terça-feira, 25 de março de 2025

Eu não quero ser Rubem Braga

Neste momento em que começam as primeiras batalhas da Terceira Guerra, quando já se ouvem ao longe os clarins das novas bandas militares, eu espero que o diretor deste jornal não tenha a mesma ideia de seu colega do Diário Carioca, Horácio de Carvalho, em 1944.

Quando o Brasil se juntou aos aliados para enfrentar o Eixo de Hitler no front da Segunda Guerra, ele escalou como correspondente no conflito o cronista de amenidades do jornal. Rubem Braga, que escrevia sobre a observação de passarinhos, moças e borboletas amarelas nos céus do Rio, foi mandado relatar o circuito dos caças aéreos derramando bombas sobre os campos italianos. Não, senhor diretor, eu não quero ser Rubem Braga.

No alto, à esquerda, Rubem Braga; agachado, Joel Silveira

No próximo 8 de maio o mundo vai lembrar os 80 anos da rendição alemã, o Dia da Vitória, e ao invés da alegria de todos saírem às ruas, celebrar a paz e cantar “We are the world”, a expectativa é que a qualquer momento o diretor vai escalar mais um cronista para deixar as delicadezas da vida e seguir rumo à Ucrânia, Gaza, Irã, onde narrará o que vai pelos campos da morte.

Nos Diários Associados, o correspondente enviado à Segunda Guerra foi Joel Silveira, “a víbora”. Não era exatamente um cronista, mas escrevia com personalidade e, como mostram suas duas reportagens clássicas sobre os Matarazzo paulistas, tinha o humor venenoso que lhe deu o apelido. Quem o pautou foi o dono do jornal, o folclórico Assis Chateaubriand. Chatô foi claro como os ternos largos que vestia:

“O senhor vai pra guerra, seu Silveira, mas não me morra! Tá me ouvindo? Não me morra, seu Silveira! Repórter é pra mandar notícia, não pra morrer!”

Joel Silveira e Rubem Braga embarcaram com a Força Expedicionária Brasileira e é assim, fardados com outros soldados, que estão na capa de “Heróis por acaso – Espionagem no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial”. O livro, um dos muitos que serão lançados nos próximos dias para lembrar o armistício, mistura realidade e ficção. É assinado por Paulo Valente, filho de Clarice Lispector.

Eu repito, dispenso a honraria. Não quero ser o Rubem Braga da Terceira Guerra, muito menos a genial víbora peçonhenta do Silveira. Alguém, no entanto, precisará fazer o serviço enquanto eu permaneço na não menos dura guerra urbana carioca. A quem couber a escolha do diretor de redação, recomendo que antes de embarcar leia “Com a FEB na Itália”, os relatos de Braga sobre os nove meses em que acompanhou nossos pracinhas na busca do escalpo dos tedescos. Ao mesmo tempo que, repórter, noticiava o avanço da tropa, ele, cronista, traçava quadros de delicadeza sentimental como o da menina italiana Silvana, ferida por uma granada, um clássico da literatura nacional.

Definitivamente, eu não quero ser Rubem Braga, e parece que nem será necessário mandar cronista de amenidades para descrever os bastidores das batalhas. Vem aí uma guerra de drones. Não haverá um bar de hotel de Roma. Uma loura não estará na mesa ao lado esperando que lhe acendam o cigarro. O novo Rubem Braga não lhe dará fogo como fez o antigo. Não se apaixonará por ela, não precisará ser alertado por um oficial inglês como aconteceu com o cronista em 1944. A loura é uma espiã.

A Terceira Guerra vai ser muito chata.

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