sábado, 6 de junho de 2015

Jesus não foi à Marcha para Jesus

Bastaria dar uma olhada em alguns dos feitos e ditos de Jesus da forma como aparecem na Bíblia para imaginar que, se estivesse aqui, teria fugido da apoteótica marcha da quinta-feira realizada em sua homenagem.

Teria fugido para se encontrar, na periferia da cidade, com a caravana de excluídos pelos evangélicos fundamentalistas, todos os diferentes e perseguidos pelos poderes conservadores, aqueles com os quais Jesus se entendia melhor do que com os sacerdotes e doutores do Templo.

A Marcha para Jesus tinha como título “Exaltando o Rei dos Reis”, e nela ouviram-se gritos, entre outros, contra a prostituição, as drogas e a novas famílias formadas por gays e lésbicas.

Brasil merece ser visto dentro e fora de suas fronteiras como um país tolerante e moderno sem essas obsessões contra os que praticam diferentes sexualidades

Na grande marcha para Jesus foram ouvidos os ecos da intolerância e indignação contra a liberadora publicidade da empresa O Boticário, na qual casais de homens e casais de mulheres trocam presentes com naturalidade e afeto e que alguns evangélicos tentaram obstruir legalmente.

A Bíblia está, entretanto, coalhada de histórias de amor entre pessoas do mesmo sexo, como os casos das mulheres Rute e Noemi, ou Davi e Jônatas. E até de Jesus com o discípulo João, que os evangelhos apresentam como um caso especial de amor. João era para Jesus o “amado” e “preferido”. E os apóstolos beijavam-se entre eles.

O pastor Estevam Hernandes, da Igreja Renascer, anunciou que as imagens da Marcha para Jesus serão levadas a 170 países. Seu desejo é que Brasil não seja visto no exterior, entre outras coisas, como “o país das prostitutas”.

Na verdade, como o Brasil merece ser visto dentro e fora de suas fronteiras é como um país tolerante e moderno sem essas obsessões contra os que praticam diferentes sexualidades, que continuam sendo mortos, ou contra as prostitutas, as quais Jesus amava e defendia contra a hipocrisia dos fariseus, chegando a dizer que Deus as preferia a eles.

Não como um país que ainda pune como crime a liberdade da mulher de decidir sobre o fruto de seu ventre se assim exigir sua consciência.

Nem um país hipócrita sobre o consumo de drogas ou que ainda não foi capaz de legalizar a legitimidade de novas formas de famílias, querendo, como querem fazer algumas lideranças evangélicas, impor a toda a sociedade um só tipo de família tradicional com ações ditatoriais que lembram a trágica e assustadora posição política das chamadas repúblicas islâmicas.

Como oportunamente escreveu neste jornal minha colega Carla Jiménez, o que a democracia brasileira conquistada com tantas lutas e mortes não merece é que “a hipocrisia possa dominar o dia a dia cotidiano do país”.

O Brasil sempre foi visto por nós estrangeiros como um país acolhedor e tolerante em matéria de fé e costumes. Hoje é triste e preocupante que venham justamente dos templos os gritos de guerra contra os diferentes, contradizendo Isaías que profetizava a chegada de um Messias, não discriminador e intolerante, mas que abraçaria todas as raças e povos com suas próprias identidades: “Minha casa será chamada de casa de oração para todos os povos” (Is. 56).

Jesus teria fugido da marcha de quinta que pretendia apresenta-lo e consagrá-lo como “Rei dos Reis”, já que durante sua vida havia feito o mesmo quando a multidão, em busca de milagres, quis fazê-lo rei. O evangelista João conta o ocorrido: “As pessoas, ao verem o milagre feito por Jesus (o da multiplicação dos pães) dizia: 'Esse é o profeta que deve vir ao mundo'. E Jesus, percebendo que queriam levá-lo para consagrá-lo rei, retirou-se sozinho ao monte”.

Jesus nunca buscou o poder. Não o temia, mas também não o amava.

Como em vida, se os evangélicos desejassem coroá-lo novamente como rei dos reis, Jesus somente aceitaria sê-lo daqueles que alguns dos pastores de suas igrejas discriminam e humilham.

Se existe algo que é revelado com clareza pelos textos sagrados é que Jesus não suportava a hipocrisia dos homens da Igreja que se acreditavam na época, como muitos pastores e bispos, donos da verdade e até da vida e dos sentimentos das pessoas.

Em uma Marcha em homenagem a Jesus, melhor do que gritar contra as prostitutas, o aborto e contra a homossexualidade, ele seguramente teria preferido ler nos cartazes e palavras de ordem algumas frases de seu famoso discurso contra a hipocrisia, reunido pelo evangelista Mateus (23, 1 – 39), como essas:

- “Ai de vós, mestres da lei e fariseus hipócritas que limpais por fora o copo e o prato, mas por dentro estais cheios de ganância e cobiça!”.

- “Ai de vós que por fora pareceis justos diante dos homens, mas por dentro estais cheios de crimes!”.

- “Ai de vós, mestres da lei e fariseus, que descuidais do mais importante da lei como a justiça e a misericórdia”.

Uma das grandes afirmações de Jesus, na qual se inspiraram todas as igrejas cristãs, era a que dizia: “Quero misericórdia e não sacrifícios”.

Os teólogos da libertação, primeiro condenados pelo Vaticano e em fase de reabilitação pelo papa Francisco, sempre afirmaram que a grande revolução do Crucificado foi ter desviado o eixo da fé dos ritos à defesa da vida e da liberdade, do altar às ruas. E nas ruas, os preferidos daquele rei sem coroa e sem casa sempre foram os que ainda hoje continuam sendo os excluídos da sociedade.

Onde deveria estar Jesus na quinta-feira durante a marcha que quis colocá-lo de novo a coroa do rei dos bem-pensantes, os puros e os satisfeitos?

Blatter abre caminho para Dilma

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Joseph Blatter deu no pé porque sentiu o FBI nos seus calcanhares. Como os investigadores americanos já sabem que a Fifa é uma central de negociatas, o presidente reeleito da entidade achou melhor botar a viola no saco. No Brasil é diferente. Dilma Rousseff sentiu a Polícia Federal nos seus calcanhares, e os investigadores brasileiros já sabem que o governo do PT é uma central de negociatas. Mas a presidente reeleita não deu no pé, porque aqui não tem FBI. E com o silêncio das panelas, está dando até para ouvir o ronco do gigante.

Uma década após o estouro do mensalão, o Brasil ameaça engolir também o petrolão — o que seria o salvo-conduto definitivo para a ladroagem progressista e humanitária. Nestor Cerveró, o primeiro brasileiro a proibir uma máscara de carnaval, foi condenado por comprar um apartamento em Ipanema com propina do petrolão. O ex-tesoureiro Vaccari está preso, acusado de ajudar Dilma Rousseff a alugar um palácio em Brasília (temporada de quatro anos) com propina do petrolão. Mas, nesse caso, a inquilina não está sendo sequer investigada. Como se vê, há propinas e propinas.


As delações premiadas da Lava-Jato já se cansaram de apontar que seria impossível operar um esquema com a dimensão do petrolão, por mais de dez anos, sem a cobertura do Planalto. O FBI jamais entenderia como uma mandatária pode permanecer imune a investigações num cenário desses. Ainda mais havendo indícios claros de dinheiro do esquema em suas duas campanhas presidenciais. E fartas evidências de formação de caixa pelo seu partido com dinheiro roubado da maior empresa nacional — graças a diretores protegidos pelo grupo governante.

Nota de esclarecimento ao FBI: a presunção de inocência da presidente é absolutamente normal na conjuntura institucional brasileira. A Corte Suprema é bem fornida de militantes premiados por anos de lealdade aos seus padrinhos. E o processo da operação Lava-Jato é presidido segundo esse padrão de isenção. Entenderam, prezados ianques? De que vocês estão rindo?

Em perfeita sintonia com os puxa-sacos petistas que foram ser felizes para sempre no Supremo, o procurador-geral da República arremata a ópera da inocência — diante da qual a opinião pública se curva, reverente, babando na gravata. Resta a Dilma subir em sua bicicleta e pedalar solene diante de uma imensa placa “Lava-Jato” — proporcionando a foto emblemática do Brasil-2015. Segue a legenda oficial: “Obrigada, otários, pela sua compreensão”.

Deve ser uma delícia sentir o vento do Planalto no rosto ao ritmo das pedaladas ciclísticas e fiscais ladeira abaixo (rumo à recessão), sem o menor risco de topar com a gangue da faca. Além de mais quatro anos para reger a orgia petista, o mandato presidencial dá direito a pedalar com um aparato de seguranças — e a escolta de um carro oficial, caso sua excelência se canse e prefira as facilidades do petróleo (sem precisar chamar o Vaccari). Quem sabe até dando uma carona ao companheiro Blatter, que ficou a pé.

Seria o mínimo, considerando a carona valiosa que a Fifa deu ao governo petista. Além da oportunidade de construir os estádios mais caros da história das Copas, com a bolsa BNDES irrigando empreiteiras amigas, o balcão do companheiro Blatter fez o favor de tirar o Morumbi da Copa do Mundo. Assim abriu-se o caminho para o milagre do Itaquerão, mais um sonho bilionário de Lula realizado pela Odebrecht — ou o contrário, dá no mesmo. A CPI do Futebol pode ser mais uma oportunidade para o gigante abrir um dos olhos, ver que os companheiros estão metendo a mão no seu bolso, bocejar uma palavra de ordem e voltar aos seus sonhos de anão.

Blatter pediu o boné porque seus cúmplices deram com a língua nos dentes, expondo seu esquema de eternização no poder. Já o esquema de eternização do PT no poder vai bem, obrigado — e os cúmplices podem dar com a língua nos dentes à vontade. O homem-bomba das empreiteiras, Ricardo Pessoa, disse aos investigadores da Lava-Jato que deu R$ 7,5 milhões à campanha de Dilma no ano passado para não perder negócios com a Petrobras. Aí o barulho foi grande: era o gigante roncando.

Indignados com a indiferença da plateia, Dilma e seus amigos da pesada subiram o tom: depois de Erenice estrelar o escândalo tributário da Operação Zelotes e Rosemary ser denunciada por improbidade administrativa, Fernando Pimentel roubou a cena. O governador de Minas — também conhecido como consultor sobrenatural — teve seu braço-direito, o empresário Bené, preso por suspeita de associação criminosa. Entre as acusações contra o amigo do amigo de Dilma está a origem suspeita de dezenas de milhões de reais em receita de sua gráfica, que atende ao PT. Diante do presépio petista, talvez o FBI achasse que está sendo injusto com a Fifa.

A renúncia de Joseph Blatter após sua reeleição foi um gesto pedagógico. Ou o Brasil se inspira nele, ou assume que quer tomar mais quatro anos de pedaladas. E facadas.

À nossa saúde!

genildo

Em pleno hospício

Na presidência do TSE - e à frente da turma do STF que julgará o pessoal do Petrolão -, está o ex-advogado do PT Dias Toffoli. Que fará com seus ex-clientes?

O Brasil é um país singular, em que as causas não geram consequências. Mensalão, Petrolão, BNDES, Eletrobras, fundos de pensão, cartões corporativos – os escândalos se amontoam, e as evidências idem. Nada, porém, ocorre. As personagens responsáveis, conhecidas de todos, não são responsabilizadas.

Que importa que a popularidade da presidente esteja em um dígito há meses – e que a causa seja uma mistura de corrupção e má gestão, em relação às quais, pelo cargo que ocupa, é a principal responsável? Ela continuará governando como se nada houvesse acontecido. Não adianta um ou dois milhões em protesto nas ruas, pedindo a saída do governo. O governo continuará.

“Não há fato jurídico para o impeachment”, proclamam os juristas – e concorda a oposição.

A Petrobras reconhece, em seu balanço, o desvio (roubo) de singelos R$ 6 bilhões de seus cofres, acrescidos da perda de mais de R$ 60 bilhões em decisões administrativas desastrosas.

A ex-presidente Graça Foster dizia que o roubo era de R$ 88 bilhões, mas fiquemos nos R$ 6 bilhões, já que ninguém conferiu essa pequena discrepância contábil. Com R$ 6 bilhões, reconstrói-se o Nepal, destruído por um megaterremoto. E daí? Ora, troca-se a diretoria (o salário do presidente da Petrobras é de R$ 140 mil!) e pede-se desculpa ao contribuinte. Bola pra frente.

Há um abismo entre a chamada voz das ruas e a do Parlamento. E não se vê nenhum partido empenhado em construir uma ponte entre ambos. Fala-se que as instituições estão fortes e que cuidarão de tudo. Mas o que se vê é o cuidado do governo em indicar para os tribunais superiores companheiros de confiança.

Confiança de quem? Na presidência do Tribunal Superior Eleitoral - e à frente da turma do STF que julgará o pessoal do Petrolão -, está o ex-advogado do PT Dias Toffoli. Que fará com seus ex-clientes? Esse dilema não é dele – é nosso.

Os demais nomes – Lewandovski, Luís Roberto Barroso, Teori Zavaski, Facchin – são citados entre os políticos como gente do governo, barreiras inexpugnáveis às investigações.

Até aqui, apenas empresários foram detidos. Há um ou outro ex-parlamentar, de quinto escalão, mas nenhum figurão da política, embora, pelas proporções do que foi roubado, nada pudesse se consumar sem o comando de figurões – da política.

Prospera a tese de que a Petrobras foi vítima de empresários, desprezando-se o fato de que corrupção é via de mão dupla: não brigam dois quando um não quer. E ambos estavam empenhadíssimos em brigar.

As evidências da responsabilidade da atual e do ex-presidente da República não deixam dúvidas. Nem seriam necessárias as delações premiadas. Bastaria o recurso à lógica. Mas lógica no hospício?

O recém-demissionário presidente da Fifa, Joseph Blatter, tentou usar o expediente que Lula usou (e usa) com êxito no Brasil, alegando que não sabia de nada e não teria como vigiar os seus auxiliares. Não colou. A Suíça é um país em que as causas geram consequências. Blatter renunciou.

No Brasil, não só continuaria no cargo, mas ainda reclamaria das acusações e, quem sabe, levaria aos tribunais os acusadores. O presidente do PT, Rui Falcão, disse que processaria o ex-presidente Fernando Henrique por este ter dito, no programa do PSDB, que “nunca se roubou tanto em nome de uma causa”.

Ficou ofendidíssimo. Não basta não punir: é preciso respeitar o infrator. Seguramente, Falcão não processará ninguém, mas não perde a arrogância e a indignação, na base do “respeito é bom e eu gosto”. Faz parte da síndrome do hospício.

Dentro de uma semana, o PT fará, em Salvador, seu 5º Congresso Nacional. Entre as propostas a serem examinadas, estão a de cancelamento das penas aos mensaleiros, a cassação dos ministros do STF que as imputaram, o “rompimento das dívidas externa e interna”, a cassação dos “ministros capitalistas”, a censura à “imprensa burguesa” e a estatização da Rede Globo.

Está tudo lá, entre outras barbaridades, no Caderno de Teses, exposto no site do partido. Quem quiser confira. Da irresponsabilidade penal, ao delírio revolucionário.

Restaram ao distinto público, que paga a conta – e que já está arcando com o “ajuste”, imposto pelos desajustados -, a vaia e o panelaço. Não dependem das instituições, nem da legislação, nem dos políticos – e é um recurso terapêutico, ainda que paliativo, a quem é obrigado a viver no hospício Brasil. Vaiemos, pois.

Somos todos corruptos


Assim que terminou a Copa do Mundo no Brasil, anunciei que tiraria férias em 2018 para ir à Rússia. O plano seria acompanhar os jogos mais interessantes e aproveitar para conhecer o país. Com sorte veria a seleção brasileira, mas não era o mais importante. O que eu queria era aproveitar o Mundial de futebol da forma como não consegui em 2014 porque não me preparei.

Me diverti como pude. Pra mim e para muita gente a Copa se revelou muito mais que futebol. Ficamos encantados. Com a atmosfera saudável em toda a competição, com a alegria das pessoas, com a confraternização nas ruas e estádios, com os jogos espetaculares. Quanto gol, meu Deus!

Nos embriagamos na festa. Esquecemos repentinamente de tudo que havia sido apontado de irregular. E aí veio a ressaca. Gasto público sem precedentes num Mundial, estádios erguidos em locais sem tradição, obras inacabadas. O Galeão ainda parece uma rodoviária.

O Mané Garrincha, que custou R$ 1,4 bilhão, segundo o Tribunal de Contas da União, só não vive às moscas porque é parcialmente usado para abrigar secretarias do governo do DF. Uma economia de R$ 11 milhões mensais aos cofres estatais. Não é preciso ser matemático para ver que a conta não fecha. Do lado de fora, serve de estacionamento para ônibus.

E, então, bem antes da ressaca passar, veio uma enorme dor de cabeça. Temos sido cúmplices das falcatruas da Fifa e da CBF, expostas agora nesse escândalo monumental. A cada partida a que assistimos ao vivo ou pela TV contribuímos para que o jogo continue assim: sujo.

Fala-se em corrupção, de compra de votos para sediar Copas, de resultados de jogos desde a Copa de 1998, na França. A cada dia surgem mais informações e uma montoeira de especulações. Teorias conspiratórias começam a ganhar espaço novamente. O Brasil vendeu ou não a Copa para a França em 1998?

No fundo todo mundo sabia que tinha maracutaia, mas agora que a maracutaia está sendo exposta quem acredita que não haja muito mais sujeira debaixo do tapete?

Acho incrível que essa lama não tenha respingado na Copa no Brasil. Fala-se de África do Sul, Rússia e Qatar e nada sobre a Copa no país que está em 69º no lugar no ranking de corrupção da Transparency International, índice global de percepção de corrupção que avalia 176 países.

Estamos ao lado da África do Sul, que ocupa a 67º posição, mas melhores que a Rússia, em 136º lugar. Isso só não diz mais sobre o Brasil do que as confissões de J. Hawilla.

E o mais importante nessa história toda. O ex-presidente da CBF está preso. Preso. Preso por patifarias cometidas envolvendo milhões em propina. Quem acredita que apenas e só apenas na Copa do Brasil José Maria Marin e seus asseclas não tenham enchido o bolso com muitos e muitos milhões do absurdo que foi gasto para se fazer a Copa? Eu não.

Me pego pensando na Rússia. Seria legal conhecer o Qatar. Vou compactuar com a bandalheira? No fim das contas, não só o dinheiro corrompe. A gente se vende por um pouco de diversão, bagunça e alegria. No fim das contas, somos todos corruptos. A diferença entre nós e os velhacos da Fifa e da CBF é o preço. Eles se vendem por dinheiro e nós pelo circo.

Acima de 10 cm é crime

Qualquer indivíduo é mais importante do que a Via Láctea.
Nelson Rodrigues
Os políticos e governantes continuam a brincar com a dor alheia. Alguns mesmo a bancar os engraçadinhos como Dilma, pedalando toda serelepe para exibir modelito enxuto e segurança máxima às custas do Erário. Vale tudo para marcar pontos no ibope e manter "agenda positiva". Ainda mais que quem paga é o contribuinte.

Não falta novidade no arsenal da cafajestada política. A nova, surgida nos bastidores da Câmara fluminense, é uma lei contra o uso de armas brancas com lâmina acima de 10 cm. Outra vez fazem tudo para "satisfazer" a opinião pública, o que não impede novos roubos com esfaqueamento, um latrocínio branco.
A política brasileira se converteu, por vício, em legislações que não levam a lugar algum. O tamanho da lâmina como o calibre da bala – mesmo que seja tesoura, martelo, canivete, punhal - não reduzem a calamidade de um país criminoso com mais de 50 mil assassinatos por ano, terceiro maior produtor de armas leves do mundo e uma estatística de roubos recordista, porque a polícia faz tudo para merecer bônus e não se esforça para o cidadão fazer o registro.

Deve-se conter a criminalidade, não a arma usada. Definir crime por medida de lâmina é esculachar com a dor alheia.

Conter a criminalidade apenas com leis também é o mesmo que colocar o dedo no buraco de uma represa para impedir seu rompimento. O Estado brasileiro, nunca deu grande bola para a segurança pública. Nos últimos tempos passou a apelar apenas para ações higiênicas de efeito redutório da sensação de insegurança pública. Mais um crime governamental num Estado bandido.

Nem o Planalto, a quem a segurança dos brasileiros deveria ser de máxima importância, nos tempos petistas, ligou para o problema. Só se mexeu quando precisou mostrar ao mundo que fazer uma Copa no país era seguro.

A insegurança continua à solta há muito tempo. O país não tem plano de segurança nacional, a vigilância de fronteiras é praticamente nula, as polícias mal equipadas e despreparadas para conter o crime, as leis furadas constantemente, a impunidade correndo à vontade como moeda de grande valor. Ah, e a marginalidade nem está aí para autoridade, se é que essa existe.


O Estado brasileiro ainda se dedica mais a ter uma polícia repressiva, bem a gosto das ditaduras de republiquetas. Tem-se todo o aparato de primeiro mundo para conter protestos, sentar paulada e cachorro em cima de professor, liquidar revolta de trabalhador, entrar em guerra contra marginais.

A segurança pública e a Justiça equalitária não merece mais do que discurso, discurso e marketing de presidente pedalando sob proteção num país assaltado pela criminalidade. Se não é republiqueta, leva todo jeito. Os ditadores também adoram parecer bem saúde, fazendo esporte, se cuidando, enquanto a população fica entregue ao Deus dará ou às facadas com lâmina acima de 10 cm.

Edinho, amor e ódio

"Todo brasileiro já nasce sabendo conviver com as diferenças", diz a mensagem publicitária da Caixa, ilustrada por um garoto que veste uma camiseta com as cores de todos os times patrocinados pelo banco estatal. A Caixa não prega a tolerância por decisão própria, mas seguindo uma orientação do ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Edinho Silva. O menor dos problemas da campanha publicitária é que evidencia, uma vez mais, a apropriação partidária das estatais. O maior é que difunde um equívoco conceitual: a tolerância não é atributo inato de ninguém.

Guido Mantega, Alexandre Padilha e Fernando Haddad sofreram vaias e ofensas, respectivamente, num hospital, num restaurante e no teatro. A campanha de Edinho foi deflagrada como reação a ocorrências desse tipo, que atingem lideranças do PT. Os malcriados que se aproveitam do clima político nacional para constranger petistas só merecem desprezo: numa sociedade decente, políticos devem ter a liberdade de circular como cidadãos comuns sem serem importunados. Contudo o governo lembrou-se muito tarde da importância do amor –e finge não saber quem moveu o peão das brancas.

Nos tempos do mensalão, um assessor da deputada Erika Kokay (PT-DF) perseguiu Joaquim Barbosa em restaurantes de Brasília para ofendê-lo. Quando a blogueira cubana Yoani Sánchez visitou o Brasil, chusmas de militantes do PT e do PC do B foram orientados pela embaixada de Cuba a melar os lançamentos de seu livro. Um bando de militantes petistas impediu, pelo vandalismo, a realização de um debate com minha participação na Festa Literária Internacional de Cachoeira (BA). Tais episódios, entre tantos outros, tiveram como protagonistas grupos partidários organizados, não indivíduos isolados. O ódio era política oficial, antes da descoberta do amor.

A tolerância é um aprendizado democrático. Ela só prevalece se o outro não é visto como inimigo, mas como um de nós. A metáfora da Caixa é adequada, pois todos os times pertencem à mesma pátria: o futebol. Contudo, no poder, o lulopetismo ensinou o contrário disso. A pedagogia oficial do ódio assevera que o país se divide em "nós" e "eles". Mais: diz que "eles" não são brasileiros com opiniões políticas diferentes, mas estrangeiros ideológicos. Você será qualificado de racista se divergir das políticas raciais; de inimigo do povo, se contestar o populismo econômico; de agente das multinacionais, se apontar a ingerência partidária na Petrobras; de golpista, se criticar o governo. Na pátria que se confunde com o partido, dissentir equivale a trair.

A súbita irrupção do amor oficial não cancelou o ódio oficial. Dilma Rousseff insiste na fórmula binária dos "predadores internos" (leia-se: os corruptos) e dos "inimigos externos" (leia-se: a oposição) sempre que menciona a Petrobras. A palavra "golpismo" tornou-se marca registrada dos pronunciamentos do PT. A proposta de resolução partidária da corrente petista integrada pelo ministro José Eduardo Cardozo e pelo ex-ministro Tarso Genro denuncia um "golpismo econômico" que estaria materializado nas políticas de ajuste fiscal conduzidas por Joaquim Levy. Edinho é do amor, mas sua chefe e seu partido são do ódio.

Edinho é do amor? Com uma mão, a Caixa lançou sua nova campanha. Com a outra, prossegue sua antiga campanha de financiamento dos blogs oficialistas consagrados à difamação sistemática da oposição, dos críticos do governo e de juízes encarregados dos escândalos de corrupção. Jatos de puro ódio cintilam sob a película do amor.

Suspeito que, tipicamente, algum malcriado sugeriu que Mantega, Padilha ou Haddad se transfira para Cuba. É o avesso simétrico do que ensina há tanto tempo o lulopetismo. Os malcriados aprenderam um método, assimilaram uma linguagem. Dizem, agora, que o "estrangeiro" é o PT. De certo modo, o PT venceu.

O Brasil no divã

Como dizia o psicanalista Hélio Pellegrino, um dos fundadores do PT, a inteligência voltada para o mal é pior do que a burrice

Divã (Foto: Arquivo Google)
Se o Brasil fosse uma pessoa, estaria fazendo cinco sessões semanais no consultório de um psicanalista e tomando remédio tarja preta.

Descobriu que o pai não é um herói, mas um sem-vergonha infiel, vaidoso e irresponsável, capaz de fazer qualquer coisa pelo poder, e que a mãe é mentirosa e autoritária, e um desastre na administração da casa, além de ninguém entender o que ela diz. Ainda bem que o Brasil não é uma pessoa.

O país está no divã de um grupo de analistas, econômicos, políticos e sociais. Mas o caso é complexo. Complexo de superioridade bravateado por Lula durante anos, desmentido diariamente pela realidade da corrupção, do desperdício e da incompetência; complexo de inferioridade pelo menor crescimento de toda a América Latina, só maior que Venezuela e Argentina, casos perdidos, de internação imediata.

Síndrome de inveja crônica de americanos e europeus, porque conseguem ser mais ricos, educados e viver melhor do que nós.

Complexo de culpa por um país com tantos recursos naturais e tanta beleza, com tudo para se tornar adulto, mas continua adolescente e acreditando em ilusões e almoços grátis, e ignorando que o governo não produz nada e que tudo que gasta é fruto do trabalho e do esforço de cada cidadão, que não sabe que as horas, dias e meses que você trabalha para sustentar o governo estão perdidos e não voltam mais: são vida. Estão roubando a sua vida.

Mas não há esperanças para o paciente enquanto amigos do poder, agregados e parentes incompetentes continuarem ocupando cargos de responsabilidade e dando imensos prejuízos a todos por ladroagem, burrice e ineficiência.

O paciente está atônito diante da atual confusão de valores, em que as fronteiras entre o mal e o bem estão borradas. Quem diria que algum dia aplaudiríamos gente como Eduardo Cunha e Renan Calheiros, por tirar do governo, de qualquer governo, a possibilidade de aparelhar politicamente as estatais — maldição dos anos Lula/Dilma, que levou o Brasil ao divã.

Nelson Motta

sexta-feira, 5 de junho de 2015

A coisa aqui tá preta


Peguei emprestado um salvo conduto do Chico Buarque de Holanda e portanto posso ser politicamente incorreto. Você sabe, tem gente que pode fazer isso sem ser chamada de racista e tem gente que não pode nem pensar em usar uma expressão dessas sem ser linchado em praça pública.

Na música “Caro Amigo”, onde ele relatava a situação do Brasil durante a ditadura militar a um suposto amigo distante, Chico diz que a "coisa aqui tá preta” e, como estava mesmo, ninguém se lembrou de chamá-lo de racista. Se ele fosse um coxinha, estaria crucificado. Como é um progressista, está liberado. E aplaudido, claro.

Então vamos usar do salvo conduto e repetir: a coisa aqui tá preta.

Otelo, o mouro de Veneza, ainda não foi expulso de campo, mas falta pouco para isso. Machista, ciumento doentio, e além de tudo, um mouro. Na próxima montagem teatral, duvido que Otelo passe em brancas nuvens (racismo de sinal trocado pode).

Li no Facebook um manifesto de um grupo pró-igualdade racial exigindo a troca do nome de um restaurante chamado “Senzala”, porque isso lembra a escravidão, que deve ser esquecida para sempre. Como Ruy Barbosa, que mandou queimar documentos sobre a escravidão para apagar da História essa ignomínia. Os historiadores agradeceram, penhorados.

A paranoia politicamente correta ganhou a contribuição de um obscuro vereador petista de São José, cidade do interior do Espírito Santo. Ele conseguiu transformar em lei uma proposta que proíbe os restaurantes da cidade de colocar o saleiro à disposição dos clientes, em nome da preservação da saúde deles, ameaçada pelo poder hipertensivo do sódio.

Mas acontece que eu faço questão de temperar a minha própria salada e conclamo todos os habitantes da próspera cidade capixaba a um movimento de resistência civil, que deveria alastrar-se por todo o Brasil, sob o sagrada bandeira da liberdade de mandar na própria vida: deixem o saleiro na mesa!

É muito gratificante saber que o Estado, que é uma superestrutura de altruísmo, formada por várias camadas de generosidade e amor ao próximo, esteja tão preocupado em guiar os passos de seus cidadãos, para evitar que eles façam xixi nas calças, cocô fora do penico, e comam, bebam ou fumem coisas que podem prejudicar a saúde.

Substituir o livre arbítrio e até mesmo a Divina Providência pela mão protetora do Estado babá, o Estado guia, o Estado provedor, é um sonho recorrente dos engenheiros sociais que estão em busca de plantar os alicerces da sociedade perfeita.

Querem apenas guiar-nos em direção ao bem, e nós, ingratos, resistimos.

Não há de ser por outra razão, por exemplo, que o pró- reitor da Universidade Federal de Santa Maria (RS), mandou um memorando aos diretores de todos os departamentos pedindo para identificar todos os alunos e professores de origem israelense. O pedido foi feito por sindicatos de professores, DCE, e o Comitê Santa-mariense de Solidariedade ao Povo Palestino. O pró-reitor, em vez de jogar o pedido no lixo, o repassou a todos os departamentos da universidade.

Para que localizar professores e alunos de origem israelense? Para bordar uma estrela amarela na roupa deles? Nem o pró-reitor que assinou o memorando nem o reitor da universidade conseguiram justificar o pedido.

Como é que três assuntos tão diferentes, como o sal, o antissemitismo e o nome de um restaurante dizem tanto a respeito de um momento de degradação moral de um país?

A coisa aqui está mesmo preta.

Como esta crise vai mudando até as paisagens

Ao ir à minha banca de jornal na semana passada (pois é, ainda tenho esse hábito...), dei de cara com uma faixa que me deu tristeza. Nela estava escrito: "Passo o ponto _ Tratar aqui". O ponto é o bar sem nome do "seu" Zé, um legítimo português do Algarve, que está ali faz mais de trinta anos, e se tornou uma referência no bairro.
"Estou pagando para trabalhar. Por R$ 200 mil, passo na hora, não aguento mais", disse-me ele, sem entrar em maiores detalhes. Ia lá de vez em quando, para tomar uma cervejinha na calçada nos dias de calor, e conversar com sua freguesia de gente simples _ empregados de condomínios, pedreiros, carpinteiros, garçons, aposentados, pessoas que moram ou trabalham na vizinhança.

Outro dia, duas mulheres passando na calçada me chamaram a atenção. A mais alta era loira, de traços finos, aparência de secretária bem sucedida. A seu lado, caminhava a moça morena, baixinha, roupas simples, cabelos presos. Uma parecia ser patroa da outra, mas eram colegas de trabalho.

As duas estavam carregando baldes, vassouras e detergentes. Pareciam novatas no ramo da faxina terceirizada. Com a maior dignidade, empunhando seus novos instrumentos de trabalho, encontraram uma forma alternativa de ganhar a vida nestes tempos de crise. Fazer o que? Ficar em casa vendo televisão e reclamando da inflação, do desemprego e dos políticos safados?

Diante daquelas cenas e das notícias dos jornais e revistas, achei que era hora de pegar a estrada e ver outras paisagens. Alguns leitores têm atribuído o pessimismo e desesperança dos meus textos nos últimos meses ao fato de morar em São Paulo, onde o clima anda realmente muito pesado desde a última campanha eleitoral, e só vem piorando.

Apesar do frio e da chuva, fui para a praia, coisa que não fazia há muito tempo. Fim de mês, grana curta, desta vez já esperava não encontrar congestionamentos pelo caminho, como antes era comum em qualquer final de semana, mas não podia imaginar que estivesse tudo tão livre, quase sem carros e sem gente, de São Paulo a São Sebastião.

Lá estavam as barracas de frutas da Mogi-Bertioga, oferecendo seus produtos encalhados para ninguém. Na Boracéia, desta vez não encontrei os índios de uma aldeia próxima que ficam à beira da estrada vendendo seu artesanato, plantas e palmitos. Em Maresias, reduto do campeão Gabriel Medina, desta vez não vi pranchas e surfistas em penca, apesar da ressaca do mar de ondas altas de até três metros.

Nos centros comerciais desertos, estava cheio de faixas anunciando promoções e descontos, muitas placas de vende-se e aluga-se, uma liquidação geral. Até a moda de casamentos na praia foi atingida: o movimento das festas de noivas, me disseram, caiu 70%, em pleno mês de maio. Quiosques de praia, supermercados, padarias, restaurantes, pousadas, tudo uma calmaria só.

Além de números, estatísticas e índices econômicos, esta crise vai mudando também as paisagens físicas e humanas e, pelo jeito, não adianta pegar a estrada para mudar de cenário e de conversa.

Vida que segue.

Oração presidencial

Blatter renuncia e fifaf tera nova eleicao dilma ajoelhada rezando livrai-nos desse mal

Nas mãos do Senhor do Bonfim

Daqui a uma semana, entre os dias 11 e 13, o PT estará realizando em Salvador o seu V Congresso Nacional, com direito à presença da presidente Dilma, do Lula e demais cardeais do partido. Tomara que o Senhor do Bonfim ilumine os companheiros e faça cair sobre eles a bênção da lucidez e do retorno aos antigos ideais dos tempos da fundação. A pauta dos trabalhos é desconhecida, mas circula nos meios petistas a versão de que vão elaborar um roteiro destinado a devolver-lhes a credibilidade e o apoio da classe operaria.

Não se trata da oportunidade de mais uma crítica ou sequer da análise da performance do governo, de resto sofrível, mas do reconhecimento de que em vez de lamentações e até de queixas contra a presidente Dilma, o PT deveria fornecer-lhe meios para a recuperação. Um elenco de iniciativas capazes de ir de encontro às necessidades do país, desde a retomada do desenvolvimento econômico à elaboração de novas conquistas sociais. Afinal, em seus dois governos, além do assistencialismo que aumentou o consumo entre as massas, não surgiram atos concretos de ampliação dos direitos do trabalhador.

Pelo contrário, o que se vê são restrições ao salário desemprego, ao abono salarial e às pensões das viúvas. Oito milhões de desempregados e as sucessivas demissões em centros de produção atingidos pela crise exigem mudanças até na legislação, de forma a devolver ao trabalho aquilo que o capital lhe vem tomando. As bases trabalhistas, com as centrais sindicais à frente, rejeitam a teoria do sacrifício, da supressão de prerrogativas, dos cortes em investimentos sociais e da contenção de salários. Essas formulas só trouxeram mais dificuldades aos países que as adotaram.

A garantia do emprego e sua ampliação através de políticas públicas que atendam as necessidades do crescimento econômico e estendam a todos os frutos de um esforço nacional estava no cerne do PAC, quando lançado. Hoje, virou fumaça. Mais importante do que evitar vaias e panelaços será adotar medidas concretas de recuperação, capazes de beneficiar o conjunto, não apenas os privilegiados de sempre.

Boas intenções poderão ser enunciadas na capital baiana, mas redundarão em nada caso as bases do PT não consigam livrar-se da acomodação e da prática de usufruir do poder em beneficio de suas cúpulas. Uma lufada de ar puro renovará o partido e seu governo. Ficar vociferando e acusando os adversários só aumentará a distância entre o trabalhador e os que se dizem seus representantes.

A colheita de Dilma



O governo está colhendo e penalizando a sociedade pela década de irresponsabilidade populista e abandono das reformas estruturais que se impunham. Ao invés, optou pela popularidade e demagogia do “nunca antes na história desse país”. Hoje paga o preço por causa disso.
A sucessora, apresentada como gerente competente, não era nem gerente e nem competente. Reeleita não pode mais manipular a realidade pela ação dos marqueteiros. Agora é refém do seu próprio governo. O gerador de relativa credibilidade é o ministro da Fazenda que vem tentando instrumentalizar uma saída dolorosa no curto prazo para se enxergar o futuro. Solitário, vem lutando com bravura.

Brasil, entre a diplomacia da paz e a exportação de armas

O país participa de missões de paz da ONU, e por outro lado vende armas”
Nem só de soja vivem as exportações do Brasil. Existe um outro comércio, muito mais letal, no qual o país também vai muito bem: trata-se do mercado de revólveres, pistolas, metralhadores, fuzis, lança-granadas, artilharia anti-tanque, munições e morteiros. Atrás apenas dos Estados Unidos, Itália e Alemanha, o Brasil é o quarto maior exportador de armas leves do mundo, de acordo com o relatório As Armas e o Mundo divulgado nesta segunda-feira pela Small Arms Survey, entidade que monitora conflitos armados e o comércio de armas de fogo no mundo.

De 2001 a 2012 o país exportou 2,8 bilhões de dólares (374 milhões apenas em 2012) em armas, deixando para trás potências do setor como a Rússia – fabricante do famoso fuzil AK-47, arma de escolha de nove entre dez grupos guerrilheiros, do Estado Islâmico às Farc – e China, que possui o maior exército regular do mundo. O Brasil, no entanto, é o único entre os quatro maiores exportadores do ranking cujas transferências de armamento não são transparentes, diz o relatório. Ou seja, o país não apresenta à ONU seus recibos e contratos de venda: não se sabe exatamente o que, para quem e quanto é comercializado.

Na prática, isso significa que existe a possibilidade de que os armamentos vendidos pelo país estejam sendo comprados por nações em conflito ou que violam os Direitos Humanos. Ou que o Brasil venda para terceiros que por sua vez irão repassar as armas para milícias, facções terroristas ou governos autoritários. O Brasil é signatário do ATT, um tratado que regula este comércio no mundo e proíbe transferências consideradas irresponsáveis. A legislação ainda não foi sancionada.

Em 2011 o país não entregou às Nações Unidas o relatório de suas transferências de armas, e se absteve na votação do embargo imposto à Líbia. Em 2013, grupos de monitoramento de conflitos denunciaram que granadas de gás lacrimogênio da marca brasileira Condor estavam sendo usadas pela polícia turca para conter protestos contra o Governo de Recep Erdogan.

Obra em andamento

Há países ainda primitivos e outros já bastante civilizados. Quanto mais evoluídos, mais abertos aos avanços das Ciências, mais interessados em aprender e evoluir
Suécia: Prisão Sollentuna, cela, sala de ginástica e refeitório
É claro que um país nunca está absolutamente pronto, posto que as sociedades não são estáticas e alteram seus modos e meios de viver e conviver. Cada era que atravessamos trouxe muitas novidades, mas esta Era da Tecnologia é imbatível em mudanças quase que diárias.

É de se esperar, pois, que os países estejam preparados para aceitar e conviver com as novidades. Sempre a serviço do Homem e para seu benefício, naturalmente.

Mas é imprescindível que o país primeiro se civilize por igual, em toda a sua extensão. Civilizado, organizado, as novidades que forem sendo aprovadas por seu povo serão estendidas a todos.

Agora, estar sempre na foto como a work in progress, essa característica é nossa. O Brasil é o mais perfeito exemplo de país sob infindável obra em andamento de que se tem notícia.

Nunca estaremos prontos? Será possível?

Nossa democracia é apresentada, por muitos, como planta tenra. Desculpa rota. Democracia não quer dizer, como pensam alguns, anarquia. Como disse o poeta francês Saint-John Perse (1887/1975), antinazista ferrenho, “A democracia, mais do que qualquer outro regime, exige o exercício da autoridade”.

Um de nossos maiores problemas é a segurança pública. Veja bem, leitor, eu disse um de nossos maiores problemas! Temos uma enorme quantidade de graves problemas, mas a segurança pública e tudo que dela decorre, é dos maiores.

O Globo de hoje mostra a explosão carcerária que estamos sofrendo. O aumento, de 2005 a 2013, foi de 87%! E o déficit de vagas é de 139%...

A reportagem não assusta apenas pelos números que expõe, mas muito mais pelo que nos conta a jornalista Renata Mariz a propósito do pacote de medidas que o Governo Federal pretende apresentar para a área de Segurança Pública: redução ou não da maioridade penal, maior tempo de internação para menores infratores, propostas para um Pacto pela Redução de Homicídios.

São temas cujo debate é urgente, que aguardam uma solução de bom senso para ontem! Mas o Governo Federal esbarra num muro que me deixou indignada: os militantes do movimento social que defende o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) declaram que não aceitam qualquer alteração no Estatuto.

Não é a severidade da pena que assusta o menor e o afasta do crime, mas a certeza da punição. Ou seja, a chave de tudo é a derrota total da Impunidade, o mal que nos distancia dos países inteiramente civilizados.

Os defensores do ECA, que vêm todas as crianças como anjos de candura que lutam contra o adulto malvado, precisam deixar de assistir ao Mágico de Oz e se ligar no noticiário.
Corredor de penitenciária na Suécia
A luta desses militantes deve mudar de objetivo: eles que se batam por prisões humanas, como as que existem na Noruega, por exemplo. Lá o preso vive em condições dignas, tem aulas, se desejar; trabalho remunerado; instalações adequadas para um ser humano viver e aprender a conviver. O governo norueguês concluiu que a reabilitação do preso é o que mais interessa para não caírem no ciclo vicioso de prisão, crimes, mais prisão, mais crimes, e mortes, muitas mortes mais.

É imprescindível que o Brasil compreenda que a privação de liberdade como vingança pelo crime cometido não vai servir nem ao infrator, nem à sociedade. É o momento exato onde a autoridade de um Governo Federal sensato é fundamental.

Em verdade, o que não é mais possível é querer que o Brasil, como está, seja considerado um país civilizado. Não é. Somos é uns novos-ricos sem categoria. Isso, somos.

País do Carnaval

O Brasil é um país fundamentalmente carnavalesco. Palmeira é uma cidade essencialmente brasileira. Grande parte dos defeitos e das virtudes que no brasileiro se encontram, em geral, o palmeirense possui, em particular. Reproduz-se entre nós, em ponto pequeno, o que o país em ponto grande produz. (...) A pátria é um orangotango; nós somos um sagui. Diversidade em tamanho, inclinações idênticas. Imitações, adaptações, reproduções – macaqueações. (...)
Graciliano Ramos 
 

A eficiência errada

Prevalece entendimento de que o pobre deveria era estar agradecido por ser atendido. Queriam mais o quê? Tratamento VIP?

Deu na imprensa no mesmo dia: pesquisa do IBGE mostra que o pessoal do Programa Saúde da Família não visita regularmente nem metade dos domicílios cadastrados; Polícia Federal apanha quadrilha que “falsificava” operações cardíacas no SUS para roubar material cirúrgico e utilizar em clínicas particulares.

Na primeira notícia, um fracasso administrativo e descaso com a população. Na segunda, uma complexa operação que vai da falsificação de diagnóstico à lavagem de dinheiro.

Dá o que pensar. Não se deveria falar de dificuldades administrativas ou falta de dinheiro no serviço público. Se o pessoal tem imaginação e capacidade burocrática para encontrar o dinheiro e montar as fraudes no SUS (e na Petrobras, nas licitações eletrônicas, no DPVAT, para citar só os mais recentes), então deveria saber como tocar as mais simples e honestas operações.

Convenhamos: deveria ser muito mais fácil organizar os agentes comunitários para que visitassem mensalmente os clientes do Saúde da Família. Pois atendem assim menos da metade. Pior ainda, mostra o IBGE: quase 20% das casas registradas nunca foram visitadas.

Já a fraude do SUS, essa mais nova, é um espetáculo de eficiência. O esquema começava assim: o médico examinava um paciente do SUS e dava dois diagnósticos, um mandando o “doente” tomar uma aspirina, por exemplo, outro indicando uma cirurgia complexa, com a necessidade de instrumentos e material como válvulas, stents etc.

O paciente pegava sua receita e ia para casa. O outro diagnóstico seguia os trâmites burocráticos, ou seja, aprovação, compra dos instrumentos, agenda da operação que não acontecia e desvio do material para clínicas particulares. Capaz até de estarem utilizando esse material para pacientes de planos de saúde de órgãos públicos. Faziam isso em pelo menos quatro estados.

Vamos reparar: é competência, para o lado do mal, é verdade, mas competência mesmo assim.

O que nos leva à questão: por que a competência parece estar sempre do lado errado?

Tem aí um fator cultural. Há muito descaso quando se trata de atender a população mais pobre. Até que tem melhorado, mas ainda prevalece aquele entendimento de que o pobre deveria era estar agradecido por ser atendido. Queriam mais o quê? Tratamento VIP?

VIPs — aquelas pessoas muito importantes que não entram na fila e são bem atendidas mesmo quando procuram um serviço público.

O chefão ou o político governante resolve dar uma checada de surpresa no bandejão do segundo andar. E o atendente: “Doutor, o senhor por aqui? O picadinho acabou, aceita um filé?”

Isso se muda com o tempo, com os exemplos, com uma prática correta, e vigiada, por anos a fio. Mas há um ponto que depende de gestão: a avaliação permanente dos programas e serviços públicos. Saúde da Família é um bom programa, mas é necessário checar todos os meses se os agentes comunitários estão visitando a clientela.


O Bolsa Família não é para dar dinheiro aos pobres. É para acabar com a pobreza e isso só vai acontecer se as crianças frequentarem regularmente uma escola na qual aprendam o suficiente para arrumar bons empregos — e não depender mais do Bolsa Família.

Logo, não se pode medir o programa pelo número de famílias beneficiadas, mas pelo aproveitamento escolar das crianças.

Há falhas aqui. A frequência não é cobrada sistematicamente, muito menos o progresso escolar dos meninos e meninas. Alguns dizem: não faz sentido fazer essa avaliação porque as escolas são ruins. É verdade, mas qual é a ideia? Deixar tudo por isso mesmo?

É uma distorção muito comum. Os governos criam os programas, lançam o benefício e parece que está tudo resolvido. Sem avaliação regular, ocorre uma de duas situações: ou o programa não funciona para todos ou perde o sentido, a eficácia, e fica no orçamento por inércia. Uma boa reforma administrativa pegaria isso tudo. Mas reforma dá trabalho, tromba com interesses instalados, de modo que... fica por isso mesmo.

Já o pessoal da corrupção... A eficiência vai ficando para o lado do mal.

Carlos Alberto Sardenberg

quinta-feira, 4 de junho de 2015

O 'tapete' santo

elvis

Tudo dentro da lei...

Nossa agremiação recebeu propinas pagas a obras não realizadas e contratos superfaturados, mas tudo impecavelmente aprovado pelos tribunais da Terra e dos céus

Somos legalizantes, legalistas, legalóficos e legalomaníacos. Cremos que a vida social e seus costumes mais arraigados; ou os seus laços mais sagrados, mudam com a lei. Mudamos a lei para não mudar o nosso conforto e a nossa perene má-fé. Em outras palavras, para não segui-la.

Vivemos recessão, inflação e depressão causadas pelos nossos projetos onipotentes, mas tudo dentro da lei. Ficamos imensamente ricos roubando contratos e emitindo notas falsas, mas de acordo com um programa e, é lógico, dentro da lei. Ultrapassamos todos os limites dos nossos papéis de administradores temporários dos bens públicos e confundimos nossas vidas com instituições do partido e do Estado, mas de acordo com a lei.

A mentira em nome do povo tem sido a nossa moeda corrente, mas tudo dentro da lei. Preferimos dar cargos públicos a gente nossa, gente boa, gente do nosso coração, alijando pessoas capacitadas, mas tudo dentro da lei. Encorajamos a confusão entre o pessoal e o público, o local e o nacional, o nacional e o internacional, mas tudo dentro da lei. Tentamos controlar a maquina pública naquilo que ela pudesse nos prejudicar e em tudo que ela pudesse nos ajudar, mas tudo dentro da lei.

A lei nos agasalha, protege, guia e nos ajuda a acusar, a patrulhar e a perseguir os nossos inimigos.

Somos, acima de tudo, legais.

Bons companheiros e camaradas. Amigos de cofre e de mesa, de boa arte e comidas. Tudo dentro da lei. Transformamos interesses pessoais e partidários em leis e instituições, dentro da lei.

Combatemos o bom combate eleitoral usando tudo o que estava e não estava ao nosso alcance, mas dentro da lei. Rigorosamente dentro da lei. Nossa agremiação recebeu propinas pagas a obras não realizadas e contratos superfaturados, mas tudo dentro da lei. Tudo impecavelmente aprovado pelos tribunais da Terra e dos céus.


Aliás, antes de existir o mundo, as pessoas, os bichos, o vasto oceano, as montanhas, as tempestades; os terremotos, as cheias e as secas; a neve, a chuva e o sol de rachar. Antes da praia e do mar azul que poluímos; antes do arroz com feijão, da pipoca, do pirão, do peixe frito e da empada. Antes do cachorro-quente, do circo, da novela, da bossa nova e do carnaval. Antes da guerra, das grandes e pequenas batalhas, inclusive as de confete. Antes da tortura e da Abolição da Escravatura. Aliás, antes mesmo da Linha de Tordesilhas que dividia o mundo entre Espanha e Portugal; e antes do Brasil, havia a lei.

Ela nasceu de um buraco negro e criou a realidade. Construindo-a, ela permite desfazê-la. A nosso gosto e prazer, é claro. Sem amor ou ódio, sem proposito ou alvo, pois a lei é paras todos. Mas, como diz a própria lei, ela é mais para nós do que para eles.

Nossa fraternidade — há quantos anos eu te conheço? — é melhor e, sejamos legais, muito mais honesta e correta do que a deles. A lei pende sempre para o nosso lado, mesmo que ela tenha essa mania estúpida e liberal de ser para todos.


Seria ilegal tratar o querido companheiro como todo mundo. Como reza a lei, a igualdade não é possível. A honestidade, então, nem é bom falar. Ambas são um ardil liberal-capitalista desenhado pelo mercado. Ouça uma coisa e espalhe outra. Assim criaremos um mundo mais justo e perfeito. A boa-fé e a verdade são para o outro mundo.

No mundo do poder pode-se até mesmo esquecer e anular os crimes e a História, desde que seja dentro da lei. A prescrição como figura legal é uma engenhosa máquina do tempo. Com ela, fazemos o tempo retornar para anular crimes. Até Hitler teria sua prescrição especial e compreensiva entre nós.

Lei, lei, lei e lei. Contra a verdade, a lei. Contra a ingenuidade, a lei. Contra o outro, a lei. Contra a boa vontade, a lei. Não insistam: nosso maior adversário não são o crime e a ausência de responsabilidade pública encapsulados imbecilmente como um moralismo barato e de direita: é a lei. Vamos revoga-la? Jamais. Vamos, isso sim, reformá-la e usá-la em nosso benefício como sempre temos feito. O legal é maior que o justo e o real. Adoramos a lei em sua majestade paragrafada, subdividida em sentenças claras, escrita por linhas tortas, mas sempre certas quando nós a temos nas mãos e a aplicamos. Na mentira, na hipocrisia e, acima de tudo, na desfaçatez, fiquem sempre com a lei e pela lei. Somos por todas as legalidades, inclusive e sobretudo pela legalidade da ilegalidade.

Somos um dos países mais corruptos, injustos e desiguais do mundo, mas temos um orgulho: estamos sempre dentro da lei!

Roberto DaMatta 

Lição de Brasil