sábado, 15 de março de 2025
Vida ou morte?
Populismo à brasileira
Eis por que os pobres brancos das regiões dos EUA onde o emprego evaporou quando as indústrias migraram para outros países são os mais fiéis eleitores de Donald Trump. O mesmo se dá na França, onde a Frente Nacional (FN) colhe os votos tanto dos operários de áreas economicamente decadentes como da pequena burguesia, uns e outros atemorizados pelos imigrantes de pele escura. Isso ocorre também na antiga Alemanha Oriental, onde robusta maioria crê que a reunificação do país teria sido imposta pelos ricos conterrâneos do oeste. Na antiga República Democrática Alemã (a RDA) vicejam as bases mais sólidas da extremista da Alternativa para a Alemanha (AfD).
As desigualdades exploradas pela extrema direita não são apenas econômicas —de emprego e renda. Há diferenças educacionais, de cultura, estilos de vida e crenças que separam "o povo" das elites —conservadoras ou progressistas. Os "perdedores" não costumam chegar às universidades. Nos EUA, eles têm mais problemas de saúde; são mais propensos a se drogar; vivem menos que os mais escolarizados; têm menos amigos; e mal frequentam redes de convivência.
As explicações que parecem adequadas aos EUA e às democracias europeias não ajudam a entender o populismo de direita no Brasil: não dão conta de explicar a popularidade de Jair Bolsonaro. Precisamos de outras hipóteses e mais estudos sobre o que é original na experiência brasileira.
Embora o ex-capitão golpista tenha colhido votos em diferentes estratos —o que era de esperar em um pleito majoritário—, o núcleo duro de seus adeptos é formado por homens; brancos; evangélicos; de renda média e alta; educação de nível médio; habitantes do Sul e Sudeste. Nesse grupo, cerca de 90% declararam em 2018 a intenção de votar em Bolsonaro. Também era alta —ainda é— a simpatia pelo ex-presidente nos estados onde a agricultura de exportação movimenta a economia local.
Assim, os simpatizantes da extrema direita local não são deserdados da sorte, mas, antes, beneficiários —em maior ou menor grau— da bonança econômica da primeira década do século, puxada pelo boom das commodities e pelas políticas de inclusão.
Aqui o discurso antielitista típico do populismo não parece se alimentar do ressentimento, do sentimento de perda e da expectativa de volta a um passado melhor. Talvez esteja dando voz a outro tipo de experiência social e apele a uma noção de sociedade e de país baseada na crença no progresso como fruto do esforço individual; no desprezo pelas formas coletivas de ação; no moralismo em matéria de costumes; na rejeição ao setor público, tido como fonte de corrupção e desperdício.
Se assim for, não basta ridicularizar os líderes ou denunciar a demagogia de seus apelos. É preciso entender quem os segue.
O Pânico Vermelho, parte 3
As manifestações estudantis anti-Israel de 2024 desempenharam papel instrumental no triunfo eleitoral de Trump. Na sua maioria, os participantes reagiam com horror aos bombardeios indiscriminados israelenses na Faixa de Gaza. Suas lideranças, porém, ergueram bandeiras que ecoam a estratégia do Hamas. "Palestina livre do rio até o mar", o lema perene, e imagens celebratórias dos atentados de 7 de outubro, descritos como "os palestinos voltando para casa", somaram-se a atos pervasivos de intimidação contra estudantes e professores judeus. O Partido Democrata foi visto como sócio do linguajar antissemita pois sua ala esquerda saudou os protestos.
Segundo as vagas acusações do governo, Khalil teria conduzido atividades "alinhadas com o Hamas, uma organização designada como terrorista". O Pânico Vermelho, parte 3, mira crimes de palavra, ignorando a Primeira Emenda da Constituição dos EUA.
Os EUA não são o Brasil. Por aqui, um juiz do STF navega, com amparo de seus pares, em faixas cinzentas da lei para suprimir perfis de redes sociais acusados de "discursos de ódio", "discursos antidemocráticos" ou "desinformação". Por lá, a Primeira Emenda assegura uma liberdade de expressão limitada apenas pelo chamado direito ao exercício da violência. Os lemas e imagens antissemitas utilizados na Colúmbia são abomináveis, mas estão cobertos pelo manto constitucional. Khalil não cometeu crime nenhum.
Tudo indica que, ao ordenar a prisão, o governo desconhecia o estatuto de Khalil, um palestino detentor de residência permanente (green card). Mesmo assim, Trump insiste na deportação: "Prenderemos e deportaremos de nosso país esses simpatizantes do terrorismo —para nunca retornarem novamente!". Enquanto isso, seu secretário de Estado, Marco Rubio, brandia uma interpretação extrema da Lei de Imigração e Nacionalidade pela qual Khalil seria deportável por ameaçar os "interesses de segurança nacional" dos EUA.
"É a primeira prisão de muitas a virem", proclamou Trump. Na versão original do Pânico Vermelho, o jovem J. Edgar Hoover conduziu as deportações de centenas de ativistas do movimento operário que eram imigrantes com residência permanente. Mais tarde, em 1952, já como diretor do FBI durante o macarthismo, Hoover obteve da Corte Suprema a autorização de deportação de três imigrantes residentes que tinham se filiado ao minúsculo Partido Comunista dos EUA.
A conexão entre xenofobia e perseguição ideológica não é novidade. O caso de Khalil foi desenhado para servir de alerta aos 13 milhões de detentores do green card, além de 1,5 milhão de professores e estudantes estrangeiros com vistos válidos: Trump ignora a Primeira Emenda. Pânico Vermelho, parte 3, como seus predecessores, é um filme de propaganda —mas, no fim, o que está em jogo é a substância da democracia.
A teoria do louco e a psicologia do blefe por trás de Trump
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está blefando quando diz que assumirá o controle do Panamá ou da Groenlândia "de uma forma ou de outra", ou quando ameaça retirar os EUA da Otan?
Trump costuma usar metáforas de jogos, apostas e blefes em suas negociações. O exemplo mais recente foi durante a discussão com o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, no Salão Oval:
Trump: "Você não está em uma boa posição. Você não tem as cartas no momento. Conosco, você começa a ter cartas."
Zelenski: "Não estou jogando cartas."
Trump: "Sim, você está jogando cartas. Está jogando com a vida de milhões de pessoas. Está apostando com a Terceira Guerra Mundial."
O blefe sempre foi uma ferramenta poderosa de diplomacia. É um truque usado para influenciar a mente dos outros, geralmente com ameaças de força militar ou econômica. Saber quando um blefe é uma ameaça real faz parte do jogo.
No caso de Zelenski, Trump ameaçou suspender a ajuda militar e financeira fornecida pelos EUA à Ucrânia em sua guerra contra a Rússia – o que de fato aconteceu dias depois.
Trump também não estava blefando em relação à imposição de tarifas comerciais sobre China, União Europeia, México e Canadá. Tampouco sobre a retirada dos EUA da Organização Mundial de Saúde (OMS), o corte de verbas para ciência ou a deportação de imigrantes.
Verificar se as ameaças de Trump são vazias ou intencionais é "extremamente desafiador", observa Seden Akcinaroglu, cientista político da Universidade de Binghamton, em Nova York. Mas há maneiras de estudar os manuais de diplomacia para entender suas decisões estratégicas.
Para que os blefes atinjam seu objetivo de coerção, um líder deve manter uma imagem crível e consistente de imprevisibilidade.
"Até mesmo ameaças aparentemente vazias podem atingir seus objetivos estratégicos de forma eficaz se intimidarem os adversários ou reforçarem apoio dentro de seus círculos eleitorais", diz Akcinaroglu à DW.
Dissuasão nuclear talvez seja o maior blefe de todos os tempos – a ameaça de lançar ataques nucleares e a disposição para a destruição mutuamente assegurada (ironicamente chamada de MAD, na sigla em inglês, que também forma a palavra "louco") alcançou seu objetivo de evitar uma guerra termonuclear até o momento. Mas é difícil determinar a sinceridade ou a credibilidade dos blefes quando os presidentes dos EUA os utilizam, argumenta Akcinaroglu.
Richard Nixon (presidente americano entre 1969 e 1974) cunhou o termo "teoria do louco" para descrever sua crença de que criar a percepção de instabilidade mental poderia contribuir para uma vitória na guerra do Vietnã.
"A teoria do louco é a ideia de que é útil ser visto como louco em uma negociação coercitiva. Isso é particularmente útil quando o cumprimento das ameaças é muito custoso", explica Roseanne McManus, cientista política da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos EUA.
"Mas é muito difícil distinguir a loucura genuína do blefe crível", pontua ela.
Todos os governos dos EUA, desde a Guerra Fria, blefaram e ameaçaram com guerra – nuclear ou convencional – para atender a seus propósitos estratégicos, ainda que o objetivo fosse a paz.
Pesquisas da ciência política sugerem que, por 80 anos, a Rússia acreditou que os EUA endossavam essas ameaças de guerra, especialmente se qualquer outro país membro da aliança militar Otan fosse invadido.
Mas o que distingue a estratégia louca de Trump da de presidentes americanos anteriores é o uso do expediente tanto contra adversários quanto contra aliados, aponta McManus.
"Desde o início de seu segundo mandato, Trump parece estar buscando se aproximar da Rússia em vez de usar uma estratégia de louco contra a Rússia. Em vez disso, Trump pode estar usando uma estratégia de louco em relação à Europa", analisa a pesquisadora.
As ameaças de sair da aliança da Otan vêm acompanhadas de uma sugestão adicional e velada de que ele pode não defender a Europa contra futuros ataques russos. Mas ainda não está claro quais são suas reais intenções. A retórica de Trump carrega uma incerteza que torna difícil para outros países saberem como se posicionar em relação ao americano.
A resposta curta é que ela não diz nada – mas esse é o ponto.
"Trump está claramente ciente de sua reputação de louco e a vê como um trunfo. No entanto, muitas vezes não fica claro para mim se Trump está empregando deliberadamente a teoria do louco ou se está apenas agindo de acordo com seus impulsos genuínos", diz McManus.
A pesquisa de McManus sugere que os líderes que nunca cumprem suas ameaças tendem a perder sua reputação de loucos.
"Se Trump cumprir, mesmo que ocasionalmente, suas ameaças extremas, como fez recentemente com as tarifas comerciais, ele provavelmente poderá manter sua reputação de louco", afirma McManus.
E talvez essa seja a maior aposta de Trump – fazer-se de louco na diplomacia com todos os lados requer que ele sustente essa atitude. Enquanto isso, aos outros só resta especular.
sexta-feira, 14 de março de 2025
As portas para pobres e o teste da frigideira
Chamam-lhes “portas para pobres”. Existem em Londres e foram proibidas em 2015 em Nova Iorque nas novas construções, mas continuam nos empreendimentos construídos até essa data. Em fevereiro, entraram nas notícias em Espanha, a propósito de um debate sobre a norma municipal, aprovada em 2018, que obriga todos os novos empreendimentos a ter 30% de habitação pública. Elena Massot, vice-presidente da Associação de Promotores de Catalunha, atirou para cima da mesa a ideia de ter “dois acessos” nestes novos edifícios “para que toda a gente possa conviver com as condições económicas que lhes sejam mais razoáveis”.
Quem paga os preços de mercado – o preço médio de um apartamento em Barcelona ronda os 700 mil euros – não quer partilhar a entrada do prédio e o elevador com quem beneficia de casas a custos controlados. E Elena Massot não tem sequer vergonha em admitir que estas pessoas lhe estragam o negócio.
Não só quem tem mais dinheiro não quer conviver com os que não estão tão bem na vida, como os promotores precisam de dar aos compradores a ilusão de que as quantidades absurdas de dinheiro que lhes pedem pelas casas fazem algum sentido. A ideia de que, afinal, podem estar só a ser vítimas da especulação tem de ser varrida para debaixo do tapete ou atirada para a porta das traseiras. Para a mascarar, transformam as entradas dos ricos em espaços com ar de lóbi de hotel e fazem o possível para tornar claro que não compensa pagar um custo mais baixo.
As “poor doors” de Londres escondem ainda outra armadilha. O The Guardian conta como os moradores dos apartamentos de custos acessíveis inseridos em blocos de luxo estão confrontados com aumentos no preço dos condomínios que tornam impossível continuarem a lá morar. John Whelan, diretor de um teatro, e o seu companheiro, Alan Crookham, contam ao jornal como já pagam 4 029 libras ao condomínio, o dobro do que pagavam quando compraram o seu T1 em 2021. “É uma injustiça total. Estamos a subsidiar os serviços dos residentes privados”, queixam-se, notando que estão a ajudar a custear os dois “concierges” que trabalham no empreendimento e a manutenção dos jardins pelos quais entram os mais endinheirados. Outro dos moradores desse prédio, um académico chamado Marco Scalvini, diz ao The Guardian que quem vive nos apartamentos de custos controlados está a gastar mais de 40% do seu rendimento só na habitação. “É preciso ganhar entre 80 mil e 90 mil libras para conseguir morar aqui. É chocante”, queixa-se. No seu caso, o aumento do custo do condomínio foi de 77% num ano. Paga agora 8 mil libras.
Num texto sobre “a vida atrás da porta dos pobres”, Kimberly Dawn Neumann, que paga 1300 dólares por um T1 em Manhattan, conta como o desleixo a que foi votada a parte do prédio a custos controlados foi ao ponto de a porta da entrada deixar de fechar, fazendo com que os moradores se cruzassem frequentemente com estranhos que usavam as partes comuns para pernoitar ou vender droga. Kimberly chama-lhe o “Wild Wild Upper West”.
Reparem que estes “pobres” são aquilo a que sempre se chamou classe média, em alguns casos até média alta, tendo em conta não só o seu nível de rendimentos, mas as suas profissões (Kimberly Dawn Neumann é escritora e artista na Broadway). É uma constatação que vai contra todas as promessas de nivelação das classes ou de ascensão social. Uma proletarização que estas classes não só ainda não interiorizaram como é contrária à imagem que têm de si próprias, tantas vezes ainda iludidas com a ideia de pertencerem a uma elite.
A moral desta história é que o mercado da habitação é agora descaradamente amoral. E tem encontrado formas, em todo o mundo, de contornar ou até subverter as poucas políticas públicas que vão sendo criadas para garantir o acesso à habitação.
Mas há outra lição a retirar daqui. Os “pobres”, esses que se querem fora da vista, não são só os mendigos que se enxotam das arcadas, os trabalhadores explorados que vivem nas barracas, as empregadas que vivem nos bairros sociais. Há muito quem ainda não tenha percebido em que classe está. Mas vi há tempos o humorista espanhol Miguel Maldonado propor um teste que me pareceu muito bem visto. “Se para usar uma frigideira tens de tirar outra de cima, é porque não és de classe alta”.
O pós-iluminismo do rei da América
Por isso, começa seu segundo mandato disparando para todo lado (as conhecidas “rajadas de advertência”), inclusive na direção de aliados históricos dos Estados Unidos. Com isso, ele avisa ao mundo que está disposto a tudo para alcançar seu America Great Egain. A Casa Branca, logo na largada, dá o tom do período 2025-2028 embaralhando de uma só vez as cartas da governança, da geopolítica e da economia mundiais.
É bem verdade que Trump e seu gabinete de assessores bilionários raciocinam com neurônios de lobo de Wall Street. Mas, isso não significa que não representem um pensamento político mais amplo e organizado, amparado por grupos econômicos inconsequentes e apoiado por um eleitorado conservador dopado pelas redes digitais alucinógenas.
Ou seja, não se tata de maluquices saídas das cabeças de lideranças (que equivocadamente insistimos em caricaturizar), como Javier Milei, Bolsonaro, Trump ou Musk. Trata-se, na verdade, de um processo sofisticado de desconstrução dos valores iluministas que têm orientado as ainda jovens democracias ocidentais – tanto de direita quanto de esquerda – há aproximadamente dois séculos. O Iluminismo impõe limites a quem quer passar boiadas.
Nesse sentido, fica fácil identificar os alvos desse movimento internacional que tem em Trump seu maior expoente: o multilateralismo, o livre comércio, o humanismo, a autodeterminação dos povos, os direitos, o bem-estar social, a ciência e o próprio Estado. As primeiras vítimas são a paz, os pobres, as minorias e o meio ambiente.
Conforme alertava o canadense Steven Pinker (O Novo Iluminismo, 2018), essas iniciativas, um tanto anárquicas à primeira vista, constituem o cardápio de soluções oferecidas por esses líderes, em consonância com o enredo fatalista disseminado por eles próprios. Para esses pós-iluministas, “as instituições da modernidade fracassaram” e, portanto, “destruir essas instituições [valores, ideais e conhecimentos] fará do mundo um lugar melhor”.
No pacote de desmontes incluem-se, por exemplo, o sistema ONU, a USAID, a OCDE, a União Europeia, a OTAN, o funcionalismo público, os gastos sociais e até mesmo a própria globalização. É o que afirma o estrategista geopolítico Peter Zeihan (O Fim do Mundo é só o Começo – Mapeando o Colapso da Globalização, 2024). Consultor da CIA e do Pentágono, Zeihan lembra que a globalização econômica perdeu utilidade para os EUA com o fim da Guerra Fria. Nesse cenário, Trump sabe que seu País detém as vantagens econômicas, militares, tecnológicas, geográficas e populacionais necessárias para reconsiderar antigas alianças (e, também, as velhas inimizades).
Não foi à toa que o governo ianque publicou uma imagem de Donald Trump usando uma coroa, com a legenda “Vida Longa ao Rei”. Nada melhor para retratar o espírito pós-iluminista do que um símbolo pré-iluminista. Não aceitando um futuro para todos, ainda creem num futuro para poucos, que resultará em um futuro para nenhuns. Resta saber se ao final o rei estará nu, caso sua estratégia traga mais perdas do que ganhos para os EUA.
Um boi vê os homens
Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos — e perde-se
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.
Carlos Drummond de Andrade, "Claro enigma"
O burguês
Hermann Hesse, "O lobo da Estepe"
Um senador francês soltou o grito entalado na garganta da democracia
“A Europa está num momento crucial da sua História. Washington virou a Corte de Nero: um imperador incendiário, cortesãos submissos e um bufão virado na cetamina encarregado de desmontar o serviço público. Isso é uma tragédia para o mundo livre, mas é, antes de tudo, uma tragédia para os Estados Unidos.”
“Nunca na História um presidente americano se rendeu ao inimigo. Nunca nenhum apoiou um agressor contra um aliado. Nunca nenhum pisoteou a Constituição, emitiu tantos decretos ilegais ou demitiu o estado maior. Isso não é só um desvio iliberal; é o começo do sequestro da democracia. Não custa lembrar que bastaram um mês, três semanas e dois dias para derrubar a República de Weimar e sua Constituição.”
“Antes lutávamos contra um ditador; agora, lutamos contra um ditador apoiado por um traidor.”
“Há oito dias, no exato momento em que Trump dava tapinhas nas costas de Macron na Casa Branca, os EUA votavam na ONU, ao lado da Rússia e da Coreia do Norte, contra os europeus que exigiam a retirada das tropas russas. Dois dias depois, no Salão Oval, Trump — que, quando jovem, fugiu do serviço militar — não teve vergonha de dar lições de moral e de estratégia ao herói de guerra Zelensky.”
“A derrota da Ucrânia seria a derrota da Europa. Os países do Sul Global aguardam o desfecho do conflito para decidir se continuarão a respeitar a Europa ou se agora estão livres para pisoteá-la.”
“O apoio americano a Putin é o maior erro estratégico já cometido durante uma guerra. O choque é violento, mas tem uma virtude: os europeus saíram da negação. Em um único dia em Munique, entenderam que a sobrevivência da Ucrânia e o futuro da Europa estão em suas mãos.”
“A tarefa é hercúlea, mas é pelo seu sucesso ou fracasso que os livros de História julgarão os líderes da Europa democrática de hoje.”
“A Europa só pode se tornar uma potência militar novamente tornando-se novamente uma potência industrial; mas o verdadeiro rearmamento da Europa é o seu rearmamento moral. Devemos convencer a opinião pública diante do cansaço e do medo da guerra, e, sobretudo, diante dos comparsas de Putin, a extrema direita e a extrema esquerda.”
“O destino da Ucrânia será decidido nas trincheiras, mas depende também daqueles que defendem a democracia nos EUA e, aqui, da nossa capacidade de unir os europeus e encontrar os meios para nossa defesa comum, para fazer da Europa a potência que um dia ela foi e que hesita em voltar a ser.”
“Nossos pais derrotaram o fascismo e o comunismo ao custo de grandes sacrifícios. A tarefa da nossa geração é derrotar os totalitarismos do século XXI.”
“Viva a Ucrânia livre, viva a Europa democrática!”
(E aí, nesse momento, todo mundo se levanta no Rick’s Café, em Casablanca, e canta a “Marselhesa”).
Gaza: 'Tudo está em crise'
"Não sei o que dizer – simplesmente não há vida. Não há nada com que não lutemos", disse Walaa Mahmoud, por telefone, da Cidade de Gaza.
Mahmoud, que trabalha em uma organização da sociedade civil, diz que os preços dispararam nas últimas semanas. "Não temos água potável, não há eletricidade, é difíhttp://cil obter tratamento médico, as estradas estão em más condições, os preços estão subindo, o transporte não está disponível e a segurança é inexistente. Tudo está em crise."
Relato semelhante vem de Walid Abu Daqqa, pai de quatro filhos e também morador da Cidade de Gaza. Ele teve sua casa completamente destruída durante a guerra e agora está morando com parentes. "Costumávamos suportar bombardeios e morte; agora, há pobreza, preços altos, exploração e condições adversas que dominam nossas vidas. Meus filhos não podem ir à escola e não há um sistema de saúde que funcione se eu ficar doente. E a ameaça de guerra paira no ar devido à ausência de acordos".
Abu Daqqa afirma que a situação está contribuindo para a "ganância e a corrupção" em todas as áreas, e acusou os comerciantes de "explorar a situação" depois que as passagens de fronteira foram fechadas. "Não há justiça, nem mesmo na distribuição de ajuda, e há até mesmo taxas para retirar dinheiro dos bancos. Nada está normal aqui", relata.
Israel fechou suas passagens com Gaza e cortou todos os suprimentos de ajuda após o fim formal da primeira fase do acordo de cessar-fogo, no início de março. No domingo, o ministro israelense da Energia, Eli Cohen, anunciou que havia ordenado que a Israeli Electric Corporation parasse de vender eletricidade para Gaza, embora as autoridades israelenses já tivessem cortado o fornecimento de eletricidade em outubro de 2023.
Em resposta, o Hamas, que controla a Faixa de Gaza há quase duas décadas, acusou Israel de "violação do acordo de cessar-fogo" e de "usar a ajuda como uma carta de chantagem política" ao interromper entregas e pressionar o grupo a aceitar novos termos para prorrogar a primeira fase do acordo de cessar-fogo e libertar os reféns.
O gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu acusou o Hamas de roubar suprimentos de ajuda em benefício próprio. Ele alega ter permitido a entrada de ajuda suficiente em Gaza para durar vários meses, acrescentando que não tem obrigação de continuar fornecendo assistência após o término da primeira fase do cessar-fogo.
A primeira etapa de 42 dias expirou no início de março, e as negociações sobre a segunda fase do acordo – que prevê a libertação dos 59 reféns restantes, a retirada das forças israelenses e diálogos sobre o fim da guerra – parecem não ter se concretizado.
Para muitos em Gaza, vem à tona a lembrança dos primeiros dias da guerra de 15 meses, quando Israel cortou todos os suprimentos após os ataques terroristas liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 contra comunidades no sul de Israel.
O corte de energia elétrica anunciado recentemente afeta apenas uma linha de energia ainda em funcionamento, restaurada em novembro de 2024 e que abastece uma usina de dessalinização em Deir al Balah, na região central de Gaza.
Desde o início da guerra, palestinos em Gaza não têm eletricidade alguma, dependendo principalmente de geradores movidos a diesel ou pequenos painéis solares. A infraestrutura de energia do território foi amplamente danificada pela guerra, piorando o já precário fornecimento de eletricidade.
De acordo com Gisha, uma ONG israelense que trabalha para proteger o direito de ir e vir dos palestinos em Gaza, a usina de dessalinização abastecia a região com 18 mil metros cúbicos (4,8 milhões de galões) de água por dia. Após o corte, espera-se que a usina funcione com geradores, reduzindo a produção para cerca de 2,5 mil metros cúbicos. A ONU estima que cerca de 600 mil pessoas serão afetadas pela drástica redução.
Esse é apenas mais um desafio para os trabalhadores humanitários. "Já estamos sentindo os efeitos", disse Amjad Shawa, chefe da rede de ONGs palestinas, por telefone, da Cidade de Gaza. "Você precisa de combustível para os geradores, e isso chega através das passagens. E, de acordo com diferentes organizações, temos apenas uma quantidade limitada de combustível para os próximos dias. Algumas padarias no centro e no sul de Gaza já pararam de funcionar por falta de gás de cozinha."
O Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (Ocha, na sigla em inglês) disse na terça-feira (11/03) que "o combustível para geradores de reserva em instalações de água e saúde está acabando, os preços do combustível de cozinha estão subindo e a distribuição de farinha, produtos frescos e materiais de abrigo foi interrompida". O Ocha também informou que as agências de ajuda humanitária não conseguiram recuperar a carga que entrou na passagem de Kerem Shalom antes de ela ser fechada, há 10 dias.
"A ajuda humanitária em Gaza é uma tábua de salvação para mais de 2 milhões de palestinos que têm suportado condições inimagináveis por muitos meses. Um suprimento contínuo de ajuda é indispensável para sua sobrevivência", disse Muhannad Hadi, coordenador humanitário da ONU, em um comunicado na segunda-feira. "O direito humanitário internacional é claro: as necessidades essenciais dos civis devem ser atendidas, inclusive por meio da entrada e distribuição desimpedidas de assistência humanitária."
A alegação de uso da fome como método de guerra é central, por exemplo, na denúncia que a África do Sul apresentou à Corte Internacional de Justiça (CIJ) contra Israel por genocídio, acusação que Israel nega. Também integra o caso do Tribunal Penal Internacional (TPI) contra Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant, para os quais o TPI emitiu mandados de prisão no ano passado.
A decisão de cortar a última linha de eletricidade restante também foi criticada por famílias de reféns que solicitaram à Alta Corte de Justiça de Israel que revertesse a decisão, conforme relatado no jornal israelense Haaretz na quarta-feira. Eles citaram o testemunho de ex-reféns que disseram que qualquer decisão governamental desse tipo levaria a respostas retaliatórias e abusos por parte do Hamas.
Trabalhadores humanitários como Amja Shawa dizem que poderiam ficar horas descrevendo os muitos problemas que precisam ser resolvidos: a falta de moradia e abrigo, a escassez de água potável, o lixo empilhado por toda parte, o problema dos artefatos explosivos não detonados, os corpos de pessoas mortas em ataques aéreos ainda enterrados sob os escombros de edifícios destruídos. E ainda há a ameaça de outra guerra.
"Há também a situação psicológica das pessoas. Todos os dias recebemos um novo anúncio dos israelenses sobre o retorno à guerra. A maioria das pessoas vive agora sobre os escombros de suas casas, em condições humanitárias muito críticas. E, dia após dia, estamos perdendo a capacidade de lidar com essas grandes necessidades", disse Shawa à DW.
Nos últimos dias, Israel também intensificou seus ataques aéreos e de artilharia em Gaza. Há relatos quase diários de vítimas, o que contribui para uma situação já frágil. "O que temos hoje é diferente do que teremos amanhã, não há nada que possamos planejar", disse Shawa. "Estamos fazendo o nosso melhor e temos pessoas muito resistentes aqui, mas as necessidades são enormes."
Google na corrida dos robôs com olhos nos humanoides
Até agora, os robôs eram mecanismos articulados “cegos e burros”, como Lebaredian descreve os modelos antigos, projetados para executar tarefas repetitivas, mas incapazes de aprender, desenvolver-se em cenários desconhecidos e agir de acordo.
Para Dennis Hong, fundador da RoMeLa, “o futuro é que os robôs sejam capazes de fazer tudo o que um humano pode fazer”. Mas para agir como uma pessoa, eles precisam de um cérebro que lhes permita entender, aprender, perceber e agir. E essa mente é a IA baseada em grandes modelos de linguagem (LLM), a inteligência artificial capaz de desenvolver máquinas até sua expressão máxima: andróides, robôs com aparência e comportamento semelhantes aos humanos, capazes de funcionar em um mundo desenvolvido por e para pessoas.
Robôs movidos pela inteligência artificial do Google ainda não demonstraram em testes de laboratório habilidades tão complexas quanto a Figura 01 , o protótipo mais próximo do humanoide que a ficção científica havia antecipado e apoiado pela Open AI, Nvidia e Jeff Bezos, fundador da Amazon.
Mas aqueles equipados com a Gemini Robotics estão se aproximando muito mais após a mudança de direção adotada em 2024. “No ano passado”, explica Carolina Parada, diretora de engenharia da Google DeepMind Robotics e de origem venezuelana, “decidimos assumir um novo desafio e focar em ensinar robôs a executar tarefas complexas de manipulação fina, como as que fazemos ao amarrar os sapatos, usando dados do mundo real e de simulação para aprender”.
Deste desafio surgiu a Gemini Robotics, o modelo de IA voltado para o desenvolvimento de robôs de uso geral (humanoides). “Para fazer isso, eles precisam ser realmente úteis, entender você, entender o mundo ao seu redor e, então, ser capazes de agir com segurança, interação e habilidade”, explica Parada.
Os testes de laboratório mostrados, onde robôs, usando comandos de voz, pegam e armazenam objetos em recipientes específicos descritos apenas por sua cor e que mudam de localização, podem parecer simples, mas para um robô, são muito difíceis. A esse respeito, Kanisha Rao, colega de Parada na DeepMind, ressalta que os robôs “funcionam bem em cenários que já vivenciaram, mas falham em cenários desconhecidos”.
Dessa forma, como explica Rao, durante os testes, as máquinas foram colocadas em situações em que os objetos que elas deveriam identificar e manipular mudam de cor, os ambientes são modificados e a IA responde a comandos para ações que são novas para a máquina ou sobre objetos com os quais ela não está familiarizada, como arremessar uma bola de basquete de brinquedo sem ter aprendido previamente qual é o esporte.
Para atingir essas habilidades , explica Parada, a IA do robô deve entender a linguagem natural, “entender o mundo físico em detalhes” e, de acordo com Vikas Sindhwani, um cientista pesquisador da equipe de robótica do Google DeepMind, agir com segurança por meio de “avaliações das propriedades da cena e das consequências de realizar uma determinada ação”.
O caminho para a segurança ainda está aberto. Sindhwani diz que eles conseguiram dar aos robôs uma ampla “compreensão” desse conceito com base nos dados reais e simulados que alimentam sua IA, mas eles continuam a se ajustar para “permitir tarefas cada vez mais interativas e colaborativas” sem riscos e cumprir as três regras de Isaac Asimov: um robô não deve prejudicar um humano por ação ou omissão; deve obedecer às ordens humanas, a menos que isso entre em conflito com a primeira lei; e deve proteger sua própria existência, a menos que entre em conflito com a Primeira ou Segunda Lei.
O conceito geral da nova mudança do Google em direção à robótica é transferir o que foi conquistado no mundo digital, com o desenvolvimento de agentes (assistentes) cada vez mais sofisticados, para o ambiente físico. “Na DeepMind, temos melhorado a maneira como nossos modelos Gemini resolvem problemas complexos por meio de raciocínio multimodal com texto, imagens, áudio e vídeo. Até agora, porém, essas habilidades têm sido amplamente limitadas ao mundo digital. Para que a IA seja útil para as pessoas no reino físico, ela deve demonstrar raciocínio “ incorporado ”, a capacidade humana de entender e reagir ao mundo ao nosso redor”, explica Parada.
Os dois modelos de IA do Google para robotização são VLA (visão-linguagem-ação), construído no Gemini 2.0 e incorporando ações físicas, e ER (raciocínio incorporado), com habilidades de raciocínio.
Essas ferramentas são o caminho para a utilidade real, que Parada resume: “Os modelos de IA para robótica precisam de três qualidades principais: eles precisam ser gerais, ou seja, precisam ser capazes de se adaptar a diferentes situações; Eles precisam ser interativos, o que significa que podem entender e responder rapidamente a instruções ou mudanças em seu ambiente; e eles precisam ter destreza, o que significa que eles podem fazer o tipo de coisas que as pessoas geralmente conseguem fazer com as mãos e os dedos, como manipular objetos cuidadosamente.”
Raúl Limón
quinta-feira, 13 de março de 2025
Palavras sábias do passado
Em breve, um ilustre presidiário
Os seguidores de Bolsonaro não deveriam ser tão rigorosos com Lula. Afinal, o próprio Bolsonaro está às vésperas de se tornar também um presidiário. Só não se sabe se reagirá como um homem quando lhe baterem à porta. Mais provável é que tenha de ser levado à força, pedalando o ar e chorando, como o covarde que sempre foi —isso se já não tiver se escondido numa embaixada. De qualquer forma, será também um condenado. E o potentado estrangeiro que, para eles, intervirá no Brasil para descondená-lo, também tem a cueca suja: Donald Trump, presidente dos EUA, condenado em 34 acusações relacionadas a comprar o silêncio de uma atriz pornô com quem teve relações, fraudando a eleição de 2016 e a vencendo.
Se ser condenado por corrupção e lavagem de dinheiro estigmatiza uma pessoa, os bolsonaristas deveriam envergonhar-se de ver Bolsonaro íntimo do deputado Valdemar Costa Neto, presidente do PL e condenado em 2012 a sete anos e dez meses pelos mesmos motivos.
Como se não bastasse, o núcleo duro da quadrilha bolsonarista conta com uma chusma de generais, coronéis, majores, brigadeiros e policiais já presos preventivamente pelo crime mais grave numa democracia: atentar contra ela.
Como, para júbilo nacional, Bolsonaro não demorará a ir lhes fazer companhia, teremos um novo presidiário ilustre.
A grande bagunça: como Trump governa os Estados Unidos
Trump escreveu que cabe ao homem mais rico do mundo, Elon Musk, cortar despesas do governo, atuando diretamente sobre as áreas onde o número de funcionários é gigantesco e sem razão.
Diante da gritaria dos seus secretários de Estado e chefes de departamentos revoltados com as interferências de Musk, Trump reescreveu a decisão. Caberá a Musk apenas aconselhá-los.
A ideia de Trump de esvaziar Gaza de palestinos para transformá-la em uma espécie de colônia de férias para milionários foi cancelada. A bem dizer, não era para sair do papel.
Vez por outra, Trump fala em tomar a Groelândia da Dinamarca e o canal do Panamá do governo panamenho. Mas, pelo menos por ora, não avançou para além da fala. Quanto à guerra na Ucrânia…
Trump encenou o maior espetáculo televisivo jamais vivido por um presidente americano; um espetáculo ao vivo e direto da Casa Branca que deixou chocados os que o assistiram.
A convite dele, Zelensky, presidente da Ucrânia, o visitou. É de praxe que os dois posassem primeiro para fotos, trocassem alguns comentários e depois se reunissem a portas fechadas.
Em seguida, haveria um almoço, e depois uma entrevista coletiva à imprensa. Não foi assim. Zelensky, dependente da ajuda americana para enfrentar a Rússia, caiu numa armadilha.
Logo na etapa inicial do encontro, Zelensky foi humilhado por Trump e pelo vice-presidente JR Vance, aliados da Rússia até o talo. E acabou sendo despejado da Casa Branca.
Em público, jamais um visitante fora tratado daquela maneira na Casa Branca, jamais. O maior vencedor daquele encontro foi Vladimir Putin, o autocrata russo que invadiu a Ucrânia.
Inúmeras decisões tomadas por Trump até aqui, com base no que lhe passa pela cabeça, já foram derrubadas ou suspensas pela justiça americana. Washington está em pânico e perplexa.
Entenda-se: Trump não é um estadista, sequer um aspirante a estadista. É um empreendedor imobiliário, habituado a blefar para extrair vantagens nos negócios, e um homem de televisão.
Zelensky chegou ao poder no seu país como o afamado protagonista de uma série bem-sucedida de televisão onde fazia o papel de presidente da Ucrânia. Apesar disso…
Não é páreo para Trump, a quem precisa adular e se submeter caso queira ajuda em armas e em dinheiro. Nos últimos três anos, Zelensky viajou pelo mundo como uma estrela. Seu show acabou.
O show de Trump mal começou, e ele não precisa cortejar ninguém, nem viajar atrás de apoios. Ele só não pode perder apoio em casa. Começa a perder, segundo as pesquisas.
Winston Churchill, o estadista inglês que combateu Hitler praticamente sozinho no início da Segunda Guerra Mundial, perdeu apoio em casa quando a vitória militar estava à vista.
Os ingleses concluíram que ele fora o melhor líder de que dispunham para ir à guerra, mas que não seria o melhor para reconstruir o país. Vencido em 1945, dedicou-se à pintura.
Essa é justamente uma das belezas do regime democrático: a alternância no poder. Ninguém é insubstituível. A vontade do povo se expressa por meio do voto livre. Cada eleitor, um voto.
Tarifas de Trump enferrujam patriotismo de bolsonaristas
Carbono de Trump no Brasil, Bolsonaro fez da submissão um objetivo de vida. "Acredito que o Trump gostaria que eu fosse elegível", declarou às vésperas da posse do ídolo. "Tenho certeza de que ele gostaria que eu viesse candidato" em 2026. O deputado Eduardo Bolsonaro passou a dar mais expediente em Washington do que em Brasília. Já não tinha pátria. As tarifas de Trump o deixaram sem discurso.
Entre todos os silêncios, o mais constrangedor é o de Tarcísio de Freitas. Quando Trump venceu a eleição, o governador de São Paulo correu às redes sociais para celebrar: "Grande dia", escreveu. Fez pose num vídeo com um boné da "América Grande de Novo". Informou o que esperava de Trump: "Uma economia mais forte, com menos impostos, uma outra visão acerca da América Latina, uma postura diferente em relação às disputas comerciais que podem virar oportunidades para nós se bem lidas e aproveitadas".
Deu tudo errado. Trump promete ampliar o leque de tarifas a partir de abril. Mais de um terço das exportações brasileiras para os Estados Unidos saem de São Paulo. Sabe-se que Tarcísio será candidato a alguma coisa em 2026. Falta definir o cargo. Caindo-lhe a ficha, perceberá em algum momento que precisará pedir votos no Brasil.
O homem privatizado
Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.
Bertolt Brecht
Casa Branca vira uma concessionária Tesla
Foi outra encenação difícil de acreditar e ainda mais difícil de esquecer. Donald Trump transformou o gramado sul da Casa Branca no cenário de um anúncio dos carros Tesla na terça-feira, de propriedade do homem mais rico do mundo e seu colaborador mais próximo, Elon Musk. O presidente dos EUA e seu Primeiro Amigo posaram esta tarde em frente a uma fileira de cinco veículos elétricos da empresa (quatro utilitários e uma daquelas caminhonetes em ângulo reto) em um evento para a imprensa onde Trump queria mostrar seu apoio ao empresário em vista da queda vertiginosa do preço das ações de sua empresa e da campanha difamatória que sua entrada na política desencadeou.
Trump anunciou que ficaria com um deles, um Model S, pelo qual, segundo ele, pagaria o preço integral (a partir de US$ 79.900, de acordo com o site da Tesla). Ele o comprará “sem nenhum desconto”, acrescentou, antes de posar para fotógrafos ao volante de um carro vermelho e ouvir de Musk que era “tão fácil de dirigir quanto um carrinho de golfe”. Trump também detalhou, como se fosse um comercial da Tesla, os preços de cada modelo e as parcelas mensais disponíveis para compras a prazo.
Não havia nada de incomum no que aconteceu, nem o apoio público de um presidente a uma empresa privada, com as questões éticas que tal gesto levanta. A Casa Branca se recusou a abordar essas preocupações quando questionada por repórteres, talvez porque, como anunciou o comprador, que disse ter pago com cheque, o veículo permanecerá no local para uso de seus funcionários.
As vendas da Tesla despencaram nas últimas semanas em resposta a Musk, que também é dono da SpaceX e da rede social X, liderando o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE). Seu mandato é simplificar a administração, e ele já demitiu dezenas de milhares de funcionários e congelou bilhões de dólares em programas públicos. A cruzada desencadeou protestos, proprietários furiosos de Tesla abandonando seus carros e ataques a veículos elétricos e estações de carregamento. Os números da empresa caíram não apenas nos Estados Unidos, mas também na Europa, China e Austrália.
A compra da Tesla alimenta ainda mais a crítica daqueles que criticam os potenciais conflitos de interesse que Musk pode estar enfrentando, já que ele mantém contratos lucrativos com o governo, que ele está trabalhando para desmantelar internamente.
Trump anunciou sua intenção de comprar o carro na terça-feira em sua plataforma de mídia social, Truth, pouco depois da meia-noite. A ideia era “mostrar [sua] confiança e apoio a Elon Musk, um verdadeiro grande americano”, escreveu ele. Não está claro quando ele terá a chance de dirigir seu novo brinquedo . Por razões de segurança, os presidentes dos EUA são obrigados a viajar na The Beast, a limusine presidencial, e os moradores de Washington estão acostumados a vê-la circulando pela cidade, protegida na frente e atrás por um enxame de veículos pretos de alta potência que passam rapidamente pelas ruas antes bloqueadas.
Em uma palavra: bandidos. Em muitas: demônios
A gente do Reich avançava por todo o Leste da Europa. Bielorrússia, Ucrânia, Rússia. Quilômetro por quilômetro. Seu destino: Moscou. Sentido: Ural. Objetivo: triunfar sobre os herdeiros de Tolstói e forjar vitórias totais e sem partilha. Tudo por uma Grande Alemanha. Tipo aquilo projetado em 1938, com a anexação de Anschluss, por um espaço vital que inaugurou uma verdadeira guerra colonial. Teoricamente, por princípios existenciais. Ou, como dizia um general alemão,
“A guerra contra a Rússia é uma parte essencial do combate pela existência do povo alemão. Trata-se do velho combate dos germânicos contra os eslavos, a defesa da cultura europeia contra a invasão moscovito-asiática, a defesa contra o bolchevismo judaico”.
Eis o tom da Barbarossa. 1941 foi o momentum Barbarossa e do deus Molotov-Ribbentrop.
Vivia-se junho-julho. O ano, 1941.
Moscou não era Varsóvia nem Atenas tampouco Paris. A blitzkrieg, por isso, fora insuficiente.
A resiliência do Exército Vermelho era impressionante. Muito maior que dos franceses, gregos e poloneses. O que impôs à Wehrmacht conjuntos de perdas inimagináveis.
Stalin exigia determinação integral de seus oficiais. Hitler também. Era difícil saber quem tinha mais razões para lutar. Ninguém hesitava. Do mais raso ao mais graduado militar, marinheiro ou aeronauta. O limite era morrer. Quem medrasse, sabia, morria. Quem fosse demasiado corajoso, também. Era certo. De qualquer lado. O que brutalizou sobremodo o conflito. Fazendo da violência uma ubiquidade banal. Mais que outrora e mais que jamais.
Tanto que em um, dois meses os alemães perderam mais homens e materiais que em todas as suas batalhas anteriores desde 1939. O pavor tomou conta. Mesmo os mais experimentados oficiais do Reich jamais tinham visto tanta determinação. Exceto em Verdun, La Somme ou La Marne.A Eurásia era um inferno. Inferno vermelho.
Que, de súbito, fez-se Medusa diante de Hitler.
Que, por seu turno, metamorfoseou a mentalidade do Reich. Evocando, mais que nunca, a superioridade germânica. Tendo por contraparte os judeus. Judeus-bolcheviques. De todas as idades e condições. Homens, mulheres e crianças. Que passaram a ser exterminados sem preguiça nem perdão. Adicionando ao embate dimensões étnicas, para muito além das ideologias.
O mês ainda era julho. E o ano, 1941.
Malgrado as perdas, a bandeira do Reich era mais e mais hasteada. Concretando a fúria de Hitler em todo o Leste da Europa. Capturando populações. Neutralizando-as e confinando. Para, em seguida, eliminar. Enviando para guetos. Impondo privações. Trabalho forçado. Fome, miséria, desnutrição, infecção. E, por fim, fuzilando. Feito espetáculo.
Prender, confinar, fuzilar. Sem piedade nem perdão. Desejo de Hitler. Desígnio do Reich. Desde sempre. Especialmente desde 1939.
Volte-se, então, a outubro de 1939.
O Reich dava início ao plano Nisko. Um processo de deportação de judeus para a região de Lublin, na Polônia, com o propósito de humilhação, desmoralização, eliminação. Era o início da limpeza étnica nazista. Que depois se somou ao projeto Madagascar. Para onde foram enviados milhares de judeus doentes e sadios. Amplificando o martírio. Que, para muitos, não cessaria nunca mais.
Nem com a morte.
Entre 1939 e 1945, porquanto, houve 1941. Início da Barbarossa. Que levou a gente do Reich a mudar de planos, esquecer das deportações para Lublin e Madagascar para focar na Sibéria.
Território de Stalin. Onde, em seu entender, os judeus, antes de morrer, sofreriam ainda mais.
Mas logo se notou não fazer sentido enviar todo mundo para a Sibéria. Os judeus eram muitos e muito espalhados. O que sugeria ao Reich otimizar a receita prender, confinar, fuzilar.
Além de nazistas, aqueles nazistas eram sádicos. Sedentos por sangue, horror e morte. O que os conduziu a criar um pelotão especializado em fuzilar. Chamaram-no Einsatzgruppen. Esquadrão da morte do Reich.
Criado naquele junho-julho de 1941, ele inaugurou as atividades otimizadas de fuzilamento. Que no primeiro exercício assassinou 23.600 judeus em Kamenets-Podolski duma vez só. E, por entenderem ser bom, chegaram ao número mágico de meio milhão de judeus fuzilados em poucas semanas depois dali.
O início passou. Junho-julho também. Chegou agosto. O ano, 1941.
Fazia calor em Minsk. Era início de estação. Parecia domingo. Fazia-se festa. Tudo em fruição.
O oficialato nazista em solo soviético quis evidenciar a sua performance aos seus superiores em Berlim. Convidaram, então, Führer pra ver. Mas ele não foi. Mas enviou Himmler.
Como se disse, parecia ser festa. Um espetáculo foi armado. Não era o Coliseu. Não era cristãos. Não existiam animais. Mas previa-se muito fogo. Deu-se o start. Iniciaram-se os fuzilamentos. Os verdugos da SS, incorporados ao Einsatzgruppen, descarregaram uma quantidade impressionante de munição sobre dezenas de milhares de pessoas simplesmente por serem judeus. Tudo à luz do dia. Pouco mais ou menos que meio-dia. Causando sensações. Alguns carrascos sorriam. Uns poucos choravam. Outros, somente, sentiam. Tudo diante de Himmler, que tudo anotava.
Eram todos, certo, nazistas. Muitos deles, epidermicamente assassinos. Mas todos, inequivocamente, tinham coração. Ainda eram humanos, demasiado humanos. E, por isso, malgrado a pressão, ainda não tinham sido completamente lobotomizados pelo Mein Kampf. O que lhes permitia nesgas de consciência, escrúpulos, decência. Quem sabe, até sentimentos. Nobres ou não. Decentes ou indigentes. Uma confusa piedade. Transformada em hesitação. Eram petrificantes as cenas de martírio. Mesmo que contra seus inimigos. Em sua maioria, mulheres. Quase todas indefesas.
Algumas gestantes. Outras lactantes. Com filhos nos braços ou por vir. Consumidas pelo medo. Clamando por perdão.
Himmler viu tudo aquilo. Era brutalizante. O que o levou à meditação.
A desgraça, o ódio e o desamor eram desmedidos. Eis a conclusão.
Chocado com tudo isso, de volta a Berlim, Himmler reportou o que viu e sentiu ao Führer. Que entendeu a mensagem e providenciou solução. Não por ser sensível por ser artista ou pintor. Mas por interpretar as externalidades negativas daquele despautério, desumano e desumanizador, sobre o próprio Reich. Que poderia ver seus oficiais delirar. O que já acontecia. E produzir sinistros nefastos na saúde mental da tropa. Que, malgrado jovem, sabia e sentia o que fazia.
A demanda de Himmler era por métodos “mais humanos”. A solução era criar alternativas. Quem sabe, até mais baratas. Hitler sugeriu o gás. Para ele, mais ameno e profilático. Incumbiu-se, assim, Reinhard Heydrich para materializar a solução.
O mês ainda era agosto. O ano, 1941.
Reinhard Heydrich consultou Viktor Branck, responsável pelos experimentos com gás desde 1939. Sim: desde 1939 que os alemães assassinavam judeus em casas da morte em Hartheim, Sonnenstein, Hadamar, Bernburg Grafeneck e Brandenburg.
Viktor Branck atestou ser possível sofisticar e aumentar a escala do experimento. Mas a custo de recursos e logística. O que impôs uma reunião interministerial que teria lugar na conferência de Wannsee em fins de 1941.
Essa conferência reuniu apenas tecnocratas. Quinze ao todo. Todos representantes de ministérios relevantes do Reich. Que sabiam, intelectual e tecnicamente, do que se tratava. E, forjados em sinergia, planificaram a solução.
A nota final da conferência foi enviada ao Führer no dia 20 de janeiro de 1942. Dela constavam todos os detalhes. Que foram imediatamente aprovados e mandados obrar. Como slogan, “solução final”. Foi aí que surgiu a expressão. “Solução final às populações judaicas”.
Prender, confinar, gaseificar.
Os olhos de Hitler reluziam. O seu semblante também. O seu prazer era incontido. Ele sabia se tratar de um verdadeiro turning point na evolução do Reich. A sua compleição humana começava a se transfigurar.
Prender, confinar, gaseificar.
“Solução final”.
Hitler não tinha palavras para expressar gratidão. E, por isso, apenas disse: “cumpra-se”. Mas não simplesmente no Leste da Europa. Mas em toda parte. Notadamente na “deutsches Einfluβgebient in Europa” [esfera de influência alemã na Europa]. Que envolvia toda a Europa e todos os domínios europeus no Norte da África.
Fez-se, assim, Belzec, Sobibor, Treblinka, Kulmohof, Majdank, Auschwitz, Birkenau. Vagões e mais vagões de judeus foram nesses campos desembarcados. 5.700.000 foram exterminados.
Impossível esquecer. Insuportável relembrar.
Never more.
quarta-feira, 12 de março de 2025
Para quê?
Martin Heiddeger
Homens-fortes
O diagnóstico acima é da historiadora americana Ruth Ben-Ghiat (Universidade de Nova York). Ele parece nas páginas finais de "Strongmen" (homens-fortes). O livro pode ser descrito como uma tentativa de entender ditadores e líderes populistas de direita, analisando as características que os unem e, dentro delas, como diferem um do outro. Essas diferenças, é bom frisar, podem ser grandes.
Ben-Ghiat escrutina as trajetórias de Mussolini, Hitler, Franco, Gaddafi, Pinochet, Mobuto Sese Seko, Berlusconi, Erdogan, Putin e Trump. Outros líderes de mesmo jaez, como Bolsonaro, Duterte, Modi e Orbán, fazem aparições mais breves, como coadjuvantes.
A autora mostra como eles ascenderam ao poder, como se utilizaram de nacionalismo, propaganda, virilidade (incluindo catálogos de seus apetites sexuais), corrupção e violência —as ferramentas para exercê-lo— e como eventualmente caíram. Autocracias e ditaduras são sempre mais instáveis do que democracias.
O livro é de 2020. Isso significa que cheguei a ele com um quinquênio de atraso. A demora acabou criando um efeito interessante. Os traços autoritários que ela aponta em Donald Trump são ainda os do primeiro mandato e anteriores à invasão do Capitólio. Se já tínhamos motivos para nos preocupar, temos agora muito mais razões para angústia, pois o que vimos nestas primeiras semanas de segundo mandato são as piores características elevadas ao cubo.
Outra conversa sobre Trump que o X está escondendo
Milhões de cidadãos ao redor do mundo estão falando nas redes sociais sobre o que está acontecendo nos Estados Unidos, mas mal são ouvidos. As políticas vociferantes de Trump dominam as manchetes e os espaços digitais, começando com o X de Musk, e enterram uma conversa mais humana em plena efervescência. Americanos assustados como @ashleyjames , que acumulou quase três milhões de visualizações com um vídeo chocante no qual ela retrata o retrocesso que a ascensão de Trump representa para os direitos das mulheres. “Que momento assustador para ser mulher no mundo agora! “O que está acontecendo?” Ashley lamenta no texto que acompanha sua postagem. Do assento do seu carro, @jeanpthemc usa o humor para explicar como a maioria dos americanos se sente agora: “Por favor, ajudem-nos!” “Precisamos de ajuda, Batman, Superman, Homem-Aranha, Mulher-Maravilha!” O cachorro do @artisthut1 rosna quando Trump aparece na TV. A sequência tem dois milhões de acessos e milhares de comentários, tantos quanto a reflexão de @deedaw19601 que está alarmado porque “estamos nos isolando do resto do mundo”.
Enquanto Elon Musk coloca o algoritmo X à disposição do regime para amplificar o impacto de suas decisões e reduzir as objeções daqueles que se opõem a elas, grande parte das vozes críticas ou independentes encontraram na Bluesky uma rede social alternativa com maior liberdade e melhores possibilidades de divulgação. As dez contas mais seguidas nesta rede descentralizada já conseguiram reunir comunidades com mais de um milhão de seguidores ou estão perto disso. Entre eles estão a congressista democrata Alexandria Ocasio-Cortez , veículos de comunicação como o The New York Times , o escritor Stephen King e atores comprometidos com a luta pelos direitos civis, como Mark Hamill , o lendário Luke Skywalker, de Star Wars .
Os ataques de Trump à ciência e às universidades, aos jornalistas e à mídia, apoiados por Musk com tanto entusiasmo, conseguiram acelerar a migração para a Bluesky de todos esses setores profissionais ligados ao campo do conhecimento. Sem gritos nem manipulação algorítmica, a plataforma borboleta azul se consolida como uma opção real para obter informações ou acompanhar as iniciativas daqueles que não concordam com as políticas de Trump. Um exemplo: o protesto de cientistas americanos contra os cortes, realizado na última sexta-feira, foi acompanhado e compartilhado principalmente no Bluesky, segundo a ferramenta de análise Talkwalker, que respondeu por quase 80% das referências a #StandUpforScience, slogan do protesto nas redes sociais. A mobilização surgiu discretamente por parte da X apesar de esta ter 20 vezes mais utilizadores que a rede azul.
Há homens e homens
Há outros que lutam um ano e são melhores.
Há os que lutam muitos anos e são muito bons.
Porém, há os que lutam toda a vida.
Esses são os imprescindíveis.
Bertolt Brecht
O mundo digital e a recessão da vida pública
Hoje, temos argumentos para dizer que o efeito foi o inverso.
O mundo digital suga-nos a atenção e entrincheira-a em esferas confortáveis de opiniões consonantes. Os algoritmos servem sucessões de vídeos sobre fazer pão ou crochê, ou podcasts de esquerda ou de direita, em sintonia com as preferências de cada um. Se o leitor costuma usar o YouTube, experimente abri-lo sem ter iniciado a respectiva conta e num navegador anónimo; provavelmente ficará espantado com o tipo de vídeos que nunca viu e que o YouTube nunca lhe mostraria.
O resultado disto, apesar da cacofonia das redes sociais, é uma retirada da esfera pública, até no sentido físico – o das ruas e praças que atravessamos (e que frequentamos pouco) todos os dias.
Um estudo feito por um grupo de oito acadêmicos analisou a forma como as pessoas se deslocavam em espaços públicos de três cidades dos EUA (Nova Iorque, Boston e Filadélfia). Compararam vídeos gravados entre 1979 e 1980 com imagens de 2008 a 2010. Concluíram que, embora a percentagem de transeuntes que circulam sozinhos se tenha mantido, o número de pessoas que estavam paradas ou que deambulavam naqueles espaços caiu 14%. A velocidade a que as pessoas se deslocavam aumentou 15%. Isto “sugere que estão a usar as ruas mais como passagens do que como espaços sociais.” Também caiu “drasticamente” o número de grupos de pessoas, indicando “menos interação espontânea e/ou menos uso dos espaços urbanos como pontos de encontros pré-combinados”.
O estudo é parco em especulações sobre o que motivou a mudança (“transformações no comportamento humano, no uso do solo, ou no carácter do espaço”). Em 2010 os smartphones ainda davam os primeiros passos, embora os celulares já fossem onipresentes. Não é preciso uma investigação académica para saber que quem está fisicamente sozinho em espaços públicos está normalmente imerso no seu mundo digital por via do celular, tecnologia capaz de criar redutos individuais em espaços tradicionalmente públicos, como as esplanadas, as salas de espera ou as carruagens dos comboios.
Entabular conversa com um estranho é prática em franco declínio – seja porque nos vamos intrometer no mundo em que a outra pessoa está embrenhada, seja porque temos sempre qualquer coisa para ver no próprio celular. O onipresente dispositivo acabou até com o pretexto mais fácil: “Que horas tem?”. Quando há dias uma pessoa me perguntou as horas numa avenida movimentada (um celular sem bateria?), a primeira reação foi a de arregaçar a manga e mostrar o pulso, para indicar que não tinha relógio. Foi um reflexo que terá ficado dos tempos em que a pergunta era corriqueira. Retirar apenas um dos auriculares quando chega a nossa vez na fila do supermercado também passou a ser uma pseudo-cortesia aceitável.
Mas o mundo digital vai mais além na capacidade de nos retirar do espaço público. Permite os confortos e as distrações necessários para nos encolhermos quando os acontecimentos tornam o que nos rodeia mais hostil. Por exemplo, um ambiente geopolítico caótico ou deslizantes da democracia.
Após a tomada de posse de Donald Trump, o colunista do Financial Times Janan Ganesh argumentou que se assistia “a um grande encolher de ombros dos liberais” (usando aqui liberais como se usa quando se diz “democracias liberais”, embora as iliberais não existam. Era uma passividade resignada por parte daqueles que se opõem ao trumpismo. Observava Ganesh:
“Tem acontecido em todo o mundo desde que Trump conseguiu a vitória em novembro, e é natural. Não é possível estar sempre zangado. Nas autocracias da Europa do século XX, as pessoas de consciência dissidente muitas vezes fizeram o que era conhecido como ‘migração interior’. Isto é, em vez de fugir ou lutar, retiravam-se para as suas vidas privadas à medida que à volta delas o ambiente político se tornava mais sombrio.”
É possível ver o mesmo face à progressão das direitas radicais na Europa. Não é possível estar zangado o tempo todo e muito menos é possível lutar o tempo todo. E o mundo digital oferece o casulo perfeito: as séries na Netflix, os vídeos no TikTok, os videojogos do Steam, as compras da Amazon ou da Temu. Gratificação instantânea à prova de composições parlamentares ou inclinações de chefes de Estado. Nunca foi tão agradável alienarmo-nos.
É o sonho de qualquer autocrata (ou aspirante a autocrata) ter uma grande fatia da população placidamente satisfeita. Há quase um século, Aldous Huxley imaginou uma droga para isso. O nosso admirável mundo digital foi por um caminho diferente, mas o resultado pode acabar por ser o mesmo.






















