Domingo, quando entrei no carro, no final da passeata, chorei convulsivamente, como há muito tempo não fazia. Sim, eu estava sensibilizado pelas muitas e generosas manifestações de carinho que recebi ao longo da tarde, traduzidas em gestos, abraços e fotos com amigos. Mas, principalmente, chorei de felicidade por ver, pela segunda vez, em menos de trinta dias, o meu Brasil diferente. Vi o meu país como sempre quis que ele fosse. Democrático, alegre, mas intransigente com a criminalidade instalada no poder. Antes aos meus 70 anos do que nunca!
Agora, já posso dizer que vi. Vi nossa gente clamando por um país decente. Vi, Brasil afora, milhões saírem de casa para dizer basta! Chega! Já foram longe de mais! Ponham-se no olho da rua, malfeitores!
Os que se acreditavam senhores da Nação, jamais conseguiram mobilizações semelhantes, mesmo que a peso de ouro, mesmo contratando celebridades e promovendo shows, pagando diária, transporte e alimentação.
Por duas vezes, neste mesmo período, tentaram se contrapor e não tiveram eco. Pagaram mico, deram vexame. É difícil reunir fiéis à infidelidade.
O Brasil está atravessando o mar vermelho. O PT está acossado, o petismo acuado pelos próprios pecados, pelos próprios fantasmas.
O PT fez o diabo? Ou foi o diabo que fez o PT?
O que sim sei, e com isso respondo uma pergunta que circulava entre os manifestantes de domingo: essa casa vai cair? Vai, pela irresistível força da gravidade, quando as estruturas de sustentação entram em colapso. E a base do governo está em franca decomposição.
Esse governo não tem como chegar ao fim. Além disso, que Constituição seria essa nossa se servisse para proteger uma quadrilha no poder e não para proteger o povo dessa quadrilha?
Percival Puggina
terça-feira, 14 de abril de 2015
Que tal o Partido dos Indignados do Brasil?
Voltei às ruas com meu companheiro, na tarde deste domingo, em Santos, para protestar contra a suruba que o PT está promovendo na economia, na política e na sociedade do Brasil.
Foi um protesto com menos gente, mas animado. Uma das faixas que fez sucesso dizia: “Lula e Dilma, vão para a Cuba que os pariu”.
Ah, sim, havia coxinhas, pasteis de feira e muito frango com farofa.
De repente, no meio da caminhada, uma viúva do PT abriu a janela do seu apartamento para exibir uma bandeira vermelha. A resposta humorada foi o grito: “Vai pra Cuba”. A mocinha, prontamente, fechou a janela.
Chata foi a chegada à praça da Independência.
De repente, um malucão tomou conta do microfone e começou um discurso alucinado contra os comunistas que estariam tomando conta do Brasil. Devia ser um petista enrustido que fugiu da escola. Entre outras bobagens, ele disse que o Manifesto Comunista, de Karl Marx, era de 1868 (foi de 1848, seu burro).
Aliás, ainda existe outro comunista no mundo, além do Fidel Castro (cujo prazo de validade está vencendo) e daquele gordinho ridículo da Coreia do Norte?
Isso foi uma prova de que nenhum partido político tem condições de comandar os protestos de rua. O PSDB é um ajuntamento de reacionários e oportunistas.
Assim, o comando dessas manifestações de ruas continua à deriva e pode ser capturado por um maluco de esquerda ou de direita ou, simplesmente, se esvaziar.
Cabe ao movimento das ruas discutir e criar, agora, um novo partido que agrupe o socialismo libertário e humanista do falecido PT e as preocupações com a eficiência e honestidade administrativas, um Estado público e democrático e o bom funcionamento da economia que garanta a inclusão social do PSDB de Mário Covas, FHC e Franco Montoro.
Fora da boa e honesta política, não há salvação.
Em sua campanha para a Presidência dos EUA, em 2008, Barack Obama lançou o slogan “Yes, we can”. Na Espanha, os indignados com a crise do país, criaram um partido, o Podemos, que já é o terceiro na lista dos favoritos nas próximas eleições.
Que tal nós, os indignados do Brasil, pensarmos nisso?
Um rato falando de outro
Em 2001, campanha do PT usava ratos para denunciar na TV o PSDB
Diagnósticos certos muitas vezes deixam impressões falsas, disse Sergio Porto, na pele de Stanislaw Ponte Preta. Em maio de 2001, o PT e o marqueteiro Duda Mendonça anunciavam seu casamento e divulgavam a campanha “Xô Corrupção”, criada pelo publicitário. Duda dizia haver recebido, há 14 anos, R$ 280 mil do PT para produzir os comerciais de TV e rádio, além de material gráfico. No ano seguinte, faria a campanha que levou Lula à Presidência, ganharia R$ 11 milhões e terminaria como réu do Mensalão, acusado de evasão de divisas e lavagem de dinheiro, mais tarde absolvido pelo Supremo Tribunal Federal.
Na campanha de 2001, os políticos eram associados a ratos, e o PT, a ratoeira destinada a eliminá-los. A campanha surgia porque a base tucana do presidente Fernando Henrique Cardoso resolvera arquivar a CPI da Corrupção.
Na inserção de 1 minuto, ratos aparecem roendo a bandeira brasileira. Ao fundo, a trilha lembra vagamente o Hino Nacional. Enquanto os ratos disputam um pedaço da bandeira, escuta-se o locutor dizendo: “Ou a gente acaba com eles ou eles acabam com o Brasil. Xô Corrupção. Uma campanha do PT e do povo brasileiro”.
“É uma campanha séria, forte e até mesmo chocante”, afirmou Mendonça. “Mas o momento também é sério, forte e chocante.” “Lamentavelmente os tucanos escreveram uma das páginas mais nefastas da história do Brasil”, afirmou o então presidente do PT, José Dirceu, referindo-se a operação “abafa” para o arquivamento da CPI da Corrupção. “Nunca houve nada parecido.”
Mais de uma dezena de anos depois, o nada parecido se tornou mais assombroso. Dirceu foi condenado, preso e ainda tem de explicar embolsos milionários de supostas consultorias a empresas. O PT deve amargar longo exílio do poder a partir das próximas eleições, a se julgar pelas taxas de rejeição ao partido.
Aqueles que abafaram a CPI da Corrupção em 2001 estão saboreando a pressão das ruas agora. O PMDB está onde sempre esteve: no poder.
O problema mais grave, de fundo, permanece. A corrupção, de um modo ou de outro, está entranhada na política nacional. Agora mais do que antes ou mais exposta do que antes. Não importa. Os ratos são os mesmos e não chegaram ontem a Brasil. Uns estão falando dos outros sem poder esconder o rabo.
O 12 de abril e a falsa existência de líderes
O movimento nacional de protesto NÃO DEPENDE nem do Vem Pra Rua, nem do Revoltados Online, nem do Brasil Livre nem de liderança nenhuma. É a ira espontânea do povão que faz tudo, como aconteceu no "Passe Livre". Por que esses líderes não param de querer dirigir uma massa que não os segue, que vai para onde bem entende e que não está nem ligando para diferencinhas entre grupos, as quais só a mídia petista tem interesse em realçar?
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Desde o início, o protesto não teve nenhuma unidade ideológica, e não precisa dela. Só a mídia é que está INTERESSADÍSSIMA na catalogação ideológica de diferencinhas que, para a massa, não têm IMPORTÂNCIA NENHUMA.
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Vocês não notaram que PRIMEIRO a massa foi às ruas e DEPOIS apareceram "lideranças"? Realçar a importância dessas lideranças é BOICOTAR a massa, é LUTAR CONTRA O POVO BRASILEIRO.
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Todos os "líderes" que apareceram são jovens, altamente vulneráveis à lisonja e à opinião da mídia. Não sabem que, quando o tubarão morde o anzol, é o pescador que segue o tubarão, não ao inverso.
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Cabeça feita pela esquerda, a mídia só compreende movimentos de massa como produtos de manobras de cúpula, e está interpretando EXATAMENTE ASSIM os protestos recentes. Daí o destaque dado ao papel das lideranças e grupos. Isso é lisonjeiro para os líderes, mas é uma visão falsa. Que nenhum líder de grupo caia nessa conversa. Que cada um entenda que foi atrás da massa e não a guiou por um instante sequer.
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Quem está interessado em encontrar "líderes" é a mídia, não o povo brasileiro.
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FORA DILMA, FORA PT, FORA LADRÕES COMUNISTAS. Qualquer palavra além disso só gera confusão e ajuda o inimigo.
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Vão pregar monarquismo, liberalismo, conservadorismo, militarismo, civilismo etc. NA PUTA QUE OS PARIU. Ao povo só uma coisa interessa: FORA DILMA, FORA PT, FORA LADRÕES COMUNISTAS. Desde o início, a força do protesto foi NÃO TER LÍDERES. O futuro do movimento depende de que cada "líder" aparecido no curso dos acontecimentos entenda e admita sua própria nulidade.
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Se algum líder aparecer na CNN, foi a massa que o botou lá, não a CNN que o colocou à frente da massa. Será tão difícil entender isso?
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Cada um dos "líderes" está agora colocando tudo em risco ao acreditar no papel de destaque que a mídia, com a mais maquiavélica das intenções divisivas, lhe atribui.
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Cá entre nos: juventude é uma merda.
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Um líder DE VERDADE fica bem quietinho no seu canto, espera a massa esquentar e só entra em ação na hora do assalto final ao poder. Os que brilharam no começo são esquecidos.
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Os que estão muito assanhados para liderar correm o risco de levantar a bola para a mídia marcar o gol.
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Quando aparecer o líder do processo final, ele muito provavelmente virá fardado.
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Fiquem nas ruas, gritando sempre as mesmas coisas. That's all.
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As fotos mostram claramente que os protestos de ontem NÃO foram menores que os do dia 15 de março, mesmo sem levar em conta a expansão do movimento ao dobro do número de cidades. Afinal, vocês vão acreditar na Globo ou nos seus próprios olhos?
Liberdade de imprensa
Para Napoleão Bonaparte, a imprensa tinha um papel preponderante. A monarquia francesa caiu do trono no fim do século XVIII e subiu os degraus do patíbulo exatamente quando a difusão das impressoras influenciou a circulação de panfletos e jornais de conteúdo explosivo. Napoleão teve a sua escalada liberada em seguida pela imprensa. Sentiu na epiderme esse efeito e nunca esqueceu a importância do controle da informação.
Já como imperador, afirmou: “Se perco o controle da imprensa, não me aguentarei no poder nem por três meses”.
O crescente descontentamento nos meios sociais alfabetizados acelerou a queda da monarquia. Foram jornalistas e editores como Camille Desmoullins, o mesmo orador imortalizado nos quadros de 14 de julho de 1789 como orador da tomada da Bastilha, que determinaram a queda da opulenta Corte de Versalhes.
A classe média da época, a burguesia, ao ter conhecimento dos abusos nos gastos de Luís XIV, em contraste com as dificuldades e penúrias dos setores produtivos e populares, submissos ao crescente confisco tributário, gerou o mais intenso movimento revolucionário de todos os tempos. Alastrou-se entre o povo sofrido e chegou longe. Depois das primeiras convulsões jacobinas, a via ficou livre para Napoleão se impor como ditador/imperador. As revoluções têm essa tendência de sair pela culatra e substituir um sistema por outro parecido.
Napoleão casou-se em 1810 com a sobrinha de Maria Antonieta, 15 anos após esta ter a cabeça cortada aos gritos da praça. Quem quebrou os paradigmas de milênios de feudalismo foi o movimento arrastado pela imprensa, fazendo luz sobre os descalabros da monarquia.
De lá pra cá a importância da comunicação, da circulação das informações e opiniões, foi uma constante limitadora para os governantes, determinando constrangimento na atuação indiscriminada. Mudou e ainda vem mudando os costumes.
Agora as redes sociais, como as impressoras do século XVIII, ampliam e aceleram o alcance da informação, apertam ainda mais os governantes. E a guerra nas redes toma aspectos patéticos, marcados de absurdos e inverdades acobertados pelo anonimato. A verdade, entretanto, tem uma força que costuma aparecer. O engano dura pouco ou muito tempo, mas nunca para sempre.
A informação correta incomoda os sistemas de governo arbitrários; quanto mais tirânicos, mais necessidade de oprimir a imprensa.
O melhor marketing de um governante é o sucesso, aquele que atinge os governados. Qualquer ação coroada de sucesso tem o poder de demolir a inverdade.
O governante, quanto mais sofrível é seu desempenho, mais queixoso será com a mídia e mais feroz com quem a mantém num campo de objetividade. Ao déspota a verdade não basta, mesmo com todos os meios que tem de se dirigir aos governados e fazer valer sua versão. A mídia enganosa, especialmente agora com a concorrência das redes, se inviabiliza. Esconder, manipular, distorcer, além de atos falhos, são atos suicidas.
A imprensa nos últimos 200 anos aumentou a capacidade de incomodar o poder e ser, quando bem administrada, um instrumento de equilíbrio social.
Aquela de coloração imprópria e chantagista, hoje, tropeça justamente na multiplicidade das versões com as quais se confronta.
Não se enxerga porque, agora, surgem tantas preocupações de limitar uma liberdade que é indispensável para qualquer democracia.
Já como imperador, afirmou: “Se perco o controle da imprensa, não me aguentarei no poder nem por três meses”.
O crescente descontentamento nos meios sociais alfabetizados acelerou a queda da monarquia. Foram jornalistas e editores como Camille Desmoullins, o mesmo orador imortalizado nos quadros de 14 de julho de 1789 como orador da tomada da Bastilha, que determinaram a queda da opulenta Corte de Versalhes.
A classe média da época, a burguesia, ao ter conhecimento dos abusos nos gastos de Luís XIV, em contraste com as dificuldades e penúrias dos setores produtivos e populares, submissos ao crescente confisco tributário, gerou o mais intenso movimento revolucionário de todos os tempos. Alastrou-se entre o povo sofrido e chegou longe. Depois das primeiras convulsões jacobinas, a via ficou livre para Napoleão se impor como ditador/imperador. As revoluções têm essa tendência de sair pela culatra e substituir um sistema por outro parecido.
Napoleão casou-se em 1810 com a sobrinha de Maria Antonieta, 15 anos após esta ter a cabeça cortada aos gritos da praça. Quem quebrou os paradigmas de milênios de feudalismo foi o movimento arrastado pela imprensa, fazendo luz sobre os descalabros da monarquia.
De lá pra cá a importância da comunicação, da circulação das informações e opiniões, foi uma constante limitadora para os governantes, determinando constrangimento na atuação indiscriminada. Mudou e ainda vem mudando os costumes.
Agora as redes sociais, como as impressoras do século XVIII, ampliam e aceleram o alcance da informação, apertam ainda mais os governantes. E a guerra nas redes toma aspectos patéticos, marcados de absurdos e inverdades acobertados pelo anonimato. A verdade, entretanto, tem uma força que costuma aparecer. O engano dura pouco ou muito tempo, mas nunca para sempre.
A informação correta incomoda os sistemas de governo arbitrários; quanto mais tirânicos, mais necessidade de oprimir a imprensa.
O melhor marketing de um governante é o sucesso, aquele que atinge os governados. Qualquer ação coroada de sucesso tem o poder de demolir a inverdade.
O governante, quanto mais sofrível é seu desempenho, mais queixoso será com a mídia e mais feroz com quem a mantém num campo de objetividade. Ao déspota a verdade não basta, mesmo com todos os meios que tem de se dirigir aos governados e fazer valer sua versão. A mídia enganosa, especialmente agora com a concorrência das redes, se inviabiliza. Esconder, manipular, distorcer, além de atos falhos, são atos suicidas.
A imprensa nos últimos 200 anos aumentou a capacidade de incomodar o poder e ser, quando bem administrada, um instrumento de equilíbrio social.
Aquela de coloração imprópria e chantagista, hoje, tropeça justamente na multiplicidade das versões com as quais se confronta.
Não se enxerga porque, agora, surgem tantas preocupações de limitar uma liberdade que é indispensável para qualquer democracia.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
O imperador
Quando descobri a carta do tarô, apareceu o “imperador”, em seguida uma tenda e um banquete vegetariano, estilo sírio. Entre almofadões, sobre um tapete de fina lã jazia uma imensa bandeja de comida – cores intensas, temperos e em volta um perfume de jasmim e âmbar, exalando de cascas de madeira.Sentavam-se sete indivíduos vestindo imaculado algodão, amaciado com cinzas de amoreira e flores de lavanda. Aí estavam, além do imperador Napoleão Bonaparte, o filósofo romano Cícero, o gênio Bill Gates, o sábio grego Pitágoras, o Mahatma Gandhi, o poeta itabirano Carlos Drummond de Andrade. Eu, naturalmente, para lavar os pratos.
Uma oportunidade insólita, num lugar pouco comentado.
O imperador pretende avaliar suas proezas que findaram na solidão e morte em Santa Helena. O banquete serve para purgar pecados? Aliviar a consciência? Mais provavelmente, para livrar-se de novos erros em vidas que virão.
Pessoas evoluídas falam saborosamente o essencial, as palavras têm o valor da interrupção do silêncio, momento em que Deus se comunica por Si.
Um adjetivo nessas rodas pesa uma montanha. A essencialidade distingue o sábio do estulto que usa prosa (narcisista) e se vangloria de sua suposta grandeza. Na realidade, o sucesso não precisa ser explicado. A verdadeira compreensão se dá na atemporalidade da intuição, nos flashes que gravam a alma eternamente.
Todos já estão acomodados na tenda árabe quando Napoleão quebra o silêncio: “Um dia senti que era preciso sair em busca de um objetivo que desconhecia...”
Cícero considera: “Homem algum jamais foi bem-sucedido sem um toque de inspiração divina”. Teria faltado Deus (e sobrado o diabo) nas escolhas de Napoleão?
Pitágoras reflete: “A melhor maneira de que o homem dispõe para se aperfeiçoar é aproximar-se de Deus”. O imperador confessa que fez isso tardiamente, no isolamento da derrota, na ilha de Santa Helena, dedicando-se ao estudo da Bíblia.
Bill Gates mostra o rumo que mudou a vida do planeta: “Para eliminar erros e se chegar ao sucesso, é preciso prestar atenção nos mais insatisfeitos, são a maior fonte de aprendizado”.
“Napoleão” – observa o vetusto Pitágoras –, “você quis ser dono do mundo continuando a ser, no fundo, um homem comum, pouco mais que um miserável, que não sabe ver todo o bem que está a sua volta”. Do alto da majestade, se inquieta e reconhece: “A impaciência foi meu grande obstáculo”. “Sim” – ouve em resposta –, “você deixou de eleger por amigos os mais virtuosos que conheceu e se rodeou de espertos insaciáveis...”
Concorda o imperador: “Os sábios são os que mais buscam a sabedoria. Os tolos, dos quais me cerquei, pensam tê-la encontrado”.
Sugere o grego: “Anima-te mais por teres de suportar as injustiças; a verdadeira desgraça consiste em cometê-las”.
“Precisei ser um vendedor de esperança, e nisso o entusiasmo foi a minha maior força...”
Lá de fora alguém sussurrou, não foi suficiente: “Faltou usar a inteligência com amor, a força com compaixão, a justiça com misericórdia... As sementes que você plantou saíram da terra... e se mostraram...”
Gandhi intervém com parcimônia: “A não violência, o jejum e o silêncio, não os exércitos, me levaram à vitória, sem atirar, amei meu povo, com amor e por amor alcancei a meta”. Ainda observa: “Impressiona-me nos fracos que eles perdem tempo e precisam humilhar os outros para se sentirem fortes”. Nisso aceleram a catástrofe.
Depois, a voz mineira de Drummond: “Fácil é fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir. Difícil é ser amigo para dizer a verdade quando for preciso”.
“O sucesso nas batalhas me fez tantos falsos amigos, quantos a derrota espantou”.
Cícero, com o olhar faiscante: “Quando eu descobrir quem realmente eu sou, já não haverá mais tempo”. Lembre-te Napoleão que a compreensão da personagem, e não a pressa, evita falhas cruciais, que obrigarão ao repetir-se de tudo... numa eternidade que não tem pressa alguma.
Fim do encontro, Napoleão agradece os sábios conselhos: “Gênio é quem, para evoluir, sabe aplicar a arte da oportunidade”.
Eu, antes de começar a recolher os pratos, afetuosamente abracei o imperador. Obrigado. Até a próxima.
Qual o rumo das manifestações?
O que é preciso evitar é que o governo e a mídia manipulem as manifestações, dizendo que as ruas querem a "reforma política popular" que eles próprios pretendem implementar.
A Presidente Dilma Roussef age como se não houvesse crise, os convocados à CPI dizem que nada sabiam, que nada fizeram, que tudo é golpismo da oposição. Nem mesmo Sófocles se inspiraria tanto para escrever uma tragédia tão intensa. Todas estas personagens que frequentam as CPIs e vão e voltam ao Palácio do Planalto parecem mesmo viver "nas nuvens", como diria Aristófanes. Perderam o chão da realidade e vivem num teatro que não se sabe mais se é trágico ou cômico, mas que é terrível, porque ninguém sabe como irá terminar.
Há o apelo falacioso das forças revolucionárias pela "democracia direta", por uma reforma política que é apenas retórica, para radicalizar ainda mais o processo de desmonte das insitituições, de acirramento das vulnerabilidades, para que a facção de poder, em meio ao pântano que se tornou o cenário político, junto a outras forças, inclusive internacionais, possam se mover com mais avidez de poder, de controle, manipulação e perversão social. Nesse contexto, os fracos não podem mais contar com a legislação, pois que a lei se tornou a arma do forte, com seus embustes cada vez mais sofisticados, com suas hermenêuticas mais favoráveis aos que tem o poder, o mando, e as astúcias dos que assaltaram o Estado brasileiro e o aparelharam, vão conduzindo a uma consoliação ainda maior da facção de poder, ideologicamente cada vez mais à esquerda, com todo o populismo e o clientelismo, e toda espécie de trapaças que fariam Maquiavel se empalidecer diante de tanto pragmatismo e imoralidade.
Resta saber que rumo irão tomar as manifestações de rua, que desde o dia 1º de novembro vem clamando pelo "Fora Dilma, "Fora PT", "Fora Foro de São Paulo", etc. A indignação da população não pode ser convertida astutamente pelos marqueteiros do Palácio do Planalto como argumento a justificar a agenda que o próprio governo quer implantar, com o pretexto de combater a corrupção, que eles mesmos fizeram chegar a um nível tão extremo, com o mensalão, petrolão e tudo mais. O que é preciso evitar é que o governo e a mídia manipulem as manifestações, dizendo que as ruas querem a "reforma política popular" que eles próprios pretendem implementar, com o discurso já defendido pela CNBB, por exemplo, em seu documento 91, ainda em 2010, de radicalização da democracia. Não se sabe quem são títeres e quais forças exatamente estão os movendo. O fato é que o tempo atual requer vigilância, pois não será tão fácil libertar o Brasil da facção de poder que o levou a esta crise sistêmica.
Hermes Rodrigues Nery
E la nave vá...
Infelizmente, no Brasil, não raramente agentes políticos surpreendidos na prática de crimes graves, alguns até presos e condenados, mantém surpreendente longevidade na vida pública, passando alguns a nela influir pelos bastidores, enquanto outros, de forma ainda mais assustadora, logram recuperar mandatos formais
Juiz Sergio Moro, em despacho que determinou a prisão do petista André Vargas
A primazia da burrice
Assumo o ônus da afirmação. Vivemos sob a primazia da burrice. Considero-me diante de inegável sinal de burrice, tão perceptível, tão audível quanto um zurro, quando a mais simples sugestão da racionalidade sobre contas públicas ou definição de funções do Estado é recusada assim: "Essa é a lógica neoliberal!". Não importa se o autor da expressão se julga tão sábio quanto Nicolas Maduro ou tão cartesiano quanto Lula ou Dilma. A expressão é tola. Ideias se enfrentam com ideias e não com adjetivos. As coisas se complicam ainda mais para todos quando quem se vale de adjetivos para afastar a racionalidade do debate político ocupa relevante função de Estado.
O resultado disso é uma conta devedora, com efeitos tão devastadores sobre a nação quanto o provocado por um rombo de caixa na vida familiar de qualquer cidadão. Habitualmente, governos gastam mal e gastam mais do que arrecadam. Eis por que todo ano - quase ninguém sabe disso - 42 % do nosso dinheiro em mãos do governo vai para o pagamento de compromissos da dívida pública, formada pelo excessivo gasto ao longo dos anos!
Como parte dessa tragédia, quando as pessoas dela tomam conhecimento, em vez de mudarem de atitude em relação ao Estado seus usos e costumes, seus abusos e maus costumes, imediatamente começam a falar em calote, em não pagar a conta, em não nos sujeitarmos aos sanguessugas do sistema financeiro, à lógica neoliberal, aos interesses do grande capital e por aí afora (até parece que estou lendo algum documento da CNBB não é mesmo?).
Primeiro, assistimos o desperdício dos impostos que pagamos em cada caderno escolar que compramos para nossos filhos. Depois, aceitamos, inertes, as regalias, os abusos, os privilégios auto-concedidos, ou arrancados sob pressão das galerias nos parlamentos. Em seguida, convivemos com a ideia de que há, em tudo que é "estatal", um poço sem fundo, aberto à generosidade e ao interesse público. Logo, colocamos o "privado" sob suspeita do mais perverso egoísmo, avesso à conveniência social. Por fim, assumimos como elevada exigência moral que o sistema financeiro banque eternamente a gastança do governo. E o faça a fundo perdido.
Perdidos ficamos, mesmo, quando a burrice começa a influenciar as opiniões desde as salas de aula do ensino fundamental, com explicações ideologizadas sobre os acontecimentos de cada dia. Ao fim e ao cabo, a burrice acaba sendo a forma de pensar e de governar a nação. Ou, então, o burro sou eu e o Brasil vai muito bem, obrigado.
Percival Puggina
Governo aliviado ou se borrando?
Está preocupado, mas continua a se embolar ainda mais com a hidra governamental em Brasília. O noticiário, manifestante do dia a dia, é uma mina de denúncias contra todos e tudo. E ainda vem mais por aí na Justiça e em revelações escandalosas das maracutaias. São os manifestantes mais importantes que ocupam diariamente a mídia: as notícias. Com essas não se pode calar ou subestimar sua repercussão. Cada notícia sobre novo escândalo gera bem mais revolta do que se viu nas ruas. Portanto, ficar aliviado é gozação.
Como se sentiria o governo se essa multidão dos domingos saísse em passeata durante um dia útil? Ou se esse mesmo número resolvesse, muito mais incrementado, cruzar os braços? Greve geral. Que o governo deixe de menosprezar essa gente que trabalha para viver, porque não é a mesma que vive sem trabalhar, e com salários altos e garantidos. Foram, de graça, sem palhaçada, mostrar sua posição. Parabéns, a eles.
Aprendendo com o povão
A queda abrupta na audiência da TV Globo ilustra algo que venho dizendo aqui há semanas: a revolta popular não é só contra meia dúzia de políticos ladrões, nem só contra a sra. Dilma Rousseff, o PT ou mesmo o Foro de São Paulo: é contra toda a elite que os protegeu e os legitimou no poder à força de mentiras e desconversas.
Sempre de joelhos ante as modas estrangeiras mais idiotas, e manipulados por intelectuais ativistas que, a despeito da sua mediocridade, sempre deslumbraram as suas mentes ainda mais medíocres, os donos dos nossos meios de comunicação puseram todos os seus formidáveis recursos a serviço de uma “revolução cultural” cuja simples existência ignoravam e que foi, aliás, concebida precisamente para ser levada a cabo por idiotas úteis que a ignoravam.
Antonio Gramsci é bastante explícito quanto a esse ponto: não se trata de “conquistar corações e mentes”, como afirmou esse asno pomposo que ocupa o Ministério da Educação, mas, bem ao contrário, de fazer com que “todos sejam socialistas sem sabê-lo”, de dominar o “senso comum” a tal ponto que massas inteiras da população repitam chavões e slogans sem ter a menor idéia da sua origem e da sua função num plano estratégico de conjunto.
A diferença entre o antigo militante proletário conquistado para a causa do comunismo e o moderno servidor da revolução cultural é tão imensurável que, por si, basta para ilustrar a elasticidade psicopática da mente revolucionária, sempre pronta a trocar de atitude, de discurso e de valores cada vez que julga isso necessário para o aumento do seu poder. O primeiro decorava manuais de marxismo-leninismo, era hipersensível ao menor desvio da ortodoxia partidária e proclamava orgulhosamente sua condição de comunista militante, sacrificando bens, vida, honra e liberdade, tudo pela causa. Em volta dele existiam, é claro, alguns idiotas úteis sem cultura marxista, que se associavam à luta por motivos subjetivos totalmente estranhos ao marxismo, que levavam o militante genuíno às gargalhadas.
Na militância gramsciana, as proporções inverteram-se: o grosso da contingente compõe-se de idiotas úteis, os militantes doutrinados reduziram-se a uma discreta elite dirigente que não faz a menor questão de que seus seguidores saibam por que a seguem.
Os motivos subjetivos, que antes eram apenas acréscimos acidentais ao corpo da luta revolucionária, tornaram-se a propaganda oficial, que na mesma medida perdeu toda unidade e coerência, estilhaçando-se numa poeira alucinante de chavões e cacoetes mentais desencontrados, bons para todos os temperamentos e preferências, incluindo a expressão histérica das insatisfações mais fúteis que o marxista puro-sangue de antigamente desprezava como “pequeno-burguesas”.
A pessoa e os feitos do sr. Jean Wyllys ilustram esse estado de coisas da maneira mais didática que se pode imaginar. Na sua ânsia de juntar num front comum tudo quanto lhe pareça anti-ocidental e anticristão, ele exige que as escolas esmigalhem de vez os cérebros das crianças com aulas simultâneas de gayzismo e de islamismo. Cada pequeno brasileiro será portanto informado de que ele deve fazer aquilo que, se ele fizer, será punido com pena de morte.
Às vezes as pessoas clamam contra a “doutrinação marxista” nas escolas, mas “doutrinação” é eufemismo: os tempos da doutrinação já passaram. O que ali se faz é infinitamente mais destrutivo do que qualquer doutrinação. Pascal Bernardin, no livro “Maquiavel Pedagogo” (v. https://www.facebook.com/maquiavel.pedagogo/videos), descreveu em minúcias como as técnicas adotadas na educação das crianças hoje em dia são calculadas para induzir mudanças de comportamento sem passar pela aprovação consciente. Não se trata de “conquistar corações e mentes”, mas de adestrar os corpos no aprendizado da macaquice.
O apelo à consciência é cada vez mais reduzido, ao ponto de que aquele que passou por esse treinamento se torna incapaz de perceber as mais grotescas incoerências no seu discurso, mesmo quando elas tornam irrealizável na prática aquilo que ele proclama como seu sonho e ideal. O sr. Jean Wyllys é o produto perfeito e acabado de um sistema de ensino montado para produzir idiotas úteis em escala industrial.
É evidente que, abolido o confronto ideológico explícito, dissolvida a ortodoxia marxista num farelo de esterótipos para todos os gostos, cada freguês podendo escolher à vontade os “direitos humanos”, a “anti-homofobia”, o “anti-racismo”, o culto de uma lendária superioridade espiritual do Oriente, a mitologia indigenista, a liberação das drogas, os delírios da New Age, o ressentimento feminista, o islamismo ou tudo isso de uma vez, o mero fato de um sujeito ser pessoalmente um bilionário capitalista, e eventualmente o dono de uma rede de canais de TV, não o torna imune, no mais mínimo que seja, à contaminação de uma lepra mental que assume todas as formas e o assalta por todos os lados.
Foi assim que os donos da mídia, sem percebê-lo nitidamente, e até mesmo negando-o peremptoriamente, se tornaram servidores da “revolução cultural” que os abomina e despreza ao ponto de imaginá-los – pasmem! – responsáveis pelos movimentos de protesto anti-PT. O sr. João Pedro Stedile proclamando “A Globo fez tudo isso”, ao mesmo tempo que os manifestantes escorraçavam os repórteres da Globo a cusparadas – eis uma cena representativa da confusão monstruosa que o gramscismo produziu na mente brasileira.
Enquanto os “intelectuais” e “formadores de opinião" mostravam cada vez mais nada entender do que estava acontecendo, exemplificando eles próprios o estado de turva inconsciência reinante, o povão, quase por milagre, apreendeu a unidade oculta por trás dos rostos cambiantes e inumeráveis do seu inimigo, e se voltou contra ele com uma determinação e uma coragem admiráveis.
Domingo ele vai nos dar mais uma lição a respeito.
Olavo de Carvalho
Sempre de joelhos ante as modas estrangeiras mais idiotas, e manipulados por intelectuais ativistas que, a despeito da sua mediocridade, sempre deslumbraram as suas mentes ainda mais medíocres, os donos dos nossos meios de comunicação puseram todos os seus formidáveis recursos a serviço de uma “revolução cultural” cuja simples existência ignoravam e que foi, aliás, concebida precisamente para ser levada a cabo por idiotas úteis que a ignoravam.
Antonio Gramsci é bastante explícito quanto a esse ponto: não se trata de “conquistar corações e mentes”, como afirmou esse asno pomposo que ocupa o Ministério da Educação, mas, bem ao contrário, de fazer com que “todos sejam socialistas sem sabê-lo”, de dominar o “senso comum” a tal ponto que massas inteiras da população repitam chavões e slogans sem ter a menor idéia da sua origem e da sua função num plano estratégico de conjunto.
A diferença entre o antigo militante proletário conquistado para a causa do comunismo e o moderno servidor da revolução cultural é tão imensurável que, por si, basta para ilustrar a elasticidade psicopática da mente revolucionária, sempre pronta a trocar de atitude, de discurso e de valores cada vez que julga isso necessário para o aumento do seu poder. O primeiro decorava manuais de marxismo-leninismo, era hipersensível ao menor desvio da ortodoxia partidária e proclamava orgulhosamente sua condição de comunista militante, sacrificando bens, vida, honra e liberdade, tudo pela causa. Em volta dele existiam, é claro, alguns idiotas úteis sem cultura marxista, que se associavam à luta por motivos subjetivos totalmente estranhos ao marxismo, que levavam o militante genuíno às gargalhadas.
Na militância gramsciana, as proporções inverteram-se: o grosso da contingente compõe-se de idiotas úteis, os militantes doutrinados reduziram-se a uma discreta elite dirigente que não faz a menor questão de que seus seguidores saibam por que a seguem.
Os motivos subjetivos, que antes eram apenas acréscimos acidentais ao corpo da luta revolucionária, tornaram-se a propaganda oficial, que na mesma medida perdeu toda unidade e coerência, estilhaçando-se numa poeira alucinante de chavões e cacoetes mentais desencontrados, bons para todos os temperamentos e preferências, incluindo a expressão histérica das insatisfações mais fúteis que o marxista puro-sangue de antigamente desprezava como “pequeno-burguesas”.
A pessoa e os feitos do sr. Jean Wyllys ilustram esse estado de coisas da maneira mais didática que se pode imaginar. Na sua ânsia de juntar num front comum tudo quanto lhe pareça anti-ocidental e anticristão, ele exige que as escolas esmigalhem de vez os cérebros das crianças com aulas simultâneas de gayzismo e de islamismo. Cada pequeno brasileiro será portanto informado de que ele deve fazer aquilo que, se ele fizer, será punido com pena de morte.
Às vezes as pessoas clamam contra a “doutrinação marxista” nas escolas, mas “doutrinação” é eufemismo: os tempos da doutrinação já passaram. O que ali se faz é infinitamente mais destrutivo do que qualquer doutrinação. Pascal Bernardin, no livro “Maquiavel Pedagogo” (v. https://www.facebook.com/maquiavel.pedagogo/videos), descreveu em minúcias como as técnicas adotadas na educação das crianças hoje em dia são calculadas para induzir mudanças de comportamento sem passar pela aprovação consciente. Não se trata de “conquistar corações e mentes”, mas de adestrar os corpos no aprendizado da macaquice.
O apelo à consciência é cada vez mais reduzido, ao ponto de que aquele que passou por esse treinamento se torna incapaz de perceber as mais grotescas incoerências no seu discurso, mesmo quando elas tornam irrealizável na prática aquilo que ele proclama como seu sonho e ideal. O sr. Jean Wyllys é o produto perfeito e acabado de um sistema de ensino montado para produzir idiotas úteis em escala industrial.
É evidente que, abolido o confronto ideológico explícito, dissolvida a ortodoxia marxista num farelo de esterótipos para todos os gostos, cada freguês podendo escolher à vontade os “direitos humanos”, a “anti-homofobia”, o “anti-racismo”, o culto de uma lendária superioridade espiritual do Oriente, a mitologia indigenista, a liberação das drogas, os delírios da New Age, o ressentimento feminista, o islamismo ou tudo isso de uma vez, o mero fato de um sujeito ser pessoalmente um bilionário capitalista, e eventualmente o dono de uma rede de canais de TV, não o torna imune, no mais mínimo que seja, à contaminação de uma lepra mental que assume todas as formas e o assalta por todos os lados.
Foi assim que os donos da mídia, sem percebê-lo nitidamente, e até mesmo negando-o peremptoriamente, se tornaram servidores da “revolução cultural” que os abomina e despreza ao ponto de imaginá-los – pasmem! – responsáveis pelos movimentos de protesto anti-PT. O sr. João Pedro Stedile proclamando “A Globo fez tudo isso”, ao mesmo tempo que os manifestantes escorraçavam os repórteres da Globo a cusparadas – eis uma cena representativa da confusão monstruosa que o gramscismo produziu na mente brasileira.
Enquanto os “intelectuais” e “formadores de opinião" mostravam cada vez mais nada entender do que estava acontecendo, exemplificando eles próprios o estado de turva inconsciência reinante, o povão, quase por milagre, apreendeu a unidade oculta por trás dos rostos cambiantes e inumeráveis do seu inimigo, e se voltou contra ele com uma determinação e uma coragem admiráveis.
Domingo ele vai nos dar mais uma lição a respeito.
Olavo de Carvalho

O choque do fracasso e a operação desmonte
O desmonte apenas começou e poderá ir muito mais longe, com a contribuição de outros companheiros. Mas a autonegação da personagem presidencial, até esse ponto, foi insuficiente. A governante reeleita ainda se tornaria, no começo de abril, dependente de um superministro com autoridade para negociar decisões políticas e garantir nomeações para postos importantes. Indemissível, essa figura com poderes incomuns é o vice-presidente Michel Temer, presidente do PMDB, o maior partido aliado, o mesmo dos presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara dos Deputados, Eduard0 Cunha.
Enquanto o PMDB se converte em núcleo principal da articulação política, a operação desmonte avança em várias frentes do governo. "Temos de revisitar as regras para conteúdo local na indústria de petróleo", disse na quarta-feira o ministro de Minas e Energia, o peemedebista Eduardo Braga. "O regime de partilha também deve ser revisitado", acrescentou, referindo-se à exigência de participação da Petrobrás nos leilões de direitos de exploração. Falta saber se ele estava autorizado a discutir o assunto e se a presidente da República aceitará sem dificuldades propostas de mudanças. Mas a declaração do ministro Eduardo Braga, mesmo exploratória, já é um sinal importante de mudanças políticas.
As alterações sugeridas são meras questões de bom senso. Uma empresa envolvida na exploração do pré-sal, uma aventura de custos enormes e riscos muito importantes, deveria concentrar-se em sua atividade básica. Ao promover a conversão da Petrobrás em instrumento de política industrial, o presidente Lula cometeu uma notável e caríssima imprudência. A mesma incompetência administrativa foi exibida pelo governo petista com a exigência de participação da estatal em todos os projetos. De onde sairia dinheiro para isso, especialmente quando a empresa já estava superendividada e ainda sujeita a um estúpido controle de preços?
Mesmo sem o saque investigado na Operação Lava Jato, a empresa teria sérios problemas para se financiar, até porque estava comprometida com grandes projetos orientados por interesses ideológicos e eleitorais, como a construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e a instalação de outra no Maranhão. Cumprir todas essas tarefas e ainda pagar mais caro por equipamentos e componentes de fabricação nacional seria uma façanha quase milagrosa. Se fosse realizada, ainda seria uma besteira de proporções olímpicas, por causa do previsível desperdício de bilhões.
Implantar as mudanças insinuadas pelo ministro Eduardo Braga ajudaria a restabelecer um mínimo de racionalidade na administração da maior estatal brasileira. Tendo estimulado o debate de uma boa ideia, o ministro poderia, no entanto, ter evitado o vexame da declaração seguinte: "Essas políticas não podem ser tachadas de ineficientes, porque foram pilares do nosso desenvolvimento no setor de petróleo e gás". Nenhum cuidado diplomático ou disciplina funcional torna indispensável um despropósito desse calibre. Nem a Petrobrás seguiu de forma invariável a política de conteúdo nacional, embora seus dirigentes tenham procurado disfarçar os desvios.
Um desmonte eficiente na área industrial e comercial deveria incluir a redução do protecionismo, a multiplicação de acordos comerciais com parceiros relevantes e, muito provavelmente, o abandono das amarras da união aduaneira do Mercosul. Já haveria um ganho importante se o bloco retornasse ao status de área de livre-comércio e funcionasse bem nessa condição. Os governos do Paraguai e do Uruguai provavelmente aceitariam sem muita dificuldade a mudança. Afinal, os dois países foram seriamente prejudicados pelo emperramento do Mercosul e pelas limitações típicas de uma união aduaneira.
O Brasil também ganharia com uma revisão ampla da política educacional. Maior atenção à qualidade do ensino e à eliminação de gargalos, com abandono do populismo e da multiplicação eleitoreira de universitários, teria bons efeitos sociais, políticos e econômicos. Mais jovens se tornariam capazes de ganhar a vida sem depender de favores governamentais, por meio do trabalho digno e produtivo. Seria preciso, naturalmente, renunciar ao clientelismo, e para isso a presidente seria forçada a romper com os padrões de ação de seu partido.
Não há alternativa a uma política de desmonte, se se quiser repor o Brasil no caminho da modernidade e da integração nos melhores padrões globais de educação, de produção e de distribuição de oportunidades. Foi fácil, durante alguns anos, sustentar uma política baseada na transferência de recursos, na expansão do crédito e do gasto público e no estímulo ao consumo. Isso rendeu votos e garantiu lealdade política aos distribuidores de bem-estar, mas é materialmente impossível levar muito longe uma estratégia desse tipo. A mudança é tão indispensável quanto trabalhosa. A resistência política será forte e qualquer apoio será custoso.
Rolf Kuntz
A ilusionista e a corda bamba
O pior é que essa nossa artista não é nem um pouco competente no setor e o truque se volta para a própria; quem se ilude é ela pensando que nos iludiu e que está tudo certo, arranjado, decidido, controlado, contornado. Até as ordens que dá crê estarem sendo cumpridas. Este circo está na lona.
Adivinha. Não se engana a realidade. Resultado: foi parar na corda bamba. Outra imagem seria dizer que a ilusionista está no ringue, nas cordas, onde um adversário encurrala o outro até o nocaute ou o soar salvador do fim do round. De qualquer forma, ambas as cordas tremem; uma bamba, a que pode fazer cair de lá de cima; outra, para onde está sendo levada, perdida, cercada e subjugada pelo adversário. Na verdade, um monte de adversários que brotam da terra que ela planta com total inabilidade. Parece que está mesmo todo mundo querendo desmascará-la, tirar uma casquinha, dar um sopapo, acertar alguma conta, apertar um certo pescoço, descontar alguma desfeita ou vendeta.
Era uma vez um país que vive um momento muito confuso, parece até que está em um muito longo inferno astral, aquele período amargo que antecede o aniversário - e está mesmo, já que comemora 515 aninhos agora, dia 22. Bateu um ventinho que está dissipando a areia que a ilusionista e seu grupo de mágicos jogaram nos olhos da população, que acorda num pesadelo e tanto, com a inflação latindo e correndo atrás dos calcanhares, economia parada e um mar revolto sacudindo a caravela. Uma terra na tanga com as partes à mostra, e com todas as mágicas que faz tempo estavam sendo feitas, os truques, falhando e sendo revelados a uma plateia atônita e neste momento muito brava, indócil, pedindo o dinheiro de volta.
Andamos em tempo de jogo de espelhos e ilusões, com vestidos azuis que podem ser dourados e gatos que ninguém sabe se estão subindo ou descendo a escada. Juízes com leis próprias. Panos sendo levantados e mostrando que cobriam buracos imensos, enormes labirintos de sucção de recursos públicos.
Esse é o momento do país da ilusionista. Nos centros de poder, ratos saem de caixas, em vez de coelhos saírem das cartolas. Cobras botam as manguinhas de fora, nem precisam mais de encantadores. Seus botes são precisos na direção das pombas brancas da paz e liberdade, escondidas acuadas nas mangas, com as cartas, os lenços, e suas cores de arco-íris. Tentativas brutais de retrocesso nos costumes que, ainda crianças imberbes no berçário atrasado, tentam caminhar em direção ao futuro, mas são obrigadas a tropeçar na escuridão da religião, dos dogmas, das proibições, da hipocrisia social.
Os que protestam também se dividem, como aquele serrote que corta a caixa onde a assistente esperneia. Essa assistente acorrentada nos representa - somos muitos de nós, também colados na parede, paralisados, esperando que aquelas facas que arremessam em nossa direção não nos atinjam e dependentes da presteza do atiradores escolhidos sabe-se lá de onde pela prestidigitadora chefe, e que vivem com as mãos tremendo.
O ilusionismo é uma arte que deveria ser respeitada. Diferente do que poderemos classificar como compulsão - as mentiras constantes, tão constantes e tão mentiras que acabam virando a verdade para quem as cria. Assim podemos entender vários fatos recentes, tais como a conta da luz que baixou subindo, o crescimento que encolheu, as economias que gastam mais, as rigorosas investigações que não dão em nada, as ordens para não usarem mais aviões que continuam sendo usados, as críticas que na verdade eram elogios conforme se quis ouvir, os cortes que serão feitos e que cada dia os gastos aumentam. A Pátria Educadora sem escolas. A total transparência de dados que nunca podem ser vistos, como o uso de cartões, ou os contratos para construção de pontes que ligam o nada a lugar nenhum (e que, aliás, nem construídas são, apenas pagas). Exemplos não faltam.
Já que estamos nesse plano teatral e mágico, abrem-se as cortinas e entram os al(k)quimistas, aqueles que não vão racionar a água que é racionada com diversos horários, aqueles que dizem que não há greve de professores e aproveitam para pedir aos pais que não levem os filhos às escolas para que não vejam a greve que não há. Aqueles que não estão chegando, esses.
Para completar o circo, faltava - mas não falta mais - aparecer o homem barbado, o domador de pês, emes, debês e outras feras, além do pequeno aprendiz que decorou um truque de abrir ciclovias e não para de repetir o feito, apontando sua varinha de tinta vermelha para tudo quando é chão. Penso que a holografia possa ser usada no caso, criando também hordas de ciclistas.
Quando eu estalar o dedo, você sai desse estado hipnótico e cai na real. Combinado?
Agora, fica aí se perguntando qual seria o seu papel neste picadeiro. E essa bolinha vermelha no seu nariz?
Adivinha. Não se engana a realidade. Resultado: foi parar na corda bamba. Outra imagem seria dizer que a ilusionista está no ringue, nas cordas, onde um adversário encurrala o outro até o nocaute ou o soar salvador do fim do round. De qualquer forma, ambas as cordas tremem; uma bamba, a que pode fazer cair de lá de cima; outra, para onde está sendo levada, perdida, cercada e subjugada pelo adversário. Na verdade, um monte de adversários que brotam da terra que ela planta com total inabilidade. Parece que está mesmo todo mundo querendo desmascará-la, tirar uma casquinha, dar um sopapo, acertar alguma conta, apertar um certo pescoço, descontar alguma desfeita ou vendeta.
Andamos em tempo de jogo de espelhos e ilusões, com vestidos azuis que podem ser dourados e gatos que ninguém sabe se estão subindo ou descendo a escada. Juízes com leis próprias. Panos sendo levantados e mostrando que cobriam buracos imensos, enormes labirintos de sucção de recursos públicos.
Esse é o momento do país da ilusionista. Nos centros de poder, ratos saem de caixas, em vez de coelhos saírem das cartolas. Cobras botam as manguinhas de fora, nem precisam mais de encantadores. Seus botes são precisos na direção das pombas brancas da paz e liberdade, escondidas acuadas nas mangas, com as cartas, os lenços, e suas cores de arco-íris. Tentativas brutais de retrocesso nos costumes que, ainda crianças imberbes no berçário atrasado, tentam caminhar em direção ao futuro, mas são obrigadas a tropeçar na escuridão da religião, dos dogmas, das proibições, da hipocrisia social.
Os que protestam também se dividem, como aquele serrote que corta a caixa onde a assistente esperneia. Essa assistente acorrentada nos representa - somos muitos de nós, também colados na parede, paralisados, esperando que aquelas facas que arremessam em nossa direção não nos atinjam e dependentes da presteza do atiradores escolhidos sabe-se lá de onde pela prestidigitadora chefe, e que vivem com as mãos tremendo.
O ilusionismo é uma arte que deveria ser respeitada. Diferente do que poderemos classificar como compulsão - as mentiras constantes, tão constantes e tão mentiras que acabam virando a verdade para quem as cria. Assim podemos entender vários fatos recentes, tais como a conta da luz que baixou subindo, o crescimento que encolheu, as economias que gastam mais, as rigorosas investigações que não dão em nada, as ordens para não usarem mais aviões que continuam sendo usados, as críticas que na verdade eram elogios conforme se quis ouvir, os cortes que serão feitos e que cada dia os gastos aumentam. A Pátria Educadora sem escolas. A total transparência de dados que nunca podem ser vistos, como o uso de cartões, ou os contratos para construção de pontes que ligam o nada a lugar nenhum (e que, aliás, nem construídas são, apenas pagas). Exemplos não faltam.
Já que estamos nesse plano teatral e mágico, abrem-se as cortinas e entram os al(k)quimistas, aqueles que não vão racionar a água que é racionada com diversos horários, aqueles que dizem que não há greve de professores e aproveitam para pedir aos pais que não levem os filhos às escolas para que não vejam a greve que não há. Aqueles que não estão chegando, esses.
Para completar o circo, faltava - mas não falta mais - aparecer o homem barbado, o domador de pês, emes, debês e outras feras, além do pequeno aprendiz que decorou um truque de abrir ciclovias e não para de repetir o feito, apontando sua varinha de tinta vermelha para tudo quando é chão. Penso que a holografia possa ser usada no caso, criando também hordas de ciclistas.
Quando eu estalar o dedo, você sai desse estado hipnótico e cai na real. Combinado?
Agora, fica aí se perguntando qual seria o seu papel neste picadeiro. E essa bolinha vermelha no seu nariz?
domingo, 12 de abril de 2015
Hora e vez de Sibá Machado
Mais uma vez, o povo na rua. Grande parte de nossa esperança está depositada na sociedade. Ela é quem pode dinamizar a mudança. A maioria vai gritar “Fora Dilma”, “Fora PT”. Não há espaço agora para outras palavras. No entanto, a saída de Dilma é apenas o começo. Vai ser preciso um ajuste econômico. Todos deveriam se informar e tomar posição sobre ele. O governo Dilma não se mexe na redução de ministérios e cargos de confiança. Não há um projeto sério de contenção de gastos com a máquina. E sem isso, o impacto do ajuste, aumentando impostos e cortando benefícios sociais, dificilmente será digerido pelo Congresso e pela própria sociedade.
O Congresso é passível de suborno com verbas e cargos. A sociedade, não. Mas um simples ajuste econômico merecia um pouco mais de reflexão para além deste domingo.
Vale a pena retomar um crescimento apoiado no consumo de carros e eletrodomésticos? É possível superar a limitação do voo da galinha na economia brasileira, achar um caminho sustentável?
Os rios brasileiros estão exauridos. Vamos continuar a destruição? A Califórnia luta há anos com a escassez de água. É um estado que sempre soube se reinventar. Abriga a indústria do cinema, o Vale do Silício. Apesar de toda a experiência, a crise atual ameaça seu futuro.
Cada vez que um grande movimento vai às ruas pedindo a saída de Dilma, ela, na realidade, vai saindo aos pouquinhos. Hoje não controla a política, nem a economia. Inaugura, faz discursos para a claque. Apegado à negação de seus erros, o PT é quase um fantasma. Seu líder na Câmara é Sibá Machado. Ele acha que as manifestações do dia 15 e também as de hoje são organizadas pela CIA. E foi ao ministro da Fazenda pedir novos financiamentos para as empreiteiras do Lava-Jato.
A tendência é achar que o Sibá Machado não existe, que é criação de algum escritor dedicado ao realismo fantástico. Mas Sibá existe e ocupa a liderança de um partido com 64 deputados na Câmara. Como foi possível Dilma ser presidente do Brasil? Como foi possível Sibá Machado tornar-se o líder de um partido que está no poder há 12 anos?
Não há espaço para explicar tudo. Mas Dilma é fruto da vontade de Lula, que detesta a ideia de surgirem outros líderes no partido. Sibá é o fruto da disciplina de quem espera na fila a hora do revezamento. Todos podem ser líderes, independentemente de estarem preparados. É a hora e a vez de Sibá Machado.
Estamos atravessando uma atmosfera de “Cem anos de solidão”. Sibá pede mais dinheiro público para quem nos roubou. Dilma afirma que sua tarefa é recuperar a Petrobras, que ela e o PT destruíram. Não acredito que sejam cômicos por vocação, embora o Sibá leve muito jeito. Isaac Deutscher, o grande biógrafo de Trotsky, demonstra que muitas vezes os governos fazem bobagem porque já não têm mais margem de manobra.
O buraco em que o PT se meteu é mais grave do que a estreiteza da margem de manobra. É a escolha de quem se agarra à negação para fugir da realidade. Por isso é que, além dos incômodos da crise, do assalto às estatais e fundos de pensão, o PT irrita. São muitas as pessoas simples que se sentem não apenas assaltadas como contribuintes, mas desrespeitadas pelo cinismo oficial.
Já é um lugar comum afirmar que vivemos a maior crise dos últimos tempos. Nela, entretanto, há um dado essencial: aparato político burocrático segue afirmando que a realidade é a que vê e não a compartilhada por milhões de pessoas na rua.
O que pode acontecer numa situação dessas? Collor saiu de nariz empinado e submergiu alguns anos. Ele chamava verde e amarelo, aparecia preto. O PT chama vermelho, aparecem verde e amarelo.
O curto circuito pictórico parece não dizer nada para eles. No fundo, havia em Collor uma espécie de orgulho pessoal. No PT, há uma confiança na manipulação. O partido no poder escolheu o caminho mais espinhoso. Seu líder na Câmara parece delirar, mas apenas quer cumprir suas tarefas elementares de negação.
O assalto à Petrobras não existiu. As manifestações foram arquitetadas pela CIA, e as empreiteiras, coitadinhas, precisam de grana oficial para financiar nossas campanhas. E os marqueteiros nos observam como jacarés tomando sol. Daqui a pouco vão entrar em ação para convencer a todos que o Brasil é maravilhoso e vai ficar melhor ainda.
É assim que a negação se reflete numa alma simples como a de Sibá Machado. Ele vem de uma região marcada pelas experiência místicas com a ayahuasca, planta que provoca visões. Um pouco distante dali, mas também na Amazônia, o pastor Jim Jones comandou um suicídio coletivo.
Na hora e vez de Sibá, o próprio inferno será refrigerado. Ganha-se muito dinheiro quando se passa pela cadeia, como fez José Dirceu. E há sempre Cuba e Venezuela para um recuo estratégico.
Vamos para a rua fingindo que os agentes da CIA nos organizam. No fundo, sabemos que se dependêssemos deles, correríamos o risco de uma grande trapalhada.
Mas pra que contrariar Sibá Machado e o PT na sua fase tardia ? De uma certa forma, já não estão entre nós. Morreram para o debate racional.
Fernando Gabeira
O Congresso é passível de suborno com verbas e cargos. A sociedade, não. Mas um simples ajuste econômico merecia um pouco mais de reflexão para além deste domingo.
Vale a pena retomar um crescimento apoiado no consumo de carros e eletrodomésticos? É possível superar a limitação do voo da galinha na economia brasileira, achar um caminho sustentável?
Os rios brasileiros estão exauridos. Vamos continuar a destruição? A Califórnia luta há anos com a escassez de água. É um estado que sempre soube se reinventar. Abriga a indústria do cinema, o Vale do Silício. Apesar de toda a experiência, a crise atual ameaça seu futuro.
Cada vez que um grande movimento vai às ruas pedindo a saída de Dilma, ela, na realidade, vai saindo aos pouquinhos. Hoje não controla a política, nem a economia. Inaugura, faz discursos para a claque. Apegado à negação de seus erros, o PT é quase um fantasma. Seu líder na Câmara é Sibá Machado. Ele acha que as manifestações do dia 15 e também as de hoje são organizadas pela CIA. E foi ao ministro da Fazenda pedir novos financiamentos para as empreiteiras do Lava-Jato.
A tendência é achar que o Sibá Machado não existe, que é criação de algum escritor dedicado ao realismo fantástico. Mas Sibá existe e ocupa a liderança de um partido com 64 deputados na Câmara. Como foi possível Dilma ser presidente do Brasil? Como foi possível Sibá Machado tornar-se o líder de um partido que está no poder há 12 anos?
Não há espaço para explicar tudo. Mas Dilma é fruto da vontade de Lula, que detesta a ideia de surgirem outros líderes no partido. Sibá é o fruto da disciplina de quem espera na fila a hora do revezamento. Todos podem ser líderes, independentemente de estarem preparados. É a hora e a vez de Sibá Machado.
Estamos atravessando uma atmosfera de “Cem anos de solidão”. Sibá pede mais dinheiro público para quem nos roubou. Dilma afirma que sua tarefa é recuperar a Petrobras, que ela e o PT destruíram. Não acredito que sejam cômicos por vocação, embora o Sibá leve muito jeito. Isaac Deutscher, o grande biógrafo de Trotsky, demonstra que muitas vezes os governos fazem bobagem porque já não têm mais margem de manobra.
O buraco em que o PT se meteu é mais grave do que a estreiteza da margem de manobra. É a escolha de quem se agarra à negação para fugir da realidade. Por isso é que, além dos incômodos da crise, do assalto às estatais e fundos de pensão, o PT irrita. São muitas as pessoas simples que se sentem não apenas assaltadas como contribuintes, mas desrespeitadas pelo cinismo oficial.
Já é um lugar comum afirmar que vivemos a maior crise dos últimos tempos. Nela, entretanto, há um dado essencial: aparato político burocrático segue afirmando que a realidade é a que vê e não a compartilhada por milhões de pessoas na rua.
O que pode acontecer numa situação dessas? Collor saiu de nariz empinado e submergiu alguns anos. Ele chamava verde e amarelo, aparecia preto. O PT chama vermelho, aparecem verde e amarelo.
O curto circuito pictórico parece não dizer nada para eles. No fundo, havia em Collor uma espécie de orgulho pessoal. No PT, há uma confiança na manipulação. O partido no poder escolheu o caminho mais espinhoso. Seu líder na Câmara parece delirar, mas apenas quer cumprir suas tarefas elementares de negação.
O assalto à Petrobras não existiu. As manifestações foram arquitetadas pela CIA, e as empreiteiras, coitadinhas, precisam de grana oficial para financiar nossas campanhas. E os marqueteiros nos observam como jacarés tomando sol. Daqui a pouco vão entrar em ação para convencer a todos que o Brasil é maravilhoso e vai ficar melhor ainda.
É assim que a negação se reflete numa alma simples como a de Sibá Machado. Ele vem de uma região marcada pelas experiência místicas com a ayahuasca, planta que provoca visões. Um pouco distante dali, mas também na Amazônia, o pastor Jim Jones comandou um suicídio coletivo.
Na hora e vez de Sibá, o próprio inferno será refrigerado. Ganha-se muito dinheiro quando se passa pela cadeia, como fez José Dirceu. E há sempre Cuba e Venezuela para um recuo estratégico.
Vamos para a rua fingindo que os agentes da CIA nos organizam. No fundo, sabemos que se dependêssemos deles, correríamos o risco de uma grande trapalhada.
Mas pra que contrariar Sibá Machado e o PT na sua fase tardia ? De uma certa forma, já não estão entre nós. Morreram para o debate racional.
Fernando Gabeira
Não dá para esperar 2018
Vamos confiar em que não sabiam mesmo. De que planeta, então, governavam o país? Com que auxiliares trabalhavam, não se podendo omitir a participação de muitos deles na lambança?
Não dá para imaginar que continuaremos assim por mais quatro anos, com a Polícia Federal diariamente elucidando malfeitos e prendendo malfeitores de alta e de baixa estirpe. Incrustados no governo, é grande o número de políticos e de empresários que já estão e mais irão parar na cadeia. Louve-se a ação de policiais, procuradores e juízes encarregados de investigar e punir, mas as indagações vão mais fundo: como tudo pode acontecer nessas proporções olímpicas? A quem debitar a responsabilidade maior? Fazer o quê?
Esperar as eleições gerais de 2018, positivamente, não é solução. Antecipá-las será inconstitucional, além de perigoso. Acreditar que da noite para o dia bandidos se transformem em anjos, também não. Quem quiser que opine, mas por muito menos Fernando Collor foi defenestrado.
Deve acautelar-se o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, porque são coincidências demais acontecendo. Em São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, João Pessoa e Natal, nos trabalhos da Câmara Itinerante, ele foi recebido por grupos de arruaceiros empenhados em impedir suas palavras. É coisa organizada, mudando apenas os personagens.
Governar
– Pois não – aceitou Martim. – Daqui por diante vocês farão meus exercícios escolares e eu assino. Clóvis e mais dois de vocês formarão a minha segurança.
Januário será meu Ministro da Fazenda e pagará o meu lanche.
– Com que dinheiro? – atalhou Januário.
– Cada um de vocês contribuirá com um cruzeiro por dia para a caixinha do governo.
– E que é que nós lucramos com isso? – perguntaram em coro.
– Lucram a certeza de que têm um bom presidente. Eu separo as brigas, distribuo tarefas, trato de igual para igual com os professores. Vocês obedecem, democraticamente.
– Assim não vale. O presidente deve ser nosso servidor, ou pelo menos saber que todos somos iguais a ele. Queremos vantagens.
– Eu sou o presidente e não posso ser igual a vocês, que são presididos. Se exigirem coisas de mim, serão multados e perderão o direito de participar da minha comitiva nas festas. Pensam que ser presidente é moleza? Já estou sentindo como esse cargo é cheio de espinhos.
Foi deposto, e dissolvida a República.
Carlos Drummond de Andrade
Domingo de rezar para mudar

Mais do que nunca é preciso protestar mesmo sem o chamado "foco", que só não vê quem não quer. O grito é mudar, tirar o que está com desgaste material, fazer recall. Precisa-se dar outra arrumação na casa, arejar os pútridos ares de miasma político-administrativo.
Nenhum país aguenta ser paraíso para marginais no poder, que promovem ou são coniventes, cúmplices da corrupção. Isso é roubar o pão de todos, ainda mais dos necessitados que ficarão em maior penúria. Chega de usar o pobre como fachada, propaganda política, e dar aos mesmos que defende apenas as migalhas, quando não a miserabilidade da saúde, da educação, da segurança pública, do saneamento básico.
Fazer o que der na cabeça, tresloucadamente, com o único intuito de se manter no governo, é crime que deve ser punido. Se a justiça não pega os bandidos e os tira do convívio da sociedade, há que gritar: "Pega ladrão!".
Estourem os ouvidos dos políticos, porque o grito é mais forte. E bem que domingo é uma ótima escolha para sair às ruas num velho "footing" político. Se manifesta sem vale passeata, tíquete sanduíche de mortadela e cachê de R$ 50. Vai-se com a cara e a coragem, as mesmas com que todo o dia enfrentamos as mazelas da cretinice político-governamental. Quem vai à rua, quem protesta contra a canalha, só tem mesmo essa cara de revolta e com ela é que vamos lutando sempre nossa prece de cada dia.
Apesar do PT

“Eu pergunto a vocêA manifestação do dia 15 de março de 2015 foi a manifestação dos “apesares”. Apesar de a propaganda petista tentar rotulá-la de golpista, o povo brasileiro foi às ruas em nome da república. Apesar da chuva em algumas cidades, famílias inteiras saíram de casa para manifestar sua indignação. Apesar de a esquerda manter durante anos o monopólio das ruas, milhões de pessoas lotaram as vias públicas do país para confrontar o governo, sem receber nem um centavo para isso. Apesar de possuir tudo, o Partido dos Trabalhadores percebeu que já não é mais nada.
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar”
É difícil compreender o que o dia 15 significará para a história, posto que ainda estamos no olho do furacão e qualquer julgamento definitivo esbarraria em nossos anseios e vontades. Apesar disso, sabemos o que ele significou para a população: um ato de bravura e independência em defesa da república brasileira. As ruas pediram mais justiça e menos advogados partidarizados, mais república e menos totalitarismo, mais Brasil e menos Brasília. A manifestação fez os alicerces do Palácio do Planalto tremerem como nunca antes.
Apesar disso, o governo fingiu não sentir vibração alguma. Colocou as mãos nos ouvidos como uma criança mimada e esperneou, teimosamente, insistindo na mentira de que o povo pedia reforma política, de que o povo pedia ações governamentais. A negação da realidade, comum entre loucos e infantes, passou a ser o discurso uníssono dos dirigentes do país, e reverberava nas trombetas dos blogueiros chapa-branca a mensagem oficial: Dilma haveria de conduzir as massas em uma cruzada contra a corrupção! Vida longa à nossa rainha!
O estado geral de insanidade do governo termina coroado pela ação política do homem mais poderoso da nação no momento, o deputado Eduardo Cunha. Aproveitando-se da inanição de uma oposição covarde e desorientada, valeu-se dos gritos de “fora Dilma!” do dia 15 e tomou para si o capital político conferido pelas ruas. Tratou de colocar o governo federal contra o córner e firmou-se como o primeiro-ministro de facto da república. Herdeiro ilegítimo do clamor popular, será alvo de intensa pressão neste dia 12 de abril. Os pedidos de impeachment da presidente Dilma Rousseff, se ignorados novamente, passarão a minar seu exótico projeto de poder. A se observar.
Apesar de Cunha, porém, o saldo continua extremamente positivo. Irmanados na indignação, brasileiros vestidos de verde e amarelo fizeram uso de cornetas e vuvuzelas que permaneceram caladas durante a já esquecida “Copa das Copas”. Num fenômeno único em nossa história, milhões se mobilizaram em todos os estados da federação sem o incentivo e o patrocínio de quaisquer lideranças político-partidárias. Na era das celebridades instantâneas, imperou o anonimato – uma trágica ironia para um governo em busca de espantalhos para combater. É um novo momento, em que a oposição se dá nas ruas e a classe política, seja situação, seja oposição, permanece passageira de um fenômeno que não consegue compreender.
Apesar do PT, amanhã há de ser outro dia. Dilma vai ter de ver a manhã renascer e esbanjar poesia. Como vai se explicar, vendo o céu clarear, de repente, impunemente? Como vai abafar nosso coro a cantar na sua frente, em todas as ruas do país: “Fora PT, impeachment já!”?
Operário para subir; poderoso para ficar
Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Essa minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana.
Mikhail Aleksandrovitch Bakunin (1814 -1876)
Com Temer na articulação, Dilma dorme com o inimigo
A rápida viagem do vice-presidente Michel Temer a São Paulo, quinta-feira, para se encontrar com o ex-presidente Lula, tem um significado muito importante. Demonstra que Temer sabe quem realmente está no comando, pois é evidente que o fracasso fez Dilma Rousseff desistir de tocar o governo sozinha e aceitar novamente Lula à frente de tudo, como ocorreu nos primeiros dois anos do mandato inicial dela.
Para uma pessoa pretensiosa e arrogante como Dilma Vana Rousseff, ter de se curvar perante Lula é uma espécie de interminável Via Crucis, que ela precisará suportar durante quase quatro anos, caso consiga permanecer no cargo, o que já parece altamente improvável.
Temer é um profissional da política. Embora nunca tenha sido bom de voto, conseguiu construir uma sólida carreira, iniciada como secretário de Segurança Pública de São Paulo, em 1985. No ano seguinte, elegeu-se deputado constituinte pelo PMDB e depois seguiu se reelegendo, tendo sido presidente da Câmara em três oportunidades. Na eleição de 2006 ficou como primeiro suplente, mas acabou conseguindo uma maneira de assumir o mandato que o levaria à vice-presidência da República em 2010 e 2014.
Pode não ser bom de voto, mas em matéria de bastidores é um grande mestre do ilusionismo. A tal ponto que conseguiu fazer com que Dilma e Lula sonhem que podem contar com ele para reestruturar a base aliada e dar uma sobrevida ao governo e ao PT. Sonhar ainda não é proibido, mas tudo tem limite.
Os fatos são incontestáveis. A presidente Dilma já não dispõe de apoio popular, foi eleita por um partido em decadência vertiginosa e atolado num oceano de lama, a crise econômica e social não tem a menor chance de ser resolvida a curto prazo e a ameaça de impeachment aumenta progressivamente.
Pois em meio a este quadro sinistro, a solução encontrada por Dilma foi entregar a articulação política justamente ao vice-presidente Temer, que é de outro partido e pode ser o grande beneficiário da derrocada do governo, pois assumirá o poder em caso de impeachment ou renúncia.
Sinceramente, é muita ingenuidade e até primarismo político achar que Michel Temer, aos 74 anos, vai abandonar o futuro que lhe resta, a pretexto de garantir a preservação de uma companheira de chapa que jamais lhe deu o menor prestígio e apoio. Na verdade, do alto de sua prepotência, Dilma Rousseff sempre fez questão de manter Temer numa espécie de freezer político. Foram quatro longos anos dentro do congelador, sofrendo um desprezo muito difícil de ser esquecido.
Agora, o poder já não está com Dilma, nem com Lula ou com o PT. Quem dá as cartas na política são os três mosqueteiros do PMDB – Michel Temer, Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Mas exatamente como acontece no romance de Alexandre Dumas, no qual os três mosqueteiros na verdade são quatro, a história se repete em Brasília, com a participação ostensiva do ex-deputado Henrique Eduardo Alves nas decisões do PMDB. Desde a posse de Dilma, em 1º de janeiro, Alves não tira os pés da capital e será nomeado ministro nos próximos dias.
Detalhe final: em política, jamais se pode dizer que exista vácuo de poder. Quando o pseudo detentor do poder revela fraqueza, seu espaço é imediatamente ocupado por algum adversário. Por isso, Temer não deve ser considerado aliado do PT, do governo, de Dilma ou de Lula. Ele trabalha exclusivamente para ele mesmo e para o PMDB, partido que ainda preside. O resto é folclore político e delírio de afogado, que tenta se abraçar a um tubarão para não submergir.
#ForaDilma2
| Corrupção é mesmo uma velha senhora. Só que esta senhora hoje tem RG, CPF, passaporte. E dá as cartas no sistema que o PT montou para financiar o seu projeto de poder |
| Manifestação em São Raimundo Nonato (PI) volta às ruas |
Com a participação confirmada de quase 400 cidades de diferentes portes, o Brasil volta às ruas neste domingo com o bordão Fora Dilma, expressão maior para tudo aquilo que se abomina no petismo, a começar pela institucionalização da corrupção.
Mais do que a absoluta inabilidade da presidente para gerir o apetite da base aliada e do amigo da onça PMDB, a combinação do caos na economia – inflação e desemprego em alta – com a roubalheira generalizada derrotou o que o PT considerava impossível: o apoio popular, incluindo aí os mais pobres, para quem o partido dizia governar.
As manifestações que os petistas adorariam poder limitar aos “coxinhas”, aos que não suportam ter de dividir viagens de avião com pobres, e a golpistas, ganharam apoio farto entre todas as faixas sociais e em lugares impensáveis.
A pequena cidade maranhense Satubinha, com pouco mais de 13 mil habitantes, que em outubro deu 81,9% de seus votos a Dilma, vai às ruas. São Raimundo Nonato, situada a 576 quilômetros de Teresina, que no último dia 15 de março abarrotou a praça em frente à Prefeitura, promete voltar hoje contra a mesma Dilma que arrebatou 77.6% dos votos de seus 32 mil habitantes. São apenas alguns exemplos.
A partir dos critérios absurdos da Secretaria de Assuntos Estratégicos, que define como classe C renda entre R$ 291 e R$ 1.019, Dilma propagou aos quatro ventos que fez o maior salto social do planeta, elevando mais de 40 milhões de brasileiros à classe média. Viu tudo ruir em segundos.
Bastou o aumento nas contas de luz para quebrar o encanto. E esse foi apenas o primeiro dos ajustes necessários para corrigir a quantidade de besteiras feitas no primeiro mandato. Outros virão. Talvez ainda mais graves e mais caros.
O curto-circuito se completa com as roubalheiras descobertas, uma atrás de outra, que, além da Petrobras, chega às obras de energia e de transporte, na sagrada Caixa Econômica.
Corrupção, como disse Dilma, é mesmo uma velha senhora. Só que esta senhora hoje tem RG, CPF, passaporte. E dá as cartas no sistema que o PT montou para financiar o seu projeto de poder.
Com índices de desaprovação nos píncaros – 64%, de acordo com o Ibope – e míseros 12% de avaliação positiva, ao governo petista resta apenas uma torcida: que os números das manifestações de hoje fiquem aquém dos de 15 de março. Tendo a desfaçatez como marca registrada, um milhão e meio será cantado como vitória. Menos de um milhão, então, o Planalto fará festa.
Nesta altura, o alvo não é Dilma, mas Lula, que a criou, o PT e tudo aquilo que ele passou a simbolizar: um governo que enganou, fez pouco, mentiu a quem nele apostou. O partido que privatizou o Estado para si, que se elegeu para combater todos os males e se tornou o senhor absoluto de todos os males. Que fez e faz o que condenava com veemência. Que enriqueceu em nome dos pobres.
O Fora Dilma é o Fora Tudo Isso.
Brasil: entre a utopia e a descrença
Diz-se que o Brasil cresce como uma galinha voa. Um salto, uma queda; outro salto, outra queda e assim sucessivamente. No alto, todos acreditamos que lá ficaremos e que o futuro nos reserva bondades. Em baixo, achamos que logo estaremos por cima. Se as coisas andam mal, logo melhorarão e o Deus brasileiro se encarregará de consertar nossos desacertos.
Há toda uma literatura sobre os estados de espírito brasileiros. Desde Caminha que, em sua carta ao Rei, assegurava que, mesmo não se tendo visto coisa alguma, na terra descoberta havia prata e ouro e que, "querendo-a aproveitar, dar-se-ía tudo nela!"
Realista e objetivo, Capistrano de Abreu nos “Capítulos da História Colonial” (1928), anotou nas conclusões em que descreveu o Brasil de 1800: “Os proprietários rurais... prosseguiam na lavoura aleatória de drogas de luxo para o estrangeiro, esbanjando as riquezas naturais... Vítima dessa latronicultura, a escravidão africana condenava-se à imobilidade e ao vácuo.”
Seu grande discípulo e admirador, Paulo Prado, resumiu na primeira frase do “Retrato do Brasil” (1928) o sentimento profundamente descrente de que era possuído: “Numa terra radiosa vive um povo triste.” E, ao concluir o livro, comenta nosso “profundo indiferentismo, feito de preguiça física,..., de submissão resignada diante da fatalidade das coisas.... Explosões esporádicas de reação e entusiasmo apenas servem para acentuar a apatia cotidiana.”
E como se fosse capaz de antever o estado em que nos encontramos hoje anota: “A administração pública faliu... Assoberbada num afobamento tonto, ficou atrás: é quase um empecilho e um trambolho ... Os homens, de incapazes, tornaram-se desonestos e, pela cumplicidade dos apaziguamentos eleitorais, aceitaram. O consórcio das funções administrativas com os interesses mercantis. A fragilidade humana fez o resto, que é a vergonha da nação”.
E assim fomos atravessando o Século XX: uma crise política, institucional e econômica atrás da outra. A expectativa benevolente do futuro, porém, a que se manifesta no alto do voo da galinha e se mantém mesmo nas épocas más, esteve sempre presente.
No ano 2000, quando o Brasil festejava o Quinto Centenário em tempos de crescimento modesto indagava-me em artigo publicado na revista “Política Externa” sobre os valores absolutos que todos os brasileiros – independentemente de seu status social ou de sua origem regional– partilhavam. Cheguei a três: a unidade, a coesão territorial, linguística e nacional que caracteriza o país aos olhos de todos os que nele nascemos e/ou vivemos; a grandeza física, a dimensão gigantesca de um dos cinco maiores países do mundo; e o que qualifiquei então de crença de futuro, ou seja, naquele momento esperado em que a grandeza física e a unidade virão a criar o grande país presente desde tempos imemoriais no nosso imaginário coletivo: a utopia brasileira. Não mais voos de galinhas, mas um crescimento sempre voltado para o alto da curva.
À época, tomei conhecimento de uma intrigante tela intitulada “Os Descobridores”, pintada em 1900 por Belmiro de Almeida para as comemorações do Quarto Centenário. Longe do ufanismo de Affonso Celso e mais próximo do fatalismo de Paulo Prado, Belmiro, em vez de se fixar nos momentos mais grandiosos do descobrimento, decidiu figurar os dois degredados aqui deixados por Cabral. Dois seres humanos em condições patéticas. Belmiro os mostra em situações polares: um, de pé, olha para fora, para o mar, onde já velejava a esquadra a caminho das Índias, busca o horizonte, a Europa, a metrópole perdida; o outro recostado à sombra de uma árvore, olha para dentro do país descrito por Caminha, em atitude aterrorizada e desesperançada.
O quadro é inquietante. Sugere uma quantidade de reflexões sobre a origem do Brasil e da sociedade brasileira. Nada de imagens heroicas. O quadro de Belmiro apresenta-se como uma poderosa metáfora da relação do Brasil consigo mesmo e do Brasil com o mundo: uma vaga sensação de degredo, de afastamento que se expressa nas atitudes ambivalentes de oferecimento e recusa; de busca e de alheamento; de integração e de ensimesmamento.
Inspirado nas perspectivas otimistas que o novo milênio nos abria então, vi no quadro de Belmiro a expressão de uma extraordinária grandeza potencial. Grandeza, unidade e visão do futuro. As possibilidades ilimitadas abertas mesmo aos projetos que se iniciam da forma mais modesta. A ideia de que aqueles dois miseráveis seres humanos largados na costa da Bahia vieram a se transformar em milhões de brasileiros, ocupando uma imensa extensão territorial, unidos em sua brasilidade.
Hoje, vendo o país novamente no rés do chão do voo da galinha, às voltas com gravíssimos problemas de corrupção, pergunto-me se ainda partilhamos da visão do futuro que sempre nos uniu. Ou se nos recolhemos fatalmente à descrença, como sugere Lima Barreto no “Triste fim de Policarpo Quaresma”: “Entre nós tudo é inconsistente, provisório, não dura."
Luis Felipe de Seixas Corrêa (Diplomata, chefiou a missão do Brasil na ONU e na OMC, e foi por duas vezes secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores (1992 e 1999-2001)
Há toda uma literatura sobre os estados de espírito brasileiros. Desde Caminha que, em sua carta ao Rei, assegurava que, mesmo não se tendo visto coisa alguma, na terra descoberta havia prata e ouro e que, "querendo-a aproveitar, dar-se-ía tudo nela!"
| Belmiro de Almeida, "Os descobridores" (1899) |
No mesmo espírito, o Conde Affonso Celso, lá pelos idos de 1900, na crise do início dos tempos da República Velha, dizia, em seu “Porque me Ufano de Meu País”: “Ninguém querendo trabalhar morrerá de fome. Parece país de milionários tão largamente se gasta.” E assegurava que “todos os nossos homens políticos brasileiros levam as suas famílias à miséria. Não se locupletam à custa do benefício público.” Parecia realmente acreditar na ilusão...
Realista e objetivo, Capistrano de Abreu nos “Capítulos da História Colonial” (1928), anotou nas conclusões em que descreveu o Brasil de 1800: “Os proprietários rurais... prosseguiam na lavoura aleatória de drogas de luxo para o estrangeiro, esbanjando as riquezas naturais... Vítima dessa latronicultura, a escravidão africana condenava-se à imobilidade e ao vácuo.”
Seu grande discípulo e admirador, Paulo Prado, resumiu na primeira frase do “Retrato do Brasil” (1928) o sentimento profundamente descrente de que era possuído: “Numa terra radiosa vive um povo triste.” E, ao concluir o livro, comenta nosso “profundo indiferentismo, feito de preguiça física,..., de submissão resignada diante da fatalidade das coisas.... Explosões esporádicas de reação e entusiasmo apenas servem para acentuar a apatia cotidiana.”
E como se fosse capaz de antever o estado em que nos encontramos hoje anota: “A administração pública faliu... Assoberbada num afobamento tonto, ficou atrás: é quase um empecilho e um trambolho ... Os homens, de incapazes, tornaram-se desonestos e, pela cumplicidade dos apaziguamentos eleitorais, aceitaram. O consórcio das funções administrativas com os interesses mercantis. A fragilidade humana fez o resto, que é a vergonha da nação”.
E assim fomos atravessando o Século XX: uma crise política, institucional e econômica atrás da outra. A expectativa benevolente do futuro, porém, a que se manifesta no alto do voo da galinha e se mantém mesmo nas épocas más, esteve sempre presente.
No ano 2000, quando o Brasil festejava o Quinto Centenário em tempos de crescimento modesto indagava-me em artigo publicado na revista “Política Externa” sobre os valores absolutos que todos os brasileiros – independentemente de seu status social ou de sua origem regional– partilhavam. Cheguei a três: a unidade, a coesão territorial, linguística e nacional que caracteriza o país aos olhos de todos os que nele nascemos e/ou vivemos; a grandeza física, a dimensão gigantesca de um dos cinco maiores países do mundo; e o que qualifiquei então de crença de futuro, ou seja, naquele momento esperado em que a grandeza física e a unidade virão a criar o grande país presente desde tempos imemoriais no nosso imaginário coletivo: a utopia brasileira. Não mais voos de galinhas, mas um crescimento sempre voltado para o alto da curva.
À época, tomei conhecimento de uma intrigante tela intitulada “Os Descobridores”, pintada em 1900 por Belmiro de Almeida para as comemorações do Quarto Centenário. Longe do ufanismo de Affonso Celso e mais próximo do fatalismo de Paulo Prado, Belmiro, em vez de se fixar nos momentos mais grandiosos do descobrimento, decidiu figurar os dois degredados aqui deixados por Cabral. Dois seres humanos em condições patéticas. Belmiro os mostra em situações polares: um, de pé, olha para fora, para o mar, onde já velejava a esquadra a caminho das Índias, busca o horizonte, a Europa, a metrópole perdida; o outro recostado à sombra de uma árvore, olha para dentro do país descrito por Caminha, em atitude aterrorizada e desesperançada.
O quadro é inquietante. Sugere uma quantidade de reflexões sobre a origem do Brasil e da sociedade brasileira. Nada de imagens heroicas. O quadro de Belmiro apresenta-se como uma poderosa metáfora da relação do Brasil consigo mesmo e do Brasil com o mundo: uma vaga sensação de degredo, de afastamento que se expressa nas atitudes ambivalentes de oferecimento e recusa; de busca e de alheamento; de integração e de ensimesmamento.
Inspirado nas perspectivas otimistas que o novo milênio nos abria então, vi no quadro de Belmiro a expressão de uma extraordinária grandeza potencial. Grandeza, unidade e visão do futuro. As possibilidades ilimitadas abertas mesmo aos projetos que se iniciam da forma mais modesta. A ideia de que aqueles dois miseráveis seres humanos largados na costa da Bahia vieram a se transformar em milhões de brasileiros, ocupando uma imensa extensão territorial, unidos em sua brasilidade.
Hoje, vendo o país novamente no rés do chão do voo da galinha, às voltas com gravíssimos problemas de corrupção, pergunto-me se ainda partilhamos da visão do futuro que sempre nos uniu. Ou se nos recolhemos fatalmente à descrença, como sugere Lima Barreto no “Triste fim de Policarpo Quaresma”: “Entre nós tudo é inconsistente, provisório, não dura."
Luis Felipe de Seixas Corrêa (Diplomata, chefiou a missão do Brasil na ONU e na OMC, e foi por duas vezes secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores (1992 e 1999-2001)
A dura vida política
Frente ampla do atraso
Observando o que acontece com o PT fica-se a pensar na possibilidade desse partido não ter construído sozinho suas estratégias para alcançar o poder e lá permanecer. Afinal, parece não haver mentes brilhantes na grei petista.
Tampouco Lula da Silva é um gênio do jogo político ou um estadista como exageram alguns. Sem dúvida, foi escolhido pela cúpula petista e algo acima por sua retórica verborrágica que faz dele um enganador bem-sucedido. Além disso, Lula se ajustou hipoteticamente à ideologia marxista como uma espécie de proletário. Ajudou sua origem simples e o fato de ter passado rapidamente pelas lides metalúrgicas. Construiu-se, então, a imagem do homem comum tão bem aceita pela massa por transmitir aquela agradável sensação de identidade: ele é um de nós que chegou lá.
Habilmente a propaganda consumou o culto da personalidade que ampliou o poder de enganação do “pobre operário”, contra o qual toda crítica foi tomada como preconceito e heresia. Lula da Silva consagrou o detestável politicamente correto que inibiu os que poderiam arranhar seu santo nome.
Com medo de sua popularidade qualquer oposição, partidária ou institucional, calou-se diante de seus desmandos, de suas gafes, de seu linguajar chulo e insultante à língua portuguesa. E essa aceitação incondicional, mais a propaganda de fazer inveja a Goebells deram aos “mandarins” petistas e a Lula da Silva a força que parecia os tornar invioláveis.
No entanto, se Lula foi hábil como orador de porta de fábrica, perito como politiqueiro, nunca administrou o país. Seu negocio foi jogar futebol, comer churrasco e fazer viagens dignas de um emir. Em suma, Lula é um falsário e uma fraude construída não só pelo PT, mas por uma organização internacional, o Foro de São Paulo, fundado por Lula, Fidel Castro e outros do figurino esquerdista. O objetivo do Foro é promover a integração da América Latina e formar a Pátria Grande Comunista através de partidos, entidades de classe, ONGs, movimentos sociais.
Na quarta tentativa o PT chegou ao poder mais alto da República. Não foi preciso dar um tiro sequer. Lula vestiu Prada, mudou o discurso, deslumbrou a hoje achincalhada classe média composta por intelectuais, estudantes, professores, artistas, religiosos, profissionais liberais, jornalistas, funcionários públicos, que fizeram de sua ideologia uma religião, do PT uma seita e sentiram-se guerreiros imortais da luta de classes. Lula prometeu tirar os pobres da pobreza. Aos ricos garantiu mais lucros.
Ao tomar posse a nova classe dirigente deu continuidade a politica macroeconômica do governo anterior, antes criticado de modo estridente, inclusive, aos berros de fora FHC. Não foi dado calote no FMI nem se rompeu com os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, utilizou-se a política econômica antes xingada de entreguista e neoliberal.
Por outro lado, avançou a centralização do PT que dominou o Legislativo, o Judiciário e significativa parcela dos meios de comunicação. Na mesma linha intervencionista e autoritária houve várias tentativas de censurar a imprensa, como as Comissões de Redação, a criação da ANCINAV (Agência Nacional de Cinema e Áudio Visual) e a instituição do CFJ (Conselho Federal de Jornalismo). Agora o governo petista fala em regulação da mídia e Rousseff apontou a necessidade de punir os “crimes” cometidos na Internet.
Mas se o Foro de São Paulo é comunista, como poderia dar certo se esse sistema fracassou em todo mundo? Quer melhor exemplo de fracasso econômico e social do que o da Venezuela, Bolívia, Argentina? Quanto a Lula da Silva, se surfou por 12 anos na demagogia encontrou o fim de todo malandro: foi engolido por sua esperteza. Isso se deu quando ele elegeu o “poste” Rousseff. Nos quatro anos em que continuou como presidente de fato, ele e sua criatura que não consegue juntar uma frase com outra, detonaram a economia Brasileira, enquanto a corrupção desenfreada atingia seu auge com o escândalo do petrolão.
O PT tenta resistir, fala em hegemonia do partido, propõe tirar verbas da imprensa não domesticada, proclama-se inocente. Entretanto, não há governo que resista quando a economia vai mal. Em pânico, os dirigentes petistas percebem que até Lula da Silva não é mais o mesmo. Rousseff, a incompetente, totalmente desacreditada é descartável e já foi substituída por seu vice Michel Temer (PMDB), mas sem Lula o PT acaba, pois quem poderá substituí-lo em 2018? Mercadante? Haddad? Marco Aurélio Garcia? Rui Falcão? Impossível.
Então, quem sabe se por inspiração do Foro de São Paulo, Lula da Silva já sonha com a criação de uma Frente Ampla, que esconderia o PT desmoralizado e englobaria partidos de esquerda, ONGs, ditos movimentos sociais, enfim, tudo que compõe a tranqueira esquerdista do Brasil. Os candidatos não sairiam pelo PT, mas da Frente Ampla do Atraso. Uma ideia engenhosa. Resta saber se vai dar certo.
E depois do dia 12?
Dia 12 é mais um dia especial para o Povo Brasileiro forçar a saída de quem ainda insiste em ficar no Poder. Quem sabe esse grupo insólito saia do poder de uma vez já na próxima semana. Seja por renúncia, seja por impeachment. E isso é absolutamente democrático. Mas, e depois? O que faremos? Um novo grupo político ao entrar, assume e ainda vai ter que enfrentar os problemas e desafios cujas dimensões ainda não se tem muita certeza, verdadeiros icebergs, cujos pedaços vem sendo revelados dia após dia, em cada nova operação policial.
O que é melhor e mais efetivo? Combater efeitos ou causas? Certamente, a causa. O Brasil está adoentado há longa data, desde o início de sua existência, quando o Estado se instalou antes do Povo. Ok, nada podemos fazer em relação ao passado, mas em relação ao futuro, sim. Qual é a causa então? Simples, atávico, lógico demais para ser despercebido, mas assim sempre o foi: a concentração excessiva de poderes e dos recursos públicos.
Cerca de 75% de toda a arrecadação tributária vai para Brasília. Praticamente todo o poder político se concentra em Brasília. E os modelos de organização, tanto do Estado, quanto dos Poderes, quanto das esferas de poder, que colocaram o município como “ente federativo” criaram esse Frankenstein federativo, que é na verdade, um modelo absolutista disfarçado de democracia.
O que fazer? Refundar o Brasil. Sim, parece radical, mas se você observar todo o sistema, em todos os setores da vida pública e até empresarial do País, tudo apodreceu. Uma constituição que tem 2/3 que nada valem, garante esse quadro cada vez mais surreal. Um conjunto de normas tributárias que passam dos 4,2 milhões desde 1988, juntamente com mais de 80 emendas constitucionais, revelam o mar de insensatez tupiniquim.
A solução é desconcentrar os poderes, em todos os sentidos. Financeiro, político, legislativo, administrativo e judiciário. Refundar o Brasil para uma verdadeira Federação de estados autônomos e cidades que possam escolher seus prefeitos sob contrato ou eleição sem partidos políticos. E porque não conselheiros voluntários no lugar de vereadores pagos? Precisa mexer no queijo de todos.
Quais os benefícios de uma refundação? Um novo modelo federativo, sob um novo texto constitucional, de princípios, tal como a Carta americana com 7 artigos e apenas 27 emendas ao longo de 225 anos desde sua independência.
Tal modelo permitirá todas as reformas que tanto queremos: do sistema tributário, do sistema político, do sistema legislativo reformando o modelo de representatividade, possibilitando a completa abertura do mercado brasileiro, interno e externo. Rever o papel das empresas, que devem deixar de ser recolhedoras de impostos para apenas produtora de bens e serviços. Nenhuma nação funciona sem o sangue monetário, sem atividade econômica.
Para quem compreendeu, por estas simples linhas, o que é CAUSA e o que é EFEITO, vai ficar fácil perceber que os benefícios advindos de um novo modelo federativo, pleno, colocará o Brasil olhando para o II Milênio, deixando de olhar para trás, como sempre fez até agora. E compreenderá que, como dizia Einstein, é insanidade imaginar que se possam obter resultados diferentes fazendo as mesmas coisas de sempre.
Dia 12, nas ruas? SIM! Mas está na hora de revermos nossa agenda, nossa pauta como Nação.
Thomas Korontai
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