terça-feira, 15 de junho de 2021

Militares dos EUA e da França mostram por que o Brasil é a vanguarda mundial do atraso

Um marciano que descesse à Terra entre 21 de abril e 10 de maio chegaria à conclusão de que o Brasil nada mais é do que a vanguarda mundial do atraso. Nesse espaço de tempo, dois berços da democracia mundial, a França e os Estados Unidos, assistiram a demonstrações de engajamento político de militares da reserva e uns poucos da ativa.

Primeiro veio a carta assinada por 1.200 oficiais reformados, entre os quais 24 generais, com a adesão, anônima, de duas dezenas de militares da ativa das Forças Armadas francesas. Eles escolheram o aniversário de 60 anos da tentativa de golpe contra a independência da Argélia no governo do general Charles De Gaulle.

No texto, os oficiais dizem que foram o antirracismo, o indigenismo e as políticas de descolonização que semearam o ódio no país. Citam, para isso, a decapitação de um professor, no ano passado, por um aluno que não gostara de uma caricatura de Maomé mostrada na sala de aula de uma escola da região metropolitana de Paris. A carta aberta define o islamismo como um “dogma” contrário à Constituição nacional e ainda diz que a tolerância religiosa levará a França à guerra civil.

O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas francesas, o general François Lecointre, instou os signatários da ativa a passar para a reserva. Já a líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen, saudou a carta e pediu o apoio dos signatários para sua candidatura à Presidência em 2022. Entre aqueles identificados na publicação do artigo pela revista “Valeurs Actuelles” (valores atuais, em francês), há oficiais reformados e saudosistas do império colonial francês. Um verdadeiro exército de Brancaleone.

Pipocaram pesquisas mostrando apoio a uma intervenção militar por até metade dos franceses, mas as sondagens acabaram desacreditadas por terem sido feitas poucos dias depois de dois eventos que comoveram o país: uma manifestação de rua pelo julgamento do assassino de uma judia ortodoxa, internado numa instituição de doentes mentais, e uma condenação, branda na visão dos manifestantes, de uma gangue que ateou fogo em um carro de polícia.

Dezenove dias depois, do outro lado do Atlântico, veio a público uma carta aberta de 124 generais e almirantes da reserva americanos. Mais parecia ter sido escrita pelo ex-presidente Donald Trump, tamanha a semelhança dos argumentos. O texto afirma que a eleição de Joe Biden foi roubada, que a liberdade do país está sob a ameaça e que o viés “politicamente correto” do presidente divide as Forças Armadas e ameaça a prontidão para a guerra. “Sob um Congresso democrata e o corrente governo, nosso país deu uma guinada à esquerda rumo ao socialismo e o marxismo”, afirma o texto.

A carta ainda diz que a integridade das eleições depende de medidas restritivas ao voto de grandes comunidades de negros e latinos em todo o país. Também questiona as condições físicas e mentais de Biden como comandante-em-chefe. Entre os signatários estão oficiais veteranos da guerra do Vietnã, um condenado na operação Irã-Contras, do governo Ronald Reagan, militantes antimuçulmanos e antiLGBT.

No dia seguinte, os franceses de extrema direita voltaram a se manifestar. Desta vez, a carta não esteve restrita à assinatura de militares, mas ao público em geral. O site da revista “Valeurs Actuelles” contabiliza 299 mil signatários até o fechamento desta edição. Este segundo texto acresce aos argumentos já apresentados em abril a menção à “Operação Sentinela”. Convocada pelo presidente Emmanuel Macron, em 2015, foi uma reação a uma série de atentados deflagrados concomitantemente no estádio de futebol de Saint-Denis, na região do Canal Saint-Martin e na casa de shows Bataclan, na capital francesa, que deixaram 130 mortos. Os ataques, que foram os mais letais na cidade desde a Segunda Guerra Mundial, acabaram reivindicados por grupos terroristas de origem islâmica.

É este o fio que Vinícius de Carvalho, estudioso do tema, professor do Departamento de Estudos de Guerra e diretor do Brazil Institute do King’s College, de Londres, puxa para colocar o país de Jair Bolsonaro na roda. Para além das contingências históricas de cada uma dessas nações, diz, é a atribuição de funções civis aos militares que age como um precedente de seu envolvimento político - na França, nos Estados Unidos, no Brasil e em muitos dos vizinhos da América Latina.


No Brasil, a atuação na “lei e ordem”, concessão dos constituintes ao finado regime militar, ampliou-se com a adoção, há quase 30 anos, das Operações de Garantia da Lei e da Ordem, inauguradas com o uso das Forças Armadas na segurança da Conferência das Nações Unidas Rio-92. Não é coincidência que a candidatura Jair Bolsonaro tenha decolado no ano em que o Rio, onde o presidente colheu uma de suas mais espetaculares votações, abrigou uma das maiores GLOs da história, a da intervenção na segurança pública do Estado.

No primeiro mandato do governo Luiz Inácio Lula da Silva, às GLOs se somou a liderança do Brasil na missão das Nações Unidas no Haiti, onde os militares brasileiros atuaram no combate às gangues e no controle da violência urbana. Foi uma prévia das grandes intervenções militares em comunidades. Dos 11 generais que comandaram a missão no Haiti, cinco acabaram se imiscuindo na vida civil brasileira e um tornou-se o primeiro comandante do Exército no governo Bolsonaro: Heleno Ribeiro (Gabinete de Segurança Institucional), Carlos Alberto dos Santos Cruz (ex-Secretaria de Governo), Luis Eduardo Ramos (Casa Civil), Floriano Peixoto (ex-Secretaria-Geral da Presidência), Ajax Pinheiro (assessor especial da Presidência do Supremo) e Edson Leal Pujol.

Se as operações militares no Brasil foram marcadas pela intervenção durante eventos internacionais, greves policiais, crises na segurança pública, incêndios florestais e eleições, no resto no mundo, na avaliação de Vinícius de Carvalho, a inserção foi desencadeada pelo terrorismo. O momento de inflexão foram os ataques da Al-Qaeda às torres gêmeas em Nova York, em 11 de setembro de 2001.

Acionadas pelo terrorismo, as intervenções acabaram naturalizadas contra sublevações sociais e imigração ilegal. Quando o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, Mark Milley, pediu desculpas ao povo americano no ano passado, os sinais de tensão na política interna já eram evidentes com a convocação da Guarda Nacional. A presença de Milley ao lado ex-presidente Donald Trump em caminhada da Casa Branca até uma igreja próxima durante a ocupação de Washington pelos protestos “Vidas Negras Importam” foi vista como um endosso à repressão contra os negros. Daí os esclarecimentos.

Mesmo num país em que é comum os presidentes ostentarem, em algum momento de suas carreiras, patentes militares, a entrega, por Donald Trump, do cargo de secretário de Defesa para um militar reformado foi recebida com reservas. Apesar disso, a prática foi mantida pelo atual presidente Joe Biden, que nomeou o general da reserva Lloyd Austin, primeiro afro-americano a comandar tropas americanas no exterior (Iraque). A nomeação exigiu que o Congresso americano aceitasse a redução da quarentena de sete para quatro anos para oficiais das Forças Armadas. É o equivalente, diz o professor do King’s College, à militarização do Ministério da Defesa no Brasil.

A pasta foi criada em 1999, no governo Fernando Henrique Cardoso, para ser ocupada por um civil que representaria politicamente as três Forças. Foi um marco num continente que, ao longo das últimas décadas, vide Colômbia e México, tem cedido à pressão americana no combate ao narcotrático pela militarização da segurança nacional. Acabou, porém, sendo ocupada por generais da reserva nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro.

A reocupação da pasta por civis, na visão de Vinícius de Carvalho, é o eixo a partir do qual deveriam se estruturar as mudanças necessárias. Mas não apenas. As esquecidas Comissão de Defesa do Senado e da Câmara também merecem sua lupa. “São as instâncias que o Parlamento brasileiro tem para participar na formatação do modelo de Forças Armadas que se quer para o país", diz. A primeira distinção a ser feita é entre defesa, tema militar por excelência, e segurança nacional, atribuição das múltiplas e desfuncionais polícias do país.

O professor do King’s College não vê, por exemplo, razão para o país, que não tem conflitos com seus vizinhos, manter o 14º efetivo mundial de militares do mundo, com batalhões em áreas que não são de fronteira. Na última vez em que um comandante do Exército se manifestou sobre o tema, o general Pujol, em 2020, disse que os efetivos da Força eram necessários para garantir a soberania da Amazônia. “Se uma potência nuclear quiser dominar a floresta, não será simplesmente com presença de grandes efetivos militares na região que o Brasil impedirá que isso aconteça”, diz Carvalho, alertando para os riscos advindos dos flancos na defesa cibernética, cuja expertise não é exclusividade militar.

Este efetivo faz com que os soldos e pensões das Forças Armadas consumam quase 80% de seus gastos. A reforma realizada no governo Bolsonaro, que recompôs gastos com a folha que haviam sido reduzidos no governo Fernando Henrique, foi um dos primeiros degraus da escalada de políticas para atrelar as Forças Armadas ao destino do presidente da República. A entrega do Ministério da Saúde para um general da ativa levar a cabo o negacionismo do presidente foi o ápice desse atrelamento. E a possível punição que envolve a ida do ex-ministro da Saúde e general Eduardo Pazuello a seu palanque, no Rio de Janeiro, a mais recente das tensões.

Ainda que não haja parâmetro nos Estados Unidos ou na França para a agitação dos quartéis pretendida por Bolsonaro, os movimentos políticos da caserna nos dois países dão repertório ao presidente brasileiro. Isolado depois da derrota de Trump e, principalmente, depois do negacionismo ímpar na pandemia, Bolsonaro peleja para conseguir seu segundo mandato sob o escudo militar. É como pretende se manter na crista da onda do novo viés da extrema-direita mundial.

O 'evangelho' segundo Bolsonaro

O oitavo Mandamento diz que não se deve dar falso testemunho. No “evangelho” do presidente Jair Bolsonaro, contudo, esse mandamento caducou.

Ao discursar numa igreja evangélica em Anápolis (GO), na quarta-feira passada, Bolsonaro fez um sermão repleto de mentiras, tão evidentes que nem era preciso ser onisciente para perceber.


Bolsonaro voltou a afirmar que houve “fraude” na eleição de 2018, que ele venceu. “Eu fui eleito no primeiro turno. Eu tenho provas materiais, mas o sistema, a fraude existiu sim, me jogou para o segundo turno”, disse Bolsonaro.

A primeira vez em que o presidente alegou ter sido vítima de fraude na eleição foi em março de 2020. Na ocasião, disse que tinha “provas” e que as mostraria “brevemente”. Bolsonaro nunca o fez, porque não existem. Mas isso não tem importância: no “evangelho” bolsonarista, a verdade não é aquilo que encontra correspondência na realidade, e sim aquilo que Bolsonaro enuncia como tal. É questão de fé.

No mesmo sermão, Bolsonaro tornou a acusar governadores e prefeitos de “utilizar politicamente o vírus” da covid-19. Sem qualquer respaldo nos fatos, o presidente disse que as medidas de isolamento social para conter a pandemia se prestam a derrubá-lo: “Vamos fechar tudo, lockdown, toque de recolher, que a gente pela economia tira esse cara daí”. Bolsonaro disse que o querem fora porque “fez com que as estatais não dessem mais prejuízo”, “está começando a arrumar a economia”, “acredita em Deus”, “respeita seus militares” e “acredita na família”.

Em seguida, disse que “gente que estava ao meu lado” fez contas, a partir de um “acórdão do Tribunal de Contas da União”, e chegou à “constatação da supernotificação de casos de covid” por parte de Estados interessados em ter “mais recursos” federais. Segundo Bolsonaro, “se nós retirarmos as possíveis fraudes” da contabilidade de mortos por covid-19, “o nosso Brasil” será “aquele com menor número de mortes por milhão de habitantes por causa da covid”. Ou seja, o presidente está dizendo, em outras palavras, que milhares de médicos em todo o Brasil integram uma máfia dedicada a fraudar atestados de óbito para favorecer os planos de governadores corruptos.

Uma vez eliminada a “fraude”, disse o presidente, ficará claro que o Brasil teve poucas mortes por covid-19 porque adotou o “tratamento precoce”, com cloroquina e ivermectina, cuja ineficácia contra o coronavírus já foi amplamente atestada. Bolsonaro disse que não se investe nesse “tratamento” porque “interessa viver em cima de mortes, para se ganhar mais recursos”.

Para o presidente, é irrelevante se o tal “tratamento precoce” não tem comprovação científica. “Eu pergunto: a vacina tem comprovação científica ou está em estado experimental ainda? Está experimental”, disse Bolsonaro, naquela que talvez seja a mais nociva das tantas mentiras que contou no seu sermão. Ao questionar a segurança da vacina, já atestada pelas autoridades sanitárias regulatórias, Bolsonaro sabota todos os esforços para incentivar os brasileiros a tomar o imunizante.

Mas a epifania bolsonarista em Anápolis, malgrado suas repetidas referências a “milagres” e “Deus”, teve objetivos bem mais mundanos. Conforme a já manjada tática bolsonarista, era preciso inventar variadas polêmicas, em grande quantidade, para tirar a atenção do mais importante: a forte alta da inflação, anunciada no mesmo dia do sermão de Bolsonaro.

Se por um lado a inflação aumentou a arrecadação do governo, pois os tributos são cobrados em cima de preços mais altos, por outro a alta dos preços corrói a renda dos brasileiros, especialmente a dos mais pobres, que já convivem com forte desemprego. Ante o risco de insatisfação popular, muito concreto, Bolsonaro recorreu a quase todo o seu repertório de falsidades para que o País mude de assunto.

Em sua prédica mendaz, foi honesto uma única vez, quando disse que, ao ser eleito, “não sabia o que fazer”. Hoje, contudo, sabe muito bem: mentir dia e noite para ser reeleito. Se vai conseguir ou não, depende da credulidade dos eleitores.

Exemplo assassino

Todo e qualquer o líder que não percebe o valor do exemplo não tem a mais pequena vocação para a função. O exemplo é o mais poderoso instrumento de motivação: capaz de ajudar a elevar homens a heróis ou descer a vilões

A pátria em chuteiras calça as pantufas dos isentões

A Conmenbol, confederação sul-americana de futebol, abriu a Copa América em Brasília apenas com uma lembrança tímida, quase protocolar, a respeito de uma pandemia que já matou quase 500.000 brasileiros. O principal avalista do torneio, o presidente Jair Bolsonaro festejou ao seu estilo fanfarrão: com uma foto nas redes sociais apontando para a logomarca do SBT, emissora dona dos direitos de transmissão dos jogos. O líder negacionista vestia uma camiseta do time do Brusque (SC) com propaganda da Havan, firma do empresário e apoiador Luciano Hang, um dos patrocinadores da transmissão na TV de Silvio Santos.

O Brasil venceu por 3×0 uma Venezuela alvejada por um surto de Covid-19 às vésperas da partida —onze atletas testaram positivo e não puderam atuar neste domingo. A pátria em chuteiras, como o cronista Nelson Rodrigues batizou a seleção nacional, tampouco promoveu qualquer manifestação além do minuto de silêncio no início da partida.


Ao contrário das jogadoras da seleção feminina, que na semana passada, antes do amistoso com a Rússia, exibiram uma faixa de protesto contra o assédio de Rogério Caboclo —o presidente afastado da CBF—, os homens apenas jogaram bola, mantendo a marca histórica masculina da falta de pronunciamento. A pátria em chuteiras calçou as pantufas dos isentões.

Nem mesmo a gravidade da peste provocada pelo coronavírus comoveu até agora os atletas e a comissão técnica da equipe. Mesmo na singela cartinha publicada no story do Instagram dos boleiros, não houve a menor sensibilidade para defender a vacina ou o SUS, por exemplo. Nada. No jogo de abertura da Copa América, idem, nem mesmo um gesto que pudesse ajudar os brasileiros vítimas da Covid. Uma omissão histórica bem superior à vergonha moral do 7×1 para a Alemanha na Copa de 2014.

Na breve cerimônia de abertura, um médico e um enfermeiro, representando a turma da linha de frente dos hospitais, entrou no estádio Mané Garrincha com a taça da competição. Muito pouco, dona Conmebol. A melhor homenagem, porém, seria ter evitado a realização do torneio, como defenderam dezenas de infectologistas e autoridades em saúde pública. Não foi em vão que grandes patrocinadores oficiais, como Ambev e Mastercard, retiraram suas marcas do evento. Essa Copa América, também chamada de Cepa América, queima o filme. Não serve à imagem de ninguém, a não ser para redundar a frieza e o negacionismo presidencial.

O anticristo Bolsolini prega, mata e mente

O lema da motociata de sábado, expediente cênico inventado por Benito Mussolini nos anos 1930 para atestar vigor do Partido Nacional Fascista italiano e já encenado antes no ato político que lançou o general da ativa Eduardo Pazuello na política, foi “Acelera para Cristo”. Ninguém precisa ter frequentado uma aula de teologia para defini-lo como uma blasfêmia. Afinal, os louvores não eram para Jesus, mas para Jair Messias, numa grosseira falsificação tratada como ato de fé. Bulsolini é o anticristo.

O versículo 6 do capítulo 14 do texto canônico do evangelista João, homenageado pelos bisavós deste articulista no nome do pai de seu pai, atesta sem direito a dúvidas: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. O trajeto entre São Paulo e Jundiaí (seguido por cerca de 12 mil motoqueiros) não tinha como justificativa nenhuma confirmação da fé cristã, muito menos a afirmação de cumprimento desses três pilares básicos da cristandade. Explícito ofício eleitoral ilícito, não punido pelo leniente Tribunal Superior Eleitoral (TSE) (alô, alô, ministro Barroso), de afirmação pública da crendice negacionista do bolsonarismo, a procissão sobre duas rodas foi a forma mais radical da desumanidade de comemorar previamente o massacre de meio milhão de brasileiros pela covid-19. A estrada não levava a Aparecida, Lourdes, Fátima, ou ao Muro das Lamentações, nem a Meca, mas ao recorde obtido com desonra absoluta pelo capitão terrorista que, sem dar um tiro, levou centenas de milhares de uma só vez à cova.

A verdade foi ofendida em todas as estações do sepulcro caiado do qual ressurge a candidatura em desmanche do titular do desgoverno que ora nos desgraça, aflige e amaldiçoa.

As estações iniciais da marcha da negação ocorreram em depoimentos dos bolsonaristas Eduardo Pazuello, Ernesto Araújo, Fábio Wajngarten, Elcio Franco, Mayra Pinheiro, Nise Yamaguchi e Marcelo Queiroga na comissão parlamentar de inquérito (CPI) da covid-19 no Senado. Confrontados com as próprias declarações dadas ao longo de 14 meses, esses obscurantistas as negaram, como se a mentira anulasse os fatos e as próprias palavras. Assim que tentativas de evitar a quebra de sigilo decretada pela CPI começaram a cair no Supremo Tribunal Federal (STF), documentos das embaixadas brasileiras em Washington e Pequim desmancharam os castelos de areia de suas versões absurdas com a constatação singela de que a imunização foi atrasada deliberadamente para anabolizar o total de óbitos na pandemia, de tal dimensão que se torna impossível contar o feito em marcas na coronha do fuzil do artilheiro despojado de farda, armas e coturno por indisciplina crônica e terrorismo.

O mentiroso-mor já havia protagonizado cena de que só não se envergonha quem nunca teve pudor algum. A um punhado de adoradores que chama inadequadamente de “povo” Messias Bolsolini atribuiu a um órgão de controle do Poder Legislativo, o Tribunal de Contas da União (TCU), a afirmação de que haveria supernotificação de mortes por covid, o que pressupunha uma conspiração sigilosa inviável de todos os profissionais da saúde envolvidos no combate do acreditado Sistema Único de Saúde (SUS) nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) do País. O TCU desmentiu e o reincidente voltou à claque para dizer que tinha “errado”, porque não houvera “relatório” e, sim, “acórdão”. Nada disso, esclareceram a presidente Ana Arraes e o corregedor Bruno Dantas, que decidiram pelo afastamento do responsável pela patranha, o auditor bolsonarista e filho de militar bolsonarista Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques, cujos sobrenomes reúnem dragonas e faixas presidenciais da recente ditadura.

O bloco dos sujos com capacete e sem máscara foi encerrado com um discurso em que o anticristo insistiu na sua originalidade ao combater ao novo coronavírus aderindo à tese, mais infame do que o próprio agente da pandemia, de que para salvar alguns urge matar milhões. Expressões impróprias como “tratamento precoce” ou nobres como “liberdade de ir e vir” foram mais uma vez misturadas de maneira farisaica para enganar não tolos, mas espertinhos de espartilho que se beneficiam do saque ao erário. Este inclui o custo informado do falso cristianismo do culto à “imunidade de rebanho”, de R$1,2 milhão, da motociata de corpo presente.

A direita estúpida perdeu as eleições nos Estados Unidos e no Peru e acaba de sucumbir a uma esdrúxula aliança em que a extrema direita se uniu à esquerda e ao centro para derrubar do poder o aliado do capetão sem noção em Israel. Bibi Netanyahu, cuja ausência isola ainda mais o preferido dos corruptos do Centrão, da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da Conmebol, que, ainda assim, se aferra à pílula do câncer, à cloroquina e ao agora batizado de “atendimento precoce”, apelando para o eufemismo.

A distância semântica entre “tratamento” e “atendimento” pode ser quiçá medida em milímetros. Não é o caso da diferença entre 1,3 milhão de motos da motociata da morte e as prováveis 12 mil. Não há ainda uma unidade capaz de medir o cinismo de Allan dos Santos, que, do exterior, disparou a mentira de que a síncope sofrida pelo craque dinamarquês Eriksen em campo na Eurocopa tenha resultado de vacina anticovid. A Internazionale de Milão já denunciou o delírio bolsonarista. Mas não basta para deter o tsunami de terraplanismo, obscurantismo, desumanidade e, sobretudo, absoluto cinismo do pastor que nem sequer se traveste de ovelha para pregar o massacre dos inocentes. E, assim, garantir o patrimônio imobiliário de uma família que só negocia com dinheiro vivo. E é garantido no poder, entre outros segmentos sociais, pelo ser abstrato mercado de capitais, que não precisa recorrer a moedas impressas para enriquecer.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Para sair desta maré

‘É tudo um tecido de mentiras.’

Essa frase de um personagem de Ingmar Bergman às vezes me vem à cabeça quando tento sintetizar a política do governo Bolsonaro contra a pandemia.

Noutros momentos, procurei destacar a base dessa atitude devastadora, que é a negação de fatos. A negação como fenômeno psicológico foi teorizada por Freud em 1923. Sua filha Anna Freud ampliou os estudos do tema, sobretudo em crianças.

Não ver ou ouvir certos fatos às vezes é uma tentativa de evitar a dor ou o desafio que abale nossas convicções do mundo. Nas crianças indefesas, até que isso, em determinadas condições, tem um lado positivo e permite seguir adiante apesar de experiências traumáticas.

Em política, esse conceito de negação foi usado também para definir as teses que negam o Holocausto e as atrocidades do regime nazista.

Mas às vezes essa tendência se infiltra na sociedade. Michael Milburn e Sheree Conrad escreveram um livro sobre as principais políticas de negação na sociedade norte-americana.

Bolsonaro se recusou a aceitar a existência da pandemia. Da célebre comparação do vírus a uma gripezinha a todos os passos posteriores, sua atitude foi negar.

No auge da pandemia, já com 480 mil mortos, ele ainda fez uma tentativa desesperada de negar que todas essas mortes foram causadas pela Covid-19. Para isso, um auditor amigo produziu um relatório fake e o introduziu no sistema do Tribunal de Contas da União.

No entanto, na CPI da Covid, onde se apuram as responsabilidades, a tendência do governo é negar sua política de adesão à hidroxicloroquina e recusar a vacina. É a negação da negação.


O que fazer com tanta mentira? Para a CPI, a tarefa é simples: alinhar declarações, atitudes e documentos e provar que esse tipo de política causou mortes.

No campo político, entretanto, coloca-se uma questão importante: como atuar na vida pública com um país tão intoxicado pela mentira?

Não tenho ilusões de que o clima será muito melhor no futuro. O crescimento da internet mostra como os grupos se atacam: como enxames de abelhas, parecem morder diante de um pensamento que lhes desagrada.

Outro dia, questionado sobre a possibilidade de atenuação do clima, respondi longamente. Percebi como o tema me preocupa.

Um dos caminhos é unificar o campo da oposição e reduzir a hostilidade mútua diante do adversário comum. Coalizões mais heterogêneas, como em Israel, surgiram da necessidade.

Para reduzir a hostilidade no campo de oposição, não basta boa vontade. É preciso reconhecer que existem candidaturas diferentes, representando a esquerda, o centro e até a direita.

Os que afirmam que não querem nem um nem outro, nem Lula nem Bolsonaro, precisam avançar nessa forma simplificada, reconhecendo que não são forças equivalentes; existe uma diferença de qualidade entre elas.

Isso seria um primeiro passo. O centro seria criticado apenas por pensar de forma diferente, mas não por estabelecer uma equidistância artificial entre esquerda e extrema-direita.

Outra ideia que me parece válida é reconhecer que Bolsonaro pode perder apoio. A tática correta não é estigmatizar seus mais de 50 milhões de eleitores. Erros históricos coletivos acontecem. A tarefa principal é tornar leve o caminho de volta para uma posição mais sensata. O estigma, pelo contrário, dificulta a vontade de mudar.

São ideias iniciais. Quando as exprimi numa conversa com Fernando Henrique Cardoso, Sergio Fausto lembrou o plebiscito no Chile e como uma posição mais solar, mais leve, acabou derrotando a herança de Pinochet.

São ideias iniciais, mas uma reflexão sobre o caminho. É insatisfatório apenas denunciar as mentiras do governo Bolsonaro e seus passos rumo a um golpe.

É necessário criar uma base comum de resistência e, sobretudo, algumas razões para acreditar em mudanças. Isso não purifica a atmosfera política, mas pelo menos ajuda a respirar.

Os negacionistas somos nós

Quando o presidente da República começou a municiar suas redes sociais com fake news, algo não muito diverso do que havia marcado sua campanha, aliás, muitas pessoas se indignaram. Mas não muito mais do que isso. Dizia-se que era inadmissível que um presidente propagasse mentiras – mas estas continuaram a ser admitidas. Até outro dia em que a imprensa divulga que os ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) ficaram escandalizados com a utilização de dados mentirosos para questionar os mortos na pandemia.

A imprensa ela mesma se escandalizou quando as ofensas a seus jornalistas se tornaram quase diárias no cercadinho onde o presidente os atende no começo do expediente. Ele foi misógino, homofóbico ou simplesmente mal-educado. E a imprensa seguiu ouvindo e divulgando o presidente, até que os jornalistas começaram a ser fortemente hostilizados pela claque e, em alguns eventos, simplesmente agredidos. Mas não houve greve, não houve bloqueio, não houve silenciamento. O mesmo presidente que havia dito, de forma nojenta, que uma jornalista estava ávida para “dar o furo”, na semana passada chamou outra de “quadrúpede”.

As instituições continuaram funcionando, mesmo depois que o presidente deu razão a um auxiliar direto que ofendeu, gratuita e grosseiramente, a ministros do Supremo Tribunal Federal – mas o que parecia ser o fim de linha resolveu-se com um prêmio para um requisitado cargo no exterior. E o presidente continuou dando guarida a todos os parceiros que humilham e ameaçam os ministros, e ele mesmo tece considerações para lá de desairosas cada vez que recebe uma decisão desfavorável. Mas não tem problema, segundo os próprios presidentes do Tribunal. Dias Toffoli, ao deixar o cargo, fez questão de dizer não ter visto da parte do presidente e de seus ministros, “nenhuma atitude contra a democracia”; Luiz Fux, logo depois de assumir, afirmou que o impeachment de Bolsonaro seria simplesmente “desastroso para o país”.



Não bastassem os milhares de militares com que o governo vem aparelhando a máquina pública, e um grupo de ministros fardados de competências questionáveis, uma parcela considerável do meio político ainda permanece na expectativa de que, no final das contas, os mais racionais do Exército saberão cortar as asas do presidente para evitar loucuras. Mas eis que o general Pazuello sobe no palanque para troçar da CPI da Covid, e sua falta funcional é arquivada em tempo recorde, proibindo Bolsonaro que os militares até a comentassem. Que fundamentos terão sido urdidos para justificar não punir a violação à disciplina de que tanto se orgulham os militares não se saberá tão cedo, pois o sigilo lançado no processo administrativo só se iguala ao das atrocidades praticadas na Guerra do Paraguai.

Depois de levas de eleições muito bem-sucedidas, com apurações rápidas e confiáveis, eis que a fidelidade da apuração eletrônica é colocada em xeque, da mesma forma como Donald Trump antecipou nos Estados Unidos as críticas ao já tradicional voto por correspondência. O alerta de fraude, como se sabe, foi mero pretexto para negar um provável resultado desfavorável e, no caso, justificou uma agressão ao Parlamento que os Estados Unidos até então nunca tinham presenciado. E que diz Bolsonaro sobre o assunto? Que “se não houver voto impresso na eleição de 2022, no Brasil será muito pior”. A ameaça explícita à democracia não fez o país discutir o impeachment, mas justamente o voto impresso.

Um secretário de Bolsonaro emulou a lembrança de Goebbels, para anunciar um programa nacionalista que, na véspera, o presidente elogiara como a redenção da cultura brasileira. Bolsonaro o demitiu a contragosto, mas passou ele mesmo a mimetizar Mussolini na convocação e liderança de atos de massa que defendem, abertamente, a destruição da democracia. Chocando um total de zero pessoas, pois, como como diz Marcio Sotelo Felippe, um dos intelectuais que mais cedo identificou o DNA fascista do governo:

“Bolsonaro jamais dissimulou. Ao longo de sua abjeta vida e de sua ridícula trajetória política, ele nunca escondeu o culto à morte, o gosto pela tortura, a frustração porque a ditadura não matou 30 mil pessoas em vez de 430, a admiração pelo homem que enfiava ratos e baratas na vagina de mulheres. Como isso foi possível? A resposta está na compreensão do fascismo. Do que é a sua essência. Bolsonaro jamais escondeu o que era e o que pretendia, tal como Hitler e Mussolini. Hitler cumpriu rigorosamente o programa do Mein Kampf, publicado anos antes de sua ascensão ao poder. Bolsonaro cumpriu seu programa com a contingência da pandemia. A fala do fascista é essencial para levá-lo ao poder. Não se trata de bravatas ou palavras ao léu como costumeira e ingenuamente se interpreta.”

Mas nós continuamos a tratar a situação como um “momento de polarização”, um presidente indelicado, dentro de uma democracia que é forte e tem as suas próprias defesas.

Na pandemia, vimos a tragédia acontecer diante de nossos olhos incrédulos: desprezo pela gravidade da doença, desrespeito com os mortos, luta incessante contra as medidas de isolamento, críticas mentirosas à funcionalidade das máscaras, propaganda de um remédio que sabidamente não funciona, e um atraso proposital na aquisição de vacinas, porque, afinal de contas, a pandemia é seu principal mecanismo de defesa. Ninguém melhor que seu desafeto Rodrigo Maia conseguiu expor isso ao fundamentar por que ignorava os pedidos de impeachment: “Temos de focar na pandemia”. Com foco na pandemia, meio milhão de brasileiros já morreram e o país que patina na marca de 10% da população adulta vacinada oferece um espetáculo diário tragicômico no Senado para “discutir a cloroquina”.

O que as instituições funcionando não perceberam é que o governo é a sua própria sombra; ele funciona no paralelo porque ele é o negativo das instituições. Ele não tem um “gabinete do ódio”; ele é um gabinete de ódio, porque o ódio é essencial para a política de destruição a qual nunca escondeu.

Dizem que eles são negacionistas, mas não é verdade. Negacionistas são os que se recusam a ver. Ou veem e se recusam a aceitar o que veem. Em States of denial (Polity Press, 2008), o sociólogo Stanley Cohen discute os estados de negação que levam as pessoas ao paradoxo de saber e ao mesmo tempo não saber. Para ele, mesmo as vítimas potenciais repletas de sinais de alerta costumam minimizar seus riscos, não acreditando que o impensável pode acontecer com elas. Veja o que diz Cohen sobre a situação dos judeus alemães às vésperas do Holocausto:

“O desdobramento da percepção da Solução Final pelos próprios judeus europeus tornou-se um protótipo de negação coletiva. Nos anos trinta, poucas pessoas levaram a retórica de Hitler a sério. O nazismo era visto como um fenômeno temporário, um retrocesso a ser suportado até que passasse. Na Alemanha, cada nova medida antijudaica, cada escalada da perseguição, era vista como a última. Mesmo quando os massacres começaram, os rumores, depois relatos confirmados e histórias de sobreviventes, eram todos descrentes. Laqueur enumera as negativas familiares: ‘são como pogroms tradicionais … apenas incidentes isolados, o trabalho de um comandante local … não pode ficar pior do que isso … Os alemães são cultos, isto é a Europa, não uma selva … isso não pode acontecer com pessoas inocentes …”

Os negacionistas somos nós.
Marcelo Semer

Pensamento do Dia

 


O Pau-Brasil e os cupins

Na biblioteca Wiedener, Harvard, a palavra “crise” está mencionada em 23.600 livros, segundo Adam Przeworski (Crises da Democracia. Ed. Schwartz: Rio de Janeiro, 2019), autor da célebre frase “Ama a incerteza e serás democrático”.

No Brasil, a frequência das crises é um estado de normalidade. O que assusta é a superposição de crises agravada pela Covid-19 de trágicas consequências.

Em 2018, somaram-se impeachment, recessão, desemprego, circunstâncias que geraram um ambiente de profunda radicalização política. Os ditames da democracia representativa – eleições e alternância do poder – obedeceram às regras constitucionais.


No entanto, o desencanto, sentimento presente nos processo de transição política, alimentou um caldo de cultura antipolítico, antistabilshment e indignação com a corrupção exposta pela operação Lava-Jato. O grau de descrença na política tradicional levou o eleitor a buscar como solução o salvador da pátria.

Emergem atores políticos que, favorecidos pela virtù e fortuna (conceitos maquiavelianos: habilidade e sorte), conquistam e mantém o poder. A receita do sucesso tem um roteiro semelhante em todas a nações que passam pelo enfraquecimento global da democracia liberal. Creem firmemente em promessas irrealizáveis; vibram com bravatas irresponsáveis; mobilizam os iracundos que se julgam excluídos por uma “elite” cruel; e agridem as instituições democráticas.

Em favor das inclinações populistas de qualquer matiz, está a frustração das expectativas com as soluções democráticas que são mais sábias, mais legítimas, porém sem a velocidade autoritária e irresponsável das que emanam do poder despótico.

Mas a urna falou, tá falado. O palco se abre para o segundo ato. Confirmam-se suspeitas de um projeto autoritário em andamento. Mantém o verniz democrático e corrói a essência da democracia explorando os vetores da violência: a intolerância, a fragmentação das forças políticas; a transformação do opositor em inimigo a ser eliminado.

O primeiro erro da oposição foi subestimar o candidato; o segundo foi subestimar o uso do poder; o terceiro está em curso: não enfrentar, unida, o projeto de poder em que se inscreve a demolição da democracia representativa.

Espertamente, o governo constrói pontos de apoio: 1/3 de fanáticos; a volubilidade parlamentar; aparelhamento dos mecanismos de controle do poder; desafia o papel institucional das Forças armadas; e não hesitará em manejar o populismo fiscal.

Este último ato está à vista da nação. Pensar no Brasil é a senha do consenso político-eleitoral. Um grito de alerta. Pau-Brasil é poesia/manifesto de Oswald de Andrade e Madeira de Lei que os cupins não roem, mas precisa do abraço protetor.

Pergunte aos eleitores


Meu Deus, como um homem tão fraco, confuso, que não sabe diferenciar o real do irreal e com falsas crenças pode tomar, por meio do voto, a dianteira em um país tão maravilhoso como o nosso? Triste realidade
Otto Alencar, senador (PSD-BA)

Com máscara

Terça-feira, dia 8, já noite. Na papelaria Kalunga abrigada num shopping na Enseada do Suá, em Vitória, ocorre um diálogo carregado. Tipo pano rápido, porém eloquente.

1) Funcionário solicita a um cliente o uso de máscara facial de proteção para poder atendê-lo.

2) Cliente diz “não”.

3) Funcionário explica ser lei.

4) Cliente responde: “Eu faço a minha lei, não cumpro leis”. Saca uma arma e a aponta para o rosto do funcionário.

5) Cliente conclui a compra com outra vendedora, sai da loja rindo. Sem máscara.

Segundo o repórter Caíque Verli, da TV Gazeta, o funcionário ameaçado registrou a ocorrência em delegacia, e a pessoa que testemunhou o ocorrido preferiu não se identificar. Compreende-se. Estamos num país onde o recurso a armas para “cidadãos de bem” é incentivado e facilitado a canetadas pelo chefe da nação.

O cliente do shopping de Vitória é apenas mais um espécime do Brasil gestado por Jair Bolsonaro — antecipou-se sem saber à clara intenção presidencial de erradicar a obrigatoriedade do uso de máscara. O anúncio feito por Bolsonaro de forma oblíqua, porém oficial, sugeriu o caminho: caso queira permanecer no cargo, “um tal de Queiroga” — designação usada pelo presidente para seu quarto ministro da Saúde, Marcelo Queiroga — deveria fazer um “estudo” sobre a inutilidade da proteção facial para quem já foi vacinado ou infectado. “Vamos ficar reféns de máscaras até quando?”, pergunta o mandante, sem esconder o asco do exemplar entre os dedos. Pelo fato de o vírus ser invisível e estar naufragando seu governo, Bolsonaro parece ter transferido à singela máscara o papel de inimigo mais detestável — ela é física e insultuosa, pois explicita a morte que ronda o país. É preciso varrê-la de cena, portanto. Sumir com este que é, além da vacina, nosso melhor escudo para não chegarmos tão depressa às 500 mil vidas varridas pela Covid-19.

Como previsto, e foi intencional, o proclama oficial injetou fervor nos mais crédulos, confundiu e atordoou os menos informados e exasperou a repulsa de quem se esforça para não perder a sanidade. Vale conferir o semblante de alarme represado do doutor Drauzio Varella ao ser entrevistado no programa “Em pauta”, da GloboNews. Havia inabitual angústia na fala e no olhar de quem, há décadas, nos explica com serenidade e saber as mazelas da saúde pública nacional. Por honrado, ele não fugiu a uma pergunta sobre o que o doutor Queiroga deveria fazer para honrar a profissão, se instado a produzir um relatório nos moldes pedidos. “Pedir demissão”, respondeu.

Existem inúmeros vocábulos para definir um chefe de nação que necessita ser idolatrado como “mito” por um rebanho. Difícil é encontrar linguagem publicável, em qualquer idioma, para retratar um presidente que se autodefine como “imorrível”, “imbrochável”, “incomível”. Voltemos, portanto, a nosso personagem do shopping.

“Eu faço a minha lei, não cumpro leis”, arrostou o valentão de arma em punho de Vitória. Palavras ainda não pronunciadas ipsis litteris pelo presidente do Brasil, embora pareçam estar na raiz de seus movimentos — em três anos no poder, Bolsonaro já domesticou a Procuradoria-Geral da República, a Advocacia-Geral da União, as Forças Armadas, o Coaf e quase consegue fazer estrago no Tribunal de Contas da União. No seu governo impera a teia do “paralelo” no lugar do oficial, desdenha-se o valor de instituições, da ciência, da cultura, das gentes múltiplas que compõem o Brasil. Tudo a céu aberto e cada vez mais desenvergonhado, com foco único no embate eleitoral de 2022. Ou antes, se preciso.

A edição mais recente da revista “Cult” abriga um sólido artigo do desembargador Marcelo Semer. Convém lê-lo na íntegra, embora o título já aponte para a tese central: “Os negacionistas somos nós”. O autor nos faz percorrer quanto instituições que vão da grande imprensa ao STF, dos partidos de oposição à opinião pública, uma a uma, acabaram aceitando o que professavam ser inadmissível. “O que as instituições funcionando não perceberam”, escreve o autor, “é que o governo é sua própria sombra, ele funciona no paralelo porque ele é o negativo das instituições. Ele não tem um ‘gabinete do ódio’; ele é um gabinete de ódio, porque o ódio é essencial para a política de destruição que nunca escondeu. Dizem que eles [o mandatário e seus operadores] são negacionistas, mas não é verdade. Negacionistas são os que se recusam a ver. Ou veem e se recusam a aceitar o que veem...”.

Em outras palavras, nós. Sabemos ser no escuro que os olhos começam a enxergar. Estamos no escuro, começando a enxergar — de máscara e com a ajuda da CPI.

Má companhia

Duas pesquisas recentes mostram que a impopularidade do presidente Jair Bolsonaro se consolidou. Levantamento Exame/Ideia indica que 49% dos entrevistados desaprovam o governo de Bolsonaro. Índice semelhante (50%) foi apurado na última pesquisa XP/Ipespe – essa sondagem mostra que a desaprovação do governo vem crescendo de forma consistente e ininterrupta desde outubro do ano passado, quando estava em 31%.

Quando convidados a avaliar o trabalho de Bolsonaro em si mesmo, os entrevistados se mostram ainda mais críticos. Na pesquisa XP/Ipespe, 60% disseram desaprovar o modo como Bolsonaro administra o País, índice que vem subindo desde dezembro do ano passado, quando esteve em 45%. Já na pesquisa Exame/Ideia, a desaprovação do trabalho do presidente é de 50%, também em alta consistente há meses.


É óbvio que essa impopularidade pode diminuir com o efeito de medidas demagógicas e com uma eventual recuperação da economia nos próximos meses, mas está claro que uma parte significativa da população está profundamente insatisfeita com o presidente.

As razões são óbvias. Além do quase meio milhão de mortos em razão da pandemia, o que por si só deveria bastar para arruinar a imagem de qualquer presidente, há uma aflitiva lentidão na vacinação, fruto da incompetência criminosa do governo, como vem mostrando com clareza a CPI da Pandemia. Apenas 11% dos brasileiros receberam as duas doses de vacina, enquanto nos EUA esse índice é de 42% e no Chile, de 45%.

As imagens de vários países do mundo em que a população começa a experimentar algo próximo da normalidade ampliam a sensação de desalento no Brasil, onde se registram mais de 1,5 mil mortos por dia, a ocupação hospitalar não é inferior a 80% e as impopulares restrições continuam em vigor para evitar novo colapso do sistema de saúde.

Nesse contexto, a vacina, desprezada explicitamente por Bolsonaro, é uma demanda da maioria absoluta dos brasileiros. A pesquisa XP/Ipespe apurou que apenas 5% dos entrevistados dizem que “com certeza” não vão se vacinar, enquanto 88% disseram que ou já se vacinaram ou pretendem se vacinar.

Esse é seguramente um dos aspectos que minam a popularidade de Bolsonaro, mas decerto não é o único. Outro tema sensível abordado na pesquisa XP/Ipespe foi a corrupção, que Bolsonaro se jacta de ter liquidado em seu governo. O levantamento mostra que, em novembro de 2018, após a vitória eleitoral de Bolsonaro, 56% dos entrevistados, confiando nas ruidosas promessas do presidente eleito, esperavam que a corrupção fosse diminuir nos seis meses seguintes, enquanto apenas 17% imaginavam que a corrupção fosse aumentar. Já na mais recente pesquisa, 46% disseram crer que a corrupção vai aumentar, enquanto apenas 16% entendem que vai diminuir.

Isso significa que a percepção de corrupção no País cresceu junto com a impopularidade do presidente, e não parece ser mera coincidência. As inúmeras suspeitas envolvendo a família do presidente, de rachadinhas ao uso da máquina pública para fins privados, contradizem frontalmente o discurso saneador de Bolsonaro. Hoje, quem está com Bolsonaro corre o risco de ser visto como corrupto.

Tal percepção é implacável, mesmo para os que têm boa imagem nacional. A pesquisa XP/Ipespe mostra que as Forças Armadas – de longe a instituição que inspira maior respeito entre os brasileiros – vêm perdendo a confiança dos cidadãos desde que se permitiram envolver com um governo tão nocivo para o País. O levantamento mostra que, em dezembro de 2018, pouco antes da posse de Bolsonaro, 70% dos brasileiros diziam confiar nas Forças Armadas; hoje, essa confiança caiu para 58%.

Se a má companhia bolsonarista prejudica uma instituição tão respeitada como as Forças Armadas, o estrago para os já desmoralizados partidos e políticos que dão sustentação ao pior governo da história é muito maior. E o preço desse apoio será cada vez mais salgado: a pesquisa Exame/Ideia mostra que 52% dos entrevistados concordam com a realização de manifestações contra o governo. O mau humor com Bolsonaro veio para ficar.

Os 15 minutos dos imbecis

Quase 50 anos separam as declarações de que as redes sociais dariam voz a uma legião de imbecis e que chegaria o dia em que todos teriam seus 15 minutos de fama.

Teria Andy Warhol vislumbrado a internet e a cultura dos conspiracionistas? Ou pensava apenas nas subcelebridades instantâneas e deu a deixa para Umberto Eco ampliar o escopo da profecia, de modo a incluir a infâmia?

A palavra “imbecil”, em sua origem, designava “o que não se aguenta de pé”. Por extensão, foi aplicada aos tolos, àqueles cujas ideias não se sustentam. Isso antes de o insustentável ganhar fama e um megafone virtual para apregoar suas elucubrações.

A verdade pode ser enunciada de forma límpida. A mentira, para convencer, precisa ser cheia de cantinhos. Daí as teorias da conspiração serem tão elaboradas: quanto mais estapafúrdias, mais poderosas. Elas consistem num sistema dotado de razoável coerência, em que se estabelece um encadeamento lógico entre (falsas) causas e (discutíveis) consequências — ou vice-versa. E são tão caras aos imbecis por lhes dar a ilusão de deter conhecimento — diferentemente do pensamento mágico, que não exige muita coordenação motora dos neurônios. O até então in bacillum (literalmente, “sem cajado”) se sente apoiado por um arremedo de razão.


O Sapiens — ensinou Yuval Harari — é capaz de se unir em tribos graças à ficção partilhada. A conspiração tem o mesmo propósito: congregar os imbecis em torno de coisas “que só eles sacaram”: a Nova Ordem Mundial, a Big Pharma, os reptilianos, a existência de fascistas no armário e de comunistas embaixo da cama.

Algumas conspirações são inócuas (o terraplanismo, os teóricos dos antigos astronautas), mas é por causa dos “antivax” que sarampo e poliomielite — quase erradicados — estão voltando. E que a Covid-19 faz mais vítimas do que seria de esperar numa época em que se sabe tanto de virologia e infectologia. Negar a doença continua sendo o mecanismo de defesa preferido por quem não consegue lidar com a angústia que ela provoca.

Há hoje excesso de informação e escassez de compreensão. Sabemos que o cientista tem crenças e expectativas — por isso, experimentos precisam ser replicáveis e estudos passam por revisão. Há um método, que valida — ou não — o que a ciência produz. O imbecil tem ligação emocional com a conclusão. Tudo é arquitetado para confirmar sua hipótese. O que não convém é adulterado ou descartado.

Quem cria notícia falsa ou teoria conspiratória desconstrói os fatos e os rearranja numa narrativa que lhe seja favorável. Quem compartilha — sem verificar as fontes — tem consciência, intimamente, dessa falsidade. Acredita na mentira que é de seu interesse. Desmascarado, cria nova conspiração contra os mecanismos de checagem de conteúdo.

A internet, segundo Eco, “promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade” — do seu simulacro de verdade, agora com audiência amplificada. Resta saber quanto tempo ainda vão durar — e a que custo — esses 15 minutos de fama. Eduardo Affonso

domingo, 13 de junho de 2021

Pensamento do Dia

 


Governo de foras da lei não tem lugar para quem a defenda

Por mais que queira e se esforce para não perder “a maior oportunidade” que já teve na vida, conforme disse outro dia, até quando o médico Marcelo Queiroga, ou “o tal do Queiroga” como o chamou o presidente Jair Bolsonaro, se sentirá à vontade para seguir como ministro da Saúde –o quarto em um ano e pouco?

É a pergunta que cada vez mais se fazem políticos da oposição, aliados do governo e também, às escondidas, colegas de Queiroga. Se ele recomenda o uso da máscara contra a Covid-19, Bolsonaro raramente é visto portando uma. Se ele diz que tratamento precoce não funciona, Bolsonaro responde que funciona, sim senhor.

Para não bater de frente com quem o escolheu, e que dá sinais de arrependimento, Queiroga não se cansa de repetir a desculpa de que não é censor do presidente. Embora criticado por membros da CPI da Covid, Queiroga não é execrado por eles, que o consideram melhor ministro do que o general Pazuello. (Grande vantagem!)



Mas, e daí? Bolsonaro jamais mudará de opinião sobre a pandemia. Certa ou errada – no caso, errada –, ela atende às expectativas dos seus devotos, e é por isso que ele mantém-se forte nas pesquisas de intenção de voto para as eleições do ano que vem. De que lado, afinal, arrebentará a corda? É fácil imaginar.

O que se viu ontem, em São Paulo, foi mais um ato público e escandaloso de desprezo às leis protagonizado pelo presidente da República, alguns dos seus ministros e parlamentares que dependem dele para se reeleger. Porém, de Queiroga não se ouvirá um pio a respeito porque ele não é censor de Bolsonaro.

Havia motociclistas com e sem máscaras, um triciclo reformado de modo a parecer um tanque do Exército, e cartazes, em português e inglês onde se pedia intervenção militar e o fechamento do Supremo Tribunal Federal, o que a lei proíbe. O esquema de segurança do ato custou ao governo paulista R$ 1,2 milhão.

Bolsonaro desfilou numa moto com a placa encoberta, o que é proibido por lei. Estava sem máscara, sem óculos de proteção e com um capacete sem viseira, o que configura uma violação ao Código de Trânsito. Depois, subiu num carro de som, discursou e causou aglomeração, ferindo uma lei federal e outra local.

Voltou a citar um documento falso atribuído ao Tribunal de Contas da União, na verdade escrito por um auditor que ele conseguiu empregar no tribunal e que é filho de um coronel reformado da turma de 1977 da Academia Militar de Agulhas Negras, amigo e informante de Bolsonaro.

Novamente exaltou a eficácia para tratamento da Covid de drogas que só deixam sequelas nos doentes, e que Queiroga disse para não serem prescritas pelos médicos. Por fim, atacou as medidas de isolamento social e requentou a notícia de que encomendou um parecer para dispensar o uso de máscara por quem já se vacinou.

Foi multado – ele, mais três ministros de Estado e seis deputados por não usarem máscara. Cada um terá de pagar R$ 552,71. O dinheiro sairá dos cofres públicos, não do bolso deles. Os cofres públicos são alimentados com o dinheiro do pagamento de impostos. Quer dizer: com o seu, o meu, o nosso dinheiro.

Não se espere que o relatório final da CPI possa resultar no indiciamento ou na denúncia dos que se associaram ao vírus para deixar morrer os que tiverem de morrer. O destino final do relatório é a Procuradoria-Geral da República, e ali Bolsonaro conta com um aliado para engavetar qualquer ação contra ele.

Nem por isso o trabalho da comissão será desperdiçado. Para os que desejarem enxergar com clareza o que se passou até aqui no simulado combate à pandemia, o relatório contará uma história capaz de assombrar vivos e mortos, e de levar Bolsonaro a ser julgado em tribunais internacionais por homicídios em massa.

Mentira como programa de governo

O presidente disse que acabou com a Lava Jato porque não havia mais corrupção. Talvez nós estejamos vivendo a maior corrupção da história do Brasil. No enfrentamento da Covid, foram gastos 600 bilhões de reais. Se imaginarmos, como hipótese, que tenham sido desviados cerca de 3% desse valor, que é um percentual até otimista, isso geraria um desvio de 18 bilhões de reais
Gil Castello Branco, fundador da organização Contas Abertas

Nova carta ao povo brasileiro

O quadro político já está suficientemente preocupante para que as lideranças democráticas parem de falar “nem-nem” e gritem “não”. Ofereçam juntos uma alternativa ao Brasil, desde o primeiro turno. O Brasil precisa de uma Nova Carta ao povo brasileiro, desta vez assinada por todos os líderes de partidos empenhados em eleger um presidente democrático e lúcido em 2022. A carta do candidato Lula, em 2002, mostrou sua disposição de, se eleito, respeitar o bom senso a serviço do Brasil. Foi esta mudança de postura que o elegeu, com o aval de um grande empresário como vice-presidente, e durante seus oito anos ele cumpriu o compromisso assumido. Mas, tanto quanto no governo Fernando Henrique, faltou vontade, competência ou condições para fazer uma nova carta assinada também por dirigentes de outros partidos democratas e progressistas, concertando alguns programas, propostas e reformas que o Brasil precisava e ainda precisa.


O livro “Por que falhamos: o Brasil de 1992 a 2018” sugere 24 erros cometidos pelos governos desde Itamar até Temer, que levaram o eleitor a escolher o descaminho atual. O primeiro erro foi a opção por dividir, no lugar de somar, as forças dos democratas progressistas. Especialmente a divisão entre PT e PSDB, se digladiando para ver qual teria mais votos em cada cidade, em vez de juntos fazerem a inflexão histórica que o Brasil precisava e continua precisando. Apesar de divergências sobre o tamanho, o papel, o uso e os limites do Estado, PT e PSDB têm basicamente a mesma concepção de futuro para o Brasil. Mesmo assim, preferiram pagar pedágio a políticos fisiológicos, no lugar de se unirem pelo Brasil.

Esta divisão está no fundo das causas da tragédia histórica que enfrentamos. Seria uma irresponsabilidade deixar que a divisão reeleja e amplie a tragédia.

As lideranças democráticas e progressistas, que se dividiram e se opuseram entre elas no passado, precisam se unir desde o primeiro turno para, em 2022, o eleitor eleger um governo de transição. Precisam desde já escrever uma carta ao povo brasileiro assinada por todos os candidatos, afirmando os riscos que o país corre e a disposição deles para encontrarem o nome com mais condições para atrair os eleitores; assim como explicitar os compromissos para um governo de coalizão.

Esta unidade na adversidade é comum quando as disputas partidárias e os interesses pessoais ficam subordinadas ao interesse nacional. Momentos em que a divisão significa suicídio. Cada líder precisa colocar o interesse nacional na frente do seu partido e dos seus interesses pessoais, explicitando isto em uma nova carta ao povo brasileiro.

Por que envolver o Exército em crise política?

A resposta é simples: o sonho chavista de poder do presidente que tenta usar o Exército em seu projeto pessoal. O Brasil não é a terra do ídolo inspirador do presidente e não vai se transformar em algo similar. Aqui, “EB” quer dizer Exército Brasileiro e não “Exército Bolsonarista”. O Exército enfrenta o mesmo problema das outras instituições brasileiras: o risco de erosão. Infelizmente, a mentalidade anarquista do presidente age para destruir e desmoralizar as instituições, e banalizar o desrespeito pessoal, funcional e institucional. Junto com seguidores extremistas, alimenta um fanatismo que certamente terminará em violência.

Para aventuras políticas pessoais, instituições sólidas e funcionais são sempre um imenso obstáculo. Projetos populistas e totalitários, não importa seu matiz ideológico, não avançam sem subverter a ordem, sem corromper as instituições. E uma das instituições mais sólidas é o Exército (assim como a Marinha e a Força Aérea). Ao invés de recuperação e aperfeiçoamento das instituições, assistimos ao agravamento da situação existente e a erosão da Saúde, Justiça, Meio Ambiente e Educação.

O presidente tenta também desmoralizar o sistema eleitoral, mas não apresenta as provas de fraude que diz possuir. Semeia dúvidas sobre o Tribunal de Contas da União, valendo-se de relatório e dados falsos. No orçamento da União, apresenta uma nova forma de “mensalão” – o chamado orçamento secreto. Nas Relações Exteriores, graças ao Senado, escapamos do vexame da quase nomeação de um embaixador esdrúxulo junto aos EUA, e agora temos à frente a investida demagógica de uma nomeação para a África do Sul. Oxalá o Senado poupe o Brasil de mais essa.


Esse é o contexto em que se desenvolve mais uma tentativa de erosão de uma das instituições de maior prestígio do Brasil – o Exército Brasileiro. O caso do general no palanque, em mais um evento populista promovido pela autoridade maior, é da alçada do comandante da Força, que decidiu dentro das suas atribuições. Problemas disciplinares são resolvidos diariamente por todos os comandantes, nos diversos níveis. Não é esse o problema. O problema é muito maior e mais grave. É político. E tem um responsável – o presidente. Para realizar seu projeto pessoal, ele vem testando o Exército frequentemente. Isso é deliberado. É projeto de poder. Não acontece só por despreparo, irresponsabilidade e inconsequência. Isso é processo planejado, que vem sendo adotado e tentado de forma sistemática. É também um processo covarde, pois as consequências são sempre creditadas a outras pessoas e instituições. Ocorre que a responsabilidade pessoal e funcional está muito bem definida e o responsável maior deve arcar com as consequências.

É covardia transferir essa conta ao Exército. E é totalmente inaceitável a tentativa permanente de arrastar o Exército para o erro histórico de assumir um protagonismo político em apoio a uma aventura pessoal perseguida de forma paranoica. O Exército não é e não pode ser uma ferramenta de uso pessoal, partidário ou de intimidação política. A missão do Exército não é auxiliar uns e outros em disputas eleitorais e em jogo de poder, dividindo os brasileiros. O Exército tem uma missão constitucional definida.

O Brasil precisa de paz, de união nacional, de governo que trabalhe e promova o desenvolvimento socioeconômico com boa administração. O Brasil precisa de políticas públicas sensatas, de combate à corrupção, eliminação de privilégios e redução da desigualdade. Precisa de vacina e emprego. É preciso que o voto da maioria sirva para governar para o bem de todos e não para interesses pessoais, familiares ou de grupos. O Brasil não merece uma polarização entre quem já teve oportunidade de governar e se perdeu em demagogia e escândalos de corrupção e quem mostra diariamente que tem como objetivo um projeto de poder semelhante, apenas com sinal trocado.

O País não pode ficar entre dois polos que se alimentam e se comportam como cabos eleitorais um do outro. O Brasil não merece mais erosão em suas instituições. Ao contrário, nossas instituições precisam de melhorias e aperfeiçoamentos. A democracia depende do aperfeiçoamento institucional constante. O Exército Brasileiro, assim como as outras instituições que compõem a Nação, não pode continuar a ser covardemente prejudicado por causa de um projeto de poder pessoal e populista.

Paisagem brasileira

 


O mal que nos ronda

Ontem, sem máscara, o presidente Jair Bolsonaro participou de mais um desfile de motos, desta vez em São Paulo, reunindo milhares de partidários motorizados que o apoiam. Na sexta-feira, em São Mateus (ES), Bolsonaro se referiu aos críticos como “os que buscam o poder pelo poder” e se definiu como “um presidente que acredita em Deus, que é leal ao seu povo, que acredita nos militares e que nunca jogou fora das quatro linhas da Constituição”. Na quinta-feira, havia recomendado ao ministro da Saúde, “um tal de (Marcelo) Queiroga”, que decretasse o fim do uso obrigatório de máscaras durante a pandemia, sem levar em conta que a média de óbitos por covid-19 continua altíssima.

A banalização das atitudes negacionistas e antidemocráticas divide o país. Uma parte da população endossa qualquer ato ou gesto do presidente da República e advoga uma ordem política na qual ele concentre todo o poder, ou seja, um Estado de exceção. Esse tipo de pensamento circula intensamente nos grupos de WhatsApp e outras redes sociais, enraizando comportamentos pautados pelo preconceito, pela excludência e pelo ódio. Em qualquer ambiente social, o clima político não é nada bom para o diálogo e a boa convivência.


A filósofa judia-alemã Hannah Arendt (1906-1975), após testemunhar o julgamento do criminoso nazista Adolph Eichmann, escreveu um livro (“Eichmann em Jerusalém”, Companhia das Letras) no qual sugere que o mal não provém necessariamente da malevolência ou do desejo de fazer o mal. Na década de 1960, Adolf Eichmann fora capturado na Argentina por agentes do Mossad, a polícia secreta de Israel, e transportado para Jerusalém, onde ocorreu o famoso julgamento do criminoso nazista. Eichmann era imaginado como um homem sanguinário, mas o julgamento mostrou um burocrata de carreira sem maior importância, que tinha por objetivo primordial vencer na vida a todo custo, cheio de esperanças, incapaz de refletir sobre as consequências de suas ações: mandar centenas demilhares de judeus para as câmaras de gás e crematórios.

Eichmann poderia frequentar qualquer ambiente social sem sequer ser notado. Foi com base na sua personalidade e no seu julgamento que Arendt elaborou sua teoria sobre a “banalidade do mal”. Para a filósofa, as pessoas agem de certa maneira por sucumbirem às falhas de seus próprios julgamentos e pensamentos. A recusa em ver as pessoas que cometem atos dessa natureza como “monstros”, como no caso de Eichmann, traz para o nosso cotidiano esse tipo de ação. Não se trata apenas de examinar as falhas de sistema político, devemos examinar também as falhas de julgamentos e pensamentos de cada um de nós. A ideia de que o mal é uma coisa banal não elimina os horrores de suas consequências, como a morte recente de uma jovem grávida no Lins de Vasconcelos, em mais uma operação policial no Rio de Janeiro.

Por que tanta gente apoia essas atitudes negativas de Bolsonaro, mesmo sabendo que muitas de suas ações têm consequências trágicas para a sociedade, como no caso da crise sanitária em que estamos vivendo? Porque o conservadorismo da sociedade é o berço das suas ideias mais reacionárias. Um empresário satisfeito com os próprios negócios na pandemia pode muito bem ignorar o que ocorre ao seu redor e achar que tudo vai muito bem, obrigado. Um militar austero que a vida inteira economizou para chegar ao fim do mês com as contas em dia não tem do que reclamar se ocupar um cargo comissionado que multiplicou sua renda mensal. Um caminhoneiro que abastece seu veículo com diesel subsidia- do também não. O agricultor que se beneficia da alta do dólar na exportação de sua produção a mesma coisa. O problema é o que ronda tudo isso.

Um dos grandes críticos do liberalismo foi o jurista alemão Carl Schmitt (1888-1985). Segundo ele, os pressupostos do liberalismo não davam conta das situações excepcionais, nas quais alguém deveria ter a possibilidade de suspender as leis, ou seja, decidir quando a situação está normal ou excepcional. A vida estaria acima da lei, daí a possibilidade de ignorá-la para proteger o Estado e os cidadãos. Schmitt foi um ideólogo do Estado nazista, o que liquidou sua carreira acadêmica após a II Guerra Mundial. Entretanto, alguns conceitos de Schmitt sobre a política, a distinção entre amigo e inimigo e a excepcionalidade foram exumados por conservadores e pensadores políticos de direita, principalmente depois dos atentados de 11 de setembro, nos Estados Unidos. Suas ideias também circulam no Brasil.

Motos e mortos unidos

Entre motos e mortos, Bolsonaro pilota a procissão da pandemia
Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid 
Fuerza Motorizada de Integración Comunitaria de Venezuela, milícia de Nicolás Maduro, modelo bolsonarita 

Carta ao bolsonarista renitente

Prezado bolsonarista,

Eu já entendi porque você votou em Jair Bolsonaro em 2018. Foi uma mistura de revolta contra o que você chamava de “roubalheira do PT”, com o cansaço da velha política representada por Michel Temer, a busca por uma alternativa econômica e, em alguns casos, o fanatismo político e religioso. Aliado a isso, a facada que o candidato recebeu a poucos dias da eleição, e que não saiu das TVs, multiplicou por mil sua exposição até o ponto de você achar que só havia ele para votar. Está claro e até dá para entender o inaceitável. Mas, agora que tudo isso desabou, o que me ocupa nestes dias é tentar compreender por que você ainda cogita votar neste homem em 2022.

Se estou correto, os anseios que o fizeram eleger Bolsonaro foram destruídos. A corrupção que você odiava ganhou força. A começar pelo desmantelamento da Lava-Jato com o apoio explícito do seu presidente. Houve também a demissão de Sergio Moro do Ministério da Justiça porque ele se negou a demitir o diretor da Polícia Federal e nomear um delegado amigo do chefe. Você sabe, Bolsonaro queria ter um canal direto na PF para impedir que investigações contra seus filhos e seus amigos prosperassem. É tão simples quanto escandaloso. Você viu.

Você deve lembrar ainda que Bolsonaro, sua mulher e seus filhos abasteceram suas contas privadas com dinheiro público desviado dos salários dos servidores de gabinetes da família, com as famosas rachadinhas. Uma delas, a do zerinho senador, está sob investigação do Ministério Público no Rio. O mesmo zerinho que com salário de R$ 33,7 mil brutos comprou uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília. Se a casa fosse financiada pelo Banco do Brasil, ele teria de dar uma entrada de R$ 1,2 milhão. O restante seria pago em 189 meses, com a primeira parcela de R$ 67,7 mil, o dobro do que ele recebe no Senado.


Na velha política, o colo oferecido pelo Centrão ao presidente, em troca de verbas bilionárias do orçamento que era para ser secreto e virou o mal-afamado “tratoraço”, não deixa margem para qualquer dúvida. O governo Bolsonaro virou abrigo para a turma que sempre se agarrou ao poder e que esteve presente nos governos de Sarney, Collor, FHC, Lula, Dilma e Temer. Apesar do seu voto de protesto, a velha política do toma lá dá cá está de volta, como uma estaca fincada no coração do seu querido presidente. E agora sem a Lava-Jato.

A alternativa econômica virou fiasco. O grande feito deste governo, a reforma da Previdência, quem resolveu foi o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia. Ainda assim, o tamanho da reforma que era para ser de R$ 1,2 trilhão caiu para R$ 800 bi por intervenção do seu presidente. De resto, Bolsonaro boicotou todos os projetos do seu Posto Ipiranga. Há um apagão no horizonte, o teto de gastos está ameaçado, a inflação se aproxima dos 10% anuais e você, caro bolsonarista renitente, vê seu dinheiro sumir cada vez mais cedo da sua carteira.

Na religião, Bolsonaro é uma fraude. Você conhece algum cristão verdadeiro que seja tão desalmado quanto ele? Faça uma seleção das suas piores frases sobre as mortes causadas pela Covid e você me dirá. Ou lembre-se do que ele falou sobre tortura e assassinato por razões políticas e reflita. Na questão do fanatismo político pode-se até encontrar semelhanças entre os métodos do seu presidente e a intolerância de alguns de vocês. Mas mesmo estes sairão perdendo, a não ser que sejam militares e estejam agarrados numa teta do governo.

Os que pregam uma intervenção militar são minoria entre vocês bolsonaristas. E são toscos intelectualmente. Imaginam que o Brasil vai melhorar se o capitão puder governar sem freios e impedimentos legais ou institucionais. Estão enganados, você sabe. O país vai piorar, muito mais do que já piorou sob a guarda do capitão. Se você não for amigo da família, vai ficar na estrada, prezado bolsonarista iludido. Espere enrolado na bandeira por tempos melhores, você vai ser tratado como se estivesse na fila do INSS esperando um benefício. Vai mofar.

Diante disso tudo, por que você ainda está disposto a votar nele outra vez?

Indiferença com o futuro do País

Sem nenhum pudor, o governo Bolsonaro é cada vez mais uma administração orientada exclusivamente ao circunstancial, ao imediato. Não se vê mais sequer a pretensão de manifestar alguma preocupação com o futuro. De forma escancarada, Jair Bolsonaro tem mostrado que, em suas decisões, o médio e o longo prazos não têm nenhum peso.

Em primeiro lugar, chama a atenção que, em todas as negociações com o Poder Legislativo, o Executivo federal não apresenta nenhuma preocupação com uma agenda estrutural para o País.

É de fato estranho. Um governo que foi eleito prometendo revolucionar o cenário econômico e o ambiente de negócios e promover uma nova forma de fazer política faz agora inúmeras concessões ao Centrão sem pedir nada em troca. Não almeja nenhuma reforma. Contenta-se com que o Centrão lhe conceda sobrevivência política.

Além de não trabalhar pelas reformas, o governo Bolsonaro ainda dificulta as que poderiam ser aprovadas. O caso da reforma tributária é acintoso. O Congresso tinha a possibilidade, como há muito tempo não se via, de aprovar um novo marco tributário, a partir das propostas da Câmara (formuladas pelo economista Bernard Appy) e do Senado (de autoria do ex-deputado Luiz Carlos Hauly).


No entanto, o governo de Jair Bolsonaro não apoiou nenhum dos dois projetos, tampouco trabalhou por eventual melhoria dos textos. Seu interesse tem se resumido a criar um novo imposto a partir da união do PIS/Cofins e a falar de uma nova CPMF. Haja estreiteza de horizontes.

A indiferença com o futuro do País é também constatada pelo desmonte que o governo federal vem realizando em áreas que incidem diretamente sobre as novas gerações, em especial, educação, ciência e meio ambiente.

Esse assunto é especialmente triste, pois não se trata apenas de não avançar – o que, por si só, já é grave, tendo em vista as difíceis condições atuais. O governo de Jair Bolsonaro tem promovido o retrocesso por vários meios: desorganização de políticas públicas, perseguição a funcionários públicos e professores, aparelhamento ideológico de órgãos públicos, corte de verbas em áreas essenciais para o País e um contínuo desmonte dos órgãos e mecanismos de controle, especialmente na área ambiental.

Em abril, por exemplo, uma instrução normativa conjunta do Ministério do Meio Ambiente, Ibama e ICMBio passou a exigir autorização de um superior do agente de fiscalização para a aplicação de multa. Sem constar do sistema de consolidação das multas, a nova instância de avaliação dos processos levou à paralisação das emissões de multas do Ibama e do ICMBio.

Já preocupante, o quadro piora cada vez mais. No mês seguinte, foi deflagrada operação que investiga o próprio ministro do Meio Ambiente por suspeita de colaborar com o desmatamento ilegal. Como se não bastasse, logo após a divulgação da investigação, o presidente Jair Bolsonaro reiterou sua concordância com a gestão da pasta ambiental. Num governo assim, não há espaço para preocupação com o futuro comum da população.

É de notar também que, mais recentemente, o descompromisso com o futuro adquiriu um novo patamar de descaramento. Em diversos meios, membros do governo e parlamentares governistas têm afirmado que o presidente Jair Bolsonaro não deve se preocupar com o “mau momento” do País (em especial, pandemia, desemprego e inflação) e a piora de seus índices de aprovação, pois até 2022 a economia vai melhorar e, de acordo com esses apoiadores do governo, isso será suficiente para a reeleição de Jair Bolsonaro.

Ainda que seja bastante frágil – é um conjunto de meros prognósticos –, o argumento expõe a face brutal do governo Bolsonaro. Não há nenhuma aspiração em prover condições para um futuro melhor para o País. Não há nenhuma pretensão de realizar um governo responsável. A exclusiva preocupação são as eleições de 2022.

É o descaramento total. Com todas as letras, o governo diz que o único que importa é Jair Bolsonaro ser reeleito. O restante é mero detalhe, que não merece nenhuma atenção, nenhum cuidado.

Engasgos de ontem e de hoje

Se cada brasileiro tivesse no cérebro um espelho retrovisor, em dez minutos compreenderia por que temos tido um desempenho tão medíocre na promoção do crescimento econômico e do bem-estar. E por que vamos continuar falhando ainda por muito tempo.

Na economia, nada fizemos para erradicar a estrutura patrimonialista, vale dizer, o super-Estado burocrático que asfixia o setor privado. Na tecnologia, conseguimos fazer alguma coisa numas poucas empresas, como a Embraer; na educação, somos uma catástrofe. Se nossa renda per capita continuar crescendo à medíocre taxa de dois por ano, levaremos mais de uma geração para atingir o nível da Grécia ou Portugal. Nada a comemorar.

No que me concerne, prefiro seguir o conselho do marechal De Gaulle: “D’abord, la politique”. Olhar primeiro a política. Como o resto da América Latina, nos mantemos aferrados à mitologia do presidencialismo populista. O “salvador da pátria”.


O super-homem que encarna os anseios do povo. Que assegura a estabilidade política e a unidade de ação do Estado. Insistimos também na crença não menos idiota de que quanto mais partidos, melhor.

A partir dos anos cinquenta, a lenga-lenga populista continuou produzindo demagogos aos magotes. Juscelino Kubitschek cometeu vários erros, mas pelo menos governou tentando estabelecer um clima de concórdia e civilidade. Depois dele, uma turma para ninguém botar defeito: Jânio Quadros, Leonel Brizola, João Goulart, Adhemar de Barros e sabe Deus quantos mais. Havia populistas municipais, estaduais e federais.

Outra sandice difundida até entre as elites cultas é a de que os militares, só por serem militares, são mais eficientes na economia e na manutenção da estabilidade política. No pós-64, o processo sucessório presidencial sempre foi tumultuado. O marechal Costa e Silva atrapalhou o projeto do marechal Castello Branco. Falecido Costa e Silva, o alto comando militar deu um golpe, impedindo a posse do vice civil (o deputado mineiro Pedro Aleixo) e emplacando o general Emílio Garrastazu Médici.

Ernesto Geisel assumiu a presidência sem maiores problemas — até porque o líder das Forças Armadas era seu irmão Orlando Geisel — mas em 1978 esteve perto de ser por sua vez golpeado pelo general Sylvio Frota. Naquele sistema já em adiantado estado de decomposição, Ernesto Geisel conseguiu emplacar o general João Baptista de Figueiredo, que nos legou a “década perdida” dos anos 80 e uma inflação apontando para a vertical.