sábado, 13 de junho de 2015

Basta! Fora!

Volto a explicar, agora ponto por ponto, a catástrofe estratégica monstruosa com que o PT destruiu a si mesmo e à nação.

1. No incipiente capitalismo brasileiro, as grandes empresas são quase sempre sócias do Estado, o único cliente que pode remunerá-las à altura dos serviços que prestam.

2. Por isso elas acabam se incorporando ao “estamento burocrático” de que falava Raymundo Faoro: o círculo dos “donos do poder”, que fazem da burocracia estatal o instrumento dócil dos seus interesses grupais em vez da máquina administrativa impessoal e científica que ela é nas democracias normais.

3. Nesse sentido, o sistema econômico brasileiro não é capitalista nem socialista, mas sim patrimonialista, como destacaram, além do próprio Faoro, vários estudiosos de orientação liberal, entre os quais Ricardo Velez Rodriguez, Antonio Paim e o embaixador J. O. de Meira Penna.

4. Nos anos 70 do século passado os intelectuais de esquerda que sonhavam em formar um grande partido de massas tomaram conhecimento do livro de Raymundo Faoro, Os Donos do Poder. Formação do Patronato Político Brasileiro, então lançado em aumentadíssima segunda edição, e entenderam que o curso normal da revolução brasileira não deveria ser propriamente anticapitalista, mas antipatrimonialista: o ponto focal do combate já não seria propriamente “o capitalismo”, e sim – com nomes variados -- o “estamento burocrático”.

5. A definição do alvo era corretíssima, mas, ao mesmo tempo, o partido, como aliás toda a esquerda nacional, estava intoxicado de gramscismo e ansioso por tomar o poder por meio dos métodos do fundador do Partido Comunista Italiano, que preconizavam a infiltração generalizada e a “ocupação de espaços” destinadas a criar a “hegemonia”, isto é o controle do imaginário popular, da cultura, de modo a fazer do partido “o poder onipresente e invisível de um imperativo categórico, de um mandamento divino”.

6. A aplicação do esquema gramscista obteve mais sucesso no Brasil do que em qualquer outro país do mundo. Por volta dos anos 80 o modo comunopetista de pensar já havia se tornado tão habitual e quase natural entre as classes falantes no país, que os liberais e conservadores, inimigos potenciais dessa corrente, abdicaram de todo discurso próprio e, para se fazer entender, tinham de falar na linguagem do adversário, reforçando-lhe a hegemonia ideológica mesmo quando obtinham sobre ele alguma modesta vitória eleitoral em troca. Entre os anos 90 e a década seguinte, toda política “de direita” havia desaparecido do cenário público, deixando o campo livre para a concorrência exclusiva entre frações da esquerda, separadas pela disputa de cargos apenas, sem nenhuma divergência séria no terreno ideológico ou mesmo estratégico.

7. O sucesso da operação produziu sem grandes dificuldades a vitória eleitoral de Lula numa eleição presidencial na qual, como ele próprio reconheceu, todos os candidatos eram de esquerda, o que canalizava os votos quase espontaneamente na direção daquele que personificasse o esquerdismo da maneira mais consagrada e mais típica.

8. Com Lula na Presidência, intensificou-se formidavelmente a “ocupação de espaços”, fortalecendo a hegemonia ao ponto de levar ao completo aparelhamento da máquina estatal pelo comando comunopetista, que ao mesmo tempo precisava da ajuda das grandes empresas para cumprir o compromisso assumido no Foro de São Paulo, coordenação estratégica da política comunista no continente, no sentido de amparar e salvar do naufrágio os regimes e movimentos comunistas moribundos espalhados por toda parte.

9. Inevitavelmente, assim, o próprio partido governante se transformou no “estamento burocrático” que ele havia jurado destruir. E, imbuído da fé cega nos altos propósitos que alegava, atribuiu-se em nome deles o direito de trapacear e roubar em escala incomparavelmente maior que a de todos os seus antecessores, sem admitir acima de si nenhuma autoridade moral à qual devesse prestar satisfações. O próprio sr. Lula expressou esse sentimento com candura admirável, afirmando-se o mais insuperavelmente honesto dos brasileiros, ao qual ninguém teria o direito de julgar – e isso no momento em que seu partido, abalado por uma tremenda sucessão de escândalos, já era conhecido no país todo como o partido-ladrão por excelência.

10. Assim, não apenas o PT fortaleceu o patrimonialismo, como frisou o cientista político Ricardo Velez Rodriguez, mas se transformou ele próprio na encarnação mais pura e aparentemente mais indestrutível do poder patrimonialista, soldando numa liga indissolúvel a ilimitada pretensão esquerdista ao monopólio da autoridade moral, os anseios do movimento comunista continental, os interesses de grandes grupos industriais e bancários, o aparato cultural amestrado (mídia, show business, universidades) e, last not least, o instinto de sobrevivência da classe política praticamente inteira.

11. Tal foi o resultado da síntese macabra que denominei faoro-gramscismo -- a tentativa de realizar por meio da estratégia de Antonio Gramsci a revolução antipatrimonialista preconizada por Raymundo Faoro: na medida em que, ao mesmo tempo, instigava o ódio popular ao “estamento burocrático” e, por meio da “ocupação de espaços”, se transfigurava ele próprio no inimigo odiado, personificando-o com traços repugnantes aumentados até o nível do absurdo e do inimaginável, o PT acabou por atrair contra si próprio, em escala ampliada, a hostilidade justa e compreensível da população aos “donos do poder”, aos príncipes coroados do Estado cleptocrático.

12. Ao longo do processo, a “ocupação de espaços” reduziu o sistema de ensino e o conjunto das instituições de cultura a instrumentos para a formação da militância e a repressão ao livre debate de idéias, destruindo implacavelmente a alta cultura no país e, na mesma medida, estupidificando a opinião pública para desarmar sua capacidade crítica. Ao mesmo tempo, no desejo de agradar a vários “movimentos de minorias” enxertados no Brasil por organismos internacionais, o governo petista fez tudo o que podia para desmantelar o sistema dos valores mais caros à maioria da população, contribuindo para espalhar a confusão moral, a anomia e a criminalidade, esta última particularmente favorecida por legislações que não se inspiravam propriamente em Antonio Gramsci, mas numa fonte mais remota do pensamento esquerdista, a apologia do Lumpenproletariat como classe revolucionária, muito em voga nos anos 60 do século XX.


O Brasil que o PT criou é feio, miserável, repugnante, tormentoso e absolutamente insustentável. Cumprida a sua missão histórica de encarnar, personificar e amplificar o mal que denunciava, o único partido da História que fomentou uma revolução contra si mesmo tem a obrigação de ser coerente e desaparecer do cenário o mais breve possível.

Por isso a mensagem que o povo lhe envia nas ruas, nos panelaços, nas vaias e nas sondagens de opinião é hoje a mesma que, em circunstâncias muito menos deprimentes e muito menos alarmantes, surpreendeu o desastrado e atônito presidente João Goulart em 1964:

Basta! Fora!

No piloto automático

‘Afinal, quem cuida da quitanda?’, pergunta o povo
A versão oficial para a viagem de dona Dilma à Bélgica seria curiosa se não fosse o fato de o tour ter durado menos de 30 horas.

Vamos ser francos: cá para nós, se eu fosse a presidente com um avião à minha disposição no quintal de casa, eu também iria preferir ir à Bruxelas comer uns bons gauffres do que ir a Salvador, onde o PT estaria ensarilhado contra mim...

Pelo menos é o que corria à boca pequena, se bem que eu acho que na hora do aperto o PT vai aplaudir a esbelta presidente, já que o objetivo maior é que ela mantenha bem estofada e bem confortável a cadeira presidencial para o Lula se aboletar em 2018.

Mas o que dona Dilma foi fazer em Bruxelas? Simples: com a empáfia que lhe é costumeira, saiu de Brasília crente que ia apressar a resolução do impasse entre UE e Mercosul, pepino que perdura há 16 anos.

Não foi o que aconteceu. O impasse continua. Dona Dilma declarou que não saiu frustrada, que a Argentina apesar de ter travado um pouco as negociações, não é impedimento, muito pelo contrário.

A viagem, se não serviu ao Mercosul, serviu a nós brasileiros que ficamos sabendo, através da entrevista coletiva que dona Dilma concedeu em Bruxelas, que a inflação de 8,47% que sofremos é “atípica”, que o país está extremamente preparado para enfrentar o momento de crise e mais: “não acho que a população tem de consumir menos, pelo contrário, tem de continuar consumindo”.

Confesso que adoraria seguir o conselho de dona Dilma e ir às compras sem medo. Ou ao médico sem entrar em pânico pelos exames que ele vai pedir ou os remédios que vai receitar.

Na mesma entrevista, Dona Dilma, irritada com uma pergunta mais direta sobre assumir ou não suas responsabilidades no caso de ser comprovado seu envolvimento com a corrupção na estatal, declarou:

“Eu não respondo a esta questão porque eu não estou ligada. Eu sei que não estou nisso. É impossível. Eu lutarei até o fim para demonstrar que eu não estou ligada. Eu sei o que eu faço. E eu tenho uma história por trás de mim. Neste sentido, eu nunca tive uma única acusação contra mim por qualquer malfeito. Então, não é uma questão de ‘se’. Eu não estou ligada”.


Acontece que a vida real aqui na planície não comporta os delírios de dona Dilma. Aqui manda a realidade.

Exemplos:

Aqui, o mensalão existiu e foi uma desgraça.

Aqui, o petrolão foi um vexame inominável, numa estatal do porte da Petrobras.

Aqui, é até pior saber que numa empresa com 30 mil funcionários um grupelho de cinco conseguiu tecer o horror que teceu, sem que Dilma Rousseff como Ministra das Minas e Energia, ou Chefe da Casa Civil do Lula ou presidente do Conselho de Administração da gigante brasileira, chefe de dona Graça Foster, não desconfiasse de que algo estava muito errado.

Aqui, ficamos todos tontos com as cifras usadas na campanha política de 2014.

Lula uma vez disse que o Brasil era muito fácil de ser governado. Na hora não compreendi. Agora acho que sei o que foi. Temos um piloto automático da melhor qualidade. Não precisamos de comandantes em ação. Por isso fica fácil, no meio de tantos e tão absolutamente graves problemas, ter disposição para andar de bicicleta pelas ruas de Brasília, acompanhada de seguranças e de um personal trainer. (Fonte Brasil 247)

Uma quitanda como a nossa, claro está, não precisa de gerentes.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Estelionato eleitoral


O governo tomou consciência da gravidade da situação durante a campanha eleitoral. E aí, no meio da eleição, não tem como mudar a política econômica. E nem dá para falar em crise, sendo governo, durante uma campanha eleitoral. Então, eu vejo que se tratou de preparar o país para, logo depois da eleição, adotar uma política para sair da crise.
Carlos Araújo, ex-marido da presidente Dilma Rousseff, e conselheiro informal dela
 

Maus presságios...

Meu Deus, que tempo, este que estamos vivendo... Ainda bem que ninguém está tendo tempo para pensar, já que a inflação e o PT não deixam. Eu nunca fui exemplo de otimismo, mas, agora, sinto um cheiro ruim no ar, como se estivéssemos às vésperas de um cataclismo, como a construção desse “Parlashopping” em Brasília, um verdadeiro pato preto.


Li alhures que alguém disse que “entregar a responsabilidade das reformas de que o Brasil precisa a essa corja de mensaleiros do Congresso é o mesmo que convocar Fernandinho Beira-Mar para relatar a reforma do Código de Processo Penal”.

Os jornais falam de um “piquenique” do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha – que teve minha simpatia quando das eleições para a mesa da Câmara –, e mais uma meia-dúzia de companheiros de “trabalho em prol do povo”, que teria acontecido em Moscou e Israel, nos últimos feriados e dias “imprensados” da semana passada, com diárias por nossa conta. A repercussão negativa talvez seja pela imprudência dessas vilegiaturas. Mas deve ser normal, em se tratando de Congresso Nacional.


Anormal, no meu entendimento, é alguém que exerce um cargo vitalício, como é o de conselheiro do Tribunal de Contas, composto por apenas sete conselheiros, estar autorizado pelo Pleno do Tribunal a estudar em Portugal à custa do TCE pelo prazo de um ano e meio, ganhando vencimentos integrais do cargo de conselheiro e mais diárias por todo o tempo e ainda acumulando o cargo de vice-presidente da Corte de Contas do Estado, eleito que foi em março passado, ou seja, o vice-presidente do TCE-MG reside em Portugal.

Se o Brasil fosse um país sério, como teria dito o grande De Gaulle, isso não aconteceria, mesmo porque o Tribunal de Contas seria, no meu entendimento, e no entendimento do seu mentor, Rui Barbosa, o órgão mais importante da nossa República – isso se nós o constituíssemos como seu fundador pensou. E seria mesmo, posso dizer isso porque lá vivi e conheci suas entranhas. Só existe ladroagem na Petrobras, mensalão e corrupção endêmica no resto do país, porque aos políticos analfabetos e mal-intencionados não interessa uma Corte de Contas com competência para prender ladrões da coisa pública. Rui pensou em um órgão de controle externo, auxiliar de informação “ao” Legislativo, mas a conveniência do Constituinte de 88 o transformou em órgão “do” Legislativo e, assim, criou, essa sinecura que está aí. No TCE-MG está, sem dúvida, o melhor quadro técnico do Estado, são mais de 800 técnicos com pós-graduação lato sensu em controle externo, desperdiçados.

Não estou aqui cuspindo no prato em que comi. Falei isso quando presidente daquela Corte, onde trabalhei decentemente por 14 anos. E continuo pensando que o TCE deveria e deverá ser um dia uma Câmara de Contas do Tribunal de Justiça, composta por desembargadores, à semelhança de suas câmaras cíveis e criminais, deixando, assim de, ser boca para deputado em fim de carreira.

Eu penso e sei que é assim.

Sylo Costa

A história da decadência brasileira


Na sua obra Espanha Invertebrada escreveu José Ortega y Gasset: “A história de uma nação não é somente a do seu período formativo e ascendente, mas também a história de sua decadência”. Tudo indica que entramos na história de nossa decadência desde que o governo petista assumiu o cargo mais alto da República.

Lula da Silva reinou em seu primeiro mandato sobre as águas mansas do Plano Real, das políticas públicas do governo anterior. Viajou muito, tornou-se amigo dos piores ditadores mundiais, gozou como nenhum outro presidente das delícias do poder. Delícias, aliás, compartilhadas com os companheiros cortesãos.

No segundo mandato se iniciará a decadência, desenhando-se o que viria em termos econômicos enquanto escândalos de corrupção aumentavam de volume e velocidade. Entretanto, o endeusamento de Lula da Silva, o inocente que nada via, de nada sabia, se mantinha pela força de sua lábia e ele emplacou o “terceiro mandato” através da eleição de Dilma Rousseff.

Os quatro anos desta senhora podem ser descritos como descalabro total. Sob as ordens de Lula ela quebrou a Petrobras e outras estatais, destruiu a indústria, arrebentou o país como um todo. Mesmo assim, com pequena diferença sobre seu adversário Rousseff foi reeleita pregando que Aécio Neves seria o exterminador do futuro brasileiro.

Logo no início do segundo mandato de Rousseff emerge, porém, o inevitável resultado da incompetência governamental, dos truques contábeis, da distorção dos dados: aumento da inflação, do desemprego, da inadimplência, das contas públicas, dos juros, dos impostos. Situação que Joaquim Levy tenta consertar preparando a volta de Lula, mas jogando o peso dos erros do governo sobre as costas do povo. São tempos duríssimos que não acabarão tão cedo, em que pesem as otimistas e sempre erradas previsões dos economistas.

Mas não é apenas econômica a decadência em que o governo de Lula da Silva nos mergulhou. Houve perda de valores e uma crescente amoralidade.

Aqui darei apenas um exemplo dos muitos que poderiam ser apresentados nesse aspecto. Como atinge a formação de crianças desde a mais tenra idade considero criminosas as tentativas que vem sendo feitas pelo governo de se impor como manipulador educacional sexual. No momento ressurge a ideologia de gênero, elaborada através de documento que servirá para formulação de planos municipais, pelo Fórum Nacional de Educação. Nesta construção arbitrária não existe diferença entre menino ou menina, não são levados em conta dados biológicos e psicológicos da identidade humana. O ser humano é considerado como assexuado e deverá escolher se quer ser masculino ou feminino. Seria como revogar a lei da gravidade.

Em magistral artigo, Educação Sexual Compulsória, publicado no Estado de S. Paulo em 08/06/2015, analisa Carlos Alberto di Franco as distorções dessa, diria eu, deseducação:

1) “A confusão causada nas crianças no processo de formação de sua identidade, fazendo-a perder referências; 2) a sexualização precoce, na medida em que a ideologia de gênero promove a necessidade de uma diversidade de experiências sexuais para a formação do próprio gênero; 3) a abertura de um perigoso caminho para a legitimação da pedofilia, uma vez que a ‘orientação’ pedófila é considerada também um tipo de gênero; 4) a banalização da sexualidade humana, dando ensejo ao aumento da violência sexual, sobretudo contra mulheres e homossexuais; 5) a usurpação da autoridade dos pais em matéria de educação dos filhos, principalmente em temas de moral e sexualidade, já que todas as crianças serão submetidas à influência dessa ideologia, muitas vezes sem o conhecimento ou consentimento dos pais”.

Ao tratar desse grave tema que toda sociedade devia tomar conhecimento fatalmente serei tachada de conservadora, o mais novo xingamento utilizado pelo neoesquerda para desqualificar os que não rezam por sua cartilha. Quero lembrar que a tese conservadora, assim como a progressista evoluiu ao longo do tempo em seu significado, mas, em essência, o conservadorismo se refere à natureza humana não modificável pela ação prática, porquanto mergulha suas raízes em uma realidade sobre-humana, a vontade divina. Em outras palavras, somos dotados de uma consciência e sabemos distinguir o bem do mal, em que pesem as várias noções de moral de cada sociedade.

Ao mesmo tempo, o conservadorismo indica que o poder político confiado ao homem é intrinsecamente tirânico se não for controlado. Daí a constante preocupação dos conservadores com a existência de mecanismos de limitação do poder e, principalmente, pela supremacia da lei.

Nesse sentido assumo ser conservadora, sendo ao mesmo tempo uma entusiasta de todo progresso que traga benefícios à humanidade. Lamentável é a decadência em que os autodenominados progressistas da neoesquerda impingiram à nação brasileira.

A miséria da educação e a educação da miséria


Todo dia, leitores me enviam relatos sobre a hegemonia marxista nos ambientes acadêmicos. Há exceções, claro, mas são isso mesmo. A coisa funciona mais ou menos assim:

1) cursos voltados para Educação intoxicam universitários com conteúdo marxista e explicações simplistas da realidade;
2) professores licenciados, elevados à condição de intelectuais orgânicos, vão para as salas de aula do ensino fundamental e médio ensinar o que aprenderam.

É a miséria da Educação. Ao longo do curso foram instruídos para serem agentes de uma “educação libertadora”, na qual o adjetivo é muito mais importante do que o substantivo. Aprenderam direitinho a conduzir seus alunos através dos estágios da investigação, da tematização e da problematização, tendo em vista fazê-los protagonistas da transformação da sociedade. Desde essa perspectiva, atividades escolares que enfatizem o conteúdo das disciplinas são uma rendição às “exigências do mercado” e indisfarçada posição de direita, certo? Então, ensinam-se convenientes versões da história, uma geografia política muito política, pouca matemática e se reverencia a linguagem própria do aluno. Consequência: mais de meio milhão tiram zero na redação do ENEM. Tais professores julgam perfeitamente honesto serem pagos para isso. Consideram absurdo que lhes pretendam cobrar desempenho. Julgam-se titulares do direito de fazer a cabeça dos alunos. Desculpem-me se repeti o que todos sabem, mas era necessário ao que segue.

Qual o produto dessa fraude custeada pelos impostos que pagamos como contribuintes à rede pública ou como pais à rede privada de ensino? Se você pensa que seja preparar jovens para realizarem suas potencialidades e sua dignidade, cuidando bem de si mesmos e de suas famílias, numa integração produtiva e competente na vida social, enganou-se. Ou melhor, foi enganado. O objetivo é formar indivíduos com repulsa ao “sistema”, a toda autoridade (inclusive à da própria família) e às “instituições opressoras impostas pelo maldito mercado”. Se possível, recrutar e formar transgressores mediante anos de tolerância e irresponsabilidade legalmente protegida, prontos para fazer revolução com muita pedrada e nenhuma ternura.

Se tudo der certo, o tipo se completa com um boné virado para trás, um baseado na mochila e uma camiseta do Che. A pergunta é: quem quer alguém assim na sua empresa ou local de trabalho? Em poucos meses, essa vítima de seus maus professores, pedagogos e autoridades educacionais terá feito a experiência prática do que lhe foi enfiado na cabeça. Ele estará convencido de que “o sistema” o rejeita de um modo que não aconteceria numa sociedade igualitária, socialista, onde todos, sem distinção de mérito ou talento, sentados no colo do Estado, fazem quase nada e ganham a mesma miséria.

É a educação da miséria. Os intelectuais orgânicos que comandam o processo não se importam com o para-efeito do que fazem. O arremedo de ensino que criaram cristaliza a desigualdade, atrasa o país, frustra o desenvolvimento humano de milhões de jovens e lhes impõe um déficit de formação dificilmente recuperável ao longo da vida. De outro lado, quem escapa à sua rede de captura e vai adiante estudará mais e melhor, lerá mais e melhor, investirá tempo no próprio futuro e, muito certamente, criará prosperidade para si e para a comunidade. O mercado separará o joio do trigo. No tempo presente, as duas maiores causas dos nossos grandes desníveis sociais são: a drenagem de 40% do PIB para o setor público e a incompetência que a tal “educação libertadora” e a respectiva ideologia impuseram ao ensino no Brasil.

Percival Puggina 

Agenda positiva do governo deveria ser 'Vergonha na Cara'

Por incrível que pareça, o governo Dilma Rousseff ainda não desistiu da marquetagem política, continua acreditando que a salvação é fabricar factóides, para criar o que eles chamam de “agenda positiva”.

O primeiro factóide “positivo” foi a compra da bike importada, para a presidente ser fotografada como uma cidadão comum, tipo “vejam, eu sou gente boa, igual a vocês!”, numa imitação do marketing esportivo de Collor, pois só faltou escreverem alguma frase na camiseta.

Agora, surge a segunda peça de marquetagem política visando a transformar num fato positivo a corrupção que corrói o governo, vejam a que nível de desfaçatez chegamos. A manobra começou com a criação de mais um órgão governamental, reunindo representantes de Executivo, Legislativo e Judiciário, com denominação tão extensa que não deu para formar uma sigla – o Gabinete de Gestão Integrada da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro.

E este tal gabinete já criou um grupo de trabalho, formado por representantes do Conselho Nacional de Justiça, do Conselho Nacional do Ministério Público, do Ministério da Justiça, da Controladoria-Geral da União, da Advocacia-Geral da União e da Ordem dos Advogados do Brasil, vejam como este povo não tem mais o que fazer, mas para participar do troféu Piada do Ano fingem que vão acabar com a corrupção.

Numa demonstração pública de que o governo não sabe como combater a corrupção, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que comanda o tal gabinete e o tal grupo de trabalho, acaba de lançar uma consulta pública, aberta a todos os cidadãos, para receber até o dia 8 de julho sugestões pelo e-mail http://participacao.mj.gov.br/anticorrupcao:

Bem, já que é assim, vamos fazer algumas propostas:

1) Não haverá prescrição para crimes de corrupção.

2) Os inquéritos e processos envolvendo em corrupção e lavagem de dinheiros os políticos, governantes e dirigentes de estatais serão feitos em rito sumário e terão penas superiores aos de crimes comuns.

3) Os processos para bloqueio de bens e ressarcimento do erário também tramitarão em rito sumário.

4) Haverá investigações rigorosas e com rito sumário para qualquer cidadão que demonstre enriquecimento ilícito sem comprovação.

5) Para maior eficiência do combate à corrupção e lavagem de dinheiro, haverá entrosamento e trabalho conjunto da Polícia Federal, Ministério Público e Receita Federal, com apoio dos órgãos especializados dos governos estaduais e municipais.

6) Para ocupar cargos técnicos, o governo deve nomear especialistas e não apadrinhados políticos.

7) Os partidos não podem receber doações de pessoas físicas ou jurídicas. Devem se manter com os repasses do Fundo Partidário, sem gastar fortunas em campanhas eleitorais.

8) As campanhas eleitorais passarão a ser feitas exclusivamente pelo rádio e televisão, nos horários gratuitos, mas com igualdade de oportunidades e de tempo de exposição, para que cada candidato se apresente ao eleitorado de forma simples e direta, sem produções de alto custo, sem gravações externas e efeitos especiais.

9) Haverá realização de debates obrigatórios para eleições majoritárias, transmitidos por rádio e TV, simultaneamente.

Por fim, lembremos a lição imortal de Capistrano de Abreu, um dos maiores historiadores brasileiros: “Eu proporia que se substituíssem todos os capítulos da Constituição por este artigo único: Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara.”

Rejeição ao PT


O governo encomendou pesquisas para entender a enorme rejeição atual que o povo brasileiro tem pelo PT. Alguns marqueteiros do governo dizem que é preciso “desconstruir” o discurso da oposição. Ora, não é preciso gastar mais do nosso dinheiro para ver o óbvio.

O PT traiu seus próprios ideais ao longo do tempo, quando permitiu que a maior onda de corrupção tomasse contra do país. Um partido que se dizia contra os corruptos não poderia nunca agir dessa forma e, hoje, é muito pior do que todos aqueles que ele combatia no seu início, para decepção de muita gente que acreditou no partido.

Alguns dizem que uma parte da sociedade (elites) tem ódio do PT; na verdade, grande parte da sociedade não tem ódio, e sim, indignação contra um bando de corruptos que montou um plano para sugar ao máximo as riquezas do Brasil.


Quem tenta dividir o país pelo ódio na verdade é o PT, com seus discursos absurdos, como o caso da filósofa petista Marilena Chauí que, perante uma assembleia do PT, berrou sob os aplausos de Lula: “odeio a classe média, pois é o que tem de pior, reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante”.

Da mesma forma, o próprio Lula fala toda hora sobre uma “herança maldita” quando se refere ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e se esquece de mencionar alguns de seus grandes feitos na economia do país, como o controle da inflação. Esse mesmo Lula que joga pobres contra ricos, empregados contra patrões, tentando dividir o país, quando é perguntado sobre roubos e corrupção dentro do seu partido, aí não sabe de nada.

Existe, sim, muita indignação no país. Indignação contra a arrogância dos governantes, contra a incompetência, corrupção e a mania de sempre querer transferir a culpa para o outro. O PT fez de tudo para ganhar as eleições para, em seguida, fazer exatamente o contrário do que pregou durante sua campanha e mergulhar o país numa economia caótica. De quem é a culpa? Será que vão gastar mais dinheiro com marqueteiros e mídia tentando enganar o povo e dizendo que são vítimas e não culpados?

Quem viu o Lula debochando dos pastores, dizendo que a culpa de todos os males é o diabo, e a resposta do pastor Silas Malafaia, entende quem é o grande vilão da história.

Plano não tem força para levantar o PIB neste mandato


O esforço do governo em impulsionar as concessões é válido não só porque esse é um grande gargalo da economia, mas também porque é uma das poucas formas de tentar impulsionar o crescimento do país.

Como os investimentos demoram a se consolidar, seus principais efeitos não serão sentidos nos próximos quatro anos, nem mesmo que o plano dê certo.

Segundo o próprio ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, dos R$ 198,4 bilhões de investimentos previstos, apenas R$ 69 bilhões devem acontecer até 2018. O resto fica para depois.

Uma conta simples dá uma melhor dimensão do que esse investimento corresponde em relação ao nosso PIB, que chegou a R$ 5,5 trilhões no ano passado, segundo o IBGE.

Os R$ 69 bilhões previstos até 2018 correspondem a cerca de 1,2% do PIB. Se esse valor for diluído pelos próximos três anos, serão R$ 23 bilhões por ano. Ou seja o impulso do programa seria de 0,4 ponto do PIB por ano.

O principal efeito do programa é tentar reverter a confiança, principalmente dos empresários. Mas ele sozinho não resolve nosso problema do baixo crescimento.
Míriam Leitão

O escândalo é um só

O mensalão é apenas uma parte — e uma das menores, hoje se sabe — do plano de assalto ao Estado protagonizado pelo condomínio que o lulopetismo instalou no poder em 2003. Assim, dez anos passados daquele famigerado escândalo, que mobilizou o País por vários meses e terminou com a prisão de um punhado de réus poderosos, fica muito claro que o episódio não passou de um esquema marginal dentro de uma sofisticada estrutura montada para rapinar bens públicos, em escala nunca vista na história brasileira.

Portanto, pouco há a comemorar, pois, com o mensalão, se foi rompida parcialmente a lógica da impunidade, nenhuma página foi, de fato, virada. A cada nova descoberta das autoridades policiais e judiciais no caso do petrolão e de outros esquemas comprova-se que nada, nessas investigações, pode ser tomado de forma isolada. Todos esses escândalos são, na verdade, um só – o escândalo de uma quadrilha que transformou partidos políticos em máquinas para exaurir os recursos do Estado de diversas maneiras, em favor de projetos pessoais e de poder de seus dirigentes.


O mensalão chegou ao conhecimento público com esse nome em junho de 2005, graças a acusações feitas na ocasião pelo então deputado petebista Roberto Jefferson. Segundo o parlamentar, o então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, pagava mesadas de R$ 30 mil a deputados do PL e do PP em troca de apoio no Congresso.

Como costumam fazer sempre que são acuados por denúncias, os petistas reagiram insultando a inteligência dos brasileiros. Em nota oficial, garantiram que o relacionamento do PT com os demais partidos da base aliada se assentava “em pressupostos políticos e programáticos”, descartando qualquer forma de corrupção.

Com o passar do tempo e o surgimento de evidências de um crime muito maior do que o denunciado por Jefferson, a narrativa petista foi mudando. Primeiro, quando sua reeleição parecia sob ameaça, o então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, se disse “indignado” e afirmou que o PT precisava “pedir desculpas”. Nessa mesma toada, Delúbio admitiu que as campanhas eleitorais do partido usaram “recursos não contabilizados”, mas os petistas, Lula inclusive, atribuíram essa prática a um mero esquema de caixa 2, do qual, segundo essa versão, todos os partidos lançam mão.

Quando ficou evidente que o Brasil estava diante de “um dos episódios mais vergonhosos da história política de nosso país”, como o qualificou o ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal, em seu histórico voto pela condenação desse “grupo de delinquentes que degradou a atividade política”, os petistas passaram a se dizer vítimas de um “julgamento de exceção”.


Desde então, os documentos produzidos pelo partido para reagir às seguidas denúncias de malfeitos – como os petistas apelidaram crimes capitulados em lei – respeitaram a gramática da vitimização. A palavra “golpe” passou a ser usada profusamente pelos dirigentes petistas, inclusive, e em mais de uma ocasião, pela presidente da República, Dilma Rousseff. Junte-se a isso a cantilena de que os escândalos só vêm à luz porque o governo petista permite que sejam investigados, como “nunca antes na história deste país”, e tem-se uma impostura completa.

Digam o que disserem os líderes petistas, porém, vale o que está nos autos do mensalão – e lá está claro que o PT transformou os ganhos oriundos da corrupção na própria razão de ser de sua prática política. Os escândalos depois desvendados são consequência dessa opção.

Nos dez anos do mensalão, e atordoado diante da constatação de que ainda estamos longe de conhecer a totalidade dos malfeitos cometidos nesse período, o País já percebeu que os governos lulopetistas são verdadeiras caixas-pretas, a guardar sombrios segredos, escondidos pela blindagem do populismo e da demagogia, que transforma os críticos do modus operandi petista em inimigos dos pobres. Nem o mensalão nem o petrolão são capazes de resumir essa história de corrupção e desfaçatez da qual, infelizmente, temos apenas um pálido vislumbre. 

Coxinha!


Por aqui, a gente fica feliz quando recebe visita dos conterrâneos. Amizade verdadeira ignora fronteiras e despreza distancia. Receber amigos no aeroporto vale a pena. Sempre. E muito.

Naturalmente, o primeiro assunto da conversa, ainda no saguão da saída, é como estão as coisas na terrinha. E, nestes tempos bicudos, as noticias, parece, não são boas. Otimismo é coisa rara, alegria difícil. A realidade não tem cooperado.

E foi neste momento que aconteceu. Um desconhecido, também conterrâneo, tendo também chegando a Vancouver, nos abordou para, (segundo ele) com todo o respeito, discordar do pessimismo.

Tudo indica não se tratava de um otimista desavisado. Na melhor das hipóteses, alguém cujas crenças são tão fortes que a realidade deixou de lhe interessar faz muito tempo. Na pior das hipóteses, sua falta de contato com o mundo real era resultado de algum tipo de loucura no sentido clinico da palavra.

Descrevia um lugar onde a perfeição, embora ainda não atingida, era apenas uma questão de tempo. Orgulhosamente, dizia que, nestes dias, o surto de prisões e indiciamento é resultado de vontade genuína dos governantes de combater os malfeitos (até hoje não entendi porque se usa esta palavra).

Neste paraíso terreno, os governantes elevaram a integração vertical no combate a malfeitos (somente para a gente não mudar a terminologia) ao estado da arte. O mesmo grupo fornece os malfeitores, supervisiona a execução dos malfeitos, providencia a prisão, e se orgulha de todo o processo.

Os problemas, dizia, tinham sua origem em uma combinação de fatores pouco definidos coordenados por um grupo de pessoas para proteger interesses estrangeiros. A crise, enfim, é culpa dos outros. De preferencia dos outros países.

Queixou-se da intolerância. Falava sem parar. Sem pontos ou vírgulas. Disse que o governo é vitima de campanhas baseadas em ódio, preconceito e intolerância. Perseguição sem razão, devido apenas a uma mistura de ignorância e conspiração internacional.

A situação pedia fuga rápida. Mas nosso interlocutor, prevenido, tinha o habito de segurar suas vitimas pelo braço. Provavelmente para prevenir a fuga das vitimas de suas palavras. Nós, afinal, certamente não éramos suas primeiras vitimas. Outras no passado lhe devem ter escapado.

Em momento de distração, soltou meu braço. Aproveitei a deixa, me desculpei e me despedi. Tenho que ir, disse. Andei alguns metros. Ouvi o grito: “Coxinha! ”.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Ai de ti, Brasil!*

01

Ai de ti, Brasil, eu te mandei o sinal, e não recebeste. Eu te avisei e me ignoraste, displicente e conivente com teus malfeitos e erros. Ai de ti, eu te analisei com fervor romântico durante os últimos 20 anos, e riste de mim. Ai de ti, Brasil! Eu já vejo os sinais de tua perdição nos albores de uma tragédia anunciada para o presente do século XXI, que não terá mais futuro. Ai de ti, Brasil – já vejo também as sarças de fogo onde queimarás para sempre! Ai de ti, Brasil, que não fizeste reforma alguma e que deixaste os corruptos usarem a democracia para destruí-la. Malditos os laranjas e as firmas sem porta.

Ai de ti, Miami, para onde fogem os ladrões que nadam em vossas piscinas em forma de vagina e corcoveiam em “jet skis”, gargalhando de impunidade. Malditas as bermudas cor-de-rosa, barrigas arrogantes e carrões que valem o preço de uma escola. Maldita a cabeleira do Renan, os olhos cobiçosos de Cunha, malditos vós que ostentais cabelos acaju, gravatas de bolinhas e jaquetões cobertos de teflon, onde nada cola. Por que rezais em vossos templos, fariseus de Brasília? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados???

Ai de vós, celebridades cafajestes, que viveis como se estivésseis na Corte de Luís XIV, entre bolsas Chanel, gargantilhas de pérola, tapetes de zebra e elefantes de prata. Portais em vosso peito diamantes em que se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis. Ai de vós, pois os miseráveis se desentocarão, e seus trapos vão brilhar mais que vossos Rolex de ouro. Ai de ti, cascata de camarões!

Tu não viste o sinal, Brasil. Estás perdido e cego no meio da iniquidade dos partidos que te assolam e que contemplas com medo e tolerância? Cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras, e deste risadas ébrias e vãs no seio do Planalto. Ai de vós, intelectuais, porque tudo sabeis e nada denunciais, por medo ou vaidade. Ai de vós, acadêmicos que quereis manter a miséria “in vitro” para legitimar vossas teorias. Ai de vós, “bolivarianos” de galinheiro, que financiais países escrotos com juros baixos, mesmo sem grana para financiar reformas estruturais aqui dentro. Ai de ti, Brasil, porque os que se diziam a favor da moralidade desmancham hoje as tuas instituições, diante de nossos olhos impotentes. Ai de ti, que toleraste uma velha esquerda travestida de moderna. Malditos sejais, radicais de cervejaria, de enfermaria e de estrebaria – os bêbados, os loucos e os burros –, que vos queixais do país e tomais vossos chopinhos com “boa consciência”. Ai de vós, “amantes do povo” – malditos os que usam esse falso “amor” para justificar suas apropriações indébitas e seus desfalques “revolucionários”.

Ai de vós, que dizeis que nada vistes e nada sabeis, com os crimes explodindo em vossas caras.

Ai de ti, que ignoraste meus sinais de perigo e só agora descobriste que há cartéis de empresas que predam o dinheiro público, com a conivência do próprio poder. Malditas sejam as empresas-fantasma em terrenos baldios, que fazem viadutos no ar, pontes para o nada, esgotos a céu aberto e rapinam os mínimos picuás dos miseráveis.

Malditos os fundos de pensão intocáveis e intocados, com bilhões perdidos na Bolsa, de propósito, para ocultar seus esbulhos e defraudações. Malditos também empresários das sombras. Malditos também os que acham que, quanto pior, melhor.

A grande punição está a caminho. Ai de ti, Brasil, pois acreditaste no narcisismo deslumbrado de um demagogo que renegou tudo que falava antes, que destruiu a herança bendita que recebeu e que se esconde nas crises, para voltar um dia como “pai da pátria”. Maldito esse homem nefasto, que te fez andar de marcha à ré.

Ai de ti Brasil, porque sempre te achaste à beira do abismo ou que tua vaca fora para o brejo. Esse pessimismo endêmico é uma armadilha em que caíste e que te paralisa, como disse alguém: és um país “com anestesia, mas sem cirurgia”.

Ai de vós, advogados do diabo que conseguis liminares em chicanas que liberam criminosos ricos e apodrecem pobres pretos na boca do boi de nossas prisões. Maldita seja a crapulosa legislação que vos protege há quatro séculos. Malditos os compradiços juízes, repulsivos desembargadores, vendilhões de sentenças para proteger sórdidos interesses políticos. Malditos sejam os que levam dólares nas meias e nas cuecas e mais ainda aqueles que levam os dólares para as Bahamas.
Ai de vós! A ira de Deus não vai tardar...

Sei que não adianta vos amaldiçoar, pois nunca mudareis a não ser pela morte, guerra ou catástrofe social que pode estar mais perto do que pensais. Mas, mesmo assim, vos amaldiçoo.

Ai de ti, Brasil!

Já vejo as torres brancas de Brasília apontando sobre o mar de lama que inundará o Cerrado. Já vejo São Paulo invadida pelas periferias, que cobrarão pedágio sobre vossas Mercedes. Escondidos atrás de cercas elétricas ou fugindo para Paris, vereis então o que fizestes com o país, com vossa persistente falta de vergonha. Malditos sejais, ó mentirosos, vigaristas, intrujões, tartufos e embusteiros! Que a peste negra vos cubra de feridas, que vossas línguas mentirosas sequem e que água alguma vos dessedente. Ai de ti, Brasil, o dia final se aproxima.

Se vossos canalhas prevalecerem, virá a hidra de sete cabeças e dez chifres em cada cabeça e voltará o dragão da Inflação. E a prostituta do Atraso virá montada nele, segurando uma taça cheia de abominações. E ela estará bêbada com o sangue dos pobres, e em sua testa estará escrito: “Mãe de todas as meretrizes e mãe de todos os ladrões que paralisam nosso país”. Ai de ti, Brasil! Canta tua última canção na boquinha da garrafa.

Arnaldo Jabor
(*) Homenagem a Rubem Braga

Desemprego na veia


Queremos todos os brasileiros empregados. Precisamos assegurar empregos para aquela parte da população "que é a mais frágil" explicava a presidente Dilma Rousseff quando, ainda em seu primeiro mandato, examinava a desoneração das folhas de pagamentos das empresas por meio da redução de encargos sociais e trabalhistas que incidem sobre o custo da mão de obra. Esses encargos são armas de destruição em massa das oportunidades de emprego no Brasil. Sua redução protegeria milhões de empregos formais na economia, com custos mais baixos para as empresas e melhores salários para os trabalhadores. A guerra mundial por empregos, a nossa gradual desindustrialização pela perda de competitividade e por excesso de impostos, bem como nossa rápida desaceleração econômica, explicavam a tentativa de proteger a criação de empregos por meio da redução dos encargos.

Agora, a necessidade de implementar o ajuste fiscal leva o governo à tentativa de aprovar na Câmara de Deputados a reoneração das folhas de pagamento. É devastador o impacto dos encargos sociais e trabalhistas sobre a geração de empregos formais na economia brasileira. O excesso de impostos que incidem diretamente sobre o uso da mão de obra tornou-se um mecanismo sistêmico de exclusão social, dando origem a um gigantesco mercado de trabalho informal, com dezenas de milhões de trabalhadores que, por sua vez, não contribuem para a previdência social. O atual sistema funciona como se tivéssemos de condenar ao desemprego por toda a sua vida um trabalhador brasileiro para que outro possa desfrutar um emprego formal e usufruir os benefícios previdenciários.

A cumplicidade dos economistas com a reoneração das folhas, essa injeção de desemprego na veia, é inaceitável, pois o silêncio dos especialistas permite a perpetuação de uma enorme injustiça: são exatamente os mais frágeis, os menos preparados, que se tornam vítimas das demissões. Um cínico explicaria a insensibilidade dos economistas por sua remuneração sob forma de dividendos ou pagamentos a suas pessoas jurídicas. Um político diria que é mais fácil aumentar impostos sobre os mais fracos do que cortar gastos públicos. Um economista de boa estirpe indicaria a mãe de todos estes males: é por ignorância que não ousamos as reformas.

#eu quero luz

Cultura é tudo o que acontece ao nosso redor. E não tem nada a ver com política cultural. A reflexão é da chilena Maria Paulina Sotto Labbé, 50 anos, que diz-se dedicada “à investigação cultural”.

Simplificando o pensamento e a definição de Maria Paulina, podemos refletir que aqui, agora, estamos cercados da cultura de descrença e da raiva, que gera desânimo e infelicidade para todo lado.

Ah, não tem jeito mesmo!

Volta o sonho de mudar de país, que embalou e levou tantos nos anos 90. De novo, quem pode vai. Quem não pode sonha ir e inveja os que vão. Lá é muito melhor do que está aqui. Particularmente se esse lá for os Estados Unidos, que saíram da crise e voltam a vender o velho sonho de fazer a América. (Longe, principalmente do PT. O demo do momento).

A maioria que fica emburra. Revoltada e gritona, não aceita as diferenças nem na ficção das novelas, da publicidade. (Aliás, a chilena lembra que a publicidade é quem mais modela os gostos culturais. Ou seja, os reacionários têm boa mira).

Ta ruim na rua, em casa não quero ver nem saber de nada que me incomode. E dá-lhe nariz torcido para tudo – da administração Dilma aos homos do Boticário. Cruzes!

Ai cabendo muitas raivas (in)contidas – da perda do sagrado direito de ter uma empregada doméstica a custo baratinho ao medo da violência crescente. Da roubalheira à inflação. Tudo atribuído ao governo, qualquer que fosse ele.

Como não confiamos nem admiramos os que respondem pelos comandos da sociedade também desprezamos, desdenhamos e, principalmente, abominamos seus ditos e desditos. E tome cultura de resmungos e lamentos de tudo e por tudo. Até da santa democracia – a permissiva, a que “possibilita” tantas afrontas à família, à religião, à moral e aos bons (?) costumes.

Aff! Há uma multidão cobrando proibições. Afinal, proibir, determinar na lei ou na marra “assim, isso não pode” é muito mais fácil do que encarar, debater, confrontar para ganhar ou para perder. Ou, até sem aceitar, conviver com o que não se aprova.

É a cultura feia do momento argh, aflorado neste 2015. De lascar! Tem viés autoritário, quer conter e negar o que, sorry, já mudou. É reacionária e tem cara de passado. Não oferece futuro. Só chafurda no ruim. (E eu não estou falando de política, mas de costumes, comportamentos.)

Ai de nós se não reagirmos.

Mas vem a chilena singela e vai dizendo que a cultura é misteriosa e que nunca vamos conseguir decifrá-la completamente. Lembra, em entrevista curta, que o direito à beleza e à cultura (essas coisas fluidas que nos cercam) não foi incorporado à Declaração Universal de Direitos Humanos. O que foi corrigido, em 1972, na Convenção dos Direitos Sociais e Culturais.

Conta que no Chile, pós-ditadura, foram criados “espaços públicos para agregar jovens”, pois pensavam que a insegurança e a desconfiança, consequências da ditadura, fariam com que os jovens chilenos nunca mais voltassem a conversar com desconhecidos e assim trocar ideias, anseios.

“Os espaços públicos servem para isso. Eles facilitaram que movimentos contraculturais se fortalecessem”, contou e reforçou o conceito da força criativa.

Quem sabe saímos do escuro para espaços de criatividade, para reinventar bonito o que anda feio. E, apesar dos nossos pesares, da raiva, da frustração e do medo, criar. Feito os livrinhos da moda, colorir e desenhar saídas. E sair por elas. Com direito à beleza.

Ajuste inibe investimentos na sobrecarregada área de saúde

Sem dinheiro, prefeitos preveem diminuir investimento em novos equipamentos públicos

Apontada pela população como o pior problema do país em diversas pesquisas, a área da saúde, vítima de um financiamento já insuficiente, pode sofrer uma piora com efeitos a longo prazo no atual cenário de crise política. Aliada ao ajuste fiscal do Governo federal, a diminuição na arrecadação local já tem levado gestores municipais, os principais responsáveis pela atenção básica (como pronto-socorro, posto de saúde e Samu), a repensarem os investimentos em novos equipamentos já planejados, assim como vem acontecendo na área da educação.

No final do mês passado, o Governo federal anunciou que o país terá quase 70 bilhões de reais a menos do que o programado neste ano para investir, 11,77 bilhões de reais deles na saúde. Apesar de garantir que programas essenciais como a atenção básica, a vacinação obrigatória e o programa Mais Médicos não serão afetados, já é possível saber que é menor a previsão de gastos gerais com programas e ações de saúde (o que, de fato, é aplicado em atendimento de saúde; exclui, por exemplo, itens como investimento em saneamento básico feito com verba do ministério).

Enquanto em 2014 a verba do órgão para esses programas e ações foi de 92,2 bilhões de reais, neste ano ela deverá ser de 91,5 bilhões. O ministério diz, no entanto, que o valor, que foi reduzido pelo ajuste fiscal, pode aumentar no decorrer do ano. A maior parte dessa verba é transferida para Estados e municípios, que fazem a maior parte do atendimento da população.

“O primeiro sintoma desse processo é a resistência de muitos gestores em fazer qualquer investimento. Investimento de hoje significa a ampliação dos gastos no futuro”, explica Fernando Monti, secretário municipal da Saúde de Bauru (interior de São Paulo) e presidente do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems). “Se a construção de uma unidade de saúde custa 5 milhões de reais, o município vai ter que gastar mais 5 milhões de reais por ano para conseguir mantê-la”, exemplifica.

Vale tudo por uma agenda positiva


Dilma está prestes a reforçar a agenda positiva com um Plano de Investimento em Logística, "o maior já visto no país", como não poderia deixar de ser vindo do PT, sempre jogando pra galera, Falam em mais de R$ 100 bilhões em concessões, que antigamente eram apelidadas pejorativamente pelos petistas como privatizações. Tudo esquecendo que o mesmo PIL foi lançado em 2012 com previsão de R$ 200 bi.

Segundo o ministro Edinho Silva, da Secom, também serão depois anunciados mais planos em energia e no projeto Banda Larga para Todos sem esquecer a Agricultura Familiar e uma nova fase do programa Minha Casa Minha Vida. Vão inundar a agenda positiva para tentar navegar em águas próprias.

Verdadeiramente, em tempos de crise político-econômica, será um banho para deixar qualquer brasileiro orgulhoso de ser governado pelo PT, e dando graças por ter uma presidência de fazer inveja a qualquer país em qualquer momento da história antiga e até vindoura. De cantar grandeza o PT não morre. A garganta petista é mesmo profunda e sem fundo.

Por trás de tanta maravilha é que mora o perigo. A entrada dos bilhões é para cobrir o rombo bilionário do desastroso primeiro mandato com farta distribuição de dinheiro e muita corrupção. Não tem nada com uma nova etapa como apregoam. Precisam rapidamente cobrir o buraco e garantir o trocado para não mexerem no "imexível".

Até agora só cortaram na carne... dos outros. Estão empurrando com a barriga para não mexerem no essencial: a redução dos ministérios e o exército comissariado de 20 mil cargos no Executivo e que supera os 700 mil nos governos estaduais e municipais. Todos devidamente abastecidos pelo dinheiro do contribuinte que trabalha.

Essa gente arreganha os beiços, zurra bem alto e dá seus coices, pois imbecilidade não tem cor, credo, educação nem classe social, por isso aplaude com as patas a cretinice que impera no país e até garante a bandidagem em cargos. É esse que o tal PIL vai tentar tirar da reta. Quanto aos bilhões, é coisa de somenos importância. Servem apenas com seus zeros para engambelar os otários e contribuintes, os zerados de poder.

O que te faz feliz

Edinho Silva anunciando o recriado PIL

E os ministros de qualquer Estado sempre foram iguais. Blá, blá, falam, falam sem chegar a lugar nenhum, e deixam-te feliz e enganado.
Cesare Pascarella (1858-1940), La Scoperta de l'America

Matemática na iminência do tiro


Na iminência do tiro... E você perder a vida. Deixar filhos órfãos, viúva, pais e parentes aos prantos a pedirem Justiça. Mais um a protagonizar os programas bang-bang de TV brasileira e a fazer crescer a assustadora estatística comparável aos países em guerra. Das 50 cidades mais violentas no mundo, um terço fica no Brasil. O 11º mais inseguro. Em torno de 50 mil homicídios por ano. Grosso modo, 3% cometidos por menores; 1.500; inimputáveis por crimes. E se prega tanto quanto à impunidade como causa maior da violência.

Números de somenos, pois que só um basta para quem o perdeu, sob a barbárie do criminoso com cinco, seis, entradas e saídas no sistema carcerário. A lamentar e condenar,menores, maiores, pretos, brancos, amarelos, indígenas, homossexuais, héteros, pelos assassinatos cometidos seja contra menores, maiores, pretos, brancos, amarelos, indígenas, homossexuais ou héteros.

Dia desses no programa bang-bang que reproduz a realidade um comerciante teve a loja assaltada por dois bandidos, um com 25 anos e outro com 17. Rendida a funcionária e diante do inesperado encontro com o dono da loja, pouco dinheiro, coleta de produtos de informática e natural nervosismo presente, houve reação e troca de tiros.

Na vida, diferente dos filmes, onde o mocinho sempre vence, morre mais gente d​e bem, trabalhadores, do que os bandidos. No caso, os bandidos perderam. Os “dois se foram”, e o mocinho foi preso em flagrante, acusado por homicídio doloso. Ele que escapara da morte e defendera a funcionária em confronto com criminosos de arma em punho e encapuzados. Não só preso, mas colocado na cela com outros bandidos por 24 horas. Ele que se apresentara espontaneamente na delegacia. Um dos mortos era procurado pela polícia e a loja já fora assaltada por oito vezes.

Em pauta o número de disparos. Alega o comerciante que o bandido fez três disparos; aponta duas marcas nas paredes e outra no livro dilacerado. O delegado na mesma reportagem, diz que foi somente um e completa... Se tivesse feito um ou dois disparos... Tiros nas costas... Na cabeça. Para a polícia ele não agiu em legítima defesa e teve a intenção de matar os dois assaltantes.

Imagina você armado, a tentar preservar a sua vida e da funcionária, após oito assaltos, com a mente a desenrolar incontáveis cenas de atrocidades praticadas pelos bandidos de um modo geral, da dentista queimada viva porque só tinha 30 reais ao ciclista morto a facadas. Ter que contabilizar o número de tiros na ciranda da morte, na busca de abrigo e condições de revidar e se contrapor a dois bandidos, e de aferir se o tiro vai atingir a cabeça ou as costas dos invasores do seu local de trabalho. Faça-me o favor!

Embora não tão simplista a divisão da sociedade se dá entre o assaltante, invasor, o cidadão de bem e a polícia, sob o império da lei. A entender que criminoso não é somente o que mata com pistola ou faca, mas o que usa a caneta em benefício próprio, desvia recursos públicos que seriam destinados para a construção de redes de esgoto, assistência médica nos postos de saúde e hospitais, na malha viária, etc onde morrem milhares de cidadãos. E também na construção de presídios, onde dignamente deve permanecer o apenado longe da sociedade que despreza, mas na esperança de que um dia a ela se reintegre.

A sociedade entende a situação do policial no enfrentamento diário com bandidos de toda a espécie, do que o mata com requintes de crueldade por identificá-lo como agente da lei, às quadrilhas fortemente armadas, por vezes com poder de fogo acima do oferecido pelo Estado.

Do psiquismo que os envolve nessa luta de guerrilha urbana onde o bandido ataca onde não se espera e foge para as áreas de homizio nas favelas e periferias, também desprezadas pelo poder público. O “onde” com milhares de oportunidades, do colar no pescoço de uma senhora ao celular de um jovem estudante, do aposentado que retira o salário parco surripiado pelo fator previdenciário e o perde no assalto na esquina. Etc... Etc...

A sociedade percebe que o policial é alvo dos bandidos, mas o cidadão é o objetivo e também tem o direito de se defender e receber a proteção do Estado.

Pelo fim dos privilégios

Chamou a atenção a notícia da troca de carros do Superior Tribunal Militar. A modernização da frota, que implica a compra de 17 sedãs ao custo unitário de R$ 116 mil, passaria despercebida em outras épocas. Senão despercebida, pelo menos rotineira, nada digno de registro além do burocrático. Em tempos de crise, porém, o fato traz à tona velha questão que precisa ser enfrentada com determinação.


Trata-se de privilégios que fincam raízes no setor público. Carro com motorista talvez seja o mais simbólico. Mas não é o único. A ele se somam cartões corporativos, residências oficiais, combustível, garçons, elevadores privativos, verbas de representação. Difícil encontrar justificativa para a manutenção de mordomias ultrapassadas que, além de onerar o erário, servem de mau exemplo para as três esferas do poder.

Estados e municípios reproduzem as benesses com a naturalidade de quem dá bom dia ao entrar no elevador ou diz até logo ao se despedir. Prefeituras que sobrevivem à custa do Fundo de Participação dos Municípios não abrem mão de benefícios anacrônicos usufruídos em âmbito estadual e federal. ONGs que recebem dinheiro proveniente de impostos cobrados dos contribuintes também sofrem o contágio do mau exemplo. Instituições que embolsam contribuições parafiscais não ficam atrás.

A Constituição diz que todos são iguais perante a lei. A prática do setor público, porém, teima em provar que se trata de princípio que não pega. No século 21, nada mais retrógrado do que sustentar o modelo de casa grande e senzala. Quem ostenta o cartão de autoridade se vacina contra o povo. Isola-se. Não usa transporte público, não se trata em hospital público, não se satisfaz com a segurança pública, não matricula os filhos em escola pública. Até o tratamento muda. O democrático senhor cede lugar ao aristocrático excelência.



Crise, dizem os chineses, é oportunidade. As agruras por que passa a economia obrigam o governo a cortar gastos. Educação, saúde, saneamento, mobilidade sofrem na carne e nos nervos a redução no orçamento. As vítimas são estudantes, enfermos, trabalhadores - pessoas que constroem o futuro da nação. Dilma Rousseff, primeira mulher a presidir o país, pode deixar marca capaz de diferenciá-la dos antecedentes. Acabar com os privilégios é passo importante para sintonizar o país com a contemporaneidade.

O tempo se encarregou de relegar ao passado práticas que fizeram sentido em determinado contexto, mas se tornaram inaceitáveis com as mudanças da sociedade. É o caso da escravidão, da homofobia, da corrupção, da discriminação da mulher, da intolerância étnica, cultural e religiosa. É o caso, também, dos privilégios no serviço público. Como o Estado não planta dinheiro, sustenta mordomias com o meu, o teu, o nosso trabalho. Passou da hora de dar o salto para o século 21.



Formação de leitores passa por binômio educação-cultura

Jornada de Passo Fundo, coordenada por Tania Rosing, foi cancelada após 34 anos

Quando o foco é educação, sentimo-nos, enquanto educadores, desafiados a desencadear um conjunto de ações, aparentemente simples, com o intuito de formar leitores, capazes de atuar com autonomia e com um apurado senso crítico nas práticas sociais. Contemporaneamente, apresentam-se cada vez mais dimensões e segmentos que devem ser dominados pelos diferentes atores sociais. Não apenas sendo preparados para refletir individualmente sobre as formas de participar em diferentes grupos com a manutenção de suas identidades, mas também sendo estimulados a compreender no coletivo o que se vê, sem deixar de identificar o que não se vê e subjaz a cada ação, a cada manifestação, a cada contexto, em distintas situações do cenário humano. Para isso, precisamos de leitores.
De nada adianta viver sem buscar insistentemente o entendimento, no contexto do binômio educação-cultura, das manifestações culturais que determinam a essência e a significação da presença humana no mundo. Faz-se necessário envolver cada um e todos na busca do sentido e da essência de suas presenças e distintas participações na sociedade, pelo viés do binômio educação-cultura em sintonia. É fundamental que as pessoas se tornem leitores.

Nesta perspectiva, ocorre a possibilidade de desenvolverem, de forma diferenciada, suas sensibilidades, com estímulo ao desenvolvimento do gosto literário. É imprescindível transformarem-se em leitores literários. E mais: cada sujeito amplia o entendimento sobre si mesmo e nas relações com os outros, passando a valorizar manifestações artístico-culturais.

Apreciar a música desde a sua dimensão clássica até a música popular, entender a singularidade da participação direta numa plateia de teatro, ampliar as relações entre literatura e cultura, enquanto frequentadores de museus e de centros culturais, enquanto apreciadores da pintura, da escultura, da dança, dos produtos audiovisuais, da fotografia em suas dimensões plurais. Todas essas possibilidades impõem a formação de leitores com o potencial de entendimento das diferentes linguagens que integram cada manifestação da arte e da cultura não a partir de ações eventuais, mas no contexto de uma movimentação cultural.

Palavras sábias do inesquecível filósofo e dramaturgo Alcione Araújo reforçam esse posicionamento: “Siamesas, educação e cultura se completam. A percepção do mundo — objetiva e subjetiva — se deve à ação simultânea — subjetiva e objetiva — da educação e da cultura".

As Jornadas Literárias de Passo Fundo, ao longo de mais de três décadas, promoveram uma movimentação cultural sustentada pelo binômio educação-cultura, acrescentando, nos últimos tempos, a dimensão da tecnologia. Entendíamos a necessidade de sustentar o processo de formação de leitores pela lógica da ciência, ao lado da preocupação com o desenvolvimento da sensibilidade, da subjetividade pela valorização, pelo entendimento e pela vivência das artes.

Estávamos e continuamos preocupados em contribuir com o desenvolvimento e o aprimoramento de crianças, jovens e adultos, propondo vivências leitoras interdisciplinares, multiculturais, multimidiais. A complexidade do mundo em que vivemos impõe ao desenvolvimento da formação escolar, da formação acadêmica uma dimensão humanista em que se vivencia Educação e Cultura. Em termos da formação literária e do gosto pelas manifestações da arte, da cultura, entende-se que estas, sem perder a sua essência, podem ser veiculadas e o que é melhor, apreciadas em diferentes mídias.

O processo de aprimoramento humano requer não apenas esforços, crença, dedicação, mas recursos financeiros. Não se promove educação-cultura-tecnologia sem dinheiro. Não é menor falar de dinheiro. Defende-se o desenvolvimento do ser humano em sua essência. Isto basta. O que está proibido é deixar de sonhar. Sonhar o possível, mas principalmente o impossível. Não desejamos acordar desse sonho o protagonista que é o ser humano em busca da perfeição pela leitura, pela leitura ampla, pela leitura expandida. Ruídos podem acordar esse sujeito.

Devemos, enquanto educadores, acalentar esse homem, essa mulher, esse jovem, essa criança para que, pelo sonho, aprimorem-se. Esta foi nossa luta nos 34 anos em que lideramos as Jornadas Literárias de Passo Fundo.

Tania Rosing (criadora e coordenadora geral das Jornadas Literárias de Passo Fundo entre 1981 e 2015)