sexta-feira, 21 de março de 2025

A censura totalitária do 'ditador' Trump

Não bastam eleições democráticas para um governo ser classificado de democrata. Os EUA de Donald Trump demonstram, no século XXI, como um presidente eleito por larga margem consegue se comportar como um ditador. Autocrático e totalitário. A guerra cultural de Trump e seus bilionários de cabeceira começa a deformar a sociedade norte-americana.

Confio em que a queda de popularidade de Trump, somada a manifestações em Washington e a ações da Suprema Corte, consiga frear o enlouquecimento que tira o sono de acadêmicos, jornalistas, atores, artistas. E também da Europa. Talvez eu seja otimista demais. Um eleitorado que recoloca no Poder um racista misógino xenófobo que incitou a invasão ao Capitólio não se rebela com a censura. Mas, quem sabe...


Professores brasileiros em universidades americanas compartilham o terror obscurantista. Ouvi alguns deles. “Milhões e milhões de dólares para pesquisa estão evaporando de um dia pro outro. Centros de pesquisa obrigados a demitir gente. É uma monstruosidade”.

“Estamos todos assustados, intimidados. E sabemos que esse é o efeito desejado, o tal chilling effect” (“efeito intimidador”).

A distopia de Trump e Musk é caricatural. Começa pela guerra às palavras, censuradas em documentos oficiais e científicos. Guerra inofensiva? Qualquer protocolo de pesquisa biomédica e médica com as palavras seguintes (e derivadas) está no momento com verbas bloqueadas. A lista reflete obsessões trumpistas. Abaixo, uma seleção proibida:

Acessível, ativismo, defesa de uma causa, inclusivo, aliança, solidariedade, antirracismo, em risco, barreira, pertencer, viés, preconceito, tendencioso, negros, indígenas e pessoas de cor, energia limpa, crise climática, ciência climática, qualidade ambiental, diversidade comunitária e racial, herança cultural, equidade, deficiências, discriminação, igualdade de oportunidades, excluído, feminismo, violência de gênero, golfo do México, discurso de ódio, disparidade na saúde, minoria hispânica, historicamente, identidade, imigrantes, grupos-chave, LGBT, marginalizar, homens que fazem sexo com homens, saúde mental, multicultural, opressão, orientação, polarização, político, poluição, pessoas grávidas, privilégio, prostituta, profissional do sexo, etnia e raça, segregação, sexualidade, justiça social, status, estereótipo, sistêmico, transexual, trauma, tribal, subestimado, desfavorecido, vítima, populações vulneráveis.

Quando lemos essa lista, nós, jornalistas, que lidamos com a palavra como matéria-prima, estremecemos. Sabemos o que é lidar com a censura prévia e com a tortura e morte de jornalistas como Vladimir Herzog. Só agora, 50 anos após ser encontrado enforcado numa cela, assassinado pelo DOI/CODI, o governo brasileiro oficializou seu nome como anistiado político.

A guerra cultural de Trump não mira apenas universidades americanas. Um pesquisador aeroespacial francês foi barrado ao chegar ao país. Milhares de imagens e artigos foram removidos de sites do Pentágono por conterem “diversidade”. Sobre o Holocausto, o 11 de setembro, conscientização do câncer, assédio sexual, prevenção de suicídio. Foi vetada a citação do avião Enola Gay, que lançou bomba em Hiroshima. Apagado por ter “gay” no nome. A insanidade sobrou para a aeronave.

Não é engraçado. É aterrorizante. Autocracia, totalitarismo, ditadura, essas palavras não são sinônimas. Mas uma linha invisível as costura. A História está cheia de exemplos, enxerga quem quer.

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