Confiança é o lastro em que se fundamenta o valor e o poder das instituições, dos ativos financeiros, das empresas, dos produtos, das marcas, das moedas, das pessoas e principalmente das narrativas. Ficções e mitologias, modernas e primitivas, ilustram as crenças e fazem balançar o pêndulo das verdades aceitas como tal. O bombardeio errático das informações no novo mundo conectado e instantâneo condiciona a formação de opiniões e os posicionamentos. Harari diz que quase tudo é lixo.
O voto popular é a instituição mais importante da democracia. Com todas as imperfeições é o calendário eleitoral que ordena a disputa política e indica estarmos vivendo, ao menos formalmente, num sistema democrático. Existe uma ala do Partido Republicano nos Estados Unidos que quer acabar com as eleições parlamentares (mid term elections) no ano que vem, para permitir que as medidas “revolucionárias” do governo Trump possam funcionar e melhorar a vida dos americanos. Acho muito difícil que isso ocorra, mas significa que os ventos da ditadura estão soprando por lá, perigosamente.
No Brasil a principal estratégia para desmoralizar o voto foi a campanha contra a urna eletrônica que contou ainda com o auxilio luxuoso dos interesses comerciais interessados em vender 500 mil impressoras e softwares de segurança para a Justiça Eleitoral. A legislação feita para implantar o financiamento público de campanha, impedir a compra de voto, o abuso do poder econômico e o uso eleitoral da máquina pública não mudaram o ambiente de descrédito no sistema político brasileiro. É preciso reconhecer as imperfeições e ineficiências das instituições da democracia brasileira e enfrentar o debate sobre reformas estruturais com vistas a resgatar a confiança na politica e no voto popular. Não enfrentar a agenda de reformas é acomodar-se na defesa de um status quo desgastado e inaceitável para grande parte da população e colocar lenha na fogueira da campanha anti-sistema. O veteraníssimo José Sarney defende o voto distrital misto e o semi presidencialismo.
Apareceram muitas novidades. Novos partidos, celebridades televisivas e influenciadores digitais, que surfam no sonho de uma “nova politica”, se elegem, tornam-se centro das atenções e objeto de desejo dos partidos e de projetos de poder. Com raras e honrosas exceções, a “renovação” dos últimos anos frustrou o país, piorou a qualidade do sistema político e aprofundou a crise de confiança. Em 2026, nas próximas eleições, teremos mais uma oportunidade de tentar reverter esse jogo.
Nos estados federados a liderança vai caber aos governos estaduais bem avaliados que tendem a formar alianças regionais amplas, sem alinhamento ideológico e compromisso prioritário com candidaturas presidenciais. Como nas peladas, os dois mitos, Lula e Bolsonaro, depois do par-ou-ímpar, escolhem o time distribuindo apoios com base em seus estoques de popularidade e recursos de poder, segurando lealdades e alimentando a polarização. É nítido o crescimento da torcida contra ambos os populistas embora ainda não seja claro qual será o espaço do centro democrático reformista.
Quem sabe estejamos cansados de mitos e já tenha chegado a hora da racionalidade e do bom senso ganharem eleições, reforçando a confiança e a democracia no Brasil?
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