terça-feira, 25 de março de 2025

Eu não quero ser Rubem Braga

Neste momento em que começam as primeiras batalhas da Terceira Guerra, quando já se ouvem ao longe os clarins das novas bandas militares, eu espero que o diretor deste jornal não tenha a mesma ideia de seu colega do Diário Carioca, Horácio de Carvalho, em 1944.

Quando o Brasil se juntou aos aliados para enfrentar o Eixo de Hitler no front da Segunda Guerra, ele escalou como correspondente no conflito o cronista de amenidades do jornal. Rubem Braga, que escrevia sobre a observação de passarinhos, moças e borboletas amarelas nos céus do Rio, foi mandado relatar o circuito dos caças aéreos derramando bombas sobre os campos italianos. Não, senhor diretor, eu não quero ser Rubem Braga.

No alto, à esquerda, Rubem Braga; agachado, Joel Silveira

No próximo 8 de maio o mundo vai lembrar os 80 anos da rendição alemã, o Dia da Vitória, e ao invés da alegria de todos saírem às ruas, celebrar a paz e cantar “We are the world”, a expectativa é que a qualquer momento o diretor vai escalar mais um cronista para deixar as delicadezas da vida e seguir rumo à Ucrânia, Gaza, Irã, onde narrará o que vai pelos campos da morte.

Nos Diários Associados, o correspondente enviado à Segunda Guerra foi Joel Silveira, “a víbora”. Não era exatamente um cronista, mas escrevia com personalidade e, como mostram suas duas reportagens clássicas sobre os Matarazzo paulistas, tinha o humor venenoso que lhe deu o apelido. Quem o pautou foi o dono do jornal, o folclórico Assis Chateaubriand. Chatô foi claro como os ternos largos que vestia:

“O senhor vai pra guerra, seu Silveira, mas não me morra! Tá me ouvindo? Não me morra, seu Silveira! Repórter é pra mandar notícia, não pra morrer!”

Joel Silveira e Rubem Braga embarcaram com a Força Expedicionária Brasileira e é assim, fardados com outros soldados, que estão na capa de “Heróis por acaso – Espionagem no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial”. O livro, um dos muitos que serão lançados nos próximos dias para lembrar o armistício, mistura realidade e ficção. É assinado por Paulo Valente, filho de Clarice Lispector.

Eu repito, dispenso a honraria. Não quero ser o Rubem Braga da Terceira Guerra, muito menos a genial víbora peçonhenta do Silveira. Alguém, no entanto, precisará fazer o serviço enquanto eu permaneço na não menos dura guerra urbana carioca. A quem couber a escolha do diretor de redação, recomendo que antes de embarcar leia “Com a FEB na Itália”, os relatos de Braga sobre os nove meses em que acompanhou nossos pracinhas na busca do escalpo dos tedescos. Ao mesmo tempo que, repórter, noticiava o avanço da tropa, ele, cronista, traçava quadros de delicadeza sentimental como o da menina italiana Silvana, ferida por uma granada, um clássico da literatura nacional.

Definitivamente, eu não quero ser Rubem Braga, e parece que nem será necessário mandar cronista de amenidades para descrever os bastidores das batalhas. Vem aí uma guerra de drones. Não haverá um bar de hotel de Roma. Uma loura não estará na mesa ao lado esperando que lhe acendam o cigarro. O novo Rubem Braga não lhe dará fogo como fez o antigo. Não se apaixonará por ela, não precisará ser alertado por um oficial inglês como aconteceu com o cronista em 1944. A loura é uma espiã.

A Terceira Guerra vai ser muito chata.

Eu só para os 'civilizados' brancos


Os homens e as mulheres ontem, os judeus e os palestinos hoje: fico pasmo com a incapacidade de os seres humanos viverem juntos no respeito mútuo. Como se o outro devesse necessariamente ser um inimigo. O outro é simplesmente o outro. O outro é como eu. Ele tem o direito de dizer “eu”. Nós, homens brancos, civilizados e ricos, não aceitamos que o outro diga eu
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José Saramago

Gaza: por que não se chama genocídio a um genocídio?

O número foi “atualizado” este domingo: 50 mil mortos em Gaza. Netanyahu prossegue o genocídio, quebrando o cessar-fogo em nome da sua sobrevivência política agora com um aval superior: Donald Trump já promete limpar a Faixa de Gaza e fazer dali “a Riviera” e dá a luz verde total ao criminoso israelita para a extinção dos palestinos.

A “nova Europa” – França, Reino Unido e Alemanha – fez um comunicado onde se mostrou “chocada” com o ressurgimento dos ataques a Gaza. Mas não irá além disso, como o não foi o Conselho Europeu reunido na semana passada: todo e qualquer opositor da política do governo israelita será acusado de “antissemitismo”. As palavras são sempre cuidadosamente medidas.

Afinal, Keir Starmer expurgou do Partido Trabalhista todos os que se opunham à política do Estado de Israel – como o antigo líder trabalhista Jeremy Corbyn, reeleito nas últimas eleições pela sua circunscrição londrina como independente.

A Palestina está no fim da cadeia alimentar da possibilidade de empatia internacional. Choramos pela Ucrânia, mas depois já não sobra nada para Gaza. É como se existisse uma desumanização dos palestinos que, aos olhos do Ocidente, são olhados como há dois séculos se olhavam os escravos.


O que Trump defende é exatamente o mesmo que o ministro da Segurança de Israel, Ben Gvir, de extrema-direita – que saiu e agora, com o regresso dos ataques, reentrou no Governo. É uma Faixa de Gaza sem palestinos, seja por migração ou por extermínio, como se está a ver.

Várias agências da ONU e algumas ONG, como a Amnistia Internacional, já se referiram ao que se está a passar em Gaza como um “genocídio”. Até o Papa Francisco, num livro publicado no fim de 2024, alude à palavra “genocídio”, sem a decretar expressamente. Mas Francisco afirmou ser preciso apurar se a mortandade em Gaza “tem as características de um genocídio” e “se enquadra na definição técnica formulada por juristas e organismos internacionais”. E, ao mesmo tempo, fala do extermínio dos judeus pelos nazis, o genocídio dos arménios, o genocídio do Ruanda e dos cristãos no Médio Oriente.

Se Joe Biden sempre apoiou Israel e descartou todas estas acusações, Donald Trump eleva a discussão sobre Israel-Gaza para um novo patamar, instituindo um novo McCarthismo, nome cunhado depois do senador Joseph McCarthy denunciar uma “rede de espiões e membros do Partido Comunista” no Departamento de Estado, tendo sido corresponsável pelas perseguições a uma quantidade enorme de “suspeitos de comunismo” em todas as áreas, da cultura à política, nos anos 50 nos Estados Unidos.

Tendo em conta que, para Trump, defender a Palestina e combater a política de guerra de Israel é igual a defender o Hamas e os atos terroristas contra israelitas, a perseguição e a deportação dos imigrantes acusados de “apoiar terroristas estrangeiros” já está em curso. Mahmoud Khalil, defensor dos direitos dos palestinos, foi preso e, apesar de ter residência permanente nos Estados Unidos e de a sua mulher ser cidadã americana, Trump diz que a presença de Khalil nos Estados Unidos “é contrária aos interesses nacionais e política externa” do país. Há outros cidadãos ameaçados de deportação.

Omer Bartov, por enquanto, não é um deles. Nascido e criado em Israel, antigo combatente nas forças armadas israelitas, especialista em Holocausto e genocídio, o historiador escreveu no verão passado no The Guardian um ensaio sobre como o perturbou a sua última visita a Israel, em 2024, onde foi ver a família e amigos e conhecer a neta.

Omer Bartov – que, depois do 7 de outubro, tinha negado que Israel estivesse a cometer genocídio – escreveu nesse texto: “Já não acredito nisso. Fiquei convencido que, depois do ataque a Rafah em 6 de maio de 2024, não é possível negar que Israel comete crimes de guerra, crimes contra a Humanidade e ações genocidas.”

A comunidade internacional, ao optar por não ver o que se está a passar, é obviamente cúmplice. Trump já sabemos que é.

O Mau Humor dos Nossos Rios

Nosso Brasil, de rios largos e generosos, tem enfrentado ultimamente um fenômeno estranho: o mau humor das águas. Sim, porque se os rios pudessem falar, estariam de cara fechada, emburrados com tanto descaso. No coração da Amazônia, onde a floresta deveria encontrar nos cursos d’água um refúgio fresco e constante, o que se vê é um espetáculo de secura, barcos encalhados e gente olhando pro céu, torcendo por uma chuva que insiste em não cair.

Nos municípios ribeirinhos, onde a vida depende da fluidez das águas, a estiagem prolongada não é só um contratempo: é uma calamidade. As canoas, que antes deslizavam tranquilas levando peixe, gente e esperança, agora encontram solo rachado, enquanto as populações tentam reinventar o cotidiano sem a presença do rio que sempre ditou o ritmo da vida. Mas será que podemos culpar os rios pelo seu mau humor?


A resposta, claro, está na falta de planejamento. A floresta foi sendo desmatada, os cursos d’água assoreados, e o clima resolveu dar sua resposta: secura sem fim. O fenômeno é repetido, ano após ano, e o Brasil assiste com uma cara de surpresa, como se não soubesse que sem preservação, os rios não têm como retribuir sua abundância. E quem sofre com isso? As populações ribeirinhas, abandonadas entre o verde intenso da floresta e o marrom pálido da terra esturricada. Já estamos rodando de motocicleta, doze quilômetros, de uma cidade para outra, onde antes era um lago. E a vida desse lago? Para onde foram os peixes, as garças, as arirambas, as lontras? Ninguém sabe de nada, ninguém estuda o fenômeno, os institutos se calam e os governantes ficam a mercê do bom humor da NINHA.

O poder público patina entre a burocracia e a falta de verba. Discute-se o problema, formam-se comitês, divulgam-se notas, mas a água continua baixando. As estradas, quando existem, se tornam únicas alternativas de transporte, mas são precárias ou simplesmente impraticáveis. Quem diria que, no coração da maior bacia hidrográfica do mundo, faltaria água para beber e para viver?

Mas nem só de tragédia vive a Amazônia. O povo da floresta é teimoso, criativo e resistente. Quando os rios resolvem fazer greve, o ribeirinho improvisa. Caminha quilômetros atrás de um poço, faz reza para São Pedro e, se nada disso resolver, inventa um jeito novo de lidar com o problema. Mas a pergunta que fica é: até quando depender da resiliência, quando o que se precisa é de ação?

Se o Brasil quiser ver seus rios voltando a sorrir, é preciso mais do que lamentos. O planejamento hídrico tem que deixar de ser discurso e virar uma realidade que todos vejam e apoiem. Não pode ficar trancado nas salas de Institutos que existem há décadas e não se sente o resultado prático das suas existências e custos. Preservação não pode ser papo de ambientalista solitário, ou de ministros com opiniões que estão muito longe do rigor da ciência, mas sim, política de estado. E, acima de tudo, as populações que vivem dessa água precisam ser vistas e ouvidas, porque são elas que sentem, na pele, o descaso, o falso discurso e o peso do abandono.

Nos Estados Unidos, país ainda irmão do Brasil, existe um programa que pode chegar até nós e resolver grande parte dos nossos problemas:

O Tennessee Valley Authorithy, uma agência do Governo Americano, criado no longínquo ano de 1933, para dar vida aos americanos que viviam no Rio Tennessee e que mereciam vida melhor do que aquela que existia. No começo era para controlar as enchentes, passando imediatamente para as construções de represas e desenvolvimento da energia e do agro. A tecnologia desenvolvida para as plantações na várzea, dizem muito bem para a nossa Amazônia e os seus catorze milhões de hectares de várzea ainda improdutivas. Desde que Adão e Eva andaram por aqui, só plantamos macaxeira, melancia e mandioca. Alguns caboclos se aventuram em um roçado mais avançado e plantam abóbora, milho, mandioca e umas pimentas, logo arrasado pela seca ou pelas enchentes, quando não visitados pelo IBAMA, que sugere uma roçada para não incentivar a queima de dois hectares. Só esquecem que as populações que nos invadem e nos empobrecem, sentem a necessidade de plantar, comer, beber e progredir.

Só com a normalização do humor dos rios é que voltarei a comer sorva, cama cama, sapoti, pupunha do tamanho normal, caju e até a minha querida pimenta murupi, a original, aquela que faz a bundinha em vez da ponta, aquela que arde e tem cheiro. Todas essas frutas e o tamanho dos abacaxis e cupuaçus, ficaram diferentes do que estamos acostumados a comer.

Que venham as chuvas, mas que venha também a conscientização dos eleitos, porque, sem isso, os nossos rios seguirão de mau humor, e o Brasil, sedento de soluções.

segunda-feira, 24 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


Barbárie tecnológica


O desenvolvimento tecnológico, se não for acompanhado por um idêntico avanço cultural, ético e moral, não aprimora a civilização. Pelo contrário, degrada-a, conduzindo a uma espécie de barbárie tecnológica.
 
José Eduardo Agualusa

Imigrantes agora são os inimigos

Vivemos uma época estranha, e sinto-me muito envolvido nela para compreendê-la. Tenho algumas intuições, levanto hipóteses, mas simplesmente vou vivendo na esperança de um dia olhar para trás e dizer com calma:

— Foi assim.

Durante a semana, andei lendo sobre o cotidiano em Gaza durante o precário cessar-fogo. As pessoas vivem nos escombros, sem condições higiênicas, e há o frio que matou sete bebês de hipotermia. Quando terminei minha pesquisa, a guerra recomeçou, e o bombardeio matou 400 pessoas.

Na mesma semana, assisti ao filme “O aprendiz”, que conta a história de Donald Trump. Biografias às vezes exageram, mas, de qualquer forma, custa acreditar que ele tenha se tornado presidente dos Estados Unidos duas vezes. As lições que aprendeu com o advogado Roy Cohn talvez ajudassem a ganhar dinheiro, mas não parecem úteis para um estadista: atacar sempre, considerar a verdade algo relativo e nunca admitir uma derrota.

A mesma dureza que aplicava aos pobres inquilinos de seus prédios, transfere agora aos imigrantes. Pessoas são diariamente presas; mulheres, separadas de maridos americanos; pais, de filhos. Há hostilidade nas ruas. A ida dos venezuelanos para El Salvador —que os manterá na prisão a um custo de US$ 6 milhões — foi um espetáculo repressivo. Os presos são forçados a andar curvados, as cabeças raspadas diante das câmeras.

Tudo isso acabou me dando uma ligeira ideia dos tempos em que vivemos, sobretudo ao ler no New York Times o artigo de uma pessoa trans. Ela fala com clareza que o processo de negação de sua humanidade se parece com o que se passou com judeus, ciganos e gays no III Reich. É preciso destituí-los de todos os direitos para desaparecer com eles.

Há diferenças entre aquele período e o que se passa agora nos Estados Unidos. Mas há também algumas semelhanças, que nos lembram o suicídio de pessoas sensíveis, como o escritor Walter Benjamin, que tentava cruzar a fronteira da França com a Espanha, em fuga do nazismo.

Ao ler o artigo no Times, senti um amargor estranho, que havia sentido naquele momento da Guerra das Malvinas diante das fotos de navios envoltos em brumas num mar revolto. São períodos em que as notícias cotidianas nos deixam tristes. De certa forma, tento olhar com esperança. A Segunda Guerra e todos os seus horrores acabaram despertando algumas reações valiosas para que pudéssemos continuar a aventura humana.

Na França, o existencialismo ganhou importância não com só com filósofos (Sartre, Simone), mas também com artistas como Juliette Gréco. Em Frankfurt, uma nova escola de pensamento mergulhou não apenas na mente germânica, mas produziu conhecimentos universais: Marcuse, Erich Fromm, Adorno, Horkheimer, Habermas ocuparam a cena para reinterpretar a realidade.

Minha esperança é que possamos sair deste momento com novas ideias, aprendendo um pouco mais sobre os seres humanos, como aprendemos com os descaminhos do povo alemão. Hitler tinha apoio popular. Guardadas as proporções, Donald Trump também galvaniza apoio popular. A hostilidade aos estrangeiros se espalha entre pessoas simples, que buscam explicações para suas dificuldades.

Sou neto de imigrantes. Sempre pensei nos avós como gente com uma mão na frente e outra atrás, na pobreza, que trabalhou arduamente para cavar seu caminho e garantir a sobrevivência. Jamais imaginei que imigrantes fossem perseguidos como criminosos, apenas por buscar uma oportunidade num novo país. É possível superar essa tendência humana para criar bodes expiatórios? O que é preciso aprender, o que é preciso ensinar para darmos esse passo histórico?

Não tenho respostas a essas questões. Sei que foram levantadas noutras épocas e que precisamos viver este momento trágico, mas tentar respondê-las à nossa maneira, em nosso tempo de vida.
Fernando Gabeira

Onde está a reação a Trump?

A riqueza e o poder prodigiosos dos Estados Unidos se baseiam em dois pilares: universidades e empresas. O primeiro produz as ideias, pesquisas e formação que transformaram o país em uma Meca para as mentes mais brilhantes do mundo. O segundo gera os investimentos e inovação que alimentaram a formidável máquina econômica americana. Agora, porém, o presidente Donald Trump parece determinado a destruir ambos.

O comportamento de Trump não surpreende. Suas ideias de política econômica sempre foram absurdas, e seu ódio pelas instituições acadêmicas de elite - que ele vê como o lar da cultura “woke” - é bem conhecido. O mais chocante é que líderes corporativos e acadêmicos quase não estejam se manifestando.

Após a vitória eleitoral de Trump em novembro, havia um otimismo cauteloso nos círculos empresariais. Ele parecia uma mudança bem-vinda depois de Joe Biden, que falou duro contra o setor privado e apoiou sindicatos e regulamentações. Trump, em contraste, prometeu impostos baixos e menos burocracia. Seu discurso protecionista era um problema, mas muitos presumiram que era só para inglês ver. O mercado de ações abençoou a eleição de Trump ao atingir máximas históricas. Bilionários da tecnologia doaram para sua transição e se curvaram em sua posse.

As semanas seguintes mostraram que esse otimismo foi profundamente equivocado. Trump lançou uma surpresa atrás da outra na economia, fazendo com que os mercados americanos perdessem todos os ganhos desde novembro. É difícil dizer qual medida foi pior: as tarifas pesadas impostas aos aliados mais próximos (Canadá, México e Europa) ou a retórica constante, ameaças e guinadas na política comercial, que elevaram os indicadores de incerteza econômica a níveis superiores aos da crise financeira global de 2008.

Para piorar, o Departamento de Eficiência do Governo (Doge, na sigla em inglês) de Elon Musk causou estragos no governo federal, violando princípios legais básicos e demitindo mais de 100 mil funcionários públicos. Embora haja certa lógica cruel no corte de ajuda externa, o governo também atacou inexplicavelmente pesquisas básicas em áreas como saúde, ciências biológicas e educação.

Deve ser óbvio para os líderes empresariais americanos que Trump é uma ameaça clara e presente ao sistema que gerou suas fortunas. Por mais danosas que sejam suas políticas comerciais erráticas, elas são insignificantes perto da ameaça que ele representa às instituições básicas necessárias a uma economia de mercado próspera: o Estado de Direito, a separação de poderes, o investimento governamental em ciência e inovação, infraestrutura pública e relações estáveis e amigáveis com países estrangeiros afins.

O próprio Musk deve muito de seu sucesso a essas instituições. Sem um empréstimo governamental crucial num momento crítico, a Tesla teria falido. Fora isso, a SpaceX recebeu dezenas de bilhões de dólares em contratos governamentais. Ainda assim, Trump abandonou todas essas funções em favor de uma agenda que não avança nenhuma estratégia coerente, muito menos soluções para os problemas do país.

A ameaça de Trump às universidades americanas é ainda mais clara. Ele reduziu drasticamente o apoio governamental a pesquisas médicas básicas e, sob o pretexto de combater o antissemitismo, cortou recursos de forma arbitrária de algumas das principais universidades do país. Columbia e Johns Hopkins foram os primeiros alvos, mas outras (incluindo minha instituição, Harvard) também estão na mira.

O ataque de Trump às instituições democráticas é impressionante em velocidade, descaramento e transparência. Nenhuma organização da sociedade civil ou líder público pode continuar a duvidar da gravidade da situação

Quando as instituições básicas de uma democracia são atacadas, líderes de grandes organizações empresariais e acadêmicas têm o dever moral de se pronunciar. Mesmo assim, nem executivos nem reitores de universidades agiram. Em vez disso, adotaram o que os cientistas políticos de Harvard Ryan D. Enos e Steven Levitsky chamam de “agrado silencioso”. Eles calculam que, agindo nos bastidores e evitando holofotes, podem evitar o pior.

Mas, como Enos e Levitsky destacam, essa estratégia não funciona. Autocratas populistas como Hugo Chávez (Venezuela), Vladimir Putin (Rússia), Viktor Orbán (Hungria), Narendra Modi (Índia) e Recep Tayyip Erdogan (Turquia) sempre atacam universidades e pisoteiam liberdades acadêmicas. Censura - imposta pelo governo ou autoinfligida - é o preço que todas as instituições pagam. Mesmo quando autocratas inicialmente apoiam o mercado, acabam minando as bases institucionais de uma economia competitiva.

Comparado a esses autocratas, o ataque de Trump às instituições democráticas americanas é impressionante em velocidade, descaramento e transparência. Já não dá mais pra dizer: “É só o jeito dele; ele nunca cumprirá essas ameaças”. Nenhuma organização da sociedade civil ou líder público pode continuar a duvidar da gravidade da situação.

Autocratas prosperam quando seus oponentes permanecem divididos e com medo de se manifestar. Essa é a tragédia da ação coletiva: todo mundo perde quando nos recusamos a arriscar individualmente. Por isso, as principais universidades e maiores corporações do país - aquelas com mais credibilidade e mais a perder - agora têm uma responsabilidade desproporcional de agir.

Imagine se os reitores das principais universidades e CEOs das maiores empresas - junto com sindicatos, grupos religiosos e outras organizações civis - publicassem uma declaração clara e firme sobre os perigos de minar o Estado de direito, a liberdade acadêmica e a pesquisa científica. Esse gesto não comoveria Trump e seus aliados, mas animaria outras forças democráticas, mobilizando-as. Dezenas de milhões de americanos perguntam quando alguém terá coragem de se pronunciar. No mínimo, quem o fizer estará do lado certo da história.

Dani Rodrik

Com luz verde de Trump: A selvageria do banho de sangue de Israel em Gaza

Os terroristas de direita de Netanyahu, Ben-Gvir e Smotrich, não apenas acolheram com satisfação a renovação das políticas de terra arrasada.

A fúria e a intensidade dos ataques com mísseis e bombardeios mortais na Gaza sitiada não são apenas a continuação do genocídio pelo regime colonial de colonos, mas também uma rejeição decisiva do cessar-fogo que ele havia assinado.

Os líderes criminosos do regime – particularmente Benjamin Netanyahu – que está na lista de procurados do Tribunal Penal Internacional, buscaram todos os pretextos possíveis para retomar os massacres de civis inocentes.

Apesar da chamada “calmaria” no período intermediário quando a 1ª fase do cessar-fogo começou, Israel está ansioso para derramar mais sangue palestino, para se somar aos milhares e milhares de mártires desde 7 de outubro.

Da noite para o dia, enquanto os palestinos deslocados, sujeitos ao bloqueio desumano de alimentos, combustível, medicamentos e outros itens essenciais imposto pelo regime sionista, e bem no meio do Ramadã, preparavam refeições Suhur em tendas de plástico improvisadas e prédios bombardeados, Netanyahu desencadeou um terror feroz sobre eles.


Em minutos, mais de 400 civis foram mortos, principalmente mulheres e crianças. Mil ou mais ficaram feridos sem meios de receber tratamento médico.

Relatórios indicam que os atuais ataques militares são mais mortais e mais abrangentes do que a série regular de ataques de drones que Gaza vem sofrendo durante as semanas em que Netanyahu deixou de cumprir os termos originais do cessar-fogo.

Em resposta aos ataques atuais, a Resistência Palestina Hamas criticou Israel por desrespeitar suas obrigações ao anular o acordo de cessar-fogo.

Israel, que violou repetidamente o cessar-fogo que entrou em vigor em 19 de janeiro, tentou fabricar novos termos em um esforço para justificar a destruição total do acordo.

Os analistas Jeremy Scahill e Abubaker Abed ressaltam que, desde janeiro, Netanyahu tem travado uma campanha de sabotagem e provocação, violando abertamente os termos do acordo ao dificultar e bloquear totalmente a entrega de ajuda à Faixa de Gaza.

“Embora alimentos e outros suprimentos tenham sido autorizados a entrar em Gaza durante a primeira fase de 42 dias do acordo, Israel se recusou a permitir que quase todas as 60.000 casas móveis e apenas uma fração das 200.000 tendas entrassem em Gaza.”

Embora Netanyahu tenha tentado culpar o Hamas por falsas acusações de minar o cessar-fogo, a realidade é que ele impôs um “bloqueio total de qualquer ajuda, incluindo alimentos e suprimentos médicos para a Faixa e retomou sua política de usar a fome como arma de guerra”.

No domingo, Israel também cortou o fornecimento de eletricidade para Gaza, forçando uma grande usina de dessalinização a reduzir sua produção de água, limitando severamente a quantidade de água potável disponível para 600.000 pessoas em Deir al-Balah e Khan Younis.

Sabe-se que o Hamas aderiu ao acordo e estava ansioso para mantê-lo, “mas Netanyahu, buscando uma saída para suas crises internas, preferiu reacender a guerra às custas do sangue de nosso povo”, disse o Hamas em um comunicado.

De acordo com uma reportagem do Haaretz, o primeiro-ministro do Catar, xeque Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, exigiu ação internacional imediata para obrigar Israel a implementar um cessar-fogo imediato, respeitar o acordo de cessar-fogo de Gaza e retornar às negociações.

O fato de que as exigências de um membro-chave da equipe de mediação são direcionadas exclusivamente a Israel confirma o fato de que, ao contrário das alegações de Netanyahu, não foi o Hamas que violou o acordo.

Essa visão é reforçada por relatos da mídia de que o Fórum de Reféns e Famílias Desaparecidas denunciou Israel, não o Hamas.

“O maior medo das famílias, dos reféns e dos cidadãos de Israel se tornou realidade – o governo israelense decidiu desistir dos reféns”, disse um porta-voz ao Haaretz.

De fato, os terroristas de direita de Netanyahu, Ben-Gvir e Smotrich, não apenas acolheram com satisfação a renovação das políticas de terra arrasada, mas exclamaram alegremente que os planos foram preparados semanas atrás.

Sua excitação com o massacre de mães e bebês inocentes revela mais do que mera aprovação. Confirma que Israel não tinha intenção de honrar o acordo e havia conspirado para culpar o Hamas para justificar a atual selvageria.

Desde o início do cessar-fogo em Gaza, há 60 dias, a resistência palestina e as organizações responsáveis ​​têm monitorado meticulosamente as repetidas violações do acordo pelo regime sionista, afirma a Rede de Prisioneiros Palestinos, Samidoun.

“Ao mesmo tempo, para proteger seu povo, a Resistência não violou nenhuma vez os acordos de cessar-fogo nem retaliou contra os criminosos de guerra sionistas.”

Izzat al-Rishq, um membro fundador do gabinete político do Hamas, declarou: “O inimigo não alcançará por meio da guerra e da destruição o que não conseguiu alcançar por meio de negociações”.

A autorização dada por Trump ao banho de sangue em Israel o torna diretamente culpado de uma série de crimes de guerra, incluindo genocídio e limpeza étnica.

Ao facilitar a onda de ataques aéreos ao armar e financiar Israel, como tem sido a prática de seu antecessor Joe Biden, Trump provou – mais uma vez – que, longe de ser um pacificador, ele é um belicista.

Alon Mizrahi resume as notícias devastadoras de um novo genocídio, imediatamente seguido por imagens angustiantes como uma onda de tsunami de choque, descrença e dor.

As aulas de resistência

Um dos prazeres da velhice é ir reorganizando o currículo das crianças, de forma a adequar-se melhor aos nossos preconceitos.

É neste espírito que proponho dar às crianças mais velhas – ainda não sei a partir de que idade – pelo menos dois anos de aulas de uma cadeira que lhes vai dar jeito até caírem da tripeça: a Resistência.

A Resistência é o conjunto de técnicas que se usam para nos defendermos das sugestões dos outros.

Vai desde o simples dizer “Não” (que de simples nada tem e que só os cinturões negros conseguem dominar), até às mais sofisticadas técnicas de procrastinação.


Se há coisa que se aprende quando se tem muitos anos disto é que toda a gente nos quer empurrar para o que lhes convém.

O que vale é que cada um empurra numa direção diferente – um para nos fazermos advogados, outro para fugirmos para Bali – e cedo percebemos que, como não podemos satisfazer toda a gente, mais vale não satisfazermos ninguém.

Ninguém, quer dizer, ninguém a não ser a pessoa mais empenhada numa solução, que mais arrisca e que mais petisca: tu.

É muito fácil empurrar. Fácil e rápido. Alguém diz “devias seguir Medicina”, gasta três segundos com as três palavras, e segue caminho.

Já nós passamos o resto do ano – porventura a vida inteira – a matutar naquelas três palavras, e a repetir como um robô: “O meu tio Zé é que achava que eu devia ter sido médico… e eu, estupidamente, não liguei nenhuma…”

Como não podemos proibir a palavra “devias” (mas que paraíso seria, se pudéssemos!), temos de aprender a resistir.

A resistência aos empurrões é um delicado râguebi feito de fintas e bloqueios, em que tentamos seguir com a nossa bola nos braços, enquanto somos perseguidos pelos nossos amigos e familiares, cada um a querer empurrar-nos – não para outro lado do campo, mas para outro desporto, ou para outro universo que não o desportivo.

A resistência exige encantamento, técnicas de desvio da atenção, maquiavelismo, muita lábia e… paciência.

domingo, 23 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


Na tentativa de virar imperador, Trump fratura democracia americana e ordem internacional

Os últimos movimentos de Donald Trump confirmam suas pretensões imperiais: do monarca absolutista que usurpa as prerrogativas dos outros poderes e do colonizador que cobiça as riquezas de outros povos.

Trump invocou na calada da noite do dia 14 a Lei do Estrangeiro Inimigo, para deportar 137 venezuelanos sem o devido processo legal. A lei, de 1798, só pode ser aplicada durante guerras. No dia seguinte, ignorou a ordem do juiz James Boasberg de suspensão das deportações para El Salvador e retorno dos aviões que já tivessem decolado.

O responsável por imigração da Casa Branca, Tom Homan, declarou: “Eu não me importo com o que juízes pensam”. Trump postou que o juiz devia sofrer impeachment. Numa rara manifestação pública, o presidente da Suprema Corte, o conservador Robert Smith, qualificou a ideia de “inacreditavelmente perigosa”.


Trump decretou o desmantelamento do Departamento de Educação e destinou US$ 4 bilhões de ajuda militar para Israel, decisões que cabem ao Congresso. Estudantes e funcionários estão sendo perseguidos.

As demissões sumárias de funcionários encarregados de fiscalizar o governo estão sendo derrubadas na Justiça. A Suprema Corte suspendeu na sexta-feira a demissão de Hampton Dellinger, diretor do Escritório do Procurador Especial, que recebe denúncias de irregularidades no governo.

Em fevereiro, Trump aboliu uma lei de Nova York que taxa veículos na hora do rush. A governadora Kathy Hochul disse que o presidente não poderia interferir em lei estadual, e que eles se encontrariam no tribunal. Trump postou: “Aquele que salva seu país não viola nenhuma lei”, uma frase atribuída ao imperador Napoleão Bonaparte.

Na sexta-feira, Trump, 47.º presidente dos EUA, anunciou o nome do próximo caça: F-47. Os anteriores foram F-34 e F35. Nem sempre os aviões seguem a ordem, mas nunca tinha havido um salto desse para homenagear um presidente.

Sua política externa é norteada por planos de colonizar Ucrânia, Faixa de Gaza, Canadá, Groenlândia e Panamá, e deixar que as outras potências imperialistas, China e Rússia, façam o mesmo com seus vizinhos.

Depois de tentar impor à Ucrânia um contrato pelo qual os EUA ficariam com a metade das receitas dos minérios e da infraestrutura do país, agora Trump quer se apropriar da rede de geração e transmissão de energia, enquanto entrega à Rússia as áreas por ela ocupadas.

O presidente não conseguirá se tornar um imperador, mas suas tentativas causarão fraturas na democracia americana e na ordem internacional baseada em regras.

Anticiência em nosso planeta hoje

Na trilogia de Cixin Liu, The Three-Body Problem Series, as forças que pretendem destruir os cientistas, e assim acabar com a produção de ciência na Terra, vêm do espaço sideral. O primeiro volume da trilogia foi adaptado como uma série pela Netflix. Os alienígenas planejam invadir o nosso planeta num futuro em que, sem ciência e tecnologia de ponta de defesa, seríamos incapazes de enfrentar uma invasão extraterrestre.

Hoje, a anticiência pode provir da política, da religião ou de ideologias fortemente arraigadas, das redes sociais e de interesses econômicos distintos. As forças destrutivas da anticiência terráquea vêm de vários cantos, inclusive de países governados pela extrema direita, hoje representada pelas políticas implementadas pelo governo Trump. Os ataques à ciência que se praticam nos Estados Unidos da América são amplamente comentados por revistas e por associações no mundo todo.


A postura da comunidade científica internacional pode-se resumir traduzindo o início de um recente artigo da revista Nature: “Trump 2.0: um ataque à ciência em qualquer lugar é um ataque à ciência em qualquer lugar. O presidente dos EUA, Donald Trump, pretende demolir a ciência e as instituições internacionais. A comunidade científica global deve tomar uma posição contra estes ataques.”

Outro exemplo de anticiência vinda do Estado é visível na Hungria. Em várias declarações onde se diz desfavorável à preocupação global a respeito das mudanças climáticas, Viktor Orbán, primeiro-ministro de extrema direita da Hungria, declara: “As ‘elites ocidentais’ estão demasiado preocupadas com as quotas de carbono e não o suficiente com a queda das taxas de natalidade”. Isso sem falar da cruzada do Viktor Orbán contra a liberdade acadêmica, exemplificada pelo fechamento da Universidade Centro-Europeia (CEU).

Para fechar esta curta lista de exemplos de Estados anticiência, é mister não esquecer que a postura anticiência do governo Bolsonaro não é coincidência: foi um projeto que se mostrou incompatível com a ciência, com a tecnologia, com o desenvolvimento sustentável desde seu início. Além de perseguir o ensino superior e toda a criação de ciência vinda das universidades públicas, foi responsável pela demora na vacinação contra covid, que causou mais de setecentas mil mortes no Brasil.

Os movimentos anticiência, contudo, não se reduzem às políticas de Estado e podem ser identificados nos extremos do espectro político. Caminhos anticiência conspiram, hoje, para desacreditar todo o universo da ciência e os cientistas em particular. Segmentos sociais militam contra determinadas áreas da ciência somando-se a fenômenos identitários. Muitos oferecem explicações (e aplicações) distantes de quaisquer evidências científicas ou criam universos paralelos onde sequer os fenômenos observáveis são aceitos como realidades.

O movimento antivax, por exemplo, é global, pode-se encontrar em setores da direita e da esquerda e constitui um dos mais poderosos grupos anticiência do planeta. A Organização Mundial da Saúde (OMS) identificou a hesitação vacinal como uma das ameaças à saúde global. De fato, os antivax podem ser responsabilizados pelos aumentos recentes de algumas das principais doenças, que incluem: sarampo, coqueluche, caxumba, rubéola e difteria. É bom lembrar que os movimentos antivax não se limitam a mentir sobre os efeitos deletérios de todas as vacinas, mas são ativamente contrários à pesquisa sobre vacinas e a toda a ciência que sustenta esta pesquisa. A variedade de teorias da conspiração antivacina, anticiência, e que também perseguem cientistas, é tamanha que requer um tratado até para descrevê-las. Muitas, porém, usam elementos que afirmam que os cientistas estão trabalhando para satisfazer a interesses escusos de grupos econômicos ou políticos.

As redes sociais produziram uma avalanche de mentiras e de pseudocientistas que se transformam nos arautos da anticiência em temas específicos. A sequência de aparição dos pseudocientistas é sempre similar, a apresentação de um currículo, real ou imaginário, apresentando credenciais, seguido por um longo discurso que tenta convencer que as vacinas matam ou que são só as grandes empresas que atacam a homeopatia.

A retórica anticientífica pode, também, ser alimentada por empresas, como demonstrado na negação, durante décadas, dos efeitos deletérios do consumo de tabaco pela indústria do cigarro ou por empresas de energia que minimizam as alterações climáticas.

A oposição aos movimentos anticiência requer, necessariamente, justificativas da defesa da ciência, e, por consequência, dos cientistas. Reconhecer que nem toda ciência trouxe benefícios para a humanidade, ou que vacinas podem ter efeitos colaterais perigosos, faz parte da defesa da ciência que existe e a que necessariamente deve conduzir a humanidade a novos conhecimentos.

A decisão política de realizar o Projeto Manhattan, que associou cientistas brilhantes para desenvolver a primeira bomba atômica, é bem conhecida. Os efeitos trágicos dos bombardeios atômicos em Hiroshima e Nagasaki têm origem na física, que descobriu a transformação de matéria em energia. Ao mesmo tempo, o uso pacífico da energia nuclear é evidente e os reflexos da ciência que hoje conhecemos sobre radioatividade têm papel crucial na medicina. Novas descobertas sobre reatores nucleares de fissão seguros, ou reatores de fusão, podem mudar a forma em que recebemos energia e colaborar para a diminuição do aumento da temperatura no planeta. Assim, reconhecendo as tragédias de Hiroshima e Nagasaki, bem como a ameaça constante de países que dominam a tecnologia capaz de produzir bombas atômicas, as descobertas da física determinaram muitos dos avanços recentes da humanidade que nos permitiram elevar a expectativa de vida, a qualidade de vida e a nossa capacidade de comunicação nestes últimos cem anos. Descobertas futuras da ciência podem, assim espero, evitar a desaparição da espécie humana nos próximos séculos por causa dos fenômenos extremos, que já estamos observando, causados pelas mudanças climáticas.

Já as vacinas, que tomo como outro exemplo, têm sim efeitos colaterais que podem ser graves, mas são raros e sua ocorrência é tão baixa que os benefícios excedem em muitas ordens de magnitude os possíveis efeitos deletérios. Tomo como exemplo a vacina MMR, que protege as crianças contra sarampo, caxumba e rubéola. Esta vacina pode, sim, causar alergias perigosas numa taxa de uma em um milhão de doses aplicadas. Por outro lado, a taxa de mortalidade de crianças por sarampo das crianças não vacinadas é de três por mil doentes. Embora a mortalidade por caxumba seja extremamente baixa, as complicações decorrentes da doença têm uma mortalidade que varia de quatro a dez por cento. A mortalidade por rubéola varia com local e condição econômica e sanitária do doente, mas pode representar entre 1 e 0,1 por cento, sem considerar as complicações decorrentes da infecção pelo vírus. Também está amplamente provado que, apesar das teorias da conspiração dizendo o contrário, a vacina MMR não tem relação alguma com a aparição do transtorno autista. Olhando para as probabilidades de aparição de efeitos secundários e comparando aos perigos de mortes por doença, é evidente que a vacinação por MMR é absolutamente necessária.

Sem ter que temer por agora desafios vindos do espaço sideral, a anticiência na Terra deve ser enfrentada. Somente a ciência existente e aquela que a humanidade ainda deve criar podem continuar a nos tornar mais cientes do nosso mundo e evitar a desaparição de nossa espécie por novas pandemias ou por fenômenos extremos causados pelas mudanças climáticas.

Emojis não servem para gritar

As palavras somem. Aos poucos, já que são milhares. Somem e, sem que percebamos, esquecemo-las. E sem serem ditas, também seus significados e sentidos desaparecem. A cada palavra escondida, ideias e conceitos deixam de habitar nossas percepções. Com o tempo, as palavras, ao serem retiradas, proibidas, camufladas, censuradas, diminuem a complexidade de nossa relação crítica com o real. Acostumamo-nos a viver sem elas, sem seus valores, suas informações, seus ruídos e incômodos. Em cada “menos uma palavra”, o sentimento de civilidade é estreitado, até não sabermos mais nomear o que nos impede de pensar, falar e agir, pois não acessamos mais seus códigos.


Essa é a dimensão perigosa das 200 palavras censuradas pelo governo americano em suas páginas, seus informativos e nas pesquisas divulgadas por acadêmicos e cientistas, inclusive nas investigações médicas. O projeto de silenciamento da extrema-direita não busca apenas impedir a difusão de ideias, quer eliminar quaisquer princípios que atinjam diretamente sua esfera de atuação. Para isso, é preciso circunscrever primeiro o pensamento pelo proibitivo, o resto, calculam, será mera consequência.

Ainda esta semana, assisti a série britânica Adolescência. Além da importante exposição de como grupos extremistas de homens brancos têm se infiltrado na mente de adolescentes, com suas propostas violentas sobre o tratamento a ser dado às mulheres, um aspecto passou ao lado nas boas e necessárias reflexões que se espalham em jornais e sites: os emojis e suas funções nada decorativas.

Quando surgiram no Japão, em 1999, havia um interesse em tornar lúdico certas simplificações banais ou sentimentos comuns. Dez anos depois, então padronizados pelo Unicode Consortium, ganharam capacidade de uso global. Depende do interesse e da aceitação das maiores big techs do planeta, o desenvolvimento de novos emojis, e das tecnologias disponíveis para representações mais elaboradas. As primeiras variações de tons de pele, por exemplo, só foram possíveis (e aceitas) em 2015, com a nova tecnologia cromática; os primeiros casais interraciais e as diversidades de gêneros em profissões, em 2016; as primeiras figuras com deficiências, apenas em 2019.

Uma vez que emojis substituírem expressões, sensações e sentimentos, o óbvio é que se firmem como linguagem da nova formação do indivíduo, agora condicionada ao convívio e ao uso dos meios tecnológicos. Pelas redes sociais e trocas de mensagens nos celulares, cada vez mais extensivos dos corpos, adquiriam um vocabulário cifrado e geracional.

As palavras, já limitadas com abreviações aleatórias ou excessivamente minimalistas, reduzem-se na mesma velocidade em que são trocadas por emojis e por frases sugestionadas pelos próprios aparelhos, quando anteveem o pensamento, a partir do mais previsível e repetitivo no repertório de cada pessoa.

A série Adolescência narra o uso desse vocabulário imagético para doutrinações radicais por extremistas. É impossível aos jovens (e não só) escapar desse convívio, pois o universo passou a reduzir a informação sobre quase tudo pelos significados escondidos em cada emoji. Portanto, estamos, de forma inédita, profundamente separados e incapazes de compreender sobre e como conversam quem os utiliza. Sem o acesso, no desconhecimento, não há o que proteger e desconstruir. Estamos limitados ao encontro com as consequências, sem nos darmos conta dos processos e encaminhamento das relações.

Em 2017, o desafio da baleia azul chegava às crianças e adolescentes por meio de um emoji. Nos 50 desafios, entre privação do sono, mutilações e colocar-se em situação de risco, deixar de comer, assistir filmes de terror, deixar de falar, afastar-se da família, enquanto era acompanhada por um “curador”, a pessoa era estimulada, por último, a cometer suicídio. Criado na Rússia, o argumento de seus desenvolvedores era de limpar a sociedade dos mais fracos.

O isolamento linguístico, seja pelo surgimento de um vocabulário cifrado, seja pelo apagamento de palavras, é um movimento ao suicídio social. Seu objetivo é destruir o pilar de sua sustentação, a democracia — por maiores que sejam seus problemas —, tornar o indivíduo manipulável ao pior: subserviente e descartável, em nome de um bem deformado do que deve ser a sociedade perfeita.

Qual a saída? O primeiro aspecto é reconhecer que vivenciamos uma nova forma de crise, desta vez, com a linguagem sob ataque. A fabricação de crises, desde sempre, é interessada por controlar a sociedade e as pessoas, precarizando aspectos específicos. Ora econômicos, políticos, sociais, ora, como agora, culturais, também pela precarização e inacessibilidade da linguagem. Perceber surgir sem aviso, instalar-se ao imaginário, governar por emoções como medo e ansiedade e, então, apatia. Reagir a isso requer subverter as paixões tristes, como nomeia Dario Gentili, em desejo revolucionário, coletivo, entusiástico. Algo que precisa ocorrer em duas esferas: a íntima e a pública.

Portanto, devemos conversar mais. Sentarmo-nos juntos para falar, ouvir, rir e chorar. Juntar os amigos e esquecer os aparelhos. Debater as ideias, deixar-se invadir pelo desejo do debate, assimilar e oferecer conceitos entre pessoas diversas. Apaixonar-se pelo exercício do pensamento e da memória crítica. Divertir-se ao perceber sempre ser possível ir mais e mais profundo. E desenvolver uma real curiosidade por tudo, sobre acontecimentos, pessoas, sobre os sentidos das coisas e como usamos as palavras. Para, depois, irmos ao mundo.

E nele, nas ruas, ainda que nos tomem as palavras e dizê-las seja perigoso, usar da voz, do grito como possibilidade criativa, libertadora, para além da linguagem controlada e dominada. O grito como resistência às opressões. Sem lhe darmos formas gastas, sem querer traduções, apenas movimento e afirmação de presença.

Por fim, inventemos palavras para sermos incontroláveis. Enquanto as censuras ocorrerem ao conhecido e os vocabulários forem manipulados por extremistas, que se crie outros e outros, e quantos forem necessários. Somente assim, com palavras novas entre os dentes, os gritos poderão reagir ao que agora parece impossível de interromper. Como fizera Antônio Bispo. Gritar como forma de confluir palavras com o futuro.

A presidência de Tom e Daisy

O segundo governo Trump parece ter aprendido algumas lições com o primeiro. Por exemplo, mesmo quando os tribunais eventualmente derrubam as políticas do governo, há táticas que podem manter essas políticas em vigor por tempo suficiente para causar bastante dano.

Os tribunais só podem fazer muito quando o objetivo de impor uma política não é vencer, mas sim quebrar as coisas e, como F. ​​Scott Fitzgerald escreveu em "O Grande Gatsby", "deixar que outras pessoas limpem a bagunça que fizeram".

Para todas as intervenções judiciais que vimos nas primeiras oito semanas da nova administração Trump, assustadoramente pouco mudou no local. Grande parte do dinheiro federal congelado ilegalmente ainda está congelado; muitos dos funcionários federais demitidos ilegalmente ainda estão sem trabalho. Mahmoud Khalil, o graduado da Columbia e portador do green card preso em 8 de março em Nova York por motivos legais excepcionalmente tênues, continua em um centro de detenção de imigração na Louisiana.

O problema central não é que os tribunais tenham mantido ações legalmente duvidosas, ou mesmo que a Casa Branca esteja desafiando abertamente decisões adversas. Em vez disso, parece que o caos e a interrupção são eles próprios a chave para o objetivo do presidente Trump.


A invocação do Alien Enemies Act pelo Sr. Trump em 15 de março, em uma tentativa de acelerar seu esforço de deportação em massa, é um bom exemplo desse fenômeno. O estatuto de 227 anos, que tinha a intenção de dar ao governo ampla autoridade sobre uma classe restrita de estrangeiros presentes nessas praias durante a guerra, não pode ser plausivelmente aplicado a cidadãos de países com os quais estamos em paz. Embora o estatuto se aplique não apenas em tempos de guerra declarada, mas também durante períodos de "invasão ou incursão predatória", essa invasão ou incursão deve ser "por qualquer nação ou governo estrangeiro".

Pode haver algum fascínio em se referir a travessias de fronteira não autorizadas como "invasões", mas a Casa Branca teria dificuldade em identificar qual "nação ou governo estrangeiro" está formalmente por trás delas. Rotular a gangue venezuelana Tren de Aragua como uma organização terrorista estrangeira — ou mesmo, como a ordem executiva a chama, um "estado criminoso híbrido" — não significa que ela esteja envolvida em uma invasão dos Estados Unidos da maneira como o Congresso de 1798 usou, ou pretendia que futuros políticos usassem, o termo.

Em todo caso, ao invocar o ato de 1798, o Sr. Trump usou uma parte da legislação que prevê expressamente a supervisão judicial. Isso significa que os tribunais imediatamente tiveram um papel significativo a desempenhar ao apontar as deficiências lógicas de rotular gangues invasoras de exércitos. Eles terão um papel a desempenhar também na questão ainda mais complicada de como o governo prova que detentos individuais são membros do Tren de Aragua.

Invocar o Alien Enemies Act tem muito em comum com uma série de outros empreendimentos divisivos do Sr. Trump — como seu esforço para restringir a cidadania por direito de nascença por ordem executiva; seu uso do Migrant Operations Center na Baía de Guantánamo, Cuba, como uma estação de passagem de curto prazo para deter um pequeno número de estrangeiros aguardando sua deportação (muitos dos quais foram rapidamente, embora a um custo alto, devolvidos aos Estados Unidos); e, mais recentemente, o caso do Sr. Khalil. Em todos esses contextos, as chances são maiores do que não de que, quando o litígio desafiando as ações do governo Trump tiver seguido seu curso, os juízes decidirão contra as ações do governo.

Essas prováveis ​​vitórias, se é que podemos chamá-las assim, podem se mostrar vazias. Mesmo que os tribunais decidam repetidamente contra o Sr. Trump, anular prisões de imigrantes ilegais e liberar indivíduos de detenções de imigrantes ilegais não desfaz o dano que eles sofreram ao serem presos e detidos em primeiro lugar. O que resta é o medo mais amplo que isso instila nas comunidades de imigrantes de que eles podem ser os próximos, e o comportamento que é resfriado ou restringido como resultado. Da mesma forma, ordenar que o governo volte a abrir as torneiras de gastos que ele congelou ilegalmente não pode desfazer o dano sofrido pelos beneficiários privados de financiamento de missão crítica nesse ínterim. Bloquear uma ordem executiva destinada a intimidar escritórios de advocacia para não representar ex-funcionários do governo não desfaz a mensagem sobre outras maneiras pelas quais o governo pode tentar retaliar aqueles que não seguem a linha do partido. E tudo isso pressupõe que a Casa Branca realmente cumpra as decisões dos tribunais, um ponto no qual talvez não possamos confiar.

Normalmente, vítimas de conduta ilícita podem processar por danos, um direito fornecido não apenas para interromper o comportamento ilícito enquanto ele está acontecendo, mas também para reparar os ferimentos que sofreram durante e por causa dessa conduta. Tais processos estão disponíveis não apenas para compensar as vítimas por suas perdas, mas também para punir os maus atores se sua conduta foi suficientemente maliciosa. A ideia central é que os danos não são apenas compensatórios; eles devem fornecer um impedimento significativo contra conduta conscientemente ilícita em primeiro lugar.

Para o bem ou para o mal, não há nenhuma entidade nos Estados Unidos contra a qual seja mais difícil obter indenização do que o governo federal. Sob a doutrina da imunidade soberana, o próprio governo pode ser processado por indenização somente quando o Congresso o autoriza. Essas autorizações têm sido, historicamente, poucas e distantes entre si; a última expansão significativa ocorreu em 1976. Para explicar a dificuldade de tentar processar o governo diretamente, a Suprema Corte reconheceu em 1971 circunstâncias nas quais vítimas de violações flagrantes de direitos constitucionais podem buscar indenização dos oficiais federais individuais que são responsáveis, mas o tribunal nos últimos oito anos praticamente anulou essa decisão.

Assim, se os tribunais finalmente descobrirem que o comportamento do governo nas últimas oito semanas foi ilegal ou mesmo inconstitucional, isso pode ser uma forma de alívio amplamente vazia, tanto para as partes prejudicadas quanto para os cidadãos. Nada, é claro, pode compensar a turbulência emocional e a convulsão para as quais a administração enviou intencionalmente muitas organizações e indivíduos para contar. Também não há nada que desencoraje a administração de tentar medidas ilegais semelhantes novamente.

A lição óbvia de longo prazo é para o Congresso — que, entre muitas outras coisas, deve tornar muito mais fácil para vítimas de comportamento federal ilícito obter reparação judicial. Mas a lição de curto prazo é para nós, o povo.

Os tribunais federais, até este ponto, fizeram um trabalho notável de impor limites legais e constitucionais ao poder executivo. E há todos os motivos para esperar que eles continuem a fazê-lo. Nesse aspecto, os tribunais podem muito bem acabar salvando o estado de direito. Mas para serem totalmente eficazes, muitos dos nossos direitos legais dependem não apenas de recursos judiciais, mas também políticos. Isso envolve tanto uma nova legislação quanto uma supervisão muito mais agressiva de membros do Congresso bem-vindos à mudança do ambiente político partidário e à reafirmação de freios e contrapesos contra os outros poderes do governo. Tudo isso tornará muito mais difícil para os presidentes quebrarem as coisas no futuro.

sábado, 22 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


A beleza de estar calado

Lembram-se de quando uma canção era uma canção? De quando um desenho era um desenho? De quando uma escultura não era um panfleto? Não foi assim há tanto tempo e até Bob Dylan dizia: “I’m not sleepy and there is no place I’m going to.” Mas isso é hoje uma convenção ultrapassadíssima, como um fósforo queimado.

Os cantores de intervenção, embriagados de marxismo-leninismo, tinham, pelo menos, a desculpa de não terem visto o muro cair. Os de hoje sabem-no. E cantam na mesma.

O artista já não contempla, já não se perde, já não mergulha no abismo. Até Ivan Karamázov se deixaria queimar por uma faúlha de transcendência. Mas o artista já não desce — desfila, e Dostoiévski sabia que sem abismo, não há grandeza. Hoje, o artista age — é movimento puro. Hoje, fala. Alto.


Transformou-se num daqueles sistemas de som de feira popular, num oráculo de banalidades de que ninguém duvida. Falam todos, falam sempre, falam muito. Uma gritaria perpétua de indignação e activismos absolutos. Um só minuto de silêncio seria verdadeiramente revolucionário. Um leve fragmento de discrição já conteria todo o esplendor e a fúria de 1917.

A tragédia contemporânea não é a corrupção, nem é a miséria, nem a ignorância — isso são tragédias velhas, bolorentas, lugares-comuns do pessimismo. A tragédia moderna, caro leitor, é este barulho. Esta bruta flor da indignação. Esta borboleta da hiperactividade.

Nunca tanta gente disse tanto, tão depressa, com tão pouca substância. Um formigueiro de consciências atarefadas. O activista não dorme, não descansa, não respira. Luta contra tudo — contra o estado do mundo, das mentalidades, do tempo — sim, até o tempo é reaccionário.

Mas contra o Estado? Para quê? Quem manda, tributa e regula já faz o que é preciso. Está tudo errado, menos o que vem no Diário da República.

Eis porquê: existe uma solidariedade entre ambos e essa cumplicidade tem um nome – loucura reguladora. Quem outrora bradava golpes e tumultos, hoje sonha com manuais de instruções. Já não quer mudar o mundo – quer geri-lo, processá-lo, catalogá-lo em regulamentos. O artista tornou-se o cepo que decide ser árbitro e arruína a tarde aos amigos com o apito.

E quer que se regule o quê? Tudo. As bocas foleiras, as comunidades virtuais, o estacionamento, os dejectos da bicharada. Tudo, menos o pânico em que se alimenta. A iminência do apocalipse justifica as mais complexas burocracias.

Se ao menos ocupasse o seu talento naquilo que faz bem. Mas já não cria, não compõe, já não pinta e já não escreve. Doutrina, palestra, denuncia e adverte: “Porque tudo é político!” – gritam. E eis que o palco se transforma em assembleia-geral, a tela em cartaz, o livro em manifesto. Para que a música eduque, o cinema alerte, o teatro sensibilize.

Já não há sequer direito ao cansaço. Diante da barulheira, um tipo, exausto, poderia desejar um pouco de recolhimento, um instante de paz. Mas exige-se tomada de posição, acção directa, uma assinatura. E se hesitamos, se vacilamos, somos acusados das mais sinistras cumplicidades.

O artista de hoje não se contenta em boicotar a sua própria obra. Se um escritor ousa ser um escritor, se um músico teima em tocar o seu piano, eis que aparece alguém a exigir “relevância”, “consciência”, “compromisso”. E assim morre o sublime prazer do inútil. A arte, para ser arte, precisa de não servir para nada.

A grande tradição do cristianismo, tão generosa em inspirar as mais delirantes práticas neo-pagãs, ainda tem um último presente para oferecer: o silêncio. Depois do jejum intermitente, da peregrinação a festivais, da confissão pública, bastaria reciclá-lo. E, quais trapistas do ayahuasca, os nossos melhores purificar-se-iam pela mudez, passando longos períodos sem dizer absolutamente nada. Era só um desses gurus da auto-ajuda publicar um folheto com a ideia.

O artista de hoje não deixa nada por fazer. Ele age por todos nós. E, assim, a única resistência possível é a quietude.

Todo o problema se resolve pelo seu imediato contrário. Contra a acção, a inércia. Contra o barulho, o silêncio. Contra a histeria da relevância, a beleza de não fazer nada.

Trump e os capitais em movimento

Donald Trump e seus assessores lançaram um petardo contra o livre movimento de capitais, um dos bastiões da economia financeiramente globalizada. A proposta trumpista de taxar os ingressos de capitais na economia norte-americana busca atenuar a valorização do dólar e, assim, conter seus efeitos sobre a competitividade das exportações de Tio Sam.

Gillian Tett, colunista do Financial Times, escreveu recentemente sobre as consequências prováveis da taxação dos capitais em livre movimento:

“O economista Michael Pettis vê essas entradas de capital não ‘apenas’ como o corolário inevitável do déficit comercial dos Estados Unidos, mas como uma maldição debilitante. Isso ocorre porque as entradas aumentam o valor do dólar, fomentam a financeirização excessiva e esvaziam a base industrial dos Estados Unidos, diz ele, o que significa que ‘o capital (financeiro) se tornou o rabo que abana o cachorro do comércio’, gerando déficits”.

A proposta de Donald Trump aponta para o verdadeiro sentido da globalização: o acirramento da concorrência inserida em uma estrutura financeira global monetariamente hierarquizada e comandada pelo poder do dólar. Sob os auspícios do capital financeiro e de um sistema monetário-financeiro internacional assimétrico, ocorreu a brutal centralização do controle das decisões de produção, localização e utilização dos lucros em um núcleo reduzido de grandes empresas e instituições financeiras à escala mundial.


A centralização do controle comandada pelos mercados financeiros impulsionou e foi impulsionada pela fragmentação espacial da produção.

O artigo “Neoliberalism: Oversold?”, de economistas do FMI, aborda os efeitos de duas políticas inscritas na agenda da globalização: a remoção das restrições ao movimento de capitais (liberalização das contas de capital) e a consolidação fiscal (“austeridade” para reduzir déficits fiscais e o nível da dívida). O estudo afirma que influxos de capitais, como investimento direto estrangeiro, parecem impulsionar o crescimento no longo prazo. Na contramão, o impacto de investimentos de portfólio – especialmente, os influxos de aplicações especulativas de curto prazo – afeta as relações, não estimula o crescimento e, muito menos, garante um financiamento estável do balanço de pagamentos.

A ocorrência, desde 1980, de, aproximadamente, 150 convulsões com influxos de capitais em mais de 50 mercados emergentes credencia a reivindicação do economista de Harvard Dani ­Rodrik, de que esses episódios “dificilmente são efeitos ou defeitos secundários nos fluxos de capital internacional, eles são a história principal”.

A continuada desvalorização do dólar ao longo dos anos 70 do século passado foi enfrentada com a elevação da ­policy rate, deflagrada por Paul Volcker em 1979. A elevação dos juros foi apresentada, então, como uma medida destinada a alcançar o objetivo doméstico de controle da inflação, mas o efeito mais relevante para a economia internacional foi a recuperação do papel do dólar como moeda de reserva.

A recuperação da força do dólar, como moeda de reserva e de denominação das transações comerciais e financeiras, promoveu profundas alterações na estrutura e na dinâmica da economia mundial. A partir do início dos anos 80, intensificou-se o movimento de migração da indústria manufatureira para as regiões nas quais prevalecia uma relação câmbio/salários mais competitiva e ampliaram-se os desequilíbrios nos balanços de pagamentos entre os EUA, a Ásia e a Europa.

Nas três décadas seguintes, à sombra do fortalecimento do dólar, os Estados Unidos promoveram as políticas de abertura comercial e impuseram a liberalização financeira urbi et orbi. Assim, suas empresas encontraram o caminho mais rápido e desimpedido para a migração produtiva, enquanto seus bancos foram investidos plenamente na função de gestores da finança e da moeda universais. Nesse período, os deslocamentos tectônicos na economia mundial – particularmente, a ascensão da China como potência manufatureira – produziram mais um episódio fascinante das transformações geoeconômicas.

O fortalecimento do dólar estimulou e sustentou o avanço da industrialização chinesa mediante a migração das empresas industriais norte-americanas e europeias. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos sofreram as dores da desindustrialização.

O protecionismo trumpista e a proposta de taxação dos capitais financeiros em livre movimentação exprimem as transformações ocorridas na economia global. Trata-se, portanto, de um fenômeno sistêmico e não de um incidente eventual.

Brasil tem cada vez menos áreas cobertas por água

A área do Brasil coberta por água sofre uma nova redução em 2024. Em doze meses, quatro mil quilômetros quadrados de área alagada evaporaram. É como se um lago equivalente a três vezes a cidade do Rio de Janeiro tivesse sumido.

Em todo território nacional, 179 mil quilômetros quadrados (km2) ainda estão cobertos por água, mas a área é 2% menor que a registrada em 2023.

O levantamento, divulgado nesta sexta-feira (21/03), é do MapBiomas, rede formada por universidades, ONGs e empresas que mapeia as mudanças em solo brasileiro e atualiza os dados anualmente.

"São más notícias. Desde os anos 2000 temos registrado, quase que regularmente, valores baixos. Em 2024, ficamos 4% abaixo da média histórica”, disse à DW Juliano Schirmbeck, coordenador técnico do MapBiomas Água.

A tendência de queda é observada desde 2009. Segundo o MapBiomas, que mantém uma série histórica desde 1985, oito dos dez anos mais secos foram registrados nesta última década. Só em 2022 a superfície inundada aumentou.

A situação é mais grave por uma observação específica: os ambientes naturais são os que mais secaram. Rios e lagos tiveram uma perda de 15% no ano passado em comparação com 1985. No Brasil, eles formam a maior parte da superfície coberta por água (77%). O restante está em reservatórios construídos.


O Pantanal, maior planície alagável do planeta, foi o bioma brasileiro que mais perdeu superfície de água desde o início do mapeamento. Desde 1985, a queda foi de 61% nessa área.

Segundo Schirmbeck, todos os meses de 2024 foram marcados por uma cobertura de água perto da mínima já registrada. A última cheia na região aconteceu em 2018 e, desde então, foi seguida por períodos de seca severa.

Em 2024, vários rios da região alcançaram cotas mínimas, segundo o Serviço Geológico Brasileiro (SGB). A falta de água afetou a navegação, o abastecimento em várias cidades e o modo de vida de inúmeras comunidades tradicionais.

O impacto ambiental também é preocupante. Cientistas do SGB alertam que o baixo fluxo de água intensifica a degradação dos habitats aquáticos e pode provocar grande mortandade de peixes.

Pelo segundo ano consecutivo, a Amazônia sofreu uma seca extrema em 2024. O levantamento do MapBiomas aponta que houve uma redução de 3,6% na superfície coberta por água em comparação com a média do bioma.

"É muito intrigante que, na Amazônia, a seca de 2024 não foi como a de 2023. Ela se pronunciou em locais diferentes, em rios diferentes”, aponta Schirmbeck.

Mais da metade dos rios amazônicos registraram perda em relação à média dos últimos 40 anos. As bacias mais afetadas foram a do rio Trombetas, Negro e Solimões. O cenário também foi dramático no rio Tapajós - que havia sido poupado em 2023.

No total, a perda de superfície de água foi de 45 mil km2 no bioma em relação a 2022, quando o último ganho havia sido registrado.

No extremo sul do Brasil, o Pampa ficou ligeiramente abaixo da média histórica (0,03%). O bioma recebeu parte da chuva intensa que caiu no Rio Grande do Sul (RS) entre abril e maio do ano passado e afetou centenas de cidades.

"O ano começou seco no Sul e, no fim de 2024, estava seco de novo”, diz Schirmbeck. "A cheia é uma enxurrada, um pico de precipitação. O que recupera o nível de um rio ao longo de um ano é uma chuva mais regular”, adiciona, lembrando do impacto das mudanças climáticas na intensidade e frequência dos eventos extremos climáticos.

A média de chuva anual naquela região é de mil a dois mil milímetros. Durante as cheias, foram registrados mil milímetros em apenas sete dias.

Morador de Roca Sales, na região do Vale do Taquari (RS), Schirmbeck precisou deixar sua casa às pressas durante as enchentes de 2023. Naquela ocasião, ele se refugiou em Belém, Pará, para conseguir finalizar o levantamento anual do MapBiomas. Neste ano, ele completou a tarefa em sua cidade, que também foi atingida pelas enchentes de 2024 e ainda convive com os resquícios da devastação.

Os demais biomas do país, Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica, registraram em 2024 superfície de água acima da média. No caso da Caatinga, o período foi excepcionalmente positivo, com valores mais altos dos últimos 10 anos. Ainda assim, bolsões de seca persistente ainda estão no mapa, como pontos ao longo da bacia do São Francisco e Seridó Nordestino.

O Cerrado alcançou em 2024 um marco preocupante: há atualmente mais água armazenada em estruturas artificiais do que em rios e lagos. Segundo o MapBiomas, reservatórios, hidrelétricas, áreas de mineração e represas contém 60% de toda a água disponível na superfície - em 1985 eram 37%.

Um levantamento paralelo feito pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) concluiu que Cerrado perdeu água natural em 91% de suas bacias hidrográficas nos últimos 40 anos. Uma das causas para este cenário é o desmatamento, afirmam os pesquisadores.

O impacto é perigoso principalmente para as plantações, já que o bioma concentra 60% da produção nacional e metade da agricultura irrigada do país, alerta o Ipam.

No ranking nacional, mais da metade da água disponível está na Amazônia (61%). Mata Atlântica tem 13% da superfície, seguida pelo Pampa (10% do total), Cerrado (9%) e Pantanal (2%).

Para fazer as contas, o MapBiomas utiliza imagens do satélite Landsat, que acumula a maior série de registros do território brasileiro captadas do espaço. As cenas são processadas e classificadas de acordo com cada pixel que se assemelha à superfície de água.

Schirmbeck lembra que a disponibilidade de água na superfície depende de alguns fatores que incluem regularidade de chuvas e condições dos ambientes naturais, como nascentes e vegetação ao longo dos rios.

"Esses ambientes acabam funcionando como espécie de ‘pulmão', que armazena a água e vai soltando aos poucos, de forma espaçada no tempo. Sem eles, quando falta chuva, não tem de onde vir água. E, quando chove demais, o risco de enxurrada é grande”, explica o pesquisador.

O armazenamento em reservatórios também "disfarça" a situação real. "Eles enganam porque fazem pensar que a situação é menos crítica, mas a água que eles armazenam vem do ambiente natural. Se lá na nascente não estou preservando, como vou ter água no reservatório?”, alerta Schirmbeck.

'Nós somos a maioria, eles são o 1%'

No início da semana, o senador Bernie Sanders ligou o telefone e gravou um apelo desesperado, no seu gabinete. Tinha acabado de votar contra uma lei que dá mais poder à Casa Branca na gestão de fundos federais. “Esta lei empurra o nosso país para o autoritarismo”, diz Sanders, explicando que a nova legislação “faz cortes massivos a programas de apoio à habitação, cuidados de saúde e alimentação, põe em risco o funcionamento da administração da Segurança Social e continua o ataque da Administração Trump contra os veteranos; esta lei fará os ricos mais ricos e os pobres mais pobres”.

Para que esta lei passasse, os republicanos precisavam de ter sete votos de democratas no Senado. Tiveram dez. “A crise económica e política não será resolvida aqui em Washington DC. O sistema é demasiado corrupto”, afirma Sanders, explicando como se compram os votos e se distorce a democracia.

O vídeo que me apareceu no Instagram tem um tom alarmista. Talvez a alguns soe conspirativo. Mas estava a escrever este texto quando me deparei com uma notícia do The New York Times que revela como Elon Musk está a financiar nos limites máximos permitidos por lei os congressistas que apoiem o impeachment de juízes que se oponham a decisões do Presidente.


Continuo a olhar para o telefone e aparece-me o vídeo que regista o momento exato em que é detido um preso político nos Estados Unidos. A expressão é forte, mas talvez pareça adequada quando vemos a audição do embaixador indicado por Trump para o Canadá. Ao ser confrontado com uma pergunta do senador Jeff Merkley sobre se um cidadão americano deve poder expressar uma opinião contrária à do primeiro-ministro canadiano sobre política externa, sem perceber onde se está a meter, responde que “sim, esse é um valor americano”. Quando Merkley o confronta com a situação de Mahamoud Khalil, a contradição é já demasiado flagrante.

Mahmoud Khalil voltava de um jantar com a mulher, grávida de oito meses. À sua espera estavam quatro homens com roupas à civil. Apesar de não mostrar quaisquer sinais de resistência, foi algemado com as mãos atrás das costas. A mulher, que filmou tudo, telefonou para a advogada, que lhe foi transmitindo as perguntas que devia fazer. Quem eram aqueles homens? Para que agência trabalhavam? Para onde iam levar o seu marido? Os homens limitam-se a dar uma morada. Não respondem a mais nada e, a certa altura, começam a correr pela rua até se enfiarem num carro. Parece um rapto. Mas não é: Mahmoud Khalil foi levado para uma prisão no Louisiana, a cerca de quatro horas de voo de distância da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde foi detido. O crime deste estudante é ter participado em protestos pró-Palestina.

A conta oficial da Casa Branca no Instagram parece agora a parede de uma taberna de um filme de cowboys, cheia de imagens de presos, com as caras sobre um fundo laranja e negro, onde se leem os crimes de que são acusados, o lugar e a data de detenção. Há também uma fotografia de uma mulher, Rasha Alawieh, uma médica especializada em transplantes, que foi deportada, apesar de estar legal nos Estados Unidos, depois de ter sido acusada de ter viajado para Beirute para assistir ao funeral de um membro do Hezbollah. “Bye-bye, Rasha”, lê-se na legenda do post ilustrado com uma imagem de Donald Trump a dizer adeus da janela do que parece ser um posto de atendimento drive-thru de uma cadeia de fast food.

Scroll para baixo. A mesma conta mostra prisioneiros tatuados, algemados com correntes, a serem encaminhados para um avião, numa pista de aeroporto, ao pôr do sol. A banda sonora é uma música pop rock que estava nos tops no final dos anos 90 e ajuda a adocicar as imagens. Mas a mensagem é sublinhada por uma parte da letra que a Casa Branca destacou em legenda. “Closing time, you don’t have to go home/But you can’t stay here”.

As imagens ilustram a notícia dos cerca de 200 homens latinos que foram detidos e deportados esta semana dos Estados Unidos para uma das mais violentas prisões do mundo, em El Salvador, onde, segundo o The Guardian, não há recreio ao ar livre e não são permitidas visitas, há relatos de tortura e cada preso tem o equivalente a 0,60 metros quadrados. Segundo o The New York Times, não há dados que permitam perceber quantos destes homens pertenciam efetivamente a gangues, como foi alegado pela Casa Branca, ou que tipo de ameaça representavam, uma vez que foi admitido pelas autoridades americanas que vários deles não tinham sequer sido alvo de qualquer condenação.

Há imagens que mostram estes homens de macacão, algemados, com agentes a raparem-lhes a cabeça antes de serem enviados para El Salvador, que vai receber milhões de dólares para os encarcerar. Mariyin Araujo, que tem uma filha com seis anos e outra com dois, diz que só percebeu que o marido já estava na prisão salvadorenha depois de ver uma fotografia nas redes sociais. Era um venezuelano, que tinha fugido depois de ter sido perseguido pelo regime de Nicolas Maduro, e, por ser treinador de futebol, tinha uma tatuagem com uma bola e uma coroa num braço, um sinal que foi visto pelas autoridades americanas como a prova da ligação a um gangue da Venezuela. Mariyin não consegue sequer confirmar se o marido está em El Salvador.

“Se alguma vez houve um momento em que pessoas comuns, na base da pirâmide, se têm de organizar e lutar, este é esse tempo. Este é o momento de reclamar a nossa democracia (…) Porque esta é a verdade: a vasta maioria dos norte-americanos, democratas, republicanos e independentes não querem ver o Congresso a aliviar os impostos dos bilionários e a cortar nos programas de que as famílias trabalhadoras e desfavorecidas precisam”, diz Bernie Sanders no seu vídeo, pedindo a cada americano que se envolva diretamente em ações políticas e se organize na sua comunidade.

O meu telefone está cheio de notícias sobre como as autoridades alemãs reprimem violentamente manifestações contra o genocídio em Gaza. Leio histórias sobre jovens ativistas presos no Reino Unido por se envolverem em protestos de ação direta não violenta pelos direitos climáticos ou a favor da Palestina, ao abrigo de leis antiterroristas que permitem fechá-los em prisões de alta segurança durante um ano antes de irem a julgamento. Um cientista francês foi expulso dos EUA por ter mensagens anti-Trump no telefone. E, em Londres, o trabalhista Keir Starmer anuncia um corte de 5 mil milhões de libras em programas sociais, incluindo de apoio a deficientes, deixando sem resposta o deputado do próprio partido que lhe pergunta por que não põe ele os ricos a pagar uma taxa sobre a sua fortuna.

“Nós somos a maioria, eles são o 1%”, diz Sanders. Enquanto assisto à queda dos princípios de igualdade perante a lei, justiça e liberdades individuais no prometido oásis das democracias ocidentais, a ideia de Sanders parece a única esperança possível. “Nós somos a maioria, eles são o 1%”.

Um Hitler fixe

A criação de figurinhas no WhatsApp inaugurou um código de comunicação social. Para quem gosta de humor e domina a técnica de montar imagens, é um meio de expressão muito fértil. Quase uma arte pós-moderna, de forte apelo emocional, capaz de provocar riso, empatia, identificação. Uma vez que um sujeito monta e envia a figurinha ao outro, ela passa a fazer parte dos acervos de ambos. Assim tem início um efeito multiplicador: algumas dessas obras anônimas se tornam memes, que representam e reforçam um repertório de ideias e valores compartilhados.

Qual não foi a minha surpresa, num grupo de WhatsApp, quando o meu filho de 12 anos enviou uma figurinha perturbadora. Era uma foto de Adolf Hitler fazendo o gesto do hang loose — uma saudação comum entre os surfistas, ao menos no Brasil, associada a pessoas tranquilas e descoladas. Em suma: era a foto de um Hitler fixe.

Quando o interpelei, descobri que o meu filho nem sabia quem era aquele simpático senhor. Achou que era Charles Chaplin, que satirizou o grande ditador no cinema. Ele usou a figurinha apenas para responder a uma mensagem banal. E o que mais me impactou foi essa banalidade do mal – para revisitar Hannah Arendt no século XXI. Quem teria criado e colocado em circulação aquela imagem? Como esse projeto de rebranding de um genocida alemão chegou ao telefone celular de um menino em Portugal?

Mais do que banalidade, trata-se de um processo de banalização do mal. O mesmo operado pelo partido de extrema-direita Alternative für Deutschland (AfD), quando afirma que nem todos os membros da SS eram criminosos, ou quando propõe uma reescrita da História de modo que a Alemanha não se envergonhe do passado nazista — proposta apoiada por Elon Musk numa recente convenção da legenda. E o mesmo vale para os portugueses que sentem saudades de Salazar, ou para os brasileiros que votariam em Bolsonaro no ano que vem, sabendo da sua participação num plano de golpe militar que envolvia assassinar o presidente, o vice-presidente e um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Talvez assustado pela minha reação de choque, meu filho disse que não sabia como aquela figurinha foi parar no seu acervo. Ele frequenta uma escola pública em Lisboa, com amigos de várias nacionalidades, o que sempre considerei um tesouro cultural para a sua formação. Daí o espanto ao me deparar com um ícone que vai na contramão desse valor pluralista e tão democrático.

Precisei me sentar com o meu filho, mostrar fotos na internet, tentar transmitir os horrores das duas Grandes Guerras, que ele ainda não estudou na escola. Guerras que tiveram origem num contexto semelhante ao atual, com a exacerbação dos nacionalismos e o esgarçamento das soluções diplomáticas para os conflitos internacionais. Um esgarçamento que remete à imagem de uma corda, prestes a se romper numa Terceira Grande Guerra, tensionada pelo risco do uso de armas nucleares. Imagem tão terrível que não cabe numa figurinha. Precisamos trabalhar duro para que ela não caiba na realidade.
Fernanda Hamann