sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Oriente Médio. Ódios incuráveis?


Muito se tem escrito, e discutido, sobre a atual situação no Oriente Médio, sem que se perceba a presença de opiniões realmente construtivas necessárias para a pavimentação do caminho do diálogo e do entendimento em direção à paz. Apresentações e textos sectários destrutivos, que apenas estimulam o aumento dos ódios, dificultam ainda mais a possibilidade de acordos equilibrados para ambos os povos. Para piorar, as vozes fanáticas estão muito presentes, criando solos férteis para fundamentalismos que afetam o mundo todo, e que só aceitam a destruição do outro.


Os países e organizações que têm o poder de interferir ou se acovardaram ou, por interesses outros, se mantêm distantes da questão dizendo, de forma hipócrita, que o problema é intratável e insolúvel. Líderes corajosos deveriam surgir para construir caminhos melhores que esses, minados pela incompreensão, e há o medo de se tornar um novo Rabin, ou de serem taxados de traidores.

Não há problema bélico, social ou territorial que as sociedades não tenham condições de resolver construtivamente pelo diálogo. A história já nos deu inúmeras vezes essa lição. Mesmo assim, os fanatismos estão aumentando, todos pregando aniquilações tal e qual a filosofia nazista antes da Segunda Guerra Mundial.

O ódio é um sentimento humano que habita todos nós, sendo despertado facilmente. Mas acreditamos que fomos criados com a capacidade de dominá-lo. Ao longo da História o ser humano fugiu algumas vezes dessa característica, e todos sabemos quais foram os resultados. Cito o Oriente Médio como exemplo atual, com fatos desumanos ocorrendo diariamente, como se a humanidade estivesse perdendo a capacidade de construir sociedades saudáveis. Criamos tecnologias impressionantes, mas às vezes fica nítida a impressão que ética e humanamente não estamos avançando.

O Oriente Médio, berço de civilizações admiráveis, encontra-se hoje refém de radicalismos sectários e religiosos que nada devem aos regimes totalitários mais destrutivos dos últimos tempos. Assistimos à execução de barbáries realizadas por pessoas e sociedades cultas, mas fanatizadas por um deus raivoso e vingativo criado na mente de grupos movidos a ódio. É um ser humano criando um deus à sua imagem. Quanta arrogância. Estudantes de nossa psique levantaram a hipótese de que a gênese de radicalismos e ideologias fanáticas seria sempre a mesma. Idealistas frustrados se tornam revolucionários, com a intenção de impor, de forma não democrática, suas opiniões radicais. Não aprenderam a dialogar. Muito colaborou para essa situação o imperialismo que outros povos lhes impuseram, com todas as consequências das agressões culturais profundas sofridas. Sistemas políticos construtivos necessitam de educação e tempo para serem implantados, sem revoluções, que levam povos a enormes sofrimentos. Isso gera evolução.

O Estado de Israel foi criado de forma impositiva, truculenta, sem que tenha havido preparo para o deslocamento de multidões da Europa para a região, com invasões em terras previamente habitadas por povos pacíficos e com culturas milenares. Ao invés de estabelecer uma migração gradativa pacífica e construtiva, avançaram agressivamente, destruindo vilas e expulsando povos que lá viveram por milênios, criando uma situação que os palestinos chamam de Nakba. Na sua fundação, a forma escolhida foi profundamente traumática e supremacista, como está muito bem documentado na história.

Em textos prévios, comentamos que o povo judeu, que lá habitava, poderia agregar os seus valores e costumes com as sociedades seculares e religiosas lá existentes, e não impor uma política exclusivista, com a eliminação de outros que têm raízes profundas na região, e instalando grupos humanos que mal conheciam aquelas terras e habitantes. Por ordens “divinas”, criou-se um novo país. O choque consequente é vivido até hoje. Erros após erros, deram origem a um ambiente explosivo. Como consequência, houve aumento brutal do antissemitismo, que está piorando dia a dia. Aquela região deveria ser um modelo de convivência entre diferentes, ecumênica, e servir de norte para a humanidade, sem sectarismos, racismos e exclusivismos.

O tempo passa, e as perspectivas não são otimistas. Se essa situação persistir, com o mundo assistindo sem interferir, o problema aumentará e ultrapassará fronteiras, o que já está ocorrendo. Julgamos que essa região seja hoje a mais perigosa para a desestabilização do planeta. Os povos que representam o Oriente Médio estão nos quatro cantos do mundo, e acompanham o desenrolar dos fatos com grande ansiedade. Deixou, portanto, de ser um problema regional, que está necessitando de um posicionamento forte, construtivo e imparcial para a solução, antes que esse barril de pólvora venha a explodir, atingindo a todos nós.

Disputa das ideias

Depois de todos os esforços do passado, entrámos num período de retrocesso. Vê bem como as coisas se passam hoje: quando um homem importante lança uma nova ideia no mundo, ela é imediatamente apanhada por um mecanismo de divisão, constituído por simpatia e repulsa. Primeiro vêm os admiradores e arrancam grandes bocados, os que lhes convêm, a essa ideia, e despedaçam o mestre como as raposas a presa; a seguir, os adversários destroem as partes fracas, e em pouco tempo o que resta de um grande feito mais não é do que uma reserva de aforismos de que amigos e inimigos se servem a seu bel-prazer. O resultado é uma ambiguidade generalizada. Não há Sim a que se não junte um Não. Podes fazer o que quiseres, que encontras sempre vinte das mais belas ideias a favor e, se quiseres, vinte que são contra. Quase somos levados a acreditar que é como no amor e no ódio, ou na fome, em que os gostos têm de ser diferentes, para que cada um fique com o seu bocado.

Robert Musil, "O Homem sem Qualidades"

Quando começou o fim do mundo?

Foi exatamente em 16 de julho de 1945, no dia da primeira explosão ainda experimental de uma bomba atômica (no Novo México, EUA). O fim do mundo começou naquele instante, porque, pouco antes do experimento, vários cientistas ainda temiam que aquela única explosão nuclear produzisse uma “fornalha atmosférica” global, numa reação em cadeia que incendiaria a atmosfera do planeta, exterminando em questão de horas grande parte das espécies vivas no mundo todo. Mesmo assim, o teste aconteceu.

Depois de cálculos e discussões acaloradas, o pessoal do Projeto Manhattan chefiado por Robert Oppenheimer apostou que aquela bomba de laboratório não cozinharia o planeta inteiro. O governo americano, então, arriscou e autorizou o teste (que poderia ter destruído o mundo). A humanidade não pegou fogo, mas o que restava do nosso censo de sobrevivência e razoabilidade foi carbonizado ali.

O episódio inaugurou a era da banalização do extermínio da vida no planeta – ao simples apertar de um botão – como um efeito colateral aceitável para qualquer outro empreendimento humano, principalmente para os projetos do mercado, mais sutis (e lucrativos) do que uma explosão atômica.


Não bastasse a alavancagem da produção industrial e da emissão de poluentes e gases efeito estufa, proporcionada diretamente pela II Guerra Mundial propriamente dita, seu “gran finale” nuclear foi o sinal verde para o vale-tudo industrialista puxado pelas grandes corporações da nova potência econômica mundial, os EUA, e pela indústria estatal soviética.

Nesse novo mundo – no qual o apocalipse atômico passou a fazer parte das “coisas da vida” – nenhum argumento ambientalista conseguiria concorrer com os encantos publicitários do consumismo, que prometem, ainda hoje (e cada vez mais), status e prazer. Não admira que a mudança climática decorrente da expansão industrial seja tratada pelos mercados e autoridades como um fenômeno natural, sobre o qual nosso cotidiano prosaico não teria qualquer influência ou responsabilidade (tampouco os governos e empresas).

A rigor, desde o início do século XX grandes corporações americanas e europeias, como GM, Ford, Renault, Standard Oil, Firestone, Bayer, Krupp, Siemens, Du Pont, Monsanto e tantas outras já investiam seu capital e suas relações políticas na disseminação do consumo de massa. Nesse contexto, o petróleo desempenhou papel central (ainda mais lucrativo do que o carvão mineral), com desdobramentos na produção de plásticos, cimento, farmacêuticos, pesticidas, química, munições e no boom da indústria automobilística, naval, aeronáutica e espacial, para fins militares e pacíficos. Mas, nada parecido com o ritmo e as oportunidades do pós-guerra.

Por outro lado, curioso é que o presidente americano Jimmy Carter, do Partido Democrata, chegou a instalar painéis de energia solar na Casa Branca e fazer discursos contra o consumismo e pela transição energética (quem sabe, por isso mesmo, não foi reeleito). Ele conhecia o estudo do MIT que, em 1971, já apontara 13 cenários possíveis de colapso global em consequência da poluição, escassez de recursos e superpopulação.

Resta saber se agora, no ápice do antropoceno, quando o mundo alcançou uma produção diária de um milhão de barris de petróleo, ainda há vontade, tempo e viabilidade para o estabelecimento de um modelo econômico sustentável. Se a humanidade não se intimidou há 80 anos diante da possibilidade de ser assada em minutos pela bomba do Novo México, dificilmente será detida apenas pela ameaça de automóveis, árvores caídas e air fryers.
 Felipe Sampaio

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Pensamento do Dia

Fome em Gaza
 

Imagens mostram que Israel está isolando norte de Gaza

Israel está criando uma nova linha divisória militar em Gaza, isolando o extremo norte da Faixa, segundo parecem mostrar imagens de satélite analisadas pela BBC Verify.

As tropas israelenses assumiram o controle da região e, agora, estão esvaziando uma área que corta toda a largura no norte da Faixa de Gaza.

Vídeos e imagens de satélite mostram que centenas de construções foram destruídas entre o mar Mediterrâneo e a fronteira com Israel, a maioria por meio de implosão. As imagens também mostram tropas e veículos israelenses estacionados junto à nova divisão.

Analistas afirmam que as imagens indicam que Gaza está sendo dividida em zonas, para facilitar o controle da região.


Um porta-voz das Forças de Defesa de Israel (FDI) declarou à BBC que elas têm como alvo "infraestrutura e operações terroristas" no norte da Faixa de Gaza.

O especialista em segurança no Oriente Médio H. A. Hellyer, do think tank (centro de pesquisa e debates) britânico Rusi, afirma que as imagens de satélite sugerem que Israel está se preparando para impedir que civis palestinos retornem à região administrativa do norte de Gaza.

Mais de 100 mil pessoas já foram deslocadas do extremo norte da Faixa, segundo as Nações Unidas.

As imagens aparentemente mostram duas longas seções de estrada em cada extremo da faixa, que são conectadas por terra através de uma zona urbana. As construções estão sendo demolidas entre as duas seções de rodovia, com um padrão claro e visível, desde o início de outubro.

Esta partição se estende por cerca de 9 km através da Faixa de Gaza, de leste para oeste. Ela separa a Cidade de Gaza das localidades de Jabalia, Beit Hanoun e Beit Lahia, ao norte.

A BBC obteve a informação de que existe um caminho tático entre Jabalia e a Cidade de Gaza, como parte das atividades operacionais contra o Hamas em Jabalia.

Vídeos filmados pelas FDI e postados online mostram a implosão de diversos edifícios, de vários andares, desde o início de outubro.

A ilustração abaixo mostra alguns exemplos, que foram geolocalizados pela BBC Verify como estando ao longo do novo corredor.

Um porta-voz das FDI declarou à BBC que não houve intenção de destruir infraestrutura civil "sem que houvesse necessidade operacional" para neutralizar o Hamas.

Outras imagens mostram veículos Humvee das FDI circulando através da área aberta, vindo de Israel.

Os Humvees não são fortemente blindados, como outros veículos militares. Hellyer afirma que seu uso é improvável, a menos que o exército esteja certo de sua segurança, o que indica que as tropas israelenses mantêm o controle da região.

Alguns analistas acreditam que a presença das FDI pode indicar uma partição militar permanente, controlando quem pode viajar entre as regiões administrativas de Gaza e do Norte de Gaza.

Sobre as FDI, Hellyer afirma que "elas estão se entrincheirando para o longo prazo. Eu certamente esperaria que a partição norte se desenvolvesse exatamente como o Corredor Netzarim."

A BBC já documentou a construção de duas partições na Faixa de Gaza, desde o início da guerra atual.

O Corredor Netzarim divide uma área ao sul da Cidade de Gaza, enquanto o Corredor Filadélfia garante às FDI o controle do trecho ao longo da fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito.

A análise da BBC sobre esta nova partição ao norte exibe um padrão similar à construção dos corredores anteriores no ano passado, com a conexão de estradas novas e já existentes e posições militares surgindo em intervalos regulares.

As construções e as terras agrícolas são destruídas, possibilitando a pavimentação das estradas e a construção da infraestrutura militar.

Eado Hecht, do Centro Begin-Sadat de Estudos Estratégicos (Besa), um think tank israelense especializado em segurança nacional e política externa, concorda que os dados mostram uma nova linha divisória. Mas ele questiona se ela terá sido projetada para ser permanente.

"Existe um novo corredor divisório separando a Cidade de Gaza das cidades do norte da Faixa de Gaza", explica ele. "O objetivo é isolar as forças do Hamas — e de outras organizações — que retornaram àquela região, bloqueando seu apoio e impedindo sua capacidade de recuperação, para poder enfrentá-las de forma mais eficiente."

Israel negou que esteja implementando o "Plano do General". Esta estratégia, idealizada pelo ex-general israelense Giora Eiland, consiste em instruir os civis a deixar o norte de Gaza, bloquear o abastecimento e transformar a região em uma zona militar.

As pessoas que permanecessem seriam tratadas como combatentes e enfrentariam a escolha: "render-se ou morrer de fome". A intenção é pressionar o Hamas para libertar os reféns tomados durante os ataques a Israel em 8 de outubro de 2023 e que ainda estão em Gaza.

Em declaração à BBC, um porta-voz das FDI afirmou: "As FDI operam de acordo com planos militares estabelecidos e a afirmação de que elas estariam implementando este plano específico é incorreta."

Mas existem preocupações cada vez maiores com a segurança dos milhares de civis palestinos que permanecem em cidades sitiadas no norte da Faixa de Gaza.

As Nações Unidas e as entidades beneficentes levantaram preocupações significativas sobre a situação no norte de Gaza. Milhares de pessoas já foram deslocadas e a ONU afirma que mais de 65 mil pessoas podem ainda permanecer na região.

As Nações Unidas também declararam, em 20 de novembro, que "virtualmente nenhuma ajuda" chegou em 40 dias a algumas partes do norte de Gaza.

E, em 26 de novembro, um porta-voz declarou que os palestinos enfrentam "escassez crítica de bens e serviços, além de forte superpopulação e más condições de higiene" devido ao bloqueio.

No início deste mês, uma avaliação assistida pelas Nações Unidas concluiu que havia forte probabilidade de fome iminente nas regiões sitiadas do norte da Faixa de Gaza.

A análise da BBC mostra que cerca de 90% do norte de Gaza sofreu ordens de evacuação desde o início de outubro. E vídeos postados nas redes sociais mostram as pessoas sendo movidas para o sul da nova divisão.

Não se sabe ao certo se e quando elas poderão retornar, mas o ministro de Relações Exteriores de Israel insiste que os civis poderão voltar após o término da guerra.

Imagens de satélite mostram o deslocamento de pessoas no norte da Faixa de Gaza. Grandes grupos de tendas, instaladas para servirem de abrigos temporários, desapareceram. Em muitas áreas que ficaram para trás, existem construções destruídas e outros exemplos de atividade militar.

As FDI aparentemente passaram a ter controle suficiente da região para poderem trafegar em veículos levemente blindados. Mas persistem fortes combates na região, entre tropas das FDI e combatentes do Hamas.

Vídeos postados por combatentes do Hamas mostram conflitos com tanques das FDI na região em torno da linha divisória.

Especialistas divergem sobre o tempo que deverá durar a nova partição. Hellyer sugere que ela poderá formar a base de um plano para expulsar permanentemente os palestinos da região.

"Pessoalmente, acho que eles irão instalar colonos judeus no norte, provavelmente nos próximos 18 meses", segundo ele.

"Eles não irão chamar de assentamentos. No início, eles irão chamar de postos avançados ou de outra coisa qualquer, mas é isso que eles serão e irão crescer a partir dali."

O ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, da direita radical, declarou que as tropas deverão ocupar Gaza e "incentivar" cerca da metade dos civis palestinos a deixar o território em até dois anos.

Mas o governo israelense nega que esteja planejando construir assentamentos na Faixa de Gaza após o final da guerra. E Hecht repudiou estas alegações como sendo simplesmente um "sonho" de alguns ministros ultranacionalistas.

"Todos os três corredores (Filadélfia, no sul; Netzarim, ao sul da Cidade de Gaza; e o novo corredor, ao norte da Cidade de Gaza) se destinam a fins de controle. A duração da sua existência depende de quando e como a guerra termine", segundo ele.

A pobreza maior do Brasil tem cara de criança

Mais de um quarto dos brasileiros são pobres. Na média. Para ser preciso, 27,4% das pessoas, em 2023. Entre as crianças, quem tem até 14 anos, essa taxa deprimente é de 44,8%. Entre quem tem mais de 60 anos, 11,3%. São dados do IBGE.

Não é o único dos grandes desvios da média que explicitam discriminações crônicas e de causas profundas, "estruturais". Por exemplo, 21,2% das pessoas entre 15 e 29 anos são "nem-nem" (não está em escola, não trabalha). Mas qual é o rosto típico dos "nem-nem"? Mais de 45% dessas pessoas são mulheres pretas e pardas.


A diferença brutal da pobreza infantil se repete faz tempo nas estatísticas. Os cientistas sociais e quem se ocupe do assunto sabem muito bem disso. Não têm sucesso bastante nem ao menos para colocar o assunto na conversa nacional.

Crianças mais pobres são mais comuns em famílias monoparentais (na maioria, a cargo de mulheres), em zonas rurais, em casas de mães e pais que têm mais filhos, são mais pretas e pardas.

Crianças mais pobres tendem a morrer mais, crescer menos; a se atrasar mais na escola e no desenvolvimento cognitivo em geral. Adiante, tendem a ter salários menores, a engravidar cedo demais. Etc.

Temos benefícios sociais dirigidos para mais velhos, óbvio: Previdência, assistência social (como o BPC). O Bolsa Família serviria também para levar mais dinheiro para crianças e famílias com mais crianças. Não basta, para dizer o menos. Além do mais, o problema não se limita à pobreza dita "monetária" (de renda) e apenas vai ser atenuado com transferências sociais dirigidas para crianças mais pobres. A discussão de alternativas entre o público geral e na política mal existe. Faz pouco que se começou a falar de creche.

O Bolsa Família teve peso na redução significativa da pobreza de 2022 para 2023, primeiro de Lula 3. De 2022 para 2023, o aumento da despesa com o programa foi de mais de 80%, em termos reais (além da inflação), acréscimo de R$ 78 bilhões, para R$ 175 bilhões anuais. A massa salarial, a soma de todos os rendimentos do trabalho, cresceu bem, mas cerca de 5%, por exemplo.

Graças aos benefícios do Bolsa Família, mas não apenas, a participação da renda do trabalho na renda total dos mais pobres passou a ser bem menor. Para famílias com renda domiciliar per capita abaixo de um quarto de salário mínimo, os rendimentos do trabalho eram 34,6% da renda total em 2023 (benefícios sociais, 57,1%). Em 2019, pré-pandemia, sob Jair Bolsonaro, o trabalho era 59,9% da renda desse grupo mais pobre. Em 2013, pico da renda do país, auge dos anos petistas, 59,7%.

Na média nacional, o rendimento do trabalho equivalia a 74,2% do rendimento total em 2023. Entre aqueles que ganhavam entre 1 e 2 salários mínimos, por exemplo, o trabalho contribuía com 76% da renda total, em média.

E daí? Primeiro, os mais pobres são, literalmente, excluídos: não têm trabalho ou vivem de bicos precaríssimos. Segundo, dificilmente será possível conseguir grandes reduções adicionais de pobreza à base de aumento de despesa com benefícios sociais.

Não se trata aqui daquela conversa de arrumar "porta de saída" para beneficiários do Bolsa Família (que de resto vivem em uma porta giratória de entradas e saídas da pobreza). O problema é como fechar essa porta de entrada na pior dureza da vida. Para começar, poderíamos tratar bem das crianças.

Patrimonialismo, a gigantesca árvore

Um mar de denúncias toma conta do território. Por todos os lados, chovem denúncias. A Pátria Amada está mais parecendo uma Pátria des(amada). Estamos vendo coisas erradas do Norte ao Sul. Ou será que essa onda oceânica do denuncismo é coisa normal? Tentemos entender. Há de se compreender a índole do Brasil.

Tudo começa com a árvore do patrimonialismo, a âncora dos “ismos” em nossa cultura política: caciquismo, fisiologismo, familismo, filhotes do patrimonialismo. E de onde vem essa sopa? Da herança deixada por dom João III, entre 1534 e 1536, quando criou as capitanias hereditárias e as distribuiu entre os donatários.

Tem origem aí a imbricação entre os espaços públicos e privados. Origina-se aí essa mistura. Os donatários entendiam que as capitanias eram suas, propriedade privada. Esse é o berço do patrimonialismo. A corrupção nasce no leito desse rio. O Brasil é o país mais corrupto da América Latina. Numa lista de 146 países, ocupamos o 29º lugar, segundo a Transparência Internacional. Nos 5.565 municípios brasileiros, a corrupção grassa em 85%.


E onde nasce a corrupção? Resposta: na índole de nossa comunidade política. Resgato o chiste. Há quatro tipos de sociedade no mundo: a inglesa, liberal, onde tudo é permitido, salvo o que é proibido; a alemã, durona, onde tudo é proibido, salvo o que for permitido; a ditatorial, tipo Coreia do Norte, onde tudo é proibido, mesmo o que é permitido; e a brasileira, onde tudo é permitido mesmo o que é proibido. Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro padece do complexo de vira-lata, traduzindo a inferioridade em que o nativo se coloca ante o mundo. Hoje, há um complexo maior: o de faraó. Haja olhos para contemplar a arquitetura faraônica que se espraia pelo País na forma de construções suntuosas, edifícios majestosos, obras de desenhos arrojados.

Que país faraônico. O Brasil se habilita a ser o hábitat ideal para abrigar o sono eterno dos faraós, fustigados pelo eco da turba que chega às suas tumbas. Se suas majestades só se sentem confortáveis em pharao-onis, termo do velho latim para significar “casa elevada”, é isso que encontrarão no Planalto brasiliense, também conhecido como morada dos faraós no século 21. O fausto, a opulência, o resplendor, a exuberância se elevam nos espaços, sob o ditame inquestionável de que, se a obra tiver de ser construída em Brasília, haverá de receber o selo de Oscar Niemeyer e, por consequência, não sofrerá limites de gastos.

Vejam o pacote do Haddad, lançado esta semana. Um vasto e tímido programa. Quiseram fazer reforma fiscal com reforma do IR, para agradar à classe média. Lula só pensa naquilo, em 2026. O mercado reagiu. Um dólar tem o poder de comprar mais de R$ 6. E tome inflação pela frente. A economia terá a força para derrotar Lula ou reelegê-lo. Daí a busca de Lula pelo aumento de sua base de apoio.

Nossa legislação abre portas. Deixa de lado o princípio da equidade da representação para compensar os desequilíbrios regionais pela via parlamentar, agravando uns partidos e beneficiando outros. Assim, o sistema torna-se injusto. A indisciplina partidária leva o presidente a sair a campo, tentando cooptar alianças para formar uma coalizão. A composição do governo implica, necessariamente, inserção de partidos na administração, gerando ferrenha disputa entre eles. A consequência se faz sentir na permanente instabilidade das relações entre Poderes Executivo e Legislativo.

A base da maioria, vetor de democracias consolidadas, é ameaçada. Para aumentar os buracos o poder presidencial patrocina uma democracia delegativa, dentro da qual o chefe do Executivo usa e abusa de medidas excepcionais para legislar, no caso, as medidas provisórias e emendas à Constituição. Alguém já disse: “O governo é como se fosse um pote de água benta, cabe tudo ali.” Acrescento: foi o próprio Lula quem disse isso.

Entende-se, pela imagem extravagante, que a água abençoada é a mais apropriada para molhar dedos, sejam eles sujos ou limpos, de cristãos e não cristãos que se benzem nos templos. Desse modo, a democracia brasileira seria o hábitat de espécimes que, de tão variados, só mesmo aqui encontram condições de sobrevivência. Basta contemplar o arranjo federativo, que abriga figuras como presidencialismo imperial, bicameralismo, sistemas proporcional e majoritário e multipartidarismo.

Em suma, há um PIB e meio desperdiçado no meio dessa bagunça, ou seja, jogam-se no lixo R$ 5 trilhões. Se a montanha de riquezas perdidas pudesse ser preservada, o País estaria, há tempos, no ranking mais avançado das potências. A que se deve isso? Primeiro, a uma cultura política plasmada no patrimonialismo, explicada anteriormente. O Estado é um ente criado para garantir nosso alimento e bem-estar.

O jeito perdulário de ser do brasileiro começa, portanto, com a visão do Estado-mãe, providencial e protetor, no seio do qual se abrigam a ambição das elites políticas e o utilitarismo de oportunistas. O (mau) exemplo dado pelos faraós do topo da pirâmide acaba descendo pelas camadas abaixo, na esteira do ditado “ou restaure-se a moralidade ou nos locupletemos”, que uns atribuem a Stanislaw Ponte Preta e outros ao Barão de Itararé.

E assim, com todos locupletados nas frentes da política, resta rezar um Pai Nosso, sob a crença de que Deus é brasileiro e haverá de nos salvar.

Otto e o óbvio

Nelson Rodrigues gostava de contar esta história. Otto Lara Resende, morador da Gávea, ia todos os dias pelo Aterro do Flamengo para o jornal em que trabalhava, no centro da cidade. Um dia, ao passar pelo Morro da Viúva, olhou casualmente à direita e viu um corpo estranho na enseada: uma pedra gigante com uma casinha no cocuruto. Era o Pão de Açúcar. Embora morasse no Rio desde 1945 e todos os empregos que tivera o obrigassem a passar em frente a ele, Otto nunca se dera conta de sua existência. Atônito, meteu o pé no freio. Os pneus faiscaram e obrigaram os motoristas atrás dele a fazer o mesmo.


Para espanto de todos, Otto saiu do carro e começou a zanzar entre eles, apontando mudo, de boca aberta, para o Pão de Açúcar. Assustadas, as pessoas também desceram, para acudi-lo. Asmático, veio-lhe a falta de ar e ele puxou a bombinha. Uma senhora, abanando-o, dizia: "Calma, meu senhor, calma!". E, sempre apontando para o Pão de Açúcar, só então Otto balbuciou: "Ontem não estava ali! Ontem!". E Nelson completou: "Foi um momento para a eternidade —o grande confronto entre Otto Lara Resende e o óbvio ululante".

Foi a primeira vez que Nelson usou a expressão "óbvio ululante", para dizer que o óbvio ulula à nossa frente, implorando para ser percebido. Mas não o vemos. "Só os profetas enxergam o óbvio", concluiu Nelson. Por isso, Otto nunca enxergara o Pão de Açúcar —ele era o óbvio ululante.

Tudo o que aconteceu durante Bolsonaro e só agora está vindo à tona do pântano era óbvio desde o começo. Bolsonaro não dedicou um único dia de seu suposto governo a governar. A educação, a saúde, a segurança, nem mesmo a economia, nunca lhe disseram nada. A partir do primeiro dia, empenhou-se em sua recondução ao poder em 2022, precavendo-se de que, se isso não acontecesse pelas urnas, viria na forma de um golpe.

Uma consulta aos arquivos mostrará que, com as mesmas palavras, isso foi dito várias vezes neste espaço naqueles quatro anos. Nenhuma vantagem —era o óbvio. E tão óbvio que o próprio Bolsonaro o ladrava nos palanques, caçambas e motociatas, na certeza de que ninguém o enxergaria.
 Ruy Castro

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Pensamento do Dia

 


O problema é que a mudança mudou

Muita gente conhece o início do Soneto 53 (outros atribuem-lhe o número 45) de Luís de Camões: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / Muda-se o ser, muda-se a confiança / Todo o mundo é composto de mudança / Tomando sempre novas qualidades". Menos conhecido e citado é o seu fim, que diz: "E, afora este mudar-se cada dia / Outra mudança faz mor espanto / Que não se muda já como soía".

Talvez seja por duas palavras desusadas no português contemporâneo, "mor" por maior, e sobretudo "soía" com o sentido de ser hábito ou costume, que o fim do soneto é menos citável ou hoje menos compreensível. Porque o que Camões nos está a dizer é, fundamentalmente, que a mudança já não é o que era. A mudança mudou.

Não admira que Camões sentisse isso, uma vez que ele nasceu (segundo se crê, faz agora 500 anos) numa das épocas da história que mais mudanças viram, da expansão da imprensa às guerras de religião na Europa e sobretudo à noção para eles inédita do Novo Mundo.


Por isso ele sentia que a mudança já não era apenas aquela sensação a que os gregos antigos chamavam de "panta rhei", ou seja, de que "tudo flui", e com a qual ele começa o poema.

E nem sequer apenas uma mudança cíclica, expectável, como nas estações do ano, a que ele dedicou o meio do poema ("O tempo cobre o chão de verde manto / Que já coberto foi de neve fria / E, em mim, converte em choro o doce canto"). Nada disso: há também outro tipo de mudança, que não só muda as coisas, mas que muda a sua própria textura ou padrão.

Pensamos muito nas coisas que mudam, mas pensamos pouco na própria mudança em si. Mas fazemos mal porque este tema aparentemente vago e teórico tem sérias consequências práticas. É que, na verdade, não há só uma mudança, mas vários tipos de mudança. A alguns tipos de mudança, gostando ou não, estamos acostumados como humanos que somos.

São eles a mudança constante, incremental ou cíclica. A outros tipos de mudança temos resistências emocionais, como no caso da mudança irreversível. E outros ainda —como é o caso da mudança exponencial— são difíceis até de abarcar cognitivamente. O cérebro humano recusa-se a querer compreender; ficamos perplexos e desorientados; perdemos a confiança nas lideranças, revoltamo-nos e queremos voltar ao passado, mesmo sabendo que é impossível.

Como é evidente, estamos a viver um desses momentos. Não só a mudança mudou, como há várias mudanças que mudaram ao mesmo tempo, e todas elas de tipos diferentes.

A pandemia trouxe uma mudança de tipo exponencial: o cérebro tinha dificuldade em aceitar que a infeção de um indivíduo seria amanhã de dez, cem, mil, 1 milhão e assim sucessivamente. Mas o desenvolvimento da inteligência artificial traz também uma mudança de tipo exponencial, e ainda estamos só no início.

A mudança trazida pelas alterações climáticas é disruptora, brutal e provavelmente irreversível. Mudanças trazem outras mudanças: migrações em massa, guerras, colapso institucional, quem sabe mais o quê?

Um dos nossos maiores problemas hoje é que as pessoas têm medo da mudança, os reacionários faturam com isso, e os democratas e progressistas não sabem explicar como prever, gerir e se beneficiar dessa mudança. Quem souber fazê-lo, em cada uma das áreas que listei acima, encontrará o caminho para sossegar a opinião pública e juntar as vontades coletivas. Até lá, o medo da mudança gerará monstros.
Rui Tavares

Assassinatos e guerra civil eram danos colaterais aceitáveis no plano de Bolsonaro

Agora é oficial. Um relatório detalhado da Diretoria de Inteligência da Polícia Federal, resultado de uma longa e minuciosa investigação, comprova que Jair Bolsonaro planejou manter-se no poder por meios ilícitos e violentos, chegando a colocar o plano em marcha. Bolsonaro e seu círculo íntimo —afinal, ninguém organiza uma operação dessa magnitude sem uma estrutura bem articulada e posicionada.

O relatório detalha quem foram os Goebbels, Himmler, Göring, Heydrich e Röhm de Bolsonaro. A maioria ostenta altas patentes militares —general, almirante, coronel, tenente-coronel—, mas também havia "juristas", políticos e até padre e juiz federal, deixando claro que o desprezo pela democracia não se restringe aos meios militares deste país.Como o círculo íntimo de Hitler, o de Bolsonaro também se dividia em especialidades bem definidas: a propaganda preparava o terreno; os conspiradores construíam pactos de lealdade e alianças estratégicas; os assassinos eliminavam (ou "neutralizavam", como preferem dizer) os obstáculos; os comandantes de tropas se preparavam para enfrentar ou intimidar a resistência; enquanto o núcleo jurídico fornecia um verniz de legalidade às monstruosas ilegalidades e corria para criar leis para um novo regime erguido sobre arbítrio, cadáveres e sangue. Tudo foi planejado, articulado, posto em movimento e, agora, devidamente investigado e documentado.

Uma conspiração com tantas etapas naturalmente teria várias oportunidades de fracasso. E fracassou. Não, certamente, por falha da propaganda, que entregou aos golpistas uma base popular extremamente mobilizada e disposta a tudo, como se viu no 8 de Janeiro, quando o beneficiário do golpe já havia recuado e o plano militar estava desabilitado. Tampouco falharam os que estavam prontos para legalizar e institucionalizar o golpe consumado, como atestam os inúmeros planos estratégicos, minutas do golpe e até o discurso de posse do novo ditador encontrados pela polícia.


O elaboradíssimo plano para "neutralizar" Alexandre de Moraes foi abortado, mas não devido a falhas do núcleo de assassinos, recrutados entre os agora famigerados "kids pretos", e sim por força das circunstâncias e, posteriormente, por decisão política.

A verdadeira falha parece ter ocorrido entre os conspiradores, que não conseguiram convencer todos os envolvidos de que os ganhos superavam os riscos. Não foi virtude moral nem apego à democracia o que emperrou a engrenagem golpista, mas cálculos pragmáticos. Alguns conjurados em posição de comando reavaliaram custos, perdas prováveis e riscos presumidos, concluindo que não valia a pena. Afinal, sequestrar e assassinar um ministro do Supremo, envenenar o presidente eleito, "neutralizar" o vice-presidente, prender opositores e correr o risco de uma guerra civil —e tudo isso para quê? Para garantir poderes ditatoriais a Jair Bolsonaro, alguém com perfil mais de golpista de artigo 171 que de golpista comandante de tropas? Só para lunáticos essa conta fecharia.

Ainda assim, foi uma proeza considerável. Não parece plausível que um homem com tão poucas qualidades tenha convencido tantos a arriscar tudo por sua permanência no poder. É mais razoável supor que havia interesses tão determinados a destruir um regime em que esquerda e liberais podem vencer eleições que aceitaram Bolsonaro como um inconveniente menor. Isso era o de menos para quem considerava a guerra civil como hipótese e achava "danos colaterais aceitáveis" as mortes de Moraes e sua equipe de segurança, os assassinatos de Lula e Alckmin, além de planejar, como primeira medida estratégica pós-golpe, a prisão preventiva dos juízes do STF "geradores de instabilidade".

O relatório não apenas revela as entranhas de uma conspiração, mas ilumina a natureza de alguns protagonistas da política nacional. Mostra o desconforto de boa parte da elite militar com governos civis, com os freios impostos por uma Constituição democrática e com a abstinência de poder político. E o quão longe estão dispostos a ir para mudar essa situação.

Assim como expõe a completa ausência de escrúpulos de Bolsonaro e de seus aliados, mesmo considerando apenas o senso moral mais elementar. Afinal, o que se pode dizer de alguém que, para permanecer no poder, aceita que se elimine o juiz que arbitrou as eleições, mate-se o adversário que o derrotou nas urnas e se arraste o país para uma guerra civil? Tal disposição só evidencia a absoluta falta de qualquer limite moral de Bolsonaro e do projeto autoritário que ele representou.

Homem atirado da ponte lembra caso do Rio da Guarda

Treze policiais envolvidos direta ou indiretamente no episódio em que um agente jogou um homem dentro de um rio na região de Cidade Ademar, Zona Sul de São Paulo, foram afastados de suas funções pela Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo. Dois sargentos e 11 cabos e soldados estão sendo ouvidos. O fato ocorreu na madrugada de segunda-feira, após uma abordagem policial de duas pessoas, uma das quais é a testemunha do caso, que foi gravado. A vítima da violência policial estaria viva, mas não foi localizada.

Durante uma patrulha, os policiais deram ordem de parada a duas pessoas que trafegavam em uma moto. Os rapazes fugiram, e os PMs, então, iniciaram uma perseguição que terminou com a captura da dupla. Um deles foi jogado no rio por um dos policiais. O outro chegou a ser levado para a delegacia. Agora, é a principal testemunha do caso. Câmaras corporais dos policiais registraram o episódio, que representa uma escalada da violência policial em São Paulo, onde vigora uma política de endurecimento das ações repressivas da Polícia Militar.

O episódio lembra uma chacina ocorrida no Rio de Janeiro, na década de 1960, durante o governo de Carlos Lacerda (UDN), no antigo Estado da Guanabara. A "Operação mata-mendigo" foi revelada pelo jornal Última Hora, vespertino que revolucionou a imprensa carioca. Moradores de rua, Elias Marcondes, Expedito Jesus Vieira e José dos Santos foram detidos e obrigados a entrar na caminhonete do Serviço de Repressão à Mendicância (SRM), órgão ligado à Secretaria de Segurança do Estado.



Era noite de segunda-feira, 15 de outubro de 1962, quando foram levados até os limites da então capital federal, em Santa Cruz, na Zona Oeste. O carro parou às margens do Rio Guandu, onde Elias, Expedito e José foram amarrados e jogados no curso d'água. Os três morreram afogados. Mais três viagens seriam realizadas. Carlos Lacerda promovia uma política de remoção de favelas na Zona Sul do Rio e pretendia erradicar a população de rua das vias públicas da região. Os agentes destacados para esse serviço decidiram resolver o problema jogando-os nos rios da Guarda e Guandu, que eram pontos de desova de cadáveres.

Cerca de 20 pessoas foram comprovadamente tiradas das ruas e lançadas nos dois rios pelos agentes do SRM, entre outubro de 1962 e janeiro de 1963, nove das quais morreram. A chacina só foi interrompida porque, em 17 de janeiro de 1963, a pernambucana Ondilina Alves Japiassu nadava bem. Jogada no Rio da Guarda, nadou até a outra margem e fugiu. Dias depois, denunciou a "Operação Mata-Mendigos", ao jornal Última Hora. Quatro agentes da SRM foram presos e acusados da chacina.


O guarda civil José Mota, o fiscal da Guarda Noturna Pedro Saturnino dos Santos (mais conhecido como Tranca Ruas), o motorista Mário Teixeira, da Assistência Policial, e Nilton Gonçalves da Silva, servente do Ministério da Justiça, confessaram os crimes. Segundo a edição de O Globo de 28 de janeiro de 1963, a certa altura do seu depoimento, Tranca Ruas, que admitira ter disparado um tiro no ouvido de uma vítima antes de jogá-la no rio, denunciou os demais: "Eu não amarrei o peste sozinho! Todos fizemos isso, e eu, que já estou desgraçado, não posso pagar tudo sozinho. Vocês me ajudaram a amarrar o doido e jogar ele no rio!".

Em 12 de fevereiro, os acusados da matança participaram da reconstituição do crime promovida pela polícia e pelo Ministério Público. Demonstraram como várias de suas vítimas resistiram e foram torturadas antes de serem lançadas ao rio. Ondilina não foi a primeira a escapar. Um homem identificado como Saci chegou a se segurar numa proteção de ferro na margem do rio, mas teve as mãos golpeadas com uma lanterna. Ele caiu na água, mas conseguiu nadar até a margem e começou a gritar. Assustados, segundo os depoimentos, os agentes fugiram levando Maria do Socorro, que foi espancada e abandonada numa rua. Estima-se em 50 pessoas o total de desaparecidos.

Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia do Estado da Guanabara constatou que os chefes do Serviço de Repressão à Mendicância autorizavam "deportações" de pessoas em situação de rua para suas cidades de origem, fora da capital. Entretanto, disseram não saber da matança. Relator da CPI, o deputado Paulo Duque livrou, em seu relatório, qualquer responsabilidade do governador Carlos Lacerda no escândalo.

Essa chacina se tornou um exemplo de violência de Estado contra populações vulneráveis em situação de rua. A associação ao caso do homem jogado no rio pelos policiais na Cidade Ademar, flagrados pelas próprias câmaras corporais, é pertinente. A política de endurecimento da repressão e flexibilização do uso de câmeras corporais estimula a violência policial desmedida. Sem elas, os policiais do 24° Batalhão da PM, localizado na cidade de Diadema, na Grande SP, poderiam ocultar o fato do homem atirado no rio, que ficaria na obscuridade.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reagiu: em uma rede social, disse que o policial militar que "atira pelas costas" ou "chega ao absurdo de jogar uma pessoa da ponte" não está à altura de usar farda. Será investigado e "rigorosamente" punido. O secretário da Segurança Pública, Guilherme Derrite (PL), também criticou a ação do policial militar: "Anos de legado da PM não podem ser manchados por condutas antiprofissionais". O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, também emitiu uma nota pública de repúdio: as imagens são "estarrecedoras e absolutamente inadmissíveis".

Nunca fomos leitores

Toda vez que comento notícias, lamentando o decréscimo do hábito de leitura no Brasil, tenho a sensação de estar perdendo tempo e enganando meu interlocutor. É elementar: só podemos perder um hábito que temos, não um que nunca tivemos. Quem nunca fumou não tem como parar de fumar. Quem nunca leu não pode deixar de ser leitor. E, com as devidas desculpas aos que afirmavam o contrário, no Brasil o hábito de leitura, como se diz, "não pegou". Nunca.

Com exceção de meia dúzia de leitores teimosos, entre os quais se inclui o punhado de amigos que me leem, no Brasil não se lê. Estou falando, evidentemente, de ler como hábito, como vício, como dependência, estou falando de ler livros inteiros e entender o que se lê, de absorver, assimilar o escrito, como falava Antonio Cândido, e só, então, questionar o escrito, não passar os olhos e redigir um comentário idiota, demonstrando despreparo e ignorância. Falo de ler sendo letrado, não apenas alfabetizado. Desse tipo de leitores, temos poucos. Apesar dos esforços de meia dúzia de valentes batalhadores pela democratização do saber. O fato é que não somos um país de letrados. E, como sempre, a história ajuda a explicar por quê.


Para início de conversa, nossos "descobridores", os queridos portugueses, quando utilizavam nosso território como colônia, impuseram uma série de limitações culturais aos brasileiros, entre as quais a proibição de disporem de máquinas impressoras de livros. Assim, apenas no início do século 19, quando a América espanhola tinha universidades havia três séculos e graças a Napoleão Bonaparte (que fez a família real fugir de Portugal e se instalar no Brasil), é que se criou a Imprensa Régia e livros começaram a ser confeccionados em nosso país! Até então, eles tinham que ser importados, o que implicava em onerá-los e limitar sua circulação.

Por outro lado, não havia grande demanda por livros, pois a leitura não era estimulada, nem a laica, nem a religiosa, uma vez que uma das funções dos sacerdotes católicos era a de explicar as questões religiosas que importavam, para que o fiel não tivesse motivos para investigar, por conta própria, e eventualmente questionar o próprio poder da verdade única. Nem a Bíblia se estudava. Decorava-se apenas algumas rezas e obedecia aos sacerdotes. Afinal, a verdade única era a da Igreja. Para quem insistisse em ter visões diferentes da oficial, havia a Santa Inquisição com seus instrumentos de tortura e fogueiras. Assim, eram tratados os candidatos a dissidentes.

Pouca gente lia. Além de saber decifrar a escrita (algo raro por aqui), era necessário ter grande dose de curiosidade intelectual e possuir dinheiro para importar livros. Ser leitor no Brasil durante o período colonial não era para qualquer um.

E continuou assim, mesmo no século 19, a época dos nossos Pedros, o I e o II. O enorme contingente de negros escravizados raramente era alfabetizado, o mesmo acontecendo com os numerosos membros de grupos indígenas, também marginalizados. Mesmo para o restante da população brasileira não havia programas consequentes de acesso às letras neste território em que os cartórios e o bacharelismo improdutivo davam as cartas. A cultura oral prevalecia em detrimento de conhecimentos mais estruturados que dessem conta de, pelo menos, buscar compreender os avanços científicos e culturais dos quais o século 19 era pródigo.

Lembro-me sempre da narrativa que, no livro didático que minha classe utilizava, falava da República proclamada por Deodoro da Fonseca diante do povo abestalhado, que sequer entendia o que estava acontecendo. Claro que os militares sabiam muito bem o que estavam fazendo, mas a população presenciando a história sem entendê-la é um retrato da relação entre os poucos poderosos e a "plebe rude", que não somente não era chamada a se manifestar, mas sequer se dava conta do que se falava. Este era o Brasil no final do século 19.

Na República, tivemos, finalmente, momentos iluminados, com alguns políticos e um punhado de educadores entendendo que da quantidade se obtém a qualidade e que era preciso dar oportunidade a todos para que o país pudesse crescer e ter gente qualificada em diferentes áreas, seja na esportiva, na artística, nas ciências e nas letras, na administração privada e na pública. Ao longo do século 20, o país se urbanizou, modernizou-se, ganhou salas de aula nas cidades e privadas nas casas, mas, a despeito dos esforços de educadores do porte de uma Magda Soares, não avançou muito nos hábitos de leitura.

Nunca se leu muito neste país, essa é a triste verdade. E sempre se leu mal, como se a ignorância, uma vez assumida, pudesse valer como se fosse um título honorífico. Não é. A fase de mostrar músculos poderosos ficou para trás. Agora o mundo é dos que sabem. Parece que ainda não nos demos conta disso. Que tal nossas autoridades da área de educação criarem projetos corajosos, ousados, como os de países que, em diferentes fases da história e em diferentes lugares do planeta, praticando diferentes regimes políticos, fizeram grandes revoluções educacionais e mudaram radicalmente para melhor?

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Jabuti não sobe em árvore. Se está lá, ou foi enchente ou mão de gente


A foto acima é de Fernando Haddad, ministro da Fazenda, à época em que prestou serviço militar? Não, não é.

A foto é de um sósia de Haddad que virou estrela do vídeo polêmico da Marinha que, a pretexto de celebrar o Dia do Marinheiro no próximo dia 13, critica indiretamente a proposta do governo de cortes no orçamento das Forças Armadas.

No próximo dia 13, e a Marinha não tem culpa, militares da ativa e da reserva, os saudosos da ditadura de 64, celebrarão em silêncio a passagem de mais um aniversário do Ato Institucional nº 5. Foi o ato mais violento da ditadura. Seria melhor esquecê-lo, mas não.

Melhor é relembrá-lo para que o passado nunca mais se repita. Em 13 de dezembro de 1968, a ditadura até então envergonhada tirou a máscara e se assumiu como tal, suspendendo todas as liberdades que ainda existiam no país e cassando direitos adquiridos.

O AI-5 deu ao general-presidente Costa e Silva o poder de promover ações arbitrárias e reforçou a censura e a tortura como práticas da ditadura. 500 pessoas perderam seus direitos políticos, e 5 juízes de instância, 95 deputados e 4 senadores seus mandatos.

Não bastasse, personalidades influentes da política, como Carlos Lacerda e o ex-presidente Juscelino Kubitschek, foram presos, e intelectuais e artistas perseguidos. O AI-5 foi revogado dez anos depois no governo do general-presidente Ernesto Geisel.

A ditadura estendeu-se até janeiro de 1985. Nos seus 21 anos, segundo levantamento da Human Rigts Watch, vinte mil pessoas foram torturadas, 434 mortas ou seguem desaparecidas, e 4.841 representantes eleitos pelo povo destituídos de seus cargos.

Com duração de 1 minuto e 16 segundos, o vídeo da Marinha foi exibido no último domingo na Praça dos Três Poderes, em Brasília, para marcar a cerimônia de troca da bandeira do Brasil. Permanece disponível nos canais oficiais da Marinha.

O vídeo mostra civis em atividades de lazer como danças e passeios nas praias, e militares em treinamento, pegando no pesado. Não é de graça que os militares costumam se referir aos civis como “paisanos” e se julgam mais trabalhadores e patriotas do que eles.

São tudo, menos patriotas quando apoiam golpes de Estado. Por um triz, fracassaram as recentes tentativas de golpe em dezembro de 2022 e 8 de janeiro de 2023, capitaneadas por Bolsonaro e seus fiéis escudeiros, civis e militares em grande número.

A Polícia Federal indiciou 24 militares, 16 deles da ativa, entre os quais seis oficiais generais, cinco do Exército e um da Marinha. Ao todo, 62 militares da ativa e da reserva são citados no relatório final das investigações. Mas o que Haddad tem a ver com isso?

O vídeo da Marinha é um sinal da insatisfação das Forças Armadas com o pacote do governo que prevê cortes de gastos. O pacote incluía a medida que prevê a idade mínima de 55 anos para que militares possam ir para a reserva. A regra valeria a partir de 2032.

No pronunciamento que fez em cadeia nacional de rádio e televisão, Haddad disse:

– Para as aposentadorias militares, nós vamos promover mais igualdade com a instituição de uma idade mínima para a reserva e a limitação de transferência de pensões, além de outros ajustes. São mudanças justas e necessárias.

São injustas e desnecessárias, na opinião dos chefes militares, cansados de tanto ouvir que são privilegiados. Em um trecho do vídeo da Marinha, aparece um soldado muito parecido com Haddad, acompanhado da legenda: “Vocês terão que se acostumar”.

O vídeo termina com uma militar perguntando:

– Privilégios? Vem pra Marinha!

Fontes da caserna juram por todos os santos que o vídeo não é uma resposta dos militares ao plano do governo de cortes de gastos, e que o soldado parecido com Haddad não foi escolhido por se parecer com ele. Para os paisanos, a desculpa não convence.

Jabuti não sobe em árvore. Se algum é visto no alto, ou foi enchente, ou foi mão de gente.

Olhar o passado nos olhos, mesmo que doa

Nada é eterno. Durante 48 anos, o meu avô acreditou viver naquele que era aos seus olhos o melhor e o mais justo dos regimes. Nesses anos, milhares de portugueses viveram na miséria, calados, com medo, com fome de tudo, mas sobretudo de liberdade. Eram muitos, mas não foram os suficientes. E talvez nunca tivessem sido, se a guerra colonial não tivesse tornado absolutamente insuportável o que até aí a maioria aguentava, mais ou menos resignada

A refeição começava sempre da mesma maneira. Os meus avós de costas para a mesa, em frente a uma Última Ceia, a recitar o Pai Nosso. E acabava quase sempre da mesma maneira. Ainda mal a sopa tinha sido servida e já eu me envolvia numa discussão que subia de tom. “À mesa não se fala de política”, repetia a minha avó Emília, entredentes, quase sussurrando para nos fazer baixar o tom. Inútil. O avô Alberto elevava a voz, exasperava-se. Eu não o deixava sem resposta. Era pouco mais do que uma criança, mas entrava no jogo, tentando desmontar-lhe os argumentos. Nunca nenhum dos dois se dava por vencido. E foi assim que comecei a gostar de política.

O avô Alberto era um salazarista convicto. Cresci a ouvir falar do corporativismo. Todos os natais, a conversa acabava na história do saneamento político do meu avô por causa da Revolução, nos sustos da Reforma Agrária, nos horrores do PREC. Soube primeiro do 28 de maio do que do 25 de Abril, que era naquela casa uma espécie de data maldita, que quase nos tinha lançado para o precipício. Mas eu sabia que essa era só uma parte da História, mesmo que em pequena quase só o intuísse e fosse preciso crescer para encontrar outros relatos vivos, outras testemunhas, outros prismas.

Só quem andou muito distraído nos últimos 50 anos pode achar que há datas consensuais no país. Em muitas outras mesas de consoada, outras crianças terão crescido como eu a ouvir relatos de um colonialismo bondoso e de um regresso à metrópole descrito como uma espoliação. Em muitas outras casas, outros meninos terão ouvido enaltecer uma lei e uma ordem fundadas no respeitinho e na ideia de que cada um é para o que nasce. A nem todas terá ocorrido pôr em causa essas narrativas. Nem todas terão percebido como foi dura a conquista da liberdade e como Abril foi uma porta que se abriu a caminho da paz, do pão, da saúde, da educação, da habitação.


Acontece que muitas pessoas, nascidas como eu depois da Revolução, sentiram na pele o que Abril trouxe. Muitos desses meninos passaram a ter uma casa digna desse nome, três refeições por dia e uma escola que as levou aonde aos seus pais nunca teria ocorrido chegar. Lembro-me bem da sensação de chegar à Universidade e perceber aí quão rara era a minha condição de menina que vinha de uma família onde não faltavam licenciados e bacharéis há várias gerações.

Eu percebi o privilégio. Talvez o tenha só intuído. Mas entendi que o lugar onde se nasce e a cor que se traz na pele nos faz chegar pelo menos a meio de um caminho, que para outros tem tantas pedras. E percebi. Talvez o tenha só intuído, que Abril metia medo precisamente a quem tinha visto ser posto em causa o privilégio, esse direito de nascença, que aos que o têm parece ser tão natural.

Não se percebe nada se não se perceber isto. Os consensos são fabricados, artificiais, construídos em cima do que se cala. A democracia é outra coisa. A democracia é o regime que se constrói nas maiorias, em respeito pelas minorias. A democracia precisa da igualdade (não só formal, mas também material) para respirar. É a retirada de direitos e o aumento das desigualdades que está a fazer desabar aquilo que levou quase meio século a construir.

Nada é eterno. Durante 48 anos, o meu avô acreditou viver naquele que era aos seus olhos o melhor e o mais justo dos regimes. Nesses anos, milhares de portugueses viveram na miséria, calados, com medo, com fome de tudo, mas sobretudo de liberdade. Eram muitos, mas não foram os suficientes. E talvez nunca tivessem sido, se a guerra colonial não tivesse tornado absolutamente insuportável o que até aí a maioria aguentava, mais ou menos resignada.

Temos de olhar o passado nos olhos. Lembrar o que alguns querem que seja esquecido, mesmo que doa. E perceber que a História está a ser continuamente refeita à medida de quem venceu. O que importa é saber para onde queremos ir, sem esquecer as lições de quem tanto sofreu para nos trazer até aqui. Eu não vou calar o que sei.

Eleições daquele tempo

Os comícios aconteceram naquele ano sem as ofensas pessoais dos oradores, que costumavam fazer uns para os seus rivais com veemência. Prosseguiram num clima de paz, no centro comercial e bairros, até mesmo nos distritos de Mutuns e Ferradas, onde sempre terminavam em correria, pancadaria no meio dos zumbidos de bala.

O povo cada vez mais ficava vivamente impressionado com os programas partidários, divulgados também pelo alto-falante na medida em que o dia das eleições ia se aproximando. Os candidatos esgoelavam-se no palanque, alguns no ponto máximo das promessas disparadas até choravam, uns davam a entender que podiam desmaiar a qualquer momento no meio das palavras que soltavam radiantes da garganta empolgada. Propagavam com firmeza a chegada de ventos mais do que justos e generosos para soprarem, constantemente, em qualquer sociedade que se dizia civilizada.


Quem lá esteve, no último comício da situação, custava a acreditar como na praça coube tanta gente. Não havia lugar para uma agulha no ambiente abarrotado de gente jovem, amadurecida e idosa, alguns mal podiam andar apoiados na bengala. Havia muitas faixas e bandeiras desfraldadas, cartazes grandes com o retrato do Coronel mais abastado da cidade, sério, bigode retorcido nas pontas, trajado com o uniforme da Guarda Nacional.

Na noite contagiada de euforia, com uma temperatura que chegava a 40 graus, parecia ali a cidade uma só voz barulhenta, queimando as palavras recheadas de promessa. Os mais empolgados não cansavam de dar vivas e aplaudir os candidatos a vereador, quando então um deles era apresentado para pronunciar o discurso pela ordem de chamada do locutor Timóteo, com a voz já rouca, mas ainda cheia de entusiasmo.

Naquela noite com muita alegria, quem poderia imaginar que alguém da oposição soltaria o boi brabo para correr no meio da multidão que se apertava na praça. Foi aí, no ponto mais arrojado do discurso daquele homenzarrão agitado, a rigor trajado com o uniforme da Guarda Nacional, só faltando engolir o microfone, que de repente se ouviu irromper do meio da multidão o grito ameaçador:

– Corre que é boi brabo!

Não se viu outra coisa do que gente correr para todos os lados. O palanque desabou com os candidatos locais e a comitiva visitante. Homens sisudos meteram-se debaixo dos carros. A gritaria generalizou-se com a multidão esparramada como num estouro de boiada.

O locutor Timóteo relatou no outro dia pelo alto-falante do Serviço Regional de Propaganda Comercial o noticiário dos acontecimentos daquela noite tumultuada, que de repente se tornou num corre-corre generalizado, cheia de rostos medonhos, de aflição com os gritos repetidos, Deus me acuda, não me empurre, me socorre, sai da frente, se não quiser ser pisado. Felizmente não houve mortes, apenas alguns casos de ferimentos leves. Nada disso impediu que a situação tivesse a vitória apertada nas urnas apuradas.

O Brasil e suas anistias

“Para nós pacificarmos o Brasil, alguém tem que ceder (…) vamos pacificar, zera o jogo daqui para frente”. Jair Bolsonaro sabe o que diz ao pedir anistia aos envolvidos no 8 de Janeiro. Pode parecer desespero, mas ele não clama apenas por perdão, ele evoca uma antiga tradição de nossa política: a conciliação.

Em nossa história tem perdão para todos os gostos. Ato de absolver quem atentou contra a legalidade vigente, as anistias reúnem desde quem tentou impedir a posse de Juscelino Kubitschek a quem lutou contra o Estado Novo ou Ditadura de 1964. Um rio em que navegam torturadores, revolucionários e democratas.

A conciliação é um abraço entre as elites. Preserva seus interesses, mitiga suas crises, maquia suas contradições. Pacificar é manter a ordem e o privilégio. Abandoná-la, só em último caso, como se viu no acordo entre empresários e militares de 1964 – quando é preciso, os conservadores se recordam que os militares estão à disposição para atender seus interesses.


A anistia para militares é como um estímulo, um guaraná para golpistas. Encontrei um artigo do historiador Renato Lemos na Revista Topoi que conta a trajetória do major Haroldo Veloso. Ele foi um dos líderes da revolta de Jacareacanga, um levante de militares da Aeronáutica contra a posse de Kubitschek em 1956. Foi preso, anistiado – e promovido. Sossegou? Participou da revolta de Aragarças, ou Revolta do Veloso, que tentou outro golpe contra Juscelino em 1959. Durante o regime militar, alcançou o topo da carreira e elegeu-se deputado federal pelo Pará. Seu reduto eleitoral era senão outra, a região de Jacareacanga. Garantiu-se a governabilidade de Kubitschek, mas a impunidade alimentou o golpe.

Há casos que fogem da lógica da conciliação. Luiz Carlos Prestes foi anistiado duas vezes – hoje, seria um caso surreal de líder político que une militarismo e esquerda. Perseguido e preso durante o Estado Novo, foi anistiado e eleito senador em 1945 pelo Partido Comunista Brasileiro. Apoiou Vargas, seu antigo algoz, nas eleições de 1950. Com os direitos políticos cassados pela ditadura militar, foi anistiado em 1979.

A anistia de 1979 permitiu que Antônio Carlos Magalhães, José Sarney e Marco Maciel, apoiadores da ditadura, fossem a base política das subversivas e exiladas lideranças dos governos tucanos, Fernando Henrique Cardoso e José Serra, por exemplo. A conciliação garante a sobrevivência das elites políticas.

Ao mesmo tempo, assentiu, ao deixar de punir os militares, que os fardados mantivessem uma imagem positiva com parte da população. Entre os encontros e desencontros da História, um ex-capitão venceu a eleição de 2018 com boa parte da indumentária ideológica de 1964: militares pela pátria contra os comunistas.

Já estava politicamente difícil para os criminosos do 8 de Janeiro. Aí o homem bomba explodiu-se na Praça dos Três Poderes. Um plano para assassinar autoridades foi divulgado pela Polícia Federal. Jair Bolsonaro, militares e aliados foram indiciados. A anistia emudeceu, abaixou a cabeça e desapareceu do olhar. Mas não se engane. O bolsonarismo é recente, mas representa setores conservadores que já tiveram outros nomes em nossa história. O tempo passa, novas crises irrompem, é preciso acomodar os interesses das elites e a conciliação aparece com uma roupa nova. Ela está sempre à espreita.
Marco Miguel

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

As vítimas inocentes

Quando olhamos para os horrores do mundo hoje, concretamente para a Ucrânia e o Médio Oriente, é o horror pura e simplesmente, pensando concretamente nas vítimas inocentes. Mas não foi sempre assim? Veja-se Auschwitz. A gente vai lá e fica estarrecido. Bento XVI foi lá também e deixou estas palavras: Há “um silêncio que é um grito interior para Deus: Por que te calaste? Por que quiseste tolerar tudo isto? Onde estava Deus nesses dias? Por que se calou?”

Ele deixou uma encíclica sobre a esperança - Spe salvi -, e nela debruça-se sobre uma pergunta decisiva, “a pergunta fundamental da Filosofia” (Max Horkheimer) : o que podem esperar as incontáveis vítimas inocentes da História? Quem lhes fará justiça? Elas clamam, um grito ensurdecedor percorre a História.


E ergue-se um ateísmo moral precisamente por causa das injustiças do mundo e da História . “Um mundo no qual há tanta injustiça, tanto sofrimento dos inocentes e tanto cinismo do poder, não pode ser obra de um Deus bom.” Quase se poderia dizer que se é ateu ad majorem Dei gloriam, para a maior glória de Deus, como se, perante o horror do mundo, a justificação de Deus fosse não existir. É-se ateu por causa de Deus.

Afastado Deus, deve ser o Homem a estabelecer a Justiça no mundo. Mas não será esta uma pretensão arrogante e intrinsecamente falsa? Quem não ouve o eco das palavras de Sófocles: Na terra “há muita coisa terrível, mas nada existe mais terrível do que o Homem”. Tem, pois, razão Bento XVI, ao acrescentar: “Um mundo que tem de criar a sua Justiça por si mesmo é um mundo sem esperança. Ninguém, nem nada responde pelo sofrimento dos séculos.”

Aqui, ele lembra a Escola de Frankfurt, nomeadamente Max Horkheimer e Theodor Adorno, que viveram filosoficamente a inconsolável “tristeza metafísica” da impossibilidade de fazer justiça às vítimas da História. De facto, mesmo supondo, no quadro do marxismo e da ideia do progresso moderno, que algum dia fosse possível erguer uma sociedade finalmente justa, transparente e reconciliada, ela não poderia ser feliz, já que ou essa sociedade se lembrava de todas as vítimas do passado, que não participam dela, e seria atravessada pela infelicidade, ou não se interessava por elas e então não era humana, porque insolidária.

Horkheimer e Adorno exprimiram uma filosofia em tenaz: por um lado, não podiam acreditar num Deus justo e bom; por outro, há uma verdade da religião, apesar de todas as suas traições no conluio com o poder e os vencedores: a religião “no bom sentido” é, segundo Horkheimer, “o anelo inesgotável, sustentado contra a realidade fáctica, de que esta mude, que acabe o desterro e chegue a justiça”.

Não se trata de um desejo egoísta, mas da esperança contrafáctica de que a realidade dominante da injustiça não tenha a última palavra. Daí, o “anelo do totalmente Outro”, o “anelo da justiça universal cumprida”, “a esperança de que a injustiça que atravessa a História não permaneça, não tenha a última palavra”. E Adorno também escreveu que, frente às aporias da razão, neste domínio, a única filosofia legítima seria “o intento de contemplar todas as coisas como aparecem à luz da redenção”.

Embora se não possa afirmar nada para lá da imanência, a pergunta pela esperança truncada das vítimas, que acusam o mundo da História dos vencedores, obriga a pensar para lá dos limites da imanência, colocando a pergunta pelo Absoluto enquanto pergunta pela Justiça universal.

Anselmo Borges

Os generais e o Estado de Direito

Há uma enorme diferença entre Estado de Direito (Rule of Law) e legalismo (rule by law). O Estado de Direito implica a ideia de que todos são iguais perante a lei e de que o poder público será limitado por ela. É o governo da lei, sendo a Constituição a lei fundamental. O legalismo refere-se à ideia de que os governos agem por meio de leis, decretos e portarias. O Estado de Direito diz respeito ao conteúdo das normas, e o legalismo está relacionado a sua forma.

Nem sempre as leis propostas pelos governantes estão de acordo com o Estado de Direito e a Constituição. Cabe ao Supremo Tribunal Federal (STF) avaliar os casos de conflito entre as leis propostas e a Carta.

Esses dois conceitos nos ajudam a entender a postura de alguns militares envolvidos na tentativa de golpe de Estado. A revelação das conversas dos conspiradores mostra que os generais Mário Fernandes, Estevam Theophilo e Freire Gomes tinham visões distintas sobre o tema.


Com o fim do regime militar, os militares passaram a cultivar a imagem de legalistas. Fazia sentido, pois o golpe de 1964 foi feito à revelia da lei. A declaração do general Mário Fernandes de que os conspiradores deviam agir fora das “quatro linhas” é elucidativa. Afinal, segundo ele, não foi preciso nenhuma lei para derrubar o governo João Goulart. Fernandes claramente não é um legalista.

A postura do general Theophilo revela outra posição. Segundo as conversas relevadas pela Polícia Federal, ele disse que executaria as ações para Garantia da Lei e da Ordem e executaria o Estado de Sítio, desde que Jair Bolsonaro assinasse um decreto. Se a norma tivesse sido assinada, ele teria desencadeado o golpe. Seria um golpe legalista.

Finalmente, a posição de Freire Gomes mostrou que alguns generais entenderam a diferença entre Rule of Law e rule by law. Mesmo que tivesse formato legal, a minuta era claramente inconstitucional. Caberia, portanto, ao STF analisar a constitucionalidade da medida.

Jogar dentro das “quatro linhas”, como repetia exaustivamente Bolsonaro, não quer dizer agir de acordo com o Estado de Direito. Não basta que o formato pareça legal. É necessário que o conteúdo da norma seja constitucional. A Constituição tem muito mais que quatro linhas. E essas linhas são interpretadas pelo Poder Judiciário.

Embora distintas, as posições de Fernandes e Theophilo revelam a relutância de alguns militares em aceitar os princípios do Estado de Direito, que pressupõe a submissão da espada à toga. Cabe ao Judiciário, e não às Forças Armadas, decidir a legalidade das normas. É preciso que todos os militares entendam isso. Não precisamos de militares legalistas. Precisamos de militares submetidos à força da lei, ao poder da toga e ao controle civil.

O golpe para abolir a democracia e o silêncio cúmplice da direita

Conta a lenda que um escafandrista, nos anos 1970, vestido com sua pesada roupa de mergulho, entrou no bar e restaurante Antonio’s, reduto da boemia carioca, no Leblon, sentou-se a uma mesa de canto, tirou a máscara e pediu um chope.

As outras 12 mesas estavam ocupadas, a algazarra era grande, mas todos fingiram não ver o escafandrista. Depois de algum tempo, o jornalista João Saldanha, irritado com a indiferença coletiva diante do que acontecia, subiu numa cadeira e falou em voz alta:

– Pessoal, tem um homem aqui, um escafandrista, com capacete e tudo, tomando cerveja, e isso não é normal, não pode ser normal.



Ninguém deu bola para o que disse Saldanha, nem mesmo o pacato escafandrista que, depois de tomar três cervejas e servir-se de petiscos, pediu a conta, pagou, repôs o capacete de metal que escondia todo o seu rosto e foi embora se arrastando.

A normalização do absurdo não é coisa dos cariocas da Zona Sul nem de zona alguma – é dos brasileiros em muitas partes. Antigamente, podíamos dizer que ela mostrava o quanto éramos um povo tolerante, acolhedor e capaz de conviver em relativa paz.

Hoje, não mais. E desconfio que amanhã será muito menos. Tudo fruto da normalização do absurdo na política que avançou a galope nos últimos seis anos, despertando nossos instintos mais rudes e primitivos. Não há sinais de que isso irá arrefecer tão cedo.

Bolsonaro e seus comparsas são os maiores responsáveis, mas não só; também os que os apoiaram com entusiasmo e principalmente os que assistiram em silêncio a escalada da adoção de medidas extremas para abolir nosso modo de vida.


Não podia ser normal um presidente que acusou fraude no pleito que o elegeu com grande folga de votos. Não podia ser normal um presidente que, indiferente ao sofrimento coletivo, sabotou todos os meios de enfrentar a maior pandemia deste início de século

Não se pode dizer apenas conservadora e ainda por cima civilizada uma direita que finge desconhecer a gravidade do conteúdo explosivo do relatório da Polícia Federal sobre os golpes abortados de dezembro de 2022 e de 8 de janeiro de 2023.

O que disseram até aqui as vozes mais representativas e ouvidas dessa direita? O ex-presidente Michel Temer (MDB) limitou-se a dizer que não vê riscos para a democracia e que não há clima para golpe. Houve riscos e houve clima? Ele não comenta.

Quanto à participação de militares no plano de matar Lula, Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, Temer a minimizou, dizendo que somente uns poucos se envolveram. Os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado nada disseram.

Os presidentes dos maiores partidos da direita (MDB, União Brasil, PP, PSD, Republicanos, PR), tampouco. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, sugeriu que a investigação da Polícia Federal “carece de provas”, mas saiu em defesa de Bolsonaro.

Tarcísio é o nome mais cotado da direita que se diz democrática para disputar a eleição presidencial daqui a dois anos. Ronaldo Caiado, governador de Goiás, que já se lançou candidato, disse sobre o indiciamento de Bolsonaro:

– E daí? A vida continua. Se eu fosse ficar preocupado com as pequenas coisas, eu não governaria.

Não é uma pequena coisa o indiciamento de um ex-presidente pelos crimes de golpe de Estado, abolição violenta da democracia, roubo de joias e organização criminosa. O Brasil nunca viu nada sequer parecido. Bolsonaro deverá ser condenado e preso.

O governador Cláudio Castro, do Rio, disse não acreditar em tentativa de golpe, mas sim “em baderna”. O governador Ratinho Jr., do Paraná, afirmou que indiciamento “não é sinônimo de condenação”. De fato não é, mas ninguém disse que era.

Calado estava, calado (não Caiado) permanece Romeu Zema, governador de Minas Gerais. O único nome de peso da direita a condenar o golpe foi Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul. Essa é a gente que se oferece para suceder Lula e fazer melhor do que ele?

Os chefes militares não disseram uma só palavra para reafirmar seu compromisso com a democracia. Mesmo os que se opuseram ao golpe e os que ficaram em sua “zona de conforto”, nada viram de suspeito nos acampamentos de golpistas à porta de quarteis.

Se viram, foram cúmplices com o que por um triz não deu certo.

domingo, 1 de dezembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Comprar, descartar, repetir: reflexões sobre o mundo material

Estou lendo, há algumas semanas, o livro Mundo Material: uma história substancial do nosso passado e futuro, de Ed Conway, e ele traz reflexões que raramente fazemos nos dias de hoje. E olha que eu penso bastante. Às vezes, até sinto uma certa dor de cabeça de tanto pensar — o famoso “overthinking” ou, como dizem alguns amigos em Portugal, “magicar”.

Mas, voltando ao livro, além de nos fazer “magicar” sobre o mundo, logo no início, algo me chamou atenção e certamente não vou esquecer: Ed Conway comenta que, para se produzir uma aliança de casamento de ouro vulgar, podem ser necessárias entre 4 e 20 toneladas de rocha. Apesar de pensar muito, nunca tinha refletido sobre isso — sobre a quantidade de ouro necessária para para produzir uma aliança ou brinco, por exemplo.

Em um momento em que se fala muito em transição energética, em digitalização de tudo, raramente nos damos conta de que, para abastecer esse mundo digital que está tão presente em nossas vidas — e que, ao mesmo, parece tão etéreo —, muitas matérias primas são necessárias. Nada no digital existe sem o material.


Assim como Ed Conway, percebo que passei grande parte da vida em outro mundo. Embora seja parte de um “ABC das fábricas” e da produção, diferentemente dos meus pais, grande parte da minha vida se desenrolou no mundo das ideias e dos serviços. Nesse mundo, também etéreo, vendemos serviços. É um mundo confortável: escrevemos textos, damos aulas, transferimos dinheiro, gravamos vídeos, entregamos pizzas aos finais de semana e desenvolvemos aplicativos.

Mas, quando você observa a cadeia produtiva de um semicondutor, por exemplo — que é apenas uma parte, porém fundamental, de praticamente todos os dispositivos eletrônicos que usamos no dia a dia —, percebe que ela envolve processos extremamente complexos e uma ampla gama de materiais. Desde a mineração de metais raros, passando pela fabricação em ambientes controlados, até a distribuição global, tudo depende de recursos materiais e humanos que estão muitas vezes distantes de nossa percepção cotidiana.

Aqui, cabe uma nota pessoal. Há alguns meses, passei a viver em um bairro com poucas opções de lazer. A principal atração por aqui é um grande shopping, que abriga também uma enorme loja de uma marca global de decoração. Eventualmente, vou até lá apenas para dar uma volta e tomar um café — afinal, não há muito mais o que fazer em bairros dormitórios. O curioso é que, mesmo aos domingos pela manhã, quando vou, tentando evitar a multidão, tanto o shopping quanto a loja estão sempre lotados. Sempre. As pessoas parecem estar em uma busca incessante por algo.

Com meu olhar sociologicamente treinado, observo as pessoas em suas rotinas e fico ali algum tempo anotando o que vejo. Às vezes em um caderninho, às vezes no celular. Não é algo que faço por acaso; sou também um produto dessa sociedade digital que tanto estudo. E se a loja e o shopping estão sempre lotados, eu também estou ali, ou seja, há uma ausência de algo em nossas vidas que, ao menos neste bairro, leva todos ao mesmo lugar. Porém, como socióloga, tento me esconder na análise para deixar que o fenômeno se revele.

Vejo gente comprando móveis, decorações, trocando tudo o que têm. Por quê? Talvez porque, de repente, a vida lhes tenha parecido sem graça. Talvez porque mudar as coisas seja um escape.

Quem sabe? E essa febre de consumo — e a necessidade que ela revela — me faz pensar também que é difícil não consumir nada em lojas que seguem o chamado “layout de percurso”. Ou seja, você entra na loja e é guiado por um único caminho que o obriga a passar por todas as seções, aumentando as chances de vermos uma variedade de produtos desfilando na nossa frente e pensarmos em comprar algo.

É uma rotina tão automática que parece hipnótica. Consumimos o tempo todo, mas quase nunca paramos para refletir sobre a origem material do que consumimos. E é isso que o livro Mundo Material nos obriga a fazer. Como diz Conway, se o Instagram ou a rede X desaparecessem, o mundo continuaria. Mas, se o aço ou o gás acabassem, tudo mudaria drasticamente.

Somos absolutamente dependentes desse mundo material. É aqui que entra outra reflexão que tenho pesquisado nos últimos meses: a exploração de lítio no Brasil e em Portugal. Em conversas com geólogos, especialistas de áreas técnicas e ativistas anti-mineração, percebo que, apesar das divergências e de se colocarem em lados opostos, há um ponto em comum: uma crítica ao modelo atual.

Os geólogos sabem, como bem aponta o livro, que é impossível viver hoje em dia sem as matérias-primas. E estão certos: a mineração é uma atividade da qual dependemos. Isso não significa que concordem com as formas de extração e as consequências que essas práticas geram no mundo. Por outro lado, os ativistas, muitas vezes com argumentos ancorados na “solidariedade mecânica moral”, criticam a extração infinita — e com razão, afinal os impactos causados pela expansão dos projetos não são poucos.

Mas, quando olho além desses dois grupos, para o shopping lotado ou para as pessoas consumindo desenfreadamente, percebo que, no meio da cadeia — entre quem extrai e quem consome —, fomos derrotados. Ninguém parece se importar com este grupo, que é a imensa maioria, daqueles que apenas consomem e consomem de maneira irrefletida.

Poucos param para pensar de onde vem a gasolina do carro ou quais são as consequências deste nosso estilo de vida que sequer alcança a todos. Longe de mim transformar este debate em um sermão moralista. Não é isso. Mas precisamos entender o mundo em que vivemos e nos implicar nele. Nós também o construímos. E, se a construção é coletiva — como não poderia deixar de ser —, precisamos olhar para todos os envolvidos, não só para aqueles que concordam conosco.

O livro nos lembra que durante a pandemia, enfrentamos uma crise que deixou marcas profundas. Faltou tudo: máscaras, zaragatoas, reagentes. Escassearam cimento, aço, papel, semicondutores. Trabalhadores, ao longo de uma cadeia global que começa nas minas e termina nas fábricas, evitaram um colapso maior. Mas, ainda assim, vivemos de maneira trágica o impacto da nossa dependência deste mundo material e a necessidade de salvar vidas quando todos precisavam ser atendidos quase que simultaneamente.

Esse mundo material nos é alienado. Sabemos muito pouco sobre ele — ou sobre o destino dos seus resíduos. A maior parte de nós simplesmente consome. Compra, descarta, repete… E é essa reflexão que o livro provoca. Porque, sem dúvida, vivemos em um mundo material. E, de maneira alarmante, parecemos mais conectados digitalmente e cada vez mais desconectados dele.
Elaine Santos, pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP