sábado, 14 de dezembro de 2024
O bombardeio digital por terra, mar e ar
A “palavra do ano”, segundo o Dicionário Oxford, é brain rot — a deterioração intelectual pelo consumo indiscriminado de conteúdos superficiais, encontrados na internet. Não é um diagnóstico médico, mas questão de saúde cultural. A persistirem os sintomas — similares aos da depressão, da ansiedade, do TOC, da síndrome de burnout, do TDAH, das demências, do hipotireoidismo, da anemia e da insônia crônica —, não é um neurologista ou um psiquiatra que deve ser consultado, mas um técnico de informática. Porque o vírus da brain rot tem como transmissor o algoritmo — espécie de entidade obsessora, uma alma desencarnada digital que influencia os vivos, decidindo que conteúdos aparecem em seu feed.
Em tese, se você curte fotos de gatos, veria mais publicações da Cora Rónai ou anúncios de ração para felinos. Se é botafoguense, como eu, páginas sobre ansiolíticos se abririam automaticamente a cada partida. Juntando os dois interesses, a máquina de pubar cérebros — pilotada por Zuckerberg, Musk e Zhang Yiming — lhe sugeriria seguir Gatito, o veterano goleiro do glorioso Fogão. Mas não.
Mesmo para quem não tem qualquer interesse em tretas aéreas, o algoritmo forneceu uma overdose da saga da moça insultada e exposta por se recusar a trocar de lugar com uma criança. Caindo de paraquedas no embate entre a titular da janelinha e a mãe do birrento, uma passageira resolveu armar um palanque a bordo da aeronave. Talvez tenha farejado, ali, uma boa oportunidade de lacrar (e lucrar) no papel de justiceira. Armou e se deu mal, porque o wokismo de ocasião não colou — e o vídeo-denúncia acabou sendo um tiro no pé. Mas, de celular em punho, fez da pirraça um tema onipresente nas nossas conversas.
Pouco antes, foi a vez de a valorosa Marinha do Brasil fazer água. A pretexto de comemorar o Dia do Marinheiro, a arma que já nos deu Tamandaré, Barroso e João Cândido embarcou na canoa furada da defesa dos próprios privilégios. Para não ser torpedeado no corte de gastos (que atingiu em cheio Saúde e Educação), o cisne branco se fez de patinho feio. Os marujos se sacrificariam num mar de perigos enquanto os civis, esses folgados, apenas dançam, surfam, bebem, fazem ioga e brincam de videogame. Baita tiro n’água — e nós, que só nos lembramos da Marinha quando ela bota tanques fumegantes para desfilar no 7 de Setembro ou apoia golpe de Estado, ficamos sabendo (mesmo sem querer) que ela pode afundar mais ainda.
Em terra firme, por menor que seja a nossa disposição, cá estamos nós acompanhando o BBB em que se transformou o cotidiano das grandes cidades. Graças às câmeras corporais, a violência policial pode ser apreciada praticamente ao vivo e em cores. Principalmente a de São Paulo — o que obrigou o governador, muito a contragosto, a fazer uma correção de rota. (A Bahia é mais violenta, mas lá o governo é do PT, então a indignação não se aplica.) Câmeras de segurança também flagraram militante woke, em Belém, forjando acusação de agressão em carro de aplicativo e sacando a carta do racismo (sempre um tiro no escuro).
Nem é preciso ir atrás desses e de outros conteúdos. Eles nos alcançam, por terra, mar e ar, bastando que estejamos conectados à internet. Talvez não haja dosagens seguras para esse tipo de consumo. E não há cérebro que aguente.
Em tese, se você curte fotos de gatos, veria mais publicações da Cora Rónai ou anúncios de ração para felinos. Se é botafoguense, como eu, páginas sobre ansiolíticos se abririam automaticamente a cada partida. Juntando os dois interesses, a máquina de pubar cérebros — pilotada por Zuckerberg, Musk e Zhang Yiming — lhe sugeriria seguir Gatito, o veterano goleiro do glorioso Fogão. Mas não.
Mesmo para quem não tem qualquer interesse em tretas aéreas, o algoritmo forneceu uma overdose da saga da moça insultada e exposta por se recusar a trocar de lugar com uma criança. Caindo de paraquedas no embate entre a titular da janelinha e a mãe do birrento, uma passageira resolveu armar um palanque a bordo da aeronave. Talvez tenha farejado, ali, uma boa oportunidade de lacrar (e lucrar) no papel de justiceira. Armou e se deu mal, porque o wokismo de ocasião não colou — e o vídeo-denúncia acabou sendo um tiro no pé. Mas, de celular em punho, fez da pirraça um tema onipresente nas nossas conversas.
Pouco antes, foi a vez de a valorosa Marinha do Brasil fazer água. A pretexto de comemorar o Dia do Marinheiro, a arma que já nos deu Tamandaré, Barroso e João Cândido embarcou na canoa furada da defesa dos próprios privilégios. Para não ser torpedeado no corte de gastos (que atingiu em cheio Saúde e Educação), o cisne branco se fez de patinho feio. Os marujos se sacrificariam num mar de perigos enquanto os civis, esses folgados, apenas dançam, surfam, bebem, fazem ioga e brincam de videogame. Baita tiro n’água — e nós, que só nos lembramos da Marinha quando ela bota tanques fumegantes para desfilar no 7 de Setembro ou apoia golpe de Estado, ficamos sabendo (mesmo sem querer) que ela pode afundar mais ainda.
Em terra firme, por menor que seja a nossa disposição, cá estamos nós acompanhando o BBB em que se transformou o cotidiano das grandes cidades. Graças às câmeras corporais, a violência policial pode ser apreciada praticamente ao vivo e em cores. Principalmente a de São Paulo — o que obrigou o governador, muito a contragosto, a fazer uma correção de rota. (A Bahia é mais violenta, mas lá o governo é do PT, então a indignação não se aplica.) Câmeras de segurança também flagraram militante woke, em Belém, forjando acusação de agressão em carro de aplicativo e sacando a carta do racismo (sempre um tiro no escuro).
Nem é preciso ir atrás desses e de outros conteúdos. Eles nos alcançam, por terra, mar e ar, bastando que estejamos conectados à internet. Talvez não haja dosagens seguras para esse tipo de consumo. E não há cérebro que aguente.
Os caminhos desapareceram da alma humana
Caminho: faixa de terra sobre a qual se anda a pé. A estrada distingue-se do caminho não só por ser percorrida de automóvel, mas também por ser uma simples linha ligando um ponto a outro. A estrada não tem em si própria qualquer sentido; só têm sentido os dois pontos que ela liga. O caminho é uma homenagem ao espaço. Cada trecho do caminho é em si próprio dotado de um sentido e convida-nos a uma pausa. A estrada é uma desvalorização triunfal do espaço, que hoje não passa de um entrave aos movimentos do homem, de uma perda de tempo.
Antes ainda de desaparecerem da paisagem, os caminhos desapareceram da alma humana: o homem já não sente o desejo de caminhar e de extrair disso um prazer. E também a sua vida ele já não vê como um caminho, mas como uma estrada: como uma linha conduzindo de uma etapa à seguinte, do posto de capitão ao posto de general, do estatuto de esposa ao estatuto de viúva. O tempo de viver reduziu-se a um simples obstáculo que é preciso ultrapassar a uma velocidade sempre crescente.
Milan Kundera, "A Imortalidade"
Antes ainda de desaparecerem da paisagem, os caminhos desapareceram da alma humana: o homem já não sente o desejo de caminhar e de extrair disso um prazer. E também a sua vida ele já não vê como um caminho, mas como uma estrada: como uma linha conduzindo de uma etapa à seguinte, do posto de capitão ao posto de general, do estatuto de esposa ao estatuto de viúva. O tempo de viver reduziu-se a um simples obstáculo que é preciso ultrapassar a uma velocidade sempre crescente.
Milan Kundera, "A Imortalidade"
A verdadeira bandeira
Em 19 de novembro de 1889, os republicanos adotaram uma nova bandeira, para substituir a anterior, do período imperial. Contudo, 85% dos brasileiros, 12 milhões entre 14 milhões, não conseguiam ler o lema —Ordem e Progresso —por serem analfabetos. Começou, ali, a saga de uma nação partida, separando a maioria, o povão, da minoria privilegiada, a elite. Pouco mais de 135 anos depois, o estandarte é reconhecido por 93% da população —contudo, os 7% com mais de 15 anos iletrados não a reconhecem, em um grupo, 12 milhões, de tamanho semelhante ao dos apartados de 1889. É possível estimar que, ao longo da gestão dos 39 presidentes da história republicana, pelo menos 50 milhões de pessoas tenham morrido sem decifrar o lábaro.
Não é uma estimativa perfeita, tanto quanto não são os cálculos do número de escravos que nasceram no Brasil ao longo dos 350 anos de escravidão, até a Lei do Ventre Livre. É claro indício, contudo, da essência perversa de nosso sistema político. Nossos democratas lutaram por anos contra a censura sobre os que tinham chance de escrever ou ler, mas não contra a mais absoluta censura sobre os analfabetos; tampouco lutaram por aqueles impedidos de receber educação de base suficiente para induzi-los à leitura, apesar de alfabetizados. Os defensores das letras denunciam o alto custo dos livros e o pouco apoio público à leitura, mas esquecem os analfabetos adultos e as vítimas da baixa qualidade do sistema educacional, que continua produzindo a cada ano dezenas de milhões de iletrados. Até mesmo a luta contra a tortura sobre presos políticos não considerou que o analfabetismo é uma tortura sobre o analfabeto: diante de um texto escrito, é como se levasse uma chicotada no cérebro. A comemorada Lei da Anistia ainda não se aplicou às vítimas do analfabetismo que são jogadas ao mar da “desescola” e ficam socialmente para trás, por falta de acesso à educação de base com qualidade.
Um século e meio depois da Proclamação da República prevalece a mesma essência política dos primeiros republicanos que formularam a bandeira dos letrados sem cuidar dos iletrados nem dos ileitores. No Dia da Bandeira do 24º ano do século XXI, o Brasil tomou conhecimento de que diminuiu o número de leitores entre os brasileiros alfabetizados. Diversas vozes se levantaram contra as causas dessa tragédia social. Criticaram o descuido com o programa do livro didático, o fechamento de livrarias, a penúria de bibliotecas, o alto preço dos livros, mas sem cobrança por um programa para a erradicação do analfabetismo de adultos, nem pela criação de um sistema nacional para a educação de base que produza leitores.
Os republicanos fizeram uma bandeira para poucos e, de modo triste e inaceitável, até hoje a desfraldamos para poucos devido a um regime educacional com qualidade para privilegiados, apenas. A consequência é um círculo vicioso: a essência perversa da política impede educação de qualidade para todos, e essa apartação educacional faz duradoura a perversidade social iniciada em 19 de novembro de 1889 com a adoção da bandeira de uma república partida ao meio. Tudo somado: a verdadeira bandeira de um país republicano é a escola que seus governos oferecem ao seu povo.
Não é uma estimativa perfeita, tanto quanto não são os cálculos do número de escravos que nasceram no Brasil ao longo dos 350 anos de escravidão, até a Lei do Ventre Livre. É claro indício, contudo, da essência perversa de nosso sistema político. Nossos democratas lutaram por anos contra a censura sobre os que tinham chance de escrever ou ler, mas não contra a mais absoluta censura sobre os analfabetos; tampouco lutaram por aqueles impedidos de receber educação de base suficiente para induzi-los à leitura, apesar de alfabetizados. Os defensores das letras denunciam o alto custo dos livros e o pouco apoio público à leitura, mas esquecem os analfabetos adultos e as vítimas da baixa qualidade do sistema educacional, que continua produzindo a cada ano dezenas de milhões de iletrados. Até mesmo a luta contra a tortura sobre presos políticos não considerou que o analfabetismo é uma tortura sobre o analfabeto: diante de um texto escrito, é como se levasse uma chicotada no cérebro. A comemorada Lei da Anistia ainda não se aplicou às vítimas do analfabetismo que são jogadas ao mar da “desescola” e ficam socialmente para trás, por falta de acesso à educação de base com qualidade.
Um século e meio depois da Proclamação da República prevalece a mesma essência política dos primeiros republicanos que formularam a bandeira dos letrados sem cuidar dos iletrados nem dos ileitores. No Dia da Bandeira do 24º ano do século XXI, o Brasil tomou conhecimento de que diminuiu o número de leitores entre os brasileiros alfabetizados. Diversas vozes se levantaram contra as causas dessa tragédia social. Criticaram o descuido com o programa do livro didático, o fechamento de livrarias, a penúria de bibliotecas, o alto preço dos livros, mas sem cobrança por um programa para a erradicação do analfabetismo de adultos, nem pela criação de um sistema nacional para a educação de base que produza leitores.
Os republicanos fizeram uma bandeira para poucos e, de modo triste e inaceitável, até hoje a desfraldamos para poucos devido a um regime educacional com qualidade para privilegiados, apenas. A consequência é um círculo vicioso: a essência perversa da política impede educação de qualidade para todos, e essa apartação educacional faz duradoura a perversidade social iniciada em 19 de novembro de 1889 com a adoção da bandeira de uma república partida ao meio. Tudo somado: a verdadeira bandeira de um país republicano é a escola que seus governos oferecem ao seu povo.
Terras férteis estão se tornando desertos
Quase metade da superfície sólida do planeta está prestes a se tornar um deserto não arável, de acordo com a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD, na sigla em inglês).
Essas terras são marcadas há muito tempo pela baixa pluviosidade, e mesmo assim sustentam 45% da agricultura mundial. Agora, a seca extrema ligada ao aquecimento global causado pelo homem está ajudando a transformar essa área em um terreno baldio infértil.
Com uma em cada três pessoas do mundo vivendo nessas regiões áridas, especialistas alertam que a insegurança alimentar, a pobreza e o deslocamento em massa acompanharão a desertificação.
O problema é tão grave que uma conferência das Nações Unidas sobre desertificação (COP16), a ser realizada na Arábia Saudita em dezembro, exige que 1,5 bilhão de hectares de terras desertificadas do mundo sejam restaurados até 2030. Pelos cálculos da ONU, essa é a porção que poderia ser reabilitada.
A desertificação é uma forma de degradação pela qual a terra fértil perde grande parte de sua produtividade biológica – e econômica – e se torna um deserto.
Atualmente, até 40% das terras do mundo já estão degradadas, de acordo com a UNCCD.
Embora as mudanças climáticas, o desmatamento, o uso excessivo de pastagem para pecuária, práticas agrícolas insustentáveis e a expansão urbana sejam os principais fatores da desertificação, uma crise global de estiagem está exacerbando o problema.
A seca e o calor extremos provocam escassez de água e levam à degradação do solo e à perda de culturas e vegetação.
Com a previsão de que 2024 será o ano mais quente já registrado, a seca poderá afetar 75% da população mundial até 2050, de acordo com relatório da ONU divulgado nesta semana.
A escassez de água agrava ainda mais os impactos do desmatamento. Menos árvores significa menos raízes para prender o solo e evitar erosão.
Enquanto isso, questões sociais, como maior dificuldade para mulheres de possuir terras, também podem afetar a saúde da terra e do solo. A ONU observa que as mulheres investem com mais frequência em sistemas alimentares biodiversos, ao contrário dos homens, que se concentram principalmente em monoculturas de alta produtividade que podem degradar a terra rapidamente.
A grave degradação da terra e a desertificação estão afetando a capacidade do planeta de "apoiar o bem-estar ambiental e humano", disse um relatório da UNCCD de 2024.
A terra degradada não pode mais sustentar diversos ecossistemas ou ajudar a regular o clima, os fluxos de água e a produção de nutrientes vitais para toda a vida.
A terra saudável também proporciona segurança alimentar e um sistema agrícola sustentável, aponta o estudo.
Porém, com tanta terra fértil e produtiva degradada a cada ano, a desertificação contínua está acelerando a perda de biodiversidade, a fome e a pobreza.
Migração forçada e conflitos sobre recursos em declínio serão algumas das consequências futuras.
"São a terra e o solo sob nossos pés que cultivam o algodão para as roupas que vestimos, garantem a comida em nossos pratos e ancoram as economias das quais dependemos", observou Ibrahim Thiaw, secretário executivo da UNCCD.
Um tema fundamental dos esforços para combater a desertificação é a restauração do solo e a promoção de uma agricultura e de um manejo de pastagens mais sustentáveis e "positivos para a natureza", de acordo com Susan Gardner, diretora da divisão de ecossistemas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
Isso anda de mãos dadas com a conservação de "bacias hidrográficas" que armazenam água.
O Programa Mundial de Alimentos da ONU, por exemplo, tem trabalhado para melhorar a resiliência da água na Mauritânia e no Níger, no oeste da África, construindo "meias-luas" que retêm a água da chuva.
Os lagos semicirculares ajudam solos degradados a reter a água por mais tempo e a sustentar a vegetação. Além disso, eles são práticos e econômicos para a população local construir.
Mas medidas mais drásticas também estão sendo tomadas para impedir a expansão dos desertos.
Em 2007, as nações da região do Sahel, na África, decidiram impedir a expansão do deserto do Saara para o norte, alimentada pela seca e pela mudança climática, cultivando árvores, pastagens e vegetação para criar a Grande Muralha Verde.
Bilhões de árvores seriam plantadas ao longo de quase 8.000 km, do litoral oeste ao leste da África, para criar zonas de amortecimento e evitar mais desertificação.
De acordo com os números mais atualizados da ONU, um quinto da restauração desejada foi alcançado, com o progresso paralisado devido à falta de financiamento. No entanto, novas iniciativas estão avançando com o objetivo de tornar mais verdes 100 milhões de hectares de terras degradadas em toda a África.
Uma iniciativa semelhante de replantio na China e no deserto de Gobi, na Mongólia, também conhecida como a "Grande Muralha Verde", inclui esforços para reduzir o o uso excessivo de pasto entre os pastores da Mongólia.
Quase 80% das terras da Mongólia foram afetadas pela degradação até 2020, e uma iniciativa da ONU buscou combater a desertificação por meio do gerenciamento sustentável da terra, incluindo a proteção de quase 850 mil hectares na região sul de Gobi como corredores de biodiversidade.
Essas terras são marcadas há muito tempo pela baixa pluviosidade, e mesmo assim sustentam 45% da agricultura mundial. Agora, a seca extrema ligada ao aquecimento global causado pelo homem está ajudando a transformar essa área em um terreno baldio infértil.
Com uma em cada três pessoas do mundo vivendo nessas regiões áridas, especialistas alertam que a insegurança alimentar, a pobreza e o deslocamento em massa acompanharão a desertificação.
O problema é tão grave que uma conferência das Nações Unidas sobre desertificação (COP16), a ser realizada na Arábia Saudita em dezembro, exige que 1,5 bilhão de hectares de terras desertificadas do mundo sejam restaurados até 2030. Pelos cálculos da ONU, essa é a porção que poderia ser reabilitada.
A desertificação é uma forma de degradação pela qual a terra fértil perde grande parte de sua produtividade biológica – e econômica – e se torna um deserto.
Atualmente, até 40% das terras do mundo já estão degradadas, de acordo com a UNCCD.
Embora as mudanças climáticas, o desmatamento, o uso excessivo de pastagem para pecuária, práticas agrícolas insustentáveis e a expansão urbana sejam os principais fatores da desertificação, uma crise global de estiagem está exacerbando o problema.
A seca e o calor extremos provocam escassez de água e levam à degradação do solo e à perda de culturas e vegetação.
Com a previsão de que 2024 será o ano mais quente já registrado, a seca poderá afetar 75% da população mundial até 2050, de acordo com relatório da ONU divulgado nesta semana.
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| Árvores plantadas no Senegal para conter avanço do deserto |
A escassez de água agrava ainda mais os impactos do desmatamento. Menos árvores significa menos raízes para prender o solo e evitar erosão.
Enquanto isso, questões sociais, como maior dificuldade para mulheres de possuir terras, também podem afetar a saúde da terra e do solo. A ONU observa que as mulheres investem com mais frequência em sistemas alimentares biodiversos, ao contrário dos homens, que se concentram principalmente em monoculturas de alta produtividade que podem degradar a terra rapidamente.
A grave degradação da terra e a desertificação estão afetando a capacidade do planeta de "apoiar o bem-estar ambiental e humano", disse um relatório da UNCCD de 2024.
A terra degradada não pode mais sustentar diversos ecossistemas ou ajudar a regular o clima, os fluxos de água e a produção de nutrientes vitais para toda a vida.
A terra saudável também proporciona segurança alimentar e um sistema agrícola sustentável, aponta o estudo.
Porém, com tanta terra fértil e produtiva degradada a cada ano, a desertificação contínua está acelerando a perda de biodiversidade, a fome e a pobreza.
Migração forçada e conflitos sobre recursos em declínio serão algumas das consequências futuras.
"São a terra e o solo sob nossos pés que cultivam o algodão para as roupas que vestimos, garantem a comida em nossos pratos e ancoram as economias das quais dependemos", observou Ibrahim Thiaw, secretário executivo da UNCCD.
Um tema fundamental dos esforços para combater a desertificação é a restauração do solo e a promoção de uma agricultura e de um manejo de pastagens mais sustentáveis e "positivos para a natureza", de acordo com Susan Gardner, diretora da divisão de ecossistemas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
Isso anda de mãos dadas com a conservação de "bacias hidrográficas" que armazenam água.
O Programa Mundial de Alimentos da ONU, por exemplo, tem trabalhado para melhorar a resiliência da água na Mauritânia e no Níger, no oeste da África, construindo "meias-luas" que retêm a água da chuva.
Os lagos semicirculares ajudam solos degradados a reter a água por mais tempo e a sustentar a vegetação. Além disso, eles são práticos e econômicos para a população local construir.
Mas medidas mais drásticas também estão sendo tomadas para impedir a expansão dos desertos.
Em 2007, as nações da região do Sahel, na África, decidiram impedir a expansão do deserto do Saara para o norte, alimentada pela seca e pela mudança climática, cultivando árvores, pastagens e vegetação para criar a Grande Muralha Verde.
Bilhões de árvores seriam plantadas ao longo de quase 8.000 km, do litoral oeste ao leste da África, para criar zonas de amortecimento e evitar mais desertificação.
De acordo com os números mais atualizados da ONU, um quinto da restauração desejada foi alcançado, com o progresso paralisado devido à falta de financiamento. No entanto, novas iniciativas estão avançando com o objetivo de tornar mais verdes 100 milhões de hectares de terras degradadas em toda a África.
Uma iniciativa semelhante de replantio na China e no deserto de Gobi, na Mongólia, também conhecida como a "Grande Muralha Verde", inclui esforços para reduzir o o uso excessivo de pasto entre os pastores da Mongólia.
Quase 80% das terras da Mongólia foram afetadas pela degradação até 2020, e uma iniciativa da ONU buscou combater a desertificação por meio do gerenciamento sustentável da terra, incluindo a proteção de quase 850 mil hectares na região sul de Gobi como corredores de biodiversidade.
Slogans caradura
Tenho falado aqui do "Beba com sabedoria", slogan que encerra os comerciais de certa bebida alcoólica, e de forma tão discreta que mal satisfaz sua função de cumprir a lei —a de alertar o consumidor para os riscos do produto que ele está ingerindo. É uma "recomendação" inócua, como a que a mãe dá bondosamente ao seu garoto que vai para a noite pela primeira vez: "Meu filho, seja sábio. Evite ir a lugares frequentados por traficantes de drogas e mal'-intencionados que irão tentá-lo com seus produtos ilegais e irresistíveis".
Se já começa por esse cara-durismo fundamental, de tapear uma determinação da Justiça, o slogan omite também que uma pessoa organicamente incapaz de tomar numa noitada mais do que uma vodca, duas taças de vinho ou três cervejas (dosagens alcoólicas equivalentes) não precisará ser aconselhada a "beber com sabedoria". E, ao contrário, se for tolerante ao álcool, não se embriagar com facilidade e não sofrer efeitos matinais adversos, não terá nenhum motivo para "beber com sabedoria".
Se a campanha antiálcool fosse para valer, os comerciais e as garrafas de bebidas conteriam a mesma literatura agressiva dos maços de cigarros, obrigados a informar que fumar leva ao câncer, ao enfarte e à brochice. Os anúncios de cigarros já foram banidos há muito, mas seria engraçado se, em seu apogeu na contracapa das revistas, em vez das advertências eles viessem com a recomendação "Fume com sabedoria".
"Beba com sabedoria" não está longe de "Jogue com responsabilidade", o slogan dos comerciais de apostas, igualmente descarado, porque também omite que a possibilidade de apostar à vontade pelo celular, bastando depositar na conta da bet o dinheiro da aposta, elimina qualquer perspectiva de responsabilidade —quem ganhar apostará de novo, para continuar ganhando; quem perder, a mesma coisa, para recuperar o prejuízo.
O antigo governador paulista Paulo Maluf, ao recomendar ao seu eleitor "Estupra, mas não mata", poderia ter acrescentado: "Estupre com delicadeza". E o atual governador, Tarcísio de Freitas, deveria recomendar à sua PM: "Mate com carinho".
Se já começa por esse cara-durismo fundamental, de tapear uma determinação da Justiça, o slogan omite também que uma pessoa organicamente incapaz de tomar numa noitada mais do que uma vodca, duas taças de vinho ou três cervejas (dosagens alcoólicas equivalentes) não precisará ser aconselhada a "beber com sabedoria". E, ao contrário, se for tolerante ao álcool, não se embriagar com facilidade e não sofrer efeitos matinais adversos, não terá nenhum motivo para "beber com sabedoria".
Se a campanha antiálcool fosse para valer, os comerciais e as garrafas de bebidas conteriam a mesma literatura agressiva dos maços de cigarros, obrigados a informar que fumar leva ao câncer, ao enfarte e à brochice. Os anúncios de cigarros já foram banidos há muito, mas seria engraçado se, em seu apogeu na contracapa das revistas, em vez das advertências eles viessem com a recomendação "Fume com sabedoria".
"Beba com sabedoria" não está longe de "Jogue com responsabilidade", o slogan dos comerciais de apostas, igualmente descarado, porque também omite que a possibilidade de apostar à vontade pelo celular, bastando depositar na conta da bet o dinheiro da aposta, elimina qualquer perspectiva de responsabilidade —quem ganhar apostará de novo, para continuar ganhando; quem perder, a mesma coisa, para recuperar o prejuízo.
O antigo governador paulista Paulo Maluf, ao recomendar ao seu eleitor "Estupra, mas não mata", poderia ter acrescentado: "Estupre com delicadeza". E o atual governador, Tarcísio de Freitas, deveria recomendar à sua PM: "Mate com carinho".
O começo do fim da realidade
Se você curte imagens de gatinhos, passarinhos e outros bichinhos fofinhos nas redes sociais, deve ter visto um vídeo que viralizou recentemente no Instagram (e possivelmente em outras plataformas), de uma mamãe papagaio fazendo uma “cabaninha” com as asas para proteger seus filhotes da chuva. Coisa mais linda desse mundo! O vídeo foi replicado amplamente e recebeu milhões de visualizações em vários perfis da plataforma. “O amor de uma mãe não tem limites”, diz a legenda de uma das postagens.
Só tem um problema: o vídeo é uma mentira, criada 100% por inteligência artificial (IA) e totalmente desconectada da realidade. A mamãe papagaio é de uma espécie que não existe, os filhotes são de algum tipo de gavião que provavelmente não existe, também, e o ninho parece ser de um beija-flor (não de papagaio nem de gavião). Aliás, papagaios não constroem ninhos; eles nidificam em ocos de árvores e outras cavidades naturais. E essa postura de proteger os filhotes da chuva com as asas não existe na natureza, segundo o especialista Luís Fábio Silveira, curador de ornitologia do Museu de Zoologia da USP, com quem conversei antes de escrever esse texto. “Tá tudo errado nessa porcaria”, resumiu ele.
“Mas e daí? É só uma imagem fofinha que vai alegrar o dia das pessoas. Que mal isso pode causar?” Se fosse apenas esse vídeo, tudo bem. O problema é que esse é apenas um entre milhões de vídeos, fotos, áudios, textos e outros conteúdos falsos que estão inundando as redes sociais em uma escala cada vez maior e com uma qualidade cada vez melhor — ou seja, cada vez mais difíceis de serem identificados como falsos. O meu Instagram está repleto deles, incluindo dezenas de variações desse vídeo da mamãe papagaio protegendo os filhotes da chuva, além de muitos vídeos de monstros marinhos que não existem, de polvos e peixes gigantes que não existem, de filhotes de urso polar subindo a bordo de embarcações para abraçar as pessoas como se fossem cachorros, de robôs humanoides fazendo coisas impressionantes que ainda não são capazes de fazer, e por aí vai.
Um vídeo postado recentemente por um perfil de ativismo contra a poluição plástica mostra um pinguim com um anel plástico enroscado no pescoço sendo resgatado por um moço sorridente, que se aproxima dele com um peixe na mão e retira o anel. A cena termina com o pinguim pulando de alegria e acenando para as câmeras ao lado do homem como se estivesse num show de circo. Bonitinho, mas mentiroso. Não há qualquer aviso na imagem ou na legenda de que se trata de um vídeo gerado por IA. O problema da poluição plástica é real, e gravíssimo (como descrevo neste podcast), mas o comportamento do pinguim é totalmente irreal. Vários usuários criticaram o uso não identificado da IA na postagem, mas o perfil rebateu dizendo que os fins justificam os meios, porque o objetivo é chamar atenção para o impacto dos plásticos na biodiversidade.
Eu discordo. No médio e longo prazo, o uso de imagens falsas para tratar de problemas reais pode ser um tiro pela culatra, à medida que vai dessensibilizar as pessoas para a real natureza do problema que se deseja enfrentar. Depois de ver milhares de vídeos fofinhos de animais sendo resgatados ou fazendo coisas incríveis nas redes sociais, será que as pessoas ainda vão se sensibilizar com imagens do mundo real, que tendem a ser menos espetaculares do que aquelas produzidas por IA? Pior ainda: será que as pessoas vão acreditar nas imagens reais? Afinal de contas, se todas aquelas outras imagens foram criadas por IA, quem garante que essa também não foi? A realidade vai parecer tão sem graça, comparada ao que se vê nas redes sociais, que ninguém mais se interessar com ela.
O ponto crítico é que a linha que separa a realidade da ficção no mundo digital está sendo completamente borrada pela IA. Já escrevi sobre isso aqui antes, mas a velocidade com que essas tecnologias estão avançando e se popularizando é realmente assustadora. Estamos próximos — se é que já não chegamos lá — de um ponto em que vai se tornar quase impossível saber se uma imagem é real ou não. Tão perigoso quanto acreditar em mentiras é deixar de acreditar na verdade. Se o papagaio daquele vídeo não existe, quem garante que aquela imagem da Amazônia em chamas também não é falsa? Quem garante que aquela geleira está realmente derretendo? Que aquele político realmente pegou aquela mala de dinheiro? E por aí vai. Nesse novo estado de esquizofrenia digital coletiva, toda e qualquer realidade de torna questionável.
Isso abre brechas enormes para a propagação de mentiras e teorias conspiratórias; e é claro que muita gente vai se aproveitar dessa confusão. Quando Kamala Harris se lançou candidata à presidência nos Estados Unidos e começou a atrair multidões para os seus comícios, por exemplo, Donald Trump alegou que as imagens dos eventos eram geradas por IA. Lógico que era mentira, mas muita gente acreditou. Quem garante que não?
Vou dar um outro exemplo preocupante. No início deste ano a Samsung lançou um novo modelo de IA integrado aos seus dispositivos, chamado Galaxy AI, que permite fazer uma série de coisas — entre elas, edição de imagens — com extrema facilidade. O comercial de lançamento mostra uma mãe utilizando a tecnologia para “editar” (adulterar, seria o termo mais correto) uma foto do seu filho em uma peça de teatro na escola. Ela move as duas crianças que estavam mais à frente do palco para as laterais e puxa o seu filho para o primeiro plano, deixando-o isolado como protagonista no centro da cena.
Assim como no caso dos passarinhos, tudo muito fofo e aparentemente inofensivo. Mas imagine só o seguinte: quando essas crianças da “geração IA” ficarem mais velhas e olharem para suas fotos de infância, como vão saber se aquelas imagens são reais ou não? Como vão saber o que realmente aconteceu? Em que lugar do palco elas realmente estavam? Imagine a dissonância cognitiva que vai se formar entre as memórias biológicas e as lembranças digitais adulteradas da história de vida das pessoas.
Agora imagine essas tecnologias de edição de imagem, cada vez mais sofisticadas e acessíveis, sendo usadas em larga escala para adulterar a realidade de milhões de fotos e vídeos que são publicados todos os dias nas redes sociais, que é onde a maior parte das pessoas convive e se relaciona com o mundo atualmente. Quando você olhar o perfil de alguém no Instagram, no TikTok ou seja lá onde for, como vai saber se aquelas imagens são reais? Se aquela pessoa realmente foi àqueles lugares que diz que foi e fez aquelas coisas que diz que fez? Em resumo: como vamos saber quem as pessoas realmente são? Como vamos saber o que realmente está acontecendo? O que aconteceu no passado? Se aquele bicho realmente existe? Se aquele problema é realmente tão grave quanto parece?
Podemos pensar no consumo de IA via redes sociais como equivalente ao consumo de alimentos ultraprocessados na nossa dieta: tudo bem comer um pouco de vez em quando, mas não exagere, para não prejudicar sua saúde (mental, nesse caso). O ponto fundamental é a rotulagem: as pessoas precisam saber o que estão consumindo. Não importa quão nobre seja a intenção — combater a poluição plástica ou gerar empatia pela biodiversidade —, esconder o fato de que um conteúdo foi gerado por IA é desonestidade. É uma mentira contada na forma de imagem.
Herton Escobar
Só tem um problema: o vídeo é uma mentira, criada 100% por inteligência artificial (IA) e totalmente desconectada da realidade. A mamãe papagaio é de uma espécie que não existe, os filhotes são de algum tipo de gavião que provavelmente não existe, também, e o ninho parece ser de um beija-flor (não de papagaio nem de gavião). Aliás, papagaios não constroem ninhos; eles nidificam em ocos de árvores e outras cavidades naturais. E essa postura de proteger os filhotes da chuva com as asas não existe na natureza, segundo o especialista Luís Fábio Silveira, curador de ornitologia do Museu de Zoologia da USP, com quem conversei antes de escrever esse texto. “Tá tudo errado nessa porcaria”, resumiu ele.
Seria menos mal se a imagem estivesse claramente identificada como IA. Algumas postagens até tinham uma notinha de rodapé, mas a maioria, não. (O Instagram tem um botão que permite adicionar um “rótulo de IA” na hora de postar; mas é algo muito discreto, e não é obrigatório.) Aposto que a maioria das pessoas que viram esse vídeo achou que ele era verdadeiro.
“Mas e daí? É só uma imagem fofinha que vai alegrar o dia das pessoas. Que mal isso pode causar?” Se fosse apenas esse vídeo, tudo bem. O problema é que esse é apenas um entre milhões de vídeos, fotos, áudios, textos e outros conteúdos falsos que estão inundando as redes sociais em uma escala cada vez maior e com uma qualidade cada vez melhor — ou seja, cada vez mais difíceis de serem identificados como falsos. O meu Instagram está repleto deles, incluindo dezenas de variações desse vídeo da mamãe papagaio protegendo os filhotes da chuva, além de muitos vídeos de monstros marinhos que não existem, de polvos e peixes gigantes que não existem, de filhotes de urso polar subindo a bordo de embarcações para abraçar as pessoas como se fossem cachorros, de robôs humanoides fazendo coisas impressionantes que ainda não são capazes de fazer, e por aí vai.
Um vídeo postado recentemente por um perfil de ativismo contra a poluição plástica mostra um pinguim com um anel plástico enroscado no pescoço sendo resgatado por um moço sorridente, que se aproxima dele com um peixe na mão e retira o anel. A cena termina com o pinguim pulando de alegria e acenando para as câmeras ao lado do homem como se estivesse num show de circo. Bonitinho, mas mentiroso. Não há qualquer aviso na imagem ou na legenda de que se trata de um vídeo gerado por IA. O problema da poluição plástica é real, e gravíssimo (como descrevo neste podcast), mas o comportamento do pinguim é totalmente irreal. Vários usuários criticaram o uso não identificado da IA na postagem, mas o perfil rebateu dizendo que os fins justificam os meios, porque o objetivo é chamar atenção para o impacto dos plásticos na biodiversidade.
Eu discordo. No médio e longo prazo, o uso de imagens falsas para tratar de problemas reais pode ser um tiro pela culatra, à medida que vai dessensibilizar as pessoas para a real natureza do problema que se deseja enfrentar. Depois de ver milhares de vídeos fofinhos de animais sendo resgatados ou fazendo coisas incríveis nas redes sociais, será que as pessoas ainda vão se sensibilizar com imagens do mundo real, que tendem a ser menos espetaculares do que aquelas produzidas por IA? Pior ainda: será que as pessoas vão acreditar nas imagens reais? Afinal de contas, se todas aquelas outras imagens foram criadas por IA, quem garante que essa também não foi? A realidade vai parecer tão sem graça, comparada ao que se vê nas redes sociais, que ninguém mais se interessar com ela.
O ponto crítico é que a linha que separa a realidade da ficção no mundo digital está sendo completamente borrada pela IA. Já escrevi sobre isso aqui antes, mas a velocidade com que essas tecnologias estão avançando e se popularizando é realmente assustadora. Estamos próximos — se é que já não chegamos lá — de um ponto em que vai se tornar quase impossível saber se uma imagem é real ou não. Tão perigoso quanto acreditar em mentiras é deixar de acreditar na verdade. Se o papagaio daquele vídeo não existe, quem garante que aquela imagem da Amazônia em chamas também não é falsa? Quem garante que aquela geleira está realmente derretendo? Que aquele político realmente pegou aquela mala de dinheiro? E por aí vai. Nesse novo estado de esquizofrenia digital coletiva, toda e qualquer realidade de torna questionável.
Isso abre brechas enormes para a propagação de mentiras e teorias conspiratórias; e é claro que muita gente vai se aproveitar dessa confusão. Quando Kamala Harris se lançou candidata à presidência nos Estados Unidos e começou a atrair multidões para os seus comícios, por exemplo, Donald Trump alegou que as imagens dos eventos eram geradas por IA. Lógico que era mentira, mas muita gente acreditou. Quem garante que não?
Vou dar um outro exemplo preocupante. No início deste ano a Samsung lançou um novo modelo de IA integrado aos seus dispositivos, chamado Galaxy AI, que permite fazer uma série de coisas — entre elas, edição de imagens — com extrema facilidade. O comercial de lançamento mostra uma mãe utilizando a tecnologia para “editar” (adulterar, seria o termo mais correto) uma foto do seu filho em uma peça de teatro na escola. Ela move as duas crianças que estavam mais à frente do palco para as laterais e puxa o seu filho para o primeiro plano, deixando-o isolado como protagonista no centro da cena.
Assim como no caso dos passarinhos, tudo muito fofo e aparentemente inofensivo. Mas imagine só o seguinte: quando essas crianças da “geração IA” ficarem mais velhas e olharem para suas fotos de infância, como vão saber se aquelas imagens são reais ou não? Como vão saber o que realmente aconteceu? Em que lugar do palco elas realmente estavam? Imagine a dissonância cognitiva que vai se formar entre as memórias biológicas e as lembranças digitais adulteradas da história de vida das pessoas.
Agora imagine essas tecnologias de edição de imagem, cada vez mais sofisticadas e acessíveis, sendo usadas em larga escala para adulterar a realidade de milhões de fotos e vídeos que são publicados todos os dias nas redes sociais, que é onde a maior parte das pessoas convive e se relaciona com o mundo atualmente. Quando você olhar o perfil de alguém no Instagram, no TikTok ou seja lá onde for, como vai saber se aquelas imagens são reais? Se aquela pessoa realmente foi àqueles lugares que diz que foi e fez aquelas coisas que diz que fez? Em resumo: como vamos saber quem as pessoas realmente são? Como vamos saber o que realmente está acontecendo? O que aconteceu no passado? Se aquele bicho realmente existe? Se aquele problema é realmente tão grave quanto parece?
Podemos pensar no consumo de IA via redes sociais como equivalente ao consumo de alimentos ultraprocessados na nossa dieta: tudo bem comer um pouco de vez em quando, mas não exagere, para não prejudicar sua saúde (mental, nesse caso). O ponto fundamental é a rotulagem: as pessoas precisam saber o que estão consumindo. Não importa quão nobre seja a intenção — combater a poluição plástica ou gerar empatia pela biodiversidade —, esconder o fato de que um conteúdo foi gerado por IA é desonestidade. É uma mentira contada na forma de imagem.
Herton Escobar
sexta-feira, 13 de dezembro de 2024
Assim caminha a humanidade
A percepção dos seres humanos sobre o tempo é variável. Para alguns, como escreveu o grande geógrafo e professor Milton Santos, há "tempos lentos e tempos longos". Com certeza, cada um de nós sabe avaliar o impacto do tempo e do que ele traz para nós mesmos e para aqueles que nos cercam. Além disso, fazemos avaliações diferentes sobre os desenvolvimentos da nossa espécie. Por exemplo, desde o início da guerra fria, vivemos em tempo de corrida armamentista, com a criação de armas cada vez mais potentes.
1]
Para alguns, essa corrida é necessária para a manutenção da paz e do respeito entre os povos. Muitos chegam a defender que o armamento da população civil é uma maneira eficaz de combate à violência. Todavia, em vez de armas, por que os recursos nelas aplicados não se destinam a doenças graves e até aqui incuráveis, como Parkinson ou Alzheimer?
Para outros, é sinal da deterioração da humanidade, entendendo que o investimento em armas é um indício da nossa incapacidade de resolver de maneira pacífica e racional as nossas diferenças, políticas, econômicas e ideológicas. Por isso, temos em algumas regiões conflitos que duram mais de ano e sem solução a menos — talvez, algo temporário, como o armistício.
Da mesma forma, frente às mudanças climáticas acachapantes que vivemos, alguns defendem que a sobrevivência da espécie é mais importante e que, para isso, temos de desmatar, poluir, matar e destruir. É ir passando a boiada, cimentando, edificando, erradicando a natureza, pois onde vivem árvores e bichos vive também o atraso. A riqueza de biodiversidade tornou-se sinônimo de pobreza de progresso.
Enquanto isso, a ciência alerta para a redução da Antártida e do Ártico, e algumas instituições, como Nasa, Unesco e Organização Meteorológica Mundial (OMM), avaliam os impactos catastróficos da perda do gelo polar, do aumento no nível dos oceanos em 60 ou 70 metros em 100 anos, ao longo do século 21. Argumentam também que o desmatamento descontrolado, os incêndios florestais para, no lugar, plantar pastos para criar gado, o excesso de poluição pelas indústrias e pela queima de combustíveis fósseis, e o efeito estufa causado são os marcos de um tempo de estagnação científica, de redução na qualidade de vida dos todos organismos.
São as trombetas que tocam antes do juízo final. Mas os adeptos de passar a boiada nada escutam. Para eles, os seres humanos são seres superiores, que sobreviverão fora da natureza, acoplados às inteligências artificiais que manterão e proverão tudo de que precisamos para continuar existindo. Consideramos que os homens e mulheres fazem parte da natureza, como todos os primatas.
Para esses negacionistas, nosso tempo não é de preocupação, mas de progresso, de abertura para o futuro. Não veem nos tornados, nas enchentes e queimadas globais sinais do fim do mundo, mas de mudança e, quiçá, entendem que essas disrupturas da natureza promovem a limpeza da espécie, escolhendo manter apenas os que são fortes, que podem levar a cabo a mudança necessária.
Portanto, é chegada a hora de nos perguntarmos quão diferentes somos e quão preparados estamos para continuarmos juntos neste planeta. É possível vivermos em comunhão uns com os outros, frente a percepções tão diferentes sobre nossas ações, nossos avanços e nosso destino?
Talvez, devêssemos fazer um evento global sobre o desenvolvimento humano, com participação de todos, para avaliarmos as perdas e os ganhos que tivemos até aqui, nesses milhares de anos de existência. Que história evolutiva queremos viver daqui por diante? Queremos continuar como seres orgânicos, integrados e fazendo parte da natureza ou escolhemos nos transformar em robôs, androides ou ciborgues?
Desconfio, dadas as nossas diferenças perceptivas, que não chegaremos a um acordo ou posição única, e, então, ficamos com a pergunta: haverá dois mundos para nós? Será possível essa mesma espécie, dividida em grupos, ocupar o mesmo planeta de maneira mais ou menos harmoniosa ou estamos fadados a viver para sempre em tempos de guerra?
É sombrio o que nos espera, pois, não havendo consenso, não haverá limites para a destruição, e, portanto, no tempo futuro, lutaremos, entre nós, não pelos caminhos e descaminhos dos nossos avanços e desenvolvimento, mas pela mera necessidade de sobreviver. Se assim for, voltaremos para o início da nossa estória e, assim seguimos, não em linha reta, mas em círculos.
1]
Para alguns, essa corrida é necessária para a manutenção da paz e do respeito entre os povos. Muitos chegam a defender que o armamento da população civil é uma maneira eficaz de combate à violência. Todavia, em vez de armas, por que os recursos nelas aplicados não se destinam a doenças graves e até aqui incuráveis, como Parkinson ou Alzheimer?
Para outros, é sinal da deterioração da humanidade, entendendo que o investimento em armas é um indício da nossa incapacidade de resolver de maneira pacífica e racional as nossas diferenças, políticas, econômicas e ideológicas. Por isso, temos em algumas regiões conflitos que duram mais de ano e sem solução a menos — talvez, algo temporário, como o armistício.
Da mesma forma, frente às mudanças climáticas acachapantes que vivemos, alguns defendem que a sobrevivência da espécie é mais importante e que, para isso, temos de desmatar, poluir, matar e destruir. É ir passando a boiada, cimentando, edificando, erradicando a natureza, pois onde vivem árvores e bichos vive também o atraso. A riqueza de biodiversidade tornou-se sinônimo de pobreza de progresso.
Enquanto isso, a ciência alerta para a redução da Antártida e do Ártico, e algumas instituições, como Nasa, Unesco e Organização Meteorológica Mundial (OMM), avaliam os impactos catastróficos da perda do gelo polar, do aumento no nível dos oceanos em 60 ou 70 metros em 100 anos, ao longo do século 21. Argumentam também que o desmatamento descontrolado, os incêndios florestais para, no lugar, plantar pastos para criar gado, o excesso de poluição pelas indústrias e pela queima de combustíveis fósseis, e o efeito estufa causado são os marcos de um tempo de estagnação científica, de redução na qualidade de vida dos todos organismos.
São as trombetas que tocam antes do juízo final. Mas os adeptos de passar a boiada nada escutam. Para eles, os seres humanos são seres superiores, que sobreviverão fora da natureza, acoplados às inteligências artificiais que manterão e proverão tudo de que precisamos para continuar existindo. Consideramos que os homens e mulheres fazem parte da natureza, como todos os primatas.
Para esses negacionistas, nosso tempo não é de preocupação, mas de progresso, de abertura para o futuro. Não veem nos tornados, nas enchentes e queimadas globais sinais do fim do mundo, mas de mudança e, quiçá, entendem que essas disrupturas da natureza promovem a limpeza da espécie, escolhendo manter apenas os que são fortes, que podem levar a cabo a mudança necessária.
Portanto, é chegada a hora de nos perguntarmos quão diferentes somos e quão preparados estamos para continuarmos juntos neste planeta. É possível vivermos em comunhão uns com os outros, frente a percepções tão diferentes sobre nossas ações, nossos avanços e nosso destino?
Talvez, devêssemos fazer um evento global sobre o desenvolvimento humano, com participação de todos, para avaliarmos as perdas e os ganhos que tivemos até aqui, nesses milhares de anos de existência. Que história evolutiva queremos viver daqui por diante? Queremos continuar como seres orgânicos, integrados e fazendo parte da natureza ou escolhemos nos transformar em robôs, androides ou ciborgues?
Desconfio, dadas as nossas diferenças perceptivas, que não chegaremos a um acordo ou posição única, e, então, ficamos com a pergunta: haverá dois mundos para nós? Será possível essa mesma espécie, dividida em grupos, ocupar o mesmo planeta de maneira mais ou menos harmoniosa ou estamos fadados a viver para sempre em tempos de guerra?
É sombrio o que nos espera, pois, não havendo consenso, não haverá limites para a destruição, e, portanto, no tempo futuro, lutaremos, entre nós, não pelos caminhos e descaminhos dos nossos avanços e desenvolvimento, mas pela mera necessidade de sobreviver. Se assim for, voltaremos para o início da nossa estória e, assim seguimos, não em linha reta, mas em círculos.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2024
O destruidor
Mais palavras vem gastando os homens para acabar com o mundo do que Deus precisou para construí-lo
Mário da Silva Brito, "Cartola de mágico"
Morrer pelo Brasil — até certo ponto
Pelo que se leu e se ouviu das mensagens trocada pelos golpistas de Bolsonaro, reveladas há pouco pela Polícia Federal, uma coisa pareceu clara: aqueles generais podiam ser tudo, menos cínicos. Acreditavam de verdade que as eleições tinham sido fraudadas e que, se o comunista Lula subisse a rampa, a liberdade iria para o beleléu. O grau de desespero em suas falas indicava uma urgência, uma premência, uma emergência de, literalmente, dar a vida para salvar o Brasil. Pois era a vida que eles estavam botando em jogo ao calcular, entre as probabilidades do desfecho, a possibilidade de o golpe fracassar —e, mesmo assim, valeria a pena.
Você se lembra: "Tá na cara que houve fraude, porra. Não dá mais pra gente aguentar essa porra. Tá foda! Tá foda! Eu sou capaz de morrer, cara, pelo meu país, sabia? Pelo meu presidente. Eu não consigo vislumbrar, né, meus sobrinhos, né, os filhos pequenos dos meus amigos, das minhas amigas, vivendo sob o julgo [sic] desse vagabundo [Lula]. Aprendi na caserna a honrar o meu presidente [Bolsonaro]. E eu tô pronto a morrer por isso".
Mas algo aconteceu porque, desde a divulgação dessas bravatas, as ditas urgência, premência e emergência parecem ter desaparecido das preocupações dos salvadores do Brasil. O discurso hidrófobo e o esperneio histérico tornaram-se, de repente, o obsequioso silêncio diante da Justiça, só quebrado pelas negativas de que planejavam um golpe e que, por ele, seriam capazes de tudo.
Terá sido isto que aprenderam na caserna, a recolher o rabo quando ele é posto de fora? E o país pelo qual dariam a vida? Não é digno de uma confissão aberta, corajosa, de quem jurou manter a pátria livre ou morrer pelo Brasil? Ou descobriram que, se apertado, o presidente pelo qual estavam também prontos a morrer os deixará pendurados na brocha, como já fez com tantos?
Talvez por isso tenham mudado de estratégia. Para salvar a pele, um certo cinismo, como negar tudo o que foi dito por escrito e falado nos mais insuspeitos celulares, é até aceitável, não? Acontece nos melhores quartéis: a coragem dentro da farda esvai-se numa fralda.
Ruy Castro
Você se lembra: "Tá na cara que houve fraude, porra. Não dá mais pra gente aguentar essa porra. Tá foda! Tá foda! Eu sou capaz de morrer, cara, pelo meu país, sabia? Pelo meu presidente. Eu não consigo vislumbrar, né, meus sobrinhos, né, os filhos pequenos dos meus amigos, das minhas amigas, vivendo sob o julgo [sic] desse vagabundo [Lula]. Aprendi na caserna a honrar o meu presidente [Bolsonaro]. E eu tô pronto a morrer por isso".
Mas algo aconteceu porque, desde a divulgação dessas bravatas, as ditas urgência, premência e emergência parecem ter desaparecido das preocupações dos salvadores do Brasil. O discurso hidrófobo e o esperneio histérico tornaram-se, de repente, o obsequioso silêncio diante da Justiça, só quebrado pelas negativas de que planejavam um golpe e que, por ele, seriam capazes de tudo.
Terá sido isto que aprenderam na caserna, a recolher o rabo quando ele é posto de fora? E o país pelo qual dariam a vida? Não é digno de uma confissão aberta, corajosa, de quem jurou manter a pátria livre ou morrer pelo Brasil? Ou descobriram que, se apertado, o presidente pelo qual estavam também prontos a morrer os deixará pendurados na brocha, como já fez com tantos?
Talvez por isso tenham mudado de estratégia. Para salvar a pele, um certo cinismo, como negar tudo o que foi dito por escrito e falado nos mais insuspeitos celulares, é até aceitável, não? Acontece nos melhores quartéis: a coragem dentro da farda esvai-se numa fralda.
Ruy Castro
O peru de Natal
A coletânea organizada por Flávio Moreira da Costa, Os 100 melhores contos de humor da literatura universal, traz um escrito memorável do romano de origem judaica Alberto Moravia (1907-1990), “O Peru de Natal”. Nele, a tradicional ave em lugar de ir “para a panela” transfigura-se no pretendente a genro na ceia, encarnando as características de um homem medíocre e ladino. Com “seus relatos de festas, divertimentos, viagens, sucessos mundanos” se refestelam, então, mãe e filha. A sua desenvoltura entre as classes abastadas envaidece, a primeira, e fascina a segunda.
Curcio, personagem central da narrativa, é o cético candidato a sogro. Desabafa, quando o peru se retira. “Estava na hora de parar com esses elegantões sofisticados e esnobes que escondem sob a arrogância um monte de trapaças”. Curcio, que batalhou duro a vida inteira, “não se sentia inferior a nenhum peru do mundo”. Aquele, porém, de peito estufado e ar senhorial logo se instala na casa.
“Belo genro”, resmunga o velho. “Aceito um homem trabalhador, simples, mas um peru”. O tempo passa, o pedido de casamento não vem apesar de os noivos usufruírem intimidades. O peru propõe que a jovem fuja com ele, para longe. Cansada de procrastinações e de mentiras, a sonsa consente.
Não há o que fazer, ela é adulta, diz a polícia. E o segredo vem à tona: o impostor é casado, tem filhos. Exige compensação para devolver a filha desonrada; um golpista. Curcio jura que não será mais enganado “pelas falsas aparências e pelas palavras vazias de um peru, fosse aristocrático ou plebeu”. Assim, supõe-se, a ave volta à panela para cumprir sua função na celebração de Cristo.
O conto de Alberto Moravia serve de metáfora para as relações estabelecidas entre o presidente da República, no alegórico papel de Curcio; o ministro da Fazenda, no da mãe; o ministro do Supremo, no da filha; e o mandachuva da Câmara Federal, no do peru. O cenário remete às armadilhas para desvirtuar um pacto de republicanização nos gabinetes de Brasília, em face das “emendas secretas”. Vide a ilustrativa e instrutiva reportagem sobre Arthur Lira, em “O homem que diz ‘dou’ não dá” (Piauí, 05/12/2024). Por ora, o patrono de um semipresidencialismo de ocasião mostra astúcia.
A história começa quando Flávio Dino suspende as estapafúrdias e impositivas emendas por Pix. Bilhões de reais eram distribuídos sem que se adivinhe quem os havia solicitado e para quê. A direita dinheirista – um pleonasmo – faz da política um negócio de corar frade de vitral. Na opinião do jornalista Breno Pires: “Arthur Lira acusa o Supremo Tribunal Federal de não cumprir o acordo para a liberação das emendas parlamentares. Mas o que acontece é o contrário”. Não surpreende.
O que está sub judice é o clientelismo político e currais eleitorais que funcionam qual uma âncora para as desigualdades. Ninguém explica por que, nos últimos três anos, 26 emendas no montante de R$ 90 milhões desembarcaram numa empresa de jogos eletrônicos, em Goiás. Essa é a ponta do iceberg de falcatruas e maracutaias dos desgovernos Michel Temer e Jair Bolsonaro, que deixaram um rastro de sabotagens contra o trabalho, o patrimônio estatal e os valores do Estado de direito democrático. “Jamais houve tamanho desarranjo institucional com tanto dinheiro público, em tão poucos anos”, denuncia com coragem e zelo o ex-governador do Maranhão e atual ministro do STF.
Em 20 de agosto, uma nota conjunta entre os poderes é assinada. Prega que emendas de comissões temáticas do Congresso seriam “destinadas a projetos de interesse nacional ou regional, definidos por um acordo entre Legislativo e Executivo”. As emendas estaduais seriam “destinadas a projetos estruturantes em cada estado e no Distrito Federal, de acordo com a definição de bancada, vedada a individualização”. Aprova-se a Lei Complementar 210, com as novas regras. O Brasil está vivo.
Flávio Dino libera o pagamento com algumas condições para garantir maior lisura, na execução dos recursos do Erário. Contudo, A lei sancionada transfere prerrogativas de comissões às lideranças dos partidos que, pela natureza do cargo, estão próximas ao presidente da “Casa do Povo” e não prevê a identificação do deputado e do senador que pedem repasse ao líder partidário. As nuvens pairam sobre o acordado, em letra miúda. A indecência saiu por uma porta, e retornou por outra.
O mandachuva simulou a concertação frente evidências de fraude; descumpriu o acordão; e agora trama uma vingança. Em retaliação, ameaça o pacote fiscal de Fernando Haddad que, por seu turno, bloqueia a valorização do salário mínimo e cria barreiras à concessão dos Benefícios de Prestação Continuada, que beneficiam os setores sociais mais vulneráveis. As medidas atendem às exigências descabidas das finanças, em contradição com o projeto de um país mais justo e igualitário. Indica uma capitulação ao capital financeiro. A frase de Otto von Bismarck (“Salsichas e leis, melhor o povo não saber como são feitas”) não se coaduna com a transparência desfraldada por progressistas.
A imprensa neoliberal admite: “Ao ser um atalho para as reeleições, a farra das emendas produziu uma droga política altamente aditiva. Seu usuário precisa cada vez mais de recursos, sua abstinência pode lhe custar a carreira. Por isso, o empenho desesperado de Câmara e Senado em manter o fluxo constante e crescente da droga eleitoral”, diz um prócer do Fórum Mundial de Editores (!?) Marcelo Rech (Zero Hora, 6 e 7/12/2024). Mas a crítica alça um desajeitado voo de galinha; rente ao chão.
O governo é chantageado com cinismo aos olhos da mídia corporativa, que não transforma o fato em um escândalo político-midiático. Assaltantes são tratados de doentes irresponsáveis pelos atos. Os meios de comunicação tentam salvar a suja reputação com platitudes. Não fiscalizam adeptos do dogma neoliberal. Sem a tampa do boeiro, criaturas do subterrâneo se põem acima da Constituição. A governabilidade balança no Parlamento, cuja maioria se conduz com despudor ao se debruçar nos cofres da nação; já raspados pelo rentismo em R$ 869,3 bilhões, sendo R$ 111,6 bilhões livres de impostos só no mês de outubro do corrente. Um pequeno corte de 1% na taxa de juros do Banco Central economizaria R$ 55,2 bilhões nos gastos públicos. Isso, a Rede Globo oculta dos crédulos.
Arthur Lira et caterva representam uma barreira fisiológica à democracia, por reproduzir a lógica do “homem cordial” que prioriza e privilegia o círculo familiar e de amizades, recusando submeter-se ao consenso pactuado para legislar e governar os comuns. O patrimonialismo orienta ainda a mentalidade das elites, de rapina. Daí a oportuna sugestão do poeta: “Verifica a conta: / És tu que a pagas. / Põe o dedo em cada parcela. / Pergunta: Como aparece isto aqui? / Tens de tomar a chefia”.
Outrossim, a Advocacia-Geral da União argumenta que a lei alinhavada é o suficiente, pautada no realismo maquiaveliano da “verdade efetiva das coisas” (la verità effetualle della cosa). Isto é, na “análise concreta da realidade concreta”, dada a correlação de forças. O preço da negociação é o custo menor, de parte a parte. Os medalhões sabem o poder que têm; o governo necessita de votos para aprovar as políticas sociais. O Executivo e o Legislativo buscam um compromisso recíproco. Se o Judiciário rejeita o pedido da AGU, dispõe de mais autonomia para resolver a conflitualidade.
A militância de esquerda sabe que avança entre as pedras do atraso, para socialização de uma nova concepção de sociedade. Sabe que a disputa política não é um filme épico com o desenlace em uma explosão; na democracia, é uma série de streamings com várias temporadas e final num suspiro de alívio. Sabe que a conjuntura requer a acumulação de energias e a organização do bloco histórico-político. Mas sabe também que é preciso empatia com o sofrimento da população. Os combates à crise social e ambiental junto do fortalecimento dos Brics revigoram os movimentos por mudanças. Que o sonho brasileiro não tenha sobressaltos e, o abutre, não substitua o peru tradicional de Natal.
Curcio, personagem central da narrativa, é o cético candidato a sogro. Desabafa, quando o peru se retira. “Estava na hora de parar com esses elegantões sofisticados e esnobes que escondem sob a arrogância um monte de trapaças”. Curcio, que batalhou duro a vida inteira, “não se sentia inferior a nenhum peru do mundo”. Aquele, porém, de peito estufado e ar senhorial logo se instala na casa.
“Belo genro”, resmunga o velho. “Aceito um homem trabalhador, simples, mas um peru”. O tempo passa, o pedido de casamento não vem apesar de os noivos usufruírem intimidades. O peru propõe que a jovem fuja com ele, para longe. Cansada de procrastinações e de mentiras, a sonsa consente.
Não há o que fazer, ela é adulta, diz a polícia. E o segredo vem à tona: o impostor é casado, tem filhos. Exige compensação para devolver a filha desonrada; um golpista. Curcio jura que não será mais enganado “pelas falsas aparências e pelas palavras vazias de um peru, fosse aristocrático ou plebeu”. Assim, supõe-se, a ave volta à panela para cumprir sua função na celebração de Cristo.
O conto de Alberto Moravia serve de metáfora para as relações estabelecidas entre o presidente da República, no alegórico papel de Curcio; o ministro da Fazenda, no da mãe; o ministro do Supremo, no da filha; e o mandachuva da Câmara Federal, no do peru. O cenário remete às armadilhas para desvirtuar um pacto de republicanização nos gabinetes de Brasília, em face das “emendas secretas”. Vide a ilustrativa e instrutiva reportagem sobre Arthur Lira, em “O homem que diz ‘dou’ não dá” (Piauí, 05/12/2024). Por ora, o patrono de um semipresidencialismo de ocasião mostra astúcia.
A história começa quando Flávio Dino suspende as estapafúrdias e impositivas emendas por Pix. Bilhões de reais eram distribuídos sem que se adivinhe quem os havia solicitado e para quê. A direita dinheirista – um pleonasmo – faz da política um negócio de corar frade de vitral. Na opinião do jornalista Breno Pires: “Arthur Lira acusa o Supremo Tribunal Federal de não cumprir o acordo para a liberação das emendas parlamentares. Mas o que acontece é o contrário”. Não surpreende.
O que está sub judice é o clientelismo político e currais eleitorais que funcionam qual uma âncora para as desigualdades. Ninguém explica por que, nos últimos três anos, 26 emendas no montante de R$ 90 milhões desembarcaram numa empresa de jogos eletrônicos, em Goiás. Essa é a ponta do iceberg de falcatruas e maracutaias dos desgovernos Michel Temer e Jair Bolsonaro, que deixaram um rastro de sabotagens contra o trabalho, o patrimônio estatal e os valores do Estado de direito democrático. “Jamais houve tamanho desarranjo institucional com tanto dinheiro público, em tão poucos anos”, denuncia com coragem e zelo o ex-governador do Maranhão e atual ministro do STF.
Em 20 de agosto, uma nota conjunta entre os poderes é assinada. Prega que emendas de comissões temáticas do Congresso seriam “destinadas a projetos de interesse nacional ou regional, definidos por um acordo entre Legislativo e Executivo”. As emendas estaduais seriam “destinadas a projetos estruturantes em cada estado e no Distrito Federal, de acordo com a definição de bancada, vedada a individualização”. Aprova-se a Lei Complementar 210, com as novas regras. O Brasil está vivo.
Flávio Dino libera o pagamento com algumas condições para garantir maior lisura, na execução dos recursos do Erário. Contudo, A lei sancionada transfere prerrogativas de comissões às lideranças dos partidos que, pela natureza do cargo, estão próximas ao presidente da “Casa do Povo” e não prevê a identificação do deputado e do senador que pedem repasse ao líder partidário. As nuvens pairam sobre o acordado, em letra miúda. A indecência saiu por uma porta, e retornou por outra.
O mandachuva simulou a concertação frente evidências de fraude; descumpriu o acordão; e agora trama uma vingança. Em retaliação, ameaça o pacote fiscal de Fernando Haddad que, por seu turno, bloqueia a valorização do salário mínimo e cria barreiras à concessão dos Benefícios de Prestação Continuada, que beneficiam os setores sociais mais vulneráveis. As medidas atendem às exigências descabidas das finanças, em contradição com o projeto de um país mais justo e igualitário. Indica uma capitulação ao capital financeiro. A frase de Otto von Bismarck (“Salsichas e leis, melhor o povo não saber como são feitas”) não se coaduna com a transparência desfraldada por progressistas.
A imprensa neoliberal admite: “Ao ser um atalho para as reeleições, a farra das emendas produziu uma droga política altamente aditiva. Seu usuário precisa cada vez mais de recursos, sua abstinência pode lhe custar a carreira. Por isso, o empenho desesperado de Câmara e Senado em manter o fluxo constante e crescente da droga eleitoral”, diz um prócer do Fórum Mundial de Editores (!?) Marcelo Rech (Zero Hora, 6 e 7/12/2024). Mas a crítica alça um desajeitado voo de galinha; rente ao chão.
O governo é chantageado com cinismo aos olhos da mídia corporativa, que não transforma o fato em um escândalo político-midiático. Assaltantes são tratados de doentes irresponsáveis pelos atos. Os meios de comunicação tentam salvar a suja reputação com platitudes. Não fiscalizam adeptos do dogma neoliberal. Sem a tampa do boeiro, criaturas do subterrâneo se põem acima da Constituição. A governabilidade balança no Parlamento, cuja maioria se conduz com despudor ao se debruçar nos cofres da nação; já raspados pelo rentismo em R$ 869,3 bilhões, sendo R$ 111,6 bilhões livres de impostos só no mês de outubro do corrente. Um pequeno corte de 1% na taxa de juros do Banco Central economizaria R$ 55,2 bilhões nos gastos públicos. Isso, a Rede Globo oculta dos crédulos.
Arthur Lira et caterva representam uma barreira fisiológica à democracia, por reproduzir a lógica do “homem cordial” que prioriza e privilegia o círculo familiar e de amizades, recusando submeter-se ao consenso pactuado para legislar e governar os comuns. O patrimonialismo orienta ainda a mentalidade das elites, de rapina. Daí a oportuna sugestão do poeta: “Verifica a conta: / És tu que a pagas. / Põe o dedo em cada parcela. / Pergunta: Como aparece isto aqui? / Tens de tomar a chefia”.
Outrossim, a Advocacia-Geral da União argumenta que a lei alinhavada é o suficiente, pautada no realismo maquiaveliano da “verdade efetiva das coisas” (la verità effetualle della cosa). Isto é, na “análise concreta da realidade concreta”, dada a correlação de forças. O preço da negociação é o custo menor, de parte a parte. Os medalhões sabem o poder que têm; o governo necessita de votos para aprovar as políticas sociais. O Executivo e o Legislativo buscam um compromisso recíproco. Se o Judiciário rejeita o pedido da AGU, dispõe de mais autonomia para resolver a conflitualidade.
A militância de esquerda sabe que avança entre as pedras do atraso, para socialização de uma nova concepção de sociedade. Sabe que a disputa política não é um filme épico com o desenlace em uma explosão; na democracia, é uma série de streamings com várias temporadas e final num suspiro de alívio. Sabe que a conjuntura requer a acumulação de energias e a organização do bloco histórico-político. Mas sabe também que é preciso empatia com o sofrimento da população. Os combates à crise social e ambiental junto do fortalecimento dos Brics revigoram os movimentos por mudanças. Que o sonho brasileiro não tenha sobressaltos e, o abutre, não substitua o peru tradicional de Natal.
A divinização do utilitário
O grande conflito de hoje, no domínio socioeconómico, por exemplo, e contra a previsão de um Marx, não é o que opõe o Capital e o Trabalho, mas o que comanda a máquina e o que a serve (François Perroux). Mas o efeito mais visível, porque mais extenso, da sua compacta presença, é o que degrada os sonhos ao tangível e utilitário que define a vituperada «sociedade de consumo». Não é assim o útil ou utilitário que se condena: é a sua divinização. O que surpreende no mundo de hoje não é a sedução da comodidade, mas que ela esgote todas as seduções; não é o sonho de «viver bem», mas que só se viva bem com esse sonho. Decerto o viver bem foi sempre um sonho de quem teve por sorte o viver mal. Mas a realização em massa dessa ambição instaura-se em plena força como modelo. E não apenas por ser uma realização em massa, mas porque aos «responsáveis» nenhum valor se impõe para a esse imporem. O utilitarismo é um valor negativo; mas converte-se em positivo pela negatividade de quem poderia recusá-lo. O que nos «irresponsáveis» é uma ambição em positivo, é nos «responsáveis» uma aceitação em negativo, porque nenhum valor positivo lhe contrapõem. Um automóvel é para uns um fim; mas se para outros deveria ser um meio, ele é um meio para coisa nenhuma e converte-se desse modo também num fim. O optimismo da conquista converge assim com o pessimismo da desistência para um vértice comum. Decerto não se ignora a contestação sofrida pela «sociedade de consumo». Mas a contestação só se realiza em eficácia, se o não é uma abertura para o sim. Denunciar um erro é necessário; mas quem tem uma verdade, mesmo errada, pode exigir-nos a verdade certa - e nós não a temos.
Mas o sonho utilitário não apaga o sonho como tal, o que no homem, porque humano, é ainda o sem-limite. Porque se não reinventa um homem totalmente, mesmo o homem circunscrito ao tangível do utilitário. Curiosamente assim o próprio sonho se degrada sem se anular como sonho. Curiosamente assim o homem é ainda o «ser de horizontes» (Heidegger), ainda quando esse horizonte for a montra de uma loja... O mais que nunca é bastante, o máximo que está para além de todos os máximos e é em si o máximo humano, converte-se agora não no que supere os limites do utilitário mas no que supere os limites de cada objecto útil. Assim o absurdo limite que num Sartre é o homem-deus é no societário de consumo o automóvel-perfeição, o aparelho-absoluto. Eis porque o reclame do super é uma constante de um reclame - desde o super-detergente ao super-Constelation. O super fala em linguagem degradada o que em linguagem humana fala da nossa ascensão. [Assim a própria crise do casamento - uma determinante do nosso tempo - pôde ser reportada à insatisfação no «consumo» (Eduardo Lourenço); assim uma mulher se pôde igualar, na sedução, ao frigorífico ou ao aspirador. .. Mas é possível, se não evidente, que a razão esteja mais longe - na radical exterioridade que a tecnologia promove em cuja superfície estéril um valor se não radica.]
Vergílio Ferreira,"Invocação ao Meu Corpo"
Ano novo traz expectativa de IA superar inteligência humana
Na semana passada, Sam Altman se sentou no palco da conferência DealBook, do jornal New York Times. O CEO da OpenAI encarou uma entrevista de pouco mais de meia hora com o jornalista Andrew Ross Sorkin, em que o destaque veio ali pelo meio.
— A AGI está bastante próxima. Vem, talvez, já no ano que vem — afirmou Altman.
A sigla em inglês quer dizer inteligência artificial geral. Mais frequentemente, é descrita de forma mais simples: aquele momento em que inteligências artificiais igualam ou superam a humana.
Uma pausa dramática se faz necessária. Altman sugeriu que IAs podem superar a inteligência humana brevemente. Talvez no ano que vem.
Só que, simultaneamente, fez algo ainda mais estranho. Tratou o evento como algo pouco extraordinário.
— Acontecerá antes do que imaginam — afirmou Altman —, mas importará pouco. Muitos dos riscos sobre os quais alertamos com a IA não ocorrerão no momento da AGI. A economia se moverá mais rápido, as coisas se desenvolverão com mais velocidade, mas a partir daí há um longo avanço partindo da AGI até o que chamamos de superinteligência.
A declaração é estranha e precisa ser decodificada. Há um ano, o próprio Altman fez um tour mundial, com parada no Rio de Janeiro, alertando aos governos que procedessem à regulação rápido perante os riscos de a inteligência artificial ultrapassar as capacidades humanas. Agora, mudou o discurso de forma bastante radical e cria um vácuo, uma distância, entre duas categorias novas. De um lado, AGI; do outro, lá na frente, algo chamado superinteligência.
A explicação possivelmente começa no contrato que sua empresa, a OpenAI, tem com a Microsoft. A sacada foi do Financial Times. Tendo investido US$ 13 bilhões no desenvolvimento do GPT, a companhia fundada por Bill Gates tem acesso total às tecnologias desenvolvidas pela OpenAI, mas há uma cláusula de ruptura. Esse acesso se encerra quando a AGI for alcançada.
Evidentemente, os advogados não soltaram a expressão sem defini-la bem. Então, não basta Altman reinterpretar o que quer dizer inteligência artificial geral numa entrevista. O que vale é o que está no contrato:
— São sistemas autônomos com performance superior à humana na maioria do trabalho com valor econômico.
Tome o trabalho de um executivo. O serviço de um advogado. A função de um jornalista. A capacidade de diagnóstico de um médico. Quebre essas profissões em uma série de ações. O momento em que uma IA for capaz de desempenhá-las de forma autônoma, melhor que um profissional médio, essa definição de AGI se aplicará.
É isso que Altman quer dizer com “a economia se moverá mais rápido”, com “as coisas se desenvolverão com mais velocidade”. Boa parte do trabalho intelectual mais braçal seria substituído. Autonomia é uma característica importante nessa equação. Os sistemas devem sair trabalhando sem que alguém dê o comando. Eles são agentes. Têm agência. Percebem quando há trabalho para realizar — e o realizam. Mas isso que ele descreve não é a substituição definitiva de executivos, advogados, jornalistas ou médicos.
O que sobra é o ato de criação e a capacidade de empatia. A possibilidade de ser original, de resolver problemas novos e também de entender quando é o momento de sorrir. IAs poderão detectar tumores em exames de imagem bastante antes de um médico. Mas não serão tão cedo as entidades mais adequadas para dar a notícia. Ou conviver com pacientes. Um contrato pode, sim, ser redigido por uma IA, assim como o preenchimento de uma planilha ou a redação de uma lista de perguntas. Mas a pergunta que traz a resposta que surpreende, o argumento que convence o juiz num caso muito difícil, tudo aquilo que não está nos dados, que nunca foi feito, isso ainda será exclusivo de seres humanos.
Altman tem se mostrado um executivo interessante. Cada vez menos é claro e, cada vez mais, é críptico. Fala de um jeito que parece dizer muito, mas exige esforço de interpretação. Sua entrevista com o Times parece ser o lance de abertura numa renegociação de contrato com a Microsoft. Quer mais dinheiro. E a OpenAI precisa de mais dinheiro. Tem mais concorrentes no mercado, e o que faz custa bilhões. Ainda assim, precisará entregar algo que pareça realmente novo e que possa chamar de forma convincente de inteligência artificial geral.
O ano de 2025 será interessante.
— A AGI está bastante próxima. Vem, talvez, já no ano que vem — afirmou Altman.
A sigla em inglês quer dizer inteligência artificial geral. Mais frequentemente, é descrita de forma mais simples: aquele momento em que inteligências artificiais igualam ou superam a humana.
Uma pausa dramática se faz necessária. Altman sugeriu que IAs podem superar a inteligência humana brevemente. Talvez no ano que vem.
Só que, simultaneamente, fez algo ainda mais estranho. Tratou o evento como algo pouco extraordinário.
— Acontecerá antes do que imaginam — afirmou Altman —, mas importará pouco. Muitos dos riscos sobre os quais alertamos com a IA não ocorrerão no momento da AGI. A economia se moverá mais rápido, as coisas se desenvolverão com mais velocidade, mas a partir daí há um longo avanço partindo da AGI até o que chamamos de superinteligência.
A declaração é estranha e precisa ser decodificada. Há um ano, o próprio Altman fez um tour mundial, com parada no Rio de Janeiro, alertando aos governos que procedessem à regulação rápido perante os riscos de a inteligência artificial ultrapassar as capacidades humanas. Agora, mudou o discurso de forma bastante radical e cria um vácuo, uma distância, entre duas categorias novas. De um lado, AGI; do outro, lá na frente, algo chamado superinteligência.
A explicação possivelmente começa no contrato que sua empresa, a OpenAI, tem com a Microsoft. A sacada foi do Financial Times. Tendo investido US$ 13 bilhões no desenvolvimento do GPT, a companhia fundada por Bill Gates tem acesso total às tecnologias desenvolvidas pela OpenAI, mas há uma cláusula de ruptura. Esse acesso se encerra quando a AGI for alcançada.
Evidentemente, os advogados não soltaram a expressão sem defini-la bem. Então, não basta Altman reinterpretar o que quer dizer inteligência artificial geral numa entrevista. O que vale é o que está no contrato:
— São sistemas autônomos com performance superior à humana na maioria do trabalho com valor econômico.
Tome o trabalho de um executivo. O serviço de um advogado. A função de um jornalista. A capacidade de diagnóstico de um médico. Quebre essas profissões em uma série de ações. O momento em que uma IA for capaz de desempenhá-las de forma autônoma, melhor que um profissional médio, essa definição de AGI se aplicará.
É isso que Altman quer dizer com “a economia se moverá mais rápido”, com “as coisas se desenvolverão com mais velocidade”. Boa parte do trabalho intelectual mais braçal seria substituído. Autonomia é uma característica importante nessa equação. Os sistemas devem sair trabalhando sem que alguém dê o comando. Eles são agentes. Têm agência. Percebem quando há trabalho para realizar — e o realizam. Mas isso que ele descreve não é a substituição definitiva de executivos, advogados, jornalistas ou médicos.
O que sobra é o ato de criação e a capacidade de empatia. A possibilidade de ser original, de resolver problemas novos e também de entender quando é o momento de sorrir. IAs poderão detectar tumores em exames de imagem bastante antes de um médico. Mas não serão tão cedo as entidades mais adequadas para dar a notícia. Ou conviver com pacientes. Um contrato pode, sim, ser redigido por uma IA, assim como o preenchimento de uma planilha ou a redação de uma lista de perguntas. Mas a pergunta que traz a resposta que surpreende, o argumento que convence o juiz num caso muito difícil, tudo aquilo que não está nos dados, que nunca foi feito, isso ainda será exclusivo de seres humanos.
Altman tem se mostrado um executivo interessante. Cada vez menos é claro e, cada vez mais, é críptico. Fala de um jeito que parece dizer muito, mas exige esforço de interpretação. Sua entrevista com o Times parece ser o lance de abertura numa renegociação de contrato com a Microsoft. Quer mais dinheiro. E a OpenAI precisa de mais dinheiro. Tem mais concorrentes no mercado, e o que faz custa bilhões. Ainda assim, precisará entregar algo que pareça realmente novo e que possa chamar de forma convincente de inteligência artificial geral.
O ano de 2025 será interessante.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2024
Não se confunda nacionalismo com patriotismo
O patriotismo estriba-se num passado mitificado de um povo ou país e numa ideia de grandeza histórica. Já o nacionalismo remete para a expectativa da hegemonia de um povo sobre os outros. E é assim que surge o MAGA (Make América Great Again), numa fase de perda de influência dos Estados Unidos no mundo, ou o Brexit, inspirado na nostalgia do velho Império Britânico. Se patriotismo é um sentimento de amor à pátria, nacionalismo será a defesa dos interesses particulares de uma nação enquanto espaço exclusivo e identitário, que guarda um território, uma etnia, uma língua e um legado cultural específicos.
Enquanto ideologia política, o nacionalismo presta mais atenção à defesa da integridade e independência do país do que à exaltação dos símbolos patrióticos, embora os utilize com frequência como marca distintiva.
Enquanto ideologia política, o nacionalismo presta mais atenção à defesa da integridade e independência do país do que à exaltação dos símbolos patrióticos, embora os utilize com frequência como marca distintiva.
Nascida na sequência da Revolução Francesa, a ideologia nacionalista assumiu grande relevância na organização política dos estados durante todo o século XIX, firmando-se como um conceito desenvolvido para conjugar a ascensão do sentimento de pertença a uma cultura, a uma região geográfica, a uma língua ou a um povo concretos.
Este fenómeno acabou por responder às forças políticas que, apoiadas pelas ideias iluministas, pretendiam rejeitar a lógica da monarquia absolutista. Tal permitiria a construção de estados nacionais de base constitucional e segundo um modelo democrático, no qual a população fosse constituída por cidadãos portadores de direitos e deveres e não por súbditos dum monarca, dependentes dos seus favores.
Ao contrário dos estados nacionais que surgiram no continente europeu nos séculos anteriores, os que emergiram no séc. XIX, e que foram construídos à volta da figura do monarca, optaram mais pela forma republicana do regime, como sucedeu com os processos de unificação da península italiana ou a alemã. Entretanto o regime republicano e o fenómeno das grandes concentrações populacionais nas cidades, devido à revolução industrial, contribuíram para a Grande Guerra e a ascensão dos totalitarismos de caráter nacionalista que dela decorreram, como os regimes nazi e fascista.
No caso alemão, as teorias racistas e defensoras da superioridade da raça ariana de pendor nacionalista, assim como a ideia de que o povo germânico estava destinado a construir o Terceiro Reich, isto é, um império mundial que duraria mil anos, promoveram a catástrofe.
De facto, a ideologia nacionalista tem sido frequentemente utilizada por alguns movimentos para sublinhar diferenças étnicas que servirão de base ao racismo. Uma coisa é ser patriota, isto é, amar a pátria e respeitar os seus símbolos e a sua história. Outra coisa é considerar o povo português superior a qualquer outro, porque sim.
A tendência atual é a cooperação multilateral entre estados com vista ao desenvolvimento económico e social e à promoção da paz. Foi justamente por isso que surgiu a Comunidade Económica Europeia (CEE) através do Tratado de Roma em 1957, que entretanto fez o seu caminho e hoje se designa como União Europeia, e contra a qual os extremistas se levantam tentando fazê-la implodir a partir de dentro. Essa cooperação cada vez mais ampla reforçou-se agora como o recente acordo histórico alcançado entre a União Europeia e o Mercosul.
É por tudo isto que não convém confundir a estrada da Beira com a beira da estrada, ou seja, patriotismo com nacionalismo. O primeiro é uma coisa boa, já o lugar do segundo será no caixote do lixo da História. E quando se mistura nacionalismo com religião (uma tentação muito presente em diversas regiões do mundo) obtém-se uma mistura indigna e altamente destrutiva.
Jesus Cristo não era nacionalista, embora respeitasse a pátria onde nasceu e o seu povo, tal como as respetivas tradições. Nunca foi sicário nem aderiu ao orgulho étnico-religioso dos judeus do seu tempo, os quais perfilhavam uma das mais repugnantes variantes da ideologia nacionalista-religiosa, a ponto de considerarem os gentios como cães. No fundo, o Mestre sabia que o seu reino não era deste mundo, coisa que nem todos os cristãos sabem.
José Brissos-Lino
Este fenómeno acabou por responder às forças políticas que, apoiadas pelas ideias iluministas, pretendiam rejeitar a lógica da monarquia absolutista. Tal permitiria a construção de estados nacionais de base constitucional e segundo um modelo democrático, no qual a população fosse constituída por cidadãos portadores de direitos e deveres e não por súbditos dum monarca, dependentes dos seus favores.
Ao contrário dos estados nacionais que surgiram no continente europeu nos séculos anteriores, os que emergiram no séc. XIX, e que foram construídos à volta da figura do monarca, optaram mais pela forma republicana do regime, como sucedeu com os processos de unificação da península italiana ou a alemã. Entretanto o regime republicano e o fenómeno das grandes concentrações populacionais nas cidades, devido à revolução industrial, contribuíram para a Grande Guerra e a ascensão dos totalitarismos de caráter nacionalista que dela decorreram, como os regimes nazi e fascista.
No caso alemão, as teorias racistas e defensoras da superioridade da raça ariana de pendor nacionalista, assim como a ideia de que o povo germânico estava destinado a construir o Terceiro Reich, isto é, um império mundial que duraria mil anos, promoveram a catástrofe.
De facto, a ideologia nacionalista tem sido frequentemente utilizada por alguns movimentos para sublinhar diferenças étnicas que servirão de base ao racismo. Uma coisa é ser patriota, isto é, amar a pátria e respeitar os seus símbolos e a sua história. Outra coisa é considerar o povo português superior a qualquer outro, porque sim.
A tendência atual é a cooperação multilateral entre estados com vista ao desenvolvimento económico e social e à promoção da paz. Foi justamente por isso que surgiu a Comunidade Económica Europeia (CEE) através do Tratado de Roma em 1957, que entretanto fez o seu caminho e hoje se designa como União Europeia, e contra a qual os extremistas se levantam tentando fazê-la implodir a partir de dentro. Essa cooperação cada vez mais ampla reforçou-se agora como o recente acordo histórico alcançado entre a União Europeia e o Mercosul.
É por tudo isto que não convém confundir a estrada da Beira com a beira da estrada, ou seja, patriotismo com nacionalismo. O primeiro é uma coisa boa, já o lugar do segundo será no caixote do lixo da História. E quando se mistura nacionalismo com religião (uma tentação muito presente em diversas regiões do mundo) obtém-se uma mistura indigna e altamente destrutiva.
Jesus Cristo não era nacionalista, embora respeitasse a pátria onde nasceu e o seu povo, tal como as respetivas tradições. Nunca foi sicário nem aderiu ao orgulho étnico-religioso dos judeus do seu tempo, os quais perfilhavam uma das mais repugnantes variantes da ideologia nacionalista-religiosa, a ponto de considerarem os gentios como cães. No fundo, o Mestre sabia que o seu reino não era deste mundo, coisa que nem todos os cristãos sabem.
José Brissos-Lino
Encontrando a esperança na era do ressentimento
Esta é minha última coluna para o The New York Times, onde comecei a publicar minhas opiniões em janeiro de 2000. Estou me aposentando do Times, não do mundo, então ainda expressarei minhas opiniões em outros lugares. Mas esta parece uma boa ocasião para refletir sobre o que mudou nesses últimos 25 anos.
O que me impressiona, olhando para trás, é como muitas pessoas, tanto nos EUA quanto em grande parte do mundo ocidental, eram otimistas naquela época e até que ponto esse otimismo foi substituído por raiva e ressentimento.
E não estou falando apenas de integrantes da classe trabalhadora que se sentem traídos pelas elites; algumas das pessoas mais irritadas e ressentidas nos Estados Unidos agora —pessoas que parecem muito almejar ter muita influência com o governo Trump que está por vir— são bilionários que não se sentem suficientemente admirados.
É difícil transmitir o quão bem a maioria dos norte-americanos se sentia em 1999 e no início de 2000. As pesquisas mostravam um nível de satisfação com a direção do país que parece surreal nos padrões atuais. Minha percepção sobre o que aconteceu na eleição de 2000 foi que muitos americanos consideraram a paz e a prosperidade como garantidas, então votaram no cara que parecia ser mais divertido de se conviver.
Na Europa, também, as coisas pareciam estar indo bem. Em particular, a introdução do euro em 1999 foi amplamente saudada como um passo em direção a uma maior integração política e econômica —em direção a um Estados Unidos da Europa, se preferir. Alguns de nós, norte-americanos, tínhamos precauções, mas inicialmente elas não eram amplamente compartilhadas.
Claro, não era tudo flores e arco-íris. Havia, por exemplo, já um bom número de teorias da conspiração do tipo proto-QAnon e até mesmo casos de terrorismo doméstico nos Estados Unidos durante os anos Clinton. Houve crises financeiras na Ásia, que alguns de nós viam como um potencial prenúncio do que estava por vir.
Publiquei um livro em 1999 intitulado "O Retorno da Economia da Depressão", argumentando que coisas semelhantes poderiam acontecer nos EUA; lancei uma edição revisada uma década depois, quando aconteceram.
Ainda assim, as pessoas estavam bastante otimistas sobre o futuro quando comecei a escrever para este jornal.
Por que esse otimismo azedou? Como vejo, tivemos um colapso da confiança nas elites: o público não tem mais fé de que as pessoas que estão no comando sabem o que estão fazendo, ou que podemos supor que estão sendo honestas.
Não foi sempre assim. Em 2002 e 2003, aqueles de nós que argumentaram que o caso para invadir o Iraque era fundamentalmente fraudulento foram alvo de críticas de pessoas que se recusavam a acreditar que o presidente dos EUA faria tal coisa. Quem diria isso agora?
De uma maneira diferente, a crise financeira de 2008 minou qualquer fé que o público tinha de que os governos sabiam como gerenciar economias. O euro como moeda sobreviveu à crise europeia que teve o auge em 2012, levando o desemprego em alguns países a níveis da Grande Depressão, mas a confiança nos eurocratas —e a crença em um futuro europeu brilhante— não resistiu.
Não são apenas os governos que perderam a confiança da população. É surpreendente olhar para trás e ver como os bancos eram vistos de forma muito mais favorável antes da crise financeira.
E não faz muito tempo que bilionários da tecnologia eram amplamente admirados em todo o espectro político, alguns alcançando status de heróis populares. Mas agora eles e alguns de seus produtos enfrentam desilusão e pior; a Austrália até proibiu o uso de redes sociais por crianças menores de 16 anos.
O que me traz de volta ao meu ponto de que algumas das pessoas mais ressentidas na América agora parecem ser bilionários irritados.
Já vimos isso antes. Após a crise financeira de 2008, que foi amplamente (e corretamente) atribuída em parte às manobras financeiras, você poderia esperar que os antigos "Mestres do Universo" mostrassem um pouco de contrição, talvez até gratidão por terem sido resgatados. O que recebemos em vez disso foi a "raiva de Obama", fúria contra o 44º presidente dos EUA por até mesmo sugerir que Wall Street poderia ter sido parcialmente culpada pelo desastre.
Hoje em dia, há muita discussão sobre a guinada à direita de alguns bilionários da tecnologia, de Elon Musk para baixo. Eu argumentaria que não devemos pensar demais nisso, e especialmente não devemos tentar dizer que isso é de alguma forma culpa dos liberais politicamente corretos.
Basicamente, resume-se à mesquinhez dos plutocratas que costumavam se deleitar com a aprovação pública e agora estão descobrindo que todo o dinheiro do mundo não pode comprar amor.
Então, há uma saída para o lugar sombrio em que estamos? Eu acredito que, embora o ressentimento possa colocar pessoas ruins no poder, a longo prazo ele não pode mantê-las lá. Em algum momento, o público perceberá que a maioria dos políticos que criticam as elites na verdade pertencem a essa elite em todos os sentidos que importam e começará a responsabilizá-las por seu fracasso em cumprir suas promessas. E nesse ponto, o público pode estar disposto a ouvir pessoas que não tentam argumentar a partir da autoridade, não fazem promessas falsas, mas tentam dizer a verdade da melhor forma possível.
Talvez nunca recuperemos esse tipo de fé em nossos líderes —a crença de que as pessoas no poder geralmente dizem a verdade e sabem o que estão fazendo— que costumávamos ter. Nem deveríamos. Mas se enfrentarmos a kakistocracia —governo pelos piores— que está emergindo enquanto falamos, podemos eventualmente encontrar nosso caminho de volta para um mundo melhor.
Solilóquio
Vão tirar o terminal do meu ônibus do centro da cidade, vão tirar do centro da cidade o meu ônibus, vão me tirar do centro da cidade?
Vão tirar da cidade o centro da cidade, vão tirar da cidade toda a cidade, vão fazer o que da cidade?
Vão plantar uma cidade nova no lugar da cidade carcomida, vão desistir de manter as ruínas da cidade, vão decretar que cidade não é mais de a gente viver?
Vão fazer ruas de cima para baixo, em forma de cisterna, para o que já se abrem os competentes buracos e se desaconselha andar na superfície para não prejudicar as obras?
Vão me dar passagem entre o tapume e a pista de corridas, entre o poço e a poça de lama, ou não vão deixar mais que use as pernas e os pés por estarem definitivamente fora de moda?
Vão permitir que eu siga o meu itinerário de trabalho sobre a capota dos automóveis, saltando de uma para outra depois de treinado em academia de técnica pedestre, ou vão estatuir que eu e mais nove concidadãos de bom físico carreguemos nas costas o automóvel, a fim de que automóveis e nós possamos chegar a destino, passando no que outrora se chamava de rua?
Vão dizer quantas pessoas podem sair de casa, a quantas horas, por quanto tempo, e por onde será permitido caminhar, durante quantos minutos, para que as turmas seguintes não sejam prejudicadas na regalia de ir e vir na cidade entupida?
Vão acabar com a cidade, todas as cidades, vão acabar com homem e a mulher também, vão fazer o quê, depois que eles mesmos acabarem?
Carlos Drummond de Andrade, "Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"
Vão tirar da cidade o centro da cidade, vão tirar da cidade toda a cidade, vão fazer o que da cidade?
Vão plantar uma cidade nova no lugar da cidade carcomida, vão desistir de manter as ruínas da cidade, vão decretar que cidade não é mais de a gente viver?
Vão fazer ruas de cima para baixo, em forma de cisterna, para o que já se abrem os competentes buracos e se desaconselha andar na superfície para não prejudicar as obras?
Vão me dar passagem entre o tapume e a pista de corridas, entre o poço e a poça de lama, ou não vão deixar mais que use as pernas e os pés por estarem definitivamente fora de moda?
Vão permitir que eu siga o meu itinerário de trabalho sobre a capota dos automóveis, saltando de uma para outra depois de treinado em academia de técnica pedestre, ou vão estatuir que eu e mais nove concidadãos de bom físico carreguemos nas costas o automóvel, a fim de que automóveis e nós possamos chegar a destino, passando no que outrora se chamava de rua?
Vão dizer quantas pessoas podem sair de casa, a quantas horas, por quanto tempo, e por onde será permitido caminhar, durante quantos minutos, para que as turmas seguintes não sejam prejudicadas na regalia de ir e vir na cidade entupida?
Vão acabar com a cidade, todas as cidades, vão acabar com homem e a mulher também, vão fazer o quê, depois que eles mesmos acabarem?
Carlos Drummond de Andrade, "Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"
Os sequestradores do Orçamento e da Constituição seguem chantageando o país
O Congresso chantageia o país a céu a aberto. Põe a faca no pescoço dos brasileiros e diz: “Ou as emendas ou a vida”. Valentes parlamentares — não todos, é claro! — ameaçam a estabilidades, apostam no impasse, exigem que a Constituição seja violada, cobram que uma decisão unânime do Supremo seja ignorada e, parafraseando Tarcísio de Freitas, anunciam: “Não estamos nem aí…” A recompensa pela pistolagem é boa. Fala-se aqui de muitos bilhões.
Antes que siga, uma constatação: vocês sabem quanta porrada levou o governo do valente colunismo nativo — quase uma unanimidade — porque o pacote de corte de gastos, afinal, não propôs enforcar miserável com tripa de aposentado, ainda que atinja, sim, também os mais pobres. O “erro”, disseram os corajosos sabujos “duzmercáduz”, foi misturar isenção de Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil — medida neutralizada, se e quando aprovada, com a elevação do IR para quem recebe dividendos acima de R$ 50 mil — com ações de contenção de despesas. Teria passado a impressão de que Lula tentou uma compensação.
Ainda que fosse assim, qual o problema? Ou é uma conversa de gente disfuncional ou é papo-furado de safados. Como o dólar tem fechado acima de R$ 6, adivinhem… Se o Copom der uma pancada de um 1 ponto percentual na taxa de juros, talvez os “patriotas” se acalmem um tantinho. Já andei lendo aqui e a ali: só 0,75% de elevação da Selic não vai acalmar a sede dos canibais. Eles querem um copo de sangue maior, para lembrar personagem da Revolução Francesa. Os mesmos que fazem projeções catastrofistas haviam antevisto um crescimento de 1,5% neste ano. É uma gente que erra todas, mas sempre em seu próprio benefício. De volta ao pacote de corte de despesas e às emendas.
É mentira — pura e simplesmente assim: mentira — que as “exigências” do ministro Flávio Dino para a liberação de emendas ignore o texto votado pelo Congresso e sancionado pelo presidente Lula sem vetos. A verdade está precisamente no oposto. Foi o Congresso que ignorou o que se havia acertado na conversa entre os Três Poderes, como Dino deixa claro em sua decisão, cuja íntegra está aqui.
O que o ministro pede de tão formidável que o Congresso não pode entregar? Que se saiba quem assina as emendas de bancada? Que exista um plano de trabalho para as emendas pix e que os gastos sejam supervisionados pelo TCU? Que ONGs nababescas tenham um site para demonstrar em que gastam as verbas multimilionárias que recebem? Estamos falando de fontes permanentes de escândalos, de aberrações.
Uma entidade levou R$ 90 milhões para promover jogos eletrônicos em escolas, e o custo do aluguel por 10 meses de seus laptops é de R$ 35 mil, quando a aquisição de um aparelho novo no mercado vale um sexto. Uma outra levou R$ 137 milhões para cursos de qualificação profissional de maquiadores, cabeleireiros e designers de sobrancelhas. Entre os contratados, há professores de boxe, jiu-jitsu e futebol. É uma esbórnia. Mas, claro!, Dino exigir que tais cabeças de porco digam onde gastam os bilhões dos contribuintes parece mesmo uma coisa acintosa. Cadê a indignação dos nossos jacobinos dos gastos, da evolução da dívida pública, do equilíbrio fiscal? Essa gente não é contra a lambança, mas contra o governo.
O regime que está em curso no Brasil não é presidencialista, não é parlamentaristas, não é semipresidencialista… Vivemos sob um regime “sequestrista”. O Congresso resolveu sequestrar o Orçamento e se comporta, diante do Executivo, como uma espécie de organização criminosa. Ou o presidente Lula dá um jeito de liberar ao menos R$ 8 bilhões em emendas, ou não tem pacote fiscal, como se o prejuízo de não se votarem as medidas fosse exclusivamente do governo.
Pior: uma tese conspiracionista se espalha — com auxílio de certa prática que lembra remotamente jornalismo, mas que é só um braço do banditismo —, segundo a qual Dino estaria operando em parceria com o governo federal, o que é escandalosamente falso. A ADPF do PSOL — que resultou na liminar que suspendeu as emendas, ora liberadas, mas com critérios — nunca teve vínculo com o Planalto. Ao contrário: houve até uma indiscreta insatisfação oriunda de certas áreas do governo porque, afinal, ele sabe muito bem com quem está lidando. A AGU, note-se, recorreu contra a decisão do ministro, mas teve rejeitado o seu pleito.
Atenção! A Consultoria do Senado elaborou uma nota técnica, cuja íntegra está aqui, deixando claro que o Projeto de Lei Complementar para conferir “transparência” às emendas não atendia às exigências feitas pelo STF e acordadas entre os Três Poderes. Lá se lê:
“O projeto não responde a praticamente nenhuma das exigências colocadas por essas duas fontes normativas: de 14 critérios e parâmetros identificados, apenas 3 deles são atendidos substancialmente pelos dispositivos do projeto, e, ainda assim, esses 2 quesitos já constam dos normativos vigentes”.
Mais ainda:
“Todos os demais requisitos não foram atendidos, quer por ausência completa de menção a eles no projeto, quer por dispositivos do projeto que, aparentando abordar o requisito, terminam por negar-lhe cumprimento.”.
O regime Sequestrista vigente no Brasil entende que os senhores parlamentares não estão sujeitos às exigências de transparência no gasto do dinheiro público, conforme exige a Constituição.
Antes que siga, uma constatação: vocês sabem quanta porrada levou o governo do valente colunismo nativo — quase uma unanimidade — porque o pacote de corte de gastos, afinal, não propôs enforcar miserável com tripa de aposentado, ainda que atinja, sim, também os mais pobres. O “erro”, disseram os corajosos sabujos “duzmercáduz”, foi misturar isenção de Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil — medida neutralizada, se e quando aprovada, com a elevação do IR para quem recebe dividendos acima de R$ 50 mil — com ações de contenção de despesas. Teria passado a impressão de que Lula tentou uma compensação.
Ainda que fosse assim, qual o problema? Ou é uma conversa de gente disfuncional ou é papo-furado de safados. Como o dólar tem fechado acima de R$ 6, adivinhem… Se o Copom der uma pancada de um 1 ponto percentual na taxa de juros, talvez os “patriotas” se acalmem um tantinho. Já andei lendo aqui e a ali: só 0,75% de elevação da Selic não vai acalmar a sede dos canibais. Eles querem um copo de sangue maior, para lembrar personagem da Revolução Francesa. Os mesmos que fazem projeções catastrofistas haviam antevisto um crescimento de 1,5% neste ano. É uma gente que erra todas, mas sempre em seu próprio benefício. De volta ao pacote de corte de despesas e às emendas.
É mentira — pura e simplesmente assim: mentira — que as “exigências” do ministro Flávio Dino para a liberação de emendas ignore o texto votado pelo Congresso e sancionado pelo presidente Lula sem vetos. A verdade está precisamente no oposto. Foi o Congresso que ignorou o que se havia acertado na conversa entre os Três Poderes, como Dino deixa claro em sua decisão, cuja íntegra está aqui.
O que o ministro pede de tão formidável que o Congresso não pode entregar? Que se saiba quem assina as emendas de bancada? Que exista um plano de trabalho para as emendas pix e que os gastos sejam supervisionados pelo TCU? Que ONGs nababescas tenham um site para demonstrar em que gastam as verbas multimilionárias que recebem? Estamos falando de fontes permanentes de escândalos, de aberrações.
Uma entidade levou R$ 90 milhões para promover jogos eletrônicos em escolas, e o custo do aluguel por 10 meses de seus laptops é de R$ 35 mil, quando a aquisição de um aparelho novo no mercado vale um sexto. Uma outra levou R$ 137 milhões para cursos de qualificação profissional de maquiadores, cabeleireiros e designers de sobrancelhas. Entre os contratados, há professores de boxe, jiu-jitsu e futebol. É uma esbórnia. Mas, claro!, Dino exigir que tais cabeças de porco digam onde gastam os bilhões dos contribuintes parece mesmo uma coisa acintosa. Cadê a indignação dos nossos jacobinos dos gastos, da evolução da dívida pública, do equilíbrio fiscal? Essa gente não é contra a lambança, mas contra o governo.
O regime que está em curso no Brasil não é presidencialista, não é parlamentaristas, não é semipresidencialista… Vivemos sob um regime “sequestrista”. O Congresso resolveu sequestrar o Orçamento e se comporta, diante do Executivo, como uma espécie de organização criminosa. Ou o presidente Lula dá um jeito de liberar ao menos R$ 8 bilhões em emendas, ou não tem pacote fiscal, como se o prejuízo de não se votarem as medidas fosse exclusivamente do governo.
Pior: uma tese conspiracionista se espalha — com auxílio de certa prática que lembra remotamente jornalismo, mas que é só um braço do banditismo —, segundo a qual Dino estaria operando em parceria com o governo federal, o que é escandalosamente falso. A ADPF do PSOL — que resultou na liminar que suspendeu as emendas, ora liberadas, mas com critérios — nunca teve vínculo com o Planalto. Ao contrário: houve até uma indiscreta insatisfação oriunda de certas áreas do governo porque, afinal, ele sabe muito bem com quem está lidando. A AGU, note-se, recorreu contra a decisão do ministro, mas teve rejeitado o seu pleito.
Atenção! A Consultoria do Senado elaborou uma nota técnica, cuja íntegra está aqui, deixando claro que o Projeto de Lei Complementar para conferir “transparência” às emendas não atendia às exigências feitas pelo STF e acordadas entre os Três Poderes. Lá se lê:
“O projeto não responde a praticamente nenhuma das exigências colocadas por essas duas fontes normativas: de 14 critérios e parâmetros identificados, apenas 3 deles são atendidos substancialmente pelos dispositivos do projeto, e, ainda assim, esses 2 quesitos já constam dos normativos vigentes”.
Mais ainda:
“Todos os demais requisitos não foram atendidos, quer por ausência completa de menção a eles no projeto, quer por dispositivos do projeto que, aparentando abordar o requisito, terminam por negar-lhe cumprimento.”.
O regime Sequestrista vigente no Brasil entende que os senhores parlamentares não estão sujeitos às exigências de transparência no gasto do dinheiro público, conforme exige a Constituição.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2024
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