sábado, 4 de julho de 2015

O leão e o rato


 Depois que o Leão desistiu de comer o rato porque o rato estava com espinho no pé (ou por desprezo, mas dá no mesmo), e, posteriormente, o rato, tendo encontrado o Leão emvolvido numa rede de caça, roeu a rede e salvou o Leão (por gratidão ou mineirice, já que tinha que continuar a viver na mesma floresta), os dois, rato e Leão, passaram a andar sempre juntos, para estranheza dos outros habitantes da floresta (e das fábulas). E como os tempos são tão duros nas florestas quanto nas cidades, e como a poluição já devastou até mesmo as mais virgens das matas, eis que os dois se encontraram, em certo momento, sem ter comido durante vários dias. Disse o Leão:

– Nem um boi. Nem ao menos um paca. Nem sequer uma lebre. Nem mesmo uma borboleta, como hors-d’oeuvres de uma futura refeição.

Caiu estatelado no chão, irado ao mais fundo de sua alma leonina. E, do chão onde estava, lançou um olhar ao rato que o fez estremecer até a medula. “A amizade resistiria à fome?” – pensou ele. E, sem ousar responder à própria pergunta, esgueirou-se pé ante pé e sumiu da frente do amigo (?) faminto.

Sumiu durante muito tempo. Quando voltou, o Leão passeava em circulos, deitando fogo pelas narinas, com ódio da humanidade. Mas o rato vinha com algo capaz de aplacar a fome do ditador das selvas: um enorme pedaço de queijo Gorgonzola que ninguém jamais poderá explicar onde conseguiu (fábulas!). O Leão, ao ver o queijo, embora não fosse animal queijífero, lambeu os beiços e exclamou:

– Maravilhoso, amigo, maravilhoso! Você é uma das sete maravilhas! Comamos, comamos! Mas, antes, vamos repartir o queijo com equanimidade. E como tenho receio de não resistir à minha natural prepotência, e sendo ao mesmo tempo um democrata nato e confirmado, deixo a você a tarefa ingrata de controlar o queijo com seus próprios e famélicos instintos. Vamos, divida você, meu irmão! A parte do rato para o rato; para O Leão, a parte do Leão.

A expressão ainda não existia naquela época, mas o rato percebeu que ela passaria a ter uma validade que os tempos não mais apagariam. E dividiu o queijo como o Leão queria: uma parte do rato, outra parte do Leão. Isto é: deu o queijo todo ao Leão e ficou apenas com os buracos. O Leão segurou com as patas o queijo todo e abocanhou um pedaço enorme, não sem antes elogiar o rato pelo seu alto critério:

– Muito bem, meu amigo. Isso é que se chama partilha. Isso é que se chama justiça. Quando eu voltar ao poder, entregarei sempre a você a partilha dos meus bens que me couberem no litígio com os súditos.

Você é um verdadeiro e egrégio merítissimo! Não vai se arrenpender!

E o ratinho, morto de fome, riu o riso menos amarelo que podia, e ainda lambeu o ar para o Leão pensar que lambia os buracos do queijo, E enquanto lambia o ar, gritava, no mais forte que podiam seus fracos pulmões:

– Longa vida ao Rei Leão! Longa vida ao Rei Leão!

MORAL : Os ratos são iguaizinhos aos homens.
Millôr Fernandes

A extinção da mulher sapiens

mulheres sapiens
Dilma chegou lá. Conseguiu enfim bater a popularidade de Collor na época do impeachment. Alcançou um dígito de aprovação (9%), segundo o Ibope, e 68% de rejeição. A façanha se deu logo após a confissão de Ricardo Pessoa, o homem-bomba das empreiteiras. Ele confirmou que financiou a campanha de Dilma em 2014 com dinheiro roubado da Petrobras. É o flagrante definitivo do nacionalismo companheiro. O que faz uma mulher sapiens diante de tal obscenidade?

Faz o de sempre: joga areia nos olhos da plateia, como diagnosticou Fernando Gabeira. Mas a tática de embaralhar e confundir, quando utilizada por uma pessoa embaralhada e confusa, produz um resultado esquisito. “Não confio em delator”, rebateu Dilma, atirando no mensageiro. A presidente explicou que a ditadura tentou fazê-la delatar seus companheiros, e ela não aceitou. Até Joaquim Barbosa surgiu de seu exílio para dizer que Dilma feriu o instituto da delação premiada com esse paralelo estapafúrdio. Mas Joaquim não entende nada da lógica companheira.


Lula da Silva já justificou massacres impostos pelo seu amigo ditador do Irã como “briga normal entre flamenguistas e vascaínos”. Agora ele admitiu que Dilma mentiu na eleição, conforme revelou o GLOBO, ao dizer que ajuste fiscal era coisa do seu adversário. Mas durante a campanha, quando o adversário denunciava as mentiras de Dilma — o ajuste de Armínio Fraga ia esvaziar o prato do povo —, a infantaria petista gritava que era agressão contra a mulher. Mulher sapiens, vítima da ditadura, coitada profissional. Haja areia.


A Operação Lava-Jato, que não deixa em paz esse governo sofrido e discriminado, prendeu donos de empreiteiras. Entre eles o presidente da Odebrecht, cujo lobista levou Lula para passear pelo mundo. As prisões foram feitas sob a teoria de domínio do fato, isto é, autoria indireta dos crimes. Ricardo Pessoa, Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef já inundaram o processo do petrolão com evidências de que o esquema prosperou à sombra do Palácio do Planalto. Pela teoria de domínio do fato, Lula e Dilma estariam no centro das investigações. Procura-se um homo sapiens capaz de fazer isso acontecer.



Aí vem o Tribunal de Contas da União mandar a presidente justificar as pedaladas fiscais. Só pode ser uma conspiração da direita. Como a orgia nas contas públicas não é justificável, a plateia aguarda com a respiração presa o próximo truque para livrar Dilma do crime de responsabilidade. Cuidado com os olhos, porque lá vem areia. Já mandaram o ex-secretário do Tesouro dizer que a culpa foi dele — mais um aloprado desses que fazem o diabo por conta própria e não obedecem a ninguém. Como não há estoque de álibis que chegue para tanta fraude, o governo do PT está por um fio.

E quem segura esse fio é um elenco admirável. Há jornalistas importantes (com e sem mesada), intelectuais respeitáveis, expoentes da cultura. Eles formam a tropa de choque da Dilma — mais ou menos como aquela liderada por Roberto Jefferson na via crúcis de Collor. Esses bem-pensantes não se importam com o estelionato petista, que em nome da justiça social depenou o país, porque estão com os olhos enfiados na Bíblia. Luiz Inácio é seu pastor e nada lhe faltará (se cortejares o partido certo). Se vires milhões nas ruas contra a impostura do PT, enxergarás apenas a faixa pedindo intervenção militar — e gritarás contra a “onda conservadora”. Caminhando e cantando e seguindo o cifrão.

Evidentemente chegará o dia em que esses dogmas de 1,99 vão se esfarelar, e a mulher sapiens irá para o museu de história natural. Nesse dia, os gladiadores progressistas da Dilma dormirão como heróis dos oprimidos raciais, sociais e sexuais, e acordarão como avalistas da maior picaretagem do Brasil contemporâneo. Gente, é sério: isso vai dar uma ressaca danada.


Lula foi fazer comício para os petroleiros e gritou (quanto menos ouvem, mais ele grita) contra a perseguição “das esquerdas”. Ele está falando com vocês, seguidores do livro sagrado dos maniqueísmos. O povo não está nem aí para esse papo de esquerda. O que o povo sabe é que o emprego está indo embora e a inflação está voltando, por obra de um governo que destruiu as finanças públicas com sua gana parasitária. Isso é ser de esquerda? Resolvam aí entre vocês, antes que seja tarde.


A explicação do governo bonzinho para as doações confessadas pelos presos da Lava-Jato é que tudo foi recebido de maneira absolutamente legal. Ou seja: o dinheiro era sujo enquanto era propina, mas ao entrar legalmente no caixa do PT ficou limpinho. Como resumiu Renata Lo Prete: no mensalão, a estratégia petista era alegar caixa dois; no petrolão, a estratégia é alegar caixa um.

Quem pode acreditar que essa má fé compulsiva provém de um projeto humanitário de poder? Atualizem logo o seu selo de bondade, prezados cidadãos conscientes. Largar a mão da mulher sapiens quando ela estiver sendo varrida pelo dilúvio não vai pegar bem.

Manual de direitização

Desfiles de protesto, participação nas eleições, exercício do poder. Estes três tipos de acção política têm uma característica comum: as categorias populares estão a afastar-se ou a ser afastadas deles. Quando, a 11 de Janeiro último, milhões de franceses manifestaram a sua solidariedade com as vítimas dos atentados de Paris, a mobilização das classes médias contrastou uma vez mais com a do mundo operário e a da juventude dos bairros desfavorecidos, relativamente mais modesta. Há anos que a «rua» está a aburguesar-se. As urnas também. A cada nova eleição, ou quase, as taxas de participação regridem, em conjunto com o nível de rendimento. E a «representação nacional» não é em nada menos privilegiada, uma vez que o seu rosto se confunde com o das classes superiores. Será a política um desporto de elite?

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Isto já se observa no caso da esquerda europeia. Criado no início do século XX pelos sindicatos, o Partido Trabalhista britânico tinha a vocação de representar o eleitorado operário. Em 1966, 69% dos trabalhadores manuais davam-lhe o seu voto; esta percentagem passou para 45% em 1987, e depois para 37% no escrutínio de 7 de Maio último. O blairismo pensava que era preciso dar prioridade às classes médias. Missão cumprida: é com o eleitorado mais burguês da sua história que os trabalhistas acabam de sofrer uma estrondosa derrota eleitoral …

«A crescente desafeição dos meios populares pelos partidos de esquerda, observável em todas as democracias ocidentais electivas», salienta o politólogo Patrick Lehingue, «não é sem dúvida alheia à rarefacção dos eleitos que eram oriundos dos meios desfavorecidos e haviam passado pelas condições de vida ali existentes». Veja-se o caso francês. Em 1945, um quarto dos deputados franceses eram operários ou empregados antes de serem eleitos; hoje já são apenas 2,1%. Em 1983, setenta e oito autarcas de comunas com mais de 30 mil habitantes provinham ainda destas duas categorias sociais (maioritárias na população); passados trinta anos eram apenas seis.

Será o sistema representativo? Mais de metade dos americanos consideram que o Estado devia redistribuir a riqueza taxando fortemente os mais abastados. Entre estes últimos – é humano – só 17% partilham tal desejo. Contudo, o funcionamento das democracias ocidentais garante que a sua opinião será vencedora, uma vez mais sem debate real. Uma classe consciente dos seus interesses mostra-se tanto mais serena quanto diversos temas de distração realçados pelos media que ela detém continuarem a encantar o debate público. E a opor entre si as categorias populares.

Quando este sistema está bem oleado, já só falta convocar peritos muito sapientes cuja missão é recordar-nos que tanto a apatia de uns como a cólera dos outros se explicam pela «direitização» das nossas sociedades…

Serge Halimi

Dilemas da crise


O sistema parlamentarista de governo vigeu por todo o período monárquico, garantindo a estabilidade política de um país em formação, palco de sucessivos levantes regionais de cunho separatista. Teve eficácia para garantir a unidade nacional.

A república, proclamada por meio de um golpe militar, introduziu o presidencialismo, inspirado no modelo dos Estados Unidos, único país que soube conciliá-lo com a democracia.

O Brasil não absorveu essa particularidade – e abraçou-se com a instabilidade. Caiu na vala comum, oscilando entre a ditadura e a democracia fisiológica, a que temos hoje em plena vigência. O parlamentarismo, contudo, não foi sepultado. Foi posto no freezer.

Em 1961, com a renúncia de um presidente conservador, Jânio Quadros, e a perspectiva de posse de um presidente esquerdista, João Goulart, em plena Guerra Fria, a criatividade política retirou do congelador, como medida paliativa, o parlamentarismo. Era um remendo para driblar a crise militar.

Tancredo Neves, negociador da solução, assumiu o cargo de primeiro-ministro, ao qual renunciaria, diante do empenho de Jango e da esquerda em sabotar aquela saída.

Passou o cargo ao deputado Brochado da Rocha, cujo nome se adequava ao que se pretendia: mostrar a impotência do parlamentarismo para resolver os desafios da crise brasileira. O presidencialismo foi restabelecido por plebiscito, em 1963, desembocando no golpe militar de 1964.

O golpe, na verdade um contragolpe, teve apoio civil, na expectativa de que cumpriria apenas um mandato tampão até as eleições do ano seguinte. As eleições diretas não vieram – viriam apenas 25 anos depois, em 1989, com a eleição de Collor.

Na Constituinte de 1988, ainda se tentou a solução parlamentarista, abortada pelo governo Sarney e remetida a novo plebiscito, em 1993. Como em 63, o povo optou pelo presidencialismo, graças à retórica populista das lideranças políticas. Não é simples explicar as tecnicalidades de um sistema político complexo, o que favoreceu a preservação do status quo.

Hoje, diante da falência do governo Dilma, volta-se a falar em parlamentarismo – e mais uma vez como truque para uma transição política anódina, com data marcada para ser abortado. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, foi claro: o parlamentarismo vigeria por este mandato, em que, assim sendo, seria ele próprio um dos favoritos para ocupar o posto de primeiro-ministro.

Em 2018, voltaria o presidencialismo, com a eleição direta do novo presidente da república. Desnecessário dizer que, nesses termos, as chances de cumprir a missão estabilizadora serão nulas. Funcionará como mero anestésico, adiando a crise e seus conflitos. Há ainda complicadores jurídicos: o fato de ter sido derrotado em dois plebiscitos – o anterior já sob a vigência da atual Constituição – poderia gerar questionamentos judiciais.

Seja como for – e aqui não se está discutindo os méritos da mudança, que exigiriam artigo específico -, o simples fato de tal discussão já estar sendo feita a céu aberto, com a participação e o patrocínio do presidente da Câmara, indica que ninguém mais questiona o fim do governo Dilma. Acabou-se – e ponto.

Discute-se, isto sim, como será formalizada sua saída: se por impeachment (pedaladas fiscais), se por cassação (caso se confirmem as doações eleitorais com dinheiro roubado da Petrobras) ou se por renúncia.

A torcida é que se dê por renúncia, que permitiria uma liturgia sucessória protocolar, sem maiores contratempos. O próprio Lula, convertido em demolidor da criatura que ele mesmo inventou – e sonhando em voltar à presidência em 2018 -, torce por essa solução. Tornou-se subitamente adepto do parlamentarismo-tampão, que o devolveria à oposição, alheio aos dolorosos ajustes econômicos que as sucessivas gestões do PT tornaram imperativos.

A confusão é geral - e, tendo a operação Lava-Jato como pano de fundo, o país assiste, perplexo, a mais um capítulo da falência de seu sistema político. Em tal contexto, cabe o velho axioma das crises: quem disser que sabe o que vai acontecer está no mínimo mal informado.

A escolha da morte

O Estado que achaca


Um Estado existe para servir aos que o compõem. O cidadão é o seu começo, meio e fim. Quando o Estado começa a atormentar rotineiramente a vida da sua matéria-prima, é porque seu sistema de alternância autolimpante não tem efeito. O voto, obrigatório, vira mera formalidade.

O Poder, atolado, renova-se sem sair do lugar. É escravo da máquina burocrática que se instalou há séculos, alimentada pela corrupção. O cidadão iludido por um sistema político ineficaz desconfia de ações de um governo que assaca, acua. Não sabe mais se está sendo acolhido ou achacado. E é incapaz de reverter os motores.

Em 1.º de janeiro de 1999, tivemos que ir às pressas atrás de um kit de primeiros socorros, valor médio de R$ 10, estojo fajuto com dois rolos de atadura, tesoura com ponta arredondada, dois pares de luvas de procedimento, esparadrapo, dois pacotes de gaze e bandagem de algodão, que, pelo artigo 122, se tornara obrigatório na aprovação do Código de Trânsito Brasileiro. Multa de R$ 115 e mais cinco pontos no prontuário do motorista flagrado sem o kit.

Meses depois, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei prevendo o fim da sua obrigatoriedade, que podia causar sérios prejuízos se usado inadequadamente. Tarde demais: ela movimentara um comércio de cerca de R$ 270 milhões.

“A única razão da existência do kit é fomentar o lucro dos fabricantes dos materiais e equipamentos e dos revendedores. Os motoristas e a população nada têm a ganhar com a exigência dele”, afirmou o deputado Padre Roque (PT-PR), autor da revogação.

Em janeiro de 2000, passei com toda família o Réveillon da virada do milênio em Angra, num inédito reencontro de irmãos, sobrinhos e cunhados que moram aqui e na Europa, brasileiros e estrangeiros, planejado com antecedência.

A foto com todos de branco foi tirada. A data merecia o encontro histórico. Deu tudo certo. Mas quase terminou em tragédia.

Eu, minha irmã mais velha e meu cunhado voltávamos juntos na minha van adaptada. É um carro feito em 1995 sob medida, com plataforma móvel, porta automática, que um tetraplégico não completo, como eu, consegue dirigir. Tínhamos três opções de caminho: Barra Mansa, Taubaté-Ubatuba e Tamoios.

Meu cunhado a dirigia, enquanto eu papeava com a irmã atrás. Decidimos pela Taubaté-Ubatuba. No pé da Serra, enchemos o tanque de 70 litros e começamos a subi-la, com aroma de gasolina ainda entre nós. É das estradas mais lindas e íngremes que cruzam a Serra do Mar, com poucos pontos de ultrapassagem, que exige perícia e potência do motor. O câmbio automático trabalhava. O seis cilindros rangiam. Até uma fumaça branca começar a entrar pelos dutos de ar. A van parou de funcionar num trecho sem acostamento. Meu cunhado disse: “Não anda mais”. Uma fila de carros se formou atrás.

Um carro nos ultrapassou velozmente, parou numa distância prudente à nossa frente. O passageiro saltou e nos acenou com os braços. Ele está tentando nos dizer algo. Meu cunhado abriu a janela calmamente. “Pulem! Está pegando fogo embaixo do carro!”, gritava.

Consegui orientar didaticamente o meu cunhado: “Coloque o câmbio do PARK, desligue o motor. Pegue o extintor aí na porta, apague o fogo, enquanto opero a plataforma elétrica”.

Ele desceu do carro. Era uma operação cheia de botões, comandos e relês: abrir a porta, estender a plataforma, me encaixar nela e descer. Com o motor ligado, não desceria. Sem bateria, não funcionaria. Consegui. Me afastei do carro seguido pela minha irmã. Vi meu cunhado sob ele. Vi as labaredas. Ele mirava o jato de espuma no fogo. Uma mancha de óleo fluía no asfalto. Estourara a caixa de câmbio. O óleo escorreu pelo cano de escapamento fumegante e pegou fogo. Ele conseguiu apagar antes de o fogo chegar ao tanque de combustível. Seria uma explosão pra lá de Bagdá.

Graças a um equipamento do tamanho de uma berinjela, que se compra em qualquer posto de gasolina por R$ 50, estamos vivos. E mais. Meu carro, que não existe similar nacional, e importei quando o dólar valia R$ 0,80, está comigo até hoje.

Então eu soube que meu anjo da guarda agora é considerado obsoleto. Todos os veículos em circulação no País devem possuir a partir deste mês um novo tipo de extintor, o ABC, capaz de apagar incêndios de uma variedade maior de materiais (em madeira e tecidos, materiais comuns em carros). A medida faz parte da resolução 333 do Conselho Nacional de Trânsito. Chegou a ser derrubada por uma liminar e voltou a vigorar.

Até então, os extintores do tipo BC, como o meu, eram recomendados apenas para materiais como líquidos inflamáveis e equipamentos elétricos. Quem rodar com o extintor fora das especificações está sujeito a multa de R$ 127,69 e a inclusão de cinco pontos na carteira. Os teóricos da conspiração têm todo o direito de dizer: “Aí tem...”.

Tais normas não aparecem da noite pro dia. Técnicos de agências oficiais garantem estudos e pesquisas. Mas sua implantação nos pega sempre de surpresa.

No governo Lula, em duas canetadas, duas normas mudaram regras antigas e devem ter dado muito lucro a alguém ou alguns: a da tomada de três pinos (nada universal) e a reforma ortográfica, que tirou uns hifens de um lugar e colocou em outros, extinguiu uns acentos precisos, como de “pára”, mas deixou outros, obrigando a indústria editorial a se reformular.

Alguns pensaram em quem faturaria com novos adaptadores, que tornaram todas as instalações elétricas obsoletas, e no faturamento de parques gráficos e vendedores de papel.

Anos atrás, fomos obrigados a regular os motores para a inspeção veicular anual, medida ambientalmente justa, mas que está suspensa pela própria Prefeitura. Nesta semana, outra novidade: toda empresa (exceto as cadastradas no Simples) é obrigada a ter certificado digital, o e-CNPJ, que custa em torno de R$ 500, para emitir notas fiscais. Não existe opção de quem não quer ser digital.

É obrigatório, a obrigatoriedade, a partir de tal data, a regra, a norma, tem quê! Um Estado que viveu quase 400 anos sob regras monárquicas, custa a debater seus problemas e conflitos republicanamente com seus cidadãos.

E os adversários do consumo o que dizem?

A indústria automobilística registrou no primeiro semestre do ano uma queda de 20% em suas vendas e avalia que em fins de dezembro esse percentual chegue a 23%. Neste momento, 325 mil veículos estão estocados nos pátios das fábricas e 35,8 mil trabalhadores, ou 25% de todos os recursos humanos das montadoras, estão em férias coletivas, licença ou suspensão dos contratos de trabalho.
Enquanto, no primeiro trimestre do ano, o consumo das famílias caiu 1,5%, os indicadores da intenção de consumo sinalizam para uma trajetória de ainda menor e, portanto, para menores vendas. Segundo pesquisa da Fecomercio/SP, a intenção de consumo das famílias caiu 26,3% em 12 meses. No varejo paulista, o mais dinâmico do país, as vendas caíram 12% no mês de abril quando comparadas com o mesmo mês de 2014.

Na outra ponta do novelo em que o governo enredou a economia nacional, o desemprego, entre maio de 2014 e maio de 2015, subiu de 4,6% para 6,7% e o IBGE informa que o número de pessoas à procura de vaga chegou a 1,6 milhão, com crescimento de 39% em relação a igual período do ano passado. Dezesseis por cento são jovens.

Quando as coisas iam bem, o governo festejava como seus os números mensais do crescimento do emprego. Era como se cada vaga fosse aberta não pela ação empreendedora dos empresários, mas por decisões do governo. Sabe-se hoje, pela evidência dos fatos, que o governo petista foi um desastre marcado pela irresponsabilidade fiscal e pela decadência moral. Agora, quem desemprega são as empresas. Ah!

Além dos que vicejam à sombra do governo e a tudo aplaudem, há um grupo de pessoas, raramente mencionadas, que devem estar especialmente exultantes com os males da economia brasileira. Quem são? Você já as ouviu falando. Criticam a sociedade de consumo. Não se desgostam com as filas de Cuba e da Venezuela. Sonham com uma sociedade de demandas mínimas. Talvez seu modelo de vida pudesse ser representado pelas comunidades menonitas, mundialmente conhecidas como amish, que rejeitam os bens produzidos pela indústria e pela tecnologia. Os amish brasileiros, porém, são fake, vão às compras como todo mundo e certamente gostam de ganhar presentes. Mas condenam a sociedade de consumo, típica do capitalismo.

Seus motivos são ideológicos. Como resulta impossível comparar os bens sociais, tecnológicos, científicos, culturais e econômicos do capitalismo com os do socialismo e do comunismo, eles rejeitam o efeito para reprovar a causa. 


Esquecem-se de que empregados e desempregados, empreendedores de todos os níveis, e até os servidores públicos cujo pagamento depende dos impostos incidentes sobre a riqueza gerada no país, estão torcendo para que se retomem as condições necessárias ao crescimento da produção e da demanda. Ninguém quer viver como amish! Por que será que os países comunistas estão completamente fora dos fluxos migratórios de que hoje tanto se ocupam os governos do Ocidente?

Por uma questão de justiça, em tempos de crise, assim como os eleitores do PT deveriam pagar mais impostos para cobrir os estragos do governo que elegeram e reelegeram, os adversários do consumo alheio deveriam ser priorizados na hora do desemprego, não é mesmo?

Falou, mas não disse

Como diria o conselheiro Acácio, o bom da ficção é que ela não tem compromisso com a realidade. Descobri esse óbvio ululante há alguns anos, ao tirar férias das biografias para escrever dois romances, "Bilac Vê Estrelas" e "Era no Tempo do Rei". Embora trabalhasse com personagens reais, respectivamente o poeta Olavo Bilac e o jovem príncipe D. Pedro, podia fazê-los falar o que eu quisesse. Mas, não sei como, em certo momento ganharam autonomia e passaram a falar por conta própria.


A presidente Dilma, ela, em si, um personagem de ficção –seu autor foi Lula–, já atingiu o estágio em que pode falar o que quiser, sem compromisso com a realidade e, muitas vezes, significando o contrário. Exemplo: em 2014, antes da eleição, foi à TV anunciar um corte de 18% nas contas de luz e que o Brasil era "o único país a baixar o custo da energia e aumentar a produção no setor elétrico". Não ria.

Há meses, Dilma anunciou o programa "Brasil: Pátria Educadora". Ato contínuo, decepou 31% do orçamento do MEC (o maior corte entre todos os ministérios), representando R$ 7 bilhões a menos em circulação no setor. Tal medida deixou de tanga professores, alunos, bolsistas, funcionários das universidades, terceirizados e fornecedores, além de apunhalar o setor editorial com a queda radical na compra de livros este ano e calote nas compras do ano passado.

Esta semana, Dilma comparou-se a Tiradentes e declarou "não respeitar delatores". Referia-se aos que estão praticando a delação premiada, medida que ela assinou, autorizando, e elogiou em outubro último como "útil para desmontar esquemas de corrupção".

Agora, jogando para a galera em Washington, Dilma prometeu que "até 2030, o Brasil terá desmatamento zero". Considerando-se seu histórico, tudo indica que, até 2030, teremos uma Amazônia careca.

O perigo do robô que trabalha ao lado

A morte de um trabalhador em mãos de um robô em uma fábrica da Volkswagen na Alemanha despertou os piores pesadelos relacionados com a robótica: por um lado, a possibilidade bem remota de que máquinas com capacidade para tomar decisões possam fazer mal a seres humanos de modo voluntário, por outro, a crescente presença, muito real, de robôs nas dependências industriais e na agricultura, que acabem substituindo os trabalhadores.

A morte, que está sendo investigada pelo Ministério Público alemão, teve lugar na segunda-feira na montadora da empresa automobilística alemã de Kassel-Baunatal, situada 100 quilômetros ao norte de Frankfurt, no centro do país. O jovem de 21 anos trabalhava para outra empresa e estava na fábrica para instalar maquinário, informa Luis Doncel desde Berlim. As primeiras investigações indicam que um companheiro que se encontrava fora das instalações acionou por engano o robô, que aprisionou o rapaz pelo tórax, arrastando-o até uma placa metálica, segundo explicou o porta-voz da empresa, Heiko Hillwig. Depois do acidente, o jovem foi levado para o hospital de Kassel, mas o serviço de emergência já não pôde fazer nada por sua vida. A procuradoria investiga o caso, mas seu porta-voz disse que ainda é muito cedo para atribuir responsabilidades. A fábrica de Baunatal tem 800 robôs.

Paul Verschure, diretor do Specs, o grupo de trabalho sobre inteligência artificial e robótica da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, também tem a impressão de que se tratou “de um erro humano”, embora reconheça que ainda faltam muitos detalhes. “Esses robôs não são autônomos, são máquinas com muita força que levam a cabo tarefas muito rudimentares e repetitivas”, garante em conversa telefônica. “É um exagero chamar a isso de robô porque não tem percepção, nem sentidos. Há um erro de segurança. Não estamos diante de um Terminator nem diante de um pesadelo de robôs matando humanos”, prossegue esse perito em inteligência artificial, que dirige uma equipe de 30 pessoas.

A possibilidade de que as máquinas acabem dominando os humanos entrou na imaginação quase no mesmo instante em que surgiu a robótica, através de filmes como Metrópolis, a sequênciaExterminador do Futuro ou o recente Ex Machina. O cientista Isaac Asimov estabeleceu já em 1942 as chamadas três leis da robótica, feitas para que um robô nunca pudesse fazer mal a um ser humano: “Um robô não irá ferir um ser humano ou, por negligência, permitirá que um ser humano sofra algum dano, um robô deve obedecer às ordens dadas pelos seres humanos, exceto se essas ordens entrarem em conflito com a primeira lei, um robô deve proteger sua própria existência na medida em que essa proteção não conflite com a lei N° 1 ou a lei N°2”.

Ainda que existam centenas de universidades e empresas com programas de inteligência artificial, e tenham ocorrido avanços extraordinários em terrenos como a percepção e nos sentidos das máquinas, todos os especialistas concordam que a presença de robôs como o C3PO e o Exterminador do Futuro ainda está muito distante de acontecer e que os robôs do futuro se parecerão mais com as sofisticadas máquinas que limpam sozinhas – existem atualmente por volta de dez milhões nos lares de todo o mundo –, com minúsculos robôs capazes de operar dentro do ser humano – Harvard está trabalhando nisso – e com carros autônomos. “Robôs confiáveis, especialmente aqueles que possam trabalhar fora de recintos de segurança em uma fábrica, são muito difíceis de fabricar. Os robôs continuam sendo muito estúpidos. Eles nos fascinam, mas ainda falta muito para que façam alguma diferença no mundo”, escreveu a revista The Economist em uma recente reportagem de capa sobre a robótica.


Os robôs, entretanto, representam uma indústria crescente – a UE anunciou em 2014 um investimento de 2,8 bilhões de euros (9,6 bilhões de reais) para um setor no qual a Europa possui 32% do mercado mundial, enquanto o Google comprou oito empresas de robótica nos últimos dois anos. De acordo com dados do setor, os robôs já movimentam 19 bilhões de euros (65 bilhões de reais) por ano. E sua presença na indústria é cada vez mais importante, assim como o debate sobre a possibilidade de que milhares de empregos atuais em setores como o automotivo e a indústria sejam perdidos em um futuro bem próximo. A empresa de consultoria norte-americana Gartner – a principal no campo da tecnologia – disse em junho que “quanto mais sofisticadas as máquinas forem, se transformarão cada vez mais em alternativas viáveis aos trabalhadores humanos, o que sem dúvida terá repercussões na indústria”. “As máquinas que somos capazes de fabricar são cada vez melhores”, explica Verschure. “Essa é a revolução que iremos viver, o final de um modelo de trabalho que surgiu no século XIX. Mas daí a culpar os robôs pelo desemprego é outra história: a Espanha tem um desemprego altíssimo e poucos robôs na indústria”.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Em busca do eixo perdido


O candidato do PT ao governo de São Paulo Eduardo Suplicy desapareceu misteriosamente no meio da campanha eleitoral de 1986 e depois anunciou que tinha se refugiado na serra da Cantareira para reencontrar o “eixo" que tinha perdido.

Não importam aqui os motivos que levaram o candidato a isolar-se em busca do eixo perdido.

O que importa é que, três décadas depois, o partido de Suplicy parece estar sofrendo de uma variante do mesmo mal -a perda de eixo- e está se comportando como biruta de aeroporto, que se move de acordo com a direção do vento.

Nas campanhas eleitorais e nos discursos replicados pela militância nas redes sociais, o PT esforçou-se para vender a ideia de que nunca antes apareceram na imprensa tantos escândalos de corrupção porque “nunca antes na história este país” a corrupção foi tão investigada. Graças a quem? Graças ao PT, claro.

O fato de que os órgãos que investigam a corrupção-MP, Policia Federal, Justiça Federal - são constitucionalmente independentes nunca foi levado em consideração para os efeitos propagandísticos que o PT pretende auferir da balela de que “nunca se investigou tanto”.

Quanto mais as investigações se aprofundam e quanto mais ficam evidentes as ligações entre o saque aos cofres da Petrobras e o caixa do PT, mais o discurso do “combate rigoroso à corrupção" vai perdendo sentido.

A presidente, que na campanha eleitoral, entre promessas falsas e outros surtos de ficção, teve tempo de se vangloriar de sua intolerância à corrupção, fez um desatinado pronunciamento nos Estados Unidos contra o instituto da delação premiada, misturando alhos com bugalhos, como se houvesse algum tipo de paralelo possível entre a delação de companheiros de clandestinidade numa luta política armada e delação de métodos de assalto aos cofres públicos.

E o que é pior: a presidente se esqueceu de que o instituto de delação premiada foi instituído por uma lei sancionada em seu governo que ela mesmo exaltou durante um debate na TV contra o candidato da oposição: "Quero lembrar que duas leis, aprovadas no meu governo, no ano passado, dão base para esse processo de investigação da Petrobras”, jactou-se Dilma. “A primeira: a lei 12.830, que garante a independência do delegado. […] A outra, que regulamentou justamente a delação premiada, a 12.850.”

Uma declaração própria de quem perdeu o eixo.

O ex-presidente Lula, que uma semana antes havia surpreendido seus próprios seguidores ao afirmar que ele e Dilma estavam num “volume morto”, referindo-se ao atual estágio da popularidade de ambos e de seu partido, aproveitou a ausência da presidente do País para fazer uma incursão por meandros do poder em Brasília.

Lula reuniu-se com parlamentares do PT e lideranças do PMDB para praticar seu esporte preferido no momento: reencontrar o eixo de sua candidatura para 2018 descolando-se o máximo possível do naufrágio da imagem da presidente mas sem dar a impressão de estar abandonando o barco que ele mesmo colocou no mar.

Ser ao mesmo tempo o criador de Dilma e o líder da oposição a ela é uma tarefa árdua demais mesmo para um demiurgo e um ilusionista como ele.

Assim como ser a favor do “combate à corrupção" e ao mesmo tempo criticar o ministro Cardozo por sua “falta de pulso” com a Polícia Federal quando suas investigações se aproximam demais dele.

Por isso Cardozo já confidenciou a amigos que está querendo abandonar o governo, desgastado pela “fadiga de material”; não deve ser fácil prestar-se às sessões de petismo explícito em pronunciamentos ministeriais e ao mesmo tempo ser alvo do fogo amigo de seu partido.

Ao contrário de Suplicy, que preferiu o recolhimento para refletir sobre o eixo perdido, o PT exibe sua crise escandalosamente em público.

Fiscal do trabalho: 'Tirei 1,5 mil brasileiros da escravidão'

Quando perguntam a Marinalva Dantas quantos trabalhadores escravos ela libertou no Brasil, ela diz: "Pessoalmente, resgatei 1,5 mil pessoas. Com outros colegas, foram mais de 2 mil".

Os números podem estar subestimados. O recém-publicado livro A Dama da Liberdade (Editora Saraiva), do jornalista Klester Cavalcanti, diz que 2.354 foram libertadas desde 1995 - ou em operações lideradas por Dantas como fiscal ou em operações de uma equipe especial do Ministério do Trabalho da qual ela participava.

Todos estes casos ocorreram em zonas rurais, em fazendas de Estados das regiões Centro-Oeste e Norte do país, onde há pouco controle sobre as relações de trabalho e muitos abusos.

Nascida em uma família pobre e criada por tios que tinham uma situação financeira melhor, Dantas diz que escolheu sua profissão ao ser confrontada com cenas de miséria.

Ela já dirigiu a Divisão de Articulação de Combate ao Trabalho Infantil do Ministério do Trabalho e atualmente trabalha como auditora-fiscal do trabalho em Natal, no Rio Grande do Norte.

Quem provocou essa guerra?

Comecei a trabalhar muito cedo, aos nove anos, numa padaria de um lugarejo. Acordava às três e meia da madrugada, preparava o tempero para a massa, ajudava a misturá-la num cocho e a tocar um pesado cilindro de madeira. À tarde, estudava. Quando voltava da escola, ajudava o padeiro a serrar os toros de madeira que serviriam de lenha para o forno no dia seguinte. Não ganhava um único tostão, apenas uns pães, muitas vezes dormidos. Às vezes, um pouco de trigo e açúcar para o mingau do meu pai, atacado pela terrível e constrangedora tuberculose. Com minha mãe, também plantei milho e feijão, à meia, no terreno de um vizinho. O dono da padaria era um homem pouco sensível e um tanto sovina, mas nunca o odiei. Sobrevivi. Estudei e trabalhei, tudo ao mesmo tempo, durante toda a minha vida, do primário à pós-graduação.

Numa loja em que trabalhava na adolescência, éramos visitados por dois homossexuais muito divertidos. Meu irmão e eu convivíamos bem com eles, sem problemas. Nossos fregueses também. Uma ou outra piadinha não atrapalhavam essa boa convivência. Um deles me gozava porque eu era magro ao extremo e tinha o rosto cheio de espinhas. Nenhum problema mais sério, nenhum ódio, convivência normal.

Quando crianças, os melhores amigos dos meus filhos superbranquelos, com olhos verdíssimos e translúcidos, eram pretos retintos. Brincavam, jogavam bola e rolavam na poeira. Do lado direito, pretos; do lado esquerdo, outros branquelos como meus filhos, que se misturavam, na rua, em casa, em todo lugar. Ao mudarmos para o meu bairro atual, meus branquelos, já na pré-adolescência, arranjaram um novo casal de amigos. Para variar, pretos também, com quem mantêm amizade até hoje. Sem problemas, sem ódio.

Como aluno e, depois, como professor, convivi com todo tipo de colegas. Só como professor, foram 33 anos. Alunos gays, colegas gays, nenhum problema, nenhum desrespeito. Uma gozação, uma menção à opção sexual aqui ou ali, claro, mas nada diferente das piadinhas com os gordinhos, os narigudos, os cabeçudos, os orelhudos ou os espinhentos como eu. O mesmo acontece com os gays da minha rua com os quais convivo há 25 anos. Um deles já cortou o cabelo dos meus filhos várias vezes e, inclusive, o meu. Convivência normal, sem problemas. Não os ouço reclamar de violência mais do eu e os demais moradores.

Nos últimos anos, entretanto, parece que essa boa convivência, entre patrões e empregados, negros e brancos, héteros e homos, sofreu um abalo. Há disseminação de rancores e estremecimento de amizades. Alguém poderia dizer que estou dourando a pílula ou vivendo em outro mundo. Não, mil vezes não! Não estou querendo negar que exista discriminação ou preconceito. Isso sempre houve e sempre haverá. A questão é outra, e as perguntas são: Em que nível ou grau? Por que a coisa é tão seletiva, privilegiando certos grupos? Quais são os números exatos? Quais as estatísticas reais e confiáveis? Quem as manipula?

Olhe para a sua família. Estenda o seu olhar para a sua rua, seu bairro, sua cidade, seu Estado, seu País. Qual a verdade? Qual a realidade? Quais os números reais? Pare, pense e pergunte: Quem nos botou pra brigar? Quem provocou essa guerra? A quem ela interessa?

Eu tenho as minhas respostas e posso dá-las a qualquer instante, sem paixão, com a consciência tranquila diante de Deus e dos homens, pressão doze por oito e setenta batimentos cardíacos por minuto. Quais são as suas?

Nas mãos de quem estamos


Nasci um mês antes do Getúlio decretar o Estado Novo. Como ainda estou por aqui, vocês podem ver por quantos Brasis passei...

Tirando o período da contagiante alegria do presidente Juscelino, tudo o mais foram sobressaltos, medo, dificuldades, inflação, planos econômicos experimentais, corruptos e corruptores, promessas, promessas, promessas...

Mas nunca tinha visto o Brasil entregue a figuras tão estranhas quanto o inacreditável anteprojeto de ditador Eduardo Cunha, ao pusilânime Renan Calheiros, ou à dona da caneta Dilma Rousseff. Todos três sob a sombra ameaçadora do Lula.

Eduardo Cunha, com o poder de presidente da Câmara dos Deputados, ao ver derrotada a PEC da Maioridade Penal, o que faz? Ora, como ele não gosta de perder, põe na mesa outra PEC e dessa vez vence! Passa por cima de tudo para sair vencedora a ideia mesquinha: ao prender em nossas masmorras tão medievais quanto ele jovens de 16 anos, a violência sairá vencida.

Enquanto ele se diverte na tenda em que transformou a Câmara dos Deputados, o do Senado permite que saia vencedor um aumento absurdo para os funcionários do Judiciário, aumento que o Estado não tem condições de honrar. Renan Calheiros sabe disso, mas não se envergonha de passar a batata quente para a presidente da República. Assim, pensa o alagoano, quem sai queimada é ela que vai ter que vetar o aumento.


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Enquanto o Brasil passava por esses horrores, dona Dilma visitava os EUA. Em New York hospedou-se no St.Regis, hotel que além das muitas estrelas, tem a sofisticação que só os viajantes experientes e habituados ao melhor reconhecem e podem pagar.

De NYC foi para Washington onde ficou, para o encantamento da jornalista Sandra Coutinho, da Globo News, na Blair House, a casa que o governo americano mantém para hospedar seus visitantes, ali na Lafayette Sq, bem atrás da Casa Branca.

Comprada durante o governo Roosevelt, no início de 1942, a Blair House é linda. O primeiro hóspede a gozar das suas regalias foi o Presidente do Peru Manuel Prado, que lá foi acolhido em maio de 1942. Se você leitor, quiser saber mais sobre essa casa elegantíssima, é só acessar Blair House.

De Washington a comitiva brasileira seguiu para o Vale do Silício, na California, a terra das inovações, reis da Internet. Com que intuito? Sei lá.

Mas calculo sua emoção ao entrar no Museu Google e ao experimentar alguns produtos de ponta, como o Self-Driving Car do Google que lhe provocou a sensação de ter estado no futuro.

Diz o presidente do PT, Rui Falcão, que a mais recente pesquisa, que deixa muito mal dona Dilma, ainda não mediu o sucesso de sua visita aos States.


Vamos lá, senhor Rui Falcão. Quantos pontos o senhor acha que a popularidade de dona Dilma vai subir depois das seguintes notícias:

1) o presidente Obama prometeu que vai usar, na intimidade do lar, a jaqueta da seleção brasileira que achou macia e confortável;

2) na entrevista coletiva na Casa Branca, ao responder a uma pergunta que deixou dona Dilma extremamente sorridente, Obama disse que “não vê o Brasil como uma potência regional, mas (como) uma potência global";

3) dona Dilma, em declaração conjunta com Barack Obama, comprometeu-se a recuperar 120 mil km² de florestas, até 2030;

4) ainda em Nova York, dona Dilma encontrou-se com Henri Kissinger. É, com ele mesmo, o grande representante da realpolitik, que teve papel de ponta na política externa americana como Conselheiro Nacional de Segurança de 1969 a 1975 e foi Secretário de Estado de 1973 a 1977.

Dona Dilma, que confunde delator de companheiros com réus confessos que pretendem diminuir sua pena ao se valer de delação premiada, conforme lei chancelada por ela, fez questão de dizer que não respeita delator.

Já Kissinger ela respeita, e muito. Dele disse: “É uma pessoa fantástica, com grande visão global”.

Estamos ou não estamos bem entregues?


Boopo , para VejaEssa

A crise civilizatória e humanitária

Quando soube da nova encíclica do papa Francisco, lembrei-me de um judeu, meu professor Ignacy Sachs. Há 45 anos, ele abriu meus olhos para o limite “ao” crescimento, devido às restrições físicas, e para o limite “do” crescimento, pela impossibilidade de o consumo supérfluo fazer uma humanidade mais feliz.


Mas, por décadas, aqueles que indicavam os limites “ao” e “do” crescimento propondo um novo modelo de desenvolvimento para as nações foram rejeitados pela “teologia do crescimento”. A ideia do progresso como sinônimo de produção e consumo crescentes domina o pensamento social como uma doutrina religiosa. A escassez de recursos e as mudanças climáticas passaram a mostrar os limites físicos da natureza; a desigualdade social crescendo ao ponto de quase romper o sentimento de semelhança entre os seres humanos; o vazio existencial e as crises econômicas mostraram os limites éticos do crescimento.

Quando a palavra “decrescimento” passou a ser utilizada como uma alternativa, escrevi sobre o assunto; um leitor publicou crônica em outro jornal dizendo que eu havia sido submetido a uma lobotomia. Na verdade, a insanidade na voracidade do processo da produção e consumo há quase 50 anos apresenta indicadores de esgotamento. Apesar da crise ecológica, a “teologia do crescimento” continuou dominando o pensamento social e a prática política; e as críticas ao crescimento como vetor do progresso humano continuam sendo denunciadas como gestos de insanos.

O mundo atual não tem estadistas porque os políticos estão divididos entre aqueles prisioneiros da lógica do impossível crescimento econômico ilimitado e para todos e aqueles considerados “lobotomizados”, porque apresentam alternativas de outro futuro, negando as bases filosóficas e econômicas da civilização industrial. A nova encíclica do papa Francisco traz um raio de luz para o debate sobre o futuro desejado e possível para a humanidade. Sua fala vai provocar uma luz na escuridão do debate político no mundo de hoje. Ainda mais: ele oferece uma “teologia da harmonia” para substituir a “teologia do crescimento”.


Com sua encíclica, o papa Francisco se sintoniza com a crise civilizatória e humanitária – desequilíbrio ecológico, divisão social, migração em massa, desemprego, violência, intolerância – e propõe a necessidade de construirmos uma nova civilização, na qual o crescimento seja um instrumento, mas não o propósito em si; e o decrescimento na produção, em alguns lugares e para certas camadas da sociedade, passe a fazer parte das estratégias de evolução humana.

Com sua autoridade moral, ele contribui para que o debate não mais seja entre o socialismo, que não deu respostas, e o capitalismo, que deu respostas erradas, mas entre a civilização regida pela “teologia do crescimento” e a civilização orientada pela “teologia da harmonia” entre os seres humanos e destes com a natureza que os sustém.

Cristovam Buarque

O elo que nos une

Ainda que distantes geograficamente e, na mesma proporção, economicamente, Brasil e Grécia estão deixando suas populações em polvorosa. A homérica crise grega levou o país à decisão abissal: ou fica no mundo do euro, penando no Hades, ou sai e vai penar do mesmo jeito. O Brasil, em melhor posição, só tenta se equilibrar à beira do abismo. Tem logicamente saída: o povo pagando ainda por muito tempo a conta de administrações desastrosas. Coisa aí por dez anos ralando o couro para então começar a se acertar.

Desconfie de prazos menores, sem validade. Só a Petrobras não levanta da cova em que a colocaram por menos de cinco anos, ainda assim tendo que cortar na carne, literalmente e não metaforicamente como falou Dilma. As empreiteiras envolvidas na Lava-Jato talvez levarão mais tempo para se recuperarem e voltarem a ser as grandes empresas que eram. Só isso retarda muito a recuperação do país. 


Além do sofrimento do povo que vai ter o couro arrancado por muito tempo, Brasil e Grécia têm algo em comum: a mentira. A desgraceira dos gregos arrancando os cabelos e os brasileiros se arrastando na tristeza são resultado de quanto os governos respectivos mentiram nas pedaladas, nas maquiagens contáveis, nas marolas e nas infindáveis armações para dar a seus povos a sensação de estabilidade econômica. Custou caro a manobra e agora chegou a conta para trabalhador (de verdade), aposentado, estudante, doente, e mesmo os pobres pagarem. Ficam isentos políticos, governantes, comissionados, juízes, agregados e todos que vivem pendurados no governo, que sempre prosperam mesmo na desgraça nacional.

Foi mentindo que se construiu o Brasil petista e a “construtora” PT está mando a conta para o contribuinte do desastre. Talvez seja um aprendizado para muitos de que acreditar na mentira, de mãos postas, tem preço. Os governos podem mentir como mentem a torto e a direito, mas devem ser rejeitados a cada mentira. Caso contrário, a conta é nossa, não deles.

O cinismo dos valores

Cada vez mais desesperado. Olho, olho, e só vejo negrura à minha volta. Fé? Evidentemente... Enquanto há vida, há esperança — lá diz o outro. Mas, francamente: fé em quê? Num mundo que almoça valores, janta valores, ceia valores, e os degrada cinicamente, sem qualquer estremecimento da consciência? Peçam-me tudo, menos que tape os olhos. Bem basta quando a terra nos cobrir! — Ah! mas a humanidade acaba por encontrar o seu verdadeiro caminho — dizem-me duas células ingénuas do entendimento. E eu respondo-lhes assim : Não, o homem não tem caminhos ideais e caminhos de ocasião. O homem tem os caminhos que anda. Ora este senhor, aqui há tempos, passou três séculos a correr atrás dum mito que se resumia em queimar, expulsar e perseguir uns outros homens, cujo pecado era este: saber filosofia, medicina, física, astronomia, religião, comércio — coisas que já nessa época eram dignas e respeitáveis
Miguel Torga, in "Diário (1942)"

A debilidade do governo Dilma e do PT está custando caro ao país



Deve ser debitado na conta do governo e do PT os prejuízos causados pela série de sandices cometidas por um Congresso tocado por dois presidentes ocupados em desviarem a atenção da opinião pública dos problemas que enfrentam com a Justiça.

Refiro-me, naturalmente, a Eduardo Cunha e Renan Calheiros, presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, suspeitos de envolvimento com a roubalheira na Petrobras.

O governo quase não apita mais nas duas Casas. Nada mais sintomático disso do que a derrota colhida por ele no Senado que aprovou o disparatado reajuste dos servidores do Judiciário.

O governo perdeu por 62 votos a 0. Nem os 13 senadores do PT votaram com ele. Ao sentirem o tamanho da derrota, pediram para ser liberados. E foram por seu líder Humberto Costa (PT-PE).

O reajuste é um despropósito na hora em que a maioria dos brasileiros come a mandioca que o diabo amassou. Em breve, o Ministério Público pedirá vantagem parecida. E o próprio Congresso.

Bons argumentos sustentaram a posição do governo contrária à redução da maioridade penal. Mas isso não bastou. Está evidente a falta de coordenação política do governo.

O vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP) não dá conta do recado. Menos porque lhe faltar talento para isso. Mais porque faltam ao governo condições razoáveis para ser coordenado.

O empenho de Temer esbarra em Aloizio Mercadante, chefe da Casa Civil. E também na própria Dilma que não gosta da história de ter sido obrigada a compartilhar o poder com seu vice.

O ajuste fiscal do ministro Joaquim Levy, da Fazenda, arrasta-se mal e mal. Daqui a pouco ficará claro que as medidas do ajuste não serão mais suficientes para produzir o resultado desejado.

O país navega ao sabor das marolas causadas pelo Congresso e pela Operação Lava Jato.

Quando inteligência e ignorância se cruzam


Dizem as pessoas que conhecem pessoalmente o ex-presidente Lula – “Nosso Guia”, segundo o jornalista e escritor Elio Gaspari – ou com ele convivem, que S. Exa. é dotado de extraordinária inteligência. Com o ex-líder sindical não tenho relações de nenhuma espécie. Nem sequer cheguei alguma hora a vê-lo de perto ou, como aprazia a Machado de Assis, com graça e ironia, também nunca nos vimos de vista e de chapéu. Nesse ponto, há uma pequena e insignificante dúvida entre mim e minha mulher. Refere-se esta a um voo de Belo Horizonte a São Paulo, ainda no tempo das vacas magras de derrotado em eleições presidenciais – época seca e dura, em que não havia jatinhos de empreiteiros a sua disposição, e a sua desdita era amargar, como o personagem machadiano amargava a tocha em vez da glória do pálio, aviões comerciais, sempre desconfortáveis, como piores são hoje em dia. Nesse voo, estaríamos nós. Entretanto, desse desprazer não desfrutei, simplesmente porque não me lembro do acontecimento que hoje não me festeja nem me amarga as retinas, já bem cansadas, como lamentava o grande poeta.

Curioso é que a minha companheira até hoje se lembra de que, durante a viagem, o futuro Nosso Guia parecia agitado, levantando-se seguidamente da sua poltrona para segredar algo a dois ou três companheiros, mas o que seria? Claro, não o sabemos. Retomemos o assunto desta crônica e abandonemos o desvio que, de fato e de direito, não interessa a ninguém.

Acredito no depoimento de que o companheiro dos outros em lutas e reivindicações sindicais tenha recebido, ao nascer, uma inteligência invulgar. Afinal, chegar ao porto em que fundeou não é mole; antes, uma façanha que pouquíssimos conseguem realizar. Nas condições em que lutou, o destino e a inteligência pactuaram a rara aventura e o elevaram às alturas.

Curioso é que só aquela última não basta. Se tivesse buscado o saber, o conhecimento formal, uma boa cultura e o aprendizado de invejável formação e grandeza moral, principalmente a pública, poderia ter-se tornado um político imbatível, livrando-se dos transes em que se meteu, pelo bem do Brasil e nossa sorte. Já pensaram em um Lula assim acabado? Não o sendo, foi nosso mal. Sim, porque carece o homem público, o líder sindical, o homem do povo da qualidade do sabedor e de uma dose bem maior de sabedoria, se é que bafejado por alguma, talvez o primado de tudo.

Propaganda pt compara lula e dilma a mandela e ghandi tv sofa

Sabedoria em abundância, que Salomão pediu a Deus que lhe desse quando foi comunicado de que seria rei: “Dai, pois, ao vosso servo um coração sábio, capaz de julgar o vosso povo e discernir entre o bem e o mal, pois, sem isso, quem poderia julgar o vosso povo, um povo tão numeroso?” Esbraveja Lula repetidamente que o ajuste fiscal não é um fim em si mesmo. Parece que ouviu a expressão, gostou dela, achou-a elegante e adotou o truísmo para todas as horas, esquecendo-se de que a utilização de meio apropriado para a realização de objetivo lícito e indispensável se equivale para quem tem a honra de chefiar a nação e o dever de promover a felicidade do povo. 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Encontro da pesada

Arnold Schwarzenegger Exterminador do futuro congresso Dilma eu tambem

Só consumo salva


É a economia, sabichão! A popularidade de Dilma Rousseff só atingiu o pré-sal depois que a confiança do consumidor quebrou seu recorde negativo no mês passado – de novo. O eleitor está cada vez mais desconfiado de que vai consumir cada vez menos. A maior parte acha que seu poder de compra despencou e aposta que vai continuar caindo no futuro próximo. Nenhum órgão humano explica melhor a sorte de um presidente do que o bolso do “homo consumens” – e as novas pesquisas CNI/Ibope só confirmam isso.

A corrupção – exposta repetidamente pelo farto noticiário sobre a Operação Lava Jato – é a cereja do bolo. Misturada ao bolso furado, populariza o senso comum de que a economia vai mal porque rouba-se demais. Os dois fatos, apesar de incontestes, infelizmente não se alinham de modo tão simples nem automático. A não ser que se acredite que, quando o bolso estava cheio, todo mundo era honesto. Por esse raciocínio, bastariam as prisões de corruptos e corruptores para a economia melhorar.

No curto prazo, as canas – mesmo se justas e necessárias – aumentam a incerteza, retraem investimentos e aprofundam a crise. Se perenizadas por condenações em última instância, espera-se que ajudem a sanear as relações público-privadas. Mas o saneamento depende também da reforma do sistema político e eleitoral que alimenta a corrupção – reforma da qual não há sinal. E no longo prazo? Estaremos todos mortos, ensina Keynes.

Enquanto essa hora não chega, talvez valesse a pena fazer algo para matar o tempo. Trabalhar, por exemplo. Mas, como a opinião pública percebeu antes de o IBGE divulgar qualquer estatística, arrumar emprego está cada vez mais difícil. A geração “V”, que relutou enquanto pôde a entrar no mercado de trabalho porque seus pais e avós tinham tido ganhos de renda suficientes para sustentá-la, está agora tendo que disputar vagas cada vez mais raras com a geração de seus progenitores desempregados.


Não é por acaso que a impopularidade de Dilma é um pouco menos desastrosa entre os brasileiros com mais de 55 anos de idade. A faixa etária onde se concentram os aposentados sentiu menos os efeitos da deterioração do mercado de trabalho. Tampouco é coincidência que os mais críticos em relação à presidente – e que deram início à avalanche de opiniões negativas que a afoga desde 2013 – sejam os jovens de menos de 25 anos.

A inclusão social pelo consumo funciona eleitoralmente, como funcionou em 1994 para Fernando Henrique Cardoso, em 2006 para Lula e em 2010 para Dilma. Mas, além de depender do vaivém da economia mundial e da habilidade de quem executa a política econômica, essa tática sucumbe à saturação do mercado. E as ruas das metrópoles brasileiras provam diariamente que falta espaço para abrigar mais automóveis. Com seu carro-chefe engarrafado, uma das cadeias produtivas que alavancaram a era petista é das pioneiras nas demissões em massa e férias compulsórias.

Mesmo quando seu apelo positivo não funciona, a inclusão pelo consumo reelege presidentes pelo medo de que a festa acabe. Foi assim em 1998 com FHC e com Dilma em 2014. A ressaca, porém, é sempre maior quando a vitória é medrosa. O tucano só ganhou uma chance em vida de reabilitar sua popularidade porque Dilma estabeleceu um novo parâmetro negativo de comparação tão alto que relativiza quaisquer insucessos do passado.

O dígito de opiniões positivas sobre seu governo pode morrer solitário se Dilma não inspirar algum otimismo econômico. Nem Barack Obama dizer que os EUA enxergam o Brasil como potência global faz diferença. Publicitários gostam de dizer aos anunciantes: se não gosta do que estão dizendo sobre você, mude a conversa. O governo está tão frágil que perdeu a capacidade de mudar de assunto. Só lhe resta falar de economia e ser muito mais convincente do que foi até hoje. Ou fim de papo.