terça-feira, 12 de maio de 2015

O PCdoB celebra um genocida

Com a desculpa de celebrar um capítulo da vitória dos Aliados contra a Alemanha nazista, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) fez uma verdadeira homenagem ao genocida Josef Stálin, responsável pela morte de mais de 60 milhões de seres humanos.

O PCdoB publicou em seu site o editorial “Em 9 de maio, os 70 anos da gloriosa vitória de um ideal”, no qual confunde propositalmente a derrota dos nazistas com “a vitória do ideal comunista”, uma falsificação da História que lembra as profecias de Orwell:

“O 9 de maio representa a derrocada da ideologia mais reacionária, terrorista e criminosa que o capitalismo produziu, o nazi-fascismo[…] Marca também uma retumbante vitória dos povos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e do movimento comunista internacional, indubitavelmente os principais protagonistas da luta antifascista.”
Stalin_and_Hitler

Os falsificadores da História que escreveram a frase mentirosa acima certamente querem nos fazer esquecer o pacto Nazi-Soviético, assinado agosto de 1939 pelo camarada Stálin e Adolf Hitler, dois adoradores do Estado forte, intervencionista e autoritário.

O pacto celebrado entre Stálin e Hitler proibia agressões mútuas, vetava alianças com inimigos dos signatários e determinava que possíveis discordâncias fossem resolvidas com uma “amigável troca de opiniões”. Ou seja, nazistas e comunistas estiveram no mesmo barco.

Com a eminente deflagração da guerra, Stálin e Hitler queriam partilhar as conquistas entre eles, criando duas grandes esferas de influência, uma alemã, outra soviética. A Polônia, rasgada em duas na altura do rio Bug, seria apenas o primeiro prêmio a ser dividido.

Mas esta bonita história de amor entre nazistas e comunistas terminou abruptamente em junho de 1941, quando a Alemanha, sem prévio aviso, invadiu o território soviético. Foi então que Stálin decidiu se travestir de antifascista e lutar ao lado dos capitalistas burgueses.

O editorial do PCdoB é tão mentiroso que vende um passado surreal no qual a verdadeira guerra foi travada entre comunistas e anticomunistas, ignorando o fato de que Hitler, Mussolini e Stálin se admiravam mutuamente e odiavam a democracia liberal.

Os falsificadores do PCdoB apresentam um Stálin bondoso e libertador que seria exatamente o oposto do malvado e tirano Hitler:

Na arena internacional, Stálin tentou incansavelmente estabelecer alianças militares contra o nazismo, especialmente com a Inglaterra e a França, sempre recusadas, pois havia o desejo secreto de que Hitler derrotasse os comunistas soviéticos.

O historiador Timothy Snyder lembra que havia mais semelhanças do que diferenças entre nazistas e comunistas. Na verdade, eram dois impérios totalitários da Europa mantidos pela escravização de povos inteiros, coletivizações e, é claro, genocídio:

“Hitler e Stálin dividiam certa estratégia de tirania: eles causavam catástrofes, culpavam o inimigo de ocasião e depois usavam as mortes de milhões para alegar que seus atos eram necessários. Os dois tinham utopias transformadoras, um grupo para culpar quando suas realizações se provavam impossíveis e uma estratégia de assassinato em massa que podia ser proclamada como uma vitória ersatz (falsa)”

Os nazistas mataram milhões de judeus; os comunistas mataram de fome milhões de ucranianos. Calcula-se que 3,3 milhões morreram de inanição na Ucrânia dominada pelos soviéticos, na fome de 1993 que se seguiu à coletivização destrutiva de Stálin.

Snyder ainda lembra os cerca de 250 mil cidadãos soviéticos, predominantemente poloneses, mortos devido à sua origem étnica entre 1937 e 1938. Às vezes, a polícia pegava nomes poloneses de guias telefônicos, ou fazia prisões em massa em igrejas polonesas.

O camarada Stálin foi também responsável pela morte de cerca de 700 mil bolcheviques e militares nos chamados Processos de Moscou, no qual a maioria das “confissões” era obtida por meio de tortura. Matou, torturou e fez desaparecer seus adversários no partido.

Stálin é celebrado pelo partido de Jandira Feghali, que recentemente literalmente tentou calar o senador Roberto Freire e, com a reação dele, fez um escândalo como se fosse uma vítima de stanilistas.

Stálin é herói do partido de Manuela D’ávila, a patricinha comunista que adora passear em Nova Iorque, o coração do imperialismo ianque.

Stálin, enfim, é a figura de louvor do PCdoB, o mais fiel e antigo aliado do PT, aquele partido que quer "humanizar as redes" e "democratizar a mídia".

Thiago Cortês
ATUALIZAÇÃO: Após centenas de mensagens negativas em sua fanpage, o PCdoB retirou a postagem com o texto do editorial supracitado e a foto de Josef Stálin. Mas o texto continua no site do partido.

Escudos sem sentido

Lenda antiga, citada por autor latino do século 13 a.C., cujo nome segundo alguns historiadores era Panfilus, segundo outros era pseudônimo de um cara chamado Porfirus, nascido em Siracusa. A lenda garante que em Creta fora criado o primeiro sinal de trânsito do mundo.

Um preboste riquíssimo mandou fazer um escudo com as cores auriverdes e um símbolo que parecia o pênis ereto de um anão apontando o caminho do único lupanar daquela ilha no Mediterrâneo.

O falo era uma indicação. Marinheiros de todas as cidades costeiras ao Mediterrâneo faziam fila diante do tal lupanar, e para evitar que batessem em sua porta, o preboste mandou fazer o escudo para indicar o caminho da casa onde os visitantes pudessem saciar o desejo daqueles que passaram meses no mar.
Em Pompeia, sepultada pelas cinzas e fogo vomitadas do Vesúvio, havia também a sinalização mais simples, sem escudo mesmo, apenas com o falo monumental de um gigante.

Este início erudito de crônica tem um sentido. No escudo oficial do Brasil há uma folha de café e outra de tabaco, que hoje sofre bem nutrida campanha contra o câncer. Pior é o escudo do Rio de Janeiro, onde aparecem dois golfinhos que eram abundantes na baía de Guanabara. A medonha poluição de suas águas chega a ameaçar a realização das Olimpíadas no próximo ano.

Pompeia não existe mais, foi sepultada pelo Vesúvio em 79 d.C., restam apenas os corpos calcinados de seus habitantes surpreendidos em suas tarefas comuns. Há até um casal transando, não há registro confiável se antes, durante ou depois do orgasmo. Mas Pompeia resiste, ao contrário do tabaco proibido e dos golfinhos que deram no pé, deixando a cidade com seu escudo sem sentido.

O urubu



A José Alcides Pinto

Plana pleno sobre a praia
deserta.
Dunas aparam nas costas
a sombra vigilante de seu voo.

Heráldico
espia do alto as horas tombando
sobre a eternidade dos
elementos.

Negro
parceiro do sol recolhe na
areia
(qual poeta de asas pensas)
o podre
do tempo.
Adriano Espínola

A intervenção de Dilma na queda de Lugo

O livro dos jornalistas uruguaios Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz revela que a presidente Dilma Rousseff interveio diretamente para punir o Paraguai depois que o congresso do país votou pelo impeachment do presidente Fernando Lugo, em 22 de junho de 2012. "Uma Ovelha Negra no Poder", sobre o ex-presidente do Uruguai José Mujica, é a mesma obra que revelou confidências do presidente Lula sobre o mensalão.

O trecho do livro foi publicado no semanário Busqueda, do qual Danza, um dos autores da obra, é diretor de redação:
Quando Lugo foi destituído pelo Senado paraguaio e antes que se celebrasse a cúpula do Mercosul para resolver as sanções, uma das pessoas de maior confiança de Mujica recebeu uma chamada de Marco Aurelio García, mão direita de Dilma.
"Dilma quer transmitir uma mensagem muito importante para o presidente Mujica", disse o funcionário brasileiro em uma mistura de português e espanhol.
"Não tem problema, vamos estabelecer uma comunicação entre os dois presidentes", foi a resposta do uruguaio.
"Não, não pode haver comunicação nem por telefone, nem por email. É pessoalmente", argumentou o brasileiro.
Um encontro tão fugaz e repentino entre presidentes levantaria suspeitas, motivo pelo qual o governo brasileiro resolveu enviar um avião a Montevidéu para transportar o emissário de Mujica à residência de Dilma, em Brasília.
 Assim foi feito, e quando uruguaio chegou, Dilma estava lhe esperando em seu escritório. A conversa formal sobre questões gerais durou apenas poucos minutos porque não havia muito tempo.
"Vamos ao que interessa", interrompeu Dilma e o emissário tomou uma caderneta e começou a anotar o que a presidente brasileira informava. "Sem anotações", disse ela e fez com que ele rasgasse o papel. "Esta reunião nunca existiu".
Durante a conversa, Dilma mostrou a ele fotos, gravações e informes dos serviços de inteligência brasileiros, venezuelanos e cubanos, que registravam como foi gestado um "golpe de estado" contra Lugo por um grupo de "mafiosos" que, a partir da queda do presidente, assumiram o poder. "O Brasil necessita que o Paraguai fique de fora do Mercosul para, dessa forma, acelerar as eleições no país", concluiu Dilma.
Na semana seguinte, no início do julho de 2012, todos os presidentes do Mercosul votavam, em uma cúpula na cidade argentina de Mendoza, a suspensão do Paraguai.
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O Chile de Bachelet, uma lição para Dilma Rousseff?

Até quando a presidenta do Brasil vai resistir a tomar uma decisão, pelo menos simbólica, mostrando que aceita com humildade que o país está em crise e irritado?
Chile e Brasil se pareciam muito dentro do continente latino-americano. Ambos os países manifestavam orgulho em se sentir moralmente superiores aos outros e de ter criado um milagre econômico, como destacou neste jornal John Carlin.

Os dois países estão governados por duas mulheres de valor, ambas de esquerda. O pai de Michelle Bachelet foi assassinado pela ditadura do general Pinochet e Dilma Rousseff foi torturada durante outra ditadura militar. Hoje, ambos os países e Governos e suas duas mandatárias vivem momentos de baixa, fustigados por uma grave crise política, econômica e ética. Já não podem se apresentar no continente como líderes da mudança. A popularidade das duas presidentas despencou do céu ao inferno. A de Rousseff, muito mais do que a de Bachelet.

Acusadas de não reagir diante da queda da confiança de seus respectivos eleitores, ambas tentando minimizar uma crise que as pesquisas revelavam com evidência, Bachelet acabou tomando uma decisão drástica como resposta aos protestos populares: substituir todo o Governo e anunciar que o Chile terá um novo ministério em um prazo de 74 horas.

E Dilma? Os últimos eventos mostram um Congresso no qual sua maioria se desgasta a cada hora, ao mesmo tempo em que a presidenta se vê obrigada a isolar-se e a proteger-se da rua por medo de ser criticada. Tudo isso somado a um partido que põe obstáculos às suas medidas de ajuste e a uma opinião pública que continua gritando “Fora Dilma” e “Fora PT”, um partido que é recebido com panelaços em vários Estados durante seu programa transmitido em cadeia nacional na TV, apesar de ter sido protagonizado pelo carismático ex-presidente Lula, diante da ausência da presidenta.

Se as crises nunca são iguais, não resta dúvida que as vividas pelo Chile e pelo Brasil, protagonizadas por dois Governos de esquerda e progressistas, parecem reflexos uma da outra. Assim como Bachelet tentou fazer em vão —acusada de ser lenta em suas reações frente à crise—, Dilma continua na ilusão de negar a crise, classificando-a de “passageira”, sem entender o sentimento das ruas, cada vez mais crítico contra ela e seu partido.

A mandatária chilena rendeu-se e passou uma rasteira em seu Governo para começar de novo. Talvez isso não seja suficiente, mas é um gesto com o qual tenta dizer à opinião pública que entendeu o motivo pelo qual perdeu a confiança dos eleitores. Até quando Dilma vai resistir a tomar uma decisão, pelo menos simbólica, mostrando que aceita com humildade que o país está em crise e irritado, à espera de algo que resgate sua confiança?

Em entrevista recente ao jornalista Roberto D'Ávila na Globo News, o senador do PSDB José Serra afirmou que o problema do Brasil não é apenas a corrupção ou a economia, mas sobretudo a fragilidade do Governo Dilma. “É um Governo fraco”, afirmou. Tão fraco que, como demonstra diariamente, açoitado e humilhado pelo Congresso Nacional, perdeu sua iniciativa diante da crise.

Dilma, em um gesto de Pilatos, lavou as mãos frente à crise terceirizando suas duas maiores responsabilidades: a econômica, nas mãos de Joaquim Levy, mais próximo da visão liberal da oposição do que da sua; e a política, ao aliado PMDB, na figura de seu vice-presidente Michel Temer, do partido que hoje já é de clara oposição no Parlamento.

Será suficiente para Dilma lavar as mãos para recuperar a confiança perdida dos 54 milhões de brasileiros que a reelegeram nas urnas? Ou necessitaria fazer, como no caso chileno, um gesto de ruptura? Um reconhecimento de que a gestão econômica de seu primeiro mandato foi equivocada e que provocou uma crise que a obriga a fazer ajustes que afetarão os trabalhadores e os mais pobres. Reconhecerá que a crise da Petrobras, uma empresa que esteve tantos anos sob seus cuidados, não foi apenas ética, mas também de má gestão e de falcatruas de políticos e de executivos sem escrúpulos, seus aliados, que transformaram a companhia no quintal de sua própria casa?

Quando os brasileiros gritam nas ruas “Fora Dilma”, talvez estejam esperando, pelo menos, um gesto inequívoco dizendo que a presidenta entendeu a crise e está disposta a enfrentá-la. Não enterrando a cabeça, nem terceirizando, mas oferecendo uma medida radical como a de Bachelet.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

A virtude pura não existe nos dias de hoje


Numa época tão doente como esta, quem se ufana de aplicar ao serviço da sociedade uma virtude genuína e pura, ou não sabe o que ela é, já que as opiniões se corrompem com os costumes (de facto, ouvi-os retratarem-na, ouvi a maior parte glorificar-se do seu comportamento e formular as suas regras: em vez de retratarem a virtude, retratam a pura injustiça e o vício, e apresentam-na assim falsificada para educação dos príncipes), ou, se o sabe, ufana-se erradamente e, diga o que disser, faz mil coisas que a sua consciência reprova.
(...) Em tal aperto, a mais honrosa marca de bondade consiste em reconhecer o erro próprio e o alheio, empregar todas as forças a resistir e a obstar à inclinação para o mal, seguir contra a corrente dessa tendência, esperar e desejar que as coisas melhorem.
Michel Eyquem de Montaigne (1533 - 1592)

Em defesa da democracia


Hoje fui à missa, na igrejinha de Nossa Senhora de Fátima, a mais tradicional de Brasília, na SQS 308. Tradicional, sim, mas simples, bela e singela. Não quero falar de religião e sim da ética e da convivência social. A Igreja exalta o perdão, mas nós temos a difícil tarefa de perdoar sem des-culpar, sem tolerar e deixar impune a ação malévola.

O padre nos dizia: Como podemos reclamar da sociedade, dizendo-a corrupta e violenta, e não julgarmos a nossa própria conduta, como se não fôssemos parte dessa mesma sociedade? Em suma: Qual é a nossa responsabilidade social?

Como perdoar e punir ao mesmo tempo? Como purificar o próprio coração, perdoando, e manter a boa convivência social, punindo o intrafor, reprimindo o delinquente e desprezando o excessivamente egoísta? Em suma: Como fazer Justiça e manter o coração limpo e feliz?

Qual deve ser a nossa atitude com relação aos que roeram a Petrobrás por dentro, prejudicando moral e financeiramente a maior empresa do nosso país, a ponto de colocar em risco sua própria sobrevivência e, mais ainda, o respeito ao interesse coletivo?

Como não sentir desprezo por tamanha desproporção entre o favorecimento ilegítimo do interesse pessoal e o respeito ao interesse de todos. Nesse caso, a punição é indispensável, tendo em vista, inclusive, que as teias da corrupção se estendem também a tantas outras empresas e que a cobrança e o pagamento de propinas vai se tornando prática usual em todos os cantos.

Como ficar indiferente à destruição da confiança entre as pessoas? E como, dentro da nossa impotência, não ficar objetivamente indiferente? É preciso apoiar a Justiça? Sim. Como? Mostrando propósito firme e real de que a Justiça seja feita de forma igualmente firme e real. Mostrando confiança nas nossas instituições, em nossos juízes, em nossos tribunais e mostrando também indignação quando eles não cumprirem o seu papel.

Como não importar-nos com o claro aumento da violência nas ruas, da violência policial, da violência contra a mulher em sua própria casa, em uma deplorável erosão do respeito aos direitos humanos no seio da nossa sociedade?

A nossa atitude, a atitude da sociedade civil, é a que, em última análise, determinará o resultado desta batalha entre a ordem e a desordem, entre a paz e o conflito, entre a concórdia e a discórdia, entre o direito dos trabalhadores e a ganância dos que os exploram, entre o bem comum e a desmesura do interesse individual.

É a defesa da democracia e da lei que nos livrará da violência dos inescrupulosos, dos inimigos da democracia, da fúria dos ultraconservadores e dos que querem sobrepor-se à legalidade.

Serviços públicos à deriva

O dinheiro que desaparece no ralo da delinquência é uma tremenda injustiça, uma bofetada na cidadania, um câncer que, aos poucos e insidiosamente, vai minando a República

Dengue bate recorde em São Paulo: 400.000 casos. Equipe da TV Tribuna assaltada ao vivo, no Guarujá. Obras paralizadas, ou em ritmo de Quarto Mundo, infernizam o cotidiano de quem vive na maior cidade do País. São informações selecionadas num rol infindável de más notícias patrocinadas pelos governos. Os serviços públicos estão à deriva. Não são suposições. São constações.

Autoridades de saúde não conhecem, ou fingem desconhecer, as causas do avanço da dengue. Não tratam o assunto como problema de saúde pública. Terceirizam responsabilidades. A culpa é nossa. O foco está no descuido dos moradores. Fantástico! E os terrenos públicos abandonados? E o lixo acumulado nas ruas das cidades? E o fumacê, alguém viu? O eficiente procedimento de combate ao mosquito da dengue desapareceu. Razões? Falta dinheiro? Falta planejamento? Sei lá. Trata-se, agora, de esperar a chegada do frio. Com menos chuvas e temperaturas mais baixas, as condições de proliferação do mosquito devem minguar. O inverno, e não as ações do governo, pode minimizar a epidemia.

E a segurança pública? Basta uma notícia, amigo leitor. Uma equipe de reportagem da TV Tribuna, afialada da Rede Globo na Baixada Santista, foi assaltada enquanto fazia uma entrevista ao vivo sobre dengue, na frente da prefeitura do Guarujá, no litoral paulista. A repórter entrevistava do diretor de Vigilância em Saúde da cidade, quando a equipe e o entrevistado foram abordados por um ladrão armado. Toda a cena foi transmitida ao vivo no jornal local do meio-dia. Enquanto sociólogos e comunicadores esgrimam argumentos a favor e contra a diminuição da maioridade penal, a bandidagem faz a festa.

O Brasil, um país continental, sem conflitos externos, com um povo bom e trabalhador, está na banguela. O custo humano e social da incompetência e da corrupção brasileira é assustador. O dinheiro que desaparece no ralo da delinquência é uma tremenda injustiça, uma bofetada na cidadania, um câncer que, aos poucos e insidiosamente, vai minando a República. As instituições perdem credibilidade numa velocidade assustadora. Os protestos que tomam conta das cidades precisam ser interpretados à luz da corrupção epidêmica, da impunidade cínica e da incompetência absoluta da gestão pública. Há uma clara percepção de que o Estado está na contramão da sociedade

Nós jornalistas somos (ou deveríamos ser) o contraponto a essa tendência. Cabe-nos a missão de rasgar a embalagem e desnudar os políticos. Precisamos fugir do espetáculo e fazer a opção pela informação.

Imagem, cada um faz à sua semelhança

"Resguardar" foi a palavra da mídia na semana. Enclausurada no Planalto, cada vez mais afastada de qualquer maior contato com a população - a não ser em eventos bem protegidos e de pouca gente devidamente inofensiva, Dilma precisa ter sua imagem resguardada, segundo o governo. E a mídia insiste na farsa do "resguardo" da imagem presidencial?

Cara pálida, nossa matrioska de cristal foi feita por um artesão imemorial para um soberano de lenda? Estamos em um país ou num paraíso de lendas da carochinha?

Vai-se resguardar que imagem se a própria proprietária jogou fora, deixando que passasse de guerreira, a poste, a gerente, a faxineira e hoje sequer sabe que imagem vestir?

O endeusamento, hipócrita, de quem investe um cargo, no Brasil, é das atitudes mais absurdas no século XXI, mais próprio dos tempos coloniais. O endeusamento que permite usar e abusar do avião presidencial só para comparecer ao casamento de Roberto Kalill Filho, o cardiologista dos poderosos, como se fosse um direito de se apropriar do avião como condução particular para eventos de somenos importância para o país. Um escracho como as maldades que apronta para que o povo pague. Mal e porcamente, é um passeio de carruagem de Maria Antonieta para um baile em Versalhes com a pompa que merece o cargo reinante e a adulação dos menos qualificados.  

Quem ocupe a Presidência deve se preocupar em resguardar a própria imagem em atitudes constitucionais em proveito da população, com atitudes dignas a quem foi escolhido (a) pelo voto. Se não tem esse próprio merecimento não há mais o que resguardar.

Será que alguma vez resguardou a imagem do Brasil quando ocupou ministério, Casa Civil e Presidência, no caso Petrobras, que hoje marca o país? Resguardou a imagem do país quando se é quase o lanterninha em tudo que é pesquisa? Resguardou a imagem do Brasil quando se enxovalha a educação, se implode a saúde, se desmorona o emprego e o slário?

Dilma, cada vez mais, se recolhe à proteção dos muros palaciais, mas que bem podem lhe servir de prisão. Presa, não é presidente, mas refém de uma situação governamental ainda indefinida que criou com suas próprias atitudes e comandos. Não há imagem a se resguardar, mas Dilma deveria cuidar de resguardar, enfim, de qualquer jeito, a imagem dos brasileiros que com seus cúmplices jogou na sarjeta. Infelizmente não tem a capacidade humilde de se renovar para governar como o país merece e pede.

País, em crise, não se envergonha de presidente bancar estrela de "Caras"

Surdez da falta de ética

Lula-Dilma-e-o-Brasil 
Na nossa pedestre vida política, a surdez do PT é a tentativa de se manter em cena, sem assumir os desvios éticos nem responder por sua gestão calamitosa. O PT é apenas uma pedra no caminho. Os contornos desse caminho é que precisam ser discutidos. Não importa se essa é a maior e mais complexa das crises. É a que nós temos. E dela, espero, haveremos de sair.
Fernando Gabeira

Impeachment fático

A esta altura do campeonato não há muito mais a acrescentar: temos um governo infeliz que, em tudo o que faz, vem gerando, ao contrário do que promete, mais infelicidade. Os pífios resultados econômicos somados à inflação e à recessão, a precariedade dos serviços públicos e de infraestrutura, a insegurança social e as denúncias de corrupção desenfreada agridem o cotidiano dos cidadãos, causando apreensões e temores crescentes.

No plano político, trata-se de um governo que, numa atitude esquizofrênica, abandona a si mesmo, isto é, abandona o que havia sido no primeiro mandato e o que se propunha a ser na campanha eleitoral vitoriosa, e ao mesmo tempo resiste a desvelar as razões reais desse movimento. Não dá o que dava nem o que prometeu porque tem de dar conta da sangria que provocou nos gastos públicos, sem ter lastro para isso. Essa é a razão do chamado “estelionato eleitoral”.


O programa econômico do primeiro governo Dilma, que tinha como vetor o desenvolvimentismo à base de um capitalismo de Estado, é agora deixado de lado ao se adotar no segundo mandato uma estratégia inversa, pautada pela recuperação e pelo controle das contas públicas, o que implica cortes na área social, e pela diminuição da intervenção do Estado na atividade econômica. Tudo isso afeta negativamente a vida dos trabalhadores e das empresas. Seus efeitos colaterais são conhecidos e já são sentidos pela maioria: inflação, recessão e desemprego. Na prática, como é sobejamente reconhecido, o governo mudou radicalmente, mas se recusa a admitir a essência dessa mudança ao adotar um discurso inverossímil e cheio de subterfúgios para justificá-la. Pior do que isso, não se revela capaz de construir um discurso convincente para validar o que diz querer realizar no segundo mandato. O problema não é, portanto, de comunicação ou marketing, e sim de política.

Por se recusar a deixar para trás o governo que realizou e assumir a mudança com clareza e determinação, Dilma foi rapidamente perdendo prestígio e credibilidade, não apenas na chamada classe política, mas perante o eleitorado em seu conjunto, o de oposição e aquele que a consagrou nas urnas. Além do acentuado declínio nas pesquisas de opinião, o resultado pode ser contabilizado negativamente em duas situações que primam pela evidência. No 1.º de Maio deste ano a presidente não participou pessoalmente de nenhum ato comemorativo do Dia do Trabalho nem sequer pôde ir à televisão falar com os brasileiros, especialmente os trabalhadores, e fazer um balanço das iniciativas governamentais em seu benefício. Temeu os apupos e as vaias, mas também os já recorrentes “panelaços”. Teve de se contentar com as redes sociais. Tal escolha foi criticada por líderes do seu próprio partido e desqualificada como “ridícula” pela presidência de um dos Poderes da República.

Mas antes disso, por não assumir a mudança empreendida em seu segundo governo, suas causas e implicações, a presidente assumiu como estratégia pessoal um afastamento quase que integral do centro da cena política, no que ela tem de mais sensível: a economia e a política. A imagem que fica é a de que a política econômica não a representa, delegada que foi a um prócer das finanças nacionais declaradamente crítico da condução da economia no primeiro mandato.

No plano político, depois de intenso bate-cabeças, a coordenação do governo deslocou-se, como última tábua de salvação, para o vice-presidente da República, homem de outro partido, que nem sequer participava do núcleo dirigente no mandato anterior, ocupante do mesmo posto institucional de agora. Dilma é, assim, uma presidente que não tem nem a política econômica nem a articulação política sob seu inteiro controle.

Até cumprir os cem dias do segundo mandato, Dilma foi uma presidente ziguezagueante que ora atuava de acordo com a base de apoio sobrevivente, ora se afastava dela, sem conquistar com isso novos aliados, nem mesmo ocasionais. Uma situação insustentável, que não poderia continuar em nenhuma hipótese, daí a transferência da articulação política para a Vice-Presidência.

Nas ruas, uma população cada vez mais bem informada rompeu a barreira da inércia e passou a manifestar sua indignação com foco bastante definido: a consigna “Fora Dilma” pedia, enfim, o impeachment da presidente. Manifestações massivas irromperam pelo País e coincidiram com a crescente fragilização política do governo. Como em política não há espaço vazio e o governo que acabava de se instalar mostrava não poucos sinais de desorientação, deu-se uma incisiva retomada da iniciativa parlamentar, deslocando a iniciativa política para o Congresso Nacional. Por conta desse movimento, houve quem falasse no estabelecimento de um “parlamentarismo branco”.

Mas não foi precisamente isso o que veio a ocorrer. Ao arrefecer a campanha de massas pelo impeachment, fica-se com a impressão de que o País passa por uma espécie de impeachment fático, inaugurando uma situação insólita em que a presidente, voluntariamente, mas a contragosto, “se retira” (uma espécie de aceitação a meias do seu impedimento), ainda que normativamente continue a exercer seu mandato. Ao mesmo tempo, porém, admite (porque não é mais capaz de dirigir) que o fiel do governo seja o Congresso, sob a articulação do vice-presidente. A presidente Dilma, de fato, afastou-se do comando do País!

Nessa configuração esdrúxula, de incompletude e suspensão, instala-se a incerteza e um jogo em que o controle do tempo é determinante para todos os atores, já que não se forma de imediato uma nova coalizão governante. Tal arranjo garante, contudo, condições de sobrevida ao governo Dilma, na expectativa de que possa desempenhar algum papel na sua sucessão, se conseguir retomar o controle do centro da cena política.

A revolução através das togas

Só não vê quem não quer: um STF onde não existam liberais nem conservadores, onde todos, num grau ou noutro, sejam "progressistas" ou marxistas, selecionados a dedo pelo mesmo partido, é uma revolução através das togas. Dispensa luta armada ou desarmada, dispensa Gramsci, movimentos sociais, patrulhamento. Bastam onze homens e seus votos. E tudo fica parecendo Estado de direito.

A bússola das decisões normativas sobre a vida nacional, sobre os grandes temas, está saindo do Congresso, onde opera a representação proporcional da opinião pública. Aquela história dos três poderes, este faz a lei, aquele executa e aquele outro julga - lembra-se disso? - vai para as brumas do passado. Há mais de três décadas estão sendo transferidas para o Judiciário deliberações que vão do acessório ao essencial, do mais trivial ao mais relevante. Já escrevi muito sobre tal anomalia e percebo que a migração prossegue, através dos anos, com determinação e constância. 


A judicialização da política, braços dados com o ativismo judicial, causa imensas preocupações cívicas. Opera uma revolução silenciosa. Não usa barracas de campanha, não cava trincheiras e não precisa de arsenais. Ataca a partir de luxuosos gabinetes. Reúne-se em associações e congressos de magistrados militantes. Seu material bélico está contido em meia dúzia de princípios constitucionais que disparam para onde a ideologia aponta.

O QG dessa conspiração sofreu uma derrota, terça-feira, com a aprovação da PEC que postergou para os 75 anos a aposentadoria compulsória dos magistrados. Mas isso não resolve o problema diante do mal que atacou o caráter republicano da nossa democracia - o instituto da reeleição - cortando o movimento pendular do poder. Se o Congresso, e especialmente o Senado, não reagir, se for aprovada a inacreditável indicação do Dr. Fachin (que até o Lula teria achado "basista" demais), se aprofundará o abismo entre o pluralismo como inequívoco princípio constitucional e a composição do STF.
É algo de que, aparentemente, ninguém se deu conta. Pluralismo é pluralismo. Dispensa interpretação. É um severo princípio impresso no preâmbulo da Constituição. Como pode ele ser desconsiderado quando se trata de indicar membros para a mais alta corte do Poder Judiciário (isso para não falar nos demais tribunais superiores)? É admissível que os membros desse elevado poder expressem o ideário e os interesses de uma mesma corrente política? O que a presidência da República vem fazendo e o Senado aprovando é uma revolução branca, via totalitarismo judiciário. Toleraremos, aqui, o que já aconteceu na Venezuela?

domingo, 10 de maio de 2015

Dia das Mães (versão nacional)

lailson 08052015

Lula na TV, samba de Gonzaguinha, e marqueteiro baiano

Resultado de imagem para trabalhadores segundo o pt charge
“Ô muié/Traga a panela/Pr'eu bater no fundo dela
Com o cabo da cuié/Pois senão não tem feijão
Ora vamo fazer um arrasta-pé /(Não é?)
Eu já vivi muito tempo/ E vou viver muito mais
Já vi coisa nessa vida/De fazer cair pra trás
O mandado é quem faz tudo/O mandador é quem desfaz
O mandado não tem nada/ O mandador tem é demais (qual é)”

(Versos do samba “Pá-nela”, composição de Gonzaguinha, sucesso na interpretação de Roberto Ribeiro)
Foi tiro e queda, do jeito que se diz lá no meu sertão, à beira do Rio São Francisco: Lembrei logo da letra do samba do saudoso e visionário filho de Luiz Gonzaga, quando o pernambucano líder maior e fundador do Partido dos Trabalhadores, Luis Inácio Lula da Silva - ex-presidente da República e campeão de antigas pesquisas de popularidade - pronunciou as primeiras palavras no programa político de seu partido no rádio e na TV, e o protesto começou.

As panelas e as buzinas começaram a zoar como jamais se havia escutado e visto antes em Salvador - propagandeado "paraíso petista" implantado há anos à beira da Baia de Todos os Santos. Impressionante. Mesmo tendo vivido e presenciado tantas voltas e reviravoltas da vida e da política do País, era difícil acreditar no que estava acontecendo na terceira maior capital do Brasil, na noite de terça-feira, 5 , para não esquecer. "O lugar onde devo ter nascido em outra encarnação", segundo o próprio Lula. Tirada espiritualista de palanque em comício eleitoral no Farol da Barra, tempo não muito distante, quando Antonio Carlos Magalhães era ainda quem mandava na Bahia.

Nos 10 minutos do panelaço desta semana, a capital que sediará, com pompas e circunstâncias já anunciadas, no mês de junho, o congresso nacional do partido no poder com Dilma Rousseff (a presidente que se esconde até das comemorações dos 70 anos da vitória das forças aliadas contra o nazismo na II Guerra Mundial), virou de pernas para o ar. O "santuário" político e eleitoral de Lula, herdado por Dilma nas duas últimas disputas presidências, parecia outra vez tomada pelo espírito indomável que deu a Salvador, a fama histórica de "cidadela de oposição".

Em segundos, a silenciosa rua em que moro no bairro de classe média do Itaigara (e imediações), onde é possível ouvir um inseto voando - mesmo nos dias de maior zoada do furdunço do carnaval baiano – foi tomada por um barulho ensurdecedor. Taque, Taque, Taque, nas janelas e sacadas dos prédios. Fon, Fon, Fon, nas ruas e avenidas adjacentes. E na cidade quase inteira, uma incrível sintonia de sinais luminosos tremelicando nas casas e nos edifícios, apesar da contenção dos gastos com energia elétrica, para tentar driblar a escorcha das contas de luz. Até aqui, uma das marcas mais gritantes do conto eleitoral no segundo governo da mandatária petista.

Um espetáculo de indignação política e social de uma cidade estimulante de ver. Mas difícil de acreditar e entender (mesmo para calejados jornalistas e analistas políticos) "na capital mais lulista e dilmista do Brasil", no dizer de boca cheia dos petistas locais.

Ainda mais, quando o intenso e incessante bater de panelas e buzinaço nas ruas, durante todo o tempo do programa na TV, vinham acompanhados de gritos e palavras de ordem impensáveis até bem pouco tempo. Pelo menos antes do processo do Mensalão e da Operação Lava Jato, que começaram a penetrar e expor os intestinos corruptos e corruptores do poder atual no país: "Fora PT", "Fora Dilma", "Fora Lula". "Pega Ladrão", "Mentiroso".

Fiquemos por aqui, porque outras palavras de ordem gritadas e gravadas nas principais zonas da capital baiana, além Itaigara (Pituba, Stiep, Rio Vermelho, Barra, Brotas, Centro, Cidade Baixa...) são impróprias para menores. Mas os vídeos foram mostrados depois em noticiários de TV, sites dos jornais, blogs e, principalmente, postados fartamente nas redes sociais.

Mas foi um panelaço do tamanho do Brasil, e o mundo inteiro ficaria sabendo disso quando o fato virou notícia, logo em seguida, no Jornal Nacional, e pegou também a estrada internacional. É verdade, tudo bem!.

Acontece que em Salvador, um protesto desta envergadura contra Lula, o Governo Dilma e o PT, é algo praticamente inédito. E, seguramente, o alto comando estadual petista, a começar pelo governador Rui Costa, vai pensar nisso, antes da magna reunião nacional do PT, marcada para acontecer em breve na cidade.

Por enquanto, segue a caça aos bodes para jogar a culpa pelo fiasco monumental do programa do Partido dos Trabalhadores. Sabe-se, desde a primeira hora, que a ausência de Dilma no programa do PT, foi sugerida por Lula, que virou "âncora" do fracasso, ao lado do presidente nacional do partido, Rui Falcão. Este recebeu gritos de "mentiroso" no panelaço soteropolitano, quando anunciou na TV que os petistas, comprovadamente com culpa no cartório do Lava Jato, serão expulsos do partido.

"Sabe de nada, inocente!", diria o compadre Washington na Bahia.

Diz-se, também, agora aos quatro ventos: por motivos "de contenção de despesas, diante da crise geral", o tradicional responsável pela propaganda nacional do PT (João Santana) foi substituído por Maurício Carvalho: um marqueteiro de Salvador, notório propagandista com pouco senso de realidade e '"ego do tamanho de um bonde'', como dizem os soteropolitanos. O tipo ideal para ser o bode da vez dos que mandam e realmente decidem no PT. A conferir.

O país cresce feito rabo de burro


Da reforma política não se fala mais. Desmanchou-se no ar. Não há consenso para nada de importante, no Congresso. Sequer o distritão, que levaria para a Câmara os mais votados em cada estado, quanto mais a proibição de doações das empresas nas campanhas eleitorais. Muito menos a redução do número de partidos de aluguel. Até a extinção dos suplentes de senador não vai passar. Fim da reeleição e mandato de cinco anos para presidentes, governadores e prefeitos? Nem pensar, porque a ambição da maioria, mesmo ilusória, funciona a todo vapor.

Marcada para o final do mês uma semana de discussões e votações intensivas na Câmara, sequer há certeza de que venha a realizar-se. A conclusão surge clara: o país é esse mesmo, milagres inexistem. Deputados e senadores elegem-se há tempos dentro das regras atuais, mesmo canhestras e distorcidas. Por que contribuiriam para mudá-las e arriscar-se a não voltar, na próxima Legislatura?

Esvaiu-se o discurso fácil de que nossos problemas desapareceriam com a reforma política, ainda mais com a fantasia de uma Constituinte Exclusiva, bobagem endossada por quem jamais recebeu uma aula de Direito Constitucional. O poder constituinte que dá origem a uma Constituição só pode ser exercido quando há a ruptura das instituições, a falência da ordem anterior. E o poder constituinte derivado, inerente ao Congresso, não pode ser delegado a nenhum corpo estranho. Qualquer mudança na lei fundamental, e algumas tem sido praticadas desde 1988, só por iniciativa de deputados e senadores. Os mesmos que não votarão a reforma política, ao menos no que ela teria de essencial para aprimorar as instituições.

Outro empecilho ao sonho da reforma política situa-se na resistência das elites à aplicação prática dos dispositivos constitucionais atuais. Onde anda a reforma agrária? A participação dos empregados no lucro das empresas? A cogestão? A determinação de que o salário mínimo deve bastar para o trabalhador e sua família enfrentarem despesas com educação, saúde, alimentação, moradia, vestuário, transportes e até lazer? O estado de bem-estar social limita-se à esmola do Bolsa Família?

Há mais de doze anos com o Partido dos Trabalhadores no poder, quantos princípios da Constituição atual deixam de ser cumpridos? Até os direitos trabalhistas, em vez de aumentados, tem sido reduzidos. Ainda agora acabam de ser atingidos o seguro-desemprego e o abono salarial, enquanto multiplica-se o lucro dos bancos.

Em suma, o país cresce feito rabo de burro, sem a menor perspectiva de promover a reforma política. Melhor seria, ao menos, aplicar os dispositivos que já existem.

Nada mais canhestro do que a exigência, na Lei da Bengala, de passarem por nova sabatina no Senado os ministros do Supremo Tribunal Federal beneficiados com o aumento de 70 para 75 anos de idade o prazo para suas aposentadorias. Já não foram sabatinados quando de suas indicações? E se por hipótese rejeitados pelos senadores, estariam demitidos?

Dia das Mães (versão do povo)

DIA DAS MAES congresso penitenciaria maes tristes chorando

Mamma Mia!

A barulhenta reação durante programa de rádio e TV do partido acendeu o alerta vermelho. Foi contra o PT. Contra o até então intocável Lula
charge regi 

Em março de 2008, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva criou a alcunha de “mãe do PAC” para sua ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff. No palanque montado no Complexo do Alemão, no Rio, Lula anunciou R$ 1 bilhão em obras para as favelas cariocas, a serem tocadas pela gerente implacável - que dois anos e oito meses mais tarde o sucederia no mais alto posto do país. Começava ali a construção da ficção Dilma, a afilhada dos sonhos do ex que passou a assombrar o PT e o próprio Lula.

No mesmo palanque, Dilma se aprochegou do chefe e aceitou publicamente o papel.

O temperamento irascível auxiliava na criação da imagem de durona, exigente, intransigente. Faltava-lhe quase tudo que um presidente da República precisa ter. Sobrava-lhe arrogância, característica que Lula, dono de igual ou maior soberba, subestimou.

Naquele ano, Lula acabara de bater o primeiro de seus muitos recordes de popularidade. Alcançara, segundo o Datafolha, 55% de aprovação que, 10 meses depois, chegariam a inacreditáveis 70%%, e em nada menos que 78% dois meses antes das eleições. Seu governo chegou a obter 82% na soma de ótimo e bom.

O céu – e a Constituição que lhe proibia disputar um terceiro mandato consecutivo – era o limite. A solução segura era a fiel mãe do PAC, que conduziria o governo sem criar sombras.

Deu tudo errado.

A pupila começou bem. No final de março de 2011 chegou a desbancar o imbatível Lula, alcançando 56% de aprovação, o maior percentual de um presidente no primeiro trimestre de mandato. Substituiu com sucesso a mãe do empacado PAC pela faxineira que demitia corruptos do governo, ampliando ainda mais sua popularidade.

Os números lhe subiram à cabeça, fazendo-a crer que era o que não é.

Multiplicaram-se os desmandos, as políticas do atraso, as besteiras. Interveio nos bancos e empresas estatais, desequilibrou o setor elétrico, com consequências drásticas para o consumidor que hoje tem de pagar a conta. E está envolvida diretamente, ainda que por omissão, no escândalo da Petrobras, o maior da história, com desvios confessos em balanço de nada menos de R$ 6 bilhões, e perdas superiores a R$ 40 bilhões por má gestão.

Dilma foi longe demais para quem não daria um passo com as próprias pernas. Brigou com quem não podia e afagou quem não devia. Irritou aliados e desagradou o seu partido.

Com aprovação de apenas 12%, o pior índice que um presidente já teve, Dilma se tornou símbolo de tudo que o país não quer.

Mas, em tempos de denúncias que não deixam o PT respirar, ter Dilma como mãe de todos os males não era de todo ruim. Até o último dia 5.

A barulhenta reação durante programa de rádio e TV do partido acendeu o alerta vermelho. Foi contra o PT. Contra o até então intocável Lula.

E não adianta apelar para as mães. Elas também batem panelas.

Confusão total: PT se descola de Dilma para tentar sobreviver

A situação é cada vez mais sinistra e assustadora no Triângulo das Bermudas brasileiro, entre o Planalto, o PT e o Instituto Lula. Em meio ao tiroteio, a direção nacional do partido marcou mais uma reunião no próximo dia 18, em Brasília, para avançar na estratégia de resposta à crise que assola o governo, atinge o PT e também a própria imagem do ex-presidentee Lula, antes intocada.

A jornalista Clarissa Oliveira, editora de Política do portal iG, registra que dirigentes petistas ainda saem em defesa da presidente Dilma Rousseff e das medidas do ajuste fiscal, mas nos bastidores, porém, a estratégia é fazer com que o PT se desvincule cada vez mais da presidente Dilma Rousseff e reforce seu vínculo com Lula.

Traduzindo: os próprios petistas já consideram que o governo e a presidente Dilma Rousseff não têm possibilidade de recuperação. Acham que daqui para a frente, a tendência é a situação piorar, porque Dilma Rousseff não mostra carisma nem competência para liderar a recuperação do país – uma constatação óbvia, pois ela não tem maioria no Congresso nem apoio da população, não pode sair às ruas nem aparecer na TV, é um fracasso redundante, e até foi obrigada a terceirizar a condução da economia e a articulação política.

Para evitar que o PT seja tragado nesse turbilhão, a saída que os dirigentes julgam encontrar é incentivar Lula a embarcar num amplo giro de viagens pelo país, missão que ele próprio sugeriu e já se comprometeu a fazer. Segundo a jornalista Clarissa Oliveira, este plano já começou a ser debatido internamente e deve passar pelo crivo da Executiva Nacional na reunião do dia 18.

O mais curioso é que o Planalto faz movimento idêntico. Na tentativa de sobreviver e evitar o impeachment, Dilma e sua entourage tentam desesperadamente se descolar do PT e já chegaram ao ponto absurdo de atribuir ao partido a causa do superpanelaço de terça-feira.

Detalhe importante: a equipe petista mais próxima a Dilma é toda formada por políticos sem mandato, como Aloizio Mercadante, Ricardo Berzoini, Miguel Rossetto, Edinho Silva e Aldo Rebelo. Se Dilma cair, eles ficam fora da política até 2018. Daí o desespero.

É claro que essas manobras não darão certo. Nem o PT conseguirá se descolar de Dilma, nem ela se livrará do partido, nem Lula vai sair desta encrenca simplesmente repetindo que não sabia de nada e pregando o ódio social e racial, culpando as “zelites” que odeiam o povo e não querem que ele tenha carro nem viaje de avião.

Além do mais, é preciso saber como Lula será recebido nessa excursão pelo país. A previsão do tempo político registra que há novos panelaços em formação, ameaçando o Triângulo das Bermudas.

A pedra de Sísifo e os trabalhadores prejudicados

O mito grego da pedra do rei grego Sísifo, que Homero narra na Odisseia, me veio à memória neste momento de inquietude de milhões de trabalhadores brasileiros aos quais a crise econômica pode privar, mais do que a outros mais favorecidos, de seus direitos trabalhistas.

O rei Sísifo foi condenado pelos deuses a subir uma montanha empurrando uma pesada pedra. Quando chegava ao topo, a pedra escorregava de suas mãos e rolava de novo até o chão. E Sísifo devia carregá-la de volta montanha acima, repetidas vezes, até o infinito.


Uma das interpretações mais conhecidas do mito grego é a do escritor e filósofo francês Albert Camus, que afirma que “não existe castigo mais terrível que o do trabalho inútil e sem esperança”.

Os trabalhadores que dependem de um salário para viver e sustentar sua família, têm de fazer muitas contas para não cair nas garras do cheque especial ou dos juros estratosféricos do cartão de crédito, têm de fazer cada vez mais malabarismos para terminar o mês sem dívidas.

A classe trabalhadora brasileira suporta uma das maiores cargas tributárias do mundo e recebe muito menos do Estado em benefícios sociais que seus colegas dos países mais desenvolvidos.

Esses trabalhadores que sempre encontravam trabalho e que hoje começam a temer o fantasma do desemprego são os menos escolarizados e profissionalizados, os primeiros a escorregar para o desemprego forçoso.

É essa sensação de inutilidade de que escrevia Camus que devem sentir milhões de trabalhadores brasileiros cada vez que veem cortados seus direitos, diminuir seu salário e aumentar os preços. Eles nos recordam o castigo que os deuses impuseram a Sísifo.

No Brasil, um país rico e de pessoas criativas, os trabalhadores sentem a angústia do personagem do mito grego de ter de fazer, todo mês, o esforço de subir a montanha com a pedra de seu trabalho até que, por fim, ela escorregue e se vejam outra vez de mãos vazias ou, o que é pior, sujas de dívidas.

Como recordou com ironia o professor de Políticas Públicas da Universidade de Harvard Felipe Campante em um simpósio da Fecomercio em São Paulo, não é verdade que os governos brasileiros são incompetentes. Pelo contrário, segundo ele, existe um campo em que o Brasil se mostra mais desenvolvido que a maioria dos governos do mundo: na arte de impor aos trabalhadores impostos diretos ou indiretos.

O Brasil figura, de fato, entre os países com maior carga tributária do planeta. Com 36,4%, a maior em 30 anos, os brasileiros são hoje os que pagam mais impostos entre os países da América Latina, segundo a OCDE, e estão entre os 14 países mais taxados do mundo.

É cruel que países como os Estados Unidos tenham uma carga tributária de 24,3% ; o Japão, de 28%; a Suíça, de 28%; o Canadá, de 30% e até o México, de 19,7% e o Chile, de 20,8%, e o Brasil ganhe de todos eles com seus 36,4%, que o governo ainda gostaria de aumentar.

Com a diferença de que nesses outros países o Estado oferece aos trabalhadores uma série de serviços públicos e sociais de primeira qualidade do berço até a morte. Pagam, mas recebem. Os brasileiros, pagam e recebem serviços que só os mais pobres usam. Disso resulta que uma família de classe média é mais sacrificada no Brasil que em outros países com impostos maiores.

Segundo o Índice de Arrecadação Tributária (IVAT), a carga fiscal brasileira cresceu 164,40% entre 2001 e 2010 e, desde então, não parou de aumentar. No primeiro governo Dilma, aumentou quase 2%.

Os especialistas calculam que um trabalhador brasileiro precisa trabalhar cinco meses para pagar impostos e outros cinco para pagar serviços públicos que deveriam estar a cargo do Estado, como transportes de qualidade, ensino ou saúde. O que sobra para viver?

E enquanto o Brasil é um dos países mais sobrecarregados de impostos, o PIB per capita contrasta com o de outros países.

Em uma lista do PIB de 80 países, o Brasil figura, segundo dados do FMI, entre os três últimos, com menos riqueza pessoal.

Enquanto o PIB brasileiro seria hoje, segundo a cotação do dólar, de pouco mais de 8.000 dólares, o dos Estados Unidos, por exemplo, é de 51.248, o do Canadá, 43.594, o da Alemanha, 39.993, o da França, 35.942 e o do Reino Unido, 51.248.

Até na América Latina, o PIB per capita brasileiro é menor que o do Chile (19.475) ou que o do México (15,932) e até menor que o da Venezuela (13.634)

Os números podem parecer frios, mas a realidade dos trabalhadores que sofrem uma das maiores cargas tributárias do mundo, que gozam de um PIB per capita menor e sofrem índices de violência que estão entre os maiores do planeta, constitui uma triste realidade.

Não se parecem esses trabalhadores brasileiros com o rei Sísifo, condenado pelos deuses ao trabalho duro e inútil de subir a montanha com uma pedra para, ao final de tanto esforço, ficar de mãos vazias?

Às vezes cruzo na rua com algum desses trabalhadores socialmente mais frágeis, que limpam o que ninguém quer limpar, erguem edifícios pendurados no vazio e na insegurança ou vigiam as noites tristes dos doentes amontoados nos hospitais públicos.

Minha tentação é pensar que estão realizando o castigo dos deuses imposto a Sísifo, mas prefiro ficar com a interpretação do mito grego que fazia Camus, quando escrevia que devemos, apesar de tudo, fazer um esforço para conseguir “ver Sísifo feliz”, às voltas com sua pedra montanha acima.

Esses trabalhadores cujos direitos o poder tem a tentação de morer quando aumentam as crises, são, como dizia o escritor francês, “donos de seu destino”, orgulhosos do que fazem por vocação ou necessidade.

Sem eles, o mundo, a começar pelo dos privilegiados cuja pedra outros levam montanha acima, seria um deserto ou um inferno.

Eles não merecem ser as cinderelas da crise, os sacrificados, mas sim os mais bem cuidados e protegidos.

Dias das Mães (visão governamental)