Fascinados pelo moderno, somos como o Carlos da Maia e o Ega ("Os Maias"), que vão a correr atrás do elétrico na esperança de virem a ser civilizados.
terça-feira, 16 de julho de 2024
Informação não é conhecimento
Fascinados pelo moderno, somos como o Carlos da Maia e o Ega ("Os Maias"), que vão a correr atrás do elétrico na esperança de virem a ser civilizados.
A cor de cada um
– Este é o melhor – proclamaram uns tantos. – Sendo resumo de todas as cores, é cor sem cor, e a gente fica mais à vontade.
Alguns hesitavam. Se houvesse o duas-cores, hem? Furta-cor também não seria mau. Idem, o arco-íris. Havia arrependidos de uma cor, que procuravam passar para outra. E os que negociavam: só adotariam uma cor se recebessem antes 100 metros de tecido da mesma cor, que não desbotasse nunca.
– Justamente o ideal é a cor que não desbota – sentenciou aquele ali. – Quando o Governo vai chegando ao fim, a fazenda empalidece, e pode-se pintá-la da cor do sol nascente.
Este sábio foi eleito por unanimidade Presidente do Partido de Qualquer Cor.
Carlos Drummond de Andrade, "Contos Plausíveis"
Bolsonaro vai continuar sangrando até ser condenado e preso
No embalo do atentado a tiros contra Donald Trump, um dos filhos de Bolsonaro, Eduardo, o mais ideológico, espalhou que seu pai, caso Trump se reeleja, sairá vencedor. Uma vez empossado, Trump pressionaria a justiça brasileira e o Congresso para libertar os golpistas do 8 de janeiro. O passo seguinte seria restabelecer a elegibilidade de Bolsonaro.
Você é capaz de imaginar Trump dedicando-se a salvar Bolsonaro e os bolsonaristas condenados por atentarem contra a democracia – e, no caso de Bolsonaro, roubo de joias e fraude em atestados de vacina contra o Covid-19? Faça-me o favor: Trump teria mais o que fazer. Seu interesse pela América Latina é igual a zero. Ele nunca pôs os pés por aqui.
E a justiça brasileira? Dá para imaginar a toga em modo de alvoroço para anular suas decisões e atender aos reclamos do presidente dos Estados Unidos, interessado em libertar golpistas que bateram continência a pneus e acamparam em portas de quartéis clamando por uma intervenção militar? Ora, tenha dó. Menos, menos.
Dó de mim, não de Bolsonaro. Ele não merece sua piedade. Sabe a última de Bolsonaro e da gangue que o cercava, todas pessoas honradas que só queriam o bem do país? O ministro Alexandre de Moraes – sim, sempre ele – suspendeu o sigilo do áudio de uma reunião onde Bolsonaro discute como salvar seu filho Flávio, o senador, da encrenca da rachadinha.
“É o caso de conversar com o chefe da Receita”, sugeriu Bolsonaro a duas advogadas de Flávio. Participaram da reunião que aconteceu em agosto de 2020 o chefe da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), o delegado Alexandre Ramagem, e o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.
À época, o secretário da Receita era José Tostes. Bolsonaro menciona ainda o chefe do Serpro (estatal de processamento de dados do governo) e Gustavo Canuto que estava à frente da Dataprev, outra estatal de processamento de dados. Ramagem gravou a reunião – segundo ele, com autorização de Bolsonaro. Tiro no pé ou não?
A certa altura da gravação, ouve-se o general Heleno a comentar:
“Tentar alertar ele que ele tem que manter esse troço fechadíssimo. Pegar de gente de confiança dele. Se vazar [inaudível]."
No período de um mês, o secretário da Receita reuniu-se meia dúzia de vezes com as advogadas no Palácio do Planalto, e pelo menos uma vez com elas e Flávio no apartamento do senador. A gravação foi apreendida pela Polícia Federal no notebook de Ramagem e faz parte do inquérito que apura o uso da ABIN para beneficiar Bolsonaro e seus filhos.
O cerco (perdão!) a Bolsonaro nem tão cedo se fechará.
As festas da Convenção
A Convenção do Partido Republicano, tal como a que vai acontecer com os democratas, é uma festa aclamatória que dura alguns dias e que envolve milhares de membros do partido, em representação dos 50 Estado e do Distrito Federal de Washington. É uma festa pública de várias festas privadas que vão do inicio da tarde, a formal, até às tantas, quando o Sol aparece e o álcool se esgota em Milwaukee.
Tive a oportunidade única de fazer a cobertura, enquanto jornalista acreditado nas campanhas, das duas Convenções, no final dos anos 90, e o espetáculo é inesquecível. A começar logo na «cidade dos media»: são dezenas de espaços e tendas criadas e montadas no exterior do pavilhão onde se concentram milhares de jornalistas de todos os meios, sendo a maioria esmagadora (!) americanos. É nas Convenções que aparecem as maiores estrelas das televisões e jornais, sempre ladeados de um «staff» majestoso e quase infinito, com tudo à disposição. Nesta cidade trabalha-se, come-se, bebe-se, e outras coisas mais.
Desta vez, no Wisconsin, esta Convenção ganhou a proporção de um acontecimento mundial: todos querem ver a orelha e o estado de espírito de Trump, que acredita que Deus o salvou, sendo, por isso, um ex futuro presidente escolhido pela Providência Divina. Ouvimos isto, em 1939, há 85 anos, e acabou na Segunda Guerra Mundial. Deus não vota nas eleições americanas, nem em Trump ou Biden.segunda-feira, 15 de julho de 2024
Candidatos desprezam temas fundamentais para as cidades
Os rios gaúchos nem bem baixaram a níveis toleráveis, ainda existem desaparecidos tragados pelas águas, mas a tragédia climática, até hoje a maior em grandes metrópoles brasileiras, não ocupa os discursos dos candidatos. Desculpe, eles não sabem o que fazem. Mais fácil é proibir livros (que não leram) nas escolas ou exibir fotos de suspeitos (pretos e pobres) mortos à queima-roupa. Como outra distração, vale também querer explorar petróleo em região de recifes de corais na Foz do Amazonas.
A pandemia escancarou a precariedade dos centros urbanos, embora há muito fosse conhecida por seus moradores. A mudança climática, o oportunismo político das más administrações, as oscilações demográficas, as novas matrizes dos meios de produção, enfim, causas do progresso e de seus malefícios (os benefícios aqui não vêm ao caso) não serão resolvidas no gogó da polarização. Demandam raciocínio, lógica e conhecimento. E escolhas sobre as quais a população merece ser consultada.
Além das falhas técnicas, a tragédia gaúcha traz componentes políticos. Que estão presentes noutras cidades, principalmente no Rio e em São Paulo. Inundações, desabamentos, soterramentos — é um cardápio conhecido nas manchetes anuais ao longo de todas as estações do ano. As construções (ou ocupações) em áreas de riscos naturais são um padrão tolerado em nome da falta de habitação nos grandes centros. É um problema social causado pela inação das administrações e seus políticos de plantão. À equação podem ser acrescentadas as casas dependuradas nas encostas. Primeiro se invade, logo depois um vereador obtém a legalização da área, a despeito de a nova população correr risco de vida e ajudar a poluir as águas (porque ali não há coleta de esgoto, como ocorre, aliás, com 44,5% dos brasileiros). Antes um problema de moradia, agora também uma questão de saúde.
A política tirou do vocabulário a ideia de reforma agrária. Mas a reforma urbana jamais entrou na plataforma das administrações. Preferem-se prédios desocupados por décadas em áreas centrais a seu uso como moradia popular, algo que é política pública em metrópoles de países capitalistas desenvolvidos.
Os erros ou acertos urbanos jamais são considerados pelos prefeitos e pelos despreparados vereadores. Nos três últimos anos, São Paulo passa por um frêmito de construção de imensos prédios, a partir da reformulação de seu Plano Diretor. Como justificativa, a necessidade de adensamento próximo às estações de metrô. A vista grossa oportunista não coloca no cálculo do progresso o aquecimento da cidade, algo que ocorre também pela falta de circulação de ar e pelos edifícios altos e espelhados que rebatem o sol. Interessante que Nova York debateu semelhante problema cem anos atrás, quando da reformulação da Park Avenue — e seus legisladores ofereceram soluções. (Não tratarei aqui novamente das sombras à beira-mar de Camboriú, a meca do bolsonarismo, causadas pelos gênios de sempre).
Entre vários outros problemas (como as cracolândias), as plataformas dos candidatos poderiam se ater às questões trazidas pela longevidade da população. Nem falarei das creches, porque isso já foi resolvido por nossos estadistas. O tempo passou para aquelas crianças que não foram atendidas na infância. Quem sabe na velhice… Pense em envelhecer em São Paulo ou no Rio. De cara, as calçadas, onde centenas de pessoas são tragadas diariamente por suas crateras. Depois as bicicletas dos deliveries que disputam espaço. Por educação ideológica não se deve falar dos motoboys que avançam as faixas em cima dos pedestres (talvez seja uma luta de classes motorizada).
Países como Suécia ou Japão já estabelecem políticas públicas diante do rápido envelhecimento da população. Questões como moradia, centros de amparo, pisos seguros, rampas, entre outras, estão no cardápio. Anos atrás, os ingleses criaram o Ministério da Solidão. Sem ser cínico, não sei o que os candidatos a prefeito pensam sobre o tema. Me parece algo muito delicado para perguntar na frente das crianças.
Poema aos Homens do nosso Tempo - VIII
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.
Hilda Hilst
Insônia
Rubem Alves, "Ostra feliz não faz pérola"
Este é o patrimonialismo no Brasil
Trata-se mais do que um sistema de governo e de relações de poder, que resvala para uma cultura mais ampla e para uma maneira de ser. Uma de suas características é a inexistência de distinção entre público e privado. Se tenho um cargo de governo, posso meter a mão à vontade. Só tenho de evitar indiscrições, porque parte das leis e do Código Penal foi escrita sob outros princípios.
Em Economia e Sociedade, Max Weber definiu o patrimonialismo como um sistema de poder e de governo. Por aqui, os pensadores mais importantes a identificar o patrimonialismo como um dos principais traços da política e da cultura local foram Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, e Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder.
Chegou ao Brasil com as instituições coloniais. As capitanias hereditárias distribuíram territórios em que o donatário mandava e tinha como seu qualquer bem de sua propriedade – ou de seu patrimônio.
Outras manifestações do sistema no Brasil são o clientelismo, o mandonismo, o coronelismo e o corporativismo. Contam mais as relações pessoais e familiares (nepotismo) e menos a competência do favorecido. As nomeações sempre comportam o “toma lá dá cá”, favores se retribuem com favores, pouco importando o interesse público.
No sistema, a corrupção e o roubo são quase incompreensíveis. Como posso roubar o que já é meu? E é o que explica em boa parte por que a Operação Lava Jato fracassou e por que a Justiça acabou por apegar-se a questões processuais para jogar fora a criança com a água do banho.
No Brasil, as esquerdas também foram tomadas por variações patrimonialistas. O aparelhamento de instituições públicas é justificado pela necessidade de tomar o “estado burguês”, supostamente em benefício da causa maior, que é a redenção social, digamos assim, embora muitas vezes essa tomada desemboque na apropriação pessoal de bens do Estado. Tudo o que não vai nessa direção é entendido como neoliberalismo ou submissão ao imperialismo.
Até agora, o presidente Lula parece não ter entendido por que o Banco Central e as agências reguladoras têm funções próprias previstas em lei e não devem ser submetidas a determinações do maioral da hora.
O patrimonialismo explica por que, no Brasil, o desenvolvimento acaba emperrado, por que o protecionismo corrói a competitividade da indústria e por que tantas oportunidades históricas são perdidas.
Como mudar isso? Alguma coisa já vem mudando. Bem ou mal, o espírito republicano vai sendo incorporado. Mas coisas tão arraigadas no jeito de ser do brasileiro levam mesmo tempo para mudar.
Todos os irmãos Batista
As irmãs Batista da minha infância eram rainhas do rádio. Pode não parecer nada hoje, mas o título importava na época em que o rádio era a única diversão. As irmãs Batista cantavam em filmes de carnaval. Se me lembro bem, elas puxavam um pouco nos erres. O pai foi ventríloquo e cantor. Fez tudo para que as filhas seguissem a carreira artística.
É coisa de velho, eu sei, mas cada vez que falam nos irmãos Batista, o que me vem à lembrança são as irmãs Batista da minha infância. Os irmãos Batista, Joesley e Wesley, não são cantores, embora os nomes sugiram uma dupla de sertanejo universitário. Vendem carne para o mundo e surgiram num grande escândalo no governo Temer. Foi gravada uma conversa com o presidente em que um deles falava de suas visitas e de seus agrados a Eduardo Cunha, para que ele não contasse todas as aventuras do PMDB com os empresários.
A frase de Temer ficou muito conhecida:
— Tem que manter isso aí, viu?
Mantenham isso, quer dizer, continuem tratando bem o Cunha para evitar escândalo. Mas o escândalo explodiu a partir daí, e os irmãos Batista fizeram longos depoimentos, delações premiadas, e sua história rolou por muito tempo na imprensa.
Passados alguns anos, depois de tanta exposição, os irmãos Batista voltam à cena. O ministro Dias Toffoli perdoou uma multa de R$ 10,3 bilhões definida no acordo de leniência que fizeram com as autoridades. A mulher de Toffoli tinha trabalhado como advogada dos Batistas, mas tudo parece ter sido uma coincidência.
Os Batistas foram ao exterior convidados na caravana do ministro da Agricultura. Afinal, são exportadores de proteína animal. Participam de seminários com autoridades, e parece que organizam também alguns debates sobre grandes temas nacionais.
Os irmãos Batista entraram no ramo da energia. Compraram várias pequenas produtoras e criaram a Âmbar, que venderia para a distribuidora Amazonas Energia, uma empresa falida. Teriam enlouquecido? Vender energia para quem não paga nem pode pagar! O governo resolveu a questão editando uma Medida Provisória em que pagamos todos a dívida da empresa falida, e o negócio fica viável para os Batistas. A Amazonas devia mais de R$ 10 bilhões; agora, quem deve somos nós, que pagaremos aos poucos em nossas contas. No último dia 28, a empresa dos irmãos Batista formalizou um plano de compra da distribuidora beneficiada pela MP do governo.
Eles visitaram 16 vezes o Ministério de Minas e Energia, mas o governo continua dizendo que foi tudo uma coincidência. É o célebre “não é o que você está pensando”, que sempre aparece quando descobrimos o casal na cama sem roupa.
O governo deveria prestar mais atenção a esses detalhes, se é que podemos chamar de detalhes os bilhões que, por coincidência, acabaram favorecendo Joesley e Wesley. Eles podem cantar de novo, e ficaremos sabendo que, no fundo, nada mudou: o país continua sendo saqueado como foi no passado recente.
A recusa em aceitar uma nova relação se manifesta também na insistência em manter no cargo um ministro das Comunicações acusado pela Polícia Federal de desvio de verbas públicas. Ele ficará no cargo até que provem sua culpa. No governo Itamar Franco, foi inaugurada a prática de o acusado deixar o cargo para provar sua inocência. Regredimos, portanto.
Neste momento em que os irmãos Batista aparecem com a corda toda, manobrando bilhões que, por coincidência, lhes são legados por decisões de um ministro do STF e por uma Medida Provisória do governo, lembro-me das irmãs Batista.
No meio da década de 1980, elas foram recolhidas em seu apartamento na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, por uma ambulância. Estavam paupérrimas, desnutridas, na miséria. Foi um choque ver o estado das rainhas do rádio, destituídas de todo o esplendor de sua carreira. Eram apenas artistas populares num país que segue na normalidade, exceto por alguns eventos extremos, tiroteios intensos, incêndios e devastações em nossas matas. Pátria amada, Brasil.
América do Sul se autossabota mesmo em cenário favorável
O bloco expandido poderá, de fato, se tornar um ator fundamental na transição das economias mundiais para processos de emissões zero de gases de efeito estufa: a Bolívia e a Argentina têm as maiores reservas mundiais de lítio, utilizado na produção de baterias. Em países membros como Uruguai, Paraguai e Brasil, a eletricidade é gerada predominantemente a partir de fontes de energia renováveis. O Mercosul também pode fornecer uma vasta gama de terras-raras e outros minerais críticos, que estão se tornando cada vez mais importantes para o Ocidente em meio a tensões geopolíticas entre a China e os EUA.
Conclusão: com a adesão da Bolívia, o Mercosul ganha peso geopolítico. Isto torna a comunidade econômica sul-americana mais atraente como região parceira para potências mundiais concorrentes - da China aos EUA e à Europa.
Mas, na América do Sul, muitas vezes um passo em frente é seguido de um passo para trás. Isso porque alguém não quis participar da cúpula: o presidente da Argentina, Javier Milei.
Milei já havia feito uma afronta ao Brasil. Na véspera, havia viajado para Santa Catarina a convite do ex-presidente Jair Bolsonaro para um encontro de populistas de direita. Foi a primeira viagem de Milei ao país vizinho desde que assumiu o cargo, em dezembro. A antes da viagem ele voltou a descrever Lula como um "comunista corrupto”.
Com suas constantes aparições sem todo o mundo como estrela pop da nova direita, Milei aparentemente quer garantir popularidade entre seus seguidores. Mas o presidente argentino parece representar cada vez menos os interesses da política externa de seu país. E, ao fazer isso, está isolando cada vez mais a Argentina e prejudicando a si próprio.
Milei usa suas aparições no exterior para alimentar seu ego, em vez de promover a Argentina ou negociar parcerias. Selfies com empresários do Vale do Silício ou com políticos como Trump parecem ser mais importantes para ele do que visitas aos seus parceiros comerciais mais importantes (Brasil, China, EUA, UE). Além disso, a sua política externa está ser tornando cada vez mais ideológica.
Na semana passada, ele instruiu sua ministra das Relações Exteriores a rejeitar, em uma reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), quaisquer resoluções relacionadas à Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável. As passagens sobre gênero, violência baseada no gênero, LGBTQ+ e alterações climáticas devem ficar de fora da declaração final.
O rumo ideológico cada vez mais direitista de Milei poderá bloquear novamente as negociações entre Mercosul e UE - como aconteceu sob o governo do ex-presidente Bolsonaro no Brasil. Naquela época, a UE congelou as negociações por mais de três anos por causa das políticas climáticas de Bolsonaro e sua falta de interesse em combate o desmatamento da Amazônia.
Para os numerosos opositores do acordo entre Mercosul e Europa, o rumo estritamente direitista de Milei é um trunfo.
A política ideológica de direita de Milei poderá, mais uma vez, se tornar um argumento - ou melhor: um pretexto - para interromper as negociações.
O fato de Lula não ter embarcado em declarações polêmicas contra Milei na cúpula é uma prova do pragmatismo do presidente brasileiro.
"É uma bobagem imensa o presidente de um país como a Argentina não participar da reunião do Mercosul. É triste para a Argentina", disse.
Mas Lula esqueceu de acrescentar: é igualmente triste para a América do Sul que os Estados da região raramente consigam falar em uníssono.
domingo, 14 de julho de 2024
'Arma' sacra
Você não deve ter medo de alguém que tem uma biblioteca e lê muitos livros; você deve temer alguém que tem apenas um livro, e o considera sagrado, mas nunca leuFriedrich Nietzsche
Brasília é uma usina de reciclagem de erros
As montadoras nacionais fazem o que podem contra os carros elétricos, valendo-se do trânsito de que dispõem pelo corredores de Brasília, mas desta vez exageraram.
Uma reforma tributária que pretende ser racional acabou acordando o velho monstro do atraso.
A sabedoria convencional ensina que tendo sido um dos últimos países a abolir a escravidão (em 1888), Pindorama tem um pé no atraso. A coisa é pior. Até 1850 o andar de cima nacional estava amarrado ao contrabando de africanos escravizados, uma atividade supostamente ilegal desde 1831.
Admita-se que isso é coisa de um passado remoto, mas o atraso está sempre por aí.
Em 1978, a Associação dos Supermercados excluiu de seu quadro social a rede Carrefour porque ela aceitava pagamentos com cartões de crédito. Nessa época, burocratas e espertalhões criaram um regime pelo qual era mais fácil entrar no Brasil com um pacote de cocaína do que com um computador.
Encrenca-se com os carros elétricos em nome de uma proteção ao parque industrial das montadoras. Trata-se de uma jovem indústria, septuagenária e anacrônica. Enquanto fábricas reinventam-se pelo mundo afora, no Brasil fala-se em importar linhas de montagem de veículos a gasolina desativadas pelo progresso. Seria o ProSucata.
Em 2003, os maganos das montadoras viviam muito bem quando um jovem chamado Elon Musk se meteu no mercado de carros elétricos e criou a Testla. A China foi na bola e hoje suas montadoras têm a maior fatia do mercado mundial.
Quando Juscelino Kubitschek dirigiu o primeiro carro saído de uma montadora de São Paulo, os chineses andavam de bicicleta. Em matéria de fazer besteiras, a China batia o Brasil de longe. Pindorama tinha JK, quando a China teve o Grande Salto de Mao Zedong (Mao Tsé-Tung), com dezenas de milhões de mortos de fome. Os dois países diferem em muitas coisas, mas a China consegue abandonar as ideias erradas. Enquanto o Brasil recicla-as.
Uma PEC sem-vergonha
Se fizermos uma pesquisa entre cientistas políticos perguntando qual é o princípio mais fundamental das sociedades civilizadas, são grandes as chances de que a resposta majoritária seja "o império da lei" ("rule of law"), a noção de que todos, incluindo governantes e legisladores, estão sujeitos às mesmas leis.
Tempo de profecia
Uma delas é a mutação na consciência cívica e social. À primeira vista, uma saturação baixa dos discursos e valores liberais, portanto, má circulação do oxigênio democrático. Perspectiva talvez razoável para a sociologia das formas de vida, mas não explica a contaminação do fenômeno pelo espírito regressivo da ultradireita.
No entanto, esse é o espírito de ressentimento e ódio, acionado pelo "fogo das paixões perversas, ou seja, aqueles extremos carregados de afeto, dos quais a natureza humana é capaz, mas que, no cotidiano, são repudiados, reprimidos, escondidos ou, acima de tudo, inconscientes" (C.G. Jung em "Um mito moderno sobre coisas vistas no céu"). Nesta linha explicativa, o pensador combina mito e arte interpretativa.
Uma antiga afirmação alquímica, "o que a natureza deixa incompleto, é completado pela arte", foi bem acolhida por pensadores influentes do século passado. Arte, em sentido amplíssimo, como abordagem de situações inapreensíveis pela linguagem racional. Donde a produção de imagens e narrativas que sempre couberam nas mitologias.
Assim, o bisão branco, evento sagrado para povos originários, revelaria que algo de bom ou de mau acontecerá numa mudança significativa, para a qual os seres humanos deveriam se preparar. Do imaginário à história, há um salto metafórico possível. No aspecto negativo, a mudança é portal para aqueles que se alimentam da ignorância dos outros, por meio da mentira e do aceno a um passado tóxico.
Imaginariamente, seriam metamorfos: nos contos nórdicos, seres mitológicos capazes de se transformar em outras pessoas, devoradores de formas vitais de existência. Dele há variações tenebrosas, como a do "devorador do luto", que se alimenta do sofrimento dos indivíduos. Na história, gente como Hitler, Stálin, Putin.
Mito é o fundo duplo da história. Estaria nesse viés de mutação mental a raiz do fundamentalismo religioso e político, que captura comunidades carentes e sujeitos de miséria afetiva. Isso que advém como negação da realidade e indiferença às verdades. Ante a debilidade do discurso progressista, a consciência permeável à mutação abre-se a extremos perversos como Trump, Putin e réplicas. Na coligação do capital necrofílico com a tecnologia, as profecias suscitam a indagação sobre se os humanos não estariam de novo a bordo de um Titanic.
quinta-feira, 11 de julho de 2024
Um nacionalismo internacionalista?
No século 20, uma das incompatibilidades fatais entre Josef Stalin e Leon Trotsky passava exatamente por aí. O primeiro, já entronizado como tirano da União Soviética, abraçou (feito urso) a tese de que era possível erigir o socialismo num só país. O segundo, pulando de exílio em exílio, afirmava que a revolução socialista teria de ser internacional – ou não seria nem revolução, nem socialista.
Stalin levou a melhor e se firmou numa ascensão mortífera. Em sua folha corrida constam milhões de cadáveres, incluindo os que foram tragados pela fome-terror na Ucrânia, durante o Holodomor, em 1932 e 1933. No mesmo período, por meio dos fraudulentos “processos de Moscou”, o “guia genial dos povos” dizimou vários de seus camaradas que, em 1917, faziam parte do Comitê Central do Partido Bolchevique. Pouco depois, em 1940, enviou o agente secreto Ramón Mercader para assassinar mais um deles, Leon Trotsky. Em Coyoacán, na Cidade do México, Mercader usou uma picareta de alpinista para abrir o crânio de sua vítima e, em 1961, recebeu a medalha de Herói da União Soviética. Prestou serviços ao stalinismo em terras distantes, mas nunca foi internacionalista – matou um.
Entre o bem e o mal, o movimento operário sempre se vinculou a organizações supranacionais. Umas eram melhores, outras eram vis. A Segunda Internacional, ligada à social-democracia, inspirou a criação do PSDB no Brasil. A Quarta Internacional, de Leon Trotsky, fragmentou-se em cisões sequenciais até se estilhaçar em pedacinhos praticamente invisíveis. A Terceira Internacional, comandada por Moscou, limitava-se a transmitir as ordens do Kremlin para suas filiais mundo afora.
Agora já era. O sonho do internacionalismo solidário mergulhou em viés de baixa. Às vezes é um hino na vitrola – ou num baile da saudade. Outras vezes, é sucata ideológica. Nos nossos dias, veja você, a notícia mais momentosa é que a extrema direita nacionalista, cobrindo de sombras pesadas o palco da política, quer ser internacional.
Sim, é uma contradição em termos. Forças xenófobas – dessas que abominam imigrantes, arrostam a ONU, enxovalham a OMS, esnobam o Mercosul, bajulam Elon Musk e desdenham dos esforços para conter o aquecimento global – vêm se dedicando a promover encontros internacionais. Encontros para quê? Ora, para celebrar a desunião e exacerbar o ódio contra qualquer forma de entendimento, de acordo, de encontro internacional. Se há algo que, por definição, não pode ser internacionalista, de jeito nenhum, é o nacionalismo, mas o nacionalismo parece que não foi avisado.
Marx e Engels diziam que o movimento operário tinha de ser internacionalista porque as relações de produção já tinham sido internacionalizadas pelo capital. Portanto, se quisessem virar o jogo, os partidos revolucionários não poderiam se limitar aos espaços nacionais. Nesse ponto, foram cartesianos. Você pode até discordar dos dois rapazes, mas não tem como não reconhecer a lógica do raciocínio.
Já o nacionalismo internacionalista é ilógico. Seus expoentes proclamam, entre outras aporias involuntárias, que são contra a globalização. Será que eles não viram que a globalização é uma consequência da ordem econômica que juram defender em armas? Não viram que eles mesmos são um sintoma reverso da globalização? Atacam o “globalismo” – a que atribuem a culpa pelas migrações e pelo dinheiro digital, que dá a volta no planeta em menos de um segundo –, sem notar que aqueles a quem xingam de “globalistas”, longe de serem os culpados, são os que mais denunciam os efeitos perversos da globalização.
Não entenderam a si mesmos e abominam quem entendeu. Em transe anticívico, em ritmo de embalo sísmico, acalentam fantasias globalitárias. Talvez desejem um futuro em que as nações, fortificadas, armadas e enclausuradas em si mesmas, vão competir umas com as outras até o fim dos tempos. Talvez acreditem que, da guerra de todos os nacionalismos contra todos os nacionalismos, o paraíso brotará como um cogumelo.
Para complicar o tabuleiro, uma parcela do Brasil embarcou nesse delírio tanático, entre a nulidade mental e a opulência performática. Sem surpresas. Temos convivido há décadas com fenômenos incongruentes que transitam por aí como se fossem normais. Tome-se, por exemplo, o adjetivo “progressista”, que denomina um pessoal convertido às pautas mais conservadoras. Tome-se outro adjetivo, “republicano”, que batiza um segmento de adoradores de igrejas. Existem ainda os liberais iliberais. Nesse meio, os nacionalistas internacionalistas são mais do mesmo. Será que eles sabem que o internacionalismo é de esquerda? Provavelmente não. Eles nunca souberam que o nazismo era (e é) de direita.
Não há extrema direita moderada
Por trás dos debates semânticos sobre o que é a extrema direita e das nuances perdidas na tradução das adjetivações ultra, extrema e radical, está a tentativa de normalizar o extremista. Na forma como foi transplantado ao Brasil, o debate é menos sobre as graduações do extremismo de Le Pen e cia. na França e mais sobre como ficar em paz com a possibilidade de que a única via capaz de barrar forças progressistas seja, a curto prazo, versões higienizadas do neofascismo.
Conceitos não são realidades objetivas; partem de uma posição política. Conceitos são relacionais: faz sentido falar em extrema direita em relação ao espectro francês e ao europeu. Na França, o Conselho de Estado rejeitou, em março deste ano, questionamento do partido de Le Pen após ser enquadrado como extrema direita. No Parlamento Europeu, o partido de Marine Le Pen lidera a nova coalizão de direita no extremo do espectro político europeu, ao lado de Orbán.
Conceitos são históricos. Não é porque Le Pen desinfetou o discurso, distanciando-se de antigos parceiros neonazistas, que o seu programa político-partidário não esteja ainda fincado na ideia de nação em bases étnico-raciais. Não é porque Le Pen suavizou o antissemitismo por razões estratégicas que o seu racismo anti-imigrante e antinegro não seja igualmente definidor de seu extremismo. A diferença está nas costas de quem as botas do extremismo vão pisar e quem vai lambê-las.
Pega ladrão!
Alguns dirão que, diante das facilidades da Presidência, Bolsonaro viu a oportunidade de meter a mão, como no caso das joias. É a velha ideia de que a ocasião faz o ladrão. Mas Machado de Assis, em seu romance "Esaú e Jacó" (1904), já corrigiu esse equívoco: "A ocasião faz o furto. O ladrão já nasce feito". A prova é que, manipulando os bilhões do Orçamento à sua vontade, Bolsonaro foi apanhado pungando objetos que poderia muito bem comprar, e até com dinheiro vivo, como de praxe nos Bolsonaros.
Bolsonaro reduziu o Palácio da Alvorada a uma caverna de Ali Babá, com suas arcas de relógios, brincos, colares, anéis, braceletes, pingentes, canetas e abotoaduras de ouro e diamantes, e fez de seus auxiliares, civis e militares, a horda dos 40 ladrões —pelo menos 11 até agora. Em seguida, transformou o Alvorada num camelódromo, para vender esses bens que não lhe pertenciam. Vendidos, tiveram de ser vergonhosamente recomprados quando a Justiça deu por falta deles. Raro um contrabandista tão desastrado.
O Houaiss dá várias definições para o ato de se apossar do que é alheio: afanar, agafanhar, assaltar, defraldar, desfalcar, despojar, empalmar, furtar, gatunar, larapiar, pilhar, piratear, rapinar, subtrair, usurpar —em suma, roubar. Há vários nomes para quem se dedica a essas práticas.
Mas há um bem simples e que resume Bolsonaro: ladrão.













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