sexta-feira, 14 de março de 2025

Um senador francês soltou o grito entalado na garganta da democracia

Vocês já ouviram falar em Claude Malhuret? Eu confesso a minha ignorância; até outro dia, mais precisamente 4 de março, Terça-Feira Gorda, não fazia ideia de quem era. Agora virou voz de peso no mundo todo. Malhuret, 75 anos, médico, epidemiologista, antigo presidente da organização Médicos Sem Fronteiras, ex-ministro de Direitos Humanos, membro do partido de centro-direita Horizons e atual senador pelo distrito de Allier, encontrou as palavras certas sobre Trump/Musk, fez o discurso que todo mundo precisava ouvir e soltou o grito entalado na garganta universal da democracia. Viralizou, é claro. Vale a pena procurar no YouTube, há versões com legendas. Alguns trechos:


“A Europa está num momento crucial da sua História. Washington virou a Corte de Nero: um imperador incendiário, cortesãos submissos e um bufão virado na cetamina encarregado de desmontar o serviço público. Isso é uma tragédia para o mundo livre, mas é, antes de tudo, uma tragédia para os Estados Unidos.”

“Nunca na História um presidente americano se rendeu ao inimigo. Nunca nenhum apoiou um agressor contra um aliado. Nunca nenhum pisoteou a Constituição, emitiu tantos decretos ilegais ou demitiu o estado maior. Isso não é só um desvio iliberal; é o começo do sequestro da democracia. Não custa lembrar que bastaram um mês, três semanas e dois dias para derrubar a República de Weimar e sua Constituição.”

“Antes lutávamos contra um ditador; agora, lutamos contra um ditador apoiado por um traidor.”

“Há oito dias, no exato momento em que Trump dava tapinhas nas costas de Macron na Casa Branca, os EUA votavam na ONU, ao lado da Rússia e da Coreia do Norte, contra os europeus que exigiam a retirada das tropas russas. Dois dias depois, no Salão Oval, Trump — que, quando jovem, fugiu do serviço militar — não teve vergonha de dar lições de moral e de estratégia ao herói de guerra Zelensky.”

“A derrota da Ucrânia seria a derrota da Europa. Os países do Sul Global aguardam o desfecho do conflito para decidir se continuarão a respeitar a Europa ou se agora estão livres para pisoteá-la.”

“O apoio americano a Putin é o maior erro estratégico já cometido durante uma guerra. O choque é violento, mas tem uma virtude: os europeus saíram da negação. Em um único dia em Munique, entenderam que a sobrevivência da Ucrânia e o futuro da Europa estão em suas mãos.”

“A tarefa é hercúlea, mas é pelo seu sucesso ou fracasso que os livros de História julgarão os líderes da Europa democrática de hoje.”

“A Europa só pode se tornar uma potência militar novamente tornando-se novamente uma potência industrial; mas o verdadeiro rearmamento da Europa é o seu rearmamento moral. Devemos convencer a opinião pública diante do cansaço e do medo da guerra, e, sobretudo, diante dos comparsas de Putin, a extrema direita e a extrema esquerda.”

“O destino da Ucrânia será decidido nas trincheiras, mas depende também daqueles que defendem a democracia nos EUA e, aqui, da nossa capacidade de unir os europeus e encontrar os meios para nossa defesa comum, para fazer da Europa a potência que um dia ela foi e que hesita em voltar a ser.”

“Nossos pais derrotaram o fascismo e o comunismo ao custo de grandes sacrifícios. A tarefa da nossa geração é derrotar os totalitarismos do século XXI.”

“Viva a Ucrânia livre, viva a Europa democrática!”

(E aí, nesse momento, todo mundo se levanta no Rick’s Café, em Casablanca, e canta a “Marselhesa”).

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