Confio em que a queda de popularidade de Trump, somada a manifestações em Washington e a ações da Suprema Corte, consiga frear o enlouquecimento que tira o sono de acadêmicos, jornalistas, atores, artistas. E também da Europa. Talvez eu seja otimista demais. Um eleitorado que recoloca no Poder um racista misógino xenófobo que incitou a invasão ao Capitólio não se rebela com a censura. Mas, quem sabe...
Professores brasileiros em universidades americanas compartilham o terror obscurantista. Ouvi alguns deles. “Milhões e milhões de dólares para pesquisa estão evaporando de um dia pro outro. Centros de pesquisa obrigados a demitir gente. É uma monstruosidade”.
“Estamos todos assustados, intimidados. E sabemos que esse é o efeito desejado, o tal chilling effect” (“efeito intimidador”).
A distopia de Trump e Musk é caricatural. Começa pela guerra às palavras, censuradas em documentos oficiais e científicos. Guerra inofensiva? Qualquer protocolo de pesquisa biomédica e médica com as palavras seguintes (e derivadas) está no momento com verbas bloqueadas. A lista reflete obsessões trumpistas. Abaixo, uma seleção proibida:
Acessível, ativismo, defesa de uma causa, inclusivo, aliança, solidariedade, antirracismo, em risco, barreira, pertencer, viés, preconceito, tendencioso, negros, indígenas e pessoas de cor, energia limpa, crise climática, ciência climática, qualidade ambiental, diversidade comunitária e racial, herança cultural, equidade, deficiências, discriminação, igualdade de oportunidades, excluído, feminismo, violência de gênero, golfo do México, discurso de ódio, disparidade na saúde, minoria hispânica, historicamente, identidade, imigrantes, grupos-chave, LGBT, marginalizar, homens que fazem sexo com homens, saúde mental, multicultural, opressão, orientação, polarização, político, poluição, pessoas grávidas, privilégio, prostituta, profissional do sexo, etnia e raça, segregação, sexualidade, justiça social, status, estereótipo, sistêmico, transexual, trauma, tribal, subestimado, desfavorecido, vítima, populações vulneráveis.
Quando lemos essa lista, nós, jornalistas, que lidamos com a palavra como matéria-prima, estremecemos. Sabemos o que é lidar com a censura prévia e com a tortura e morte de jornalistas como Vladimir Herzog. Só agora, 50 anos após ser encontrado enforcado numa cela, assassinado pelo DOI/CODI, o governo brasileiro oficializou seu nome como anistiado político.
A guerra cultural de Trump não mira apenas universidades americanas. Um pesquisador aeroespacial francês foi barrado ao chegar ao país. Milhares de imagens e artigos foram removidos de sites do Pentágono por conterem “diversidade”. Sobre o Holocausto, o 11 de setembro, conscientização do câncer, assédio sexual, prevenção de suicídio. Foi vetada a citação do avião Enola Gay, que lançou bomba em Hiroshima. Apagado por ter “gay” no nome. A insanidade sobrou para a aeronave.
Não é engraçado. É aterrorizante. Autocracia, totalitarismo, ditadura, essas palavras não são sinônimas. Mas uma linha invisível as costura. A História está cheia de exemplos, enxerga quem quer.
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