucionais para substitui-los, à força, armada ou não, por outros desprovidos da mesma legitimidade.

Para não ir muito longe, golpe foi a tentativa de grupos militares de não dar posse a Joao Goulart, vice-presidente legitimamente eleito, quando da renúncia do presidente Jânio Quadros em 1961.Goulart acabou sendo empossado, mas com os poderes reduzidos por força de uma emenda parlamentarista aprovada às pressas, como uma solução de compromisso negociada entre a força golpista que tinha as armas e o establishment político que representava a sociedade desarmada.

Através de um plebiscito, o pleno poder presidencialista foi devolvido a Joao Goulart, que 3 anos depois acabou sendo deposto por um movimento militar, que se estabeleceu no poder pela força e lá permaneceu durante mais de 20 anos. Esse é o clássico golpe.

Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito diretamente pelo povo depois de duas décadas de ditadura militar, renunciou depois que o parlamento aprovou o pedido de abertura de um processo de impeachment contra ele por crimes de corrupção. Este não foi o clássico golpe, mas um movimento legítimo baseado em preceitos constitucionais devidamente sancionados pelos poderes da República.

Chamar de “golpe" as intenções de setores da sociedade representados por partidos de oposição de pedir a abertura de um eventual processo de impeachment contra a presidente Dilma Roussef, se houver suficientes e comprovados motivos para isso, não passa de um “deslizamento de sentido”.

A hipótese de abertura de processo de impeachment por crimes de responsabilidade está prevista na Constituição nenhum procedimento baseado em preceitos constitucionais pode ser chamado de golpista. Isso seria uma grave incoerência semântica.

A retórica da luta política não está lá muito preocupada com coerências semânticas. Não é por outra razão que palavras como “austeridade" e “meritocracia" foram despidas de seus sentidos originais e passaram pela devido processo de demonização, e tiveram seus significados originais invertidos para representar não processos virtuosos mas a encarnação do próprio mal.

O mesmo acontece com a banalização da palavra “fascismo”, que deixou de descrever a devoção a uma ideologia totalitária com foco no poder hipertrofiado do Estado e de um líder iluminado-um duce, um fuhrer - para tornar-se um xingamento de moleques de rua brincando de unha-na-mula.

Palavras, palavras…

A palavra empenhada

Palavras (Foto: Arquivo Google) 
Se soubéssemos quantas e quantas vezes
as nossas palavras são mal interpretadas,
haveria muito mais silêncio neste mundo 

Oscar Wilde

Não creio que haja algo mais tenebroso para uma pessoa do que estar aprisionada e ser torturada. A tortura é hedionda e deveria levar o torturador à prisão perpétua.

Dona Dilma foi presa quando jovem. Militava na luta armada contra a ditadura. Gostaria que ela um dia dissesse em entrevista o que sofreu, em detalhes, dando os nomes dos seus algozes e que não deixasse tudo meio no ar. Mas, segundo li, ela pensa que esse não é um assunto que deva ser muito ventilado.
É sua opinião e como tal deve ser respeitada.

Mas é minha opinião que sua prisão e sofrimento não são justificativas para desculpar as palavras que dirige aos presos da Operação Lava-Jato que escolhem ter seu tempo de detenção reduzido ao confessar em detalhes os crimes que cometeram contra o Estado.

Na curiosa entrevista que deu à Folha de S. Paulo, publicada em 7 de julho de 2015, em determinado momento dona Dilma diz: “Eu não sei qual é a reação de uma pessoa que fica presa, longe dos seus, e o que ela fala. E como fala. Todos nós temos limites. Nenhum de nós é super-homem ou super-mulher. Mas acho ruim a instituição, entendeu? Transformar alguém em delator é fogo”.

Dona Dilma mistura alhos com bugalhos. Será que ela não percebeu que ninguém mais acredita nisso, que os réus confessos da Operação Lava-Jato são meros delatores, no sentido mesquinho da palavra?

Em outro trecho, ela diz: “Vivemos numa democracia. Não dá para achar que isso aqui seja uma tortura. Não é. É uma luta para construir um país”.

No entanto, quando perguntada sobre qual o tipo de medidas estruturantes que poderão contribuir para o ajuste das contas que ela desestruturou, no médio e no longo prazo, dona Dilma se saiu com esta pérola:

“Tipo tipo”.

Diante da observação dos jornalistas que a entrevistavam: “Essa eu não conheço”, ela acrescentou:

“Vou te dizer como fazíamos em interrogatório. Você faz um quadrado (desenha), ai de ti se sair desse quadrado, você está lascado. Então, se eu não quiser falar de que tipo (de medida) eu não falo, tenho técnica para isto”.

Vocês não acham curioso a presidente da República declarar que se não quiser falar sobre um assunto da maior relevância para nós, ela não fala? Ou seja, não sai do tal quadrado?

Pois eu fico indignada ao pensar que ela bem poderia ter desenhado esse quadrado durante sua campanha, respeitado seus limites e não sair prometendo mundos e fundos ao pobre eleitor que nela acreditou...

Aconteceu exatamente o contrário. Não havia limites para o que ela queria dizer e disse. Para depois de eleita fazer tudo completamente diferente e que se dane a palavra empenhada.

Diz ela que está tentando construir um país. Pena que tenha escolhido um caminho muito acidentado. E feio.

Além disso, tenho uma queixa pessoal contra dona Dilma. O fato dela debochar de uma das mais belas palavras de nossa língua: querido (a). Imperdoável.

Ah, essa não, senhor ex-ministro Guido Mantega!

0 ex-ministro da Fazenda dos governos Lula e Dilma, depois de longo silêncio, decorrente de uma demissão absolutamente desusada e deseducada, apareceu no último domingo com um artigo na página nobre “Tendências/Debate” da “Folha de S.Paulo”, um veículo sério e respeitado. Em vez de falar a respeito da sua inusitada despedida das funções ministeriais, após nove anos de titularidade, deve ter desejado dar alguma satisfação do seu constrangedor fracasso, uma mistura confusa de lições de democracia, que demonstra não ter sido capaz de compreender. Condena o autoritarismo, apesar de petista, e a intolerância característica do lulopetismo; assusta-se com “algo no ar” que ameaça a “pluralidade democrática”, conquanto, acacianamente, “esteja essa consolidada”; e copia a expressão de Octávio Mangabeira, sem usar aspas, que, com a queda do Estado Novo, transformou a liberdade democrática no Brasil em “planta frágil”, que carece ser regada diariamente.

Enfim, deixa no ar essa bobagem, segundo a qual “a intolerância tem provocado atitudes antidemocráticas praticadas por cidadãos que se acham acima do bem e do mal”, comportamento privativo do PT, dando o exemplo de si mesmo, nos seguintes termos: “Eu mesmo, em episódios que nem de longe têm a mesma gravidade, tenho sido alvo de uma intolerância que extrapola o limite da convivência e o meu direito à liberdade”. (É intolerância exercer o direito de crítica? Francamente, nem o famoso “Samba do Crioulo Doido” foi capaz de misturar tanta tolice).

Indiferentemente, mantém o tom, que não posso continuar, seja por falta de espaço, seja por acatamento ao leitor de O TEMPO. Contudo, vamos a alguns envergonhados comentários, ou observações despretensiosas só para marcar a fortaleza das instituições, que têm aguentado o festival sinistro do PT.

O sr. Mantega é apenas medíocre exemplo da qualidade da atual administração superior do país. Em outros tempos, já teria ido pelos ares. Formada com uma ou outra magra exceção, compondo ministérios imprestáveis e ministros “à la diable”, em vez de recrutar homens públicos de escol habilitados a prestar serviços que a nação espera, pai e filha acabaram dando no que deu: o governo perdeu o fio da meada.

O resultado, infelizmente, não se fez esperar: o Brasil nunca foi abandonado com tanta desatenção às traças. Quanto mais não fossem as recentes pesquisas de opinião, a revolta da sociedade está à vista de quem tiver espírito para exigir dos governantes o cumprimento dos seus deveres.

Seu lugar está assegurado na história como o mais incompetente ministro da Fazenda do Brasil. Não há do que se queixar. Se foi alvo de uma demissão desonrosa, a mereceu. Só uma palavra, autorizada pelo vigor da justiça que se lhe fez, explica e justifica a tragédia da sua gestão. O difícil não foi evitá-la; árduo mesmo foi o trabalho de levá-la a cabo, sucedendo à administração inspirada de Pedro Malan. O ex-ministro elogia a nossa “democracia consolidada”. Se fosse mesmo consolidada, os estabelecimentos penais que teriam de ser construídos levariam dezenas de anos.

Ministro da educação de Dilma entrega o que sabe


Último livro escrito por Sagan, e publicado postumamente por Ann Druyan, sua mulher e colaboradora, “Bilhões e bilhões” traz dezenove artigos. É obra de gênio.

Lançado em 1997, o livro começa com uma auto-tiração de sarro de Sagan –de resto, famoso ao populacho por ser o homem de “bilhões e bilhões”.

Sagan se auto-ironiza assim:

Bem, disse que há talvez 100 bilhões de galáxias e 10 bilhões de trilhões de estrelas. É difícil falar sobre o cosmos sem usar números grandes. Falei “bilhões” muitas vezes na série de televisão Cosmos, que foi vista por muitas pessoas. Mas nunca disse “bilhões e bilhões”. Para começo de conversa, é muito impreciso. Quantos bilhões são “bilhões e bilhões”? Alguns bilhões? Vinte bilhões? Cem bilhões? “Bilhões e bilhões” é bastante vago. Quando reconfiguramos e atualizamos a série, verifiquei que, sem dúvida nenhuma nunca disse tal coisa. Mas Jhonny Carson - em cujo Tonight show apareci quase trinta vezes ao longo dos anos - disse. Ele colocava um casaco de veludo cotelê, um suéter de gola rulê e uma espécie de grenha como peruca. Tinha criado uma imitação tosca de mim. uma espécie de Doppelgãnger, que andava pela televisão tarde da noite dizendo “bilhões e bilhões”. Costumava me incomodar um pouco ter um simulado da minha persona andando por aí por conta própria dizendo coisas que os amigos e colegas me relatavam na manhã seguinte. (Apesar do disfarce. Carson - um astrônomo amador sério freqüentemente fazia a minha imitação falar sobre ciência real.)

Espantosamente, “bilhões e bilhões” pegou. As pessoas gostaram do som da expressão”.

O Brasil não tem nem terá (tão logo) um Sagan: mas já temos o nosso homem dos bilhões.

Renato Janine Ribeiro (ministro da Educação) é mesmo um típico filósofo da USP…

Ele investiu contra uma proposta do José Serra de retirar a obrigatoriedade de a Petrobras participar da exploração do petróleo do pré-sal. A horas tantas, diz o ministro: “É muito importante que um combustível fóssil de bilhões e bilhões de anos, que é extremamente precioso, não seja queimado à toa, que gere realizações permanentes. Aquilo que demorou bilhões de anos para ser feito pela natureza deve construir estruturas duradouras”.

Não sabemos se a ideia do Serra é boa ou ruim
.

Sei que os “bilhões e bilhões de anos” do ministro são nonsense. A Terra tem 4,5 bilhões de anos de idade, mais ou menos. O petróleo, por seu lado, foi formado pela decomposição de matéria orgânica nos mares, principalmente. Isso necessitou a existência de… seres orgânicos, ora bolas – o que começou a acontecer aí por 200 ou 300 milhões de anos atrás.

Ou seja: nosso filósofo mais graduado (politicamente) ou foi reprovado em geologia, ou em biologia: ou em tudo, não?

Eis a Pátria Educadora em sua essência. 

Claudio Tognolli

Quem tem tem medo

'Situação de Dilma é mais complicada do que a de Collor'


Boris Fausto, um dos principais historiadores do Brasil, considera difícil relacionar a crise política que enfrenta a presidente Dilma Rousseff com a que derrubou João Goulart, em 1964, conforme fez neste domingo (5) o senador tucano José Serra.

Ele não vê problemas, porém, em fazer comparações com a queda, em 1992, do primeiro presidente eleito após a redemocratização do país, Fernando Collor.

Na avaliação do historiador, que declarou voto em Aécio Neves, há mais razões técnicas hoje para o impeachment de Dilma do que havia no caso de Collor, sobretudo por "problemas no Orçamento [as chamadas 'pedaladas fiscais'] e no financiamento da sua campanha".

"A comparação com o Collor é interessante porque, por muito menos, o Collor sofreu impeachment", afirmou, em entrevista à BBC Brasil.
O PT, que expressou a vontade de luta dos trabalhadores urbanos, se transformou num partido cuja principal liderança se uniu às empreiteiras, a ponto de a direção do partido fazer uma declaração em defesa das empreiteiras. Então, tudo isso embrulha muito o cenário da luta política brasileira. É difícil falar que o Partido dos Trabalhadores seja hoje o partido dos trabalhadores.

Questionado sobre a ausência de acusações diretas de corrupção contra a presidente, Fausto disse que Dilma "fez um esforço no sentido de controlar os piores aspectos da corrupção e dar um rumo para a Petrobras". "Mas o problema é que ela está metida em toda uma instituição política da qual faz parte, não obstante suas supostas e prováveis intenções", completou.

O historiador disse considerar que as acusações de corrupção que contribuíram para a queda de Getúlio Vargas, com seu suicídio em 1954, eram "um laguinho" diante das denúncias envolvendo a Petrobras. A menção é uma referência à expressão "mar de lama", popularizada na época da crise de Getúlio.

Miséria pouca é bobagem (quando é dos outros)


Nós geramos 23 milhões de empregos. Não são 200 mil, 300 mil (vagas cortadas) que significam que estamos vivendo um desastre
Manoel Dias, ministro do Trabalho

Madame cria problemas para os outros

Anuncia o palácio do Planalto que a presidente Dilma vetará o reajuste das aposentadorias e pensões de acordo com os cálculos do salário mínimo, conforme aprovaram Câmara e Senado. Quer dizer, mais uma vez o governo dos trabalhadores penaliza os próprios. Se é para poupar recursos e engordar o tesouro nacional, por que não taxar o lucro dos bancos? Ou criar o imposto sobre grandes fortunas?

Tem sido sempre assim, desde que Madame assumiu o poder. Na hora dos sacrifícios é o trabalhador que paga. Em especial os aposentados e pensionistas, desde o governo Fernando Henrique submetidos ao fator previdenciário e outras maldades. Não demora muito e todos os que pararam de trabalhar estarão nivelados por baixo, recebendo apenas o salário mínimo. Exceção, é claro, de certas categorias privilegiadas do serviço público.

Ignora-se o regime previdenciário de Dilma, mas como ex-presidente da República, a partir de 2019 ou mesmo antes, ela não enfrentará dificuldades. Receberá vencimentos mensais iguais aos de um ministro do Supremo Tribunal Federal, dispondo de dois automóveis com motoristas, mais um gabinete com oficiais e soldados do Exército, além de seguranças. Aposentadoria para ninguém botar defeito. Por que pensar nos outros?

Vem de tempos imemoriais as vantagens dos poderosos. Apenas dois ex-presidentes da República passaram apertados, por não dispor de fortunas pessoais: Café Filho, cujos ex-ministros fundaram uma empresa imobiliária para ele dirigir, com salário mensal, e Itamar Franco, nomeado embaixador para poder sobreviver. Dilma não terá problemas, ainda que pretenda criá-los para a população.

O triunfo de Dilma: deu tudo errado


Na noite de 23 de janeiro de 2013, Dilma surgiu triunfante em rede nacional de televisão para a anunciar uma redução de 18% na conta de luz de todos os brasileiros, acentuando: “Primeira vez que acontece no país".

Embora já fosse bastante, a presidente não ficou nisso. Explicou, “com números", conforme ressaltou, que o “Brasil vai ter energia cada vez melhor e mais barata".

Foi além. Desafiadora, atacou os pessimistas e zombou das “previsões erradas" daqueles que “diziam que não iríamos conseguir baixar os juros e nem o custo da energia".

De fato, naquele momento, a taxa básica de juros era de 7,25% ao ano, a mais baixa na era do Real e a conta de luz caiu no dia seguinte.

Animada com isso, Dilma informou que os investimentos estavam em alta, empregos idem, salários subindo, de modo que o Brasil vivia “dos melhores momentos da história".

Hoje, todo mundo sabe, os juros estão nas alturas — a taxa vai passar dos 14% — e a conta de luz não para de subir. Desde 2013, ano em que Dilma anunciou a redução, já ficou 60% mais cara, na média nacional. E ainda há vários reajustes previstos para este e o próximo ano. O desemprego sobe — 500 mil vagas formais fechadas este ano —, o PIB empacou, o salário perde poder de compra para a inflação e os investimentos públicos e privados desabaram.


Os pessimistas estavam certos, a presidente, errada, muito errada. Como Dilma pode ter se equivocado tanto?

Começa que ela não ouve ou não entende as críticas. Ninguém dizia que o governo não conseguiria ou não podia reduzir juros e tarifas de energia. Os críticos diziam, sim, que essas medidas eram insustentáveis mesmo no curto prazo.

Para resumir o ponto de vista dito pessimista: a redução da conta da luz se fizera por um artificialismo que desorganizava o setor elétrico; naquele momento, a tendência do custo da energia, sem truques, era de alta. Quanto à inflação, já estava alta e, mesmo assim, contida artificialmente pelo controle de preços administrados, como o da gasolina.

Era o ponto de vista correto. Dirá o pessoal da presidente: agora, em retrospectiva, é fácil falar. Negativo. Como bem apontava Dilma, os críticos e pessimistas diziam, fazia tempo, que o modelo econômico dela iria explodir em inflação, baixo crescimento, juros altos, contas públicas em déficit e desorganização de diversos setores, como o elétrico, hoje atolado em dívidas, prejuízos para a Petrobrás.

Também diziam que o aumento do crédito e do consumo era insustentável; que não havia ambiente para investimento privado. e que o governo não conseguiria dar conta das promessas de investimentos dos PACs. Lembram-se do trem bala?

Pois é — e não foi a primeira vez que a presidente exibiu um triunfalismo infundado. No início de seu governo, em março de 2011, deu uma entrevista para o jornal “Valor Econômico", garantindo que em seu mandato a economia cresceria na faixa de 5% ao ano, com inflação de 4,5%, na meta.

Também atacou os pessimistas e disse que era adivinhação daqueles que sustentavam não haver condições para uma expansão sustentada.

A coisa saiu ainda pior do que imaginavam os pessimistas. A média de crescimento anual do PIB (2011/14) ficou em 2,2%, só melhor que o período Collor. E a inflação foi de 6,16%.

Discursos e entrevistas da presidente Dilma podem ser encontrados no site do Planalto. Essa exposição não seria um motivo suficiente para a presidente vir a público e dizer “desculpaí, foi mal"?

Mas não. A presidente e seus próximos dizem que passamos por um probleminha passageiro, consequência da crise mundial, e que logo, logo... os pessimistas serão derrotados.

De novo, como pode se equivocar tão completamente?

Impeachment: longo e improvável caminho

Para alguns, o país voltou a respirar o clima político de 22 anos atrás, quando as reportagens da revista Veja sobre o derretimento do governo Collor faziam parte do cardápio obrigatório do final de semana. Na sexta-feira, por exemplo, começaram a circular as notícias sobre os documentos apresentados na delação premiada de Ricardo Pessoa, dono da UTC. Entre eles a prova da existência de uma conta bancária de empreiteiros, na Suíça, de onde teriam saído R$ 2,4 milhões para financiar a campanha da reeleição do ex-presidente Lula em 2006.

No rastilho desse vazamento, a mídia retomou com vigor surpreendente a cobertura da hipótese de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Desta vez, os dados sugerem um vínculo mais preciso com a realidade, pois baseiam-se no desdobramento de dois processos que correm contra ela. Ela mesmo caiu na armadilha e foi à público dizer que "não caio não".

No Tribunal Superior Eleitoral (TSE) há uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) para apurar acusação de abuso de poder econômico, manipulação de informações e extrapolação de gastos de campanha. A delação de Pessoa foi agregada à denúncia, conferindo maior combustão ao caso. No Tribunal de Contas da União (TCU) é tido como certo que o plenário recusará a prestação de contas de Dilma relativa ao ano passado, com recomendação à Câmara para rejeitá-la.

As duas ações, se vitoriosas, oferecem a oportunidade, cogitada pela oposição, de interrupção do segundo mandato. A primeira por meio da impugnação da chapa, o que alcançaria o vice Michel Temer, e a segunda com base num processo de impeachment. Ambas dependem de um longo e tortuoso caminho para se materializarem como ameaças de curto prazo.

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Ao farejar a precipitação desses fatos, parte do PMDB teria aberto diálogo com o PSDB a respeito de um imaginário dia seguinte. Com a impugnação, haverá nova eleição 90 dias depois; via impeachment provocado pelo TCU, Temer precisaria do apoio dos demais partidos para o que os políticos estão chamando de “governo de repactuação nacional”, uma ideia difusa, típica do burburinho das crises e que, no curto prazo, não vai a lugar nenhum.

Segundo quem tem intimidade com o entendimento entre os políticos, que mantém o assunto nos bastidores, o fato de a legitimidade da presidente estar se esvaindo de forma acelerada contribui para fortalecer a disposição dos que querem tirá-la. Porém, os atores do mundo político sabem que não é um processo trivial. Sabem também que Dilma não é Collor.

Outro fato que dificulta o processo de impeachment é o nível de sustentação da base política. Com todos os problemas, Dilma ainda tem uma base política melhor do que tinha Collor. Dilma tem ainda Temer ao seu lado que é, de longe, muito melhor do que a toda coordenação política do presidente cassado.

O clima de "agora vai" não é fidedigno com a complexidade do processo de impeachment. Sobretudo por que ninguém sabe como vai começar e por qual motivo. Dependendo do motivo as soluções são antagônicas. Colocam protagonistas com votos no Congresso em posições contrárias.

Os fatos são: o governo está fraco e o impeachment está longe. A resultante da combinação desses dois fatos aponta instabilidade, ocorrência de crises e, sobretudo, maior dependência do governo ao PMDB. Até agora, a história se repete como farsa.

Murillo de Aragão

quinta-feira, 9 de julho de 2015

'Brasil tem um linchamento por dia, não é nada excepcional'

Cleidenilson da Silva morreu linchado no Maranhão
A cena de mais um linchamento pinçou de novo estômagos e consciências em boa parte do Brasil. Nesta segunda-feira, Cleidenilson da Silva, de 29 anos, morreu de joelhos. Ele foi espancado até a morte por um grupo de moradores após um assalto frustrado a um bar no Jardim São Cristóvão, um bairro pobre de São Luís, no Maranhão. Amarrado pelo pescoço e pelo abdômen com uma corda a um poste, seu corpo desnudo foi exposto e fotografado frente a uma multidão curiosa, vizinhos dos que o mataram. Mãos e dedos impressos em sangue tingiram a cena, mas o episódio é mais um no Estado, mais um no Brasil. “Brasil tem um linchamento por dia, não é nada excepcional nesta rotina de violência, este caso não tem nada de diferente do resto, o não ser essa imagem que choca”, explica o sociólogo José de Souza Martins, alguém que não se surpreende mais diante a brutalidade.

Souza Martins investiga há 20 anos os linchamentos no Brasil. O primeiro episódio do qual se tem registro aconteceu em 1585, em Salvador, quando um índio cristianizado que se achava Papa foi linchado até a morte por algo que, provavelmente, ofendeu os fiéis. O último (que conhecemos) foi Cleidenilson da Silva. 430 anos separam um do outro. A pesquisa de De Souza, baseada em 2.028 casos de linchamento, materializou-se no livro Linchamentos - A justiça popular no Brasil (Contexto, 2015). De Souza fala para EL PAÍS sobre o sentimento de que a melhor justiça é feita com as próprias mãos e que torna Brasil campeão da crueldade. "Nos últimos 60 anos, um milhão de brasileiros participaram de linchamentos", afirma no livro.

O Brasil nu


Existem dois Brasis. O primeiro, habitado por um povo ordeiro e pacífico, rodeado de paisagens paradisíacas, onde convivem harmonicamente todas as etnias, todos os gêneros e todas as classes sociais, lugar de realização de sonhos e desejos – este é o país idealizado que exportamos e que alimenta o imaginário dos estrangeiros. O outro, esse no qual sobrevivemos, tem cada vez mais revelado a sua genuína face: um território tomado pela erva daninha da intolerância, pelo veneno do cinismo, pelo câncer da corrupção. Nos últimos dias, assistimos atordoados diversas manifestações do lado obscuro do nosso caráter, que põem a nu nossa verdadeira essência.

O BRASIL MACHISTA – Aprovemos ou não a administração da presidente Dilma Rousseff, é inquestionável que ela foi eleita pela maioria dos votos no último pleito e que encontra-se no momento investida do mais importante cargo político do país. As críticas a ela, justas ou injustas, podem e devem ser feitas, mas respeitando-a como autoridade e ser humano. A imagem de Dilma Rousseff com as pernas abertas, disseminada nas redes sociais, não significa apenas desacato, mas pelo mau gosto também ofende-a como mulher. Demonstrações assim me fazem pensar no que faria gente dessa estirpe se estivesse no poder.

O BRASIL RACISTA – Reflexão semelhante me ocorre ao ler, estarrecido, as ofensas à jornalista Maria Julia Coutinho, responsável pela apresentação da meteorologia no Jornal Nacional. Bastou uma afrodescendente ocupar um lugar de destaque no horário nobre da televisão para despertar o ódio de uma parte da população, que mantém, pasmem!, em pleno século XXI, uma mentalidade segregacionista escravocrata.

O BRASIL CÍNICO – A presidente Dilma Rousseff já começa a demonstrar preocupação com o que chama de “clima de impeachment” que impregna o Congresso. O PT, ao invés de condenar a prática de corrupção que grassa entre seus dirigentes, prefere ora questionar a isenção da Justiça, ora argumentar que é impossível fazer política sem recorrer a financiamento via caixa 2. O PMDB torce, disfarçadamente, para que Dilma seja apeada do comando – caso isso ocorra, assume o vice, Michel Temer, e ganham espaço na República os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha... O PSDB, que nunca se conformou com a derrota do senador Aécio Neves nas últimas eleições, mal consegue ocultar o contentamento pelo agravamento da crise. A todos interessa apenas a conquista do poder. A nenhum, o que nos aguarda no futuro.

O BRASIL AUTORITÁRIO – O presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, que se arvora em zelador da moral do homem comum, não demonstra pejo em deixar aflorar seu lado autoritário.Defensor dogmático da redução da maioridade penal, perpetrou um golpe contra a legalidade ao impor a votação do projeto que diminui de 18 para 16 anos a idade para encarceramento de adolescentes que cometam crimes graves, um dia após proposta semelhante ter sido rejeitada. Em recente entrevista a El Pais, o escritor Ferréz, um dos fundadores da autodenominada literatura marginal, disse que tinha dúvida sobre o que era pior para os jovens das periferias, se os traficantes de drogas ou os evangélicos. Traficantes e evangélicos multiplicam-se onde está ausente o Estado. A cruzada de Eduardo Cunha, fiel da igreja neopentecostal Sara Nossa Terra, parece-se mais uma luta por hegemonia entre os destituídos de tudo.

Respondam, senhores 'donos' do país


É justo o sacrifício de milhões em nome da vaidade ou da esperteza?
Acílio Lara Resende, "Forte sopro de inteligência me reacendeu a surrada esperança"

Recado grego ao Brasil


O presente que os gregos nos enviam vem em formato de reflexão: estamos nós, brasileiros, seguindo os mesmos passos que os levaram ao buraco? Um Estado inchado e generoso em benefícios sociais, combinado à baixa produção da indústria, deixou a Grécia perdida em um labirinto de onde nem Teseu conseguiria achar uma saída fácil. E as semelhanças com o Brasil são perturbadoras.

Emaranhado em um sistema previdenciário distorcido, com muitos privilégios e aposentadorias precoces, o Brasil drena o equivalente a 9,1% de suas riquezas para pagar pensões. A proporção deve dobrar até 2050: nos aproximaremos, portanto, dos gastos da Grécia (15% do Produto Interno Bruto) em vez de caminhar para o patamar de nações que lidam melhor com esses benefícios, como os Estados Unidos (7% do PIB).

É indiscutível que, se comparados aos gregos, ainda estamos a certa distância de abrir a caixa de Pandora. A dívida por lá chega a 177% do PIB (ou seja, seria necessário utilizar todas as riquezas do país por quase dois anos seguidos para satisfazer os credores). Mas observe a velocidade com a qual nos aproximamos: de 2010 para 2014, nossa dívida passou de 53,4% para 63,4% do PIB. E isso não nos garantiu desenvolvimento, mais produtividade ou protagonismo no mercado global.

Quando visitou a Grécia, Dilma deve ter recebido o recado do
ex-primeiro-ministro Georgios Papandreou: "Serás a próxima!"
A lógica que naufragou os gregos e sorri sorrateiramente em nossa direção é a de que não se pode distribuir uma riqueza que não se tem. Em algum momento, a fonte seca. Na ausência de uma produção que alimentasse o tesouro do país, os gregos recorreram a empréstimos para sustentar seu padrão de vida. Até que veio a crise de 2008, e os donos do dinheiro sumiram. Eis outras duas semelhanças a terras tupiniquins: nossa credibilidade anda em baixa, e nossa indústria, cambaleante _ em maio, a produção desabava quase 9% em comparação com um ano atrás.

E o que vem pela frente não anima. Talvez inspirada pela mitologia grega, nossa classe política parece olhar a realidade através de um filtro fantasioso. Em plena discussão sobre caminhos para amenizar a calamidade das contas públicas, eis que o Senado aprova um reajuste de 78% para servidores do Judiciário.

Não temos por aqui Orfeus, Odisseus ou Cadmos para nos resgatar _ ou uma zona do euro sólida para nos dar credibilidade. Contamos com nossos Renans e Cunhas e Dilmas.

Teremos que encontrar nossa própria saída do labirinto.

Blogues gritam só para garantir pixuleco


Os bloqueiros chapa-branca soltaram os carros alegóricos a todo vapor em carreatas. Quer dizer, não saem mais em quilométricas filas, porque já não são tantos como antes. Mas precisam justificar os pixulecos que sustentam suas boquinhas e a boa vida de bem remunerados novos ricos.

Por mera coincidência ou estranha semelhança, usam a mesma lenga-lenga dos golpistas de 1960 que derrubariam Jango. Só que hoje é bem inverso. Os comedores de criancinhas estão na oposição, na tão excomungada direita, e os grandes revolucionários no governo. Inverteram os papéis na lógica petista para continuar a velha maracutaia de manter o osso., mas jogam tão sujo quanto a direita ditatorial.

Nos blogues, jornalistas que mereceram respeito e analfabetos alçados a "comentaristas políticos" saem em defesa dos próprios bolsos, recheados com dinheiro público para enaltecerem o governo. É o exército mercenário que tanto tem feito mal ao país. A pilantragem dourada com as verbas que faltam aos pobres.

Sem um pingo de vergonha na cara, se alguma tiveram na vida, insistem em fazer do PT e do governo o que não podem mais ser. Há muito o partido deixou de lado as sandálias da humildade e calça Louis Vuitton, veste Chanel, usa Cartier. Mesmo em média cidades destroçadas pelo petismo pantagruélico, o comissariado esbanja em grife.

Os defensores da maior igualdade social são hoje os que mais se distanciam dos próprios temas ferrenhamente alardeados. Dão à população as migalhas eleitoreiras para continuar a desfrutar das regalias do poder, entre elas, se locupletar às custas de quem trabalha. 


É essa cambada que continua a proclamar as "virtudes" de uma esquerda, festiva e enriquecida, que está indo aos tribunais para responder por crimes.

Quando a rataria está caindo na água para tentar uma fuga, ainda há muitos que preferem remar contra a maré para apenas tirarem um pouco mais das tetas republicanas, em nome de um idealismo de quinta categoria contra um país que deixaram ir à falência, inclusive com uma desmilinguida oposição.

O que não conseguem enxergar é o naufrágio provocado por eles mesmos com sua chegada ao governo mais esfomeados de dinheiro do que plenos de interesse público.

Em nome do pai

Já é razoável o consenso de que a função da mente é controlar o corpo. E que na vida, sem um mínimo de interdição e autoridade, a vaca vai para o brejo. O sofrimento incompreensível, a alegria inexplicável, as habilidades inadequadas que estimulam, pessoas agitadas buscando satisfação, ritmos e interesses variados, uma autossensualidade que lembra parte de alguma coisa e aparenta desejos impacientes: não há experiência terapêutica que o salve dessa normalidade anormal.

O repertório de estímulos automáticos que o leva a funcionar fora de hora, sem hora para nada, não pode ser conhecido para não amenizar, em quem o observa, o prestígio e o sem sentido das coisas inaceitáveis que motiva.

E o que acontece de mágico, devorador, com quem contribui para ele se manter um mito sempre renovado, se for desconhecido por quem o tem como poder, agrada ao corpo, mas não dá folga ao coração. É bom entender pouco do seu funcionamento; é essencial ter por ele lucidez sem esperança. Se virar um deus, distancia dele.

O agitado personagem que descrevo não é o parlamento, nem qualquer um dos poderes do Estado. É o dinheiro, que adquiriu uma sexualidade tão excitada que misturou pecado e crime, separou família, matou sem prender, vestiu ao avesso o pano e a casaca, manipula a política como a um fantoche.

Minha sugestão é que: (1) como nunca foi claro para todos por que o interesse pelo dinheiro ultrapassa a satisfação saudável das necessidades; (2) como o relacionamento ilícito de muitas autoridades com ele está, como um animal daninho, devorando todas as nossas instituições; (3) como a gíria mais falada por empreiteiros patrióticos tornou-se o suborno, não o concreto armado; (4) como as indulgências voltaram a ser vendidas e (5) como o parlamento não para nunca com medo de tocar no assunto, é hora de discutir a equação entre dinheiro e necessidade como o centro do descomedimento da soberania nacional.

Quando o dinheiro não tiver mais a estonteante e tumultuosa importância que tem para desalentados reformadores sociais, poderá surgir uma camaradagem instantânea entre ele e as necessidades básicas, objetivas, como alimentação, e também com as subjetivas, como a admiração.

O sistema de representação poderá se fundar em outro código moral, pois toda pessoa que tem preço e o dinheiro paga, perceberá que, no fundo, é uma pessoa barata. O sistema judiciário, com seus artifícios destinados a produzir juízes e promotores ricos de salário — e pobres de sabedoria —, poderá se convencer que o amor ao dinheiro destrói todo outro tipo de amor e sabota os melhores desejos e apetites humanos, inclusive a cegueira romântica que enforma a Justiça para juízes honrados.

E no Executivo, carente de amigos, diminuiria a força do baba-ovo e das contas publicitárias geradoras desse caldeirão borbulhante que é o “fato político”, com suas mentiras, dinheiro estrangeiro e jatinhos para pobres de espírito.

Nem toda riqueza está assentada no culto do dinheiro, mas os que baseiam seu prestígio no medo de não ter outra referência de poder, lamento supor que aí falta um pai, não o dinheiro.

Paulo Delgado

Maravilha de engodo petista

Pontos de ônibus cobertos, construídos com dinheiro público, em local onde não passa ônibus, nem os Vermelhinhos, gratuitos, da empresa pública da Prefeitura de Maricá

Bem mais do que tranquilidade


Após reunião com deputados e ministros do Partido dos Trabalhadores no início da semana, Lula começou a colocar em prática a estratégia de se reaproximar do povo e “ajudar” Dilma Rousseff a sair do buraco em que se meteu. Diferentemente do que dizia antes da viagem da presidente aos Estados Unidos, em sua última aparição pública, quando palestrou para petroleiros, o líder petista não atirou contra o plano econômico do governo e praticamente soletrou aos companheiros o que a sua colega deve fazer a partir de agora.

“Colocar a cabeça no colo do povo e dialogar”. O conselho de Lula, paternal por natureza, chega a ser carinhoso e afável, mas, na real, não adianta muito, pois relativiza em demasia o terrível momento pelo qual passam o país e o seu partido.

Lula fala o que deve ser feito, mas não mostra como deve ser feito. Vagamente, sugere a Dilma que coloque os pés na rua e leve seu ministério a tiracolo, mas se esquece de que não estamos mais nos saudosos anos de seu governo, quando, apesar das denúncias do mensalão, tinha bala na agulha para agradar à população, sobretudo a mais carente.

Se Dilma puser o pé na rua, corre o risco de se atolar ainda mais. Suas palavras não são claras o suficiente, e tudo o que ela anda dizendo tem somente acentuado a percepção de que temos uma presidente atordoada e sem rumo.

Queira ou não assumir, o PT passa por uma situação catatônica, em que seu maior capital político, o povo, está se desvalorizando rapidamente. Esse pacto, que esteve fortalecido por mais de uma década, está agora sendo desfeito, e isso não está acontecendo por causa das infinitas denúncias de corrupção.


Em tese, algo muito simples de se entender transforma o conselho de Lula em palavras ao vento. O custo de vida e o desemprego aumentando, ao mesmo tempo em que o poder de realização material da sociedade diminui, impedem que Dilma coloque a cabeça no colo do povo, como quer o padrinho. Com a despensa vazia, o povo não lhe dará esse colo de que ela tanto precisa. E o mundo real é constituído por Eduardo Cunha e seu PMDB, uma oposição fortalecida, uma Polícia Federal atroz e uma Justiça propícia a condenar.

Não é mais como era antigamente. Talvez tenha chegado o momento de o PT enfrentar suas celeumas de uma maneira diferente. Ir para a rua, claro, mas negar o que é óbvio só piora.

As evidências, surgidas dia após dia, mesmo que sejam frutos de “vazamentos seletivos”, como reza o mantra petista, estão aí, ao alcance de todos. Serão elas que tornarão qualquer entoada da presidente e de aliados perigosamente vulnerável. Lula também torce para Dilma não perder a tranquilidade. Para que sua estratégia obtenha êxito, é melhor pedir a Deus que a paciência de nossa população continue sendo de Jó.

O PSDB e seu mandato divino

Quando alguém discorda de um comissário petista ele insinua que isso é coisa de quem está a serviço de algum interesse antissocial. Já o tucano é mais elegante. Quando o sujeito discorda ele explica de novo. Na sua última convenção, o PSDB apresentou-se pronto para assumir o governo, como se a derrota eleitoral do ano passado tivesse sido apenas um acidente. Melhor explicado, seria revertido.

Admitam-se todas as premissas expostas pelo tucanato. Aécio Neves perdeu a eleição para uma “organização criminosa". O PT não gosta dos pobres, mas do poder. O governo perdeu o rumo. Admita-se também que o PSDB pode ser uma alternativa às pedaladas e às petrorroubalheiras. Nesse caso, diante do que está aí, nada melhor que ele.

Na mesma convenção em que o tucanato apareceu pintado para a guerra aconteceram dois episódios. Eduardo Azeredo, ex-presidente do partido e ex-governador de Minas Gerais, foi colocado entre os convidados de honra do evento. Réu no caso do mensalão mineiro, anterior ao petista, Azeredo renunciou à presidência do partido e a uma cadeira de deputado federal para abrigar-se no rito da primeira instância. Como o tesoureiro João Vaccari, ovacionado no congresso do PT, ele é inocente até que haja sentença judicial condenando-o. O tucanato tinha mais uma surpresa cerimonial. Incluiu entre os aliados que discursaram a deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ), filha e herdeira do notável Roberto Jefferson, que cumpre em regime aberto a pena de sete anos a que foi condenado pelo Supremo Tribunal.

Políticos experientes como os candidatos Aécio Neves e Geraldo Alckmin poderiam ter contornado esses constrangimentos, mas, quando contrariados, os tucanos explicam de novo. Para eles, o mensalão mineiro e Roberto Jefferson nada têm a ver com a essência do mensalão petista.

A ação da Justiça diante do mensalão do PT mandou para a penitenciária gente que confiava na impunidade do andar de cima. O “efeito Papuda", por sua vez, abriu o caminho para 16 casos de colaboração de delinquentes com as investigações das petrorroubalheiras. Alguma coisa mudou no país, mas o tucanato persevera.

À primeira vista, o PSDB estaria na situação do Mr. Jones da canção de Bob Dylan: “Alguma coisa está acontecendo aqui, mas você não sabe o que é”. Essa hipótese é benigna, porem implausível. O tucanato sabe o que está acontecendo e quer mudar o país à sua maneira, com Eduardo Azeredo entre os convidados de honra e Cristiane Brasil na tribuna. Age como se tivesse recebido do Padre Eterno um mandato para governar o país. Replica a soberba de Lula e do comissariado petista ao solidarizarem-se com os mensaleiros.

O mandato da doutora Dilma não pode ser desligado por um clique do Tribunal de Contas da União ou do Tribunal Superior Eleitoral. No primeiro caso, o parecer do TCU precisa passar pelo rito da Câmara e do referendo de seu plenário. No segundo caso, basta que um ministro do TSE peça vista do processo para que o julgamento seja paralisado. Mesmo que quatro dos sete ministros antecipem seus votos condenando o governo, a sentença estará bloqueada. Sem crise institucional, as coisas funcionam desse jeito. Com crise, o que há é a crise. 

Desequilíbrio de Dilma pode apressar sua saída do Planalto


 Antes mesmo de iniciar o processo de impeachment para expelir a Dilma do Palácio do Planalto, é preciso interditá-la para que ela pare de falar tanta besteira quando abre a boca. Nos últimos dias, a presidente tem dado demonstração de que não anda bem da cabeça e deveria se submeter com certa urgência a tratamento psiquiátrico, pois as frases desconexas e o comportamento alienígena são sinais de distúrbios mentais. A coleção de besteirol e a troca de nomes nas solenidades mostram uma presidente atormentada que será lembrada mais pelo folclore do que por suas ações administrativas, quase nulas. 

A coleção de bobagem da presidente aqui e no exterior constrange a todos nós brasileiros. Como se não bastasse o caos econômico e administrativo que afunda o país em uma de suas maiores crises, ainda temos que nos envergonhar toda vez que ela abre boca. Dilma lembra muito a Ofélia, a comediante que fazia par com Lucio Mauro, e dava vexames quando ele recebia visita em casa, que ficou conhecida pelo bordão de “Cala boca, Ofélia”.

Atolada num mar de lama até o pescoço, a presidente está levando o país para um buraco negro. Não se posiciona como um estadista, não tem projetos para o Brasil e vire e mexe convida políticos e empresários para apresentar factoides no Palácio do Planalto como se o brasileiro ainda acreditasse nessas fantasias mirabolantes e delirantes de uma presidente sem carisma, que não lidera o país e demonstra sinais visíveis de desequilíbrio comportamental.

Encurralada dentro do Planalto, cercada de corruptos da Lava-Jato, refém do PMDB, Dilma não tem mais condição de governar o país porque perdeu o apoio popular da maioria absoluta do povo. Com apenas 9% de aprovação, agarra-se como pode aos peemedebistas que, nos bastidores, conspiram contra ela com a ajuda de Lula, o lobista de luxo das empreiteiras. Desesperada com a possibilidade do PMDB deixar a base aliada, pediu desesperadamente que Michel Temer ratificasse o apoio do partido ao seu governo para acalmar os empresários, os políticos e o mercado financeiro em pânico com o rumo da economia.

Quem acompanha os bastidores da política, sabe que Michel estava constrangido na coletiva de imprensa ao afirmar que permaneceria na articulação política do governo. Os peemedebistas têm feito reuniões frequentes para encontrar uma solução que tire a Dilma da presidência sem traumas constitucionais. Num politiquês mais claro: o PMDB quer a substituição dela pelo Michel, seu vice, sem arranhões à ordem jurídica e democrática como aconteceu com Fernando Collor. O próprio Michel tem sido avisado da conspiração que conta ainda com Lula, também enrolado na lama da corrupção da Lava-Jato. Portanto, a entrevista onde ele aparece para desfazer a notícia da sua saída da articulação do governo é coisa para inglês ver, truque de um político experiente que dissimula os conchavos, mas que está envolvido neles até o pescoço.

Para Michel, permanecer dentro do Planalto como uma espécie de chefe de departamento de pessoal é, no mínimo, um desrespeito a sua trajetória política. Presidente do maior partido da base de sustentação do governo, o vice pode ser chamuscado pela quadrilha que se alojou dentro do palácio, como acusam todos os delatores da Lava-Jato. A sua permanência nesse grupo serve de salvo-conduto para todos que estão envolvidos nos escândalos da corrupção e que vão continuar se escudando no seu prestígio para seguir com as suas práticas criminosas.

Aparecer falando à nação, cercado de auxiliares da Dilma, é, para Michel, um ato desabonador , pois com exceção do ministro Aldo Rebelo, uma das únicas reservas morais do governo, todos que estavam à mesa na coletiva estão sendo investigados por corrupção na operação Lava-Jato.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Brasil põe à prova sua democracia


O Brasil não é a Venezuela nem tampouco a Grécia, embora haja analistas políticos que alertem para a fragilização da democracia do país. Não existem, de fato, democracias para sempre. Elas são conquistadas a cada dia.

Um dos pilares que ajudou o Brasil a crescer e que lhe outorgou respeito internacional foi a consolidação, passo a passo, de suas liberdades democráticas, depois da ditadura militar. Diante da imagem de muitas democracias frágeis dentro do continente e de tentações autoritárias na velha Europa, o Brasil sempre foi visto, apesar de seus desequilíbrios sociais e de seus altos índices de violência, como uma sociedade na qual os poderes do Estado têm funcionado sem sobressaltos e com liberdade.

Hoje é assim? Não é segredo que o país atravessa uma de suas mais graves crises, como destacam editoriais de importantes meios de comunicação nacionais e estrangeiros. Uma crise que não é só econômica, mas também e, talvez, sobretudo, política e ética.

O Brasil tem recursos naturais e humanos para poder sair da crise econômica que o atormenta e que parece agravar-se a cada semana com a multiplicação dos índices negativos de crescimento do PIB, inflação, juros, redução da atividade industrial e desemprego.

Da crise econômica é possível sair com um novo modelo de crescimento capaz de reparar os danos sofridos por políticas erradas e pecados de desperdício de recursos públicos ou de um excesso de nacionalismo. Basta querer.

Mais difícil parece ser superar o momento político que se apresenta cada dia mais emaranhado, azedado, imprevisível e até perigoso.

Um país com um governo tão frágil que nem sequer é apoiado por seu partido, o PT, nem pelo maior aliado, o PMDB. Um governo criticado duramente até pelo ex-presidente Lula, com uma presidenta como Dilma, com 9% de apoio popular -- de quem se pede a saída todos os dias na rua, nos palácios do poder econômico e nas redes sociais--, corre o perigo de ver sua democracia minada.

Até a mais sólida das democracias acaba degenerando em tirania quando a oposição é despojada do seu papel fundamental de vigiar

Há quem se pergunte como um país da envergadura do Brasil pode continuar a legislatura inteira (iniciada há apenas seis meses) com essa espada de Dâmocles por cima exigindo uma mudança que não pode ocorrer a não ser pelas vias democráticas.

Jornais sérios, como o Valor Econômico, explicam as supostas manobras do PMDB, o partido mais importante da coalizão de Governo, para apear Dilma do poder. Personagens como Lula tacham o Governo de mudo, incapaz de reagir e afirmam que Dilma está politicamente morta.

Por sua vez, a presidenta afirma que não deixará a cadeira e desafia os que pretendem isso com um “venha tentar”.

Enquanto isso, a explosão do vulcão da corrupção na Petrobras ameaça chegar à praia do Palácio Presidencial com a possibilidade de que a mandatária, com seu padrinho Lula, possa ser denunciada por ilegalidades que a obrigariam juridicamente a perder o cargo. E é certo que em 16 de agosto os muitos e poucos cidadãos que sairão à rua convocados pelos movimentos de descontentes com o governo voltarão a gritar “Fora, Dilma!”.

Tudo isso poderia entrar no jogo democrático e em muitas ocasiões essas crises servem até para fortalecer a democracia, como ocorreu com o caso Collor, em que triunfou o desejo democrático da sociedade.

O perigo de hoje no Brasil é que está sendo posto em discussão, talvez pela primeira vez, um papel indispensável para a solidez de uma democracia, que é o da oposição.

O Brasil tem, com efeito, pouca consciência de que, em uma democracia, tão importante ou mais que o papel do Governo é o da oposição, à qual se tenta, às vezes, ver como inimiga da democracia.

Até a mais sólida das democracias acaba degenerando em tirania quando a oposição é despojada do papel fundamental de vigiar, controlar e denunciar o governo quando considera que se desviou do mandato recebido nas urnas, ao mesmo tempo que o de organizar-se para chegar ao poder com programas alternativos que deverão ser julgados pela sociedade.

O fato, por exemplo, de que seja tachado de “golpe” a ação da oposição, que exige prestação de contas ao Legislativo, não é mais do que o desejo de deixá-la de mãos atadas e demonizá-la.