quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O país do Carnaval

AUTO_passofundo

Lula e a lanterna de Diógenes

A lista dos que chegaram a Brasília de ônibus e passaram aos jatinhos tem o tamanho do cordão dos puxa-sacos. Quem ainda é pobre nesse governo?

O PT seguiu, mais no instinto do que no texto, o script dos países comunistas, cujos dirigentes ocupavam os pavimentos privilegiados de um curioso edifício social em que os indigentes subsolos eram para o povão e as coberturas para a elite. Postão para a turba, Sírio Libanês para a nomenklatura. É isso que torna as revoluções sociais e o comunismo tão atraentes a certos indivíduos. Ninguém - ninguém mesmo! - milita em revolução para continuar trabalhando no chão da fábrica, se me faço entender. No mínimo, o sujeito mira a cadeira do diretor. Nesse esquema, não é o proletariado que sobe. O proletariado serve apenas para catapultar os revolucionários e sua visão generosa de mundo às cobiçadas coberturas, não é assim Lula?


Aliás, quando nosso ex-presidente diz que não tem pecado e risca o chão ao lado dos homens mais virtuosos do Brasil, está expressando o que, de fato, pensa de si mesmo. Os critérios morais segundo os quais nós o julgamos nada significam para quem se olha no espelho com incomparável orgulho do que conseguiu ser. Daí a angustiante inconformidade ante as nuvens carregadas que descem sobre seu destino. Lula sempre se sentiu credor do direito de ser patrocinado. Desde que engavetou sua Carteira do Trabalho, sempre houve alguém que lhe pagasse as contas, fosse como líder sindical, dirigente político, congressista, presidente do partido, presidente ou ex-presidente da República.

Hoje, enquanto um frio lhe corre pela espinha a cada imagem do japonês da Federal, ele deve estar lembrando de outro japonês do PT, amigo das horas certas e incertas, o compadre Okamoto, que passou parte da vida cuidando de suas despesas.

Esse hábito de não responder pelos próprios gastos deforma o caráter. Dispensa um treinamento pelo qual quase todos passamos, a partir da primeira mesada que nos toca administrar. Lula, se um dia aprendeu, a marcha para o poder o levou a desaprender. Há muitos anos instalou-se, para ficar, na rubrica dos custos de manutenção do PT.

Diante desse perfil psicológico, se entende o esforço do Instituto Lula, seus advogados e porta-vozes do petismo em afirmar que o triplex de Guarujá e o sítio de Atibaia não estão registrados em nome de Lula. E daí? Sob o ponto de vista moral, sob uma lanterna como a de Diógenes, pouca diferença há entre ser dono dos frutos ou dos usufrutos. Ser proprietário dos bens ou deles se servir como se fossem seus. Principalmente quando favores de tais proporções provêm de empresas que mantêm negócios vultosos e criminosos com o governo de seu partido. Recusar insolentemente a gravidade disso dá causa a muitos dos escândalos que chegam ao conhecimento público.

Percival Puggina

Lula cria epitáfio de uma era: 'Cometemos erros'

Em vídeo divulgado nas redes sociais, Lula celebrou o aniversário de 36 anos do PT. Declarou a certa altura: “É certo que cometemos erros, e quem comete erro tem que pagar.” A frase tem dupla serventia. Demonstra, uma vez mais, que os petistas não enxergam no espelho desbravadores do Código Penal. De resto, ao usar o vocábulo “erro” como eufemismo para crime, Lula, hoje um personagem multi-investigado, criou sem querer o epitáfio de uma era: “Cometemos erros.”

Afora a frase digna de lápide, todo o restante do vídeo tem um conteúdo auto-congratulatório. Para Lula, o PT é o partido mais importante da política brasileira. A legenda deu “vez e voz ao trabalhador” e implementou políticas sociais como nunca antes. Por essa razão, “é o partido que vive sempre enfrentando os adversários conservadores, que não aceitam o jeito petista de governar.” Hummm!

O trágico, o essencial mesmo na lição do drama petista é essa ideia de que tudo foi feito com a melhor das intenções. É como se Lula se absolvesse do seu passado recente, idealizando-o. Avalia que governou com a virtude no coldre, distribuindo rajadas de perversão, pelo bem do Brasil.


Converteu o PT em máquina coletora de fundos, levou a Petrobras ao balcão, avalizou as nomeações dos petrogatunos, aliou-se a sarneys, renans, collors e malufs, achegou-se aos empreiteiros… Não protelou seus crimes, protelou apenas a culpa. Cozinheiro de omeletes, Lula não concede a si mesmo a brecha de uma dúvida ético-existencial sobre o seu direito de quebrar os ovos.

O mito petista, já um tanto gasto, tenta conservar seu fascínio enquanto a Polícia Federal, a Procuradoria e o juiz Sérgio Moro se esforçam demonstrar que, no poder, Lula e o PT cruzaram com seus limites, romperam com esses limites e foram perdendo pelo caminho algo vital na esfera pública: o recato.

Lula estava muito preocupado fazenda a história para compreendê-la. Hoje, com a aparência cansada, virou uma paródia grotesca do heroi idílico do PT. Vendeu os ideais para financiar sua aventura. Em vez de ascetismo, a propina. Daquele sonho de 36 anos atrás só resta o espólio da conquista e o epitáfio: “Cometemos erros.”

Depois do Carnaval, a dura realidade que nos confronta

Apesar da manchete (de primeira página) da “Folha de S. Paulo” estampada na edição do último domingo baseada em dados negativos recentes – que a levaram a afirmar que “a economia brasileira caminha para mergulhar em um período de três anos consecutivos de recessão” –, o povo brasileiro ainda encontrou ânimo para participar do Carnaval – a nossa maior e mais bonita festa anual. “A última vez”, disse a “Folha”, “que o PIB, medida da produção e da renda, recuou por dois anos seguidos, foi no biênio 1930-31, após a grande crise de 1929”.

Belo Horizonte, por exemplo, cidade antes procurada pelos que queriam fugir do furdunço – mas que já teve antes, nos clubes e em algumas vias públicas, com ênfase na avenida Afonso Pena (refiro-me ao tempo do corso), um alegre e bonito Carnaval –, com certeza encontrou, nos blocos espalhados pelos seus inúmeros bairros, a performance ideal. Foram, sobretudo, dias e noites de total desabafo.

Só que, passada a festança, o povo se volta para a realidade econômica e política vivida hoje por um país totalmente a esmo e, o que é pior, sem lideranças capazes de lhe ditar um rumo seguro, com vistas à retomada do crescimento. Milhões de desempregados (a face mais cruel da recessão) suplicam, desesperadamente, por socorro.

Com uma presidente sangrando e a maior liderança de seu partido correndo o risco de se esfacelar, ainda assistimos, estupefatos, ao desenrolar da operação Lava Jato. Depois de viver no mensalão pressões e constrangimentos de todo tipo, Lula, agora, se mostra incapaz de qualquer reação diante das graves acusações que pesam sobre ele e sobre integrantes de sua família. Seu recolhimento, interrompido ou pelo presidente do PT, Rui Falcão, ou pelo prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho (ambos ficariam bem melhores na fita se adotassem o silêncio), espalha insegurança e insatisfação não só na base que apoia o governo Dilma, mas mesmo entre petistas, que não recebem de seu líder orientação sobre a defesa que dele devem fazer.

Na última defesa que fez do amigo, Falcão, em nota publicada no site do partido, afirmou que, no Brasil, nunca um ex-presidente foi “tão caluniado, difamado, injuriado e atacado como o companheiro Lula”. Para ele, o que todos assistimos é um verdadeiro linchamento moral e político, baseado em “denúncias sem provas”.

Só que a realidade é muito diferente disso, leitor.

Quem está sendo acusado hoje de desvios graves de conduta (como político) não é um ex-presidente da República, mas um simples cidadão. Segundo o jurista Joaquim Falcão, da Fundação Getulio Vargas, “do ponto de vista legal, não se investiga nem presidentes, nem ex-presidentes. Investiga-se o cidadão comum, igual aos outros”.

Há, no mundo inteiro, inúmeros exemplos de que é assim que se consolida o regime democrático. Por outro lado, “o legado de realizações a favor dos mais pobres”, constantemente mencionado em defesa do governo Lula, como o fez agora o mesmo Rui Falcão, corre o risco de dar para trás. E ele, por si só, não o isenta de responder, em juízo, o que possa ter feito contra o povo que um dia quis ajudar.

Essa história, preconizada pelo presidente do PT, de que já se explicou tudo e que, na verdade, tudo não passa de uma farsa criada por uma “mídia conservadora” não repercute mais, se é que algum dia repercutiu.

Que os milhões de brasileiros que foram às ruas para o Carnaval possam fazer o mesmo em defesa da moralidade pública.

É preciso refletir e agir

A espécie humana, no uso da sua racionalidade, sempre procurou, num infindável processo de aperfeiçoamento, organizar a sociedade como instrumento necessário à sua sobrevivência e à explicitação de sua dignidade essencial, seus direitos e deveres, de forma justa, livre e democrática.

Chegamos até o momento atual. Tentemos, no entanto, responder às seguintes indagações:

— É justo e lógico que, realizada uma eleição, os escolhidos só possam ser julgados pelo seu desempenho, como representantes do povo, numa próxima eleição, quatro anos depois, por suas reeleições ou não?

— É justo e lógico que os partidos políticos desconheçam seus princípios doutrinários e programáticos, servindo apenas como instituições para o registro de candidatos, e não como organizações intermediárias entre o povo e o Estado onde, permanentemente, se realiza o diálogo entre os eleitores e os seus representantes?

— É justo e lógico que os verdadeiros eleitores sejam os marqueteiros, regiamente remunerados, que formam a opinião pública segundo as cada vez mais apuradas técnicas de propaganda, de psicologia social, de massificação de ideias e imagens, e não o povo honestamente informado sobre suas opções?

— É justo e lógico que cidadãos analfabetos ou semialfabetizados, sem capacidade de discernimento, votem na escolha dos representantes do povo, em nível federal, que no Legislativo (o supremo poder) e à testa do Executivo conduzirão a nação num mundo cada vez mais complexo e de difícil convivência?

— É justo e lógico que partidos, candidatos desonestos e medíocres sejam eleitos, utilizando-se dos instrumentos legais acima descritos — mas ilegítimos do ponto de vista ético —, conduzam o país e seus iludidos eleitores na direção do caos social, da anarquia econômica, com o inevitável sofrimento do desemprego, da inflação e da violência que se instala progressivamente?

— É justo e lógico que candidatos totalmente ignorantes do que realmente se passa no mundo das ciências, das artes, da perspectiva histórica que move as nações e dos princípios do direito positivo, sejam eleitos sem se submeterem a um concurso, anterior às eleições, de tal forma que, pelo menos, não sejam escolhidos candidatos totalmente idiotas para nos governarem ou criarem as nossas leis?

O Congresso Nacional, reunindo o pouco da dignidade que lhe resta, deveria providenciar, com urgência, esta transição para um mais aperfeiçoado patamar de convivência política, por meio de emenda constitucional, passando o poder para o Supremo Tribunal Federal, que presidiria e explicitaria o necessário processo de mudança, ainda em 2016.

Creio ser esta uma alternativa a ser debatida. Os parlamentares e os governantes, em nível federal, que aí estão não são confiáveis e precisam sair — os poucos bons serão reeleitos. Isto parece justo e lógico — o processo de aperfeiçoamento da democracia nunca cessa.

O Brasil não aguentará esperar por 2018 — já estamos vivendo os primeiros momentos de uma guerra civil com a violência urbana, o tráfico de drogas, a corrupção generalizada e a incompetência governamental. O momento não é de discussões acadêmicas que já ocorreram nos últimos três séculos, pois a nação brasileira está se esfarelando aos nossos olhos.

Eurico Borba

O maior de todos os erros

Como regra, artigos assinados por Rui Falcão, presidente do PT, no site de seu partido têm tanta relevância quanto discursos corriqueiros em câmaras de vereadores interioranas. Uma exceção é o texto de escassas 231 palavras publicado há três dias, que convoca uma insurgência contra o Judiciário. Falcão não emite uma opinião, não mobiliza argumentos, não deflagra um debate. De fato, anuncia uma operação política articulada pelo próprio Lula. Se levada adiante, ela será o maior de todos os erros do ex-presidente.

Lula encontra-se sob investigação. No âmbito da Lava-Jato, a Polícia Federal colhe informações sobre imóveis do edifício Solaris, no Guarujá, inclusive um tríplex reformado pela OAS para o ex-presidente. O Ministério Público de São Paulo convocou-o a prestar depoimento sobre o misterioso caso do sítio em Atibaia, que utiliza como se fosse proprietário, reformado por um pool de empresas envolvidas no “petrolão”. Ele também é investigado no âmbito da Operação Zelotes, que trata de um suposto esquema de compra de medidas provisórias. Na mira do texto de Falcão encontram-se as três investigações, que jamais recebem menção explícita.

“Nunca antes neste país”, escreve o presidente petista, produzindo uma ironia involuntária, “um ex-presidente da República foi tão caluniado, difamado, injuriado e atacado como o companheiro Lula”. Até aí, nada. O trecho que interessa aparece na sequência: “Inconformado com sua aprovação inédita ao deixar o governo, o consórcio entre a oposição reacionária, a mídia monopolizada e setores do aparelho de Estado capturados pela direita quer convertê-lo em vilão”. Como a “oposição reacionária” e a “mídia monopolizada” não têm poder para instaurar inquéritos, o alvo do chamado à militância são os “setores do aparelho de Estado capturados pela direita” — isto é, na deplorável linguagem escolhida pelo lulopetismo, o sistema de justiça.

As investigações em curso evidenciaram que Lula recebeu favores extraordinários de grandes empresas condenadas por corrupção em negócios com a Petrobras. A promiscuidade entre o ex-presidente e os empresários corruptos foi tacitamente admitida por Gilberto Carvalho, o principal lugar-tenente de Lula, que qualificou os presentes como “a coisa mais natural do mundo”. No estágio atual, a imagem do segundo “pai dos pobres”, propalado sucessor de Getúlio Vargas, já sofreu ferimentos políticos talvez incuráveis. Mas, na esfera criminal, Lula só será indiciado se emergirem sinais convincentes de que ele atuou para retribuir os favores recebidos, subordinando o interesse público aos interesses dos generosos empresários. Nesse contexto, o grito de guerra de Falcão parece uma tentativa de intimidação da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário. Na hipótese de inocência de Lula, é um erro dramático.

Um raio no céu claro? Não. Perto do texto de Falcão, no site do PT, encontra-se a convocação da Frente Brasil Popular para um ato público em defesa de Lula, diante do Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo, em 17 de fevereiro, na hora marcada para o depoimento do ex-presidente. A Frente Brasil Popular é formada por PT, PDT e PCdoB, além de diversas entidades e movimentos sociais, como a CUT, a UNE, o MST e a Associação Juízes pela Democracia. Na convocação, denuncia-se uma “postura golpista e antidemocrática” de “setores do Poder Judiciário”. De fato, o campo político liderado pelo PT está dizendo que investigar Lula é uma ousadia inaceitável. A democracia exige o privilégio, a desigualdade perante a lei — eis a estranha mensagem veiculada pelo lulopetismo (e, curiosamente, por “juízes pela democracia” engajados numa mobilização partidária contra o Judiciário).

Um compêndio sintético dos erros de Lula exigiria um pequeno livro. Contudo, até hoje, a lista não abrange um ataque direto às instituições da democracia. No seu ativo, o ex-presidente tem o respeito ao princípio da alternância no poder, sedimentado pela decisão de virar as costas ao movimento continuísta ensaiado entre correntes do PT. Tem, ademais, apesar de inúmeras hesitações, o reconhecimento das prerrogativas do Judiciário, expresso nas suas declarações, à época do “mensalão”, de que “os companheiros que erraram devem responder por seus erros”. A operação política anunciada por Falcão e pela Frente Brasil Popular, que não existiria sem a concorrência do próprio Lula, representará uma ruptura histórica.

José Dirceu, José Genoino et caterva ergueram o punho para declararem-se presos políticos na hora da execução de suas sentenças de prisão. Lula, porém, exercitou a prudência, afastando-se sabiamente das manifestações dos seus. Preservou, com isso, o fio que conecta o PT à democracia. Todos podem apontar, justificadamente, as pequenas rebeliões petistas contra o sistema de justiça. Ninguém, contudo, tem o direito legítimo de atribuí-las ao núcleo dirigente do lulopetismo, que só opera com o aval de Lula. A distinção não tem importância para as vozes extremistas que pregam o banimento do PT, mas é crucial para a maioria moderada da opinião pública. É ela que, agora, está em jogo.

No ato diante do fórum da Barra Funda, os militantes organizam-se para ecoar a palavra de ordem “Lula é meu amigo; mexeu com Lula, mexeu comigo!”. O PT está, inadvertidamente, oferecendo uma perigosa sugestão. Será que Falcão usará a palavra “golpismo” se Eduardo Cunha aparecer com uma chusma de apoiadores iracundos para intimidar policiais, procuradores e juízes num futuro depoimento como investigado?

Numa democracia digna desse nome, o cidadão Lula da Silva não possui direitos especiais, superiores ao do cidadão Cunha ou de qualquer anônimo. O cerco de um fórum por milicianos, mesmo se desarmados, equivale a dizer que a lei é propriedade de quem tem as ruas. Lula parece esquecer-se disso. Os demais brasileiros lembrarão.

Demétrio Magnoli 

Homem-morcego

Vou perguntar só mais uma vez, para ver se a gente entende: o que tem cara de elefante, tromba de elefante, rabo de elefante, peso de elefante e ainda assim não é um elefante? O Estadão parece insistir na tese da legitimidade disso que aí está. Não consegue ver – porque não quer – que Dilma não é um acidente de percurso na petralharia ou um ponto fora da curva dos governos de esquerda que se aboletaram naquela cadeira.

A vontade de emprestar alguma dignidade ao governo do lulão, aquele mesmo que pilhou até os crucifixos do palácio numa desavergonhada esbórnia que misturou a coisa pública e sua privada, faz o jornalão esquecer que Dilma é o subproduto desta desgraceira, colocada lá tão somente para esquentar a cadeira do chefe. Ao adquirir vida própria, essas coisinhas paridas nos aparelhos rombudos da esquerda terrorista só enxergam a tal “luta” que tanto os persegue e tonteia.

Pela madrugada, Batman!!! Que diabos de defensores da lei, da justiça e do reinado das palavras que foram arranjar em nossa Gotham City, não é mesmo? Tá difícil enxergar o óbvio? Já disse aqui mesmo – e reitero – que não sou conspiracionista. Mas não deixo de enxergar claramente nessa quadrilha uma mentalidade, um modus operandi e uma sequência de atitudes – todas torpes – que desembocaram nessa falência dos múltiplos órgãos públicos que nos rodeia.

Isso é a esquerda no poder, meus caros. Uma confraria de biltres que, quando não está fingindo que governa, está fingindo que escreve editoriais isentos. Afirmar que “é muito provável que os tucanos tenham cometido ilicitudes que precisam ser investigadas” é de uma calhordice editorial que não tem tamanho, não é mesmo? O que eles estão dizendo é que eles mesmo não tem competência para o jornalismo investigativo, o que seria a mola mestra de um jornal, tornando o provável que eles insinuam PROVADO.

Como não está provado, pode ser notícia falsa, plantada para nivelar os diferentes e inadmissível numa publicação do porte deste diário. Pode ser calúnia, o que mereceria uma pesada advertência do governador do Estado, uma vez que não dá pra investigar o que é “provável”, mas não tem indícios. Fala serio. Onde pariram este escriba?

Em tempo: o que tem cara de elefante sem ser elefante é uma carcaça de elefante — o que vai sobrar destes governos e o que eu já expliquei aqui mesmo. Aquela carcaça que a gente vem carregando nas costas e que vem pesando no lombo, patrocinada por quase todo o jornalismo brasileiro. Vai indo que eu não fui.

'Californication' , ou assim são nossos políticos


Zeca, de copo na mão, agachado
O deputado Zeca Dirceu (PT-PR), filho de José Dirceu, condenado no mensalão e agora preso em Curitiba na Lava Jato, divide-se entre praias paradisíacas da Califórnia ou Santa Catarina, e points do sofisticado circuito Paris/Londres/Amsterdã/Punta Del Este. Na última semana, ficou entre a ferveção de camarotes vips no circuito Barra-Ondina do badalado carnaval de Salvador e praias do “sul do mundo”. Num dos seus posts nas redes sociais, para gáudio dos petistas, escreveu em foto em La Jolla Beach, em San Diego, a legenda “Californication”. 
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Por que não eliminamos os mosquitos da Terra?

Uma criatura chata. Sanguessuga e fonte de contágio de doenças, é difícil ser querido mesmo pelos amantes da natureza. O temido mosquito é agora o principal suspeito do aparecimento repentino e pela expansão do zika vírus na América Central e do Sul. O zika é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, uma espécie tropical conhecida pela disseminação de doenças, tais como a febre amarela e a dengue.


Existem cerca de 3.500 espécies de mosquito, um número modesto para uma família de insetos, mas seu impacto sobre o bem-estar e a saúde humana é catastrófico. A fêmea do mosquito Anopheles carrega o parasita que causa mais de 500.000 casos de malária por ano, enquanto o mosquito asiático Tigre, oAdes albopictus, transmite a dengue e o vírus chikugunya. Os mosquitos têm sido vetores de doenças emergentes, como o vírus do Nilo Ocidental e agora o zika.

Os mosquitos causam mais perdas e miséria para a humanidade do que qualquer outro organismo (com a exceção óbvia de nós mesmos). Os mosquitos são criaturas odiadas, nervosas e irritantes; suas larvas contaminam lagos e pântanos. E, com as condições adequadas, são pioneiros expansionistas, se sentem em casa nos habitats alterados que criamos.

Isso nos leva a fazer as seguintes perguntas: que bem fazem esses dípteros? E se pudéssemos exterminá-los da face da Terra? Deveríamos fazê-lo?

Como observa a ecóloga Sarah Fang, o consenso é que os mosquitos não fazem nada particularmente bom do qual pudéssemos sentir falta. Se os julgamos considerando a ideia doce, mas evocativa do ecólogo Charles Elton, de que toda criatura tem um nicho, assim como todas vilas inglesas têm um elenco de personagens com seus respectivos lugares (açougueiro, padeiro, policial) ficaria uma ponta solta: os mosquitos não têm um propósito especial. Então, não sentiríamos saudades deles, certo?
Os amantes dos mosquitos discordam

Podemos dividir os argumentos a favor dos mosquitos em duas categorias. A primeira argumenta que, sendo tão numerosos, se tornam parte essencial da cadeia alimentar, especialmente nas tundras árticas, onde durante as poucas semanas de verão surge uma grande quantidade de mosquitos que servem de alimento para as aves migratórias que chegam ao Norte para explorar essa riqueza.

Fang também sugere que os ataques de mosquitos podem ser suficientemente ferozes para desviar as rotas de migração de renas, cuja total liberdade teria consequências negativas tanto sobre a paisagem quanto para a pastagem. Em um relação extraordinariamente exata entre mosquitos e seus predadores, um estudo sobre a espécie Vespadelus vultuernus, pequenos morcegos encontrados no leste da Austrália, revela uma forte dependência dos morcegos adultos ao mosquito Aedes vigilax. Assim, o fato de esses morcegos precisarem dos mosquitos pode ser um argumento para começar a respeitá-los.

Os mosquitos jovens são importantes em cadeias alimentares aquáticas, como presas de espécies como o peixe-mosquito, o Gambusia affinis, ou em pequenas poças de água parada nas folhas de plantas carnívoras, arbustos e copas das árvores. Uma fauna muito reduzida que habita essas folhas e ramos, como rãs venenosas e caranguejos, se alimenta dos corpos de larvas de mosquito que flutuam nas poças. Mas, além das rãs venenosas e morcegos, que têm seu próprio fã-clube entre os ambientalistas e amantes da natureza, é pouco provável conseguir influenciar a maioria das pessoas a se posicionar a favor dos mosquitos.

O segundo argumento é que os mosquitos prestam serviços ambientais, como a polinização realizada pelo inseto adulto, ou a liberação de nutrientes que acontece quando suas crias se alimentam de resíduos orgânicos. Mas, embora os mosquitos possam atuar como polinizadores de plantas, como as orquídeas, eles não têm o monopólio, não são especialmente concebidos para essa atividade, e há uma grande quantidade de polinizadores para ocupar seus lugares.

Embora a redução do número de abelhas seja um exemplo que ilustra como colocar um ecossistema em perigo, os mosquitos são apenas mais uma parte mal compreendida e pouco estudada do processo de polinização, no qual muitas peças estão envolvidas.
E continuam discordando

Como o explorador português João de Barras disse sobre os trópicos: "Deus colocou um anjo impressionante com uma espada flamejante de febres mortais [os mosquitos] que nos impede de penetrar no interior deste jardim".

Assim, não parece haver nenhuma boa razão para defender sua existência. Além do mais, destruí-los não só nos abriria caminho, mas iria libertar a humanidade de uma terrível maldição. Com exceção de um pequeno detalhe...

Todo o sangue nutritivo e quente estaria disponível. E há muitos outros bichinhos por aí, como moscas e pulgas, aguardando o momento de entrar em cena. Cuidado com o que você deseja.

Mike Jeffries ( Este artigo foi publicado originalmente no site The Conversation)

Maluqueceu

Um jovem amigo meu que está morando nos Estados Unidos me pergunta no seu linguajar de pós-adolescente: “A Dilma maluqueceu ou está fumada”?

Se está fumada eu não sei, mas parece que maluqueceu mesmo.

Sua presença e participação na abertura dos trabalhos do Congresso é prova contundente de que, se não maluqueceu total, não anda lá muito bem da cabeça. Só pode ser isso para justificar que ela continue no mundo a lua. Como se não tivesse nada que ver com os milhões de desempregados e com a inflação galopante, ela apresenta propostas requentadas para que o Brasil “retome o crescimento” (sic).

Como se não bastasse os anúncios que fez no Conselhão, de colocar bilhões de crédito no mercado e permitir que o povo endividado use parte do FGTS para contrair mais empréstimos (quem vai querer mais dívidas numa hora destas?), ela insiste na ressurreição da CPMF, um imposto perverso que rouba mais recursos principalmente dos pobres, como se isso fosse única porta viável para entrar no paraíso que ela prometeu em sua famigerada campanha eleitoral de 2014. Ela deve ter maluquecido mesmo para achar que a Câmara vai aprovar uma insanidade destas e que o povo, que já defenestrou a CPMF no passado, vai engolir mais este confisco só porque ela quer.

Parece que aumentar impostos é a única coisa que seu governo sabe fazer, já que não sabe fazer mais nada mesmo: aumenta impostos sobre ganhos de capital num país descapitalizado e, como a primeira mandatária está de regime, avança sobre o chocolate. Sem falar no aumento do IPI sobre os cigarros, para alegria dos nosso “hermanos” paraguaios, cujas marcas vão aumentar ainda mais seu “share” e consolidar sua liderança de mercado.

O Senador Álvaro Dias diz, na sua propaganda política grátis e obrigatória na rádio e TV, que o governo é corrupto e incompetente. Falta dizer que é irresponsável, adjetivo que vai para a história como a principal característica do lullopetismo. Só um governo irresponsável poderia fazer o que foi feito nos últimos 13 anos e que não revela a menor preocupação com a moralidade e a decência. Enquanto a chefe da nação pega o “Aerolula” para uma visita de estado ao seu netinho em Porto Alegre (onde não foi depois da tempestade que praticamente devastou a cidade), nascido em hospital de luxo, a FAB faz mais de 2 mil voos por ano transportando “autoridades”, para, entre outras coisas, assistir casamentos e batizados, ao mesmo tempo que informa não ter disponibilidade para fazer mais dos que os 40 e poucos minguados voos que fez no ano passado para salvar vidas levando órgãos humanos para transplante.

Este é, infelizmente, o país onde vivemos. O nosso país, e não deles. Um dia vai mesmo chegar a hora do nós e eles, como quer o PT, mas do nosso nós contra o deles, quando exigiremos, de uma forma ou de outra, que nos devolvam a nação que nos afanaram e que criamos. Uma nação que tinha (e tem!) tudo para ser próspera e desenvolvida, sem falar em moral e ética.

Contam na internet uma piada velha mas atual.

Dizem que Jesus Cristo perguntou ao Presidente Joâo Figueiredo por que ele tinha 12 ministros.

Figueiredo respondeu de bate pronto: “Mas o Senhor não tinha 12 apóstolos?”´.

Passados alguns anos, Ele perguntou para Dilma porque tinha 40 ministros.

Reposta de Dilma, também de bate pronto “Mas Ali Babá não tinha 40 auxiliares?”.

Fazemos votos ardentes de que a Lava Jato e a Zelotes, entre outras operações, nos livrem de uma boa quantidade deles. Desempregados, muito provavelmente serão acolhidos pelo ex-presidente no seu triplex no Guarujá, no seu sitio em Atibaia ou na mansão em Angra dos Reis, que os guias turísticos apresentam como “a casa do Lula”. Os dois últimos imóveis estão em nome de Jonas Suassuana, sócio de seu filho mais velho, hoje um milionário que, segundo dizem, é, entre outas coisas, o maior criador de bois do Estado do Pará, uma atividade para a qual deve ter adquirido muitos conhecimentos quando, ainda recentemente, era funcionário do Zoológico de São Paulo. Jonas Suassuna, por sua vez, ficou rico quando, publicitário no Rio de Janeiro, teve a brilhante ideia de inventar uma edição sonora da Bíblia na bela voz de Cid Moreira, então âncora do Jornal Nacional da TV Globo. Vendeu milhões de CDs e ganhou uma fortuna, merecidamente. Mas como não se tem notícia de tenha feito outra coisa espetacular depois dessa, teme-se que a grana daquela época não seja hoje suficiente para bancar as polpudas gentilezas que.anda fazendo para o pai do seu sócio, em parceria com a Odebrecht e a OAS.

Por esta e outras que sou forçado a concluir que quem maluqueceu fui eu, que continuo por aqui botando a boca no trombone enquanto a caravana passa sem me dar a menor bola...

Nem para mim, nem para mais de 80% da população brasileira.

Flávio Faveco Corrêa

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O Carnaval é um comício

Todo ano meu artigo das terças -feiras cai no Carnaval. O artigo é que cai – não eu, que sempre fui um reprimido diante da alegria com data marcada. Aquela liberdade toda me deprimia por inveja dos garotões com suas odaliscas, havaianas e tirolesas. Meus Carnavais foram mais dos outros do que de mim. Eu olhava meio de fora e me emocionava com as mudanças que o verão trazia. Algumas cenas de minha “busca do tempo perdido” até já contei aqui.

Carnaval para mim era o cheiro. Até hoje, quando penso nos Carnavais do Rio, lembro do cheiro das garrafinhas de lança-perfume. Havia-as em vidro, frágeis como ampolas, mas o belo falo perfumado do Carnaval era o Rodouro Metálico. O lança perfume era uma espécie de precursor das drogas modernas. A prise de éter que tomávamos fazia o mundo girar até o desmaio entre serpentinas.

Lembro das marchinhas toscas que começavam a tocar nos rádios por volta de dezembro, lembro das bobas fantasias – legionários, piratas, cowboys – influenciadas pelos filmes norte-americanos. Lembro da Casa Turuna, na cidade, com máscaras de morcegos, pretos velhos, fantasmas. Lembro que o Carnaval começava no Rio sob o canto das cigarras, com flores vermelhas caindo dos flamboyant. Lembro-me das escolas de samba ainda a pé na avenida Presidente Vargas – bandos de índios de bigode e penas de espanador, pintados de preto, seguidos pelas gordas baianas tilintando de balangandãs. A multidão olhava, queria participar e era alegremente esbordoada pelos cassetetes da PE, a temida Policia Especial, sob os sons dos tamborins.

Hoje, o Carnaval chega pronto. Antes, era uma revelação; hoje ele esconde alguma coisa perdida. Creio que falta um minimalismo poético nos desfiles de luxo. Falta o mal jeito, falta a ingenuidade, o romantismo, falta Braguinha, Lamartine. Mas, tudo bem; sem chorar pelo chope derramado.
Agora renasceu o grande Carnaval das ruas, como contraponto às escolas de samba. Acho mesmo que a grande tradição está mais presente nos blocos dos foliões anônimos. Nas ruas, estão os anjos de cara suja, os blocos das escrotas, dos vagabundos, dos bêbados ornamentais, da crioulada pobre. Nas ruas, a gente lembra de um Brasil feito de toscos sambinhas, de uma precariedade poética que acabou.

Hoje, assistimos ao Carnaval de nossas desilusões políticas, jogados numa crise sistêmica que está a desmanchar tudo. Mas o Carnaval – como uma onda colorida, como uma muralha de música – resiste a essa estúpida desconstrução com que um ideologismo ignorante nos envenenou.

Não podemos deixar que os velhos canalhas de sempre cortem nossa onda, que os poderosos de 400 anos transformem nossa alegria em ingenuidade, nosso anarquismo em escravidão.

Um país mesclado de raças e sacanagem pode ser o antídoto dionisíaco contra a mediocridade burocrática e totalitária que vergonhosamente ressurgiu aqui.

Mas, mesmo assim, ainda tendo a achar que são multidões de ‘alienados’ que não entendem o que se passa no país e caem numa gandaia ingênua e vazia.

Ainda me pergunto: como podem os brasileiros ficar alegres com essa crise imunda que nos acomete?

Foi então que me lembrei dos carros de “crítica” que desfilavam com as Grandes Sociedades Carnavalescas – os “tenentes do diabo”, os “pierrôs da caverna”, os “fenianos” – e escrachavam a política e a polícia. E agora eles estão de volta nas ruas dançantes: os pixulecos, os dilmecos, os lulecos 174, os horrendos ladrões da república, a carrranca bicuda do Cunha e até aquele japonês bonzinho da PF, que aliás está jogando um bolão, sambando no pé.

Alem disso, vendo a catarata de corpos e de plumas, vendo a explosão de cantos e sorrisos, entendo que essa euforia está acima, mais alem das misérias de hoje, mais além das tristezas do mensalão, do petrolão, da inflação. Uma nuvem cultural e democrática paira acima desse sarapatel de roubos e mentiras.

O Carnaval mostra a matéria de que fomos feitos há quatro séculos. O Carnaval não aspira a nenhuma desordem profunda, como pode parecer ao turista reprimido. Ao contrário, há uma grande pureza nessa explosão de carne e sexo nas avenidas; parece haver o oculto desejo de fundar um outro país, avesso ao populismo demagógico, avesso à tragédia da pobreza. Os bailarinos das escolas e seus enredos parecem dizer: “queremos uma sociedade organizada como nós, alegre como nossas escolas de samba que cantam a felicidade”.

O Carnaval mostra que o Brasil tem uma forma de esfuziante seriedade, mais alta que a gravidade do mundo anglo-saxão.

Onde existem essas montanhas de carne, de corpos se jogando uns contra outros, onde podemos ver essa busca louca por um orgasmo utópico, essa fome de amar?

Todas as metáforas do Carnaval são ligadas à ideia de abundância, de fecundidade; tudo lembra um grande prazer que nos salvará algum dia contra um futuro de irracionalismo e paranoia.

Na razão do Carnaval existe uma certa santidade carnal (para além da orgia).

O Carnaval nos vê. O Carnaval não é um desvio da razão. Sua razão perversa nos ensina mais que moralismos críticos. A África e os índios nos salvaram, assim como salvaram os EUA. Que seria da America sem o jazz? Seria um país branco-azedo, cheio de “wasps” tristes. E nós sem samba?

A “razão perversa” é a razão do Carnaval. Não a perversão como pecado, mas como busca de uma civilização não civilizada, por um retorno a uma animalidade perdida e, no entanto, pulsante.

Cuidados com a casa comum

Terça-feira de carnaval é ‘gorda’ porque é o dia que antecede a Quaresma, tempo de penitência e abstenção de excessos. Os antigos, então, aproveitavam para se esbaldar, beber e comer até mais não poder. Afinal, tudo se acabaria na quarta-feira feira de cinzas.

Por inspiração de D. Helder Câmara, a Conferência dos Bispos do Brasil instituiu, desde os anos 60 do século passado, a Campanha da Fraternidade. Ela deu um novo rumo ao período penitencial da Quaresma: não mais apenas a contrição individual, mas a reflexão sobre o mundo, a visão da realidade, para enfrentar o pecado da omissão. Trata-se, segundo a CNBB, de “despertar o espírito comunitário, educar para a vida em fraternidade e renovar a consciência da responsabilidade social”.

Este ano, a Campanha da Fraternidade, que culmina com a Páscoa, é ecumênica, aberta a todas as igrejas. Tem como tema “Casa comum: nossa responsabilidade”. Seu lema vem do profeta Amós: “quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am, 5,24).

Lutar pelo direito e pela justiça para todos pressupõe responsabilidade para com a nossa Casa comum, o planeta Terra. Em sua magistral encíclica ‘Ladato Si’, de maio do ano passado, o papa Francisco lembra que “cada criatura reflete, a seu modo, uma centelha da sabedoria e bondade infinitas de Deus”. Não são as forças cegas da natureza que produzem o desequilíbrio climático, a crise hídrica, os desastres ambientais: são nossas estruturas econômicas e políticas. “Nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa comum como nos últimos dois séculos”, afirma. Contundente, ele diz que “qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformado em regra absoluta”. Francisco destaca a ‘dívida ecológica’ dos países do hemisfério Norte para com os do Sul. Propõe redefinir o conceito de progresso, que exige um modo de produzir e consumir mais cuidadoso e austero.

Além das questões da grande política, o papa estimula atitudes aparentemente pequenas, mas igualmente relevantes, se somadas: “evitar o uso de plástico e papel, reduzir o consumo de água, separar o lixo, cozinhar apenas aquilo que se poderá comer, tratar com desvelo outros seres vivos, utilizar transporte público ou compartilhar com várias pessoas o mesmo veículo, plantar árvores, apagar as luzes desnecessárias, reutilizar objetos”. Acrescentaria, nesses tempos terríveis do zica, que é preciso zelar para que sequer uma tampinha de garrafa vire abrigo de aedes na casa de cada um.

Eis aí gestos concretos e imediatos, que devem começar nessa Quaresma, como propõe a Campanha da Fraternidade 2016. Isto é preparação para a Páscoa e meio de renovação das nossas vidas!

Chico Alencar

Defesa de Rui Falcão ajuda a desmoralizar Lula

Digamos que em 2010, ao deixar o Planalto, Lula tivesse 80% de popularidade, uma sucessora novinha em folha saída do bolso do seu colete, um eleitorado cativo a assegurar-lhe o retorno e um PT disposto a morrer por ele, e a vida lhe sorrisse. A situação, agora, é a seguinte: Lula precisa se certificar diariamente da fidelidade do PT e seus satélites. É a única coisa que lhe resta.

Lula, no momento, busca uma explicação para o triplex do Guarujá, que ele desistiu de comprar porque virou escândalo; e para o sítio de Atibaia, que virou escândalo porque ele utiliza mesmo sem comprar. O triplex e o sítio foram turbinados com verbas de empreiteiras que participaram do assalto à Petrobras.


Quem vai ao noticiário à procura de justificativas encontra chavões desconexos de Rui Falcão, que passam a impressão de que o presidente do PT imagina que tudo faz parte do Carnaval.

“Nunca antes neste país um ex-presidente da República foi tão caluniado, difamado, injuriado e atacado como o companheiro Lula”, disse Falcão em texto divulgado nesta segunda-feira. Skindô-skindô… Para ele, um “consórcio entre a oposição reacionária, a mídia monopolizada e setores do aparelho de Estado capturados pela direita” trama converter Lula em “vilão”, promovendo um “linchamento moral.” Ai, ai, ai…

Quando era oposição, o PT tratava a história como um conchavo entre tucanos decadentes, direitistas fanatizados e empresários sem escrúpulos. Vendia a tese segundo a qual o país precisava aceitar a ideia de que o PT tinha de entrar na história para moralizá-la.

Quando o PT também se lambuzou no poder, Lula forneceu ao povo a ilusão de que poderia continuar fazendo história sem se sujar. Afinal, “não sabia de nada”. Enquanto a podridão estava restrita aos grandes números do mensalão e do petrolão, o brasileiro humilde ainda podia perder o fio do enredo escondido atrás das cifras.

Hoje, é diferente. Qualquer criança de cinco anos sabe o que é um triplex à beira mar e um sítio do tamanho de 24 campos de futebol. Ou Lula se explica ou o mito representado pela figura do retirante nordestino que chegou à Presidência logo virará pó mesmo no imaginário do eleitor cativo. O lero-lero de Rui Falcão, por inútil, apenas ofende a inteligência alheia, acelerando a desmoralização.

Somos todos corruptos?

Somos corruptos. Mas quem não é? Este é o argumento central da estratégia que o governo Dilma e o PT articulam na tentativa de proteger Luiz Inácio Lula da Silva das investigações policiais nas quais está cada vez mais enredado. A artimanha consiste em criar, no Congresso Nacional, Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) destinadas a investigar governos tucanos em São Paulo e Minas Gerais, com o objetivo de desviar as atenções para fatos envolvendo a oposição e, também, para anestesiar o sentimento de indignação da população com a corrupção sistêmica implantada pelo lulopetismo. A iniciativa petista tem sua lógica. Lula & Cia. sempre foram muito melhores no ataque do que na defesa. Mas o melhor resultado que os petistas lograrão obter será mostrar ao País o que todo mundo está cansado – e revoltado – de saber: a corrupção é generalizada e dela nem todos escapam. Ela é produto de um sistema político patrimonialista que o PT combateu até chegar ao Planalto e a partir daí passou a estimular em benefício de seu projeto de perpetuação no poder, institucionalizando a sem-vergonhice a pretexto de garantir a “governabilidade”.

Ninguém imagina que a corrupção praticada por agentes públicos seja exclusividade do PT e daqueles que a ele se alinharam para usufruir as “boquinhas” que a máquina governamental propicia. É muito provável que os tucanos, no poder no Estado de São Paulo há 20 anos, tenham cometido ilicitudes que precisam ser investigadas, para que os responsáveis sejam exemplarmente punidos. O mesmo se aplica a Minas Gerais. Da mesma forma, vale para todos os governos de todos os demais partidos em todos os Estados e municípios do Brasil. É assim que as coisas deveriam funcionar: quem quer que delinqua, após o devido processo legal, deve cumprir a pena cominada.

Na verdade, a quantidade de chefes de Executivo, principalmente no nível municipal, investigados, condenados e afastados do cargo pela prática de ilicitudes é grande. Talvez por isso mesmo essas medidas saneadoras recebem pouca atenção da mídia. Só no Estado do Maranhão – aquele até recentemente dominado pelo clã Sarney –, 45 prefeitos e ex-prefeitos de vários partidos foram condenados pelo Tribunal de Justiça estadual, entre 2012 e 2014, pela prática de crime no exercício do cargo.

A lama em que chafurda a administração pública, em todos os níveis de governo, ajuda a entravar o pleno desenvolvimento econômico e social do Brasil. A relação de causa e efeito entre corrupção e má gestão está claramente demonstrada na incapacidade de um partido corrupto como o PT aplicar políticas sustentáveis de desenvolvimento. O que se vê é o governo de Dilma Rousseff deitar a perder, com a inflação descontrolada e o desemprego crescente, os avanços na área econômica e social obtidos nos governos de Fernando Henrique e de Lula – embora já neste tenha sido instalado o sistema de pilhagem dos recursos públicos.

Não será, portanto, tentando convencer os brasileiros de que devem ser perdoados pela corrupção de que são acusados porque seus opositores fazem exatamente a mesma coisa que o PT e seu principal líder, Lula, recuperarão a credibilidade perdida e serão absolvidos pela opinião pública. Os petistas estão lutando, afinal, pela garantia de um futuro menos doloroso do que esse que vivem hoje dois de seus ex-presidentes e dois ex-tesoureiros. Mas são incorrigíveis, na medida em que pregam, em seus conciliábulos, que existe uma corrupção “do Bem” que é perfeitamente tolerável quando ajuda a “governar para os pobres”. E enquanto tentam erradicar a pobreza de seus eleitores, com inusual eficiência afastam de seus lares qualquer sinal de carência material. É assim que fazem a tal “justiça social”.

O povo brasileiro é paciente e tolerante. Não reclamará, decerto, do fato de o partido que escolheu para governar o País perder tempo e energia articulando a criação de CPIs para distrair a atenção das complicações de Lula com os imóveis que lhe garantem merecidos “dias de descanso”. Mas agradeceria, sensibilizado, se esses mesmos próceres engendrassem meios e modos para tirar o País do buraco em que o meteram. Parece que essa é a obrigação – o dever – dessa gente que fez de tudo para conquistar o poder.

O monstro e os ideais

É difícil em tempos como estes: ideais, sonhos e esperanças permanecerem dentro de nós, sendo esmagados pela dura realidade. É um milagre eu não ter abandonado todos os meus ideais, eles parecem tão absurdos e impraticáveis
Anne Frank

Lula e a democracia

A blindagem petista em relação ao ex-presidente Lula mais parece a da barragem de Mariana. A lama se espraia para todo lado, seus limites são, por agora, impossíveis de determinar. As imagens e o odor fétido fazem nítido contraste com o que outrora foram um líder e um partido que se arvoravam em defensores da “ética na política”.

O tríplex no Guarujá e o sítio em Atibaia estão ganhando jornais, revistas, rádios e emissoras de televisão. As explicações dadas são cada vez mais bisonhas e inverossímeis. De difícil credibilidade. Só um petista fanático para levá-las a sério.
Chega a ser grotesca a defesa que o PT faz de seus líderes julgados e cumprindo pena de prisão. Para não falar dos inquéritos em curso. A única linha de defesa parece ser a mentira, o ocultamento e o desrespeito aos cidadãos. Como se nada mais devesse ser acrescentado.

Agora o alvoroço é total, pois a figura de seu líder máximo foi fortemente atingida. São Lula, o homem mais honesto do mundo, foi obrigado a deixar o altar. Não apenas para se encontrar com cidadãos comuns, mas com os que devem prestar contas à Justiça. A queda foi abrupta. A vertigem, insuportável.

Contudo o que seria um destino “normal” sob certas circunstâncias numa sociedade democrática, o destino de uma pessoa política sendo julgada por seus malfeitos ou o de um partido obrigado a fazer face a suas práticas de aparelhamento do Estado e a suas contradições, pode estar se tornando um problema propriamente institucional. Porque a defesa lulopetista vem se voltando contra os meios de comunicação, o Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal, que são instituições sociais e estatais da República, da nossa democracia.

Ora, aí reside precisamente o perigo, pois se o País não entrou em crise propriamente institucional, isso se deve precisamente ao trabalho do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal e dos meios de comunicação em geral. O Poder Executivo está inerte, o Legislativo é vítima dos seus próprios malfeitos, os partidos políticos perdem cada vez mais credibilidade e, ademais, a oposição não cumpre sua função. Pilares basilares do Estado estão desmoronando, com o PT atuando fortemente nesse desmoronamento, produzido por suas políticas econômicas, corrupção, desvio de recursos públicos e uma ideologia revolucionária que dá novamente as caras. Ideologia reforçada pelo elogio ao estatismo, que levou o País a este buraco.

O Brasil vive em regime presidencialista e este, por sua própria natureza, exige um governante que presida no sentido mais forte da expressão. Não se pode ter um regime presidencialista sem uma presidente que exerça a sua função. Ora, a presidente Dilma goza de baixíssima aprovação, nenhuma credibilidade, não transmite confiança e sua política econômica está conduzindo o País ao precipício. Ninguém mais a toma a sério, a começar por seu próprio partido, que dela procura afastar-se cada vez mais, prevendo um desfecho que poderá ser-lhe muito desfavorável. Uma presidente que não governa é uma contradição em termos.

O Legislativo é outro Poder que se encontra totalmente deslegitimado perante a opinião pública. Não exerce as suas funções e transmite à sociedade a imagem de uma instituição refém de traficâncias, negociatas e transações escusas dos mais diferentes tipos. Parlamentares sérios não conseguem se impor neste quadro de desmoralização ética. A imagem transmitida é de que o bem coletivo e a representação popular não são preocupações de deputados e senadores, imersos, sim, na “conquista” de benefícios particulares. Se o processo de impeachment já se tivesse desenvolvido positivamente, caminhando para o afastamento da presidente da República, o resgate da imagem desse Poder poderia estar ocorrendo.

O pilar republicano que está segurando institucionalmente o País é o Judiciário, aí incluindo o Ministério Público, com o apoio decisivo de um órgão do Executivo, que é a Polícia Federal, atuando independentemente de seu ministro petista. Ou seja, se o País ainda não entrou em crise institucional, muito se deve à atuação desse Poder e desse órgão estatal. As menções de que o País está funcionando normalmente do ponto de vista institucional são expressões que, na verdade, têm um foco determinado, a saber, as investigações e condenações da Lava Jato, que estão dando um basta à impunidade reinante. Se houver aí uma quebra de confiança, um rompimento desse trabalho, aí, sim, a situação institucional fica crítica.

Note-se que uma instituição da sociedade – os meios de comunicação, representados por jornais, revistas, rádios, emissoras de TV, além da ampla circulação de ideias nas redes sociais – está cumprindo um papel fundamental no País, concretizando a liberdade de expressão, apesar dos ataques de que tem sido objeto da parte do PT e de seus movimentos sociais. As operações da Lava Jato têm tido ampla cobertura, partes de delações são publicadas, editoriais críticos são feitos, de tal maneira que houve todo um processo de formação da opinião pública.

O perigo, do ponto de vista institucional, está em que o PT e o ex-presidente Lula, acuados pelas denúncias que se avolumam, partam para um ataque mais frontal ao Judiciário, ao Ministério Público, à Polícia Federal e aos meios de comunicação em geral. Ou seja, seus alvos seriam as instituições do Estado e da sociedade que estão cumprindo sua função, abrindo assim uma crise institucional. Note-se que os ataques à “mídia conservadora”, ao Estado Democrático de Direito como se fosse um “Estado de exceção”, e assim por diante, revelam uma tentativa de desestabilização política, apesar de o contrário ser reiterado.

Consideram o funcionamento de instituições republicanas e sociais uma anomalia, que deveria ser “normalizada”, entendendo a “normalização” como a degradação das instituições republicanas em geral. A democracia está ameaçada.
Denis Lerrer Rosenfield

Não há salvação para o zumbi que insiste em assombrar o Brasil

Os populistas costumam ser julgados pela História só depois da morte. Lula já foi julgado. Não há salvação para o zumbi que insiste em assombrar o Brasil. Foi condenado pelo que fez e pelo que continua tentando fazer.

Isso é uma decorrência da certeza dividida pelos lulopetistas de que somos uma nação de idiotas. Amparado nesse equívoco, o PT usou e abusou da farsa, do engodo, da mentira e da devoção a alguém que ainda em vida foi instalado num túmulo.

alpino sítio
Sabíamos que este seria o ano da Lava-Jato. Agora sabemos que será o ano do Ministério Público. Um ex-presidente indiciado por ilicitudes comprovadas, dono do que não comprou, repetindo histericamente argumentos ilógicos, reprisando um discurso que já se tornou ofensivo aos brasileiros — tudo isso já permite comparar Lula a Fernando Collor. Que fez menos do que Lula fez e faz.

E Dilma Rousseff? Elegeu Renan Calheiros como fiador, o aedes aegypti como fator de união nacional, obcecada pelo cargo, tentando suportar vaias até no Congresso, sem rumo, sem planos, sem programa econômico e sem futuro. Nunca houve no Brasil alguém tão desacreditado na chefia do governo. Ninguém superou esse pesadelo que pedala.

É perfeita a constatação feita pelo site de VEJA: a Justiça não acaba na quarta-feira de cinzas. Talvez seja ainda mais exato dizer que o Brasil começa a funcionar na quarta-feira de cinzas. Se no recesso – não só do Parlamento, mas do país – tivemos os espantos diários, está claro que 2015 continua em fevereiro de 2016.

Por falta de argumentos e munição, os lulopetistas retiram do baú dos ossos táticas já utilizadas. Por exemplo, a malandragem do “fiz, mas quem não fez?” foi ressuscitada pela tentativa de envolver FHC, Aécio Neves e outros na lama que cobre o chefão.

A criatividade parece estar no fim. Os velhos truques não funcionam mais. Mas o PT insiste em vender a ideia de que o Brasil é um imenso chiqueiro. Esperteza quando é demais engole o dono, já dizia Tancredo Neves. Corrupção, quando alcança as dimensões produzidas pelo PT, acaba enjaulando os ladrões.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

O Quádruplo X

Durante a semana, falou-se muito da operação Triplo X. O centro das operações foi o edifício Solaris, no Guarujá, onde Lula tem um tríplex, teria um tríplex, ou acha que teve um tríplex, ou possivelmente só contemplava um tríplex. Não é esse Triplo X que me interessa tanto. O prédio caiu nas malhas da Operação Lava-Jato e o tríplex com suas múltiplas explicações continuará em cartaz.

Traduzindo o X por uma incógnita, gostaria de acrescentar mais um, que escapa da rede da Lava-Jato, mas foi brandamente recebido. É o fato de os dirigentes da Bancoop terem seus apartamentos e deixarem centenas de famílias ao relento. Era um projeto comum, que eles lideravam, no entanto abandonaram o navio como aquele comandante do Costa Concordia, transatlântico que afundou na costa da Itália. Ele foi condenado a 16 anos de prisão. Ali no Costa Concordia havia vida em jogo. No Bancoop, apenas sonhos e economias para a casa própria.

Nada mais corrosivo para uma proposta política que se pretende igualitária: em caso de naufrágio, salvam-se os líderes, a galera que se dane. Surgiram inúmeras defesas de Lula para livrá-lo das garras da Lava-Jato. Como sempre, algumas falam de um suposto apartamento de Fernando Henrique. Ele é o norte moral: se fez, podemos fazer também.


O advogado de Lula, Nilo Batista, busca uma outra linha: o apartamento é pequeno, um Minha Casa Minha Vida, as obras de R$ 770 mil no sítio de Atibaia, apenas um puxadinho. Até que ponto tudo isso não é um preconceito? Com tantos blogs por aí, defensores ardorosos, o PT não encontra uma única versão para esse quarto X: a deslealdade da cúpula com os mutuários. Tudo por um apartamento diante da praia de Guarujá. Na verdade era um futuro melancólico que foi abortado pelas denúncias.

Vaccari era o presidente da Bancoop e tem um tríplex no Solaris. Ele está preso. Mas por outros motivos. O silêncio do PT diante da Bancoop revela um pouco como o respeito, o medo, ou mesmo uma vontade de proteger a cúpula a qualquer custo minaram seus fundamentos. Se não fosse tríplex mas um simples quarto e sala, se a empresa não fosse envolvida no Petrolão, a cúpula do Bancoop, os seletos donos de apartamentos escapariam das malhas do Lava-Jato, mas não das malhas da decência comum, negadas por comandantes que se salvam enquanto os outros se ferram.

Embora exista um processo na Justiça, a oposição deu pouca importância ao episódio. Mais um esqueleto num armário tão grande como a sala de um museu de história natural. Existe um outro X para mim. Houve grande empenho para soltar o empresário Leo Pinheiro. O objetivo era afastá-lo da delação premiada. Zavascki, Lewandowski, Lebowski, alguém o soltou no Supremo. Quando tudo parecia resolvido, surgem as mensagens de Pinheiro. Seu telefone contava em mensagens parte do que contaria em delação premiada.

O Triplo X traz de novo Pinheiro à cena. O Solaris foi comprado pela OAS. O tríplex que Lula ocuparia foi reformado pela OAS. Tanto esforço para soltar o homem e ele reaparece em cena. Seus tornozelos devem estar ardendo em regime de prisão domiciliar. O que adiantou soltar Pinheiro? O volume de informações sendo processado é muito grande e talvez a Lava-Jato não dependa tanto de novas delações.

O fluxo de dados vai desvendando a Operação Triplo X e se ela se aproximar de Lula através desses dois fatos secundários, um tríplex e um sítio, repetirá outras ocasiões em que a Justiça acabou chegando por atalhos a estradas mais largas. De qualquer forma, sítio e tríplex são presenças concretas. No imaginário popular pesam mais do que abstratas contas na Suíça. Maluf ou Cunha podem dizer que não têm conta no exterior, e o mundo segue seu curso. Não há imagens.

Quando não são meras montagens, as fotos tendem a reaparecer com mais nitidez e frequência quanto mais nebulosas forem as explicações. Só a verdade pode devolvê-las, no seu tempo, ao silêncio dos arquivos.

Se o edifício é Solaris, que se faça luz. Por enquanto, as sombras o cobrem, desde a origem quando os bancários foram passados para trás.

Curioso é que Solaris também é nome de um oráculo cuja função é exatamente fazer perguntas. E com a seguinte advertência: perguntas irrelevantes, do tipo “Vai chover hoje?”, não serão consideradas. Infelizmente, a consulta se faz num tempo difícil, dominado por uma pergunta que o próprio oráculo não sabe responder: como sair dessa maré? 
Fernando Gabeira