sábado, 17 de outubro de 2026

Flávio na TV Globo: candidato foge das perguntas e deixa dúvidas sobre suas ideias e propósitos

O candidato Flávio Bolsonaro escolheu usar a entrevista à TV Globo para falar com sua bolha bolsonarista. Falou superficialmente como fará o prometido ajuste fiscal, defendeu o armamento da população e subiu o tom em alguns momentos. Mas não dirimiu dúvidas.

A estratégia de Flávio foi usar cada pergunta para fazer propaganda de si mesmo. A técnica pode parecer esperta, mas o candidato perdeu a oportunidade de esclarecer dúvidas sobre suas propostas. Não respondeu de forma satisfatória a quase nenhuma das questões sobre o que pretende fazer caso seja eleito. Essa estratégia não ajuda a conquistar eleitores indecisos e independentes. Ao contrário, mantém o candidato falando para sua própria bolha.

Ao longo da entrevista, Flávio tentou usar as perguntas como trampolim, para atacar seu adversário, em vez de esclarecer suas próprias propostas. Não explicou a origem do dinheiro que recebeu nem os pedidos insistentes que fez a Daniel Vorcaro relacionados a esses recursos.

Sobre ajuste fiscal, ele continuou não dando qualquer consistência à sua promessa de fazer um corte de R$ 200 bilhões no primeiro ano de governo. O candidato tentou fazer omelete sem quebrar os ovos. Disse que pretende garantir aumento real para o salário mínimo, a indexação das aposentadorias ao salário mínimo e manter os pisos constitucionais da saúde e da educação. E não disse onde cortará. Segundo ele, o ajuste fiscal será tirar Lula do poder, o que sinceramente nada explica do programa econômico do candidato.

Também mistura o prejuízo das estatais dependentes do Tesouro com o resultado das empresas estatais em geral. O lucro da Petrobras, por si só, cobre todo o desequilíbrio das demais estatais. Claro que isso não resolve o déficit de empresas como os Correios, que o pai dele prometeu privatizar e não o fez.

Ao ser questionado sobre o fim da escala 6x1, aproveitou de novo para fazer propaganda, mas não explicou por que mudou tão drasticamente de posição sobre o tema. Renata Lo Prete lembrou que aliados do candidato afirmam que, se ele vencer, a proposta será alterada. Flávio garantiu que respeitará o texto aprovado pelo Congresso.

O candidato da extrema direita também fugiu da pergunta sobre Kassio Nunes Marques para voltar a atacar Alexandre de Moraes, ministro que condenou seu pai e outros réus por tentativa de golpe de Estado.

O candidato recorreu ainda a uma frase de apelo populista: “Se eu for eleito, o meu pai será o povo brasileiro”. A declaração parece buscar identificação com o eleitorado evangélico ao evocar uma passagem bíblica em que Jesus afirma que sua família ( mãe e irmãos) são “todo aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos Ceus”, e alargou a ideia de família nuclear.

Na área de segurança pública, Flávio não respondeu sobre o projeto que defendeu para retirar o registro das balas, o que dificultaria a identificação dos criminosos. E de novo atacou. Essa estratégia costuma provocar efeito adverso.

Flávio usou a entrevista como palanque em vez de responder às perguntas com dúvidas razoáveis sobre a sua candidatura. Isso o faz lacrar entre os que já são seguidores, mas há dúvidas sobre se isso consegue convencer os indecisos e os independentes. Terminou a entrevista sem aproveitá-la como oportunidade para responder às perguntas que existem sobre a sua candidatura. De novo ele nega que tenha havido uma tentativa de golpe, chamou de “golpe da Disney” e repete que o julgamento foi uma farsa. Ou seja, quem tem medo de que história se repita com ele no poder permanece não teve elementos para superar a apreensão.

Míriam Leitão

A dupla cara do futuro

De repente, o surpreendente resultado das eleições do chamado primeiro turno revela aquilo que o bolsonarismo e a direita não são nem aquilo que as esquerdas e o PT tampouco são. O processo político brasileiro, há muito, se desenrola fora do âmbito do racional e do compreensível e longe do que é propriamente político e a política.

Sem substância teórica e doutrinária e, portanto, sem competência para se propor como protagonista legítima do processo histórico brasileiro, a direita finge. Tanto finge o que é quanto o que não é.

Utilizando os meios técnicos abundantes e fáceis de manipulação das vontades, a direita conseguiu resultados espetaculares do ponto de vista numérico. Pessoas inexpressivas e até desconhecidas do eleitor tradicional obtiveram votações muito acima do que é numericamente normal num país como o Brasil.
Equipararam-se às abstenções, as grandes campeãs de voto em nosso país. Com isso, o eleitor brasileiro confirma-se como personagem significativo da eleição para não eleger, para não legitimar o regime político, para desacatar as instituições.

O eleitor brasileiro há muito usa a eleição para mandar um recado antipolítico aos políticos. A abstenção mais o voto em branco e os ausentes são indicativos de um partido potencial, discordante e crítico, que porém não consegue traduzir na mensagem propriamente política de mandatos de contestação o seu não voto.

No seu comportamento antipolítico e antidemocrático, essa parcela do eleitorado brasileiro é a presença do ausente. Essa ausência é politicamente efetiva como renúncia a um direito, mas também como anulação prática do direito de todos, o de se fazer representado nas instituições e no contrato político implícito que lhe dá sentido.

Não é alienação no estrito sentido do conceito. É rudimento de ação política como expressão não de vontade, mas de raiva, portanto, como ação política inacabada. Que, porém, é levada a termo por aqueles que na direção contrária dão-lhe o sentido que não deveria ter enquanto ato de usurpação de direitos do eleitor omisso.

O que, com relutância, pode ser chamado de erro das esquerdas tem sido o de levar a sério as armadilhas da polarização ideológica da direita. É o erro de aceitar como desafio o que, ficou claro agora, é apenas teatro e circo. Mas é claro que não é, na direita, engano e brincadeira.

É impossível não prestar atenção, nestes dias, no fato de que a direita acha que política é isso mesmo. Diferente do que foi a concepção dos eleitores paulistas que deram a Tiririca mais 1,3 milhão de votos em 2010 para a Câmara dos Deputados e o reelegeram mais três vezes. Nessa votação, queriam dizer que todo político é um palhaço.

Neste ano de 2026, Tiririca mudou de partido e de domicílio eleitoral para o Ceará, seu estado de origem. Recebeu míseros 5.500 votos, 0,5% de sua votação original em São Paulo. Depois de quatro mandatos como deputado federal, Tiririca se convenceu de que não era propriamente um palhaço na política, mas um palhaço transformado em político. Retornou ao lugar de origem para recriar-se como outra pessoa, metamorfoseado em político. Não foi reconhecido. A condição de palhaço da política apossara-se dele.

Esse caso, de certo modo, lembra o filme de Roberto Rossellini, estrelado por Vittorio De Sica, “Il generale Della Rovere” (intitulado “De crápula a herói” no Brasil). História verdadeira do trapaceiro Indro Montanelli, preso em Milão durante a ocupação alemã da Itália. Aliciado para fingir-se de general Della Rovere, da Resistência, e identificá-lo, na tortura, cuja identidade acaba assumindo e é finalmente fuzilado no lugar do herói italiano.

Aparentemente, Tiririca entrou num processo de ressocialização política, porém sociologicamente inviável. O político como palhaço tinha sentido na pessoa sem identidade porque fora do lugar institucional e da condição de cumpridor do roteiro próprio da política que pode transformar o palhaço em político.

O pós-eleitoral mostrou aqui a dupla personalidade do novo político brasileiro de direita. Na política, as duplas personalidades se desconstroem reciprocamente. Esse processo manifestou-se tardiamente durante a campanha eleitoral. Se eleito, Bolsonaro chegará ao poder completamente sem poder, pois destituído de autenticidade. O povo brasileiro terá dúvida quanto ao que ele diz que faz ou quer fazer e o que ele é não sendo.

Do lado das esquerdas, são elas expressão do lado oposto da polarização: porque sem duplicidade. Historicamente, as esquerdas são oposição mesmo no poder. Oposição ao sistema, e não oposição ao governo. Pensamento e ação crítica em relação às contradições antissociais do poder do lucro sem limite e sem ética.

Fortalecer, e não reduzir a democracia

Um paradoxo marca a disputa presidencial de 2026: no primeiro turno, predominou um clima de insatisfação e desânimo entre os eleitores, o que agora é contrabalançado no segundo turno pela enorme mobilização nas ruas e nas redes sociais. Ambos os sentimentos são expressão dos avanços democráticos do país e seus limites. O voto e a participação popular continuam muito relevantes, mas há pontos problemáticos nas instituições e um medo de retrocesso democrático. O que está em jogo é como fortalecer e melhorar a democracia brasileira.

O Brasil não tem tradição democrática forte em sua história. Ao contrário, foram predominantes o autoritarismo e formas oligárquicas, com exclusão de muitos atores da participação política plena e acesso privilegiado ao poder para determinadas elites. Somente a partir da redemocratização que depôs o regime militar e, mais ainda, com a promulgação da Constituição de 1988 é que a democracia se tornou o eixo central da política brasileira.


Cerca de quarenta anos depois, dentre os vários avanços democráticos obtidos, três mais amplos podem ser destacados. O primeiro é o processo ininterrupto de eleições livres e competitivas, em todos os níveis da Federação. Houve alternância no governo em várias esferas, a oportunidade de eleger ou punir os representantes e nunca um partido ou um líder teve a força para ser dono do eleitor. Grupos conseguem ter maior hegemonia por um tempo, mas até agora houve pluralismo político e social suficiente para controlar os excessos do poder.

A existência de governantes de partidos diferentes nos estados da Federação e em importantes cidades do país constitui uma das formas de pluralismo. A necessidade de construir coalizões no Congresso Nacional também evitou um poder desmedido nas mãos do presidente da República. Como contraponto, criticava-se a necessidade de negociações contínuas e as formas que elas se realizavam, esse sim um ponto delicado para republicanização do sistema político. Entretanto, imagine o que pode acontecer se não houver freios e contrapesos advindos do próprio voto. Esse medo deve nos guiar para evitarmos formas de autocratização, ao estilo do PRI mexicano ou, pior, da Rússia de Putin, e ainda na mesma linha de casos como da Nicarágua e El Salvador contemporâneos.

O combate à concentração do poder não ficou apenas no pluralismo derivado das eleições. Um segundo avanço democrático derivado da Constituição de 1988 foi a criação de um sistema institucional baseado em múltiplos controles. A fiscalização de governantes, agentes políticos e da burocracia pública aumentou, obrigando-os a responder mais a critérios de probidade, legalidade e mesmo de qualidade das políticas públicas. Ministério Público, tribunais de contas, magistratura e órgãos como a Receita Federal e a Polícia Federal puderam atuar para ampliar a responsabilização democrática do país.

Nem sempre as instituições de controle agiram corretamente. No caso da Lava-Jato, obviamente havia casos de corrupção detectados, porém, a ânsia por poder de parte dos seus protagonistas os levou a burlar normas legais e direitos básicos de defesa. O STF também tem sido essencial na defesa da Constituição e da democracia - sem ele, teríamos tido sim um golpe de Estado no final do governo Jair Bolsonaro. Não obstante, o excesso de monocratismo dos ministros e a sua entrada direta no jogo político têm atrapalhado o seu papel constitucional.

Dessa argumentação deriva uma dupla conclusão. De um lado, é fundamental ter controles institucionais fortes sobre os eleitos, bem como sobre outros agentes políticos e burocráticos. Se o Supremo Tribunal Federal, a PF, o Ministério Público e os tribunais de contas forem enfraquecidos, parte da democracia brasileira vai para o ralo. Mas, por outro lado, os controladores não devem estar acima da lei e precisam ser contidos quando ultrapassam os parâmetros constitucionais básicos. A democracia não pode suportar nenhum tipo de excesso de poder.

O avanço democrático recente ancorou-se principalmente na expansão e garantia de um conjunto amplo de direitos, com ênfase para os grupos minoritários e mais vulneráveis. Como terceira grande conquista, esse ponto é central porque a democracia tem seu ponto de partida na cidadania. Quanto mais os cidadãos puderem alargar suas possibilidades e oportunidades, mais democrática será uma nação.

Direitos políticos, civis e sociais foram ampliados pela nova ordem democrática. Analfabetos ficaram quase um século sem votar e foram incluídos integralmente na arena eleitoral. Comunidades indígenas foram exploradas por décadas e ganharam proteções especiais. Infelizmente, os feminicídios ainda são uma marca horrenda de nossa sociedade, mas também houve uma ampliação inédita das formas de proteção às mulheres. A lista é longa e poderiam ser citadas conquistas vinculadas à questão racial ou às pessoas com deficiência. Desigualdades de tratamento persistem, só que existem agora mecanismos democráticos para combatê-las.

A ampliação das oportunidades e da igualdade por meio de políticas sociais foi um campo central na luta por direitos. A expansão da educação, a universalização da saúde e a garantia de condições básicas à população mais pobre são conquistas civilizatórias que terão sempre muita gente para defendê-las no Brasil. A tentativa de extinguir ou reduzir programas sociais bem-sucedidos leva os governantes a perder a maior parte de sua popularidade. Essa é uma das heranças da Constituição de 1988 que será muito difícil de ser suplantada enquanto houver democracia.

A liberdade para se associar, expressar opiniões e ir às ruas é uma marca dessa era de direitos impulsionada pela redemocratização. A participação social não substitui o voto, contudo, os eleitos precisam prestar atenção nas mobilizações populares porque elas podem retirar a legitimidade e os cargos dos políticos. Em outras palavras, ganhar eleições é central na democracia, mas não define completamente o jogo democrático porque o povo brasileiro é livre para cobrar cotidianamente quem está no poder.

É importante lembrar disso num momento em que surgem grandes manifestações de massa que, como muitas outras do passado, apontam que maiorias eleitorais de ocasião não dão direitos a representantes ou para os possíveis presidentes, seja Bolsonaro ou Lula, fazerem o que bem entenderem. A sociedade organizada ainda é um limite para a ação dos políticos eleitos. Por isso, muitos deles preferem a PEC da Blindagem ou mesmo projetos autocráticos de poder, e nessas horas que a voz das ruas precisa ser acionada - do contrário, ela poderá ser calada por muitos e muitos anos.

Os limites à democracia brasileira existem e ficaram mais claros nos últimos tempos. A entrada do crime organizado na política, a falta de controle sobre os recursos públicos nas mãos de parlamentares e presidentes de partidos, o debilitamento de um STF politizado e com membros enrolados com negócios privados tenebrosos, entre outros pontos, revelam que precisamos continuar numa trilha de reformas democráticas.

Se a maior parte do eleitorado parecia desanimada e insatisfeita no primeiro turno é porque desejava mais democracia, e não menos. Do mesmo modo, se houver propostas que reduzam o escopo de direitos das pessoas e que limitem a possibilidade de controle do poder, há boas chances de haver reação social contra isso. Uma nova leva de lideranças jovens mostrou nesta eleição que o espaço para renovação começa a ser ocupado e as lideranças políticas precisam prestar atenção neste fenômeno.

A potencialidade democrática do país, sedimentada durante as últimas décadas, não é líquida e certa, todavia. Discursos e comportamentos autoritários estão presentes não só em lideranças políticas e movimentos partidários, como também em parte da população. Não se sabe se um projeto autocrático tem chance de acontecer efetivamente porque ele depende de muitas variáveis, mas há mais chances de ele ser ativado se duas coisas estiverem presentes: uma sensação de desordem social, pois a extrema direita aposta no caos para instalar gradativamente um modelo autoritário, e uma posição geopolítica que enfraqueça a soberania nacional.

Defender um Brasil soberano, no momento, não é apenas um nacionalismo vinculado a correntes políticas. A soberania hoje está atrelada à capacidade de evitar ataques à nossa democracia. Lutar pelo autogoverno dos brasileiros, e não ser governado por ordens emanadas de fora, é central para garantir os direitos de cidadania que custaram muitos para serem conquistados e instalados na Constituição de 1988.

Os resultados das eleições presidenciais de 2026 vão ser decisivos para ver quem defende o espírito democrático estabelecido pela Constituição de 1988 e reformas que sempre devem atualizá-la, e quem aposta na destruição do legado da redemocratização, enfraquecendo direitos de minorias e políticas públicas ampliadoras da cidadania. Se o segundo lado vencer o jogo, haverá uma disputa dos defensores da liberdade e da igualdade, com muita movimentação de rua, contra a possibilidade de começarmos a década seguinte com um regime mais autocrático do que democrático.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


Steven Levitsky: 'PL é antiliberal'

O sucesso de Flávio Bolsonaro (PL) nas urnas do primeiro turno das eleições presidenciais não surpreendeu o cientista político americano Steven Levitsky. Um dos autores do best-seller "Como as Democracias Morrem", publicado em 2018, ele já esperava que o candidato que desafia o atual status fosse bem-sucedido.

Um levantamento feito por ele havia mostrado que, desde a pandemia, 74% dos governos incumbentes perderam as eleições nas democracias ocidentais analisadas. Foram 40 de 54. Foi o caso do Brasil, que não reelegeu Jair Bolsonaro (PL) em 2022.

Para o cientista político e professor de Harvard, essa insatisfação é a chave para ler os resultados das urnas do primeiro turno. O resultado positivo nas urnas para Flávio indica, segundo Levitsky, que o país continua insatisfeito com o status quo que o PT de Lula representa. "Não é que essa maioria dos brasileiros seja autoritária. Parte desse eleitorado está votando contra o status quo", afirma.


Levitsky afirma que, se antes o mundo se dividia entre esquerda, centro, direita e suas gradações, hoje o espectro é melhor orientado pela chave do liberalismo e do antiliberalismo, ou seja, o autoritarismo.

A tendência ao autoritarismo é global. Na Alemanha, a AfD é um dos partidos mais populares. Os Estados Unidos são encabeçados por um presidente antiliberal. A defesa da democracia foi um mote abraçado pela campanha de Lula.

"Seria péssimo para a democracia se a defesa dela se tornasse uma questão partidária", diz Levitsky. "Para que a democracia esteja segura, todos os partidos precisam abraçá-la."

Para ele, não é o que ocorre no Brasil hoje. Ele diz que o PL (Partido Liberal), a outra grande legenda em atividade além do PT, é amplamente iliberal. "É um erro de nomenclatura chamá-lo de Partido Liberal", diz.

Levitsky critica, ainda, a falta de atenção do PT para a fragilidade da busca pela reeleição e a resistência aos incumbentes recentemente. Ele diz que o partido deveria ter aprendido as lições deixadas pela campanha à reeleição de Joe Biden, nos Estados Unidos, que acabou com uma renúncia à candidatura, uma campanha às pressas encabeçada por Kamala Harris e culminou na reeleição de Donald Trump.

No ano passado, era do Brasil que Levitsky tirava as lições. O americano viu com bons olhos quando Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, coisa que os Estados Unidos não fizeram quando Donald Trump estava em situação similar.

"É uma mensagem muito melhor do que a dos Estados Unidos, em que as instituições estenderam um tapete vermelho para alguém que tentou derrubar o resultado de uma eleição", afirma.

O candidato do PL se posiciona –e posiciona o próprio pai– como vítimas de uma caça às bruxas. É, como diz Levitsky, uma estratégia empregada por líderes autoritários ao redor do mundo e abraçada por Trump e por Keiko Fujimori, filha do ditador peruano Alberto Fujimori e hoje presidente do país.

Uma das plataformas de campanha de Flávio é conceder o perdão ao pai, movimento que Levitsky vê como "infeliz para a democracia brasileira". Ele afirma, porém, que não seria fatal para o sistema político. "Se essa é a plataforma dele e se ele for eleito pela maioria dos brasileiros, então é isso que terá que acontecer", diz.

Para o cientista político, o alinhamento de Flávio com o pai é mais preocupante para o país do que o alinhamento do candidato do PL com Trump. "Foi o pai dele que tentou derrubar uma eleição."

Levitsky afirma que o Brasil é um país cujo sistema político demanda que alianças para governar. E ele vê potencial nas instituições do país para frear uma guinada autoritária. É o caso do STF (Supremo Tribunal Federal) que, "mesmo em uma crise séria, ainda é uma instituição poderosa".

Ele afirma, ainda, que o Congresso Nacional, mesmo dominado pelo conservadorismo, vai demandar pragmatismo caso Flávio seja eleito. Isso porque, com 121 deputados federais eleitos de 513 vagas na Câmara dos Deputados, e 28 de 81 congressistas no Senado, o PL não tem maioria absoluta no Legislativo. Isso significa que, se alçado à Presidência, o senador precisará negociar a governabilidade.

"Os outros partidos de direita e o centrão vão ser parte da conversa e vão oferecer certas restrições ao potencial autoritarismo de Flávio", diz Levitsky. "Mas sempre que um país elege um presidente que não está totalmente comprometido com a democracia, ainda mais em um país em que essa figura é tão poderosa, é uma ameaça."

Com Flávio lá, contrapesos e democracia correm risco

Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro traria desafios importantes para a democracia brasileira. Condições muito favoráveis à concentração de poder somam-se ao histórico autoritário da família e do grupo político do candidato. Além da ampla maioria conservadora no Congresso, com forte presença bolsonarista, ele terá meios para pressionar o Supremo Tribunal Federal, tanto pela indicação de novos ministros quanto por processos de impeachment.

Flávio é o herdeiro político de Jair Bolsonaro e representa um movimento que atacou reiteradamente a legitimidade das eleições e as instituições democráticas. Poderá não repetir o brutalismo tosco do pai ex-militar dos porões da ditadura, mas isso não é suficiente para afastar os riscos.


A convergência em torno de uma agenda de flexibilização de direitos trabalhistas, retrocessos ambientais, cortes de benefícios sociais e favorecimento de interesses econômicos poderosos está dada. A questão mais grave é saber até que ponto essa aliança estaria disposta a sacrificar os mecanismos de controle do Executivo em caso de escalada antidemocrática.

Sabemos que o autoritarismo contemporâneo não precisa recorrer a tanques nas ruas ou ao fechamento do Legislativo. Democracias podem ser corroídas por governantes eleitos, mediante mudanças constitucionais, intimidação dos adversários e enfraquecimento obstinado das instituições.

Esse caminho tem sido franqueado em diversos países pela conveniência de elites tradicionais, num mundo em que o futuro é percebido por amplos setores sociais como incerto e perigoso. O acúmulo de crises (do trabalho, do clima, da tecnologia, da paz) parece apontar para o fim dos tempos, gerando medo e desorientação.

O cenário piora com o ativismo disruptivo do populista autocrático Donald Trump, aliado do bolsonarismo e protagonista, nos Estados Unidos e na política externa, de ataques à ordem e às convenções liberais. Com Flávio, o avanço da doutrina Donroe, que vê a América Latina como quintal, será incontível. E tem o hermano Milei, a versão libertária do perfeito idiota latino-americano —ainda que em rota de fiasco econômico.

O episódio recente da censura de Kassio Nunes Marques ao canal lulista de André Janones, a pedido da campanha de Flávio, ofereceu mais uma amostra de que a diligente subserviência política da bancada de magistrados suspeitos de direita está muito competitiva. A decisão virou alvo de disputa, mas é de se perguntar se os "checks and balances" funcionariam com um Executivo disposto a submeter os Poderes.

Poderá surgir um contrapeso, talvez de natureza paradoxal, à perspectiva de avalanche ideológica no exercício governamental. O centrão, embora identificado com a agenda conservadora, não pretende entregar de bom grado ao PL o comando da Câmara, aceitando o do Senado. Os interesses de ocasião e as disputas por influência e recursos tendem a mobilizar a velha tática de criar dificuldades para vender facilidades. Haverá também uma representação de esquerda e centro-esquerda, especialmente entre deputados.

Em caso de vitória de Lula, outros problemas virão, mas o jogo entre Poderes terá que ser jogado — lembrando que o presidente já enfrentou a bombástica rejeição de uma indicação ao STF.

O segundo mandato é o da vingança

Que bom que, para Flávio Bolsonaro, Flávio Bolsonaro já ganhou a eleição. Com isso podemos conhecer de antemão seu programa de governo, permitindo a cada setor da sociedade se preparar. Uma amostra pode estar simbolizada na caminhada de uma deputada catarinense pelas ruas de Florianópolis, comemorando a própria vitória estalando um chicote no asfalto. O chicote é um instrumento usado nos costados de mulas e de escravizados, para pô-los na linha ou castigá-los por insubordinação —você escolhe.


Assim que subida a rampa, o chicote presidencial vibrará firme sobre todos que impediram o golpe tentado por Jair Bolsonaro em 2022-23. Há uma dúvida sobre quais serão os primeiros atingidos, se três ou quatro ministros do STF ou se os militares que se puseram ao lado da democracia e ainda foram trabalhar no governo Lula.

O ataque ao Supremo talvez exija um arremedo legal, encenado pelo novo Congresso, mas a demissão, reforma ou até prisão dos atuais titulares das Forças só dependerá de uma canetada. O brigadeiro Carlos Baptista Junior, comandante da Aeronáutica sob Bolsonaro e autor do livro "Eu Disse Não! – Uma Trincheira Antigolpista", responderá pela ousadia. Em troca, as grades se abrirão e voltaremos a ter a alegre companhia dos generais Augusto Heleno, Braga Netto, Mário Fernandes —este, autor do plano "Punhal Verde e Amarelo", que previa o assassinato de autoridades— e demais anistiados.

A vingança contra o Itamaraty já foi anunciada pelo futuro chanceler Eduardo Bolsonaro, com a varrição de diplomatas de carreira e sua substituição por parças de clubes de tiro e de churrascos nos condomínios. Os órgãos de educação e pesquisa, dados a produzir saberes contrários aos negacionismos, conhecerão a mão pesada dos bolsonaristas —o recente incêndio numa universidade e iguais ameaças podem ser um indício. As artes e a cultura passarão a pão e água e os meios de comunicação serão reapresentados à censura.

Não são palpites. Historicamente, o segundo mandato é o da vingança.

Sempre que a cobertura de polícia toma a de política, fascistoides avançam

Não sei quem vai vencer a eleição. Flávio Bolsonaro é, em tese, favorito porque chegou à frente. Pesquisas apontam empate técnico com o presidente Lula. O precedente de nunca ter havido uma virada na eleição presidencial não é predição acima da dúvida nem um teorema. Há outro, que também não é um teorema como o de Pitágoras (a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa): em 2014, Dilma só virou sobre Aécio nas pesquisas cinco dias antes do segundo turno e acabou vencendo. Nos números da Quaest divulgados nesta quarta, o candidato do PL aparece com 46%, e o petista, com 44%. Acho que há uma novidade nestes dias: a cobertura política começou a falar um pouco de… política! Deixou de ser apenas um rodapé da seção de Polícia.

Os partidários de Lula têm feito atos Brasil afora que realmente impressionam. O de domingo, na Avenida Paulista e adjacências, disputa lugar entre os maiores da história do país. Nem de longe teve na grande imprensa a visibilidade que o fato exigiria em tempos normais. Em dias assim, certo equilibrismo em nome da isenção costuma privilegiar a administração dessa isenção em prejuízo da realidade. Talvez um dia isso seja revisto. E, pois, falemos mais de imprensa.

“Os Pilares da Sociedade” (1926), George Grosz

Nesses quatro anos da gestão Lula, dois movimentos se deram. Num sentido, a cobertura passou a ser implacável com a dita irresponsabilidade fiscal do governo. É muito difícil haver juízos “apenas técnicos” que sejam neutros, reconhecendo virtudes e defeitos ao menos. Não. É pauleira pura. No outro sentido, o bolsonarismo, que jamais abandonou a agenda golpista e reacionária, começou a ser normalizado. Perguntas de caráter até supostamente existencial têm sido feitas pelo isentismo profissional: “Os direitistas não têm o direito de se manifestar?”

Mas quando é que houve um miserável impedimento? Nunca. Convém não confundir a pregação de golpe de Estado com exercício da divergência, não é mesmo? Há coisas que chegam a ser risíveis. No domingo, no dia do grande ato dos eleitores de Lula na Paulista, um grupo de jovens resolveu pichar uma estação do metrô. O ora ultrarreacionário Tarcísio de Freitas, com fama de “moderado” na mídia, gravou um vídeo em que se referiu — sei lá se sabia o que estava dizendo ou se foi pautado por algum assessor com ou sem o concurso da IA — ao “paradoxo da tolerância”, de Karl Popper, na obra em dois volumes “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”.

Em síntese: os democratas não podem tolerar os que tentam solapar o regime justamente em nome da tolerância porque fazê-lo significa aceitar a premissa da intolerância. E não é que o homem que defende anistia para os golpistas se mostra, então, severíssimo com pichadores — e não penso que devam ser adulados —, mas passa a mão na cabeça dos que tentaram pôr fim à democracia, um plano que contemplava até o assassinato de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes?

Já recomendei aqui um livro de 1980: “Friendly Fascism: The New Face of Power in America”. É o fascismo que volta com um “sorriso”, com cara “amigável”. Mas, sabemos todos, se precisar, fuzila, como se viu em São Paulo.

Ora, senhor Tarcísio, os golpistas é que não podiam ser tolerados, não é mesmo?, segundo os fundamentos expostos por Popper. Ah, claro: se não leu, não cite.

Não sei quem vai vencer no dia 25. Mas é fato que a própria imprensa só começou a cuidar de eleição propriamente depois do primeiro turno — e, ainda assim, antecipando o desastre de Lula. A mobilização da rua petista está obrigando-a a falar do pleito. Desde que André Mendonça quebrou o sigilo da investigação ilegal que mandou fazer contra Alexandre, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, o jornalismo político não cuidou de outra coisa. Melhor para Flávio, não?, que tem um programa oculto.

Até agora, ninguém sabe onde ele vai aplicar o seu “tesouraço” que tanto encanta os mercados. Mendonça e Kássio não querem que os adversários do senador sugiram que os cortes serão feitos na área social, embora isso tenha sido vazado para a imprensa por gente da própria campanha para testar reações. O Flávio que diz que vai pôr fim à era petista só prometeu aumento de gastos. Adolfo Sachsida, um de seus coordenadores econômicos, diz que a revolução dos gastos sairá do enxugamento dos ministérios e do corte de supersalários. É uma piada.

Em suma: bastou a cobertura política falar um pouco de política, e Flávio se complicou porque, ora vejam!, é adversário dos fatos. Daqui a pouco alguém ainda tem uma ideia: “Vamos retomar a agenda de polícia e a caça ao Supremo, ou nosso homem ainda perde a eleição. E lá ficaremos nós sem nosso projeto de fascismo que consideramos ‘amigável e sorridente’.”

O candidato do PL e seu coordenador político, senador Rogério Marinho (PL-RN), querem encarcerar crianças de 14 anos e choram quando pensam em golpistas presos… Lembro-me do poema “Anedota Búlgara”, de Drummond:

Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.

O país real versus o país da tela

Quando você pergunta aos brasileiros se a economia vai bem ou mal, a esmagadora maioria deles responde que vai mal. No entanto, quando a pergunta é se, do ponto de vista econômico, a vida pessoal melhorou ou piorou, a maioria responde que melhorou. A que se deve esse paradoxo? Basicamente, às informações que a imprensa tradicional lhes oferece e ao que leem nas redes sociais.

O que repercute nas plataformas digitais pauta o que a imprensa tradicional publica, e vice-versa. O leitor de ambos os espaços diz confiar mais no que lê nos veículos tradicionais, mas não larga o celular para saber, se possível minuto a minuto, o que está em discussão nas redes.


Não é de hoje que os grandes veículos de comunicação se opõem com ferocidade a Lula e ao PT, buscando varrê-los do poder. Trata-se de uma questão ideológica, mas não apenas isso. É também uma questão de alinhamento com as fontes que os remuneram e que enriquecem seus proprietários.

O surgimento da internet agravou a crise financeira em que a imprensa já vivia, e hoje ela tenta sobreviver a duras penas. Como não soube — e continua sem saber — se reinventar, ela acaba, na maioria das ocasiões, mandando às favas os princípios e valores que sempre disse cultivar.

Por ser uma meta impossível, o jornalismo nunca foi totalmente imparcial, por mais que apregoe o contrário ou que essa seja a meta ideal. Cobra-se dele, pelo menos, que seja honesto. No passado, nem tão distante assim, havia um esforço sincero para tentar separar a produção de notícias da produção de anúncios. Hoje, infelizmente, está tudo misturado. Quem perde com essa fusão são os leitores, cuja maioria permanece desconhecendo a realidade.

O paradoxo entre a melhora na vida real e o pessimismo na percepção pública é o sintoma claro de uma sociedade hiperinformada, mas profundamente desorientada. Enquanto o jornalismo não resgatar sua honestidade essencial, o brasileiro continuará refém de uma realidade que ele vive diariamente, mas na qual é ensinado a não acreditar.

Banquetaço: Para a democracia não sair da mesa brasileira

Quem atua há alguns anos nas organizações sociais ligadas à busca da Soberania Alimentar jamais se esquece de duas datas que representaram guinadas no setor. Uma delas é lembrada com indignação e pesar; a outra, com satisfação e esperança. Acredito que, em seu chocante contraste, elas podem expressar a encruzilhada em que nos encontramos neste momento histórico do país.

No dia primeiro de janeiro de 2019, o recém empossado presidente Jair Messias Bolsonaro deu uma canetada que varreu do mapa conquistas fundamentais da população brasileira. Entre as medidas adotadas, estava a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), responsável pela elaboração de políticas públicas agroalimentares que se tornaram referência mundial, ao tirar, em 2014 e pela primeira vez na história, nosso país do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU).

Rapidamente, a surpresa manifestada pelos movimentos ativistas pela comida boa no prato em relação a essa brusca medida governamental foi substituída pelo sentimento de revolta e de recusa em aceitar passivamente tamanho autoritarismo e insensatez. Assim, nasceu a primeira ação nacionalizada do Banquetaço, iniciativa que, desde 2017, vem mobilizando redes e ruas por meio da realização de manifestações criativas envolvendo a comensalidade. E uma faísca se irradiou por todas as regiões do país, instigando ativistas de mais de 40 cidades a fazerem atos comensais, protestando contra o governo federal e reivindicando a permanência do CONSEA.


Apesar de todo o agito e da sólida argumentação pró-manutenção do Conselho, ele jamais veria a luz do dia durante toda a gestão do então presidente, que atualmente está cumprindo prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado, o que só comprova seu desprezo pela democracia.

As consequências dessa extinção foram dramáticas, impulsionadas também por outras medidas anti-alimentares, como o esvaziamento dos galpões da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), responsável por garantir os estoques de comida em épocas de necessidade, como nas que há o combate à alta dos preços ou o enfrentamento de desastres socioambientais.

Com a chegada da pandemia e a insistência do governo Bolsonaro em adotar uma postura negligente e até negacionista em relação ao cenário gravíssimo que enfrentávamos, o resultado não poderia ser outro: voltamos para o fatídico Mapa da Fome em 2021.

Nem mesmo a gigantesca dedicação de milhares de pessoas que se organizaram para fornecer uma marmita nutritiva para quem não tinha nada na barriga pôde evitar que o número de brasileiras e brasileiros famintos aumentasse de 3,4 milhões, ao sair do Mapa em 2014, para 33 milhões, em meados de 2022.

Por trás desses números, encontramos moradias desestruturadas; agricultores e agricultoras familiares sem apoio para cultivar suas roças; ecossistemas destruídos com uma fúria inédita, estimulada pelo próprio poder público e pela bancada ruralista; e uma sociedade na qual a exclusão e a exploração voltaram a imperar sem o menor pudor.

Mas não sem resistência! E aqui podemos retomar a conversa sobre datas marcantes, já que, após anos de muita luta, conseguimos dar um basta no desgoverno de Jair e companhia, eleger Lula presidente novamente e testemunhar, no dia 1.º de janeiro de 2023, a volta do CONSEA.

Se nos empenhamos tanto na luta contra o agrofascismo, fazendo um enfrentamento nas instâncias participativas que ainda existiam, e agindo em rede para levar outra perspectiva de vida aos setores mais vulnerabilizados da população — o que permitiu mudar o rumo do comando nacional do país em relação à Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional —, merecíamos celebrar. E foi o que fizemos, organizando novamente a comunidade do Banquetaço para fazer ações comensais nas ruas e gritar com toda a alegria: o CONSEA voltou!

Com o Conselho e os programas por ele criados e apoiados de volta, começamos uma caminhada em direção à redução dos pratos vazios nas mesas. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) teve finalmente um reajuste em seus valores e, posteriormente, passou a exigência na quantidade de alimentos provenientes da Agricultura Familiar nas escolas públicas de 30% para 45% do total. Desse modo, ele não apenas permitiu que crianças e jovens se alimentassem melhor, como estimulou quem cultiva familiarmente a aumentar a produção, gerando renda no campo e nas áreas urbanas e periurbanas em que há a presença de hortas.

Passo a passo, os estoques da CONAB foram sendo formados novamente, algo fundamental nestes tempos de emergência climática, em que secas, inundações, incêndios e outros fenômenos extremos tornaram-se frequentes. E, embora o agronegócio monocultor continue recebendo as benesses governamentais que permitem que ele não quebre frente à própria insustentabilidade de seu modelo, e o Plano Safra conceda, ano a ano, mais recursos a ele, a Agricultura Familiar voltou a respirar, tendo sua verba aumentada de R$ 53,61 bilhões, em 2022, para R$ 97,3 bilhões, neste ano.

O aumento real do salário mínimo, a isenção de impostos para quem ganha até 5 mil reais, a ampliação do Bolsa Família e outras medidas tomadas pelo governo Lula, durante o atual mandato, contribuíram para que a parcela da população que tinha sido excluída da mesa voltasse a sentar em torno dela, compartilhando os alimentos necessários para encarar os desafios da rotina imposta por uma sociedade capitalista como a nossa. As filas para pegar os ossos descartados pelos mercados feitas pelas pessoas que estavam com fome, que revelaram a dimensão do estrago feito pelo governo de Jair, sumiram dos noticiários e do cotidiano das cidades.

Mas não foram apenas as antigas políticas públicas que voltaram. Uma das inovações que mais impactaram a rede de organizações e pessoas dedicadas ao combate à fome foi a criação do Programa Cozinhas Solidárias. Ele garante apoio financeiro para que uma ampla teia de cozinheiras e cozinheiros de todos os municípios do país produza quentinhas para distribuição para quem ainda não pode arcar com os custos dos alimentos de que necessita. E se engana quem pensa que esses espaços são somente assistencialistas. Eles vão muito além e se tornaram locais de convívio, de aprendizado e de articulação social e política, impulsionando a cidadania nas comunidades.

Então veio a notícia: em meados de 2025, a ONU anunciou que o Brasil havia saído, pela segunda vez em sua trajetória de 500 anos de país invadido e colonizado, do Mapa da Fome!

E chegamos em outubro de 2026, mês em que se comemora o Dia Mundial da Soberania Alimentar (16/10) e que, neste ano, inclui a data do segundo turno das nossas eleições majoritárias (25/10). Vamos definir quem se sentará na cadeira presidencial pelos próximos quatro anos, caso o sistema da democracia representativa em que vivemos se mantenha, algo que está sob ameaça frente às investidas do bolsonarismo contra a constituição e o judiciário. O fato concreto é que as duas candidaturas já mostraram a que vieram.

O clã Bolsonaro, agora representado pelo filho primogênito de Jair, o atual senador Flávio Bolsonaro, arrasta em sua trilha uma montanha de ações contrárias ao combate à fome, além de tantas outras posturas adotadas para esmagar os direitos do povo. Enquanto as pessoas se amontoavam na fila do osso, a rede de amigos da família, ligada abertamente a milicianos, se refestelava com rachadinhas, lojas suspeitas de práticas ilegais, compras de casas com dinheiro vivo e festinhas em que garotas de programa e uísque importado eram feijão com arroz.

Já o governo Lula, embora engessado por uma composição de frente ampla, em que interesses conflituosos se digladiam, e por um Congresso Nacional que controla boa parte do orçamento, por meio das tais emendas parlamentares impositivas, tem em sua bagagem a inclusão de milhões de pessoas no grupo de quem toma café da manhã, almoça e janta todos os dias, entre muitas outras conquistas. Sabemos que ainda está longe de ser suficiente e temos feito críticas contundentes a muitas das medidas tomadas e, principalmente, à ausência de tantas outras que são necessárias. Mas é impossível não reconhecer a brutal diferença em relação ao seu oponente.

É por isso que não vamos ficar de braços cruzados, apenas assistindo a essa disputa acirrada entre os atuais candidatos à presidência, como se não houvesse uma diferença essencial entre ambos no que se refere à garantia da comida no prato. Vamos às ruas, vamos às redes e vamos às urnas.

O Banquetaço 2026 está na ativa, irradiando sua alegria criativa pelo país, e convidando as pessoas que acreditam que é possível conquistar uma sociedade em que todas, todos e todes tenham acesso a uma alimentação saudável, saborosa e integrada à cultura e à natureza a somarem suas energias nessa jornada.

Participe das atividades espalhadas pelos territórios, chame as pessoas amigas, divulgue em seus canais digitais e na vizinhança. Contribua com nosso Compartilhaço no dia 16 às 12 horas. É o momento de juntar as panelas, de juntar as vontades, de superar as desigualdades econômicas, de unir os sonhos relativos a uma forma de viver em harmonia com a Mãe Terra, e de mostrar que temos voz e vez — e jamais nos calaremos nem nos conformaremos com a injustiça, a exclusão e a exploração de seres viventes.

Traga sua caneca e seu esperançar para chacoalharmos este mês decisivo, em que a Soberania Alimentar é alvo de atenção e as urnas esperam pelos votos conscientes e responsáveis, que vão nutrir a nossa (ainda frágil, mas sempre sagrada) democracia.
Susana Prizendt

O mal não morre, apenas muda de lugar

1. Cresci fascinado com os feitos do Estado de Israel. Li todos os livros de Leon Uris, vi mais de uma vez Vitória em Entebbe, ficava arrepiado com as proezas da Mossad. Lembro-me dos discursos que fazia sobre como meia dúzia de pessoas conseguia, de forma sistemática, vencer os exércitos de vizinhos infinitamente maiores. Lembro-me também de uma espécie de orgulho com que falava do desenvolvimento económico de Israel e de como as suas cidades eram maravilhosas comparadas com as dos países à volta.

Pude confirmar tudo isso na minha primeira visita a Israel, em 1989. Confesso que olhei para o nosso guia como um herói enquanto ele contava, com alguns pormenores, a sua participação na “reconquista” (palavra dele) de Jerusalém durante a Guerra dos Seis Dias.

Era, e é, uma obra notável a que se fez naquele pedaço de terra tão pequeno. Mais do que tudo, impressionava-me ver como um povo sistematicamente discriminado, humilhado e assassinado ao longo da História tinha conseguido unir-se, construir e defender a casa de onde saíra há tantos séculos. E logo a seguir a ter sofrido o maior genocídio a que uma gente foi sujeita: seis milhões de judeus exterminados por um país que era uma das luzes da civilização ocidental.

Pouco importava a ajuda que tivesse recebido. Nenhuma ajuda bastaria para reparar o que se fez aos judeus ao longo da História.

E tinham conseguido tudo isto sendo uma democracia. A única verdadeira democracia do Médio Oriente derrotava as mais vis ditaduras, que queriam destruí-la. Até nisso eu via a superioridade moral de Israel.


Já nessa altura não ignorava por completo o que estava a ser feito ao povo palestiniano. Mas a minha vontade de apoiar o povo judeu, tantas vezes massacrado, era tão grande que assobiava para o lado sempre que a realidade me entrava pelos olhos adentro.

Vi claramente visto que as cidades com mais árabes tinham piores condições do que as outras. Vi o desprezo com que os palestinianos eram tratados, mas para mim isso eram pormenores. Vítimas colaterais, talvez até gente que precisava de ser posta na ordem.

Não queria pensar na chave que um palestiniano trazia ao pescoço e que, dizia ele, era a da casa de onde a família fora expulsa entre 1947 e 1949, durante a Nakba. Foram mais de 700 mil os que viram as suas casas ocupadas ou destruídas e a quem a resolução da ONU de 1948 prometeu o regresso. Danos colaterais, pensaria eu, fazendo o que tantas vezes fazemos: não ver o que não queremos ver.

Ligo a televisão e vejo o embaixador de Israel a insultar os autores de NAZA. Abro o jornal e fico a saber que os Estados Unidos decidiram imitar o ISIS e as suas execuções públicas. Desliguei tudo logo a seguir

Voltei a ver aquelas chaves sempre que regressei. A última vez foi um mês antes do massacre de 7 de outubro, num campo de refugiados na Cisjordânia. Gente sem passaporte, que recebe água duas vezes por semana e vive em prédios onde se vão acrescentando andares que milagrosamente se aguentam de pé, porque os palestinianos não podem construir casas novas nestes enclaves. Prédios rodeados de muros com ameias de onde os soldados israelitas, de vez em quando, treinam tiro ao alvo nas rótulas de crianças.

Era a minha quinta estada em Israel. A admiração já se tinha transformado em revolta, e a tolerância numa raiva mal disfarçada. Fiz as peregrinações obrigatórias, porque ia com pessoas que nunca lá tinham estado, mas já me sentia um colaboracionista, figurante de uma farsa em que já não conseguia participar.

O mais importante, claro, é a forma como há décadas se desumanizam os palestinianos. São tratados como animais: tiram-lhes as casas, afastam-nos das suas terras, matam-lhes os filhos, tenta-se de facto aniquilar-lhes a vontade. E já não apenas a vontade. Agora há mesmo uma solução, digamos, total.

Não quero, porém, esquecer algo que continuamos a ouvir constantemente e que, como disse, também me embalava: Israel é uma democracia. E isso é assustador.

Se assim é, é todo um povo que decide democraticamente aniquilar outro. É todo um povo que vota para que isso aconteça, ou que acha que nos princípios da sua democracia cabe um projeto de assassínio em massa. Ou, no mínimo, um projeto de discriminação e violência dirigido a uma categoria de pessoas.

Uma coisa é um bando de ditadores que espezinha o próprio povo cometer barbaridades contra outros. Outra é haver pessoas a cumprir ordens democraticamente emanadas que decretam martírios.

Nós, que também vivemos em países muito democráticos, somos cúmplices. Assistimos aos nossos governantes a financiar aquela carnificina e a apoiar um genocídio. Recebemos os genocidas nos nossos países e nas nossas casas. Deixamos que os seus representantes vivam entre nós e frequentem as nossas televisões. Sentamo-nos com os seus apoiantes. Como escreve Omar El Akkad, “um dia sempre teremos sido contra isto”. Mas será tarde, demasiado tarde.

Há muito tempo que me custa escrever sobre Israel, a Palestina e tudo o que os envolve. Não é pela complexidade, nem por desconhecer as várias culpas. As razões, as causas e as consequências estão mais ou menos distantes no tempo, mas são identificáveis. As forças políticas e sociais, internas e externas, que alimentam os vários conflitos são quase transparentes. É outra coisa.

O documentário NAZA deu-me uma estranha força para falar disto, porque fez o que as obras de arte às vezes fazem: revelou-me o mundo. Muitas vezes, um mundo que não queremos mesmo ver.

Aquelas pessoas são iguais a todas as que fizeram o mesmo ao longo da História. Dizem friamente que ouvem o riso das crianças antes de as matar. Contam as centenas de inocentes que vão morrer e carregam no botão sem remorsos. Admitem que já mataram milhares. Vão beber um copo depois de mais uma matança. Comparam o que fazem a um jogo de computador. O mal não morre, apenas muda de lugar.

2. Abro uma rede social e aparece o Presidente dos Estados Unidos a insultar a Noruega porque o Nobel da Paz foi atribuído a uma antiga juíza do Tribunal Penal Internacional que se destacou na defesa dos direitos humanos, nomeadamente dos palestinianos. Ligo a televisão e vejo o embaixador de Israel a insultar os autores de NAZA. Abro o jornal e fico a saber que os Estados Unidos decidiram imitar o ISIS e as suas execuções públicas. Desliguei tudo logo a seguir, mas ainda a tempo de ver Putin a rir, feliz com o acordo com Trump. O mal mudou mesmo de lugar e está a ganhar. Dentro das nossas casas.
Nós, que também vivemos em países muito democráticos, somos cúmplices. Assistimos aos nossos governantes a financiar aquela carnificina e a apoiar um genocídio. Recebemos os genocidas nos nossos países e nas nossas casas.
Pedro Marques Lopes 

O que se sabe sobre o envio de tropas dos EUA à América Latina

O governo dos Estados Unidos está ampliando sua presença militar na América Latina sob a justificativa de reforçar o combate ao tráfico de drogas. Segundo reportagem do jornal The New York Times publicada na quarta-feira, o Pentágono enviará centenas de soldados para a região, em uma iniciativa que marca uma nova etapa da política do presidente Donald Trump para os países latino-americanos.

De acordo com o periódico, os primeiros integrantes de um batalhão de cerca de 600 militares da 10ª Divisão de Montanha do Exército americano – sediada em Fort Drum, Nova York – já começaram a ser deslocados para um novo centro de treinamento em selva no Panamá. Posteriormente, eles deverão participar de exercícios e treinamentos conjuntos com forças de segurança da Colômbia e de Honduras.


Oficialmente, o objetivo é fortalecer a cooperação militar com países da região no combate a organizações envolvidas no tráfico de drogas. Segundo autoridades ouvidas pelo jornal sob condição de anonimato, parte dos militares poderá dar apoio a forças especiais americanas que já assessoram operações conduzidas por exércitos locais contra grupos acusados de narcotráfico.

A ampliação da presença militar também inclui a transferência de drones de vigilância MQ-9 Reaper da África para a Colômbia e o Equador, além da criação de uma nova estrutura de comando para operações no Hemisfério Ocidental sediada em Miami, para onde centenas de soldados devem ser transferidos. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, criou ainda um escritório específico para supervisionar as atividades de combate aos cartéis.

A iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla da administração Trump para pressionar governos latino-americanos a intensificarem ofensivas militares contra organizações criminosas e aceitarem operações conjuntas com os Estados Unidos.

Segundo o general Francis L. Donovan, comandante militar responsável por grande parte da América Latina, os EUA pretendem ampliar suas ações para além das operações marítimas atualmente realizadas contra embarcações suspeitas de transportar drogas. O objetivo seria expandir as operações também para áreas terrestres.

A Casa Branca tem buscado construir uma coalizão regional contra os cartéis. De acordo com o jornal, 19 países participam da aliança liderada pelos EUA, denominada Escudo das Américas, embora apenas alguns tenham aceitado oficialmente a realização de operações conjuntas em seus territórios, entre eles Colômbia e Honduras.

Pete Hegseth havia afirmado, durante uma visita ao Panamá em agosto, que a Colômbia, a Guatemala e Honduras haviam concordado em permitir que os EUA realizassem operações militares conjuntas contra grupos criminosos em seus territórios, embora a Guatemala tenha negado a existência de tal acordo.
Temores na região

A perspectiva de uma presença militar americana mais robusta desperta preocupações em parte da América Latina. A região tem um longo histórico de intervenções dos EUA ao longo dos séculos 20 e 21, frequentemente vistas por governos e setores da sociedade como violações da soberania nacional.

Organizações de direitos humanos também manifestam preocupação com a possibilidade de aumento das vítimas civis. Especialistas citados pelo jornal afirmam que a eliminação de integrantes de grupos criminosos costuma ter impacto limitado sobre o fluxo de drogas, já que lideranças podem ser rapidamente substituídas.

Outra crítica recai sobre a eficácia da estratégia. O novo grupo de trabalho criado pelo Pentágono dá continuidade a uma campanha iniciada há cerca de um ano no Caribe e no Pacífico Oriental. Segundo o governo americano, essa campanha resultou em 71 ataques contra embarcações suspeitas de tráfico e a morte de 239 pessoas que – Washington afirma, sem apresentar evidências – estariam traficando drogas. Especialistas, porém, dizem que as operações tiveram pouco efeito sobre a disponibilidade de cocaína nos Estados Unidos.

A reportagem do New York Times informa que integrantes do próprio governo americano questionam a falta de uma definição clara dos objetivos da operação. Há receio de que eventuais ataques contra militares dos EUA levem a uma escalada do envolvimento americano na região, em um momento em que as Forças Armadas do país já enfrentam forte pressão devido a outros compromissos militares no exterior, como na guerra contra o Irã.

Por enquanto, o envio das tropas tem caráter temporário. No entanto, autoridades americanas ouvidas pelo jornal admitem que essas rotações podem se tornar um componente permanente da presença militar dos Estados Unidos na América Latina.
Deutsche Welle

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


Veículos de jornalismo se unem pela democracia

A sociedade brasileira não pode pagar para ver. E o jornalismo brasileiro não pode vacilar: é hora de adotar uma posição clara em defesa da democracia e contra o autoritarismo. Trata-se de uma situação que já vivemos antes. Em 2018, muitos acreditaram na ilusão de que o status quo político acabaria por moderar Jair Bolsonaro. Hoje, podemos afirmar com toda a certeza: foi o bolsonarismo que radicalizou o status quo.

O governo de Jair Bolsonaro apresentou sinais documentados de ataques à democracia: investidas contra a credibilidade das eleições, hostilidade à imprensa, uso político das Forças Armadas e tolerância a manifestações antidemocráticas, contestação da alternância de poder e confronto aberto com o Judiciário. O fato de as instituições terem resistido não significa que esses sinais não existiram e nem indica ausência de gravidade. Significa que os mecanismos de contenção funcionaram.


Não há nenhuma razão no horizonte para crer que seu filho teria uma relação melhor com o jornalismo e a democracia. O fato de não ser tão verborrágico e agressivo quanto o pai não faz com que seus atos se tornem menos graves. A promessa primordial de Flávio Bolsonaro é a libertação de Jair e a anulação do julgamento por tentativa de abolir o Estado democrático. Soma-se a isso a ameaça declarada de mudanças na Constituição.

Durante os quatro anos de bolsonarismo, o jornalismo conviveu com o horror da repressão. Agressões verbais promovidas quase diariamente pelo presidente da República contra os repórteres que cobrem o Planalto. Intimidações em todo o território nacional, decorrentes do clima de hostilidade que Bolsonaro promovia contra o exercício da profissão.

Os números ajudam a dimensionar essa escalada de violência. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), foram registrados 1.442 casos de violência contra jornalistas e ataques à imprensa entre 2019 e 2022, uma média anual mais de três vezes superior à observada entre 2010 e 2018. Somente em 2022, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) documentou 557 alertas de violações à liberdade de imprensa, dos quais 41,6% envolveram ao menos um integrante da família Bolsonaro.

Casos anuais de violência contra jornalistas e ataques à imprensa no Brasil registrados pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) entre 2009 e 2024
Gráfico de linha que apresenta a evolução anual dos casos de violência contra jornalistas e ataques à imprensa no Brasil, entre 2009 e 2024, segundo a Fenaj. Os registros passaram de 135 em 2018 para 208 em 2019, 428 em 2020 e 430 em 2021, o maior valor da série apresentada. Em 2022, foram 376 casos. Após esse período, os números caíram para 181 em 2023 e 144 em 2024. O intervalo de 2019 a 2022, correspondente ao governo Jair Bolsonaro.

A mudança de cenário a partir de 2023 é igualmente reveladora: os registros da Abraji caíram para 330 naquele ano e 204 em 2025, enquanto o Brasil passou da 110ª posição no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, da Repórteres Sem Fronteiras, em 2022, para a 52ª em 2026.

A defesa do jornalismo, porém, vai além do interesse de uma categoria profissional: diz respeito ao direito de toda a população à informação e à própria qualidade da democracia. Esse direito depende de um ambiente de informação íntegro, onde informações confiáveis, verificáveis e plurais possam circular livremente. O jornalismo tem papel essencial na construção desse ambiente, ao investigar casos de corrupção, abusos de poder e violações de direitos, produzindo evidências que ajudam a sociedade a compreender a realidade, cobrar responsabilidades e dar visibilidade a populações frequentemente negligenciadas.

Por isso, ataques sistemáticos à imprensa não atingem apenas jornalistas e veículos de comunicação. Ao intimidar profissionais e desacreditar suas investigações, comprometem o acesso da população a informações de interesse público e enfraquecem a capacidade da sociedade de fiscalizar quem governa e exigir a responsabilização de quem viola a lei.

O que aconteceu durante o governo Jair Bolsonaro tem um longo histórico. Em 1999, ele declarou que, se fosse presidente, fecharia o Congresso Nacional e daria um golpe de Estado. Em 2016, homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador da ditadura militar.

Já na Presidência, participou, em 2020, de uma manifestação que defendia a intervenção militar e o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2022, reuniu embaixadores estrangeiros para lançar acusações sem provas contra o sistema eleitoral brasileiro, episódio que levou à sua inelegibilidade.

A escalada culminou em um plano de assassinato de autoridades – nomeadamente, Luiz Inácio Lula da Silva, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes –, na tentativa de impedir a alternância de poder após a derrota nas urnas, pela qual Bolsonaro foi condenado pelo STF em 2025.

Esse histórico é indispensável para avaliar as propostas de Flávio Bolsonaro. O senador também tem manifestações próprias que merecem atenção. Em livro publicado em 2017, negou a existência do golpe militar de 1964 e elogiou Ustra. Em julho de 2026, repetiu diante de diplomatas estrangeiros informações falsas sobre a origem das urnas eletrônicas brasileiras.

Não é possível ignorar a trajetória de um grupo político que questionou a legitimidade das eleições, confrontou instituições responsáveis por fiscalizar o poder e agora pretende modificar algumas dessas mesmas instituições.

O risco não se resume a um novo golpe de Estado: está também na possibilidade de enfraquecimento progressivo dos mecanismos que impedem a concentração de poder e garantem a responsabilização de governantes.

A população depende de uma imprensa livre para fiscalizar o poder. E uma imprensa livre depende de instituições capazes de assegurar direitos, garantir acesso a informações públicas, proteger profissionais contra intimidações e responsabilizar quem tenta impedir seu trabalho.

A experiência do governo Bolsonaro mostrou como a hostilidade promovida pelo presidente pode repercutir sobre a liberdade de imprensa. Se os mecanismos de controle do poder também forem enfraquecidos, tornam-se mais frágeis as condições para que jornalistas investiguem e publiquem informações de interesse público com independência. É assim que ataques ao jornalismo, enfraquecimento institucional e erosão democrática podem se alimentar mutuamente, abrindo caminho para o avanço do autoritarismo.

Nesse sentido, este editorial é também um apelo a veículos de comunicação e jornalistas para que reflitam sobre sua responsabilidade neste momento histórico. Não se trata de defender governos, partidos ou tribunais, mas de reconhecer que a liberdade de imprensa, a independência das instituições e o direito da sociedade à informação são inseparáveis. Em nome de um futuro viável, o Brasil precisa preservar sua democracia, com todas as suas imperfeições, contradições e conquistas. Afinal, a história mostra que o autoritarismo pode chegar ao poder pelas urnas, mas seus efeitos sobre os direitos e as liberdades podem levar décadas para ser revertidos.

Milícias, Faria Lima e governos: a Zona Cinza

A leitura dominante do crime organizado cai numa armadilha liberal e moralista: trata narcotráfico e milícias como desvios, anomalias do mercado, invasores que corrompem um Estado originalmente sadio. Essa leitura oculta o dado fundamental. O crime organizado territorial, em suas formas consolidadas, é fração do capital e tecnologia de gestão urbana e política.

Para situar a milicianização brasileira às vésperas de 2027, o paralelo com a Itália do fim do século XX é útil, desde que preciso. A lição italiana não é a de um político que entregou o Estado à máfia, mas a de um sistema político em colapso que normalizou uma contiguidade já existente entre capital legal e capital violento.

O fio condutor desta leitura é a obra de Roberto Saviano. Em Gomorra, os camorristas não chamam sua organização de máfia, mas de Sistema: o crime não é exceção à ordem econômica, é um de seus modos de funcionamento. A lógica do empresário criminoso e o pensamento dos chefões, escreve Saviano, coincidem com o neoliberalismo mais radical.


Em Gomorra (2006), Saviano mostrou que a força da Camorra está menos na violência que na capacidade de convertê-la em capital imobiliário, industrial e de serviços: construção civil, confecção para grifes, descarte de resíduos tóxicos. Em ZeroZeroZero (2013), seguiu a mesma lógica na escala global da cocaína, e fez da ‘Ndrangheta calabresa protagonista.

A penetração das máfias meridionais no Norte não começou com Silvio Berlusconi. Remonta ao soggiorno obbligato, que a partir dos anos 1960 mandou mafiosos para o exílio forçado no Norte, aos sequestros dos anos 1970 e à lavagem de dinheiro na Milão dos anos 1980. A Operação Infinito (2010) encontraria dezenas de células da ‘Ndrangheta na Lombardia.

Berlusconi chegou ao poder em 1994 sobre os escombros do sistema partidário demolido pela Mani Pulite. Seu braço direito e cofundador da Forza Italia, Marcello Dell’Utri, foi condenado em definitivo pela Corte de Cassação, em 2014, a sete anos por concorso esterno em associação mafiosa — a participação de quem, sem ser membro, presta serviços à organização. A sentença o reconheceu como mediador entre Berlusconi e a Cosa Nostra de 1974 a 1992, período que inclui a contratação do mafioso Vittorio Mangano na mansão de Arcore, a residência do então primeiro-ministro nos arredores de Milão.

Os fatos posteriores a 1992 não foram considerados provados, e Berlusconi nunca foi condenado por crimes de máfia. O ponto é estrutural, não judicial: a desregulamentação, o ataque sistemático à magistratura e a retórica do empreendedor contra o Estado deram à contiguidade um ambiente em que ela pôde se normalizar.

A sociologia italiana chamou esse espaço de zona grigia, tomando a expressão de Primo Levi. Rocco Sciarrone a define como a área em que empresários, profissionais liberais, políticos e mafiosos trocam favores sem fronteiras nítidas. A máfia não invadiu o Norte; foi incorporada à economia formal pela construção, pelo setor imobiliário, pelos resíduos e pelas obras públicas.
A forma brasileira: a milícia como mercadoria política

Michel Misse chamou de “mercadorias políticas” os bens cuja troca combina recursos econômicos e poder de coerção. A milícia vende a própria capacidade coercitiva do Estado, privatizada por seus agentes e convertida em renda.

Ao contrário do tráfico de varejo, que opera à margem e em confronto com a polícia, a milícia nasce dentro do aparato repressivo: policiais, ex-militares, bombeiros, agentes penitenciários. José Cláudio Souza Alves, em Dos barões ao extermínio, e Bruno Paes Manso, em A República das Milícias, reconstituem a passagem do esquadrão da morte ao domínio territorial de negócios — a milícia como franquia de extrativismo urbano.

Roberto Saviano chega ao Rio em ZeroZeroZero. Ali as milícias surgem como autodefesa contra o tráfico e acabam como suas concorrentes na venda de proteção, sob a complacência de uma política que, enquanto pôde, as tratou como mal menor. A origem na autodefesa é a versão que as milícias contam de si mesmas; a pesquisa brasileira as situa dentro da polícia. O diagnóstico político, porém, coincide: o “mal menor” foi a forma pela qual o Estado as incorporou.

Sua base de acumulação é o confisco direto da renda da classe trabalhadora periférica: taxas de “proteção”, monopólio do gás de cozinha, controle da água, da TV a cabo e da internet, transporte alternativo e, sobretudo, grilagem e incorporação imobiliária. Na Muzema, zona oeste do Rio, onde dois prédios erguidos sob domínio miliciano desabaram em 2019 e mataram 24 pessoas, repete-se o que Saviano descreveu na Campânia: o cimento liga a violência ao capital fixo.

A atualização de 2025 do Mapa Histórico dos Grupos Armados (GENI/UFF e Instituto Fogo Cruzado) mostra que, em 2024, 34,9% dos moradores da Grande Rio — perto de 4 milhões de pessoas — viviam sob domínio ou influência armada. O domínio tem cor e classe: na capital, a renda per capita nessas áreas é de R$ 1.267, pouco mais de um terço dos R$ 3.521 das áreas livres; na metrópole, pretos, pardos e indígenas são 69,1% dos moradores sob controle miliciano, ante 55,2% no restante.

Nenhum grupo cobre mais chão que as milícias: 49,4% da área sob domínio armado, cerca de 201 km², mais de quatro vezes o que controlavam em 2007. O método é chegar antes — ao loteamento sem título, ao bairro sem asfalto, à franja onde a cidade cresce — e cobrar pedágio sobre tudo o que a urbanização traz. É a expansão urbana convertida em renda armada.

A fronteira entre milícia e tráfico, nítida no discurso, é porosa na prática. Desde o fim dos anos 2010, investigações documentam “narcomilícias” que vendem drogas e se aliam a facções como o Terceiro Comando Puro. A lógica é a do negócio, não a da identidade.

Se o crime territorial é estrutura, sua expansão não pertence a um único governo. As milícias cariocas cresceram sob governos estaduais de várias colorações, inclusive o de Sérgio Cabral, aliado do governo federal petista — o mesmo período em que a CPI das Milícias da Alerj, em 2008, indiciou mais de duzentas pessoas sem desmontar o negócio.

O maior surto de crescimento registrado pelo Mapa, de 31,6% na área dominada, ocorre entre 2016 e 2020: o estado do Rio quebra, as UPPs são desmontadas e a intervenção federal de 2018 assiste ao avanço sem detê-lo.

A partir de 2020, a curva miliciana se inverte. A Operação Intocáveis, do Ministério Público, a morte de Wellington da Silva Braga, o Ecko, e as brigas pela sucessão deixaram territórios desguarnecidos, que o Comando Vermelho ocupou: hoje ele domina 47,2% da população sob controle armado. Um poder que depende de redes com o Estado cresce depressa e se quebra quando elas são cortadas.

O ciclo bolsonarista no governo federal (2019–2022) acrescentou aceleração e legitimação. A flexibilização das armas multiplicou os registros de colecionadores, atiradores e caçadores (CACs), até ser revertida pelo Decreto 11.615/2023. O enfraquecimento da fiscalização ambiental e fundiária abriu espaço à violência privada nas fronteiras agrícolas. E o discurso da autodefesa armada deu cobertura moral à coerção paraestatal.

O decreto conteve novas compras; o arsenal acumulado ficou.

Os casos reunidos pelo Instituto Sou da Paz aparecem em 19 unidades da federação, com São Paulo, Espírito Santo e Rio Grande do Sul na frente, e atendem a clientelas variadas: PCC e CV, milícias urbanas e rurais, grupos de extermínio, grileiros. No caso-limite, um casal esgotou a cota de CAC comprando 26 fuzis idênticos para o Comando Vermelho.

Ao igualar atiradores novatos e veteranos e ampliar as cotas, as regras de 2019 a 2022 abriram caminho ao que o crime mais procura: fuzis e pistolas 9 mm.

A proximidade entre esse campo político e o mundo miliciano tem registro público. Como deputado estadual, Flávio Bolsonaro homenageou na Alerj o policial Adriano da Nóbrega, depois apontado como chefe do Escritório do Crime, e empregou em seu gabinete a mãe e a ex-mulher dele. As investigações sobre o gabinete foram anuladas pelos tribunais superiores por razões processuais, sem julgamento de mérito.

Fora do Rio, a expansão do modelo é desigual. Belém é o caso mais documentado, com chacinas atribuídas a grupos de extermínio e uma CPI das Milícias na Assembleia do Pará em 2015. Em outras regiões avançam a hegemonia de facções e a letalidade policial, fenômenos aparentados, mas distintos.
Do território à Faria Lima

Se a milícia é o equivalente brasileiro do controle territorial mafioso, o equivalente da ‘Ndrangheta em Milão é o Primeiro Comando da Capital. A Operação Carbono Oculto, lançada em agosto de 2025 pela Receita, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público paulista, mostrou o dinheiro da facção circulando por importadoras, distribuidoras e postos de combustível até desaguar em gestoras e fintechs no centro financeiro de São Paulo.

O balanço da Transparência Internacional – Brasil dá a escala: mais de 350 investigados, mais de quatro dezenas de fundos sob suspeita, um patrimônio que ia de usinas de etanol e um terminal portuário a imóveis e caminhões. No dia em que os alvos vieram a público, a Reag Investimentos perdeu mais de 15% em bolsa.

O Estado respondeu na linguagem da regulação, não da polícia: a Instrução Normativa nº 2.278/2025 da Receita estendeu às fintechs os deveres de informação dos bancos, e o Congresso aprovou o projeto do devedor contumaz, contra empresas que fazem da sonegação um método.

É a zona cinzenta em sua forma acabada. O dinheiro do varejo de drogas e do contrabando entra em postos, distribuidoras e veículos financeiros legais, operados por profissionais que não portam armas. A fronteira deixa de ser geográfica, entre a favela e o asfalto, e passa a ser contábil.

Saviano descreveu esse movimento em ZeroZeroZero. Nenhum papel cotado em bolsa, escreve, gera o lucro da cocaína, “o último bem que permite a acumulação originária de capitais”. E esse dinheiro encontra os bancos quando eles mais precisam: o livro lembra que, em dezembro de 2009, Antonio Maria Costa, então responsável pelo escritório da ONU sobre drogas e crime, declarou que os ganhos das organizações criminosas tinham sido, para alguns bancos, o único capital de investimento líquido disponível para escapar da falência. A Faria Lima é a versão brasileira dessa regra.

A zona cinzenta levanta uma pergunta que a crítica moralista não formula: até onde o capital legal convive com a acumulação ilegal? A tolerância não é moral, mas condicional. Depende de quem paga os custos e de se o capital ilegal complementa ou concorre com o legal.

Quando o complementa, a tolerância é alta. O capital ilegal oferece liquidez, demanda para a construção e o mercado imobiliário, disciplina sobre a força de trabalho e “limpeza” de terras. Na Lombardia, a crise de crédito pós-2008 tornou o dinheiro da ‘Ndrangheta atraente para pequenas e médias empresas sem acesso a bancos. O custo recai sobre os trabalhadores das periferias, não sobre o capital.

Quando o tributa ou concorre com ele, a tolerância cai: a extorsão atinge empresas, o roubo de cargas encarece a logística, concessionárias de energia e telecomunicações perdem áreas inteiras para o “gatonet” e as ligações clandestinas, postos ligados a facções derrubam preços sonegando impostos. Aí as empresas legais passam a cobrar o Estado.

A Carbono Oculto marcou esse ponto de virada. Numa sondagem da Transparência Internacional – Brasil com o Datafolha, em dezembro de 2025, empresas apontaram o crime organizado como ameaça crescente, mas só 57% disseram confiar que seus parceiros comerciais têm controles específicos contra ele.

A Itália conheceu os dois lados desse limite. Por décadas, o pizzo foi custo operacional. Em 2007, a Confindustria siciliana passou a expulsar associados que pagassem extorsão, na esteira do Addiopizzo, criado por jovens de Palermo em 2004: a máfia passara a custar mais do que rendia ao empresariado.

Uma coalizão antimáfia pode nascer do próprio capital, mas é seletiva: combate o crime que ameaça a concorrência e os lucros e tolera o que se limita a extrair renda dos pobres. O confisco miliciano da renda popular é justamente a acumulação ilegal que menos incomoda o capital formal.

A integração do crime territorial ao poder não se apresenta como caos, mas como reorganização do Estado: confisco da renda popular legalizado na prática, acumulação ilegal blindada pela política. Ela já se converteu em mandatos — a CPI das Milícias de 2008 tinha entre seus alvos um deputado estadual e um vereador. Na Itália, as marcas desta integração foram a pressão contra a magistratura, as anistias fiscais e a desregulamentação das obras públicas; no Brasil, são o controle sobre as polícias, o desmonte da fiscalização financeira e territorial e a política de armas.

A eleição não decide o fenômeno; apenas o encontra. Quem tomar posse em 2027 governará sobre milícias consolidadas, facções financeirizadas e polícias com baixo controle civil. O que se disputa nas urnas não é a existência da zona cinzenta, mas o grau em que ela se traduz em governo.
O que a punição não alcança

A Mani Pulite, “Operação Mãos Limpas” italiana, prometeu purificar a política e abriu o vácuo ocupado por Berlusconi. A Lava Jato percorreu trajetória semelhante: desorganizou o sistema partidário, relativizou garantias processuais e preparou o terreno para a extrema-direita de 2018.

O punitivismo territorial tampouco toca a estrutura. Operações de alta letalidade, como a Operação Contenção, na Penha e no Alemão em outubro de 2025, com 121 mortos segundo o próprio governo estadual, matam operadores substituíveis e deixam intactos o fluxo de renda e os circuitos financeiros. Segundo o Mapa, o Comando Vermelho cresceu quase sem interrupção ao longo de duas décadas de megaoperações — e os grupos já não ocupam áreas vazias, tomam territórios uns dos outros, numa disputa feita à bala onde mais gente mora.

A experiência italiana mostra o limite da própria resposta penal. O combate às máfias foi, em parte, duramente penal: o maxiprocesso de Palermo, o regime carcerário 41-bis, a tipificação do método mafioso. E foi enquanto a Cosa Nostra era desmontada nos tribunais que a ‘Ndrangheta se tornou a mais poderosa das máfias italianas. O direito penal alcança o mafioso; a acumulação se desloca para onde a lei não olha e sobrevive a ele.
O que a milícia é

Quando passou a confiscar o patrimônio mafioso, com a Lei Rognoni-La Torre, de 1982, o Estado italiano descobriu que o poder da máfia era, antes de tudo, propriedade: fazendas, imóveis, empresas, contratos. A violência era o meio; o patrimônio, a substância.

O mesmo vale para a milícia. Ela não é a ausência do Estado nas periferias, mas uma de suas formas de presença: coerção pública, exercida por agentes públicos, convertida em renda privada. O chamado “poder paralelo” não corre em paralelo a nada; está cravado no orçamento doméstico do trabalhador, do qual retira uma parcela fixa todo mês.

Daí que parte dos moradores de áreas milicianas descreva a milícia como ordem preferível à do tráfico. Não é engano. A milícia vende previsibilidade num mercado em que o Estado é apenas mais um ofertante armado, e nem sempre o mais confiável. A preferência reconhece que, ali, a proteção é mercadoria.

Milícia e facção financeirizada são os dois polos de um mesmo circuito. Num extremo, a renda é extraída no varejo da vida cotidiana; no outro, reaparece como cota de fundo, ação de gestora, usina de etanol. A zona cinzenta não é a fronteira entre os dois, mas o espaço em que a acumulação se realiza.

No capítulo de Gomorra dedicado ao cimento, Saviano vai a Casarsa, ao túmulo de Pier Paolo Pasolini, e retoma o célebre “eu sei” com que Pasolini, em 1974, acusou os responsáveis pelos massacres que ensanguentaram a Itália, num texto que admitia não ter provas. Saviano articula o “eu sei” de seu tempo e o completa: eu sei e tenho as provas. As dele eram as do testemunho, o que os olhos viram nos canteiros de obra. No Brasil, as provas são também públicas: estão nos mapas, painéis, inquéritos e sentenças citados neste texto.

A zona cinzenta não é o que o Brasil pode vir a ser. É o que o Brasil já é: um país em que voto, território e vida cotidiana se organizam, em parte crescente, segundo a franquia do crime com carimbo oficial.

TSE se junta ao STF no foco da desconfiança na Justiça

A Justiça Eleitoral existe, em suma, para organizar os pleitos e garantir a igualdade de condições dos candidatos. Nessa condição, distorce as próprias funções quando, como agora, assume o papel de protagonista numa eleição.

Ressalve-se, de início, que isso se deve em boa medida à necessidade de lidar com o mundo novo das ferramentas tecnológicas e do uso malandro que as campanhas fazem delas com o abuso de notícias falsas para desacreditar o adversário.


Os atores políticos —estes, sim, as vedetes do show— mentem que nem sentem. Mandam às favas a responsabilidade moral, inundam o Tribunal Superior Eleitoral com ações e os juízes que se virem para tentar lidar com os prejuízos; não raro mais fortes que os desmentidos.

A dinâmica da desfaçatez geral, contudo, não autoriza os magistrados a embarcarem nessa canoa. Ao contrário, caberia a eles se preservar como árbitros, a fim de proporcionar ao eleitorado a visão nítida da separação entre o certo e o errado de acordo com a lei.

Quanto mais as campanhas enveredam pelo terreno do vale-tudo, maior precisaria ser o cuidado dos magistrados em não permitir o contágio das preferências políticas. É evidente a intenção dos times oponentes de tirar proveito da divisão que se estabeleceu nos tribunais.

O combate à desinformação e o resguardo da civilidade e do equilíbrio de forças na eleição requerem unidade das instâncias judiciais superiores, que, no entanto, têm dado margem à interpretação de que se encontram irremediavelmente partidarizadas.

O Supremo Tribunal Federal deu a letra dessa toada, exibindo-se politicamente engajado numa cisão que invadiu o TSE na reta final do primeiro e no decorrer do segundo turno.

Se aos políticos não ocorre maneira melhor de disputar posições que não a de se escorar nos recursos à Justiça, a esta caberia não se deixar instrumentalizar, não invadir a competência da corte vizinha nem permitir a erosão de confiança nas instâncias garantidoras da legalidade.

Para quem Flávio está mentindo?

 Flávio Bolsonaro promete ao mercado financeiro um ajuste fiscal de cerca de R$ 200 bilhões nos primeiros 18 meses de governo. Aos eleitores, garante que não cortará benefícios sociais, não mexerá nas aposentadorias nem reduzirá recursos para saúde e educação. Ontem, foi além: anunciou voto favorável ao fim da escala 6x1 e prometeu que o governo compensará os empresários pelos custos da medida.

É difícil que todas essas promessas sejam cumpridas. Ou ele vende ao mercado um ajuste que não pretende fazer, ou esconde dos eleitores os sacrifícios que pretende impor. Nenhuma das hipóteses é tranquilizadora, e ambas podem ser traduzidas como estelionato eleitoral.

A equipe econômica de Flávio chegou a estudar um ajuste de 2% do PIB, equivalente a R$ 250 bilhões, com mudanças nas regras de correção da Previdência e nos pisos constitucionais de saúde e educação. A campanha negou que essas propostas integrem seu programa. Ficou a promessa de um “tesouraço” de 1,5% do PIB, sem explicação convincente sobre onde a tesoura cortará.

Flávio garante manutenção do Bolsa Família, do Minha Casa, Minha Vida, para o qual promete até prestações menores, e dos demais programas sociais. Rejeita a desvinculação das aposentadorias do salário mínimo, para o qual diz que continuará concedendo reajustes acima da inflação. Promete também reduzir impostos, diminuindo a arrecadação. Agora, quer que o governo banque parte da conta da redução da jornada de trabalho.

Tudo isso enquanto promete enxugar drasticamente as despesas públicas. Só que 92% do Orçamento federal já está comprometido com gastos obrigatórios. Não há como produzir uma economia dessa magnitude apenas cortando ministérios, cargos comissionados e penduricalhos, combatendo fraudes ou vendendo imóveis da União. São medidas defensáveis, algumas necessárias, mas cuja contribuição para a meta anunciada nem sequer foi quantificada. Privatizações geram receitas pontuais, não redução permanente das despesas. O governo de seu pai prometeu muitas, entregou poucas.

A pergunta que se impõe é se parte do mercado financeiro não tem sido deliberadamente cínica ao aceitar essa grave ambiguidade. Será que investidores e economistas acreditam que Flávio cumprirá as promessas feitas a eles e romperá as assumidas com os mais pobres e, por isso, está tudo bem? Uma mentira precificada, para ficar no jargão compreensível ao meio — desde que os enganados sejam os outros, bem entendido.

Lula tem, ao longo dos anos, explicitado o compromisso com uma agenda social clara e uma meta fiscal fluida, insuficiente. Tem responsabilidade pelo agravamento da situação das contas públicas, resiste a cortar despesas obrigatórias e não apresentou proposta clara para reduzir ou ao menos estabilizar a dívida pública, que chegou a níveis impraticáveis. Sua frouxidão fiscal é criticada com razão.

Mas ele nunca escondeu que a preservação dos programas sociais e a valorização do salário mínimo são prioridades de seu projeto político. Pode-se discordar das escolhas, podem-se questionar seus custos e pode-se exigir que ele diga como pretende financiá-las, mas não se pode alegar surpresa. Diante disso, vê-se que o setor financeiro e também o produtivo concedem a Flávio um crédito de confiança que negam ao petista, por mera afinidade ideológica.

Há uma diferença entre confiar na capacidade de um candidato para executar um programa conhecido e torcer para que ele pratique o contrário do que promete caso eleito. A segunda hipótese implica aceitar que o eleitor é enganado deliberadamente.

Se o mercado acredita que a agenda econômica verdadeira é a que circula reservadamente entre seus interlocutores privilegiados, deveria exigir que fosse explicitada. Afinal, o compromisso com a responsabilidade fiscal não deveria dispensar a obrigação com a transparência na campanha, até para que os penalizados possam fazer uma escolha informada.

Vera Magalhães