domingo, 23 de março de 2025

Emojis não servem para gritar

As palavras somem. Aos poucos, já que são milhares. Somem e, sem que percebamos, esquecemo-las. E sem serem ditas, também seus significados e sentidos desaparecem. A cada palavra escondida, ideias e conceitos deixam de habitar nossas percepções. Com o tempo, as palavras, ao serem retiradas, proibidas, camufladas, censuradas, diminuem a complexidade de nossa relação crítica com o real. Acostumamo-nos a viver sem elas, sem seus valores, suas informações, seus ruídos e incômodos. Em cada “menos uma palavra”, o sentimento de civilidade é estreitado, até não sabermos mais nomear o que nos impede de pensar, falar e agir, pois não acessamos mais seus códigos.


Essa é a dimensão perigosa das 200 palavras censuradas pelo governo americano em suas páginas, seus informativos e nas pesquisas divulgadas por acadêmicos e cientistas, inclusive nas investigações médicas. O projeto de silenciamento da extrema-direita não busca apenas impedir a difusão de ideias, quer eliminar quaisquer princípios que atinjam diretamente sua esfera de atuação. Para isso, é preciso circunscrever primeiro o pensamento pelo proibitivo, o resto, calculam, será mera consequência.

Ainda esta semana, assisti a série britânica Adolescência. Além da importante exposição de como grupos extremistas de homens brancos têm se infiltrado na mente de adolescentes, com suas propostas violentas sobre o tratamento a ser dado às mulheres, um aspecto passou ao lado nas boas e necessárias reflexões que se espalham em jornais e sites: os emojis e suas funções nada decorativas.

Quando surgiram no Japão, em 1999, havia um interesse em tornar lúdico certas simplificações banais ou sentimentos comuns. Dez anos depois, então padronizados pelo Unicode Consortium, ganharam capacidade de uso global. Depende do interesse e da aceitação das maiores big techs do planeta, o desenvolvimento de novos emojis, e das tecnologias disponíveis para representações mais elaboradas. As primeiras variações de tons de pele, por exemplo, só foram possíveis (e aceitas) em 2015, com a nova tecnologia cromática; os primeiros casais interraciais e as diversidades de gêneros em profissões, em 2016; as primeiras figuras com deficiências, apenas em 2019.

Uma vez que emojis substituírem expressões, sensações e sentimentos, o óbvio é que se firmem como linguagem da nova formação do indivíduo, agora condicionada ao convívio e ao uso dos meios tecnológicos. Pelas redes sociais e trocas de mensagens nos celulares, cada vez mais extensivos dos corpos, adquiriam um vocabulário cifrado e geracional.

As palavras, já limitadas com abreviações aleatórias ou excessivamente minimalistas, reduzem-se na mesma velocidade em que são trocadas por emojis e por frases sugestionadas pelos próprios aparelhos, quando anteveem o pensamento, a partir do mais previsível e repetitivo no repertório de cada pessoa.

A série Adolescência narra o uso desse vocabulário imagético para doutrinações radicais por extremistas. É impossível aos jovens (e não só) escapar desse convívio, pois o universo passou a reduzir a informação sobre quase tudo pelos significados escondidos em cada emoji. Portanto, estamos, de forma inédita, profundamente separados e incapazes de compreender sobre e como conversam quem os utiliza. Sem o acesso, no desconhecimento, não há o que proteger e desconstruir. Estamos limitados ao encontro com as consequências, sem nos darmos conta dos processos e encaminhamento das relações.

Em 2017, o desafio da baleia azul chegava às crianças e adolescentes por meio de um emoji. Nos 50 desafios, entre privação do sono, mutilações e colocar-se em situação de risco, deixar de comer, assistir filmes de terror, deixar de falar, afastar-se da família, enquanto era acompanhada por um “curador”, a pessoa era estimulada, por último, a cometer suicídio. Criado na Rússia, o argumento de seus desenvolvedores era de limpar a sociedade dos mais fracos.

O isolamento linguístico, seja pelo surgimento de um vocabulário cifrado, seja pelo apagamento de palavras, é um movimento ao suicídio social. Seu objetivo é destruir o pilar de sua sustentação, a democracia — por maiores que sejam seus problemas —, tornar o indivíduo manipulável ao pior: subserviente e descartável, em nome de um bem deformado do que deve ser a sociedade perfeita.

Qual a saída? O primeiro aspecto é reconhecer que vivenciamos uma nova forma de crise, desta vez, com a linguagem sob ataque. A fabricação de crises, desde sempre, é interessada por controlar a sociedade e as pessoas, precarizando aspectos específicos. Ora econômicos, políticos, sociais, ora, como agora, culturais, também pela precarização e inacessibilidade da linguagem. Perceber surgir sem aviso, instalar-se ao imaginário, governar por emoções como medo e ansiedade e, então, apatia. Reagir a isso requer subverter as paixões tristes, como nomeia Dario Gentili, em desejo revolucionário, coletivo, entusiástico. Algo que precisa ocorrer em duas esferas: a íntima e a pública.

Portanto, devemos conversar mais. Sentarmo-nos juntos para falar, ouvir, rir e chorar. Juntar os amigos e esquecer os aparelhos. Debater as ideias, deixar-se invadir pelo desejo do debate, assimilar e oferecer conceitos entre pessoas diversas. Apaixonar-se pelo exercício do pensamento e da memória crítica. Divertir-se ao perceber sempre ser possível ir mais e mais profundo. E desenvolver uma real curiosidade por tudo, sobre acontecimentos, pessoas, sobre os sentidos das coisas e como usamos as palavras. Para, depois, irmos ao mundo.

E nele, nas ruas, ainda que nos tomem as palavras e dizê-las seja perigoso, usar da voz, do grito como possibilidade criativa, libertadora, para além da linguagem controlada e dominada. O grito como resistência às opressões. Sem lhe darmos formas gastas, sem querer traduções, apenas movimento e afirmação de presença.

Por fim, inventemos palavras para sermos incontroláveis. Enquanto as censuras ocorrerem ao conhecido e os vocabulários forem manipulados por extremistas, que se crie outros e outros, e quantos forem necessários. Somente assim, com palavras novas entre os dentes, os gritos poderão reagir ao que agora parece impossível de interromper. Como fizera Antônio Bispo. Gritar como forma de confluir palavras com o futuro.

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