sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Gatos e monstros

Às cinco e vinte da manhã, acendi a luz e comecei a limpar o banheiro dos dois irmãos. O mais magro é bagunceiro e leva jeito de destemido, mas se assusta até com uma sombra; Temis, a irmã dele, é mais quieta e, em certos momentos, se entrega à reflexão. Ambos mantêm uma postura elegante, altiva, sem falar na conduta ética, de fazer inveja nestes tempos...

Antes de jogar os dejetos nas folhas de um jornal de junho, dei uma olhada nas fotografias e manchetes. E o que vejo, ainda em jejum? Uma imagem de rostos monstruosos: um grupo de machos governamentais, jovens e velhos, uns oito ou nove velhacos, indiciados ou investigados. Ao lado desses homúnculos, uma chamada na capa: o presidente sancionou uma Medida Provisória que reduz em quase 40% a área da Floresta Nacional do Jamanxim (PA). São os grandes grileiros, em conluio com certos políticos do Pará, do Mato Grosso...

Quando dizem que vão fiscalizar uma área florestal liberada para extração de minérios ou plantação de soja, só um ingênuo é capaz de acreditar nessa mentira deslavada. Não fiscalizam nem mesmo o Parque Nacional, ali perto de Sobradinho, nas barbas do Planalto...

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Por que somos tão passivos diante de tantos crimes? Onde estão as panelas de antanho? Perguntas que faço a Temis, enquanto junto com uma pá a areia suja e cubro a imagem dos machos meliantes, todos eles mais empedernidos que os dejetos dos felinos, e mais rapaces que hienas, com a devida vênia a esses devoradores de cadáveres.

Embrulho tudo e escuto um miado melodioso: é um pedido para que eu abra a janela, pois está amanhecendo, e minha felina de pelagem cinza é crepuscular. Sei que essa bela palavra é batida, mas não encontro outra para expressar a atração de Temis pela primeira luz da manhã e a última da tarde, quando ela contempla com olhar parcimonioso, e não raramente sonhador, o mundo lá fora.

Ali embaixo se reúnem os primeiros operários que trabalham numa torre de concreto, alguns se benzem ao passar diante da igreja, ainda fechada. À direita, quase na esquina, um rapaz abre a banca de revistas e jornais e pendura as manchetes das iniquidades do Brasil: “país de caminhos fechados”, como escreveu o poeta.

Temis vê a faxineira do prédio na calçada, olha para mim e pisca: é o afeto felino, tão puro e espontâneo, que rima com cristalino. Nas raras andanças pelo térreo, a gata conversa com a faxineira sobre a vida, sempre mais dura e perigosa para milhares de mulheres que acordam às cinco da matina, rezam para não ser assaltadas e atravessam a cidade para ganhar o pão de cada dia.

No fim da tarde, a felina gosta de escutar o “Magnificat” e ver os noivos radiantes sob uma chuva de arroz na porta da igreja, antes de rumarem à primeira ou milésima noite. Ela não sai da janela, pois sabe que ainda ouvirá um réquiem na missa à memória de uma pessoa que passou para o outro lado do espelho.

Amanhã, bem cedinho, vou acender a luz e despejar os dejetos nos rostos dos farsantes monstruosos. Depois, no crepúsculo do dia e da noite, vou acompanhar o olhar da felina, que salta do mundo real ao imaginário, vai da tristeza à alegria, da esperança ao desencanto, numa onda de emoções que também me comove.

Milton Hatoum

Geddel fez por onde ser preso novamente

Com mais um pouco, a segunda prisão, esta manhã, em Salvador do ex-ministro Geddel Vieira Lima teria vindo tarde. Ele abusou de fazer por onde ser preso outra vez. É verdade que cumpria prisão domiciliar sem a tornozeleira eletrônica a que estaria obrigado.

A nova prisão não será tão rápida quanto foi a primeira. Ele amargará muito tempo de cadeia na condição de reincidente. Como amarga em Natal, Rio Grande do Norte, seu amigo e ex-colega de governo Henrique Eduardo Alves, que jaz esquecido. 

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A descoberta de oito malas e de seis caixas com R$ 51 milhões em um apartamento em Salvador foi mortal para Geddel. Não pela quantidade de dinheiro em si mesma assombrosa. Mas porque a impressão digital de Geddel foi encontrada em parte das cédulas.

Batom na cueca! A caça ao batom foi o principal motivo das 14 horas ininterruptas levadas pela Polícia Federal para contar o dinheiro. Procuravam-se impressões digitais, datas de emissões das cédulas, tudo o que pudesse ligar Geddel ao tesouro. Bingo!

Mas teve mais. Além do dono do apartamento, outra pessoa confirmou que o espaço havia sido cedido a Geddel. E ele passou senhas incorretas do seu celular para a Polícia Federal e se recusou a fornecer sua digital para que acessassem o aparelho.

Por fim, o homem que deixou a Penitenciária da Papuda em Brasília depois de 13 dias recluso e que assegurou estar disposto a colaborar com as autoridades deu sinais claros de que poderia fugir do país, segundo concluiu a Polícia Federal.

Além de corrupção, Geddel também poderá ser processado por tentativa de obstrução da Justiça. De pouco adiantará que chore como já o fez antes de ganhar o direito à prisão domiciliar. A cruz de isopor que carregava virou uma cruz de ferro.

Situação de Temer agravou-se muito

Para quem em visita à Noruega pensa estar na Suécia, e, ao lado do presidente paraguaio, trata-o como governante de Portugal, uma confusão a mais seria apenas natural e inevitável. Não fosse, dessa vez, uma viagem de Michel Temer a respeito de si mesmo, ao acreditar que o afundamento de Joesley Batista extingue os efeitos judiciais e políticos do que tramaram no seu encontro noturno. A situação de Temer, na verdade, agravou-se muito. Além de inalterada, a já conhecida incriminação que Joesley lhe fez ganhou, entregue em malas e caixas, volumosa contribuição do seu parceiro Geddel Vieira Lima.

As gravações que Joesley traz não apagam a anterior, em que Temer lhe recomenda manter a compra de silêncio dos presos Lúcio Funaro e Eduardo Cunha. Nem elimina sua indicação, para representá-lo junto a Joesley, do “auxiliar de plena confiança” logo fotografado com a mala e meio milhão vindo do empresário. Temer continua denunciado, para ser processado quando termine o mandato.



Geddel é um político que não suscita dúvidas há 25 anos, quando se notabilizou como um dos “anões do Orçamento”, que desviavam em favor próprio a destinação, pela Câmara, das verbas federais para o ano. Na década passada, Antônio Carlos Magalhães avisava, sobre negócios de Geddel com fazendas e outros imóveis: “Geddelzinho vai às compras”, ou foi.

Apesar de tal transparência, Geddel foi diretor da Caixa Econômica a pedido do então vice de Dilma Rousseff (para eliminar dúvidas teimosas sobre o sentido de suas escolhas, o outro diretor indicado por Temer foi Moreira Franco). 


Derrubada Dilma, Geddel estava na primeira fila a entrar no Planalto, feito ministro da Secretaria de Governo de Temer – um dos dois ministros que sabem e lidam com tudo no governo.

O apartamento de Salvador tornou-se cofre de Geddel no ano passado, como informou à polícia o proprietário, Silvio Silveira. No governo Temer, portanto. A providência teve motivo claro: o governo resguardava Geddel de investigação sobre o pretendido prédio ilegal em Salvador, mas a Lava Jato e outros jatos poderiam escapar ao controle.

Remeter dinheiro para o exterior, assim como aplicações encobertas, era um risco implícito nas circunstâncias. Malas e caixas passaram a compor um cofre dotado de sala, quartos, banheiro e cozinha. Tão único quanto Geddel. Mas sem negar a utilidade de cofres ainda mais turísticos, apesar de inconvenientes no momento.

As autorizações do juiz Vallisney de Souza Oliveira à Polícia Federal indicam disposição de esmiuçar a riqueza de Geddel, seus meios e fontes. Isso tem conexões com outro fator de agravamento para Temer: as revelações de Lúcio Funaro, intermediário de corrupção com ligações tanto a Geddel, em transações variadas, como a Temer, no mínimo em captações sob o nome do PMDB.

A delação de Funaro homologada pelo Supremo foi um complemento adequado ao dia em que ficaram conhecidos o cofre e mais uma gravação de Joesley. A homologação encerra a espera do procurador-geral Rodrigo Janot para liberar nova denúncia criminal contra Temer.

Ainda em nível de expectativa, há mais quatro ou cinco gravações de Joesley e outros dirigentes do grupo J&F. Mais ameaças potenciais para Temer, sem exclusividade: seria a hora também de outros políticos. Acima de tudo isso, paira a indignação que invadiu o Supremo e, pode-se pressentir, exacerbou disposições ali quanto a tudo referente à corrupção e seus personagens. Uma boa perspectiva, pois. Não para Temer.

Gente fora do mapa

Rohingya fogem da violência no estado de Rakhine
Fugitivos da etnia muçulmana rohingya  em Mianmar

Comemoração incompleta

Daqui a cinco anos, o Brasil ingressará no terceiro centenário de sua história como país independente. Neste 7 de setembro, aos 195 anos de nossa independência, é possível comemorar o que nossos antepassados conseguiram. Atravessamos quase 200 anos consolidando um imenso território soberano e unificado por redes de transporte, de comunicações e de distribuição de energia. A economia brasileira está entre as maiores do mundo no valor do Produto Interno Bruto, e passamos de 200 milhões de habitantes. Não há dúvida de que temos que comemorar os primeiros dois séculos.

Mas, se no lugar de mirarmos a história, olharmos ao redor, a festa perde seu brilho. Comemoramos um elevado PIB, o oitavo do mundo, que também é o 84º quando dividido por habitante devido a nossa baixa produtividade. Igualmente grave, nossa economia concentra-se em bens agrícolas e minerais ou em indústrias tradicionais porque somos um país de baixa capacidade de inovação. Do ponto de vista social, carregamos a vergonha de ser campeões em concentração de renda, temos formidáveis ilhas de riqueza e um trágico mar de pobreza.


Chegamos ao nosso terceiro século divididos tão brutalmente que podemos considerar-nos um sistema de apartação, um país onde a população está dividida e separada por “mediterrâneos invisíveis” intransponíveis. Somos um país integrado fisicamente e desintegrado socialmente. Por isso somos, em parte, campeões de violência urbana com mais de 100 mil mortos por ano: 50 mil assassinatos e 45 mil vitimas de acidentes de trânsito.

Na política, apesar de comemorarmos o aniversário com um sistema democrático e instituições funcionando, em nenhum outro momento tivemos uma classe política tão desacreditada. A sensação é de que o país entra no seu terceiro século desagregando-se, sem coesão social e sem rumo histórico.

O mal-estar explica-se por muitas causas, mas certamente a principal está no descaso com a educação de nossa população desde a primeira infância. Chegamos ao nosso terceiro século com 13 milhões de compatriotas adultos incapazes de reconhecer a própria bandeira da República por não saberem ler o lema “Ordem e progresso”. Além desses, segundo o IBGE, são quase 28 milhões de adultos analfabetos funcionais. Apenas um pequeno número de jovens recebe formação necessária para construir a economia e a sociedade do conhecimento que vai caracterizar o século adiante. Passados dois séculos, ainda somos um país com baixíssimo grau de instrução e com abismal desigualdade no acesso à educação conforme a renda da família.

Não seria difícil fazer com que, bem antes do quarto século, o Brasil consiga ser um país com educação de qualidade para todos: os filhos dos mais pobres em escolas com a mesma qualidade dos filhos dos mais ricos; uma sociedade que não dispensaria um único talento intelectual de sua população. Sem isso, certamente não teremos o que comemorar quando o quarto centenário chegar
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Do rei Arthur de Cabral ao crime organizado do PT

Disse aqui certa vez que Al Capone seria um ingênuo estagiário nas empresas dos irmãos Batista. Pelo que sabemos do gangster de Chicago, ele saia de armas em punho para confrontar seus desafetos, matando-os como um serial killer. Quem não rezasse na sua cartilha era executado sumariamente. Sua organização atuava em todas as áreas, desde o contrabando de bebidas, sequestros, assaltos até o lenocínio. Corrompia a polícia, o judiciário e os políticos para burlar a Lei Seca, na década de 1920, nos Estados Unidos. Um dia, porém, caiu nas mãos do agente do Tesouro Americano Eliot Ness, que chefiava os intocáveis, e a casa caiu.

Pois bem, essa história guarda alguma semelhança com os atuais criminosos de colarinho branco do Brasil? Claro que sim. Ao apontar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como chefe da organização criminosa brasileira que saqueou os cofres públicos, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, finalmente, começa a dar nomes aos bois. Ao contrário de Al Capone – que vivia basicamente do contrabando de bebida – aqui, Lula criou um partido político que se transformou numa quadrilha que dilapidou o patrimônio financeiro do país.

As consequências foram danosas: 14 milhões de trabalhadores desempregados, a economia destroçada, crianças fora das escolas, a violência desordenada, um caos na saúde e na educação, obras de infraestrutura paralisadas, empresas e bancos estatais quebrados e fundos de pensão descapitalizados. Na cadeia, hoje, está boa parte da cúpula do PT, inclusive tesoureiros e ministro da Fazenda. Na lista de espera, Lula, Dilma, o casal Gleisi e Paulo Bernardo e Edinho denunciados pelo procurador-geral da República como integrantes da organização criminosa.

Os quatorze anos do governo do PT se parecem muito com os métodos que Al Capone adotou para corromper o estado e seus agentes públicos. Para movimentar seus negócios ilegais, o bandido transformou pessoas aparentemente honestas em delinquentes. No Brasil, a organização petista agiu politicamente. Presidentes e presidenciáveis, políticos e empresários foram atraídos para o buraco negro da corrupção. O dinheiro do contribuinte foi distribuído para as várias facções partidárias que se espalharam pelo país. Descobre-se agora R$ 51 milhões de reais dentro de um apartamento do ex-ministro Geddel Vieira Lima, prática usada pelo narcotraficante Pablo Escobar para esconder a fortuna suja do tráfico de drogas.

É dolorosa essa constatação, mas, infelizmente, é verdadeira: o Brasil apodreceu. Sabe-se também que alguns votos para o país sediar as Olimpíadas foram comprados por Sérgio Cabral & Companhia. As imagens da escolha do Rio como sede são patéticas, quando vistas hoje. Cabral corre para abraçar o Lula efusivamente, enquanto os convidados, entre eles o escritor Paulo Coelho, vibram como crianças felizes com a guloseima sem saber que por trás existia uma transação de milhões de dólares para encobrir a farsa.

O engenhoso Cabral dividiu seu território em um principado fecundo que prosperou por décadas no Rio gerando riqueza para ele e seus vassalos. Iniciou seu reinado dando o nobre título de rei ao seu amigo Arthur Cesar Menezes Soares Filho, comerciante, responsável pelo abastecimento da corte. Assim, com um tesouro de 3 bilhões de reais, Rei Arthur foi às compras. Com milhões de dólares corrompeu os dirigentes das entidades esportivas mundiais porque Sua Majestade, o Cabral, precisava compensar seus súditos com pão e circo oferecendo-lhes o PanAmericano, a Copa do Mundo e os jogos Olímpicos.

Com o fim do reinado, o circo desmoronou-se e o pão acabou. A corte faliu. Cabral está preso e o Rei Arthur foragido.

O entretenimento da plebe tinha um preço alto. Enquanto a turma do PT mantinha seus súditos no picadeiro, outro grupo engendrava os bastidores da política para manter o domínio das províncias. Assim, Luiz Inácio Lula da Silva esticou seu reinado por oito anos e ainda deu a sua rainha outros seis de governo. Para tanto escalou dois modestos açougueiros de uma de suas províncias para irrigar o dinheiro roubado do seu reinado.

A operação era simples. Os Batista teriam acesso fácil a riqueza da corte desde que ajudasse a manter o rei no poder. Em pouco tempo, os irmãos espertos já tinham conquistado outros territórios graças ao acesso fácil aos amigos do rei. Com isso, o império petista se agigantou e os Batista garantiram a sua manutenção com o dinheiro dos súditos. Mas a casa começou a ruir quando eles decidiram distribuir mais dinheiro do que a corte tinha para sustentar a extravagância do rei, da rainha, dos conselheiros, dos procuradores, dos ministros e de todos os políticos envolvidos no mercado negro da corrupção. O império foi à falência.

Primeiro caiu o rei, depois a rainha. E agora, os vassalos, como na música Cartomante, de Ivan Lins: Cai o rei de Espadas/Cai o rei de Ouros/Cai o rei de Paus/Cai, não fica nada.

O inacreditável mora aqui

O realismo fantástico se incorporou à rotina do país. Gabriel García Márquez e o seu Cem anos de solidão são fichinha perto do que acontece por aqui. Macondo, a cidade fictícia do romance onde aconteciam coisas estranhas, não é nada perto do que acontece em Brasília e na política nacional.

O Brasil deveria ganhar o Nobel de Literatura por transformar ficção em realidade. Nada supera nossa capacidade de transformar fantasia em pesadelo. Alguns fatos que vieram à tona nos últimos dias comprovam nossa condição inusitada: as novas gravações do empresário Joesley Batista, da JBS, e o achado de milhões em um apartamento de Salvador.

Começo pelo segundo fato. Encontraram mais de 51 milhões de reais acondicionados em malas e caixas em um apartamento da capital baiana. O imóvel seria de um amigo de Geddel Vieira Lima (PMDB), ex-ministro da Secretaria de Governo de Michel Temer e hoje sob prisão domiciliar. Em tempo, o amigo já disse na Polícia Federal que o apartamento estava emprestado para Geddel.

Quem guardaria tanto dinheiro em um apartamento vazio? Como se consegue recolher milhões em dinheiro vivo e transitar pelo país? O que justificaria alguém ganhar 51 milhões e esconder em um apartamento? Que logística foi empregada para tirar o dinheiro dos bancos e fazê-lo chegar ao apartamento?

Ora, quando achávamos que a corridinha com a mala dos 500 mil reais era um escândalo, superamos tudo e a todos com a maior apreensão de dinheiro vivo da história do Brasil!!! As malas – supostamente – de Geddel humilham as malas do Mensalão. 
 

Poucas horas antes, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, veio a público expor outro fato inacreditável. A entrega equivocada à Procuradoria, pela defesa da JBS, da gravação de um diálogo impensável entre Joesley Batista e seu executivo Ricardo Saud sobre o conturbado e polêmico acordo de leniência assinado com os donos da empresa. O que já foi revelado é espantosamente sério. E tragicamente hilário quando se ver o volume de besteiras e grosseiras ditas pela dupla.

Caso se aplique a teoria do domínio do fato ao episódio, na versão do ex-ministro do Supremo Joaquim Barbosa, Janot estaria em sérios apuros por conta da participação de seu ex-braço-direito, Marcelo Miller, no episódio. No mínimo, é tudo muito estranho.

Como um acordo de leniência de tamanha relevância é conduzido de forma tão descuidada e desastrada? Por que, nos diálogos gravados, Joesley diz que a Odebrecht moeu o Legislativo e que ele entregaria à PGR o Judiciário e o Executivo, para, na sequência, defender-se candidamente dizendo que não era bem isso que ele queria dizer?

A trama exposta nos diálogos desmoraliza o acordo de leniência, enfraquece Janot, atinge a reputação do Judiciário e revela que houve um brutal açodamento, um grave descuido e muita imperícia na condução da questão. Tudo ao mesmo tempo aqui e agora.

Também é inacreditável a entrega do material sem a conferência de seu conteúdo. Como as gravações foram entregues? Considerando o grau de maldade dos atores envolvidos, teria sido de propósito? O episódio também comprova que não existe segredo de justiça e que as provas vão sendo sucessivamente vazadas sem que se descubra quem anda vazando.

Ao tempo dos dois episódios mencionados, descobriu-se também que o Brasil teria subornado membros do Comitê Olímpico Internacional em esquema que envolve o ex-governador Sérgio Cabral para que o Rio de Janeiro fosse a sede das Olimpíadas. Cabral... que já é acusado de receber mais de 260 milhões de reais em propinas do pessoal dos transportes públicos do Rio!!!

As revelações de que dois próceres do PMDB – Cabral e Geddel – podem ter amealhado milhões em esquemas de corrupção causa nojo e indignação naqueles que lutaram pela redemocratização do país sob as cores do velho MDB. E que foram perseguidos e prejudicados na luta pela democracia. Que fim triste.

Na mesma leva de acontecimentos dos últimos dias, também sobrou para o PT, supostamente o partido da moral e dos bons costumes políticos: os ex-presidentes da República Lula e Dilma Rousseff foram denunciados no Superior Tribunal Federal, com fartura de provas, sob a acusação de liderarem uma organização criminosa. Para piorar, Antonio Palloci afirmou ao juiz Sergio Moro que Lula participou dos esquemas de corrupção da Petrobras!

A corrupção no Brasil é democrática: vai da direita à esquerda sem maiores constrangimentos e atinge políticos de grande, médio e pequeno porte.

Tempos atrás, o ministro do Supremo Luís Roberto Barroso disse que o sistema político brasileiro era indutor da criminalidade. Estava certo. Mas não é apenas isso. O poder do Estado e sua opacidade permitem que muitos daqueles que dirigem os negócios públicos possam se apoderar da máquina pública para fazer negócios de interesse pessoal, subverter as corridas eleitorais e perpetuar esquemas de poder e de corrupção. Tudo sob as barbas de uma elite omissa, interesseira, ideologicamente doente e incompetente.

Em tempo: a palavra Macondo, nome da cidade fictícia de Gabriel García Márquez, vem do dialeto africano Kituba e quer dizer “bananas”. Se somos mais do que Macondo, seremos mesmo uma República das Bananas e com uma elite de bananas? Cartas para a redação.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Ouviram do Ipiranga...

Mais do que política, crise de Estado

Parece ficção, mas não é. É a realidade concreta, difícil de compreender e impossível de ligar todas as pontas. A confusão só aumenta. O fato mais nítido, no entanto, é que o processo destrutivo da autoestima nacional é devastador: não há heróis que possam ser insuspeitos; sistema político e até órgãos de controle são abraçados por séculos de tradição patrimonialista e clientelista. É incrível que tudo venha a estourar nesta quadra de tempo em que vivemos; somos testemunhas de uma história de decomposição.

Mais que política, a crise parece de Estado: para onde se olhar, haverá buracos. A grande reforma do País será, um dia, tapá-los. Hoje, não há liderança para isso. Desta vez, nem o supremo STF escapou de menção; e o até então insuspeito Ministério Público entrou na roda. As vestais ficam assim acuadas, pois de seu ventre saiu a serpente; mais duro golpe contra a Lava Jato. É evidente que as novas gravações da JBS abalam o moral das investigações – ainda que não as liquidem.


Políticos de quase todas as colorações já tentam jogar pela janela a água suja do banho com a criança. Nada apagará provas, diálogos e depoimentos, mas os que buscavam desculpas terão argumentos para tergiversar: Rodrigo Janot que agora se explique! O processo de afastamento do presidente Michel Temer, por exemplo, já pouco provável diante da força do convencimento fisiológico, fica ainda menos tangível. O governo que, ofegante, via os preços de apoios dispararem, respirará aliviado.

Ainda assim, o impacto é menor do que gostariam os envolvidos. Na sociedade, não há áudios que eliminem impressões ou que desfaçam a certeza de que o sistema ruiu. Nem há vergonha que baste: no mesmo dia em que o imbróglio do MPF-JBS é divulgado, a Polícia Federal expõe fotos de um bunker, onde, supostamente, mais um ex-auxiliar do presidente da República escondia malas de dinheiro; tantas a não poder carregar. A mente do povo cria nexos, confusão alguma deletará imagens como aquelas nem o sentido de tudo. Isto ficará.

Carlos Melo 

Motivos de fúria

Eu queria acordar num país normal, onde as piores notícias fossem “normais”: uma inundação, um terremoto, uma praga de gafanhotos, aquilo que os angloparlantes definem nas apólices de seguro como “acts of God”, atos de Deus, e que a gente aceita, porque não há outra coisa a fazer a não ser aceitar e tentar retomar a vida. Há alguma coisa no íntimo de cada um de nós que está pronta, desde o começo dos tempos, para lidar com essas grandes tragédias. Sabemos que o mundo é assim, e que elas sempre aconteceram; sabemos que nada que se pudesse ter feito alteraria o curso dos acontecimentos. O que não nos mata nos fortalece, diz o ditado, e ainda que eu duvide muito dessa afirmação, entendo que, ao descobrirmos a fragilidade da vida, realinhamos as nossas prioridades e nos resignamos ao inevitável.

Mas não há nada na estrutura psicológica dos seres humanos que prepare quem quer que seja para um noticiário como o do Brasil: crianças mortas em tiroteios, a Olimpíada roubada, um tarado com 17 passagens pela polícia solto no mundo, sete máquinas de dinheiro funcionando ininterruptamente durante um dia inteiro para contabilizar o dinheiro encontrado na casa de um homem que, até ontem, era um dos esteios da República.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Não há nada na estrutura psicológica de um ser humano que o faça aceitar a imagem das malas e caixas de papelão de Geddel. A reação normal de qualquer pessoa diante dessa evidência é uma reação de violência, um “mataesfola” não muito diferente do sentimento que está por trás dos atos mais bárbaros. Tão ruim quanto a confirmação da sórdida canalhice dos canalhas é a constatação de que, no fundo, não evoluímos tanto assim desde que saímos das cavernas.

Uma má notícia “normal” desperta a nossa solidariedade, e o que há de melhor em nós; sentimos aflição e desespero, mas sentimos também amor e compaixão. Uma má notícia como as que estamos lendo e ouvindo <italic>nonstop</italic> neste país, porém, tem o efeito contrário: passamos os nossos dias lutando contra o troglodita linchador que resiste aos séculos no nosso âmago, e chegamos à noite extenuados, envenenados tanto pelo noticiário quanto pelos sentimentos tenebrosos que descobrimos no fundo do coração.______

Como são grotescas as personagens do nosso noticiário! Ainda não houve uma só gravação que viesse à tona em que se percebesse um mínimo de honradez ou de caráter, uma pista longínqua de que ali haveria uma pessoa decente pega por acaso numa situação esquerda. Todos, sem exceção, falam como cafajestes. São rudimentares na linguagem, na moral, nas ideias.

Que pobre diabo é esse Joesley, esse Eike sertanejo, deslumbrado com o poder e consigo mesmo, certo de que é alguém porque tem dinheiro, convencido de que está manipulando as marionetes enquanto é triturado pela sua própria incompetência e cuspido pelas engrenagens da História.

Que figura sinistra é Geddel, o grande amigo, o homem da confiança de todos os governos, a figura imprescindível, para quem não há prisão nem tornozeleira.

Que indivíduo repulsivo é Temer, com a sua fala macia, as suas mesóclises e a sua sordidez; que tipo patético é Aécio, que messias tosco e desencaminhado é o Lula.

E o elegante Nuzman, salvo de ser a principal manchete do dia pela dinheirama obscena de Geddel? Subitamente os seus R$ 480 milhões em diversas moedas viraram troco.

Como gostam de guardar dinheiro em casa. Nós aqui depositando qualquer sobrinha na poupança e pagando pão e chiclete com cartão porque nos esquecemos, mais uma vez, de passar no caixa eletrônico, e eles nadando em notas.

Cora Rónai

Quando as árvores choram

Era menino quando descobri os livros de Monteiro Lobato. Em O poço do Visconde, Lobato denunciava o que na época se chamava “imperialismo americano”. Segundo se afirmava, não havia petróleo no país. Lobato garantia que sim, tanto no livro infantil como em O escândalo do petróleo e do ferro. Participou da luta em defesa do petróleo brasileiro. Até recentemente, a participação da Petrobras era obrigatória em todo poço no pré-sal – se a estatal não entrasse no negócio, não se explorava naquele ponto. Pois bem. O governo atual permitiu que o pré-sal seja explorado por empresas estrangeiras, sem a participação da Petrobras – a estatal pode entrar ou não. Não sou economista, posso estar dizendo burrice. Mas me admira saber que uma luta de décadas, capitaneada pelo escritor que tanto admiro, tenha sido extinta. Acabou. Sou contra teorias conspiratórias e a Lava Jato demonstrou o índice de corrupção altíssimo do país. A questão do pré-sal, porém, permaneceu viva. Qual a força desses interesses? Em uma penada, o presidente permitiu que empresas privadas explorassem minérios na Amazônia, numa área antes acessível só a estatais. A sociedade gritou, a Justiça reagiu e o governo recuou, por enquanto. Por que o presidente tentou fazer isso? Achou que ninguém ia perceber?

Sou bobo, é claro. Sempre me pareceu óbvia a necessidade da preservação da Amazônia. A diversidade biológica da região é um patrimônio da humanidade. A maior parte das pessoas que conheço pensa o mesmo. Mas são, como eu, bobas. Acreditam em ideais, em um mundo melhor, essas bobagens. A palavra “bobagem” grita no meu ouvido quando tento imaginar que os responsáveis pelas grandes decisões pretendem melhorar o país. Já vimos um ministro da Cultura, Marcelo Calero, cair porque foi contra a construção de um prédio na zona histórica de Salvador, Bahia. Pediu demissão após sofrer pressões enormes para autorizar a obra.

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Fico mais bobo ainda porque essas grandes decisões são tomadas com pouca ou nenhuma discussão com a sociedade. Basta uma assinatura para áreas indígenas serem abolidas, espécies serem condenadas à extinção. Já estive na Amazônia. É admirável. Penso naquilo transformado num local desértico sob o sol ardente. A exploração de minérios costuma destruir o meio ambiente local. E daí se árvores forem explodidas? E daí, se árvores choram? Sinceramente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem uma vantagem: fala o que nos parece um horror. Ele perguntaria que diferença faz árvore e bicho, se afinal já existe a Disney World. Todo mundo acharia um absurdo, mas o tema entraria na ordem do dia. Aqui, tentam fazer na surdina.

Qual é a próxima? Já temos um Rio de Janeiro afundado em dívidas, sem dinheiro para garantir serviços ao cidadão, muito menos investir. Até famílias de policiais fluminenses têm dificuldade para botar comida na mesa, porque eles trabalham sem receber, muitas vezes. Em São Paulo, temos próximo ao aeroporto de Guarulhos e na Avenida Roberto Marinho grandes pilares de um futuro Veículo Leve sobre Rodas, abandonados há anos. Quanto custaram? Que será feito com eles? Ninguém dá satisfação. As leis trabalhistas em mudança, vem aí a reforma da Previdência. Dizem que é melhor. Sou bobo, nem tenho como opinar. Só me pergunto: melhor para quem? Será sempre necessário que um lado perca para o outro ganhar? Quem pagou a Previdência quase a vida toda, por exemplo, ganha? Ou chora, como as árvores destruídas da Amazônia?

O grande Lobato deixou outro livro infantil sobre o qual poucos falam, hoje em dia. Em A chave do tamanho, a esperta boneca Emília consegue minimizar o tamanho dos seres humanos. Passam a viver escondidos em baldes, com medo até do antigo gatinho de estimação, transformado em fera. Em certo momento, Emília se encontra com os grandes líderes do período. E os vê como são: uma espécie de minhoca branca. Eu me pergunto quando vejo essa enxurrada de assinaturas: não há nenhuma preocupação com a posteridade, afinal? Com um mundo melhor onde questões da ordem do dia, como a preservação do planeta, sejam respeitadas? Óbvio, a preocupação não existe. Mas quem hoje toma e apoia essas decisões deixará um legado. A resposta está em A chave do tamanho. Vistos à distância, terão a pequenez das minhocas da boneca Emília.

Gente fora do mapa

Que público mais atento!

Fim de jogo!

O dia 6 de setembro de 2017 tem tudo para passar à História como o que selou o destino do mais popular e carismático líder político brasileiro desde Getúlio Vargas, o presidente da República que em agosto de 1954 matou-se com um tiro no peito para não ser derrubado por um golpe militar.

Em menos de duas horas, ficou-se sabendo que o ministro da Fazenda e da Casa Civil dos governos do PT, Antonio Palocci, “o Italiano”, detonou o “pacto de sangue” firmado por Lula com a construtora Odebrecht. E que Lula e Dilma foram denunciados outra vez, desta vez por obstrução de Justiça.

A Lula, segundo Palocci, a Odebrecht pagou propinas num valor de R$ 300 milhões – parte para financiar suas atividades, parte para a compra de uma nova sede do Instituto Lula, e o resto para satisfazer qualquer outro desejo dele. Como o de concluir um museu em sua homenagem. O pacote incluía o pagamento de R$ 200 mil por palestra.


Depois de disparar uma flecha no próprio pé com o caso da polêmica delação do Grupo JBS, Rodrigo Janot, Procurador Geral da República, disparou outra em Lula e Dilma – essa por conta da manobra esperta de 2015 que tornaria Lula ministro-chefe da Casa Civil do segundo governo Dilma.

A manobra tinha como objetivo proteger Lula, que corria o risco de ser preso a qualquer momento por ordem do juiz Sérgio Moro. Como ministro de Estado, Lula só poderia ser processado pelo Supremo Tribunal Federal. Escaparia assim da órbita de Curitiba, etrerno pavor dos acusados por corrupção.

Preso há um ano, condenado uma vez, Palocci finalmente cedeu às pressões dos seus advogados e contou o que sabe em depoimento a Moro. Se não contou tudo, contou o suficiente para enterrar Lula que em breve deverá ser condenado pela segunda vez. É réu em pelo menos mais quatro ações penais.

Revelou, por exemplo, que Lula acompanhou cada passo do andamento das operações de repasses ilícitos da Odebrecht. E que na véspera de deixar o governo no final de 2010, apresentou Dilma a Emílio Odebrech para comprometê-la com o acerto que ele tinha com a construtora.

Quanto ao sítio de Atibaia, em São Paulo, onde a familia Lula da Silva desfrutou dos fins de semana, sim, foi mais um "agrado" da Odebrecht feito a Lula, afirmou Palocci. Como foi também o apartamento defronte ao que Lula mora em São Bernardo do Campo, usado por ele Por vários anos, a Odebrecht tapou buracos financeiros do Instituto Lula.

O depoimento de Palocci a Moro não fez parte de nenhuma delação premiada, porque delação ainda não há. Certamente Palocci guardou revelações inéditas para oferecer mais tarde em troca de melhor prêmio por delatar. Está ansioso por isso. Moro ouvirá Lula na próxima semana.

O que Palocci disse a Moro já é suficiente para que ele seja apontado no futuro como o maior algoz de Lula, aquele que desrespeitou o pacto de silêncio dos líderes do PT empenhados em preservar a imagem do demiurgo da esquerda. Algoz de Lula, mas também de Dilma, cuja fantasia de vestal Palocci rasgou.

A Lula e aos seus advogados só resta esgrimir com o surrado argumento de que Palocci mentiu para livrar-se da cadeia, o que desqualificaria a princípio toda e qualquer delação. Ao PT, resta procurar outro candidato para disputar a vaga de Temer, algo que ao fim e ao cabo não fará, refém que é de Lula.

Game over. Fim de jogo.

O pilar da economia


A miséria é uma indústria que dá dinheiro, ela é um dos motores da economia
Ricardo Seitenfus, representante especial da secretaria da OEA no Haiti, entre 2009-2011

Do matrimônio PT-PMDB resta muito patrimônio

Quando o brasileiro acha que já viu tudo, a Polícia Federal apreende R$ 51 milhões entesourados num apartamento, convertido em caverna de Ali-Babá, em Salvador. Normalmente, a diferença entre o dinheiro miúdo e o dinheiro graúdo é que o segundo fala mais alto. Mas a fortuna atribuída a Geddel Vieira Lima permanece, por enquanto, muda. Ninguém se animou a reivindicar a propriedade da dinheirama.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Michel Temer é um azarado. Num instante em que o presidente aproveita a erosão da delação da JBS para fazer pose de limpinho, seu ex-ministro, correligionário de três décadas, é acusado pela força-tarefa da Lava Jato de plantar bananeira dentro do cofre da Caixa Econômica Federal.

É natural essa timidez em assumir o butim, o maior já apreendido no Brasil. Trata-se de uma conquista coletiva. Suspeita-se que o grosso tenha sido amelhado em trambiques na Caixa. Geddel foi vice presidente da instituição no governo de Dilma. Indicou-o o então vice-presidente Temer.

PT e PMDB tocam o Brasil há 14 anos. O matrimônio acabou. Mas ficou o patrimônio. Se há dúvidas quanto à quantidade e à identidade dos assaltantes, há uma sólida certeza sobre o assaltado. Nesse roubo, você, caro contribuinte, entrou novamente com o bolso.

'Fraterno amigo presidente'

Como diriam na Bahia, é dinheiro pra Geddel. R$ 51 milhões equivalem a 102 Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) – agora rebaixado a “deputado da nécessaire”, pela comparação de sua humilde valise de R$ 500 mil com as malas e caixas milionárias apreendidas pela Polícia Federal num apartamento em Salvador. A grana que, de tão volumosa, levou um dia para ser contada pertence ao primeiro ministro a ocupar a Secretaria de Governo de Temer, o ex-deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), diz a PF.

Geddel e Loures foram contemporâneos no Palácio do Planalto, mas com status distintos. O ex-ministro cultiva laços com Temer há mais de 20 anos, desde quando lideravam a bancada do PMDB na Câmara. Já Loures começou a secretariar Temer quando este era vice decorativo. Ressalvado que correlação não implica causalidade, a diferença na ordem de grandeza das apreensões é proporcional à longevidade das relações de cada um com o chefe.

E que grandeza: R$ 42.643.500,00 + US$ 2.688.000,00. Para se ter ideia do que é preciso para amealhar tantas notas quantas a polícia achou no "bunker do Geddel", o PCC precisa explodir 116 caixas eletrônicos para chegar nesse montante – e apenas se todas as máquinas retiverem o máximo de R$ 440 mil que podem armazenar. Como se vê, roubar banco parece ser mais trabalhoso.


Como é possível arrumar tanto dinheiro vivo? Se não é fácil, é corriqueiro. Só nos primeiros sete meses deste ano, o Coaf foi comunicado pelos bancos sobre 638 mil movimentações em espécie superiores a R$ 100 mil. Dá mais de 3 mil transações dessa monta por dia – somando mais de R$ 100 bilhões por ano. Quem fiscaliza tudo isso? Exato.

Foi exagero dos policiais chamar o apartamento de “bunker”. É o oposto, tão desguarnecidos estavam os R$ 51 milhões. Precursor de Maluf no governo paulista, Adhemar de Barros também guardava dinheiro em casa de terceiros, mas usava um cofre. As milhares de cédulas de R$ 100 e R$ 50 atribuídas a Geddel estavam metidas em sete caixas de papelão e oito malas sem rodinha. Evocam uma esteira de aeroporto do interior, não uma fortaleza.

Tanto descaso com dinheiro, mesmo que seja alheio, não combina com a descrição feita por Temer do seu então braço direito no governo. Em entrevista à Rádio Metrópole, de Salvador, em 2016, o presidente sintetizou assim sua relação com o subordinado no Planalto: “Me ajuda muito. Geddel – você o conhece aí da Bahia, não é? – faz um trabalho excepcional, é de uma velocidade de raciocínio, é de uma velocidade de ação que ajuda muitíssimo”. Dá para imaginar.

Menos de dois meses após a entrevista, o “trabalho excepcional” chegava ao fim. Acusado de pressionar o ministro da Cultura para aprovar um prédio – no qual tinha apartamento em “andar alto” – em área tombada de Salvador, Geddel caiu. Endereçou o e-mail de demissão ao “meu fraterno amigo presidente Michel Temer”. A fraternidade continuou.

Geddel foi preso há dois meses, acusado de pagar para que nem o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, nem seu operador financeiro, Lúcio Funaro, fizessem delação premiada. A delação de Funaro serve de base para um novo pedido de investigação de Temer.

O vídeo de um apressado Rocha Loures arrastando a mala com R$ 500 mil de propina não sensibilizou 342 deputados a abrirem investigação contra o presidente. E 15 caixas e malas abarrotadas de reais? Sensíveis que são a imagens de numerário, nem assim é provável que suficientes deputados mudem de opinião. Só lhes importa agora ir à revanche contra o acusador de Temer.

O jogo virou. Acusadores viraram acusados. Sorte de Geddel. Sorte de Temer. Se é que sorte tem a ver com isso.

Paisagem brasileira

Paisagem com casario, Cardarelli

Pacto com o sangue alheio

O depoimento de Antonio Palocci ao juiz Sérgio Moro teve o impacto que se imaginava e que vinha provocando pesadelos em Lula e no resto da quadrilha desde que o nominado “Italiano” nas listas de propina se tornou inquilino de uma cela. No ponto mais contundente de suas revelações, Palocci afirmou que Lula tinha um “pacto de sangue” com Emilio Odebrecht. O pacotaço da propina incluiu um terreno para o Instituto Lula, o sítio em Atibaia e mais a bagatela de R$ 300 milhões para a viva alma muito viva desfrutar enquanto debochava da cara dos brasileiros decentes. “Lula sabia que se tratava de dinheiro sujo”, declarou o Italiano, incorrendo em uma obviedade, pois ninguém colocaria esta dinheirama à disposição sacrificando um patrimônio amealhado com o suor do próprio rosto.

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Além de discorrer sobre o pacto feito com o sangue dos brasileiros decentes, Palocci se dispôs a detalhar os encontros que teve com Lula para combinar de que forma poderiam criar obstáculos para a Lava Jato, mas Moro preferiu deixar para outra ocasião para não se desviar do foco da ação alvo do depoimento. O Italiano ainda tem muita bala na agulha. Agora, em vez de tentar transformar um caseiro em bode expiatório para esconder suas falcatruas, está disposto a entregar o Amigo que jura não ser dono de triplex, nem de sítio, mas que se achava dono da casa da Casa da Mãe Joana em que tanto lutou para transformar o país.

Como mesmo quadrilheiros podem ter bom senso, Palocci disse ter alertado Lula: “Nosso ilícito com a Odebrecht já está monstruoso. Se nós fizermos esse tipo de operação, nós vamos criar uma fratura exposta desnecessária”, referindo-se à aquisição clandestina, pela empreiteira, de um terreno para o Instituto Lula. Mas o ex-presidente embriagado de poder fez ouvidos moucos, afinal, sempre julgou estar acima da lei. Há muito percebeu que não está, mas fingirá não saber disso – e de coisa alguma – mesmo depois de embarcar no camburão.

O sujo falando do mal lavado

Ninguém aguenta mais tanto roubo. Isso deixou de ser corrupção, isso é roubo. É assalto aos cofres públicos para enriquecer os petistas
Geddel Vieira Lima quando participou de um protesto contra a corrupção e o governo petista em agosto de 2015

Somos muito mais ricos do que pensamos

Era uma manhã de sol do verão europeu. O céu azul de Lisboa chegava a ser ostensivo. Nem a nuvem mais persistente poderia ameaçar aquela imponência. Me vesti com roupas claras, passei filtro solar numa sarda desenfreada que vem crescendo na minha bochecha, entre as demais pintas que se espalham por essa cara branca. Sim, achei que podia ser câncer de pele, mas a dra. Sílvia disse que está tudo bem. E, se ela diz, eu acredito, é assim há 20 anos.

Caminhei feliz por entre aquelas cores gratuitas e vibrantes que tornavam o dia uma verdadeira pintura. Até aquele horroroso prédio da Polícia Judiciária – nada harmônico com os ares de Lisboa – parecia simpático naquele início de dia. Desci a Duque de Loulé com os olhos apertados contra o sol e virei à esquerda na Gonçalves Crespo, como de costume.

Ao chegar ao escritório, abri a cortina branca e olhei para os transeuntes da Rua Luciano Cordeiro. São quase sempre os mesmos. O chinês do restaurante, o nosso vizinho de sala, a Dona Múmia e o garçom da Camacha. Sentei-me à frente da minha mesa, fiz as contas do fuso horário, liguei para minha mãe para ouvir sua voz e, na sequência, mandei uma mensagem para minha Tia Regina, desejando boa semana.

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Não sei bem por que, naquele momento, achei que deveria contar aquela esquisitice para a Tia Rê. Sim, ela é médica e já trabalhou como legista, mas não sei explicar o que me levou a desejar uma boa semana a ela dizendo que minha janela do escritório dá para uma rua que é caminho para o instituto médico legal de Lisboa, o que faz com que eu seja agraciada várias vezes por dia com carros funerários parados na minha frente. Não era uma mensagem muito usual para uma manhã de segunda-feira.

Como se aquilo não bastasse, disse ainda que aqui em Lisboa há algo bastante peculiar, que é o fato de os carros funerários frequentemente serem todos de vidro, o que nos permite ver o caixão inteiro e ficar imaginando quem estará lá dentro. Observo o tipo de madeira, as flores que acompanham o caixão, o semblante do motorista.

Tia Rê me conhece bem o suficiente para saber que eu não me incomodo com isso, já que, desde os meus 16 anos, cismei de gostar de passear em cemitérios, o que faço com frequência até hoje. Na minha despedida de solteira, sábado passado, depois de muitas garrafas de vodca, minhas amigas queriam me convencer a ir para uma balada no centro e eu só dizia que queria pular o muro do Cemitério do Araçá. Felizmente fomos ao Mc Donald’s. Mais tranquilo.

Mas, enfim, disse à minha tia que, de fato, era uma coisa esquisita aquela dinâmica de começar a semana num dia ensolarado com 3 carros funerários passando pela minha frente em menos de 15 minutos. Era um desabafo um pouco sem cabimento, mas eu sabia que podia dizer isso a ela.

Alguns minutos depois, o celular vibrou com a resposta da minha tia. Foi como se as palavras da minha madrinha – falante e geminiana como eu – entrassem na minha sala com ainda mais força do que aqueles raios de sol desenfreados do verão. Li e reli a frase sintética, impressionada com seu conteúdo.

Tia Rê não é de florear muito seu discurso. Fala o que dá na telha, o que deve e o que não deve. Não fica investindo muito na poesia, mas a poesia, por vezes, investe nela. Era exatamente o caso daquela resposta.

“Querida Rú, fique contente por ver os carros funerários. Se há caixão, é porque houve vida.”

Li de novo. Sorri. Era uma carga realmente gigantesca de intensidade em tão poucas palavras, escolhidas sem grande esforço.

Fiquei pensando naquilo o dia todo. Toda perda só existe porque houve um ganho. Toda saudade só existe porque já houve presença.

Toda morte só existe porque já houve vida. De fato, nós somos muito mais ricos do que pensamos. Só não costumamos estar muito atentos a isso.

A Colômbia venceu o Brasil

A Colômbia tinha tudo para dar errado. Por mais de quatro décadas esteve encharcada de sangue por uma guerra responsável por 260 mil mortes, 60 mil desaparecidos e mais de sete milhões de desplazados – colombianos forçados a abandonar seus lares. Mas não deu, ao contrário: deu certo.

A Medellín dos tempos do narcotraficante Pablo Escobar deu lugar a uma cidade pacífica, que diminuiu a violência em 83%. A economia colombiana cresce de forma sustentada há anos, e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia definiram em seu congresso desse final de semana que o “marco é a democracia liberal”, diferenciando-se, assim, do bolivarianismo de Chávez/Maduro e do próprio modelo cubano da ditadura de partido único.

Para coroar o processo de paz, a última guerrilha, o Exército de Libertação Nacional, fundado por padres católicos, assinou o cessar fogo com o governo. Foi um ato de homenagem ao Papa Francisco que chegou nesta quarta-feira à Colômbia.


Este sucesso vem ao caso para tentar entender como um país que já foi dominado pelo tráfico de drogas (e armas) e teve um terço do seu território controlado por narcoguerrilheiros deu a volta por cima, enquanto o Brasil, com problemas bem menores, patina em todos os campos e anda de lado, quando não para trás, no combate à violência, na economia, na política e nos valores.

A resposta é clara. Com todos seus percalços, a Colômbia teve rumo - a busca da paz e do fim da violência - e uma liderança forte, o presidente Manoel de Los Santos, na condução de um projeto vitorioso. Ao Brasil, faltam essas duas condições: uma direção clara a ser seguida e um condottieri capaz de unir a nação e levar o país ao século vinte e um.

Nem sempre foi assim. No passado tivemos Getúlio Vargas com seu projeto nacional-desenvolvimentista e Juscelino Kubitscheck com seu Plano de Metas, responsável pela modernização e industrialização do país. Mesmo no regime militar, não padecemos de rumo e de liderança. No campo situacionista o “milagre econômico” de Delfim Neto e do general Ernesto Geisel com seu projeto da “distensão lenta, gradual e segura” e um modelo estatista.

E no campo oposicionista lideranças como Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Teotônio Vilela, Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, entre outras, uniram o país em torno de uma frente democrática. Eles nos conduziram na travessia para a democracia pela via pactuada, cujo corolário foi a Constituição de 1988.

Com o Plano Real, o Brasil voltou a ter um norte. E a mão forte de FHC no comando de um ousado projeto de estabilização da economia, de reformas e de modernização do Estado. Projeto interrompido no segundo governo Lula, quando o petista prefere surfar nas ondas fáceis do boom das commodities. A tentação populista levou Lula a engavetar as reformas necessárias e negligenciar a tarefa de preparar o Brasil para o ingresso no terceiro milênio.

A falta de rumo assumiu ares de tragédia nos anos Dilma Rousseff, com lideranças alternativas ao populismo irresponsável sendo ceifadas pela Lava-Jato, que atingiu quase todos os partidos. Desde então, dá-se volta em círculos e vive-se a mais grave crise de abstinência de ideias e de líderes.

No campo da esquerda arcaica suas forças sequer fizeram conversão democrática. Estão anos luz atrás até mesmo das Farc colombianas. O farol guia é o modelo Cubano, o chavomadurismo, ou os dois. Suas cabeças pararam no século 19, incapazes que são de entender o capitalismo do século 21 – o do conhecimento -, como apropriadamente os definiu professor emérito de Filosofia, José Arthur Gianotti, em recente entrevista.

A alternativa que apresentam para a mais grave crise da nossa história republicana é o retorno ao populismo do século passado por meio do sebastianismo lulariano. Na linha regressista, sua contraposição é o Bolsonarismo, uma caricatura dos linha-dura da ditadura militar.

De onde se espera é que não sai nada.

O campo democrático encontra-se atomizado, com o governo Michel Temer capturado pelo Centrão, ainda que, aos trancos e barrancos tenha dado passos na agenda reformista.

A força da qual poderia sair alguma luz – o PSDB – encontra-se dilacerada por seu drama hamletiano de ser ou não ser governo. E também por disputas pessoais intransponíveis. As mais recentes assombram os brasileiros pela falta de grandeza. Não desprovido de razão, Gianotti vaticina que, como partido, “o PSDB morreu”.

O centro democrático marcha celeremente a ter quatro ou cinco candidatos a presidente em 2018, dando, assim, chances ao azar. Neste quadro, a ideia generosa de Fernando Henrique Cardoso de uma candidatura agregadora corre sério risco de pregar no deserto.

É possível evitar o apocalipse now de 2018, mas desde que surjam ideias e lideranças capazes de responder à agenda do novo século. Por aí é possível construir uma candidatura viável.

Se isso não acontecer passaremos mais quatro anos sentindo inveja dos colombianos.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Paisagem brasileira

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A lei não é para todos

A Operação Lava Jato, mesmo com todas as falhas e abusos cometidos, assim como a vaidade descontrolada de parte de seus protagonistas, presta um grande serviço ao Brasil ao revelar a relação de corrupção entre o público e o privado. Uma relação que atravessa vários governos e vários partidos e vários políticos de vários partidos. E a Operação Lava Jato presta também um grande desserviço ao Brasil ao reforçar uma das ideias mais perigosas, entranhadas no senso comum dos brasileiros, e realizada no concreto da vida do país: a de que prisão é sinônimo de justiça. Num país em que o encarceramento dos pobres e dos negros tornou-se uma política de Estado não escrita – e, paradoxalmente, acentuou-se nos governos democráticos que vieram depois da ditadura civil-militar (1964-1985), reforçar essa ideologia não é um detalhe. Tampouco um efeito colateral. É uma construção de futuro.

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A Lava Jato tem um grande impacto sobre a vida do país, que ecoará por muito tempo e, em alguns aspectos, será constituinte do Brasil dos próximos anos ou décadas. É por essa razão que me parece fundamental enfrentar as complexidades e as contradições desse processo para além do contra ou a favor. O que busco fazer neste espaço é tentar interpretar os sentidos que vão sendo construídos ou reforçados pela Lava Jato, o que anda pelas bordas dessa operação, mas não por isso é menos importante. E que talvez seja mais permanente.

Já escrevi  que o fato de a grande “purgação” nacional se dar por crimes contra o patrimônio e não por crimes contra a vida tem o efeito profundo de reforçar uma deformação: a de que a vida humana vale pouco, o que importa é o patrimônio. Essa deformação é constitutiva da formação do Brasil como nação e, nos anos recentes, foi enormemente reforçada com a fundação de uma democracia que escolheu deixar impunes os torturadores e assassinos da ditadura civil-militar. Com a Lava Jato, esse traço constitutivo do Brasil se tornou ainda mais cimentado. E as consequências não são nem serão pequenas.

Prisão como sinônimo de justiça é outra ideologia que está sendo reforçada pela Lava Jato. Assim como o pouco valor dado à vida, ela também é antiga e entranhada no imaginário nacional. Mas cresceu e se ampliou com a disseminação em programas policiais/sensacionalistas de TV que não só pedem a prisão, mas também a execução de “bandidos”, em geral negros e pobres, como solução para o aumento da violência. Com a Lava Jato, essa ideologia foi ainda mais reforçada. Ao atingir os que nunca eram presos, os ricos, os poderosos, os políticos... a interpretação de prisão como justiça alcançou um outro patamar. Afinal, estes eram os “acima da lei”. E com a Lava Jato foram alcançados.

Os operadores da Lava Jato compreenderam bem o anseio popular e o usaram a seu favor, produzindo imagens amplamente disseminadas pelas TVs e pela internet de empresários e principalmente de políticos algemados e humilhados. Sem contar a “condução coercitiva” de Lula, que, da forma como foi feita, de imediato foi interpretada como “prisão”. Este espetáculo foi estratégico para o apoio da população à Lava Jato. Mas não só reforçou a interpretação de que a única forma de fazer justiça é prender, como açulou algo muito grave e também constitutivo do Brasil: confundir justiça com vingança. As imagens produzidas pelos operadores da Lava Jato e replicada milhões de vezes na TV e na internet não serviram para a ideia da justiça, mas para a ideia da vingança. Foram imagens produzidas para o gozo da população. E esta é uma escolha política.

Diante de cada notícia, e elas se acumulam a cada dia, as palavras favoritas são: “Finalmente prenderam!”. Ou: “Por que ainda não está preso?”. Ou ainda: “Tem que prender!”.

Nesta construção ideológica, a Lava Jato tem o efeito de produzir uma ideia de que, agora, a justiça é para todos. Ou a prisão é para todos, já que justiça e prisão são usadas como sinônimos. Num dos países mais desiguais do mundo, atinge-se pelo menos uma igualdade: a de que todos podem – e são – presos. Esta ideia, porém, não é apenas manipuladora. Ela é comprovadamente falsa. E ela serve para mascarar a enorme desigualdade do Brasil. Também na justiça. E também na prisão.


Se o encarceramento em massa fosse solução para a violência, no Brasil se dormiria de porta aberta

Se o encarceramento em massa fosse solução para a violência, no Brasil se dormiria de porta aberta. Com mais de 650 mil presos – e crescendo – temos a terceira maior população carcerária do mundo. O Brasil só perde, por enquanto, para os Estados Unidos e para a China. A maioria dos presos é composta por pessoas negras, pobres e com pouca escolaridade. Esta população ocupa menos de 394 mil vagas. O que significa que, com uma taxa de ocupação de 163,9%, estão não apenas presos, mas amontoados.

A maioria dos presos é composta por homens jovens, o que significa que está se encarcerando a juventude do Brasil. Menos de 10% deles concluíram o ensino médio. Uma pesquisa de 2014 mostra que a taxa de mortes por assassinato nas prisões brasileiras é três vezes maior do que na população geral – e isso sem contar Rio e São Paulo, que não informaram seus números. Os dados demonstram que quem mais morre assassinado no Brasil são as pessoas presas, sob responsabilidade do Estado.

A política de encarceramento dos jovens pobres e negros e com pouca escolaridade se revela também uma política de extermínio. E o Estado não é responsabilizado pelo genocídio cometido. Apenas nos primeiros 14 dias do mês de janeiro deste ano 115 presos morreram assassinados em três penitenciárias do Brasil. Uma tinha quase três vezes mais presos do que o número de vagas, outra duas vezes mais e outra quase o dobro. Podemos afirmar que os presos do sistema carcerário brasileiro estão entre os grupos que sofrem mais ilegalidades. E seguidamente isso resulta em sua morte. E assim o país perde parte de sua juventude e de sua força de trabalho.

No Brasil, a ideia de que “bandido bom é bandido morto” é muito popular, embora a pena de morte não exista oficialmente no país. Mas “bandido” é uma palavra ampla demais. E que esconde coisas demais. A maioria dos presos praticou crimes contra o patrimônio e relacionados a drogas. Os que cometeram crimes contra a vida são uma minoria. Apenas na cidade do Rio de Janeiro, de 1.330 acusados por tráfico em 2013, 80,6% eram réus primários. Em São Paulo, outra pesquisa analisou os flagrantes por tráfico de drogas, mostrando que quase 60% das pessoas não tinham antecedentes criminais e apenas 3% portavam algum tipo de arma. A média apreendida era de 66,5 gramas de droga. Mas apenas 9% foram absolvidas ou responderam por porte. O restante teve penas de até cinco anos de prisão por tráfico.

É possível afirmar que as superlotadas e perigosas prisões brasileiras estão abarrotadas de pessoas sem antecedentes criminais, que não deveriam estar lá porque a prisão deveria ser a última medida, reservada para os crimes mais graves. Quando se coloca uma pessoa que cometeu homicídios dolosos (com intenção de matar) ou latrocínios (matar para roubar) e uma pessoa que carregava alguns gramas de maconha no bolso não só no mesmo lugar concreto – a prisão – como também no mesmo lugar simbólico, o de “bandido”, o crime é da sociedade contra a pessoa.

O grito que falta

Pedro Américo de Figueiredo e Melo era um pintor brasileiro que vivia em Florença, na Itália. Nascido em 1834, recebeu, já cinquentão, uma encomenda de D. Pedro II que o notabilizou: fazer um quadro que representasse o fato histórico do Sete de Setembro de 1822, quando o pai do imperador liderou o rompimento político-administrativo do Brasil com a metrópole portuguesa.

Pedro Américo, entre 1886 e 1888, caprichou na imaginação e criou um cenário épico inexistente. A história oficial, desde aquela época, tinha que ser grandiosa. Falseada, para ter mais brilho. Ainda mais com um regime em crise, que terminaria um ano depois.

Pedro pintor recebeu do xará imperador 30 mil contos de réis. Uma boa bolada! Para você ter uma ideia, o orçamento de São Paulo para a saúde, às vésperas de Proclamação da República, foi de 22 mil contos de réis.

As distorções orçamentárias vêm de longe...

Pequenos detalhes: para vencer as distâncias da época, as mulas eram muito mais resistentes que os belos e fogosos cavalos, como esses em que Pedro quase I e sua guarda estão montados. Além disso, ninguém usava uniforme de gala para subir a Serra do Mar. A comitiva do Príncipe Regente – de 14 pessoas, e não com a quase meia centena da tela famosa – vinha de Santos.

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E o D. Pedro, com desarranjo intestinal, não estava para poses: como relata seu confessor, padre Belchior Pinheiro, “acabara de quebrar o corpo às margens do Ipiranga, com dores que apanhara em Santos”. Pronunciou suas palavras – e não brados – de rompimento com Portugal “abotoando a fardeta”: “

As Cortes me perseguem, chamam-me com desprezo de ‘rapazinho’ e ‘brasileiro’. Pois verão agora quanto vale o ‘rapazinho’. De hoje em diante nossas relações estão quebradas. Nenhum laço nos une mais!”.

Um lema, não pronunciado na cena criada, ficou: “Independência ou morte!”. Ali, naquele local ermo, ninguém foi contra.

Independência e mortes, seria mais correto dizer. Pois o país que surgia conservava estruturas de exclusão, como o latifúndio, a monocultura e a escravidão.

A emancipação nacional, singular na América, manteve o regime monárquico e a cultura patriarcal. O Brasil independente nascia sem cidadania, com opressão, mais Estado que Nação. Por isso ainda hoje se clama, no Sete de Setembro, pelo Grito dos Excluídos. Eles estão aí, massivos – quase 13,3 milhões de desempregados e outros milhões de subassalariados (83% dos trabalhadores formais ganham até três salários mínimos).

Brasileiros jogados na ninguendade, sem direito ao teto, à terra, ao ambiente, à cidade. E ainda pagando 53,9% dos impostos no sistema tributário regressista e injusto.

Os cacoetes dos donos do poder de então continuam nos governantes atuais: autoritarismo, patrimonialismo, elitismo, entreguismo, corrupção, dominação de classe.

Em um aspecto de sua obra de arte Pedro Américo acertou. Olhe bem seu óleo em tela que ficou conhecido como “O grito do Ipiranga”. No canto esquerdo, observando espantado os protagonistas da cena, está um camponês maltrapilho, tocando seu carro de boi, com pesadas toras de madeira do extrativismo predatório. Ele parece dizer, sem ilusões: “o que eles estão anunciando aqui não mudará minha vida. Não virão grandes transformações”.

Dilma para Geddel: 'Vem pra Caixa você também!'

Michel Temer mal tivera tempo de festejar a erosão da colaboração judicial da JBS quando a Polícia Federal estourou a caverna de Ali-Baba que Geddel Vieira Lima improvisou num condomínio em Salvador. Foi a maior apreensão de dinheiro vivo já realizada na história: R$ 51.030.866,40. Repetindo: depois de passar o dia contando dinheiro, a PF informou que o ex-ministro de Temer, amigo do presidente há três décadas, entesourou num apartamento na capital baiana R$ 51 milhões.

A batida policial foi ordenada pelo juiz Valisney Oliveira, de Brasília. Deu-se no âmbito da Operação Cui Bono, que apura um assalto à Caixa Econômica Federal. Noutros tempos, quando se falava sobre bancos e assaltos, imaginava-se que a coisa acontecia de fora pra dentro. O PMDB da Câmara, grupo de Temer, desenvolveu na Caixa o assalto de dentro pra fora. No caso de Geddel, a coisa aconteceu durante o imaculado governo de Dilma Rousseff.

Sob o comando do PT, a casa bancária estatal já estava loteada politicamente. E Dilma acenou para Geddel: “Vem pra Caixa você também!” Apadrinhado por Temer, Geddel foi guindado ao posto de vice-presidente de Pessoa Jurídica da instituição. Ali permaneceu de 2011 até 2013. Saiu quando bem quis. E produziu resultados que reforçam o já sabido: a corrupção brasileira tem vocação amazônica.
Por uma dessas trapaças do destino, a “caverna” de Geddel foi estourada no mesmo dia em que a Procuradoria-Geral da República denunciou Lula, Dilma e outros seis grão-petistas por formar uma organização criminosa. O grupo é acusado de roubar durante a Era petista R$ 1,485 bilhão em verbas públicas.

No caso de Geddel, a PF desbaratou uma inusitada e sigilosa forma de fazer poupança: dinheiro vivo depositado em caixas de papelão e malas, espalhadas por um apartamento sem mobília. Ironia suprema: escondeu-se num endereço residencial uma fortuna presumivelmente desviada de uma instituição financeira estatal que convida brasileiros pobres a abrir contas de caderneta de poupança nas suas agências: “Vem pra Caixa você também!” Geddel foi.

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Estado doente

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Não se trata realmente mais de escolhas econômicas, entre esquerda e direita. Mas de decidirmos se vamos aceitar esse Estado doente, essa democracia conspurcada, essa ideia de que tudo pode se você for rico e poderoso
Carlos Fernando dos Santos Lima, procurador da Lava Jato

Como Geddel juntou dinheiro

               I
Charge O Tempo 06/09/2017
Quando arrombou o imóvel
De Geddel em Salvador,
O agente da Polícia
Foi tomado de um torpor:
- Nós entramos foi num banco! –,
Disse ele no corredor.

              II
Havia grana em toda parte,
Do telhado até o chão,
Uma cortina foi feita
Com a quantia de 1 milhão
E o papel de se limpar
Seguia o mesmo padrão.

             III
Testemunhando os trabalhos,
Convocaram João Tenente,
Que conhecia Geddel
Desde quando era carente:
Juntou dinheiro tomando
De quem via pela frente.
             IV
Ele explicou à Polícia
Que Geddel é cheio de manha:
Enganou quem frequentava
Aquele clube lá da Espanha
E afanou uma rapariga
Na Ladeira da Montanha.

             V
Furtou a bacia de um cego
Na Ladeira de São Bento,
Assaltou um aleijado
Na esquina do convento
E despojou Carga Torta
Do único bem: um jumento.

            VI
Não gostava de gastar
Desde os tempos do Cruzeiro,
Fazia como Tio Patinhas
De um jeito bem prazenteiro:
No dia que estava triste,
Se deitava no dinheiro.

            VII
Guardava dinheiro em malas,
Em travesseiro e colchão,
Tinha um pacote de notas
Escondido num caixão
Que ele tomou de uma velha
Numa visita ao Sertão.

             VIII
De tanto tomar do povo,
Geddel foi se acostumando:
Quanto mais ele tomava,
O prazer ia aumentando,
E ele, sem gastar nada,
Uma fortuna ia juntando.

             IX
Desde os tempos de ACM,
Passando em FHC,
Tendo seu cartaz em alta
No governo do PT,
Geddel se achou imbatível
Na arte de enriquecer.

            X
Só que veio a Lavajato
Pôr ordem no cabaré:
Na esquerda ou na direita,
Não tem mais querrequequé,
Roubou é investigado,
Finda preso e algemado,
Não fica um corrupto em pé!