sábado, 22 de março de 2025

A beleza de estar calado

Lembram-se de quando uma canção era uma canção? De quando um desenho era um desenho? De quando uma escultura não era um panfleto? Não foi assim há tanto tempo e até Bob Dylan dizia: “I’m not sleepy and there is no place I’m going to.” Mas isso é hoje uma convenção ultrapassadíssima, como um fósforo queimado.

Os cantores de intervenção, embriagados de marxismo-leninismo, tinham, pelo menos, a desculpa de não terem visto o muro cair. Os de hoje sabem-no. E cantam na mesma.

O artista já não contempla, já não se perde, já não mergulha no abismo. Até Ivan Karamázov se deixaria queimar por uma faúlha de transcendência. Mas o artista já não desce — desfila, e Dostoiévski sabia que sem abismo, não há grandeza. Hoje, o artista age — é movimento puro. Hoje, fala. Alto.


Transformou-se num daqueles sistemas de som de feira popular, num oráculo de banalidades de que ninguém duvida. Falam todos, falam sempre, falam muito. Uma gritaria perpétua de indignação e activismos absolutos. Um só minuto de silêncio seria verdadeiramente revolucionário. Um leve fragmento de discrição já conteria todo o esplendor e a fúria de 1917.

A tragédia contemporânea não é a corrupção, nem é a miséria, nem a ignorância — isso são tragédias velhas, bolorentas, lugares-comuns do pessimismo. A tragédia moderna, caro leitor, é este barulho. Esta bruta flor da indignação. Esta borboleta da hiperactividade.

Nunca tanta gente disse tanto, tão depressa, com tão pouca substância. Um formigueiro de consciências atarefadas. O activista não dorme, não descansa, não respira. Luta contra tudo — contra o estado do mundo, das mentalidades, do tempo — sim, até o tempo é reaccionário.

Mas contra o Estado? Para quê? Quem manda, tributa e regula já faz o que é preciso. Está tudo errado, menos o que vem no Diário da República.

Eis porquê: existe uma solidariedade entre ambos e essa cumplicidade tem um nome – loucura reguladora. Quem outrora bradava golpes e tumultos, hoje sonha com manuais de instruções. Já não quer mudar o mundo – quer geri-lo, processá-lo, catalogá-lo em regulamentos. O artista tornou-se o cepo que decide ser árbitro e arruína a tarde aos amigos com o apito.

E quer que se regule o quê? Tudo. As bocas foleiras, as comunidades virtuais, o estacionamento, os dejectos da bicharada. Tudo, menos o pânico em que se alimenta. A iminência do apocalipse justifica as mais complexas burocracias.

Se ao menos ocupasse o seu talento naquilo que faz bem. Mas já não cria, não compõe, já não pinta e já não escreve. Doutrina, palestra, denuncia e adverte: “Porque tudo é político!” – gritam. E eis que o palco se transforma em assembleia-geral, a tela em cartaz, o livro em manifesto. Para que a música eduque, o cinema alerte, o teatro sensibilize.

Já não há sequer direito ao cansaço. Diante da barulheira, um tipo, exausto, poderia desejar um pouco de recolhimento, um instante de paz. Mas exige-se tomada de posição, acção directa, uma assinatura. E se hesitamos, se vacilamos, somos acusados das mais sinistras cumplicidades.

O artista de hoje não se contenta em boicotar a sua própria obra. Se um escritor ousa ser um escritor, se um músico teima em tocar o seu piano, eis que aparece alguém a exigir “relevância”, “consciência”, “compromisso”. E assim morre o sublime prazer do inútil. A arte, para ser arte, precisa de não servir para nada.

A grande tradição do cristianismo, tão generosa em inspirar as mais delirantes práticas neo-pagãs, ainda tem um último presente para oferecer: o silêncio. Depois do jejum intermitente, da peregrinação a festivais, da confissão pública, bastaria reciclá-lo. E, quais trapistas do ayahuasca, os nossos melhores purificar-se-iam pela mudez, passando longos períodos sem dizer absolutamente nada. Era só um desses gurus da auto-ajuda publicar um folheto com a ideia.

O artista de hoje não deixa nada por fazer. Ele age por todos nós. E, assim, a única resistência possível é a quietude.

Todo o problema se resolve pelo seu imediato contrário. Contra a acção, a inércia. Contra o barulho, o silêncio. Contra a histeria da relevância, a beleza de não fazer nada.

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