domingo, 23 de março de 2025
Na tentativa de virar imperador, Trump fratura democracia americana e ordem internacional
Os últimos movimentos de Donald Trump confirmam suas pretensões imperiais: do monarca absolutista que usurpa as prerrogativas dos outros poderes e do colonizador que cobiça as riquezas de outros povos.
Trump invocou na calada da noite do dia 14 a Lei do Estrangeiro Inimigo, para deportar 137 venezuelanos sem o devido processo legal. A lei, de 1798, só pode ser aplicada durante guerras. No dia seguinte, ignorou a ordem do juiz James Boasberg de suspensão das deportações para El Salvador e retorno dos aviões que já tivessem decolado.
O responsável por imigração da Casa Branca, Tom Homan, declarou: “Eu não me importo com o que juízes pensam”. Trump postou que o juiz devia sofrer impeachment. Numa rara manifestação pública, o presidente da Suprema Corte, o conservador Robert Smith, qualificou a ideia de “inacreditavelmente perigosa”.
Trump decretou o desmantelamento do Departamento de Educação e destinou US$ 4 bilhões de ajuda militar para Israel, decisões que cabem ao Congresso. Estudantes e funcionários estão sendo perseguidos.
As demissões sumárias de funcionários encarregados de fiscalizar o governo estão sendo derrubadas na Justiça. A Suprema Corte suspendeu na sexta-feira a demissão de Hampton Dellinger, diretor do Escritório do Procurador Especial, que recebe denúncias de irregularidades no governo.
Em fevereiro, Trump aboliu uma lei de Nova York que taxa veículos na hora do rush. A governadora Kathy Hochul disse que o presidente não poderia interferir em lei estadual, e que eles se encontrariam no tribunal. Trump postou: “Aquele que salva seu país não viola nenhuma lei”, uma frase atribuída ao imperador Napoleão Bonaparte.
Na sexta-feira, Trump, 47.º presidente dos EUA, anunciou o nome do próximo caça: F-47. Os anteriores foram F-34 e F35. Nem sempre os aviões seguem a ordem, mas nunca tinha havido um salto desse para homenagear um presidente.
Sua política externa é norteada por planos de colonizar Ucrânia, Faixa de Gaza, Canadá, Groenlândia e Panamá, e deixar que as outras potências imperialistas, China e Rússia, façam o mesmo com seus vizinhos.
Depois de tentar impor à Ucrânia um contrato pelo qual os EUA ficariam com a metade das receitas dos minérios e da infraestrutura do país, agora Trump quer se apropriar da rede de geração e transmissão de energia, enquanto entrega à Rússia as áreas por ela ocupadas.
O presidente não conseguirá se tornar um imperador, mas suas tentativas causarão fraturas na democracia americana e na ordem internacional baseada em regras.
Trump invocou na calada da noite do dia 14 a Lei do Estrangeiro Inimigo, para deportar 137 venezuelanos sem o devido processo legal. A lei, de 1798, só pode ser aplicada durante guerras. No dia seguinte, ignorou a ordem do juiz James Boasberg de suspensão das deportações para El Salvador e retorno dos aviões que já tivessem decolado.
O responsável por imigração da Casa Branca, Tom Homan, declarou: “Eu não me importo com o que juízes pensam”. Trump postou que o juiz devia sofrer impeachment. Numa rara manifestação pública, o presidente da Suprema Corte, o conservador Robert Smith, qualificou a ideia de “inacreditavelmente perigosa”.
Trump decretou o desmantelamento do Departamento de Educação e destinou US$ 4 bilhões de ajuda militar para Israel, decisões que cabem ao Congresso. Estudantes e funcionários estão sendo perseguidos.
As demissões sumárias de funcionários encarregados de fiscalizar o governo estão sendo derrubadas na Justiça. A Suprema Corte suspendeu na sexta-feira a demissão de Hampton Dellinger, diretor do Escritório do Procurador Especial, que recebe denúncias de irregularidades no governo.
Em fevereiro, Trump aboliu uma lei de Nova York que taxa veículos na hora do rush. A governadora Kathy Hochul disse que o presidente não poderia interferir em lei estadual, e que eles se encontrariam no tribunal. Trump postou: “Aquele que salva seu país não viola nenhuma lei”, uma frase atribuída ao imperador Napoleão Bonaparte.
Na sexta-feira, Trump, 47.º presidente dos EUA, anunciou o nome do próximo caça: F-47. Os anteriores foram F-34 e F35. Nem sempre os aviões seguem a ordem, mas nunca tinha havido um salto desse para homenagear um presidente.
Sua política externa é norteada por planos de colonizar Ucrânia, Faixa de Gaza, Canadá, Groenlândia e Panamá, e deixar que as outras potências imperialistas, China e Rússia, façam o mesmo com seus vizinhos.
Depois de tentar impor à Ucrânia um contrato pelo qual os EUA ficariam com a metade das receitas dos minérios e da infraestrutura do país, agora Trump quer se apropriar da rede de geração e transmissão de energia, enquanto entrega à Rússia as áreas por ela ocupadas.
O presidente não conseguirá se tornar um imperador, mas suas tentativas causarão fraturas na democracia americana e na ordem internacional baseada em regras.
Anticiência em nosso planeta hoje
Na trilogia de Cixin Liu, The Three-Body Problem Series, as forças que pretendem destruir os cientistas, e assim acabar com a produção de ciência na Terra, vêm do espaço sideral. O primeiro volume da trilogia foi adaptado como uma série pela Netflix. Os alienígenas planejam invadir o nosso planeta num futuro em que, sem ciência e tecnologia de ponta de defesa, seríamos incapazes de enfrentar uma invasão extraterrestre.
Hoje, a anticiência pode provir da política, da religião ou de ideologias fortemente arraigadas, das redes sociais e de interesses econômicos distintos. As forças destrutivas da anticiência terráquea vêm de vários cantos, inclusive de países governados pela extrema direita, hoje representada pelas políticas implementadas pelo governo Trump. Os ataques à ciência que se praticam nos Estados Unidos da América são amplamente comentados por revistas e por associações no mundo todo.
A postura da comunidade científica internacional pode-se resumir traduzindo o início de um recente artigo da revista Nature: “Trump 2.0: um ataque à ciência em qualquer lugar é um ataque à ciência em qualquer lugar. O presidente dos EUA, Donald Trump, pretende demolir a ciência e as instituições internacionais. A comunidade científica global deve tomar uma posição contra estes ataques.”
Outro exemplo de anticiência vinda do Estado é visível na Hungria. Em várias declarações onde se diz desfavorável à preocupação global a respeito das mudanças climáticas, Viktor Orbán, primeiro-ministro de extrema direita da Hungria, declara: “As ‘elites ocidentais’ estão demasiado preocupadas com as quotas de carbono e não o suficiente com a queda das taxas de natalidade”. Isso sem falar da cruzada do Viktor Orbán contra a liberdade acadêmica, exemplificada pelo fechamento da Universidade Centro-Europeia (CEU).
Para fechar esta curta lista de exemplos de Estados anticiência, é mister não esquecer que a postura anticiência do governo Bolsonaro não é coincidência: foi um projeto que se mostrou incompatível com a ciência, com a tecnologia, com o desenvolvimento sustentável desde seu início. Além de perseguir o ensino superior e toda a criação de ciência vinda das universidades públicas, foi responsável pela demora na vacinação contra covid, que causou mais de setecentas mil mortes no Brasil.
Os movimentos anticiência, contudo, não se reduzem às políticas de Estado e podem ser identificados nos extremos do espectro político. Caminhos anticiência conspiram, hoje, para desacreditar todo o universo da ciência e os cientistas em particular. Segmentos sociais militam contra determinadas áreas da ciência somando-se a fenômenos identitários. Muitos oferecem explicações (e aplicações) distantes de quaisquer evidências científicas ou criam universos paralelos onde sequer os fenômenos observáveis são aceitos como realidades.
O movimento antivax, por exemplo, é global, pode-se encontrar em setores da direita e da esquerda e constitui um dos mais poderosos grupos anticiência do planeta. A Organização Mundial da Saúde (OMS) identificou a hesitação vacinal como uma das ameaças à saúde global. De fato, os antivax podem ser responsabilizados pelos aumentos recentes de algumas das principais doenças, que incluem: sarampo, coqueluche, caxumba, rubéola e difteria. É bom lembrar que os movimentos antivax não se limitam a mentir sobre os efeitos deletérios de todas as vacinas, mas são ativamente contrários à pesquisa sobre vacinas e a toda a ciência que sustenta esta pesquisa. A variedade de teorias da conspiração antivacina, anticiência, e que também perseguem cientistas, é tamanha que requer um tratado até para descrevê-las. Muitas, porém, usam elementos que afirmam que os cientistas estão trabalhando para satisfazer a interesses escusos de grupos econômicos ou políticos.
As redes sociais produziram uma avalanche de mentiras e de pseudocientistas que se transformam nos arautos da anticiência em temas específicos. A sequência de aparição dos pseudocientistas é sempre similar, a apresentação de um currículo, real ou imaginário, apresentando credenciais, seguido por um longo discurso que tenta convencer que as vacinas matam ou que são só as grandes empresas que atacam a homeopatia.
A retórica anticientífica pode, também, ser alimentada por empresas, como demonstrado na negação, durante décadas, dos efeitos deletérios do consumo de tabaco pela indústria do cigarro ou por empresas de energia que minimizam as alterações climáticas.
A oposição aos movimentos anticiência requer, necessariamente, justificativas da defesa da ciência, e, por consequência, dos cientistas. Reconhecer que nem toda ciência trouxe benefícios para a humanidade, ou que vacinas podem ter efeitos colaterais perigosos, faz parte da defesa da ciência que existe e a que necessariamente deve conduzir a humanidade a novos conhecimentos.
A decisão política de realizar o Projeto Manhattan, que associou cientistas brilhantes para desenvolver a primeira bomba atômica, é bem conhecida. Os efeitos trágicos dos bombardeios atômicos em Hiroshima e Nagasaki têm origem na física, que descobriu a transformação de matéria em energia. Ao mesmo tempo, o uso pacífico da energia nuclear é evidente e os reflexos da ciência que hoje conhecemos sobre radioatividade têm papel crucial na medicina. Novas descobertas sobre reatores nucleares de fissão seguros, ou reatores de fusão, podem mudar a forma em que recebemos energia e colaborar para a diminuição do aumento da temperatura no planeta. Assim, reconhecendo as tragédias de Hiroshima e Nagasaki, bem como a ameaça constante de países que dominam a tecnologia capaz de produzir bombas atômicas, as descobertas da física determinaram muitos dos avanços recentes da humanidade que nos permitiram elevar a expectativa de vida, a qualidade de vida e a nossa capacidade de comunicação nestes últimos cem anos. Descobertas futuras da ciência podem, assim espero, evitar a desaparição da espécie humana nos próximos séculos por causa dos fenômenos extremos, que já estamos observando, causados pelas mudanças climáticas.
Já as vacinas, que tomo como outro exemplo, têm sim efeitos colaterais que podem ser graves, mas são raros e sua ocorrência é tão baixa que os benefícios excedem em muitas ordens de magnitude os possíveis efeitos deletérios. Tomo como exemplo a vacina MMR, que protege as crianças contra sarampo, caxumba e rubéola. Esta vacina pode, sim, causar alergias perigosas numa taxa de uma em um milhão de doses aplicadas. Por outro lado, a taxa de mortalidade de crianças por sarampo das crianças não vacinadas é de três por mil doentes. Embora a mortalidade por caxumba seja extremamente baixa, as complicações decorrentes da doença têm uma mortalidade que varia de quatro a dez por cento. A mortalidade por rubéola varia com local e condição econômica e sanitária do doente, mas pode representar entre 1 e 0,1 por cento, sem considerar as complicações decorrentes da infecção pelo vírus. Também está amplamente provado que, apesar das teorias da conspiração dizendo o contrário, a vacina MMR não tem relação alguma com a aparição do transtorno autista. Olhando para as probabilidades de aparição de efeitos secundários e comparando aos perigos de mortes por doença, é evidente que a vacinação por MMR é absolutamente necessária.
Sem ter que temer por agora desafios vindos do espaço sideral, a anticiência na Terra deve ser enfrentada. Somente a ciência existente e aquela que a humanidade ainda deve criar podem continuar a nos tornar mais cientes do nosso mundo e evitar a desaparição de nossa espécie por novas pandemias ou por fenômenos extremos causados pelas mudanças climáticas.
Hoje, a anticiência pode provir da política, da religião ou de ideologias fortemente arraigadas, das redes sociais e de interesses econômicos distintos. As forças destrutivas da anticiência terráquea vêm de vários cantos, inclusive de países governados pela extrema direita, hoje representada pelas políticas implementadas pelo governo Trump. Os ataques à ciência que se praticam nos Estados Unidos da América são amplamente comentados por revistas e por associações no mundo todo.
A postura da comunidade científica internacional pode-se resumir traduzindo o início de um recente artigo da revista Nature: “Trump 2.0: um ataque à ciência em qualquer lugar é um ataque à ciência em qualquer lugar. O presidente dos EUA, Donald Trump, pretende demolir a ciência e as instituições internacionais. A comunidade científica global deve tomar uma posição contra estes ataques.”
Outro exemplo de anticiência vinda do Estado é visível na Hungria. Em várias declarações onde se diz desfavorável à preocupação global a respeito das mudanças climáticas, Viktor Orbán, primeiro-ministro de extrema direita da Hungria, declara: “As ‘elites ocidentais’ estão demasiado preocupadas com as quotas de carbono e não o suficiente com a queda das taxas de natalidade”. Isso sem falar da cruzada do Viktor Orbán contra a liberdade acadêmica, exemplificada pelo fechamento da Universidade Centro-Europeia (CEU).
Para fechar esta curta lista de exemplos de Estados anticiência, é mister não esquecer que a postura anticiência do governo Bolsonaro não é coincidência: foi um projeto que se mostrou incompatível com a ciência, com a tecnologia, com o desenvolvimento sustentável desde seu início. Além de perseguir o ensino superior e toda a criação de ciência vinda das universidades públicas, foi responsável pela demora na vacinação contra covid, que causou mais de setecentas mil mortes no Brasil.
Os movimentos anticiência, contudo, não se reduzem às políticas de Estado e podem ser identificados nos extremos do espectro político. Caminhos anticiência conspiram, hoje, para desacreditar todo o universo da ciência e os cientistas em particular. Segmentos sociais militam contra determinadas áreas da ciência somando-se a fenômenos identitários. Muitos oferecem explicações (e aplicações) distantes de quaisquer evidências científicas ou criam universos paralelos onde sequer os fenômenos observáveis são aceitos como realidades.
O movimento antivax, por exemplo, é global, pode-se encontrar em setores da direita e da esquerda e constitui um dos mais poderosos grupos anticiência do planeta. A Organização Mundial da Saúde (OMS) identificou a hesitação vacinal como uma das ameaças à saúde global. De fato, os antivax podem ser responsabilizados pelos aumentos recentes de algumas das principais doenças, que incluem: sarampo, coqueluche, caxumba, rubéola e difteria. É bom lembrar que os movimentos antivax não se limitam a mentir sobre os efeitos deletérios de todas as vacinas, mas são ativamente contrários à pesquisa sobre vacinas e a toda a ciência que sustenta esta pesquisa. A variedade de teorias da conspiração antivacina, anticiência, e que também perseguem cientistas, é tamanha que requer um tratado até para descrevê-las. Muitas, porém, usam elementos que afirmam que os cientistas estão trabalhando para satisfazer a interesses escusos de grupos econômicos ou políticos.
As redes sociais produziram uma avalanche de mentiras e de pseudocientistas que se transformam nos arautos da anticiência em temas específicos. A sequência de aparição dos pseudocientistas é sempre similar, a apresentação de um currículo, real ou imaginário, apresentando credenciais, seguido por um longo discurso que tenta convencer que as vacinas matam ou que são só as grandes empresas que atacam a homeopatia.
A retórica anticientífica pode, também, ser alimentada por empresas, como demonstrado na negação, durante décadas, dos efeitos deletérios do consumo de tabaco pela indústria do cigarro ou por empresas de energia que minimizam as alterações climáticas.
A oposição aos movimentos anticiência requer, necessariamente, justificativas da defesa da ciência, e, por consequência, dos cientistas. Reconhecer que nem toda ciência trouxe benefícios para a humanidade, ou que vacinas podem ter efeitos colaterais perigosos, faz parte da defesa da ciência que existe e a que necessariamente deve conduzir a humanidade a novos conhecimentos.
A decisão política de realizar o Projeto Manhattan, que associou cientistas brilhantes para desenvolver a primeira bomba atômica, é bem conhecida. Os efeitos trágicos dos bombardeios atômicos em Hiroshima e Nagasaki têm origem na física, que descobriu a transformação de matéria em energia. Ao mesmo tempo, o uso pacífico da energia nuclear é evidente e os reflexos da ciência que hoje conhecemos sobre radioatividade têm papel crucial na medicina. Novas descobertas sobre reatores nucleares de fissão seguros, ou reatores de fusão, podem mudar a forma em que recebemos energia e colaborar para a diminuição do aumento da temperatura no planeta. Assim, reconhecendo as tragédias de Hiroshima e Nagasaki, bem como a ameaça constante de países que dominam a tecnologia capaz de produzir bombas atômicas, as descobertas da física determinaram muitos dos avanços recentes da humanidade que nos permitiram elevar a expectativa de vida, a qualidade de vida e a nossa capacidade de comunicação nestes últimos cem anos. Descobertas futuras da ciência podem, assim espero, evitar a desaparição da espécie humana nos próximos séculos por causa dos fenômenos extremos, que já estamos observando, causados pelas mudanças climáticas.
Já as vacinas, que tomo como outro exemplo, têm sim efeitos colaterais que podem ser graves, mas são raros e sua ocorrência é tão baixa que os benefícios excedem em muitas ordens de magnitude os possíveis efeitos deletérios. Tomo como exemplo a vacina MMR, que protege as crianças contra sarampo, caxumba e rubéola. Esta vacina pode, sim, causar alergias perigosas numa taxa de uma em um milhão de doses aplicadas. Por outro lado, a taxa de mortalidade de crianças por sarampo das crianças não vacinadas é de três por mil doentes. Embora a mortalidade por caxumba seja extremamente baixa, as complicações decorrentes da doença têm uma mortalidade que varia de quatro a dez por cento. A mortalidade por rubéola varia com local e condição econômica e sanitária do doente, mas pode representar entre 1 e 0,1 por cento, sem considerar as complicações decorrentes da infecção pelo vírus. Também está amplamente provado que, apesar das teorias da conspiração dizendo o contrário, a vacina MMR não tem relação alguma com a aparição do transtorno autista. Olhando para as probabilidades de aparição de efeitos secundários e comparando aos perigos de mortes por doença, é evidente que a vacinação por MMR é absolutamente necessária.
Sem ter que temer por agora desafios vindos do espaço sideral, a anticiência na Terra deve ser enfrentada. Somente a ciência existente e aquela que a humanidade ainda deve criar podem continuar a nos tornar mais cientes do nosso mundo e evitar a desaparição de nossa espécie por novas pandemias ou por fenômenos extremos causados pelas mudanças climáticas.
Emojis não servem para gritar
As palavras somem. Aos poucos, já que são milhares. Somem e, sem que percebamos, esquecemo-las. E sem serem ditas, também seus significados e sentidos desaparecem. A cada palavra escondida, ideias e conceitos deixam de habitar nossas percepções. Com o tempo, as palavras, ao serem retiradas, proibidas, camufladas, censuradas, diminuem a complexidade de nossa relação crítica com o real. Acostumamo-nos a viver sem elas, sem seus valores, suas informações, seus ruídos e incômodos. Em cada “menos uma palavra”, o sentimento de civilidade é estreitado, até não sabermos mais nomear o que nos impede de pensar, falar e agir, pois não acessamos mais seus códigos.
Essa é a dimensão perigosa das 200 palavras censuradas pelo governo americano em suas páginas, seus informativos e nas pesquisas divulgadas por acadêmicos e cientistas, inclusive nas investigações médicas. O projeto de silenciamento da extrema-direita não busca apenas impedir a difusão de ideias, quer eliminar quaisquer princípios que atinjam diretamente sua esfera de atuação. Para isso, é preciso circunscrever primeiro o pensamento pelo proibitivo, o resto, calculam, será mera consequência.
Ainda esta semana, assisti a série britânica Adolescência. Além da importante exposição de como grupos extremistas de homens brancos têm se infiltrado na mente de adolescentes, com suas propostas violentas sobre o tratamento a ser dado às mulheres, um aspecto passou ao lado nas boas e necessárias reflexões que se espalham em jornais e sites: os emojis e suas funções nada decorativas.
Quando surgiram no Japão, em 1999, havia um interesse em tornar lúdico certas simplificações banais ou sentimentos comuns. Dez anos depois, então padronizados pelo Unicode Consortium, ganharam capacidade de uso global. Depende do interesse e da aceitação das maiores big techs do planeta, o desenvolvimento de novos emojis, e das tecnologias disponíveis para representações mais elaboradas. As primeiras variações de tons de pele, por exemplo, só foram possíveis (e aceitas) em 2015, com a nova tecnologia cromática; os primeiros casais interraciais e as diversidades de gêneros em profissões, em 2016; as primeiras figuras com deficiências, apenas em 2019.
Uma vez que emojis substituírem expressões, sensações e sentimentos, o óbvio é que se firmem como linguagem da nova formação do indivíduo, agora condicionada ao convívio e ao uso dos meios tecnológicos. Pelas redes sociais e trocas de mensagens nos celulares, cada vez mais extensivos dos corpos, adquiriam um vocabulário cifrado e geracional.
As palavras, já limitadas com abreviações aleatórias ou excessivamente minimalistas, reduzem-se na mesma velocidade em que são trocadas por emojis e por frases sugestionadas pelos próprios aparelhos, quando anteveem o pensamento, a partir do mais previsível e repetitivo no repertório de cada pessoa.
A série Adolescência narra o uso desse vocabulário imagético para doutrinações radicais por extremistas. É impossível aos jovens (e não só) escapar desse convívio, pois o universo passou a reduzir a informação sobre quase tudo pelos significados escondidos em cada emoji. Portanto, estamos, de forma inédita, profundamente separados e incapazes de compreender sobre e como conversam quem os utiliza. Sem o acesso, no desconhecimento, não há o que proteger e desconstruir. Estamos limitados ao encontro com as consequências, sem nos darmos conta dos processos e encaminhamento das relações.
Em 2017, o desafio da baleia azul chegava às crianças e adolescentes por meio de um emoji. Nos 50 desafios, entre privação do sono, mutilações e colocar-se em situação de risco, deixar de comer, assistir filmes de terror, deixar de falar, afastar-se da família, enquanto era acompanhada por um “curador”, a pessoa era estimulada, por último, a cometer suicídio. Criado na Rússia, o argumento de seus desenvolvedores era de limpar a sociedade dos mais fracos.
O isolamento linguístico, seja pelo surgimento de um vocabulário cifrado, seja pelo apagamento de palavras, é um movimento ao suicídio social. Seu objetivo é destruir o pilar de sua sustentação, a democracia — por maiores que sejam seus problemas —, tornar o indivíduo manipulável ao pior: subserviente e descartável, em nome de um bem deformado do que deve ser a sociedade perfeita.
Qual a saída? O primeiro aspecto é reconhecer que vivenciamos uma nova forma de crise, desta vez, com a linguagem sob ataque. A fabricação de crises, desde sempre, é interessada por controlar a sociedade e as pessoas, precarizando aspectos específicos. Ora econômicos, políticos, sociais, ora, como agora, culturais, também pela precarização e inacessibilidade da linguagem. Perceber surgir sem aviso, instalar-se ao imaginário, governar por emoções como medo e ansiedade e, então, apatia. Reagir a isso requer subverter as paixões tristes, como nomeia Dario Gentili, em desejo revolucionário, coletivo, entusiástico. Algo que precisa ocorrer em duas esferas: a íntima e a pública.
Portanto, devemos conversar mais. Sentarmo-nos juntos para falar, ouvir, rir e chorar. Juntar os amigos e esquecer os aparelhos. Debater as ideias, deixar-se invadir pelo desejo do debate, assimilar e oferecer conceitos entre pessoas diversas. Apaixonar-se pelo exercício do pensamento e da memória crítica. Divertir-se ao perceber sempre ser possível ir mais e mais profundo. E desenvolver uma real curiosidade por tudo, sobre acontecimentos, pessoas, sobre os sentidos das coisas e como usamos as palavras. Para, depois, irmos ao mundo.
E nele, nas ruas, ainda que nos tomem as palavras e dizê-las seja perigoso, usar da voz, do grito como possibilidade criativa, libertadora, para além da linguagem controlada e dominada. O grito como resistência às opressões. Sem lhe darmos formas gastas, sem querer traduções, apenas movimento e afirmação de presença.
Por fim, inventemos palavras para sermos incontroláveis. Enquanto as censuras ocorrerem ao conhecido e os vocabulários forem manipulados por extremistas, que se crie outros e outros, e quantos forem necessários. Somente assim, com palavras novas entre os dentes, os gritos poderão reagir ao que agora parece impossível de interromper. Como fizera Antônio Bispo. Gritar como forma de confluir palavras com o futuro.
Ainda esta semana, assisti a série britânica Adolescência. Além da importante exposição de como grupos extremistas de homens brancos têm se infiltrado na mente de adolescentes, com suas propostas violentas sobre o tratamento a ser dado às mulheres, um aspecto passou ao lado nas boas e necessárias reflexões que se espalham em jornais e sites: os emojis e suas funções nada decorativas.
Quando surgiram no Japão, em 1999, havia um interesse em tornar lúdico certas simplificações banais ou sentimentos comuns. Dez anos depois, então padronizados pelo Unicode Consortium, ganharam capacidade de uso global. Depende do interesse e da aceitação das maiores big techs do planeta, o desenvolvimento de novos emojis, e das tecnologias disponíveis para representações mais elaboradas. As primeiras variações de tons de pele, por exemplo, só foram possíveis (e aceitas) em 2015, com a nova tecnologia cromática; os primeiros casais interraciais e as diversidades de gêneros em profissões, em 2016; as primeiras figuras com deficiências, apenas em 2019.
Uma vez que emojis substituírem expressões, sensações e sentimentos, o óbvio é que se firmem como linguagem da nova formação do indivíduo, agora condicionada ao convívio e ao uso dos meios tecnológicos. Pelas redes sociais e trocas de mensagens nos celulares, cada vez mais extensivos dos corpos, adquiriam um vocabulário cifrado e geracional.
As palavras, já limitadas com abreviações aleatórias ou excessivamente minimalistas, reduzem-se na mesma velocidade em que são trocadas por emojis e por frases sugestionadas pelos próprios aparelhos, quando anteveem o pensamento, a partir do mais previsível e repetitivo no repertório de cada pessoa.
A série Adolescência narra o uso desse vocabulário imagético para doutrinações radicais por extremistas. É impossível aos jovens (e não só) escapar desse convívio, pois o universo passou a reduzir a informação sobre quase tudo pelos significados escondidos em cada emoji. Portanto, estamos, de forma inédita, profundamente separados e incapazes de compreender sobre e como conversam quem os utiliza. Sem o acesso, no desconhecimento, não há o que proteger e desconstruir. Estamos limitados ao encontro com as consequências, sem nos darmos conta dos processos e encaminhamento das relações.
Em 2017, o desafio da baleia azul chegava às crianças e adolescentes por meio de um emoji. Nos 50 desafios, entre privação do sono, mutilações e colocar-se em situação de risco, deixar de comer, assistir filmes de terror, deixar de falar, afastar-se da família, enquanto era acompanhada por um “curador”, a pessoa era estimulada, por último, a cometer suicídio. Criado na Rússia, o argumento de seus desenvolvedores era de limpar a sociedade dos mais fracos.
O isolamento linguístico, seja pelo surgimento de um vocabulário cifrado, seja pelo apagamento de palavras, é um movimento ao suicídio social. Seu objetivo é destruir o pilar de sua sustentação, a democracia — por maiores que sejam seus problemas —, tornar o indivíduo manipulável ao pior: subserviente e descartável, em nome de um bem deformado do que deve ser a sociedade perfeita.
Qual a saída? O primeiro aspecto é reconhecer que vivenciamos uma nova forma de crise, desta vez, com a linguagem sob ataque. A fabricação de crises, desde sempre, é interessada por controlar a sociedade e as pessoas, precarizando aspectos específicos. Ora econômicos, políticos, sociais, ora, como agora, culturais, também pela precarização e inacessibilidade da linguagem. Perceber surgir sem aviso, instalar-se ao imaginário, governar por emoções como medo e ansiedade e, então, apatia. Reagir a isso requer subverter as paixões tristes, como nomeia Dario Gentili, em desejo revolucionário, coletivo, entusiástico. Algo que precisa ocorrer em duas esferas: a íntima e a pública.
Portanto, devemos conversar mais. Sentarmo-nos juntos para falar, ouvir, rir e chorar. Juntar os amigos e esquecer os aparelhos. Debater as ideias, deixar-se invadir pelo desejo do debate, assimilar e oferecer conceitos entre pessoas diversas. Apaixonar-se pelo exercício do pensamento e da memória crítica. Divertir-se ao perceber sempre ser possível ir mais e mais profundo. E desenvolver uma real curiosidade por tudo, sobre acontecimentos, pessoas, sobre os sentidos das coisas e como usamos as palavras. Para, depois, irmos ao mundo.
E nele, nas ruas, ainda que nos tomem as palavras e dizê-las seja perigoso, usar da voz, do grito como possibilidade criativa, libertadora, para além da linguagem controlada e dominada. O grito como resistência às opressões. Sem lhe darmos formas gastas, sem querer traduções, apenas movimento e afirmação de presença.
Por fim, inventemos palavras para sermos incontroláveis. Enquanto as censuras ocorrerem ao conhecido e os vocabulários forem manipulados por extremistas, que se crie outros e outros, e quantos forem necessários. Somente assim, com palavras novas entre os dentes, os gritos poderão reagir ao que agora parece impossível de interromper. Como fizera Antônio Bispo. Gritar como forma de confluir palavras com o futuro.
A presidência de Tom e Daisy
O segundo governo Trump parece ter aprendido algumas lições com o primeiro. Por exemplo, mesmo quando os tribunais eventualmente derrubam as políticas do governo, há táticas que podem manter essas políticas em vigor por tempo suficiente para causar bastante dano.
Os tribunais só podem fazer muito quando o objetivo de impor uma política não é vencer, mas sim quebrar as coisas e, como F. Scott Fitzgerald escreveu em "O Grande Gatsby", "deixar que outras pessoas limpem a bagunça que fizeram".
Para todas as intervenções judiciais que vimos nas primeiras oito semanas da nova administração Trump, assustadoramente pouco mudou no local. Grande parte do dinheiro federal congelado ilegalmente ainda está congelado; muitos dos funcionários federais demitidos ilegalmente ainda estão sem trabalho. Mahmoud Khalil, o graduado da Columbia e portador do green card preso em 8 de março em Nova York por motivos legais excepcionalmente tênues, continua em um centro de detenção de imigração na Louisiana.
O problema central não é que os tribunais tenham mantido ações legalmente duvidosas, ou mesmo que a Casa Branca esteja desafiando abertamente decisões adversas. Em vez disso, parece que o caos e a interrupção são eles próprios a chave para o objetivo do presidente Trump.
A invocação do Alien Enemies Act pelo Sr. Trump em 15 de março, em uma tentativa de acelerar seu esforço de deportação em massa, é um bom exemplo desse fenômeno. O estatuto de 227 anos, que tinha a intenção de dar ao governo ampla autoridade sobre uma classe restrita de estrangeiros presentes nessas praias durante a guerra, não pode ser plausivelmente aplicado a cidadãos de países com os quais estamos em paz. Embora o estatuto se aplique não apenas em tempos de guerra declarada, mas também durante períodos de "invasão ou incursão predatória", essa invasão ou incursão deve ser "por qualquer nação ou governo estrangeiro".
Pode haver algum fascínio em se referir a travessias de fronteira não autorizadas como "invasões", mas a Casa Branca teria dificuldade em identificar qual "nação ou governo estrangeiro" está formalmente por trás delas. Rotular a gangue venezuelana Tren de Aragua como uma organização terrorista estrangeira — ou mesmo, como a ordem executiva a chama, um "estado criminoso híbrido" — não significa que ela esteja envolvida em uma invasão dos Estados Unidos da maneira como o Congresso de 1798 usou, ou pretendia que futuros políticos usassem, o termo.
Em todo caso, ao invocar o ato de 1798, o Sr. Trump usou uma parte da legislação que prevê expressamente a supervisão judicial. Isso significa que os tribunais imediatamente tiveram um papel significativo a desempenhar ao apontar as deficiências lógicas de rotular gangues invasoras de exércitos. Eles terão um papel a desempenhar também na questão ainda mais complicada de como o governo prova que detentos individuais são membros do Tren de Aragua.
Invocar o Alien Enemies Act tem muito em comum com uma série de outros empreendimentos divisivos do Sr. Trump — como seu esforço para restringir a cidadania por direito de nascença por ordem executiva; seu uso do Migrant Operations Center na Baía de Guantánamo, Cuba, como uma estação de passagem de curto prazo para deter um pequeno número de estrangeiros aguardando sua deportação (muitos dos quais foram rapidamente, embora a um custo alto, devolvidos aos Estados Unidos); e, mais recentemente, o caso do Sr. Khalil. Em todos esses contextos, as chances são maiores do que não de que, quando o litígio desafiando as ações do governo Trump tiver seguido seu curso, os juízes decidirão contra as ações do governo.
Essas prováveis vitórias, se é que podemos chamá-las assim, podem se mostrar vazias. Mesmo que os tribunais decidam repetidamente contra o Sr. Trump, anular prisões de imigrantes ilegais e liberar indivíduos de detenções de imigrantes ilegais não desfaz o dano que eles sofreram ao serem presos e detidos em primeiro lugar. O que resta é o medo mais amplo que isso instila nas comunidades de imigrantes de que eles podem ser os próximos, e o comportamento que é resfriado ou restringido como resultado. Da mesma forma, ordenar que o governo volte a abrir as torneiras de gastos que ele congelou ilegalmente não pode desfazer o dano sofrido pelos beneficiários privados de financiamento de missão crítica nesse ínterim. Bloquear uma ordem executiva destinada a intimidar escritórios de advocacia para não representar ex-funcionários do governo não desfaz a mensagem sobre outras maneiras pelas quais o governo pode tentar retaliar aqueles que não seguem a linha do partido. E tudo isso pressupõe que a Casa Branca realmente cumpra as decisões dos tribunais, um ponto no qual talvez não possamos confiar.
Normalmente, vítimas de conduta ilícita podem processar por danos, um direito fornecido não apenas para interromper o comportamento ilícito enquanto ele está acontecendo, mas também para reparar os ferimentos que sofreram durante e por causa dessa conduta. Tais processos estão disponíveis não apenas para compensar as vítimas por suas perdas, mas também para punir os maus atores se sua conduta foi suficientemente maliciosa. A ideia central é que os danos não são apenas compensatórios; eles devem fornecer um impedimento significativo contra conduta conscientemente ilícita em primeiro lugar.
Para o bem ou para o mal, não há nenhuma entidade nos Estados Unidos contra a qual seja mais difícil obter indenização do que o governo federal. Sob a doutrina da imunidade soberana, o próprio governo pode ser processado por indenização somente quando o Congresso o autoriza. Essas autorizações têm sido, historicamente, poucas e distantes entre si; a última expansão significativa ocorreu em 1976. Para explicar a dificuldade de tentar processar o governo diretamente, a Suprema Corte reconheceu em 1971 circunstâncias nas quais vítimas de violações flagrantes de direitos constitucionais podem buscar indenização dos oficiais federais individuais que são responsáveis, mas o tribunal nos últimos oito anos praticamente anulou essa decisão.
Assim, se os tribunais finalmente descobrirem que o comportamento do governo nas últimas oito semanas foi ilegal ou mesmo inconstitucional, isso pode ser uma forma de alívio amplamente vazia, tanto para as partes prejudicadas quanto para os cidadãos. Nada, é claro, pode compensar a turbulência emocional e a convulsão para as quais a administração enviou intencionalmente muitas organizações e indivíduos para contar. Também não há nada que desencoraje a administração de tentar medidas ilegais semelhantes novamente.
A lição óbvia de longo prazo é para o Congresso — que, entre muitas outras coisas, deve tornar muito mais fácil para vítimas de comportamento federal ilícito obter reparação judicial. Mas a lição de curto prazo é para nós, o povo.
Os tribunais federais, até este ponto, fizeram um trabalho notável de impor limites legais e constitucionais ao poder executivo. E há todos os motivos para esperar que eles continuem a fazê-lo. Nesse aspecto, os tribunais podem muito bem acabar salvando o estado de direito. Mas para serem totalmente eficazes, muitos dos nossos direitos legais dependem não apenas de recursos judiciais, mas também políticos. Isso envolve tanto uma nova legislação quanto uma supervisão muito mais agressiva de membros do Congresso bem-vindos à mudança do ambiente político partidário e à reafirmação de freios e contrapesos contra os outros poderes do governo. Tudo isso tornará muito mais difícil para os presidentes quebrarem as coisas no futuro.
Os tribunais só podem fazer muito quando o objetivo de impor uma política não é vencer, mas sim quebrar as coisas e, como F. Scott Fitzgerald escreveu em "O Grande Gatsby", "deixar que outras pessoas limpem a bagunça que fizeram".
Para todas as intervenções judiciais que vimos nas primeiras oito semanas da nova administração Trump, assustadoramente pouco mudou no local. Grande parte do dinheiro federal congelado ilegalmente ainda está congelado; muitos dos funcionários federais demitidos ilegalmente ainda estão sem trabalho. Mahmoud Khalil, o graduado da Columbia e portador do green card preso em 8 de março em Nova York por motivos legais excepcionalmente tênues, continua em um centro de detenção de imigração na Louisiana.
O problema central não é que os tribunais tenham mantido ações legalmente duvidosas, ou mesmo que a Casa Branca esteja desafiando abertamente decisões adversas. Em vez disso, parece que o caos e a interrupção são eles próprios a chave para o objetivo do presidente Trump.
A invocação do Alien Enemies Act pelo Sr. Trump em 15 de março, em uma tentativa de acelerar seu esforço de deportação em massa, é um bom exemplo desse fenômeno. O estatuto de 227 anos, que tinha a intenção de dar ao governo ampla autoridade sobre uma classe restrita de estrangeiros presentes nessas praias durante a guerra, não pode ser plausivelmente aplicado a cidadãos de países com os quais estamos em paz. Embora o estatuto se aplique não apenas em tempos de guerra declarada, mas também durante períodos de "invasão ou incursão predatória", essa invasão ou incursão deve ser "por qualquer nação ou governo estrangeiro".
Pode haver algum fascínio em se referir a travessias de fronteira não autorizadas como "invasões", mas a Casa Branca teria dificuldade em identificar qual "nação ou governo estrangeiro" está formalmente por trás delas. Rotular a gangue venezuelana Tren de Aragua como uma organização terrorista estrangeira — ou mesmo, como a ordem executiva a chama, um "estado criminoso híbrido" — não significa que ela esteja envolvida em uma invasão dos Estados Unidos da maneira como o Congresso de 1798 usou, ou pretendia que futuros políticos usassem, o termo.
Em todo caso, ao invocar o ato de 1798, o Sr. Trump usou uma parte da legislação que prevê expressamente a supervisão judicial. Isso significa que os tribunais imediatamente tiveram um papel significativo a desempenhar ao apontar as deficiências lógicas de rotular gangues invasoras de exércitos. Eles terão um papel a desempenhar também na questão ainda mais complicada de como o governo prova que detentos individuais são membros do Tren de Aragua.
Invocar o Alien Enemies Act tem muito em comum com uma série de outros empreendimentos divisivos do Sr. Trump — como seu esforço para restringir a cidadania por direito de nascença por ordem executiva; seu uso do Migrant Operations Center na Baía de Guantánamo, Cuba, como uma estação de passagem de curto prazo para deter um pequeno número de estrangeiros aguardando sua deportação (muitos dos quais foram rapidamente, embora a um custo alto, devolvidos aos Estados Unidos); e, mais recentemente, o caso do Sr. Khalil. Em todos esses contextos, as chances são maiores do que não de que, quando o litígio desafiando as ações do governo Trump tiver seguido seu curso, os juízes decidirão contra as ações do governo.
Essas prováveis vitórias, se é que podemos chamá-las assim, podem se mostrar vazias. Mesmo que os tribunais decidam repetidamente contra o Sr. Trump, anular prisões de imigrantes ilegais e liberar indivíduos de detenções de imigrantes ilegais não desfaz o dano que eles sofreram ao serem presos e detidos em primeiro lugar. O que resta é o medo mais amplo que isso instila nas comunidades de imigrantes de que eles podem ser os próximos, e o comportamento que é resfriado ou restringido como resultado. Da mesma forma, ordenar que o governo volte a abrir as torneiras de gastos que ele congelou ilegalmente não pode desfazer o dano sofrido pelos beneficiários privados de financiamento de missão crítica nesse ínterim. Bloquear uma ordem executiva destinada a intimidar escritórios de advocacia para não representar ex-funcionários do governo não desfaz a mensagem sobre outras maneiras pelas quais o governo pode tentar retaliar aqueles que não seguem a linha do partido. E tudo isso pressupõe que a Casa Branca realmente cumpra as decisões dos tribunais, um ponto no qual talvez não possamos confiar.
Normalmente, vítimas de conduta ilícita podem processar por danos, um direito fornecido não apenas para interromper o comportamento ilícito enquanto ele está acontecendo, mas também para reparar os ferimentos que sofreram durante e por causa dessa conduta. Tais processos estão disponíveis não apenas para compensar as vítimas por suas perdas, mas também para punir os maus atores se sua conduta foi suficientemente maliciosa. A ideia central é que os danos não são apenas compensatórios; eles devem fornecer um impedimento significativo contra conduta conscientemente ilícita em primeiro lugar.
Para o bem ou para o mal, não há nenhuma entidade nos Estados Unidos contra a qual seja mais difícil obter indenização do que o governo federal. Sob a doutrina da imunidade soberana, o próprio governo pode ser processado por indenização somente quando o Congresso o autoriza. Essas autorizações têm sido, historicamente, poucas e distantes entre si; a última expansão significativa ocorreu em 1976. Para explicar a dificuldade de tentar processar o governo diretamente, a Suprema Corte reconheceu em 1971 circunstâncias nas quais vítimas de violações flagrantes de direitos constitucionais podem buscar indenização dos oficiais federais individuais que são responsáveis, mas o tribunal nos últimos oito anos praticamente anulou essa decisão.
Assim, se os tribunais finalmente descobrirem que o comportamento do governo nas últimas oito semanas foi ilegal ou mesmo inconstitucional, isso pode ser uma forma de alívio amplamente vazia, tanto para as partes prejudicadas quanto para os cidadãos. Nada, é claro, pode compensar a turbulência emocional e a convulsão para as quais a administração enviou intencionalmente muitas organizações e indivíduos para contar. Também não há nada que desencoraje a administração de tentar medidas ilegais semelhantes novamente.
A lição óbvia de longo prazo é para o Congresso — que, entre muitas outras coisas, deve tornar muito mais fácil para vítimas de comportamento federal ilícito obter reparação judicial. Mas a lição de curto prazo é para nós, o povo.
Os tribunais federais, até este ponto, fizeram um trabalho notável de impor limites legais e constitucionais ao poder executivo. E há todos os motivos para esperar que eles continuem a fazê-lo. Nesse aspecto, os tribunais podem muito bem acabar salvando o estado de direito. Mas para serem totalmente eficazes, muitos dos nossos direitos legais dependem não apenas de recursos judiciais, mas também políticos. Isso envolve tanto uma nova legislação quanto uma supervisão muito mais agressiva de membros do Congresso bem-vindos à mudança do ambiente político partidário e à reafirmação de freios e contrapesos contra os outros poderes do governo. Tudo isso tornará muito mais difícil para os presidentes quebrarem as coisas no futuro.
sábado, 22 de março de 2025
A beleza de estar calado
Lembram-se de quando uma canção era uma canção? De quando um desenho era um desenho? De quando uma escultura não era um panfleto? Não foi assim há tanto tempo e até Bob Dylan dizia: “I’m not sleepy and there is no place I’m going to.” Mas isso é hoje uma convenção ultrapassadíssima, como um fósforo queimado.
Os cantores de intervenção, embriagados de marxismo-leninismo, tinham, pelo menos, a desculpa de não terem visto o muro cair. Os de hoje sabem-no. E cantam na mesma.
O artista já não contempla, já não se perde, já não mergulha no abismo. Até Ivan Karamázov se deixaria queimar por uma faúlha de transcendência. Mas o artista já não desce — desfila, e Dostoiévski sabia que sem abismo, não há grandeza. Hoje, o artista age — é movimento puro. Hoje, fala. Alto.
Transformou-se num daqueles sistemas de som de feira popular, num oráculo de banalidades de que ninguém duvida. Falam todos, falam sempre, falam muito. Uma gritaria perpétua de indignação e activismos absolutos. Um só minuto de silêncio seria verdadeiramente revolucionário. Um leve fragmento de discrição já conteria todo o esplendor e a fúria de 1917.
A tragédia contemporânea não é a corrupção, nem é a miséria, nem a ignorância — isso são tragédias velhas, bolorentas, lugares-comuns do pessimismo. A tragédia moderna, caro leitor, é este barulho. Esta bruta flor da indignação. Esta borboleta da hiperactividade.
Nunca tanta gente disse tanto, tão depressa, com tão pouca substância. Um formigueiro de consciências atarefadas. O activista não dorme, não descansa, não respira. Luta contra tudo — contra o estado do mundo, das mentalidades, do tempo — sim, até o tempo é reaccionário.
Mas contra o Estado? Para quê? Quem manda, tributa e regula já faz o que é preciso. Está tudo errado, menos o que vem no Diário da República.
Eis porquê: existe uma solidariedade entre ambos e essa cumplicidade tem um nome – loucura reguladora. Quem outrora bradava golpes e tumultos, hoje sonha com manuais de instruções. Já não quer mudar o mundo – quer geri-lo, processá-lo, catalogá-lo em regulamentos. O artista tornou-se o cepo que decide ser árbitro e arruína a tarde aos amigos com o apito.
E quer que se regule o quê? Tudo. As bocas foleiras, as comunidades virtuais, o estacionamento, os dejectos da bicharada. Tudo, menos o pânico em que se alimenta. A iminência do apocalipse justifica as mais complexas burocracias.
Se ao menos ocupasse o seu talento naquilo que faz bem. Mas já não cria, não compõe, já não pinta e já não escreve. Doutrina, palestra, denuncia e adverte: “Porque tudo é político!” – gritam. E eis que o palco se transforma em assembleia-geral, a tela em cartaz, o livro em manifesto. Para que a música eduque, o cinema alerte, o teatro sensibilize.
Já não há sequer direito ao cansaço. Diante da barulheira, um tipo, exausto, poderia desejar um pouco de recolhimento, um instante de paz. Mas exige-se tomada de posição, acção directa, uma assinatura. E se hesitamos, se vacilamos, somos acusados das mais sinistras cumplicidades.
O artista de hoje não se contenta em boicotar a sua própria obra. Se um escritor ousa ser um escritor, se um músico teima em tocar o seu piano, eis que aparece alguém a exigir “relevância”, “consciência”, “compromisso”. E assim morre o sublime prazer do inútil. A arte, para ser arte, precisa de não servir para nada.
A grande tradição do cristianismo, tão generosa em inspirar as mais delirantes práticas neo-pagãs, ainda tem um último presente para oferecer: o silêncio. Depois do jejum intermitente, da peregrinação a festivais, da confissão pública, bastaria reciclá-lo. E, quais trapistas do ayahuasca, os nossos melhores purificar-se-iam pela mudez, passando longos períodos sem dizer absolutamente nada. Era só um desses gurus da auto-ajuda publicar um folheto com a ideia.
O artista de hoje não deixa nada por fazer. Ele age por todos nós. E, assim, a única resistência possível é a quietude.
Todo o problema se resolve pelo seu imediato contrário. Contra a acção, a inércia. Contra o barulho, o silêncio. Contra a histeria da relevância, a beleza de não fazer nada.
Os cantores de intervenção, embriagados de marxismo-leninismo, tinham, pelo menos, a desculpa de não terem visto o muro cair. Os de hoje sabem-no. E cantam na mesma.
O artista já não contempla, já não se perde, já não mergulha no abismo. Até Ivan Karamázov se deixaria queimar por uma faúlha de transcendência. Mas o artista já não desce — desfila, e Dostoiévski sabia que sem abismo, não há grandeza. Hoje, o artista age — é movimento puro. Hoje, fala. Alto.
Transformou-se num daqueles sistemas de som de feira popular, num oráculo de banalidades de que ninguém duvida. Falam todos, falam sempre, falam muito. Uma gritaria perpétua de indignação e activismos absolutos. Um só minuto de silêncio seria verdadeiramente revolucionário. Um leve fragmento de discrição já conteria todo o esplendor e a fúria de 1917.
A tragédia contemporânea não é a corrupção, nem é a miséria, nem a ignorância — isso são tragédias velhas, bolorentas, lugares-comuns do pessimismo. A tragédia moderna, caro leitor, é este barulho. Esta bruta flor da indignação. Esta borboleta da hiperactividade.
Nunca tanta gente disse tanto, tão depressa, com tão pouca substância. Um formigueiro de consciências atarefadas. O activista não dorme, não descansa, não respira. Luta contra tudo — contra o estado do mundo, das mentalidades, do tempo — sim, até o tempo é reaccionário.
Mas contra o Estado? Para quê? Quem manda, tributa e regula já faz o que é preciso. Está tudo errado, menos o que vem no Diário da República.
Eis porquê: existe uma solidariedade entre ambos e essa cumplicidade tem um nome – loucura reguladora. Quem outrora bradava golpes e tumultos, hoje sonha com manuais de instruções. Já não quer mudar o mundo – quer geri-lo, processá-lo, catalogá-lo em regulamentos. O artista tornou-se o cepo que decide ser árbitro e arruína a tarde aos amigos com o apito.
E quer que se regule o quê? Tudo. As bocas foleiras, as comunidades virtuais, o estacionamento, os dejectos da bicharada. Tudo, menos o pânico em que se alimenta. A iminência do apocalipse justifica as mais complexas burocracias.
Se ao menos ocupasse o seu talento naquilo que faz bem. Mas já não cria, não compõe, já não pinta e já não escreve. Doutrina, palestra, denuncia e adverte: “Porque tudo é político!” – gritam. E eis que o palco se transforma em assembleia-geral, a tela em cartaz, o livro em manifesto. Para que a música eduque, o cinema alerte, o teatro sensibilize.
Já não há sequer direito ao cansaço. Diante da barulheira, um tipo, exausto, poderia desejar um pouco de recolhimento, um instante de paz. Mas exige-se tomada de posição, acção directa, uma assinatura. E se hesitamos, se vacilamos, somos acusados das mais sinistras cumplicidades.
O artista de hoje não se contenta em boicotar a sua própria obra. Se um escritor ousa ser um escritor, se um músico teima em tocar o seu piano, eis que aparece alguém a exigir “relevância”, “consciência”, “compromisso”. E assim morre o sublime prazer do inútil. A arte, para ser arte, precisa de não servir para nada.
A grande tradição do cristianismo, tão generosa em inspirar as mais delirantes práticas neo-pagãs, ainda tem um último presente para oferecer: o silêncio. Depois do jejum intermitente, da peregrinação a festivais, da confissão pública, bastaria reciclá-lo. E, quais trapistas do ayahuasca, os nossos melhores purificar-se-iam pela mudez, passando longos períodos sem dizer absolutamente nada. Era só um desses gurus da auto-ajuda publicar um folheto com a ideia.
O artista de hoje não deixa nada por fazer. Ele age por todos nós. E, assim, a única resistência possível é a quietude.
Todo o problema se resolve pelo seu imediato contrário. Contra a acção, a inércia. Contra o barulho, o silêncio. Contra a histeria da relevância, a beleza de não fazer nada.
Trump e os capitais em movimento
Donald Trump e seus assessores lançaram um petardo contra o livre movimento de capitais, um dos bastiões da economia financeiramente globalizada. A proposta trumpista de taxar os ingressos de capitais na economia norte-americana busca atenuar a valorização do dólar e, assim, conter seus efeitos sobre a competitividade das exportações de Tio Sam.
Gillian Tett, colunista do Financial Times, escreveu recentemente sobre as consequências prováveis da taxação dos capitais em livre movimento:
“O economista Michael Pettis vê essas entradas de capital não ‘apenas’ como o corolário inevitável do déficit comercial dos Estados Unidos, mas como uma maldição debilitante. Isso ocorre porque as entradas aumentam o valor do dólar, fomentam a financeirização excessiva e esvaziam a base industrial dos Estados Unidos, diz ele, o que significa que ‘o capital (financeiro) se tornou o rabo que abana o cachorro do comércio’, gerando déficits”.
A proposta de Donald Trump aponta para o verdadeiro sentido da globalização: o acirramento da concorrência inserida em uma estrutura financeira global monetariamente hierarquizada e comandada pelo poder do dólar. Sob os auspícios do capital financeiro e de um sistema monetário-financeiro internacional assimétrico, ocorreu a brutal centralização do controle das decisões de produção, localização e utilização dos lucros em um núcleo reduzido de grandes empresas e instituições financeiras à escala mundial.
A centralização do controle comandada pelos mercados financeiros impulsionou e foi impulsionada pela fragmentação espacial da produção.
O artigo “Neoliberalism: Oversold?”, de economistas do FMI, aborda os efeitos de duas políticas inscritas na agenda da globalização: a remoção das restrições ao movimento de capitais (liberalização das contas de capital) e a consolidação fiscal (“austeridade” para reduzir déficits fiscais e o nível da dívida). O estudo afirma que influxos de capitais, como investimento direto estrangeiro, parecem impulsionar o crescimento no longo prazo. Na contramão, o impacto de investimentos de portfólio – especialmente, os influxos de aplicações especulativas de curto prazo – afeta as relações, não estimula o crescimento e, muito menos, garante um financiamento estável do balanço de pagamentos.
A ocorrência, desde 1980, de, aproximadamente, 150 convulsões com influxos de capitais em mais de 50 mercados emergentes credencia a reivindicação do economista de Harvard Dani Rodrik, de que esses episódios “dificilmente são efeitos ou defeitos secundários nos fluxos de capital internacional, eles são a história principal”.
A continuada desvalorização do dólar ao longo dos anos 70 do século passado foi enfrentada com a elevação da policy rate, deflagrada por Paul Volcker em 1979. A elevação dos juros foi apresentada, então, como uma medida destinada a alcançar o objetivo doméstico de controle da inflação, mas o efeito mais relevante para a economia internacional foi a recuperação do papel do dólar como moeda de reserva.
A recuperação da força do dólar, como moeda de reserva e de denominação das transações comerciais e financeiras, promoveu profundas alterações na estrutura e na dinâmica da economia mundial. A partir do início dos anos 80, intensificou-se o movimento de migração da indústria manufatureira para as regiões nas quais prevalecia uma relação câmbio/salários mais competitiva e ampliaram-se os desequilíbrios nos balanços de pagamentos entre os EUA, a Ásia e a Europa.
Nas três décadas seguintes, à sombra do fortalecimento do dólar, os Estados Unidos promoveram as políticas de abertura comercial e impuseram a liberalização financeira urbi et orbi. Assim, suas empresas encontraram o caminho mais rápido e desimpedido para a migração produtiva, enquanto seus bancos foram investidos plenamente na função de gestores da finança e da moeda universais. Nesse período, os deslocamentos tectônicos na economia mundial – particularmente, a ascensão da China como potência manufatureira – produziram mais um episódio fascinante das transformações geoeconômicas.
O fortalecimento do dólar estimulou e sustentou o avanço da industrialização chinesa mediante a migração das empresas industriais norte-americanas e europeias. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos sofreram as dores da desindustrialização.
O protecionismo trumpista e a proposta de taxação dos capitais financeiros em livre movimentação exprimem as transformações ocorridas na economia global. Trata-se, portanto, de um fenômeno sistêmico e não de um incidente eventual.
Gillian Tett, colunista do Financial Times, escreveu recentemente sobre as consequências prováveis da taxação dos capitais em livre movimento:
“O economista Michael Pettis vê essas entradas de capital não ‘apenas’ como o corolário inevitável do déficit comercial dos Estados Unidos, mas como uma maldição debilitante. Isso ocorre porque as entradas aumentam o valor do dólar, fomentam a financeirização excessiva e esvaziam a base industrial dos Estados Unidos, diz ele, o que significa que ‘o capital (financeiro) se tornou o rabo que abana o cachorro do comércio’, gerando déficits”.
A proposta de Donald Trump aponta para o verdadeiro sentido da globalização: o acirramento da concorrência inserida em uma estrutura financeira global monetariamente hierarquizada e comandada pelo poder do dólar. Sob os auspícios do capital financeiro e de um sistema monetário-financeiro internacional assimétrico, ocorreu a brutal centralização do controle das decisões de produção, localização e utilização dos lucros em um núcleo reduzido de grandes empresas e instituições financeiras à escala mundial.
A centralização do controle comandada pelos mercados financeiros impulsionou e foi impulsionada pela fragmentação espacial da produção.
O artigo “Neoliberalism: Oversold?”, de economistas do FMI, aborda os efeitos de duas políticas inscritas na agenda da globalização: a remoção das restrições ao movimento de capitais (liberalização das contas de capital) e a consolidação fiscal (“austeridade” para reduzir déficits fiscais e o nível da dívida). O estudo afirma que influxos de capitais, como investimento direto estrangeiro, parecem impulsionar o crescimento no longo prazo. Na contramão, o impacto de investimentos de portfólio – especialmente, os influxos de aplicações especulativas de curto prazo – afeta as relações, não estimula o crescimento e, muito menos, garante um financiamento estável do balanço de pagamentos.
A ocorrência, desde 1980, de, aproximadamente, 150 convulsões com influxos de capitais em mais de 50 mercados emergentes credencia a reivindicação do economista de Harvard Dani Rodrik, de que esses episódios “dificilmente são efeitos ou defeitos secundários nos fluxos de capital internacional, eles são a história principal”.
A continuada desvalorização do dólar ao longo dos anos 70 do século passado foi enfrentada com a elevação da policy rate, deflagrada por Paul Volcker em 1979. A elevação dos juros foi apresentada, então, como uma medida destinada a alcançar o objetivo doméstico de controle da inflação, mas o efeito mais relevante para a economia internacional foi a recuperação do papel do dólar como moeda de reserva.
A recuperação da força do dólar, como moeda de reserva e de denominação das transações comerciais e financeiras, promoveu profundas alterações na estrutura e na dinâmica da economia mundial. A partir do início dos anos 80, intensificou-se o movimento de migração da indústria manufatureira para as regiões nas quais prevalecia uma relação câmbio/salários mais competitiva e ampliaram-se os desequilíbrios nos balanços de pagamentos entre os EUA, a Ásia e a Europa.
Nas três décadas seguintes, à sombra do fortalecimento do dólar, os Estados Unidos promoveram as políticas de abertura comercial e impuseram a liberalização financeira urbi et orbi. Assim, suas empresas encontraram o caminho mais rápido e desimpedido para a migração produtiva, enquanto seus bancos foram investidos plenamente na função de gestores da finança e da moeda universais. Nesse período, os deslocamentos tectônicos na economia mundial – particularmente, a ascensão da China como potência manufatureira – produziram mais um episódio fascinante das transformações geoeconômicas.
O fortalecimento do dólar estimulou e sustentou o avanço da industrialização chinesa mediante a migração das empresas industriais norte-americanas e europeias. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos sofreram as dores da desindustrialização.
O protecionismo trumpista e a proposta de taxação dos capitais financeiros em livre movimentação exprimem as transformações ocorridas na economia global. Trata-se, portanto, de um fenômeno sistêmico e não de um incidente eventual.
Brasil tem cada vez menos áreas cobertas por água
A área do Brasil coberta por água sofre uma nova redução em 2024. Em doze meses, quatro mil quilômetros quadrados de área alagada evaporaram. É como se um lago equivalente a três vezes a cidade do Rio de Janeiro tivesse sumido.
Em todo território nacional, 179 mil quilômetros quadrados (km2) ainda estão cobertos por água, mas a área é 2% menor que a registrada em 2023.
O levantamento, divulgado nesta sexta-feira (21/03), é do MapBiomas, rede formada por universidades, ONGs e empresas que mapeia as mudanças em solo brasileiro e atualiza os dados anualmente.
"São más notícias. Desde os anos 2000 temos registrado, quase que regularmente, valores baixos. Em 2024, ficamos 4% abaixo da média histórica”, disse à DW Juliano Schirmbeck, coordenador técnico do MapBiomas Água.
A tendência de queda é observada desde 2009. Segundo o MapBiomas, que mantém uma série histórica desde 1985, oito dos dez anos mais secos foram registrados nesta última década. Só em 2022 a superfície inundada aumentou.
A situação é mais grave por uma observação específica: os ambientes naturais são os que mais secaram. Rios e lagos tiveram uma perda de 15% no ano passado em comparação com 1985. No Brasil, eles formam a maior parte da superfície coberta por água (77%). O restante está em reservatórios construídos.
O Pantanal, maior planície alagável do planeta, foi o bioma brasileiro que mais perdeu superfície de água desde o início do mapeamento. Desde 1985, a queda foi de 61% nessa área.
Segundo Schirmbeck, todos os meses de 2024 foram marcados por uma cobertura de água perto da mínima já registrada. A última cheia na região aconteceu em 2018 e, desde então, foi seguida por períodos de seca severa.
Em 2024, vários rios da região alcançaram cotas mínimas, segundo o Serviço Geológico Brasileiro (SGB). A falta de água afetou a navegação, o abastecimento em várias cidades e o modo de vida de inúmeras comunidades tradicionais.
O impacto ambiental também é preocupante. Cientistas do SGB alertam que o baixo fluxo de água intensifica a degradação dos habitats aquáticos e pode provocar grande mortandade de peixes.
Pelo segundo ano consecutivo, a Amazônia sofreu uma seca extrema em 2024. O levantamento do MapBiomas aponta que houve uma redução de 3,6% na superfície coberta por água em comparação com a média do bioma.
"É muito intrigante que, na Amazônia, a seca de 2024 não foi como a de 2023. Ela se pronunciou em locais diferentes, em rios diferentes”, aponta Schirmbeck.
Mais da metade dos rios amazônicos registraram perda em relação à média dos últimos 40 anos. As bacias mais afetadas foram a do rio Trombetas, Negro e Solimões. O cenário também foi dramático no rio Tapajós - que havia sido poupado em 2023.
No total, a perda de superfície de água foi de 45 mil km2 no bioma em relação a 2022, quando o último ganho havia sido registrado.
No extremo sul do Brasil, o Pampa ficou ligeiramente abaixo da média histórica (0,03%). O bioma recebeu parte da chuva intensa que caiu no Rio Grande do Sul (RS) entre abril e maio do ano passado e afetou centenas de cidades.
"O ano começou seco no Sul e, no fim de 2024, estava seco de novo”, diz Schirmbeck. "A cheia é uma enxurrada, um pico de precipitação. O que recupera o nível de um rio ao longo de um ano é uma chuva mais regular”, adiciona, lembrando do impacto das mudanças climáticas na intensidade e frequência dos eventos extremos climáticos.
A média de chuva anual naquela região é de mil a dois mil milímetros. Durante as cheias, foram registrados mil milímetros em apenas sete dias.
Morador de Roca Sales, na região do Vale do Taquari (RS), Schirmbeck precisou deixar sua casa às pressas durante as enchentes de 2023. Naquela ocasião, ele se refugiou em Belém, Pará, para conseguir finalizar o levantamento anual do MapBiomas. Neste ano, ele completou a tarefa em sua cidade, que também foi atingida pelas enchentes de 2024 e ainda convive com os resquícios da devastação.
Os demais biomas do país, Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica, registraram em 2024 superfície de água acima da média. No caso da Caatinga, o período foi excepcionalmente positivo, com valores mais altos dos últimos 10 anos. Ainda assim, bolsões de seca persistente ainda estão no mapa, como pontos ao longo da bacia do São Francisco e Seridó Nordestino.
O Cerrado alcançou em 2024 um marco preocupante: há atualmente mais água armazenada em estruturas artificiais do que em rios e lagos. Segundo o MapBiomas, reservatórios, hidrelétricas, áreas de mineração e represas contém 60% de toda a água disponível na superfície - em 1985 eram 37%.
Um levantamento paralelo feito pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) concluiu que Cerrado perdeu água natural em 91% de suas bacias hidrográficas nos últimos 40 anos. Uma das causas para este cenário é o desmatamento, afirmam os pesquisadores.
O impacto é perigoso principalmente para as plantações, já que o bioma concentra 60% da produção nacional e metade da agricultura irrigada do país, alerta o Ipam.
No ranking nacional, mais da metade da água disponível está na Amazônia (61%). Mata Atlântica tem 13% da superfície, seguida pelo Pampa (10% do total), Cerrado (9%) e Pantanal (2%).
Para fazer as contas, o MapBiomas utiliza imagens do satélite Landsat, que acumula a maior série de registros do território brasileiro captadas do espaço. As cenas são processadas e classificadas de acordo com cada pixel que se assemelha à superfície de água.
Schirmbeck lembra que a disponibilidade de água na superfície depende de alguns fatores que incluem regularidade de chuvas e condições dos ambientes naturais, como nascentes e vegetação ao longo dos rios.
"Esses ambientes acabam funcionando como espécie de ‘pulmão', que armazena a água e vai soltando aos poucos, de forma espaçada no tempo. Sem eles, quando falta chuva, não tem de onde vir água. E, quando chove demais, o risco de enxurrada é grande”, explica o pesquisador.
O armazenamento em reservatórios também "disfarça" a situação real. "Eles enganam porque fazem pensar que a situação é menos crítica, mas a água que eles armazenam vem do ambiente natural. Se lá na nascente não estou preservando, como vou ter água no reservatório?”, alerta Schirmbeck.
Em todo território nacional, 179 mil quilômetros quadrados (km2) ainda estão cobertos por água, mas a área é 2% menor que a registrada em 2023.
O levantamento, divulgado nesta sexta-feira (21/03), é do MapBiomas, rede formada por universidades, ONGs e empresas que mapeia as mudanças em solo brasileiro e atualiza os dados anualmente.
"São más notícias. Desde os anos 2000 temos registrado, quase que regularmente, valores baixos. Em 2024, ficamos 4% abaixo da média histórica”, disse à DW Juliano Schirmbeck, coordenador técnico do MapBiomas Água.
A tendência de queda é observada desde 2009. Segundo o MapBiomas, que mantém uma série histórica desde 1985, oito dos dez anos mais secos foram registrados nesta última década. Só em 2022 a superfície inundada aumentou.
A situação é mais grave por uma observação específica: os ambientes naturais são os que mais secaram. Rios e lagos tiveram uma perda de 15% no ano passado em comparação com 1985. No Brasil, eles formam a maior parte da superfície coberta por água (77%). O restante está em reservatórios construídos.
O Pantanal, maior planície alagável do planeta, foi o bioma brasileiro que mais perdeu superfície de água desde o início do mapeamento. Desde 1985, a queda foi de 61% nessa área.
Segundo Schirmbeck, todos os meses de 2024 foram marcados por uma cobertura de água perto da mínima já registrada. A última cheia na região aconteceu em 2018 e, desde então, foi seguida por períodos de seca severa.
Em 2024, vários rios da região alcançaram cotas mínimas, segundo o Serviço Geológico Brasileiro (SGB). A falta de água afetou a navegação, o abastecimento em várias cidades e o modo de vida de inúmeras comunidades tradicionais.
O impacto ambiental também é preocupante. Cientistas do SGB alertam que o baixo fluxo de água intensifica a degradação dos habitats aquáticos e pode provocar grande mortandade de peixes.
Pelo segundo ano consecutivo, a Amazônia sofreu uma seca extrema em 2024. O levantamento do MapBiomas aponta que houve uma redução de 3,6% na superfície coberta por água em comparação com a média do bioma.
"É muito intrigante que, na Amazônia, a seca de 2024 não foi como a de 2023. Ela se pronunciou em locais diferentes, em rios diferentes”, aponta Schirmbeck.
Mais da metade dos rios amazônicos registraram perda em relação à média dos últimos 40 anos. As bacias mais afetadas foram a do rio Trombetas, Negro e Solimões. O cenário também foi dramático no rio Tapajós - que havia sido poupado em 2023.
No total, a perda de superfície de água foi de 45 mil km2 no bioma em relação a 2022, quando o último ganho havia sido registrado.
No extremo sul do Brasil, o Pampa ficou ligeiramente abaixo da média histórica (0,03%). O bioma recebeu parte da chuva intensa que caiu no Rio Grande do Sul (RS) entre abril e maio do ano passado e afetou centenas de cidades.
"O ano começou seco no Sul e, no fim de 2024, estava seco de novo”, diz Schirmbeck. "A cheia é uma enxurrada, um pico de precipitação. O que recupera o nível de um rio ao longo de um ano é uma chuva mais regular”, adiciona, lembrando do impacto das mudanças climáticas na intensidade e frequência dos eventos extremos climáticos.
A média de chuva anual naquela região é de mil a dois mil milímetros. Durante as cheias, foram registrados mil milímetros em apenas sete dias.
Morador de Roca Sales, na região do Vale do Taquari (RS), Schirmbeck precisou deixar sua casa às pressas durante as enchentes de 2023. Naquela ocasião, ele se refugiou em Belém, Pará, para conseguir finalizar o levantamento anual do MapBiomas. Neste ano, ele completou a tarefa em sua cidade, que também foi atingida pelas enchentes de 2024 e ainda convive com os resquícios da devastação.
Os demais biomas do país, Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica, registraram em 2024 superfície de água acima da média. No caso da Caatinga, o período foi excepcionalmente positivo, com valores mais altos dos últimos 10 anos. Ainda assim, bolsões de seca persistente ainda estão no mapa, como pontos ao longo da bacia do São Francisco e Seridó Nordestino.
O Cerrado alcançou em 2024 um marco preocupante: há atualmente mais água armazenada em estruturas artificiais do que em rios e lagos. Segundo o MapBiomas, reservatórios, hidrelétricas, áreas de mineração e represas contém 60% de toda a água disponível na superfície - em 1985 eram 37%.
Um levantamento paralelo feito pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) concluiu que Cerrado perdeu água natural em 91% de suas bacias hidrográficas nos últimos 40 anos. Uma das causas para este cenário é o desmatamento, afirmam os pesquisadores.
O impacto é perigoso principalmente para as plantações, já que o bioma concentra 60% da produção nacional e metade da agricultura irrigada do país, alerta o Ipam.
No ranking nacional, mais da metade da água disponível está na Amazônia (61%). Mata Atlântica tem 13% da superfície, seguida pelo Pampa (10% do total), Cerrado (9%) e Pantanal (2%).
Para fazer as contas, o MapBiomas utiliza imagens do satélite Landsat, que acumula a maior série de registros do território brasileiro captadas do espaço. As cenas são processadas e classificadas de acordo com cada pixel que se assemelha à superfície de água.
Schirmbeck lembra que a disponibilidade de água na superfície depende de alguns fatores que incluem regularidade de chuvas e condições dos ambientes naturais, como nascentes e vegetação ao longo dos rios.
"Esses ambientes acabam funcionando como espécie de ‘pulmão', que armazena a água e vai soltando aos poucos, de forma espaçada no tempo. Sem eles, quando falta chuva, não tem de onde vir água. E, quando chove demais, o risco de enxurrada é grande”, explica o pesquisador.
O armazenamento em reservatórios também "disfarça" a situação real. "Eles enganam porque fazem pensar que a situação é menos crítica, mas a água que eles armazenam vem do ambiente natural. Se lá na nascente não estou preservando, como vou ter água no reservatório?”, alerta Schirmbeck.
'Nós somos a maioria, eles são o 1%'
No início da semana, o senador Bernie Sanders ligou o telefone e gravou um apelo desesperado, no seu gabinete. Tinha acabado de votar contra uma lei que dá mais poder à Casa Branca na gestão de fundos federais. “Esta lei empurra o nosso país para o autoritarismo”, diz Sanders, explicando que a nova legislação “faz cortes massivos a programas de apoio à habitação, cuidados de saúde e alimentação, põe em risco o funcionamento da administração da Segurança Social e continua o ataque da Administração Trump contra os veteranos; esta lei fará os ricos mais ricos e os pobres mais pobres”.
Para que esta lei passasse, os republicanos precisavam de ter sete votos de democratas no Senado. Tiveram dez. “A crise económica e política não será resolvida aqui em Washington DC. O sistema é demasiado corrupto”, afirma Sanders, explicando como se compram os votos e se distorce a democracia.
O vídeo que me apareceu no Instagram tem um tom alarmista. Talvez a alguns soe conspirativo. Mas estava a escrever este texto quando me deparei com uma notícia do The New York Times que revela como Elon Musk está a financiar nos limites máximos permitidos por lei os congressistas que apoiem o impeachment de juízes que se oponham a decisões do Presidente.
Continuo a olhar para o telefone e aparece-me o vídeo que regista o momento exato em que é detido um preso político nos Estados Unidos. A expressão é forte, mas talvez pareça adequada quando vemos a audição do embaixador indicado por Trump para o Canadá. Ao ser confrontado com uma pergunta do senador Jeff Merkley sobre se um cidadão americano deve poder expressar uma opinião contrária à do primeiro-ministro canadiano sobre política externa, sem perceber onde se está a meter, responde que “sim, esse é um valor americano”. Quando Merkley o confronta com a situação de Mahamoud Khalil, a contradição é já demasiado flagrante.
Mahmoud Khalil voltava de um jantar com a mulher, grávida de oito meses. À sua espera estavam quatro homens com roupas à civil. Apesar de não mostrar quaisquer sinais de resistência, foi algemado com as mãos atrás das costas. A mulher, que filmou tudo, telefonou para a advogada, que lhe foi transmitindo as perguntas que devia fazer. Quem eram aqueles homens? Para que agência trabalhavam? Para onde iam levar o seu marido? Os homens limitam-se a dar uma morada. Não respondem a mais nada e, a certa altura, começam a correr pela rua até se enfiarem num carro. Parece um rapto. Mas não é: Mahmoud Khalil foi levado para uma prisão no Louisiana, a cerca de quatro horas de voo de distância da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde foi detido. O crime deste estudante é ter participado em protestos pró-Palestina.
A conta oficial da Casa Branca no Instagram parece agora a parede de uma taberna de um filme de cowboys, cheia de imagens de presos, com as caras sobre um fundo laranja e negro, onde se leem os crimes de que são acusados, o lugar e a data de detenção. Há também uma fotografia de uma mulher, Rasha Alawieh, uma médica especializada em transplantes, que foi deportada, apesar de estar legal nos Estados Unidos, depois de ter sido acusada de ter viajado para Beirute para assistir ao funeral de um membro do Hezbollah. “Bye-bye, Rasha”, lê-se na legenda do post ilustrado com uma imagem de Donald Trump a dizer adeus da janela do que parece ser um posto de atendimento drive-thru de uma cadeia de fast food.
Scroll para baixo. A mesma conta mostra prisioneiros tatuados, algemados com correntes, a serem encaminhados para um avião, numa pista de aeroporto, ao pôr do sol. A banda sonora é uma música pop rock que estava nos tops no final dos anos 90 e ajuda a adocicar as imagens. Mas a mensagem é sublinhada por uma parte da letra que a Casa Branca destacou em legenda. “Closing time, you don’t have to go home/But you can’t stay here”.
As imagens ilustram a notícia dos cerca de 200 homens latinos que foram detidos e deportados esta semana dos Estados Unidos para uma das mais violentas prisões do mundo, em El Salvador, onde, segundo o The Guardian, não há recreio ao ar livre e não são permitidas visitas, há relatos de tortura e cada preso tem o equivalente a 0,60 metros quadrados. Segundo o The New York Times, não há dados que permitam perceber quantos destes homens pertenciam efetivamente a gangues, como foi alegado pela Casa Branca, ou que tipo de ameaça representavam, uma vez que foi admitido pelas autoridades americanas que vários deles não tinham sequer sido alvo de qualquer condenação.
Há imagens que mostram estes homens de macacão, algemados, com agentes a raparem-lhes a cabeça antes de serem enviados para El Salvador, que vai receber milhões de dólares para os encarcerar. Mariyin Araujo, que tem uma filha com seis anos e outra com dois, diz que só percebeu que o marido já estava na prisão salvadorenha depois de ver uma fotografia nas redes sociais. Era um venezuelano, que tinha fugido depois de ter sido perseguido pelo regime de Nicolas Maduro, e, por ser treinador de futebol, tinha uma tatuagem com uma bola e uma coroa num braço, um sinal que foi visto pelas autoridades americanas como a prova da ligação a um gangue da Venezuela. Mariyin não consegue sequer confirmar se o marido está em El Salvador.
“Se alguma vez houve um momento em que pessoas comuns, na base da pirâmide, se têm de organizar e lutar, este é esse tempo. Este é o momento de reclamar a nossa democracia (…) Porque esta é a verdade: a vasta maioria dos norte-americanos, democratas, republicanos e independentes não querem ver o Congresso a aliviar os impostos dos bilionários e a cortar nos programas de que as famílias trabalhadoras e desfavorecidas precisam”, diz Bernie Sanders no seu vídeo, pedindo a cada americano que se envolva diretamente em ações políticas e se organize na sua comunidade.
O meu telefone está cheio de notícias sobre como as autoridades alemãs reprimem violentamente manifestações contra o genocídio em Gaza. Leio histórias sobre jovens ativistas presos no Reino Unido por se envolverem em protestos de ação direta não violenta pelos direitos climáticos ou a favor da Palestina, ao abrigo de leis antiterroristas que permitem fechá-los em prisões de alta segurança durante um ano antes de irem a julgamento. Um cientista francês foi expulso dos EUA por ter mensagens anti-Trump no telefone. E, em Londres, o trabalhista Keir Starmer anuncia um corte de 5 mil milhões de libras em programas sociais, incluindo de apoio a deficientes, deixando sem resposta o deputado do próprio partido que lhe pergunta por que não põe ele os ricos a pagar uma taxa sobre a sua fortuna.
“Nós somos a maioria, eles são o 1%”, diz Sanders. Enquanto assisto à queda dos princípios de igualdade perante a lei, justiça e liberdades individuais no prometido oásis das democracias ocidentais, a ideia de Sanders parece a única esperança possível. “Nós somos a maioria, eles são o 1%”.
Para que esta lei passasse, os republicanos precisavam de ter sete votos de democratas no Senado. Tiveram dez. “A crise económica e política não será resolvida aqui em Washington DC. O sistema é demasiado corrupto”, afirma Sanders, explicando como se compram os votos e se distorce a democracia.
O vídeo que me apareceu no Instagram tem um tom alarmista. Talvez a alguns soe conspirativo. Mas estava a escrever este texto quando me deparei com uma notícia do The New York Times que revela como Elon Musk está a financiar nos limites máximos permitidos por lei os congressistas que apoiem o impeachment de juízes que se oponham a decisões do Presidente.
Continuo a olhar para o telefone e aparece-me o vídeo que regista o momento exato em que é detido um preso político nos Estados Unidos. A expressão é forte, mas talvez pareça adequada quando vemos a audição do embaixador indicado por Trump para o Canadá. Ao ser confrontado com uma pergunta do senador Jeff Merkley sobre se um cidadão americano deve poder expressar uma opinião contrária à do primeiro-ministro canadiano sobre política externa, sem perceber onde se está a meter, responde que “sim, esse é um valor americano”. Quando Merkley o confronta com a situação de Mahamoud Khalil, a contradição é já demasiado flagrante.
Mahmoud Khalil voltava de um jantar com a mulher, grávida de oito meses. À sua espera estavam quatro homens com roupas à civil. Apesar de não mostrar quaisquer sinais de resistência, foi algemado com as mãos atrás das costas. A mulher, que filmou tudo, telefonou para a advogada, que lhe foi transmitindo as perguntas que devia fazer. Quem eram aqueles homens? Para que agência trabalhavam? Para onde iam levar o seu marido? Os homens limitam-se a dar uma morada. Não respondem a mais nada e, a certa altura, começam a correr pela rua até se enfiarem num carro. Parece um rapto. Mas não é: Mahmoud Khalil foi levado para uma prisão no Louisiana, a cerca de quatro horas de voo de distância da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde foi detido. O crime deste estudante é ter participado em protestos pró-Palestina.
A conta oficial da Casa Branca no Instagram parece agora a parede de uma taberna de um filme de cowboys, cheia de imagens de presos, com as caras sobre um fundo laranja e negro, onde se leem os crimes de que são acusados, o lugar e a data de detenção. Há também uma fotografia de uma mulher, Rasha Alawieh, uma médica especializada em transplantes, que foi deportada, apesar de estar legal nos Estados Unidos, depois de ter sido acusada de ter viajado para Beirute para assistir ao funeral de um membro do Hezbollah. “Bye-bye, Rasha”, lê-se na legenda do post ilustrado com uma imagem de Donald Trump a dizer adeus da janela do que parece ser um posto de atendimento drive-thru de uma cadeia de fast food.
Scroll para baixo. A mesma conta mostra prisioneiros tatuados, algemados com correntes, a serem encaminhados para um avião, numa pista de aeroporto, ao pôr do sol. A banda sonora é uma música pop rock que estava nos tops no final dos anos 90 e ajuda a adocicar as imagens. Mas a mensagem é sublinhada por uma parte da letra que a Casa Branca destacou em legenda. “Closing time, you don’t have to go home/But you can’t stay here”.
As imagens ilustram a notícia dos cerca de 200 homens latinos que foram detidos e deportados esta semana dos Estados Unidos para uma das mais violentas prisões do mundo, em El Salvador, onde, segundo o The Guardian, não há recreio ao ar livre e não são permitidas visitas, há relatos de tortura e cada preso tem o equivalente a 0,60 metros quadrados. Segundo o The New York Times, não há dados que permitam perceber quantos destes homens pertenciam efetivamente a gangues, como foi alegado pela Casa Branca, ou que tipo de ameaça representavam, uma vez que foi admitido pelas autoridades americanas que vários deles não tinham sequer sido alvo de qualquer condenação.
Há imagens que mostram estes homens de macacão, algemados, com agentes a raparem-lhes a cabeça antes de serem enviados para El Salvador, que vai receber milhões de dólares para os encarcerar. Mariyin Araujo, que tem uma filha com seis anos e outra com dois, diz que só percebeu que o marido já estava na prisão salvadorenha depois de ver uma fotografia nas redes sociais. Era um venezuelano, que tinha fugido depois de ter sido perseguido pelo regime de Nicolas Maduro, e, por ser treinador de futebol, tinha uma tatuagem com uma bola e uma coroa num braço, um sinal que foi visto pelas autoridades americanas como a prova da ligação a um gangue da Venezuela. Mariyin não consegue sequer confirmar se o marido está em El Salvador.
“Se alguma vez houve um momento em que pessoas comuns, na base da pirâmide, se têm de organizar e lutar, este é esse tempo. Este é o momento de reclamar a nossa democracia (…) Porque esta é a verdade: a vasta maioria dos norte-americanos, democratas, republicanos e independentes não querem ver o Congresso a aliviar os impostos dos bilionários e a cortar nos programas de que as famílias trabalhadoras e desfavorecidas precisam”, diz Bernie Sanders no seu vídeo, pedindo a cada americano que se envolva diretamente em ações políticas e se organize na sua comunidade.
O meu telefone está cheio de notícias sobre como as autoridades alemãs reprimem violentamente manifestações contra o genocídio em Gaza. Leio histórias sobre jovens ativistas presos no Reino Unido por se envolverem em protestos de ação direta não violenta pelos direitos climáticos ou a favor da Palestina, ao abrigo de leis antiterroristas que permitem fechá-los em prisões de alta segurança durante um ano antes de irem a julgamento. Um cientista francês foi expulso dos EUA por ter mensagens anti-Trump no telefone. E, em Londres, o trabalhista Keir Starmer anuncia um corte de 5 mil milhões de libras em programas sociais, incluindo de apoio a deficientes, deixando sem resposta o deputado do próprio partido que lhe pergunta por que não põe ele os ricos a pagar uma taxa sobre a sua fortuna.
“Nós somos a maioria, eles são o 1%”, diz Sanders. Enquanto assisto à queda dos princípios de igualdade perante a lei, justiça e liberdades individuais no prometido oásis das democracias ocidentais, a ideia de Sanders parece a única esperança possível. “Nós somos a maioria, eles são o 1%”.
Um Hitler fixe
A criação de figurinhas no WhatsApp inaugurou um código de comunicação social. Para quem gosta de humor e domina a técnica de montar imagens, é um meio de expressão muito fértil. Quase uma arte pós-moderna, de forte apelo emocional, capaz de provocar riso, empatia, identificação. Uma vez que um sujeito monta e envia a figurinha ao outro, ela passa a fazer parte dos acervos de ambos. Assim tem início um efeito multiplicador: algumas dessas obras anônimas se tornam memes, que representam e reforçam um repertório de ideias e valores compartilhados.
Qual não foi a minha surpresa, num grupo de WhatsApp, quando o meu filho de 12 anos enviou uma figurinha perturbadora. Era uma foto de Adolf Hitler fazendo o gesto do hang loose — uma saudação comum entre os surfistas, ao menos no Brasil, associada a pessoas tranquilas e descoladas. Em suma: era a foto de um Hitler fixe.
Quando o interpelei, descobri que o meu filho nem sabia quem era aquele simpático senhor. Achou que era Charles Chaplin, que satirizou o grande ditador no cinema. Ele usou a figurinha apenas para responder a uma mensagem banal. E o que mais me impactou foi essa banalidade do mal – para revisitar Hannah Arendt no século XXI. Quem teria criado e colocado em circulação aquela imagem? Como esse projeto de rebranding de um genocida alemão chegou ao telefone celular de um menino em Portugal?
Mais do que banalidade, trata-se de um processo de banalização do mal. O mesmo operado pelo partido de extrema-direita Alternative für Deutschland (AfD), quando afirma que nem todos os membros da SS eram criminosos, ou quando propõe uma reescrita da História de modo que a Alemanha não se envergonhe do passado nazista — proposta apoiada por Elon Musk numa recente convenção da legenda. E o mesmo vale para os portugueses que sentem saudades de Salazar, ou para os brasileiros que votariam em Bolsonaro no ano que vem, sabendo da sua participação num plano de golpe militar que envolvia assassinar o presidente, o vice-presidente e um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
Talvez assustado pela minha reação de choque, meu filho disse que não sabia como aquela figurinha foi parar no seu acervo. Ele frequenta uma escola pública em Lisboa, com amigos de várias nacionalidades, o que sempre considerei um tesouro cultural para a sua formação. Daí o espanto ao me deparar com um ícone que vai na contramão desse valor pluralista e tão democrático.
Precisei me sentar com o meu filho, mostrar fotos na internet, tentar transmitir os horrores das duas Grandes Guerras, que ele ainda não estudou na escola. Guerras que tiveram origem num contexto semelhante ao atual, com a exacerbação dos nacionalismos e o esgarçamento das soluções diplomáticas para os conflitos internacionais. Um esgarçamento que remete à imagem de uma corda, prestes a se romper numa Terceira Grande Guerra, tensionada pelo risco do uso de armas nucleares. Imagem tão terrível que não cabe numa figurinha. Precisamos trabalhar duro para que ela não caiba na realidade.
Fernanda Hamann
Qual não foi a minha surpresa, num grupo de WhatsApp, quando o meu filho de 12 anos enviou uma figurinha perturbadora. Era uma foto de Adolf Hitler fazendo o gesto do hang loose — uma saudação comum entre os surfistas, ao menos no Brasil, associada a pessoas tranquilas e descoladas. Em suma: era a foto de um Hitler fixe.
Quando o interpelei, descobri que o meu filho nem sabia quem era aquele simpático senhor. Achou que era Charles Chaplin, que satirizou o grande ditador no cinema. Ele usou a figurinha apenas para responder a uma mensagem banal. E o que mais me impactou foi essa banalidade do mal – para revisitar Hannah Arendt no século XXI. Quem teria criado e colocado em circulação aquela imagem? Como esse projeto de rebranding de um genocida alemão chegou ao telefone celular de um menino em Portugal?
Mais do que banalidade, trata-se de um processo de banalização do mal. O mesmo operado pelo partido de extrema-direita Alternative für Deutschland (AfD), quando afirma que nem todos os membros da SS eram criminosos, ou quando propõe uma reescrita da História de modo que a Alemanha não se envergonhe do passado nazista — proposta apoiada por Elon Musk numa recente convenção da legenda. E o mesmo vale para os portugueses que sentem saudades de Salazar, ou para os brasileiros que votariam em Bolsonaro no ano que vem, sabendo da sua participação num plano de golpe militar que envolvia assassinar o presidente, o vice-presidente e um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
Talvez assustado pela minha reação de choque, meu filho disse que não sabia como aquela figurinha foi parar no seu acervo. Ele frequenta uma escola pública em Lisboa, com amigos de várias nacionalidades, o que sempre considerei um tesouro cultural para a sua formação. Daí o espanto ao me deparar com um ícone que vai na contramão desse valor pluralista e tão democrático.
Precisei me sentar com o meu filho, mostrar fotos na internet, tentar transmitir os horrores das duas Grandes Guerras, que ele ainda não estudou na escola. Guerras que tiveram origem num contexto semelhante ao atual, com a exacerbação dos nacionalismos e o esgarçamento das soluções diplomáticas para os conflitos internacionais. Um esgarçamento que remete à imagem de uma corda, prestes a se romper numa Terceira Grande Guerra, tensionada pelo risco do uso de armas nucleares. Imagem tão terrível que não cabe numa figurinha. Precisamos trabalhar duro para que ela não caiba na realidade.
Fernanda Hamann
sexta-feira, 21 de março de 2025
Asilo para paranoicos
A paranoia é um direito. Se Eduardo Bolsonaro acredita que sofre perseguição política no Brasil, tem o direito de requisitar asilo no país de sua preferência. As autoridades desse país é que correm o risco de cair no ridículo caso concedam a proteção com base em delírios e não em fatos —não que isso seja um problema para os EUA sob Donald Trump.
Tampouco acompanho a argumentação dos que afirmam que Bolsonaro, o Pequeno, com seu teatro, adentra o território do ilícito por difamar o Brasil no exterior. Não penso que exista uma obrigação de zelar pela imagem do país. A liberdade de expressão foi inventada justamente para que as pessoas pudessem criticar qualquer instituição ou autoridade e em termos fortes. Se a crítica para ou não em pé é um outro problema.
A tese bolsonarista de que o Brasil vive uma ditadura judicial é uma das ideias mais estapafúrdias que já vi. Sim, o STF adora meter os pés pelas mãos e frequentemente avança o sinal. Pior, continua recorrendo a heterodoxias mesmo depois que elas deixaram de ser necessárias e se tornaram contraproducentes.
Mas, como já nos ensinou o sábio Lula, a democracia é relativa, isto é, comporta graus. É preciso mais do que medidas discutíveis ou mesmo alguns excessos autoritários da Justiça para caracterizar uma ditadura.
Desconfio até que a tal da "ditadura da toga" da qual bolsonaristas tanto falam seja uma impossibilidade, se não lógica, ao menos prática. Exceto pela diminuta Polícia Judicial, que basicamente faz a segurança de tribunais, o Judiciário é um Poder desarmado. Depende de forças sob controle do Executivo para impor suas decisões a quem recalcitre. Daí que a literatura não registra muitos casos de cortes supremas convertidas em sede de governo.
É interessante ainda notar que Trump, cujas botas o jovem Bolsonaro está se especializando em lamber, explora justamente essa assimetria de forças entre os Poderes para desafiar decisões de magistrados, no que, me parece, será a versão 2.0 de sua tentativa de golpe.
Tampouco acompanho a argumentação dos que afirmam que Bolsonaro, o Pequeno, com seu teatro, adentra o território do ilícito por difamar o Brasil no exterior. Não penso que exista uma obrigação de zelar pela imagem do país. A liberdade de expressão foi inventada justamente para que as pessoas pudessem criticar qualquer instituição ou autoridade e em termos fortes. Se a crítica para ou não em pé é um outro problema.
A tese bolsonarista de que o Brasil vive uma ditadura judicial é uma das ideias mais estapafúrdias que já vi. Sim, o STF adora meter os pés pelas mãos e frequentemente avança o sinal. Pior, continua recorrendo a heterodoxias mesmo depois que elas deixaram de ser necessárias e se tornaram contraproducentes.
Mas, como já nos ensinou o sábio Lula, a democracia é relativa, isto é, comporta graus. É preciso mais do que medidas discutíveis ou mesmo alguns excessos autoritários da Justiça para caracterizar uma ditadura.
Desconfio até que a tal da "ditadura da toga" da qual bolsonaristas tanto falam seja uma impossibilidade, se não lógica, ao menos prática. Exceto pela diminuta Polícia Judicial, que basicamente faz a segurança de tribunais, o Judiciário é um Poder desarmado. Depende de forças sob controle do Executivo para impor suas decisões a quem recalcitre. Daí que a literatura não registra muitos casos de cortes supremas convertidas em sede de governo.
É interessante ainda notar que Trump, cujas botas o jovem Bolsonaro está se especializando em lamber, explora justamente essa assimetria de forças entre os Poderes para desafiar decisões de magistrados, no que, me parece, será a versão 2.0 de sua tentativa de golpe.
Trump x Justiça: Os EUA a caminho da autocracia?
O governo Donald Trump deportou centenas de venezuelanos no último fim de semana porque, segundo o governo dos EUA, eles eram membros de uma gangue de tráfico de drogas. Os homens deportados foram transferidos para El Salvador e mantidos na prisão de segurança máxima CECOT.
Trump invocou uma lei de 1798 que permite a expulsão de "inimigos estrangeiros" do país, mas o juiz federal de Washington, James E. Boasberg, proibiu a deportação. No entanto, o governo Trump ignorou a decisão do juiz, alegando que os aviões já estavam no ar no momento da decisão do tribunal.
A disputa se intensificou na quarta-feira: "Se um presidente não tem o direito de remover assassinos e outros criminosos, então nosso país tem um grande problema, está condenado!" Trump desabafou em sua rede social Truth sobre a decisão de Boasberg. Trump e vários congressistas republicanos até pediram sua remoção.
Este não é o único caso em que o governo Trump e o judiciário dos EUA estão em desacordo. Por exemplo, um juiz federal ordenou a suspensão do encerramento da agência de ajuda ao desenvolvimento USAID . Outro juiz de Maryland bloqueou a expulsão de pessoas transgênero das Forças Armadas pelo Secretário de Defesa Pete Hegseth , pelo menos por enquanto. E um juiz de Washington ordenou que o governo pagasse subsídios totalizando US$ 14 bilhões a três organizações ambientais.
"Temos juízes descontrolados que estão destruindo nosso país", repreendeu Trump em uma entrevista à Fox News . Quando perguntado se ele se oporia a uma decisão judicial, Trump respondeu: "Não, isso não é possível".
"No momento, Trump está sofrendo derrota após derrota nos tribunais", diz Johannes Thimm, vice-chefe do Grupo de Pesquisa das Américas no Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), sediado em Berlim. "E agora estamos vendo os primeiros sinais de que ele está questionando abertamente certas decisões judiciais e praticamente não as cumprindo." Isso parece estar acontecendo particularmente com deportações.
O que Trump e seus apoiadores pensam sobre esse tipo de sentença ficou claro em várias declarações nos últimos dias. O "czar da fronteira" nomeado por Trump, Tom Homan, disse à Fox News : "Não me importa o que os juízes pensam." Se "os terroristas forem removidos do país", então "isso deve ser motivo de comemoração neste país", disse ele.
A secretária de Justiça, Pam Bondi, também criticou a suspensão das ordens de deportação como um "desrespeito à autoridade do presidente Trump". Ele ressaltou que tais decisões dos juízes colocam em risco a população e a aplicação da lei.
Para Johannes Thimm, esses são sinais de alerta. O especialista do SWP acredita que todo o sistema de separação de poderes nos EUA está em perigo. Por um lado, "o poder legislativo praticamente abdicou de seu papel como poder de supervisão que também pode controlar o presidente". Desde a eleição, os republicanos detêm a maioria em ambas as câmaras e são "praticamente 100% leais a Trump", diz Thimm.
O Judiciário permanece. "E o problema básico aqui é que os tribunais não conseguem efetivamente impor suas decisões, especialmente contra o governo. O sistema inteiro depende dos outros poderes do governo respeitando a autoridade dos tribunais", acrescenta o especialista.
"O fato de Trump estar começando a ignorar ou se recusar a cumprir decisões judiciais tem o potencial de desencadear uma crise constitucional", ele argumenta. Afinal, em um estado constitucional, a polícia e as autoridades de segurança estão lá principalmente para fazer cumprir a lei. No entanto, em última análise, eles respondem ao presidente. Mas se houver instruções conflitantes de ambos os lados, a quem eles devem obedecer?
Talvez essa seja uma das razões pelas quais o presidente da Suprema Corte, John Roberts, rejeitou o pedido de Trump para remover alguns juízes. "Está estabelecido há mais de dois séculos que o impeachment não é uma resposta apropriada a um desacordo sobre uma decisão judicial", explicou Roberts. "É para isso que servem os recursos."
É improvável que o presidente dos EUA arrisque um confronto aberto com a Suprema Corte, em cuja nomeação ele desempenhou um papel fundamental. Mas "não está mais fora de questão que Trump simplesmente ignore o judiciário e ninguém realmente faça ou seja capaz de fazer nada a respeito", teme Thimm. "Então os EUA terão dado um grande passo em direção à abolição do estado democrático de direito."
Trump invocou uma lei de 1798 que permite a expulsão de "inimigos estrangeiros" do país, mas o juiz federal de Washington, James E. Boasberg, proibiu a deportação. No entanto, o governo Trump ignorou a decisão do juiz, alegando que os aviões já estavam no ar no momento da decisão do tribunal.
A disputa se intensificou na quarta-feira: "Se um presidente não tem o direito de remover assassinos e outros criminosos, então nosso país tem um grande problema, está condenado!" Trump desabafou em sua rede social Truth sobre a decisão de Boasberg. Trump e vários congressistas republicanos até pediram sua remoção.
Este não é o único caso em que o governo Trump e o judiciário dos EUA estão em desacordo. Por exemplo, um juiz federal ordenou a suspensão do encerramento da agência de ajuda ao desenvolvimento USAID . Outro juiz de Maryland bloqueou a expulsão de pessoas transgênero das Forças Armadas pelo Secretário de Defesa Pete Hegseth , pelo menos por enquanto. E um juiz de Washington ordenou que o governo pagasse subsídios totalizando US$ 14 bilhões a três organizações ambientais.
"Temos juízes descontrolados que estão destruindo nosso país", repreendeu Trump em uma entrevista à Fox News . Quando perguntado se ele se oporia a uma decisão judicial, Trump respondeu: "Não, isso não é possível".
"No momento, Trump está sofrendo derrota após derrota nos tribunais", diz Johannes Thimm, vice-chefe do Grupo de Pesquisa das Américas no Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), sediado em Berlim. "E agora estamos vendo os primeiros sinais de que ele está questionando abertamente certas decisões judiciais e praticamente não as cumprindo." Isso parece estar acontecendo particularmente com deportações.
O que Trump e seus apoiadores pensam sobre esse tipo de sentença ficou claro em várias declarações nos últimos dias. O "czar da fronteira" nomeado por Trump, Tom Homan, disse à Fox News : "Não me importa o que os juízes pensam." Se "os terroristas forem removidos do país", então "isso deve ser motivo de comemoração neste país", disse ele.
A secretária de Justiça, Pam Bondi, também criticou a suspensão das ordens de deportação como um "desrespeito à autoridade do presidente Trump". Ele ressaltou que tais decisões dos juízes colocam em risco a população e a aplicação da lei.
Para Johannes Thimm, esses são sinais de alerta. O especialista do SWP acredita que todo o sistema de separação de poderes nos EUA está em perigo. Por um lado, "o poder legislativo praticamente abdicou de seu papel como poder de supervisão que também pode controlar o presidente". Desde a eleição, os republicanos detêm a maioria em ambas as câmaras e são "praticamente 100% leais a Trump", diz Thimm.
O Judiciário permanece. "E o problema básico aqui é que os tribunais não conseguem efetivamente impor suas decisões, especialmente contra o governo. O sistema inteiro depende dos outros poderes do governo respeitando a autoridade dos tribunais", acrescenta o especialista.
"O fato de Trump estar começando a ignorar ou se recusar a cumprir decisões judiciais tem o potencial de desencadear uma crise constitucional", ele argumenta. Afinal, em um estado constitucional, a polícia e as autoridades de segurança estão lá principalmente para fazer cumprir a lei. No entanto, em última análise, eles respondem ao presidente. Mas se houver instruções conflitantes de ambos os lados, a quem eles devem obedecer?
Talvez essa seja uma das razões pelas quais o presidente da Suprema Corte, John Roberts, rejeitou o pedido de Trump para remover alguns juízes. "Está estabelecido há mais de dois séculos que o impeachment não é uma resposta apropriada a um desacordo sobre uma decisão judicial", explicou Roberts. "É para isso que servem os recursos."
É improvável que o presidente dos EUA arrisque um confronto aberto com a Suprema Corte, em cuja nomeação ele desempenhou um papel fundamental. Mas "não está mais fora de questão que Trump simplesmente ignore o judiciário e ninguém realmente faça ou seja capaz de fazer nada a respeito", teme Thimm. "Então os EUA terão dado um grande passo em direção à abolição do estado democrático de direito."
Sou obrigado a concordar com Bolsonaro: ele é um aborto da natureza
A princípio pareceu só mais uma live para que Bolsonaro se defendesse mais uma vez das acusações que deverão pôr fim à sua carreira política, remetendo-o à prisão por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe, danos às sedes dos três Poderes da República e organização criminosa.
De fato, ele usou a ocasião para se apresentar como um injustiçado e repetiu os velhos e inconsistentes argumentos de que é vítima de uma trama da justiça. Nada de novo acrescentaram em sua defesa um dos seus advogados presente e o âncora da conversa de mais de duas horas, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o Zero 1.
O ex-presidente definiu-se como um “aborto da natureza”. Ele afirmou:
“Eu fui um aborto da natureza. Além de sobreviver a uma facada, na graça de Deus, a minha própria eleição. Quem podia esperar que eu, um deputado do baixo clero, tido por muitos como encrenqueiro, e era encrenqueiro mesmo, conseguiria ganhar uma eleição?”
Ao fim da live, porém, diria:
“Me deem [na próxima eleição] 50% da Câmara e 50% do Senado que eu mudo o destino do Brasil.”
De início, também pareceu que o encontro serviria basicamente para celebrar os 70 anos de vida de Bolsonaro. Apareceram os filhos Zero 2 (Eduardo, o fugitivo) e Zero 3 (Carlos, o marqueteiro do pai). E Michelle, a ex-primeira-dama, acompanhada de um pastor, com orações, beijos, abraços e um bolo.
Mas o segredo estava no bolo, em formato de capacete para uso de motociclistas. Flávio aproveitou grande parte do programa para anunciar de viva voz, e por meio de comerciais estrelados por Bolsonaro, que ele e o pai se associaram para fabricar capacetes de grafeno, o “primeiro de vários produtos da família”.
Pois é: business. Aposte na incontida ambição da família Bolsonaro por dinheiro que você não erra. Como demonstrado ao longo da trajetória do clã, enriquecer é seu objetivo número um, dois e três. E se a política lhe abriu as portas para negócios, por que não fazê-los, de preferência em dinheiro vivo ou via Pix?
Um capacete com a marca “Bravo”, autografado por Bolsonaro, foi leiloado. Flávio disse que seu preço na fase de pré-venda será de 740 reais. Quem desse o lance mais alto até o fim da live receberia aquele capacete das mãos do próprio Bolsonaro. O primeiro lance foi de 10 mil reais. O último, de 36 mil. Flávio advertiu:
– Mas manda o Pix.
Nos primeiros seis meses de 2023, Bolsonaro recebeu 17,2 milhões via Pix ao alegar que lhe faltava dinheiro para pagar as multas que devia por não usar capacete pilotando motocicletas. Ao todo, foram 769 mil transações entre 1º de janeiro a 4 de julho. Nesse período, a conta de Bolsonaro movimentou R$ 18,5 milhões.
Nos próximos dias, mais três capacetes autografados por Bolsonaro serão leiloados no canal do Instagram da nova empresa.
De fato, ele usou a ocasião para se apresentar como um injustiçado e repetiu os velhos e inconsistentes argumentos de que é vítima de uma trama da justiça. Nada de novo acrescentaram em sua defesa um dos seus advogados presente e o âncora da conversa de mais de duas horas, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o Zero 1.
O ex-presidente definiu-se como um “aborto da natureza”. Ele afirmou:
“Eu fui um aborto da natureza. Além de sobreviver a uma facada, na graça de Deus, a minha própria eleição. Quem podia esperar que eu, um deputado do baixo clero, tido por muitos como encrenqueiro, e era encrenqueiro mesmo, conseguiria ganhar uma eleição?”
Ao fim da live, porém, diria:
“Me deem [na próxima eleição] 50% da Câmara e 50% do Senado que eu mudo o destino do Brasil.”
De início, também pareceu que o encontro serviria basicamente para celebrar os 70 anos de vida de Bolsonaro. Apareceram os filhos Zero 2 (Eduardo, o fugitivo) e Zero 3 (Carlos, o marqueteiro do pai). E Michelle, a ex-primeira-dama, acompanhada de um pastor, com orações, beijos, abraços e um bolo.
Mas o segredo estava no bolo, em formato de capacete para uso de motociclistas. Flávio aproveitou grande parte do programa para anunciar de viva voz, e por meio de comerciais estrelados por Bolsonaro, que ele e o pai se associaram para fabricar capacetes de grafeno, o “primeiro de vários produtos da família”.
Pois é: business. Aposte na incontida ambição da família Bolsonaro por dinheiro que você não erra. Como demonstrado ao longo da trajetória do clã, enriquecer é seu objetivo número um, dois e três. E se a política lhe abriu as portas para negócios, por que não fazê-los, de preferência em dinheiro vivo ou via Pix?
Um capacete com a marca “Bravo”, autografado por Bolsonaro, foi leiloado. Flávio disse que seu preço na fase de pré-venda será de 740 reais. Quem desse o lance mais alto até o fim da live receberia aquele capacete das mãos do próprio Bolsonaro. O primeiro lance foi de 10 mil reais. O último, de 36 mil. Flávio advertiu:
– Mas manda o Pix.
Nos primeiros seis meses de 2023, Bolsonaro recebeu 17,2 milhões via Pix ao alegar que lhe faltava dinheiro para pagar as multas que devia por não usar capacete pilotando motocicletas. Ao todo, foram 769 mil transações entre 1º de janeiro a 4 de julho. Nesse período, a conta de Bolsonaro movimentou R$ 18,5 milhões.
Nos próximos dias, mais três capacetes autografados por Bolsonaro serão leiloados no canal do Instagram da nova empresa.
Conselho dos velhos sábios astecas
Agora que já olhas com teus olhos,
percebe.
Aqui, é assim: não há alegria,
não há felicidade.
Aqui na terra é o lugar de muito pranto,
o lugar onde se rende o fôlego
e onde bem se concebe
o abatimento e a amargura.
Um vento de pedra sopra e se abate
sobre nós.
A terra é lugar de alegria penosa,
de alegria que fere.
Mas ainda que assim fosse,
ainda que fosse verdade que só se sofre,
ainda que fossem assim as coisas na terra,
haverá que estar sempre com medo?
haverá que estar sempre tremendo?
haverá que viver sempre chorando?
Para que não andemos sempre gemendo,
para que nunca nos sature a tristeza,
o Senhor Nosso nos deu
o riso, o sonho, os alimentos,
nossa força,
e finalmente
o ato de amor
que semeia gentes.
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
percebe.
Aqui, é assim: não há alegria,
não há felicidade.
Aqui na terra é o lugar de muito pranto,
o lugar onde se rende o fôlego
e onde bem se concebe
o abatimento e a amargura.
Um vento de pedra sopra e se abate
sobre nós.
A terra é lugar de alegria penosa,
de alegria que fere.
Mas ainda que assim fosse,
ainda que fosse verdade que só se sofre,
ainda que fossem assim as coisas na terra,
haverá que estar sempre com medo?
haverá que estar sempre tremendo?
haverá que viver sempre chorando?
Para que não andemos sempre gemendo,
para que nunca nos sature a tristeza,
o Senhor Nosso nos deu
o riso, o sonho, os alimentos,
nossa força,
e finalmente
o ato de amor
que semeia gentes.
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
Em busca da confiança
Yuval Noah Harari disse em entrevista recente que a questão chave do nosso tempo é que a “democracia é baseada em confiança enquanto a ditadura baseia-se em medo”. Diz o historiador israelense que “quando a confiança nas instituições democráticas, na academia, na mídia profissional, nos tribunais é destruída, só a ditadura funciona”. Harari adverte ainda que “a desconfiança e a consequente desmoralização das instituições que ordenam a vida em sociedade não liberta os indivíduos, ao contrário, consagra o medo e abre caminho para a tirania”.
Confiança é o lastro em que se fundamenta o valor e o poder das instituições, dos ativos financeiros, das empresas, dos produtos, das marcas, das moedas, das pessoas e principalmente das narrativas. Ficções e mitologias, modernas e primitivas, ilustram as crenças e fazem balançar o pêndulo das verdades aceitas como tal. O bombardeio errático das informações no novo mundo conectado e instantâneo condiciona a formação de opiniões e os posicionamentos. Harari diz que quase tudo é lixo.
O voto popular é a instituição mais importante da democracia. Com todas as imperfeições é o calendário eleitoral que ordena a disputa política e indica estarmos vivendo, ao menos formalmente, num sistema democrático. Existe uma ala do Partido Republicano nos Estados Unidos que quer acabar com as eleições parlamentares (mid term elections) no ano que vem, para permitir que as medidas “revolucionárias” do governo Trump possam funcionar e melhorar a vida dos americanos. Acho muito difícil que isso ocorra, mas significa que os ventos da ditadura estão soprando por lá, perigosamente.
No Brasil a principal estratégia para desmoralizar o voto foi a campanha contra a urna eletrônica que contou ainda com o auxilio luxuoso dos interesses comerciais interessados em vender 500 mil impressoras e softwares de segurança para a Justiça Eleitoral. A legislação feita para implantar o financiamento público de campanha, impedir a compra de voto, o abuso do poder econômico e o uso eleitoral da máquina pública não mudaram o ambiente de descrédito no sistema político brasileiro. É preciso reconhecer as imperfeições e ineficiências das instituições da democracia brasileira e enfrentar o debate sobre reformas estruturais com vistas a resgatar a confiança na politica e no voto popular. Não enfrentar a agenda de reformas é acomodar-se na defesa de um status quo desgastado e inaceitável para grande parte da população e colocar lenha na fogueira da campanha anti-sistema. O veteraníssimo José Sarney defende o voto distrital misto e o semi presidencialismo.
Apareceram muitas novidades. Novos partidos, celebridades televisivas e influenciadores digitais, que surfam no sonho de uma “nova politica”, se elegem, tornam-se centro das atenções e objeto de desejo dos partidos e de projetos de poder. Com raras e honrosas exceções, a “renovação” dos últimos anos frustrou o país, piorou a qualidade do sistema político e aprofundou a crise de confiança. Em 2026, nas próximas eleições, teremos mais uma oportunidade de tentar reverter esse jogo.
Nos estados federados a liderança vai caber aos governos estaduais bem avaliados que tendem a formar alianças regionais amplas, sem alinhamento ideológico e compromisso prioritário com candidaturas presidenciais. Como nas peladas, os dois mitos, Lula e Bolsonaro, depois do par-ou-ímpar, escolhem o time distribuindo apoios com base em seus estoques de popularidade e recursos de poder, segurando lealdades e alimentando a polarização. É nítido o crescimento da torcida contra ambos os populistas embora ainda não seja claro qual será o espaço do centro democrático reformista.
Quem sabe estejamos cansados de mitos e já tenha chegado a hora da racionalidade e do bom senso ganharem eleições, reforçando a confiança e a democracia no Brasil?
Confiança é o lastro em que se fundamenta o valor e o poder das instituições, dos ativos financeiros, das empresas, dos produtos, das marcas, das moedas, das pessoas e principalmente das narrativas. Ficções e mitologias, modernas e primitivas, ilustram as crenças e fazem balançar o pêndulo das verdades aceitas como tal. O bombardeio errático das informações no novo mundo conectado e instantâneo condiciona a formação de opiniões e os posicionamentos. Harari diz que quase tudo é lixo.
O voto popular é a instituição mais importante da democracia. Com todas as imperfeições é o calendário eleitoral que ordena a disputa política e indica estarmos vivendo, ao menos formalmente, num sistema democrático. Existe uma ala do Partido Republicano nos Estados Unidos que quer acabar com as eleições parlamentares (mid term elections) no ano que vem, para permitir que as medidas “revolucionárias” do governo Trump possam funcionar e melhorar a vida dos americanos. Acho muito difícil que isso ocorra, mas significa que os ventos da ditadura estão soprando por lá, perigosamente.
No Brasil a principal estratégia para desmoralizar o voto foi a campanha contra a urna eletrônica que contou ainda com o auxilio luxuoso dos interesses comerciais interessados em vender 500 mil impressoras e softwares de segurança para a Justiça Eleitoral. A legislação feita para implantar o financiamento público de campanha, impedir a compra de voto, o abuso do poder econômico e o uso eleitoral da máquina pública não mudaram o ambiente de descrédito no sistema político brasileiro. É preciso reconhecer as imperfeições e ineficiências das instituições da democracia brasileira e enfrentar o debate sobre reformas estruturais com vistas a resgatar a confiança na politica e no voto popular. Não enfrentar a agenda de reformas é acomodar-se na defesa de um status quo desgastado e inaceitável para grande parte da população e colocar lenha na fogueira da campanha anti-sistema. O veteraníssimo José Sarney defende o voto distrital misto e o semi presidencialismo.
Apareceram muitas novidades. Novos partidos, celebridades televisivas e influenciadores digitais, que surfam no sonho de uma “nova politica”, se elegem, tornam-se centro das atenções e objeto de desejo dos partidos e de projetos de poder. Com raras e honrosas exceções, a “renovação” dos últimos anos frustrou o país, piorou a qualidade do sistema político e aprofundou a crise de confiança. Em 2026, nas próximas eleições, teremos mais uma oportunidade de tentar reverter esse jogo.
Nos estados federados a liderança vai caber aos governos estaduais bem avaliados que tendem a formar alianças regionais amplas, sem alinhamento ideológico e compromisso prioritário com candidaturas presidenciais. Como nas peladas, os dois mitos, Lula e Bolsonaro, depois do par-ou-ímpar, escolhem o time distribuindo apoios com base em seus estoques de popularidade e recursos de poder, segurando lealdades e alimentando a polarização. É nítido o crescimento da torcida contra ambos os populistas embora ainda não seja claro qual será o espaço do centro democrático reformista.
Quem sabe estejamos cansados de mitos e já tenha chegado a hora da racionalidade e do bom senso ganharem eleições, reforçando a confiança e a democracia no Brasil?
A censura totalitária do 'ditador' Trump
Não bastam eleições democráticas para um governo ser classificado de democrata. Os EUA de Donald Trump demonstram, no século XXI, como um presidente eleito por larga margem consegue se comportar como um ditador. Autocrático e totalitário. A guerra cultural de Trump e seus bilionários de cabeceira começa a deformar a sociedade norte-americana.
Confio em que a queda de popularidade de Trump, somada a manifestações em Washington e a ações da Suprema Corte, consiga frear o enlouquecimento que tira o sono de acadêmicos, jornalistas, atores, artistas. E também da Europa. Talvez eu seja otimista demais. Um eleitorado que recoloca no Poder um racista misógino xenófobo que incitou a invasão ao Capitólio não se rebela com a censura. Mas, quem sabe...
Professores brasileiros em universidades americanas compartilham o terror obscurantista. Ouvi alguns deles. “Milhões e milhões de dólares para pesquisa estão evaporando de um dia pro outro. Centros de pesquisa obrigados a demitir gente. É uma monstruosidade”.
“Estamos todos assustados, intimidados. E sabemos que esse é o efeito desejado, o tal chilling effect” (“efeito intimidador”).
A distopia de Trump e Musk é caricatural. Começa pela guerra às palavras, censuradas em documentos oficiais e científicos. Guerra inofensiva? Qualquer protocolo de pesquisa biomédica e médica com as palavras seguintes (e derivadas) está no momento com verbas bloqueadas. A lista reflete obsessões trumpistas. Abaixo, uma seleção proibida:
Acessível, ativismo, defesa de uma causa, inclusivo, aliança, solidariedade, antirracismo, em risco, barreira, pertencer, viés, preconceito, tendencioso, negros, indígenas e pessoas de cor, energia limpa, crise climática, ciência climática, qualidade ambiental, diversidade comunitária e racial, herança cultural, equidade, deficiências, discriminação, igualdade de oportunidades, excluído, feminismo, violência de gênero, golfo do México, discurso de ódio, disparidade na saúde, minoria hispânica, historicamente, identidade, imigrantes, grupos-chave, LGBT, marginalizar, homens que fazem sexo com homens, saúde mental, multicultural, opressão, orientação, polarização, político, poluição, pessoas grávidas, privilégio, prostituta, profissional do sexo, etnia e raça, segregação, sexualidade, justiça social, status, estereótipo, sistêmico, transexual, trauma, tribal, subestimado, desfavorecido, vítima, populações vulneráveis.
Quando lemos essa lista, nós, jornalistas, que lidamos com a palavra como matéria-prima, estremecemos. Sabemos o que é lidar com a censura prévia e com a tortura e morte de jornalistas como Vladimir Herzog. Só agora, 50 anos após ser encontrado enforcado numa cela, assassinado pelo DOI/CODI, o governo brasileiro oficializou seu nome como anistiado político.
A guerra cultural de Trump não mira apenas universidades americanas. Um pesquisador aeroespacial francês foi barrado ao chegar ao país. Milhares de imagens e artigos foram removidos de sites do Pentágono por conterem “diversidade”. Sobre o Holocausto, o 11 de setembro, conscientização do câncer, assédio sexual, prevenção de suicídio. Foi vetada a citação do avião Enola Gay, que lançou bomba em Hiroshima. Apagado por ter “gay” no nome. A insanidade sobrou para a aeronave.
Não é engraçado. É aterrorizante. Autocracia, totalitarismo, ditadura, essas palavras não são sinônimas. Mas uma linha invisível as costura. A História está cheia de exemplos, enxerga quem quer.
Confio em que a queda de popularidade de Trump, somada a manifestações em Washington e a ações da Suprema Corte, consiga frear o enlouquecimento que tira o sono de acadêmicos, jornalistas, atores, artistas. E também da Europa. Talvez eu seja otimista demais. Um eleitorado que recoloca no Poder um racista misógino xenófobo que incitou a invasão ao Capitólio não se rebela com a censura. Mas, quem sabe...
Professores brasileiros em universidades americanas compartilham o terror obscurantista. Ouvi alguns deles. “Milhões e milhões de dólares para pesquisa estão evaporando de um dia pro outro. Centros de pesquisa obrigados a demitir gente. É uma monstruosidade”.
“Estamos todos assustados, intimidados. E sabemos que esse é o efeito desejado, o tal chilling effect” (“efeito intimidador”).
A distopia de Trump e Musk é caricatural. Começa pela guerra às palavras, censuradas em documentos oficiais e científicos. Guerra inofensiva? Qualquer protocolo de pesquisa biomédica e médica com as palavras seguintes (e derivadas) está no momento com verbas bloqueadas. A lista reflete obsessões trumpistas. Abaixo, uma seleção proibida:
Acessível, ativismo, defesa de uma causa, inclusivo, aliança, solidariedade, antirracismo, em risco, barreira, pertencer, viés, preconceito, tendencioso, negros, indígenas e pessoas de cor, energia limpa, crise climática, ciência climática, qualidade ambiental, diversidade comunitária e racial, herança cultural, equidade, deficiências, discriminação, igualdade de oportunidades, excluído, feminismo, violência de gênero, golfo do México, discurso de ódio, disparidade na saúde, minoria hispânica, historicamente, identidade, imigrantes, grupos-chave, LGBT, marginalizar, homens que fazem sexo com homens, saúde mental, multicultural, opressão, orientação, polarização, político, poluição, pessoas grávidas, privilégio, prostituta, profissional do sexo, etnia e raça, segregação, sexualidade, justiça social, status, estereótipo, sistêmico, transexual, trauma, tribal, subestimado, desfavorecido, vítima, populações vulneráveis.
Quando lemos essa lista, nós, jornalistas, que lidamos com a palavra como matéria-prima, estremecemos. Sabemos o que é lidar com a censura prévia e com a tortura e morte de jornalistas como Vladimir Herzog. Só agora, 50 anos após ser encontrado enforcado numa cela, assassinado pelo DOI/CODI, o governo brasileiro oficializou seu nome como anistiado político.
A guerra cultural de Trump não mira apenas universidades americanas. Um pesquisador aeroespacial francês foi barrado ao chegar ao país. Milhares de imagens e artigos foram removidos de sites do Pentágono por conterem “diversidade”. Sobre o Holocausto, o 11 de setembro, conscientização do câncer, assédio sexual, prevenção de suicídio. Foi vetada a citação do avião Enola Gay, que lançou bomba em Hiroshima. Apagado por ter “gay” no nome. A insanidade sobrou para a aeronave.
Não é engraçado. É aterrorizante. Autocracia, totalitarismo, ditadura, essas palavras não são sinônimas. Mas uma linha invisível as costura. A História está cheia de exemplos, enxerga quem quer.
quinta-feira, 20 de março de 2025
‘Mamãe, estou cansada, quero morrer’
Imitando o movimento de pentear o cabelo com uma escova, Sama Tubail encara seu reflexo no espelho e começa a chorar. Para a menina de 8 anos, o movimento traz de volta lembranças de uma vida antes de 7 de outubro de 2023, quando ela ainda tinha cabelos longos e brincava ao ar livre com seus amigos no norte da Faixa de Gaza. Desde então, ela e sua família estão entre os cerca de 1,9 milhão de palestinos deslocados à força de suas casas, fugindo da violência dos bombardeios israelenses que assolam o enclave.
— Estou triste porque não há um único fio de cabelo para pentear com minha escova — disse Sama à CNN. — Eu seguro o espelho porque quero pentear meu cabelo. Eu realmente quero pentear meu cabelo de novo.
No ano passado, médicos diagnosticaram que a queda de cabelo de Sama foi resultado de um “choque nervoso”, especialmente após a casa de seu vizinho em Rafah ter sido atingida por um ataque aéreo israelense em agosto. Eles também afirmaram que a desestruturação de sua rotina desde o início da guerra provavelmente contribuiu. O sofrimento mental da menina se intensificou quando outras crianças começaram a zombar dela por causa da perda de cabelo, o que fez com que ela se isolasse dentro de casa. Quando sai, usa um lenço rosa na cabeça.
— Mamãe, estou cansada, quero morrer. Por que o meu cabelo não cresce? — implorou ela à sua mãe, Om-Mohammed, antes de perguntar se permaneceria careca para sempre. — Quero morrer e ter meu cabelo de volta no paraíso, se Deus quiser.
Sama não é a única. Um relatório divulgado no final de 2024 pela War Child Alliance e pelo Centro de Treinamento Comunitário para Gestão de Crises, com sede em Gaza, destacou o impacto psicológico das ofensivas de Israel sobre as crianças palestinas no último ano. Baseado em uma pesquisa com mais de 500 cuidadores de crianças vulneráveis, 96% das crianças nessas condições sentiam que a morte era iminente, e quase metade (49%) expressou o “desejo de morrer” após ataques israelenses.
Em relatório publicado em junho, o Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, estimou que quase todas as 1,2 milhão de crianças de Gaza precisam de apoio psicológico, especialmente aquelas expostas repetidamente a eventos traumáticos. Uma semana após o anúncio do cessar-fogo entre Israel e o Hamas, em janeiro, o subsecretário-geral da ONU para assuntos humanitários, Tom Fletcher, disse ao Conselho de Segurança da organização que “uma geração foi traumatizada”.
— Crianças foram mortas, passaram fome e morreram de frio — disse ele. — Algumas morreram antes mesmo de dar seu primeiro suspiro, perecendo junto com suas mães durante o parto.
Em uma guerra que matou mais de 48 mil pessoas e provocou um dos maiores êxodos internos na História recente, as crianças e adolescentes de Gaza são a face mais cruel do conflito. De acordo com o Ministério da Saúde do enclave, pelo menos 17,4 mil deles morreram, e outros 17 mil, segundo o Unicef, foram separados de seus responsáveis e parentes próximos, sujeitos a abusos, mais violência e exploração. A tarefa de levar esses menores até um lar conhecido não é nada simples.
— Famílias são torturadas pela incerteza do paradeiro de seus entes queridos. Nenhum pai deveria ter que cavar em escombros ou valas comuns para tentar encontrar o corpo de seu filho — afirmou Jeremy Stoner, diretor regional da ONG Save The Children para o Oriente Médio. — Nenhuma criança deveria ficar sozinha, desprotegida em uma zona de guerra. Nenhuma criança deveria ser detida ou mantida refém.
Muitos dos menores que vagam pelo enclave em ruínas são os únicos sobreviventes de ataques aéreos contra casas, acampamentos e prédios. Diante da quantidade de casos do tipo, uma sigla específica foi criada em Gaza: WCNSF (“Criança ferida, sem família sobrevivente”).
Desde que perderam os pais em um ataque israelense, Anas Abu Eish, de 7 anos, e sua irmã Doa, de 8, vivem com a avó Om-Alabed em um campo de deslocamento em al-Mawasi, Khan Younis. À CNN, o menino disse que estava “brincando de jogar bola” quando encontrou “papai e mamãe jogados na rua”: “Um drone veio e explodiu sobre eles”, relembrou. No mesmo campo, Manal Jouda, de 6 anos, descreveu a noite em que sua casa foi destruída, matando seus pais e deixando-a soterrada.
— Havia areia na minha boca, eu gritava, eles cavaram com uma pá, nosso vizinho dizia ‘essa é a Manal, essa é a Manal’. Eu estava acordada, meus olhos estavam abertos sob os escombros, minha boca estava aberta e a areia entrava nela — contou.
Oferecer serviços de saúde mental para palestinos na Faixa de Gaza também é um desafio — que, inclusive, existe desde antes da guerra. No entanto, segundo Yasser Abu Jamei, diretor do Programa Comunitário de Saúde Mental de Gaza, durante os 15 meses de ataques israelenses, sua própria equipe sofreu traumas, o que dificultou o tratamento dos outros. À CNN, ele disse que a maior parte da sua equipe trabalha em locais de deslocamento, e que menos de dez pessoas ainda estão em suas casas.
Uma técnica usada pelo GCMHP é a terapia por meio do desenho, permitindo que as crianças expressem seus sentimentos sem precisar comunicá-los verbalmente. Em entrevista à rede americana, Abu Jamei lembrou de um caso em que uma criança desenhou e depois conseguiu compartilhar a sua dor com um psicólogo do programa.
— [A criança disse:] ‘meus amigos estão no céu, mas um deles foi encontrado sem a cabeça’ — contou. — ‘Como ele poderia ir para o céu sem a cabeça?’, [acrescentou a criança, que] continuou a chorar.
Com o fim do frágil cessar-fogo entre Israel e o Hamas e a retomada da ofensiva militar israelense contra o enclave palestino, o Ministério da Saúde de Gaza anunciou nesta terça-feira que 970 pessoas morreram nas últimas 48 horas na Faixa de Gaza. A nova onda de ataques, que o governo israelense afirma ter sido coordenada previamente com os EUA, provocou manifestações no país e em Gaza, embora o grupo palestino tenha se dito aberto a continuar com as negociações para o fim da guerra.
O premier israelense, Benjamin Netanyahu, advertiu na terça que os bombardeios eram “apenas o começo”, defendendo a pressão militar como essencial para garantir a liberação dos cerca de 58 reféns ainda nas mãos do Hamas. A medida agradou sobretudo a direita radical do país, com o anúncio do retorno do partido de Itamar Ben-Gvir, extremista que havia abandonado o governo em razão do cessar-fogo, à coalizão de Netanyahu. Grande parte da população civil, porém, ficou contra.
— É uma guerra contra as crianças de Gaza, porque elas são a maioria, elas são as mais vulneráveis, elas são as que estão mais expostas às consequências dessa guerra — disse em abril o porta-voz da Unicef Ricardo Pires ao GLOBO. — Realmente a vida delas está em risco a cada dia. As crianças vão sofrer o impacto disso por gerações.
— Estou triste porque não há um único fio de cabelo para pentear com minha escova — disse Sama à CNN. — Eu seguro o espelho porque quero pentear meu cabelo. Eu realmente quero pentear meu cabelo de novo.
No ano passado, médicos diagnosticaram que a queda de cabelo de Sama foi resultado de um “choque nervoso”, especialmente após a casa de seu vizinho em Rafah ter sido atingida por um ataque aéreo israelense em agosto. Eles também afirmaram que a desestruturação de sua rotina desde o início da guerra provavelmente contribuiu. O sofrimento mental da menina se intensificou quando outras crianças começaram a zombar dela por causa da perda de cabelo, o que fez com que ela se isolasse dentro de casa. Quando sai, usa um lenço rosa na cabeça.
— Mamãe, estou cansada, quero morrer. Por que o meu cabelo não cresce? — implorou ela à sua mãe, Om-Mohammed, antes de perguntar se permaneceria careca para sempre. — Quero morrer e ter meu cabelo de volta no paraíso, se Deus quiser.
Sama não é a única. Um relatório divulgado no final de 2024 pela War Child Alliance e pelo Centro de Treinamento Comunitário para Gestão de Crises, com sede em Gaza, destacou o impacto psicológico das ofensivas de Israel sobre as crianças palestinas no último ano. Baseado em uma pesquisa com mais de 500 cuidadores de crianças vulneráveis, 96% das crianças nessas condições sentiam que a morte era iminente, e quase metade (49%) expressou o “desejo de morrer” após ataques israelenses.
Em relatório publicado em junho, o Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, estimou que quase todas as 1,2 milhão de crianças de Gaza precisam de apoio psicológico, especialmente aquelas expostas repetidamente a eventos traumáticos. Uma semana após o anúncio do cessar-fogo entre Israel e o Hamas, em janeiro, o subsecretário-geral da ONU para assuntos humanitários, Tom Fletcher, disse ao Conselho de Segurança da organização que “uma geração foi traumatizada”.
— Crianças foram mortas, passaram fome e morreram de frio — disse ele. — Algumas morreram antes mesmo de dar seu primeiro suspiro, perecendo junto com suas mães durante o parto.
Em uma guerra que matou mais de 48 mil pessoas e provocou um dos maiores êxodos internos na História recente, as crianças e adolescentes de Gaza são a face mais cruel do conflito. De acordo com o Ministério da Saúde do enclave, pelo menos 17,4 mil deles morreram, e outros 17 mil, segundo o Unicef, foram separados de seus responsáveis e parentes próximos, sujeitos a abusos, mais violência e exploração. A tarefa de levar esses menores até um lar conhecido não é nada simples.
— Famílias são torturadas pela incerteza do paradeiro de seus entes queridos. Nenhum pai deveria ter que cavar em escombros ou valas comuns para tentar encontrar o corpo de seu filho — afirmou Jeremy Stoner, diretor regional da ONG Save The Children para o Oriente Médio. — Nenhuma criança deveria ficar sozinha, desprotegida em uma zona de guerra. Nenhuma criança deveria ser detida ou mantida refém.
Muitos dos menores que vagam pelo enclave em ruínas são os únicos sobreviventes de ataques aéreos contra casas, acampamentos e prédios. Diante da quantidade de casos do tipo, uma sigla específica foi criada em Gaza: WCNSF (“Criança ferida, sem família sobrevivente”).
Desde que perderam os pais em um ataque israelense, Anas Abu Eish, de 7 anos, e sua irmã Doa, de 8, vivem com a avó Om-Alabed em um campo de deslocamento em al-Mawasi, Khan Younis. À CNN, o menino disse que estava “brincando de jogar bola” quando encontrou “papai e mamãe jogados na rua”: “Um drone veio e explodiu sobre eles”, relembrou. No mesmo campo, Manal Jouda, de 6 anos, descreveu a noite em que sua casa foi destruída, matando seus pais e deixando-a soterrada.
— Havia areia na minha boca, eu gritava, eles cavaram com uma pá, nosso vizinho dizia ‘essa é a Manal, essa é a Manal’. Eu estava acordada, meus olhos estavam abertos sob os escombros, minha boca estava aberta e a areia entrava nela — contou.
Oferecer serviços de saúde mental para palestinos na Faixa de Gaza também é um desafio — que, inclusive, existe desde antes da guerra. No entanto, segundo Yasser Abu Jamei, diretor do Programa Comunitário de Saúde Mental de Gaza, durante os 15 meses de ataques israelenses, sua própria equipe sofreu traumas, o que dificultou o tratamento dos outros. À CNN, ele disse que a maior parte da sua equipe trabalha em locais de deslocamento, e que menos de dez pessoas ainda estão em suas casas.
Uma técnica usada pelo GCMHP é a terapia por meio do desenho, permitindo que as crianças expressem seus sentimentos sem precisar comunicá-los verbalmente. Em entrevista à rede americana, Abu Jamei lembrou de um caso em que uma criança desenhou e depois conseguiu compartilhar a sua dor com um psicólogo do programa.
— [A criança disse:] ‘meus amigos estão no céu, mas um deles foi encontrado sem a cabeça’ — contou. — ‘Como ele poderia ir para o céu sem a cabeça?’, [acrescentou a criança, que] continuou a chorar.
Com o fim do frágil cessar-fogo entre Israel e o Hamas e a retomada da ofensiva militar israelense contra o enclave palestino, o Ministério da Saúde de Gaza anunciou nesta terça-feira que 970 pessoas morreram nas últimas 48 horas na Faixa de Gaza. A nova onda de ataques, que o governo israelense afirma ter sido coordenada previamente com os EUA, provocou manifestações no país e em Gaza, embora o grupo palestino tenha se dito aberto a continuar com as negociações para o fim da guerra.
O premier israelense, Benjamin Netanyahu, advertiu na terça que os bombardeios eram “apenas o começo”, defendendo a pressão militar como essencial para garantir a liberação dos cerca de 58 reféns ainda nas mãos do Hamas. A medida agradou sobretudo a direita radical do país, com o anúncio do retorno do partido de Itamar Ben-Gvir, extremista que havia abandonado o governo em razão do cessar-fogo, à coalizão de Netanyahu. Grande parte da população civil, porém, ficou contra.
— É uma guerra contra as crianças de Gaza, porque elas são a maioria, elas são as mais vulneráveis, elas são as que estão mais expostas às consequências dessa guerra — disse em abril o porta-voz da Unicef Ricardo Pires ao GLOBO. — Realmente a vida delas está em risco a cada dia. As crianças vão sofrer o impacto disso por gerações.
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