sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Impunidade em crimes bárbaros mina crença na democracia

Os episódios de impunidade em crimes bárbaros se avolumam numa intensidade que, além de desmoralizar o sistema de Justiça, mina a confiança na democracia. Erra quem não enxerga a correlação. Num par de anos, a proporção de brasileiros que creem no regime como melhor forma de governo caiu 10 pontos percentuais, de 79% para 69%, informou o Datafolha após pesquisa com 2.002 eleitores nos últimos dias 12 e 13 de dezembro.

O sistema eleitoral foi testado, e a transição de poder estressada até o golpe tentado em 8 de janeiro de 2023, ainda sob investigação. Mas a confiança na democracia diminuiu. Noves fora o desapontamento de viúvos do ex-presidente que sonhava permanecer no poder mesmo derrotado nas urnas, há motivos para o desencanto. Todo dia sabemos de um. O mais recente veio da anistia, pelo Superior Tribunal Militar, aos assassinos de Evaldo Rosa em 2019. O músico estava com a família a caminho de um chá de bebê, na Zona Norte do Rio, quando seu carro foi alvejado por tiros de fuzil de homens do Exército. Na cena, morreu também o catador de material reciclável Luciano Macedo, que tentou socorrer a vítima.


Na primeira instância, os oito militares foram condenados a até 31 anos de prisão em regime fechado. Na Justiça Militar, as penas foram reduzidas a um décimo. Os acusados cumprirão, no máximo, três anos e dez meses em regime aberto, somente pelo crime culposo (sem intenção de matar) contra Luciano. Pelo fuzilamento de Evaldo, foram absolvidos.

Luciana Nogueira, viúva de Evaldo, foi a Brasília para audiência de recurso. Viajou com o filho, Davi Bruno, que, aos 7 anos de idade, viu o pai morrer na ação dos militares. Ela não escondeu a desapontamento com a decisão do STM. Cogita até não recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF), última instância possível:

— Uma decisão horrível, lamentável, triste. Muito complicado. Mas era um pouco de esperar, porque, no país em que a gente vive, a gente sabe que não existe justiça, principalmente para pobre e preto.

O desabafo de Luciana, mais uma mulher feita ativista pelo luto, ecoa em outras vítimas da brutalidade que não encontraram alento em tribunais. Os policiais que assassinaram o menino João Pedro, aos 14 anos, numa operação mal explicada no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, em 2020, acabaram sumariamente absolvidos na primeira instância. Nem a julgamento foram.

O tribunal do júri, que representa a sociedade, condenou por homicídio culposo o policial militar que matou com um tiro nas costas o jovem Johnatha de Oliveira Lima, aos 19 anos, na Favela de Manguinhos, dez anos atrás. Na semana passada, o TJ-RJ acolheu o pedido de um novo julgamento. Noutro caso emblemático, o júri absolveu os sete agentes acusados de participação no assassinato do dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira, o DG, também em 2014, na comunidade Pavão-Pavãozinho, na Zona Sul carioca.

Cinco anos depois do crime, o PM acusado pelo assassinato da menina Ágatha Félix, aos 8 anos, numa comunidade do Complexo do Alemão, também foi absolvido no mês passado. Os jurados consideraram que o policial não teve intenção de matar a menina, alvejada por um tiro de fuzil nas costas, ao lado da mãe, dentro de uma Kombi, na comunidade onde moravam.

Situações recorrentes de abusos — vide a epidemia de violência policial em São Paulo e na Bahia, para ficar em dois estados — e certeza de impunidade para os culpados consolidam a percepção de anistia recorrente para uns e de dor permanente para outros. Não faltam iniciativas nem alertas sobre quanto a injustiça deteriora a confiança nas instituições. Por conseguinte, na democracia.

Ainda ontem, o TJ-RJ fez um aceno ao respeito às tradições religiosas e culturais no país. O machado de Xangô, símbolo de verdade, justiça e equilíbrio, foi entronizado no hall dos auditórios da sede da Justiça fluminense. É a primeira vez que um objeto sagrado para cultos de matriz africana ganha espaço permanente de exibição. O Oxê, machado de dois gumes do orixá da justiça, foi presente de Arethuza Doria, uma filha de Oyá.

A iniciativa foi negociada com o presidente do TJ-RJ, desembargador Ricardo Rodrigues, pela Comissão da Verdade da Escravidão Negra do Rio. Realizou-se quase simultaneamente ao julgamento do STF sobre laicidade. Em fins de novembro, o Supremo decidiu que a presença de peças sagradas em prédios e órgãos públicos não fere a laicidade do Estado nem a liberdade de crença, princípios constitucionais. A tese de repercussão geral saiu de ação do Ministério Público Federal contra a presença de símbolos religiosos no TRF-SP. O STF entendeu que há valorização de aspectos culturais da sociedade brasileira, não imposição de fé. Assim, cruzes, imagens e peças sagradas de todos os credos estão permitidos. Oxalá a fé inspire a justiça.

Justiça Militar dá show de corporativismo diante da viúva

Quantos tiros um grupo de militares pode disparar contra uma família de civis desarmados sem cumprir pena na cadeia? O Superior Tribunal Militar liberou a marca de 257. Na noite de quarta, a corte reduziu a punição dos agentes que mataram o músico Evaldo Rosa e o catador Luciano Macedo, em 2019. Eles passarão três anos em regime aberto.

O julgamento consagrou a tese de que os oficiais, cabos e soldados que participavam da operação no Rio não tinham a intenção de matar ninguém, com tiros dados num contexto de confronto com bandidos. Analisar as circunstâncias de dolo e culpa de agentes de segurança é dever de qualquer juiz. Os ministros vencedores, porém, preferiram tratar os atiradores como vítimas.


O tenente-brigadeiro Carlos Augusto Oliveira, relator do caso, aceitou a defesa dos militares, que dizem ter confundido o carro de Evaldo com um veículo usado por bandidos. Ele afirmou que os agentes tentavam "conter uma ação criminosa, ainda que imaginária". Num exercício de especulação, disse ainda que o músico pode ter sido morto numa troca de tiros com criminosos, sem a certeza de que os disparos partiram dos agentes do Exército.

No voto, o relator fez uma ponderação. Apontou que o grupo de militares errou na identificação do carro, deixou de verificar se Evaldo estava armado e não considerou a opção de ferir o motorista em vez de atirar para matar. Faltou explicar se alguma parte da abordagem estava certa.

Outros ministros encenaram um show de corporativismo diante da viúva e do filho de Evaldo. Revisor do processo, José Coêlho Ferreira descreveu a situação das mortes como "uma grande confusão". O general Lúcio Mário de Barros Góes disse que lamentava sentenciar "pessoas de bem pela trágica ocorrência".

A índole dos agentes não estava em julgamento. A única questão a ser considerada é se um grupamento que ignora as circunstâncias de uma abordagem e dispara 257 tiros assume ou não a intenção de matar. Militares "de bem" podem cometer erros, mas precisam ser responsabilizados na medida de suas ações. A Justiça Militar deu todas as provas de que não tem interesse em submeter os seus a essa provação.

Congresso, o dinheiro acabou!

A festa acabou, o povo sumiu e anoite esfriou, parafraseando Carlos Drummond de Andrade. Entretanto, o Congresso Nacional continua coma faca no pescoço do ministro da Fazenda, na busca por mais e mais emendas parlamentares e benesses. É preciso aprovar as ações de ajuste fiscal e retomar a responsabilidade com o dinheiro público.

A farra com as emendas parlamentares chegou ao limite de ensejara atuação do próprio Supremo Tribunal Federal( STF ), a partir da correta decisão do ministro Flávio Dino. Ela obriga à transparência e delimita os parâmetros para organizar o coreto. Contudo, em plena votação do pacote de ajuste fiscal, as lideranças do Congresso partilham na penumbra vultosos recursos públicos – antes, vale dizer, bloqueados pela atuação do STF.

A falta de republicanismo é flagrante. Mas nãoé só um problema ético, mora leque ameaça a democracia, no sentido de abalar o processo orçamentário típico. É também o sintoma de um sistema político doente ecada vez mais distante das reais necessidades do povo brasileiro. Veja-se, por exemplo, a matéria do programa Fantástico, da TV Globo, que mostrou orecapeamento asfáltico financiado por emendas, em determinadas localidades, em condições mais parecidas com um “chiclete”. Para onde foi o dinheiro?

A lambança promovida pelo Congresso tem consequências sobre a economia, para além do mau uso do recurso público, cada vez mais escasso em um contexto de dívida pública crescente. O mercado precifica a irresponsabilidade fiscal nos juros e dólar mais caros. Não tem nada a ver com o maquiavelismo do mercado sugerido por lideranças petistas nos últimos dias. Ora, vejam, não temos hoje no Banco Central diversos diretores apontados pelo próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva? Como vão culpar, agora, o competente Roberto Campos Neto? Sinuca de bico para a retórica de boteco adotada por esse setor da política que, aliás, compõe a própria base governista.

O País precisa urgentemente de um choque fiscal. A dívida pública vai alcançar os 80% do Produto Interno Bruto (PIB), rapidamente, e a tarefa de estabilizar esse indicador poderá transformar-se em missão impossível. Tudo depende da elite política do País e de sua consciência. O dinheiro acabou, nobres parlamentares. Já rasparam o tacho, já distorceram a reforma tributária do consumo enfiando mais benefícios para a Zona Franca de Manaus e diversos setores amigos do rei. O que mais os senhores pretendem?

Agora, desidratam os projetos e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) enviada pelo Executivo para providenciar um ajuste fiscal mínimo. Atuam como se Brasília fosse uma espécie de bolha apartada da sociedade brasileira e da economia. Enquanto a pobreza e a miséria ainda envergonham a Nação, o Congresso dá-se ao luxo de praticar o proselitismo, mas não por ele mesmo; pior, tendo em vista mascarar seus reais objetivos de disparar mais e mais recursos por meio de emendas, descumprindo a decisão do STF.

Até quando o País aguentará que certas saúvas sigam trabalhando para acabar com a prosperidade, o crescimento econômico e a normalidade dos mercados? Estamos chegando a um limite preocupante. O ministro da Fazenda parece voz isolada. O presidente da República tem de entrar no jogo e mostrar de que lado está: do populismo barato, com medidas impensadas para ampliar a isenção do Imposto de Renda, ou do ajuste das contas e da responsabilidade que ele mesmo chegou a defender e a praticar?

Deixar nas mãos do Banco Central a tarefa de restabelecer a normalidade na economia nacional vai significar juros nas alturas e crescimento econômico no chão. A elevação da Selic é o instrumento de que a autoridade monetária dispõe, bem como as intervenções no mercado de dólar. Mas o uso dessa caixa de ferramentas não servirá para muita coisa se o Congresso não avançar na direção do ajuste fiscal proposto pelo governo.

É hora de apoiar o programa de contenção de gastos. Mais do que isso, de aprimorá-lo e de ampliá-lo. A dívida pública não vai se estabilizar apenas com as ações anunciadas. Sobretudo, não estacionará na presença de juros ainda mais elevados, já contratados em 14,25% ao ano após a última decisão do Comitê de Política Monetária (Copom).

Para ter claro, o déficit primário projetado para o ano que vem, mesmo sob os efeitos do novo pacote, tende a ficar acima de R$ 90 bilhões. A meta zero, como se vê, está muito distante. Pior, para estabilizar a dívida/PIB, é preciso produzir superávit primário. Com juros reais de 10%, nível para o qual estamos caminhando sem atalhos, mesmo que a economia cresça em torno de 3%, seria preciso gerar superávit primário de mais de 5,5% do PIB. É impraticável. A conta evidencia o tamanho do pesadelo em que nos metemos por pura inépcia.

O governo tem culpa na demora para enviar as medidas de ajuste, na contratação de gastos desnecessários desde o início do mandato atual e na falta de foco na tesoura. Entretanto, tomou uma decisão correta, agora, ao enviar um pacote de contenção de gastos. O Congresso tem de acordar para a realidade e deixar de lado a mesquinharia que parece ter dominado o Plenário Ulysses Guimarães.
Felipe Salto

2024, vai e não voltes

Olho para 2024 e vejo uma galeria de horrores.

A guerra da Ucrânia continuou e até se intensificou, com soldados norte-coreanos servindo de carne para canhão de Putin e ataques ucranianos dentro das fronteiras russas. O conflito Israel e Hamas tornou-se um conflito também com o Hezbollah no Líbano e, em baixa intensidade (pelo menos oficialmente), com o Irã. Cerca de cem reféns continuam aprisionados e maltratados em Gaza, incluindo um bebé de um ano, uma criança e a mãe de ambos. Gaza foi praticamente terraplanada e as mortes e as consequências para a população, também incluindo crianças, e mesmo descontando as contas aldrabadas do Hamas e das ONG amigas, são de gelar o coração.

Um agressor sexual foi eleito (pela segunda vez) para a Casa Branca. A Síria depôs um ditador sanguinário, expôs involuntariamente a fraqueza russa e iraniana, mas dificilmente terá um futuro político risonho à espreita.

No meio deste vendaval internacional, dois acontecimentos mais específicos, mais micro, mostram um contínuo preocupante entre a amoralidade individual, a comunitária e a transnacional. O primeiro foi de Lily Phillips. (Não sei como a descrever. Influencer sexual? Estrela de pornografia na plataforma Only Fans? ‘Trabalhadora do sexo’, eufemismo para mulher que se prostitui?) Esta jovem adulta, com centenas de milhares de seguidores no Only Fans, promoveu um evento onde teve sexo pago com 100 homens num dia. E agora prepara-se para o ainda mais apoteótico acontecimento de ter sexo com 1000 homens num dia.


Para celebrar tal feito, fez-se o documentário (traduzo) ‘Dormi com 100 homens num dia”. Neste, Lily Phillips termina a chorar contando a sua experiência. Foi mais ‘intenso’ do que estava à espera, diz e começa a chorar. ‘Não é para as fracas’ e ‘’não sei se recomendo’ – outras expressões que nos ofereceu. Também assevera que ‘foi duro’ e que estava ‘robótica’. Não quero desta vez entrar na discussão da prostituição ser um ‘trabalho sexual’ ou uma exploração de mulheres pobres (que não é o caso de Lily Phillips).

Uma coisa é certa: Lily Phillips, com ‘robótica’, ‘foi duro’ e ‘não sei se recomendo’, não estava a descrever nenhuma experiência sexual agradável. Na verdade, descreve algo parecido com o que contam as mulheres que se prostituem por não terem outra alternativa. Vários homens não pararam a interação sexual depois dos poucos minutos alocados a cada um. Phillips só se recorda de seis a dez homens dos cem com quem teve sexo. Se não houvesse vídeos, não teria registo no cérebro do que aconteceu. Ora isto é a típica memória fragmentada (ou apagada) dos eventos traumáticos.

Donde, o apoteótico feito de Lily Phillips não tem nada que ver com libertação e a liberdade sexual das mulheres, que pretende tirar a sexualidade feminina só dos casamentos e da procriação, tornar menos espartilhada a relação das mulheres com o seu corpo e o sexo mais frequente e prazenteiro. Não há neste feito de Phillips, e menos ainda no documentário, nada de empoderador ou libertador para as mulheres.

E, se devemos torcer o nariz aos homens que acedem participar em sexo nestes termos, também não podemos isentar Phillips de críticas pelos seus atos, de resto publicitados. Imaginemos o escândalo (justificado) se um misógino do calibre de Andrew Tate tivesse sexo com cem mulheres num dia e fizesse documentário a seguir. Lily Phillips pode ter questões de saúde mental. Porém saltam igualmente perguntas sobre a necessidade patológica de fama neste mundo digital e sobre ideias cada vez mais absurdas e arrepiantes para sobressair (porque o que é moderado é banal). De qualquer maneira, é perturbador.

O segundo acontecimento: o assassínio de Brian Thompson CEO da seguradora de saúde americana United Healthcare, aparentemente por Luigi Mangione, jovem de Baltimore proveniente de uma família endinheirada. Muita gente nas redes sociais acorreu a celebrar este assassínio e o seu provável autor. É certo: as redes sociais potenciam a polarização e a radicalização. Contudo, a apologia de violência gráfica e mortal é todo um outro nível – e revela como a esquerda vai por caminhos de extremismo tal qual a direita.

Mas pior que as reações populares a este assassínio foram as reações de políticos. Elizabeth Warren, senadora democrata, comentou ‘people can only be pushed so far’. Ou seja, as pessoas só podem ser atropeladas até certo ponto. Além desse ponto a reação é sempre ao som de tambores. Warren tem a sua razão. Sobretudo – como em temas de saúde – se se trata de assuntos de dignidade humana e de respeito (ou desrespeito) básico por outro ser humano. Os torcionários talentosos, digamos assim, têm essa noção: os abusos têm de ficar ali numa área q.b., ou geram reação incontrolável.

Bernie Sanders veio defender o comentário de Warren. Ambos sancionaram tacitamente, portanto, um assassínio ideológico. A partir de agora deve-se bater palmas quando um executivo de uma empresa poderosa for assassinado.

A solidariedade assassina de Warren e Sanders é tanto mais indecorosa quanto a distópica política de saúde americana, assente em seguros de saúde e empresas com pouca regulação quanto ao que têm de cobrir e ao que podem recusar, é responsabilidade dos políticos – tanto republicanos como democratas –, e inclusive dos eleitores (de ambos os partidos) preferindo pagar impostos mais baixos que aumentá-los para acomodar gastos públicos significativos com saúde, não de um executivo – mesmo se de seguradora abutre. Os Estados Unidos têm uma mortalidade materna mais alta que qualquer país desenvolvido. Caso único no mundo fora guerras, a esperança média de vida à nascença tem decrescido. Tudo resultado dos deficientes cuidados de saúde. Diria eu que são problemas de magnitude para governantes e legisladores resolverem; empresas – e pouco reguladas – não conseguem (nem têm de).

Aplaudir assassinatos e assassinos. Celebrar a prostituição de mulheres. Confesso-me desalinhada com o estado de espírito do mundo nos finais de 2024. Boa notícia neste fim de ano só mesmo a do aumento da leitura entre os mais jovens. Ler ficção é um instrumento perfeito para desenvolver empatia. Talvez evitasse Luigi Mangione e os seus adoradores. Já a falta de amor próprio de Lily Phillips vai além do poder da leitura.
Maria João Marques

O Natal que se perdeu

Sou de uma geração, a do fim da Segunda Guerra Mundial, que ainda conheceu o Natal cristão. Nós não sabíamos, mas era um Natal agônico e residual, que se transfigurava lentamente. Era uma celebração, uma festa de família, que juntava ainda mais o que já estava junto. Era um momento de comunhão no almoço natalino que seguia tradições de família até nos ingredientes à mesa. Cada alimento do almoço de Natal era um alimento ritual.

Mesmo a taça de vinho tinto, feito em casa por meu avô, que se recusava a servir e a tomar vinho comercial. Temia os vinhos “batizados”, os que, dizia, haviam recebido acréscimos indevidos que afetavam a pureza da bebida.


Mesmo as crianças recebiam sua pequena porção de vinho, misturado com um pouco de água e um pouco de açúcar. Para que aprendessem a consumi-lo, como alimento que era na cultura camponesa de meus pais e avós.

Ainda criança, via meu avô, em determinada época do ano, ficar de ceroulas, lavar os pés e as pernas, as mãos e os braços, entrar na pipa em que depositara a uva e pisá-la em roda, numa espécie de dança, em que ia e voltava.

Depois, levá-la, rodando-a, para o escuro cômodo de fundo de quintal, que era também o de sua oficina de carpinteiro. Acompanhado dos dois netos, visitava-o todos os dias de manhã para ouvir o som da fermentação e avaliar o ponto em que se encontrava.

Em determinado dia, com um copo na mão, abria uma torneira da parte inferior da pipa, a uns 20 centímetros acima da base, para reter no fundo a borra da fermentação. Recolhia um pouco do vinho em processo de fabricação, sentia o aroma, olhava o copo atentamente contra a luz várias vezes e voltava para dentro de casa. Comentava com minha avó o resultado da verificação.

Até a manhã em que o vinho já estava com uma cor rubi, lindíssima. Punha um gole na boca, demorava provando-o e dizia a meu irmão e a mim, de 3 e 5 anos idade: “Está pronto”.

Nessa altura já havia fervido as rolhas e lavado com água fervente as garrafas em que o vinho seria engarrafado. Era o vinho de dois Natais depois. O do Natal daquele ano fora feito dois anos antes. As garrafas eram devidamente enterradas na areia do porão da casa para evitar a oxidação do vinho.

O Natal, portanto, começava dois anos antes, ciclos natalinos de datas diversas sobrepondo-se, fluindo aos poucos, conforme o ritmo da natureza. Era o tempo litúrgico da tradição e do respeito pelo sagrado.

O dia a dia não era profano. O sagrado regulava o cotidiano. À noite, após o jantar, meus avós e os netos, quando estávamos com eles, rezavam o terço. Ao deitarem eles e os netos rezavam o “Com Deus me deito e com Deus me levanto”.

Minha avó ia à missa todos os dias, logo cedo. Confessava e comungava. Foi assim na segunda-feira em que após o café da manhã levantou-se para lavar a louça e começar a fazer o almoço. Deu o primeiro passo e caiu morta. Estava preparada segundo as regras daquele mundo em que não havia separação entre profano e sagrado, o lento e cauteloso mundo da tradição.

Aquele mundo terminava. Vi isso com a chegada do Papai Noel, um ser de importação, a trazer consigo neve artificial feita de algodão. Ele era o agente de transformação dos brasileiros em estrangeiros. Usurpara o lugar dos Reis Magos, símbolos do ciclo natalino, o da transição do ano velho para o ano novo.

Os pais tentavam infiltrar no tradicionalismo dos costumes a estranhíssima figura de velho barbudo. Entrava em casa sorrateiramente, durante a noite de 24 de dezembro, para premiar cada criança com o brinquedo que havia pedido ou castigá-la com brinquedo diferente do solicitado.

Curiosamente, os filhos das famílias de operários, a maioria do bairro fabril em que eu morava, um bairro de muitas e grandes fábricas, nunca recebiam o que haviam pedido que os pais encomendassem de Papai Noel. Os filhos da meia dúzia de pequenos comerciantes do bairro recebiam exatamente o que pediram. Não raro, mais de um presente.

Aos 5 anos de idade, eu desconfiava que Papai Noel não gosta de quem trabalha e que quem trabalha se torna pobre. Para mim era difícil aceitar que meu presente fosse, portanto, um castigo.

Minha mãe, que tinha 3 meses de idade quando a família de meus avós imigrou para o Brasil, na imigração subvencionada para trabalhar como colonos em fazenda de café do interior, ainda conheceu antigos escravos que continuavam a trabalhar nos cafezais.

Ela cresceu convencida de que as pessoas ficavam negras por trabalhar no café. Tinha pavor de tomar café e em consequência tornar-se negra como os antigos escravos. Nunca me disse nada, mas me dava a impressão de que ela achava que o café continha a mandinga da escravidão.
José de Souza Martins

Nós somos mesmos é um bando de ladrões

Admito que a afirmação acima é um tanto forte e pode indignar os leitores, que, em sua esmagadora maioria, tenho certeza, nunca furtaram nada na vida. Ao mesmo tempo, manda o diabinho que sopra besteiras nos ouvidos de escritores e malucos correlatos que eu pense duas vezes, antes de ter essa certeza toda. De perto, ninguém é normal, disse Caetano, não sem razão. E, segundo me contam, disse Nélson Rodrigues, coberto de razão, que, se todo mundo soubesse da vida sexual de todo mundo, ninguém se dava com ninguém. Não sabemos com certeza o que os outros fazem. Podemos saber ou achar que sabemos muito, mas geralmente não sabemos nada. É até bem frequente está aí a turma analisante/analisanda que não me deixa mentir – que nós mesmos não saibamos, ou não lembremos, o que fazemos ou fizemos.


Além disso, sempre me manifesto contra a mania – que parece que estamos perdendo um pouco nos últimos tempos, mas pode ser somente impressão – de nos referirmos a nós próprios na terceira pessoa: “os brasileiros” isso e aquilo, “o brasileiro” isso e aquilo. É como se não tivéssemos nada a ver com as barbaridades que costumamos denunciar ou ridicularizar. Trata-se de um povo do qual não fazemos parte. Não posso concordar com isso, ainda mais escrevendo para jornal. Não dá para me ver como um observador destacado de uma realidade à qual pertenço – e claro, não alego originalidade quando repito que serei sempre, ao mesmo tempo, de várias formas, sutis ou claríssimas, sujeito e objeto dessa observação.

E, vamos e venhamos, pode ser chato para nossa famosa autoestima, mas a sensação que dá, quando a gente fica a par do noticiário, não é a de que aqui absolutamente todo mundo rouba, de uma maneira ou de outra? Não vou hierarquizar, nem mesmo qualificar nada, vou só olhar aqui à toa. Mais um assalto na Lagoa, no Rio. Entre os assaltantes, um inspetor da Polícia Civil. Mais um assalto na madrugada, em São Paulo. Entre os assaltantes, um delegado. E o Tribunal de Contas da União? Está certo, seus quadros não são compostos de anjos tampouco, mas logo o Tribunal da Contas da União, uma espécie de símbolo institucional (pode até nunca ter passado muito de símbolo, mas é símbolo, isso tem valor) da seriedade com o dinheiro público?

De vez em quando fico pensando que há uma grande força-tarefa, ou uma vasta organização de forças-tarefas, dedicada em regime exclusivo à bolação e estruturação de falcatruas. Vamos pensar que seria possível para um governo, especialmente esse governo, conceber um mecanismo inteiramente novo de distribuição de benefícios para os carentes. No dia seguinte, já teria sido montado um esquema para fraudar tudo. Não existe área em que a roubalheira não funcione. Policial rouba. Juiz rouba. Deputado rouba. Senador rouba. Governador rouba. Prefeito rouba. Vereador rouba. Procurador rouba. Fiscal rouba. Jornalista (não sei de nenhum no momento, mas claro que não somos exceção) rouba. E não é só o dinheiro público que é abiscoitado, é o particular também, pois noticiaram qualquer coisa como um prejuízo médio de cinco por cento, nas empresas que funcionam no Brasil (agora se diz “corporações” – por que não trocam a língua de uma vez, em lugar de ficarmos nesta promiscuidade depravada?), causado por roubalheiras ou fraudes cometidas pelos empregados. E a solução é bem brasileira – esses brasileiros são muito criativos. A solução é incluir o prejuízo nos custos da empresa.

Ou seja, quem paga o roubo somos nós mesmos e, portanto, eu tinha razão. Pelo menos de nós mesmos somos todos ladrões, não há um só que escape. Como ícone nacional, não mais o Jeca Tatu, anquilosado e ultrapassado, mas Ali Babá, próspero e intimorato. Antigamente, eu achava exagero dizer-se que o dinheiro dos impostos no Brasil não dá para as despesas porque se rouba muito. Pensava que era uma taxa pequena, cifra relativamente marginal. Agora, me vejo obrigado a mudar de ideia. Os impostos obscenamente altos e abundantes que pagamos são insuficientes para a roubalheira. A reforma fiscal, que, como as outras, dizem que fizeram mas não fizeram, certamente empaca nesse gravíssimo problema. Abatendo-se da receita o que se rouba, a tendência é cada vez mais ficarmos no vermelho.

Gostaria de encerrar o papo com uma nota otimista, muito em voga entre intelectuais de todas as índoles. Aliás, o politicamente correto é terminar considerações como estas afirmando que, felizmente, o povo é honesto. O povo mesmo, esse é honesto por natureza e tradição, é só ver como se comporta a maioria. Receio, contudo, que no momento não me encontro muito propenso a concordar, eis que nem esmola a gente pode dar acreditando que está fazendo o bem, pois pode perfeitamente estar ajudando uma quadrilha que explora crianças, prostitui meninas na puberdade e comete outras coisas que “fazem muito no Brasil”, é um país tremendo esse Brasil e seus brasileiros. Até dar dinheiro a instituições de caridade a gente dá com um pé atrás, porque volta e meia aparecem casos de gente que enriqueceu com a grana que recebia para os necessitados. Eu mesmo já caí nessa diversas vezes, inclusive na inesquecível ocasião em que juntei dinheiro de que não podia dispor, para ajudar um “hanseniano” mineiro e descobrir depois que era uma quadrilha, especializada nesse golpe. Aqui tudo se falsifica, de remédios a pedidos e há inúmeros casos, sério mesmo, de falsificações falsificadas. É, no sentido lato e generalizando só um pouco, somos um povo de ladrões. Até porque aqui sempre valeu o latinzinho citado pelo bom Erasmo, em seus “Adágios: nullus mallus magnus piscis, nenhum mal vai ao peixe grande. Aí todo mundo acaba aprendendo e o peixe pequeno vem aprendendo bastante, ao longo dos séculos.

João Ubaldo Ribeiro, em O Globo (12/12/2004) 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Pensamento do Dia


 

Politicamente incorreto

Numa de suas viagens imaginárias Gulliver visita a Academia de Lagado; nela várias experiências eram feitas para se encontrar a felicidade plena. Os sábios, convictos de suas certezas, tinham abolido a linguagem. Cansados dos equívocos que as palavras encerram – apenas travestiam a realidade –, resolveram comunicar-se através dos objetos a que se referiam. Andavam com sacos e carroças repleto de coisas e, ao serem interpelados, as mostravam para dizer exatamente aquilo que desejavam exprimir. Entretanto, dizem os linguistas, mesmo se fosse possível reunir em único lugar um número expressivo de baleias, seria impossível dizer “todas as baleias”. O significado de “todas” transcende a materialidade empírica daquilo que denota. Há uma longa história do devaneio da língua perfeita, idioma do Paraíso (Umberto Eco se dedicou a decifrá-la); sua estrutura celestial seria capaz de apreender o mundo com justeza e precisão, entre as palavras e as coisas não existiria o hiato da inexatidão. A cada objeto ou ideia haveria um único termo para denominá-los; assim, qualquer ambiguidade de sentido seria eliminada.

Porém, a língua é uma representação, ela não se esgota na mensagem que enuncia. O politicamente correto acredita que os termos de um idioma contêm a essência daquilo a que se refere, entre as palavras e o mundo haveria uma conjunção harmônica e íntegra. Assim, dizer algo errado é equivocar-se em relação à essência, a correção é necessária para ajustar o desvio pressuposto entre linguagem e realidade. O “cancelamento” decorre desta intenção: isolar o verdadeiro do falso.

Fernando Botero

Nada há de novo nisso, existem vários exemplos de disciplinarização da língua; é o caso da Revolução Francesa. Os revolucionários procuraram extirpar todos os traços da tradição cristã da vida francesa, a reforma do calendário gregoriano tinha justamente esse objetivo. Os doze meses do ano foram rebatizados (Brumário, mês das brumas; Nivoso, da neve; Pluvioso, das chuvas; Florial, das flores; etc.), os dias da semana redefinidos (primidi, duodi, tridi, quartidi, etc.) e não mais seriam dedicados a nomes de santos (foram trocados por elementos da terra: açafrão, uva, castanha, etc.). Algumas palavras foram também banidas do vocabulário quotidiano, “senhor” e “senhora” sendo substituídos por “cidadão”, manifestação do espírito de igualdade entre as pessoas. Entretanto, o “terror linguístico” (assim foi denominado na época) tinha uma amplitude maior, a emergência do Estado-nação republicano exigia a manifestação da unicidade da língua; os vários dialetos existentes no país foram, portanto, censurados e perseguidos, todos deveriam se expressar em um único idioma: o francês. Afirmava-se a totalidade da nação para se contrapor ao diverso que a ameaçava; como no mito de Babel, a diversidade era uma maldição. No caso do politicamente correto tem-se algo irônico: o ideal da diversidade exige o controle da língua, porém, o diverso é o fundamento da homogeneidade almejada.

Jakobson dizia que uma língua se define pelo que pode e não pelo que permite ou deve dizer, por isso nenhum idioma é superior ou inferior aos outros (muito se escreveu sobre a superioridade do inglês, ele seria capaz de expressar coisas que outras línguas desconheceriam). Na verdade, os idiomas representam o mundo à sua maneira, cada um deles contém uma verdade na qual a linguagem se assenta. Entretanto, toda língua se realiza em contexto (essa é a diferença entre linguagem e língua); nela, o significado das palavras se transforma e se desdiz. A entonação da voz, indicando suavidade ou rispidez, a ironia, a expressão facial de quem fala, constituem elementos que modificam o sentido expresso do que é dito. O contexto é a situação na qual as palavras (diz-se que uma frase foi retirada de contexto) ou os indivíduos se encontram. A linguagem, enquanto estrutura, não garante imediatamente a inteligibilidade da fala (ou da escrita), é necessário que ela se insira numa determinada rede de interação social. A mesma coisa dita em lugares distintos, com entonação distinta, tem significado diferente. Imaginar a existência de um manual da utilização correta das palavras, reduzindo-as a um determinismo militante, é uma quimera. O contexto é história e a história é um destino coletivo, não o monopólio da definição das boas intenções. A riqueza de uma língua exprime-se na multiplicidade de sentidos que ela possibilita dizer, a ternura ou o ódio, a frustração ou a tristeza, a dominação ou a liberdade.

Sempre me intrigou a obra de Botero, com suas gordas e gordos. Não entendia sua intuição estética até visitar o museu de Medellin. Nele existem várias esculturas, mulheres gordas, padres gordos, gatos gordos, burgueses gordos, mesas e cadeiras com bordas arredondadas, vasos redondos, etc. Percebe-se que seu interesse é pelas curvas, o volume das coisas, enfim, aquilo que é esférico, roliço. O universo de Botero é sem arestas, tudo está sinteticamente integrado na sinuosidade das formas. Diante das agruras do real, das contradições, da amargura, o artista imagina uma configuração de elementos que idealmente contrasta sua aspereza. Porém, como todo artista, ele sabe que sua ficção é distinta daquilo que o cerca, o real é ponto de partida para sua imaginação. O politicamente correto padece da tentação do Bem e de uma certa ilusão de ótica, aspira a um mundo no qual a sombra dos objetos se projeta sobre sua própria essência. Suprime-se, assim, o hiato entre a verdade e a dúvida, ser e estar.
Renato Ortiz

Luiz Inácio avisou: 'São 300 picaretas com anel de doutor'

Não basta ser bom de gogó para que se consiga governar. Getúlio Vargas era ruim de gogó e governou o Brasil de 1930 a 1945 como ditador, e de 1950 a 1954 como presidente eleito pelo voto popular. Matou-se com um tiro no peito para não ser derrubado mais uma vez por um golpe militar. O golpe só ocorreu 10 anos depois.

Mas Juscelino Kubitschek era bom de gogó, Jânio Quadros, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Lula também, cada um e suas circunstâncias. Nenhum dos generais-presidentes da ditadura foi bom de gogó, mas eles tinham a força ao seu lado. O voto e a anarquia militar puseram fim à ditadura.

Atribui-se a Fernando Henrique uma frase que ele nunca disse: a de que teria governado pela primeira vez com o gogó. Da segunda vez, o gogó não bastou. O Plano Real, que o elegeu em 1994, perdera o encanto, o país já não estava bem, e seu candidato a presidente em 2002, José Serra, acabou derrotado por Lula.

No último volume dos “Diários da Presidência”, obra que ditou para um gravador durante seus oito anos de governo, Fernando Henrique diz que para negociar com o Congresso foi preciso “botar a mão na lama”. E explicou, sem descer a detalhes:

– Há setores políticos da base que são uma podridão. Esse é o problema do Brasil. Não é a maioria, mas os mais espertos dominam parte importante da maioria, e eles são partes do jogo brasileiro.

– Não tenho preocupação com pessoas nem com o falso moralismo. Tenho que contar com o que existe aí. É botar a mão na lama para fazer adobe (tijolo) e construir uma casa. É complicado.


Lula sabe exatamente o que Fernando Henrique quis dizer. Nos seus primeiros dois governos, Lula também teve que pôr a mão na lama para governar com “o que existe aí”. Deu no que deu no Lula 1: o escândalo do mensalão do PT; e no Lula 2, o Petrolão. Pagou muito caro por isso. Pegou 580 dias de prisão.

Fernando Henrique sempre contou com a proteção do establishment; Lula, com a sua hostilidade. Em 2022, uma pequena fração do establishment votou em Lula para livrar-se de Bolsonaro, o pior presidente da história, a quem apoiara em 2018 acreditando que assim poria o último prego no caixão da esquerda.

Lula voltou por um sopro de votos. A esperança do establishment é que o prego possa ser batido em definitivo daqui a dois anos, sem Bolsonaro, mas com um nome da direita que tenta em se apresentar como civilizada, essa mesma direita que, hoje, boicota todos os esforços do governo para tirar o país do buraco.

Em setembro de 1993, com a experiência de dois mandatos como deputado federal, Lula disse a respeito do Congresso:

– Há [ali] uma maioria de 300 picaretas que defendem apenas seus próprios interesses.

Cobrado a se explicar, disse mais tarde que defendia o poder Legislativo: “O resto é gente boa […] que vota por convicção ideológica e não por fisiologismo.” A menção aos picaretas virou letra de música da banda Paralamas do Sucesso:

– Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou/São 300 picaretas com anel de doutor.

É com 300 ou mais picaretas que Lula 3 é obrigado a negociar, com a diferença de que o Congresso naquela época era muito menos poderoso e não votava apenas em troca de dinheiro.
Ricardo Noblat

Onde está a democracia?

Tinha dito que iria propor tirar a palavra utopia do dicionário. Mas, enfim, não vou a tanto. Deixe ela lá estar, porque está quieta. O que eu queria dizer, é que há uma outra questão que tem de ser urgentemente revista. Tudo se discute neste mundo, menos uma única coisa: a democracia. Ela está aí, como se fosse uma espécie de santa no altar, de quem já não se espera milagres, mas que está aí como referência. E não se repara que a democracia em que vivemos é uma democracia seqüestrada, condicionada, amputada.

O poder do cidadão, o poder de cada um de nós, limita-se, na esfera política, a tirar um governo de que não se gosta e a pôr outro de que talvez venha a se gostar. Nada mais. Mas as grandes decisões são tomadas em uma outra grande esfera e todos sabemos qual é. As grandes organizações financeiras internacionais, os FMIs, a Organização Mundial do Comércio, os bancos mundiais. Nenhum desses organismos é democrático. E, portanto, como falar em democracia se aqueles que efetivamente governam o mundo não são eleitos democraticamente pelo povo? Quem é que escolhe os representantes dos países nessas organizações? Onde está então a democracia?

José Saramago

A alienação da humanidade

Chegamos ao fim do ano com más notícias sobre a crise climática. O Observatório Copernicus, da União Europeia, confirmou que 2024 foi o ano mais quente da história. Pela primeira vez, a temperatura média do mundo ultrapassará o limite climático de 1,5ºC, — desde que há registros —, acima da era pré-industrial, com uma anomalia positiva próxima de 1,6ºC, previsto apenas para 2025. Sem medidas urgentes para equacionar esse problema, com o corte drástico nas emissões de gases com efeito estufa, atingiremos um ponto de não retorno, ou seja, uma tragédia.

Há muito que o mundo sofre com a violência da crise climática. Embora nenhum país esteja imune às mudanças acarretadas pelo descuido com o meio ambiente, os mais atingidos, numa lista de 10 elaborada pela Norte Dame Global Adaptation Initiative, são as nações de mais baixa renda, nove delas no Continente Africano.

Sofremos secas na Amazônia e no Centro-Oeste brasileiro, incêndios no Pantanal, inundações catastróficas no Sul, ondas de calor, desmoronamentos e enchentes nas periferias das cidades. São milhares os desabrigados, aumentando o contingente de refugiados do clima. A recente devastação causada pelas chuvas no Rio Grande do Sul alerta, mais uma vez, lideranças políticas e governante, antes e depois, para providências capazes de conter esses desastres, o que é possível.


Os impactos climáticos são cada vez mais intensos e frequentes, devido aos aumentos voláteis de energia na atmosfera. Mas outras são as preocupações do Congresso do Brasil, onde uma maioria parlamentar permanece chantageando o Governo para a aprovação de emendas do seu interesse. É um vergonhoso toma lá dá cá. Ou o governo cede, ou não se votam projetos do interesse nacional, como é o caso do pacote fiscal.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) relata que as anomalias relacionadas às mudanças climáticas têm custado bilhões de dólares anualmente e vêm crescendo exponencialmente. Por enquanto, são danos calculados em moeda, mas, logo, surgirão as implicações nutricionais, ou seja, a comida pode rarear e não ser suficiente para alimentar populações em todo o mundo.

Nem os Oceanos, de onde retiramos parte da nossa alimentação, escapam das influências negativas do clima. Nos últimos 34 anos, metade dos corais e recifes em todo o mundo morreram, por causa do aumento da temperatura da água e da acidicação causada pela alta concentração de CO2 nos mares. A acidicação degrada a base da cadeia alimentar marinha, reduzindo em 50% a capacidade reprodutiva dos peixes no planeta. O aumento do nível dos mares indica que mais catástrofes se aproximam, representando risco para bilhões de habitantes das zonas costeiras.

É consenso entre os cientistas que estudam a trajetória climática que precisamos estar 2 graus abaixo das temperaturas que representam o aquecimento global. Será que vamos conseguir? Pouco provável. Ninguém quer pagar essa conta. Não se percebe na maioria dos países, onde se inclui o Brasil, esforços realísticos nessa direção. Lideranças de todo o mundo reúnem-se em congressos internacionais para deliberar sobre o assunto, mas as verbas que disponibilizam para evitar esses desastres são sempre inferiores ao necessário.

Agrava nossa preocupação o fato de Donald Trump, que assumirá a presidência dos Estados Unidos, desdenhar o problema negando sua existência. Trump estaria preparando-se para sair do Acordo de Paris. Ele já fez isso no mandato anterior. Os governadores de Califórnia, Nova York e Washington fundaram a Aliança Climática dos Estados Unidos (USCA), com a finalidade de manter os esforços para a redução de poluentes.

É óbvio que não sabemos ao certo como será o futuro, mas podemos enxergar as tendências. Infelizmente, as recentes inovações, investimentos e patentes indicam que a alienação da humanidade está crescendo e sendo canalizada para o consumismo e as engenharias financeiras.

Evidências anteriores a nós sugerem que iremos sofrer incontroláveis e perigosos níveis de alteração climática, que trará fome, destruição, migrações, doenças e guerras, como acontece atualmente. O tempo não está do nosso lado, já alertou o Secretário-geral da ONU, o português Antônio Guterres.

Financiadores do assassinato político

O agronegócio brasileiro é mesmo um grande sucesso – de marketing. Criou o slogan “o agro é pop” e fez todo mundo acreditar que ele é o motor da economia brasileira. Na verdade, ele corresponde a apenas 7% do PIB brasileiro e infla sua participação colocando na conta todos os insumos que usa, equipamentos etc.

O retorno para o país em termos de impostos é irrisório, já que seu mercado principal está no exterior e suas exportações são isentas de tributação. São os pequenos proprietários, da agricultura familiar, que produzem 70% do alimento que nós comemos.

Entre a mecanização, por um lado, e a superexploração da mão-de-obra, incluindo condições análogas à escravidão, por outro, gera bem poucos empregos decentes.


Na mídia, é de rigueur dizer que o agronegócio brasileiro é um grande parceiro da conservação ambiental, não importa que todas as evidências mostrem o contrário.

Na verdade, o sucesso do agro brasileiro começa com o estranho desaparecimento da palavra “latifúndio” do nosso vocabulário. Parece que o latifúndio acabou. Mas o fato é que 15.686 propriedades rurais, 0,3% do total, somam 25% das terras do país.

O dinheiro que economiza nos impostos o agro gasta financiando campanhas e comprando políticos. Sua bancada no Congresso é imbatível. A “Frente Parlamentar da Agropecuária”, isto é, a bancada ruralista, conta com quase dois terços dos deputados federais e mais de 60% dos senadores.

Como um pingo de gente na população pode ter tanta força parlamentar? A resposta é simples. Vou dar uma dica pra vocês: começa com “di” e termina com “nheiro”.

Daí a isenção tributária para a carne foi aprovada por 477 votos a favor e apenas três contra, apesar do óbvio impacto ambiental da medida. Daí o Brasil é campeão mundial de veneno na comida. Tem até um bizarro projeto que retira da Anvisa e passa para o Congresso a atribuição de liberar o uso de classes de agrotóxicos.

Enquanto isso, a Contag, que representa 15 milhões de trabalhadores rurais (pequenos proprietários e assalariados agrícolas), comemorou que em 2022 conseguiu eleger cinco deputados federais e um senador, com outros 11 parlamentares considerados aliados…

Essa disparidade na representação é uma das (muitas) evidências de que o capitalismo mutila a democracia.

Pois o “pessoal do agro” não está satisfeito, mesmo com todo o poder que tem. Eles querem resistência zero. Um governo que fala em direito do trabalhador ou que combate trabalho escravo já é ruim demais.

Bom é ditadura. Por isso, segundo consta, foi o “pessoal do agro” que mandou grana para o general Braga Netto pôr na rua o plano de matar Lula, Alckmin e Moraes.

A gente quer saber o nome desses financiadores do assassinato político. E o que vai acontecer com eles.

Prisão e expropriação de suas empresas é o mínimo.
Luis Felipe Miguel

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Crise do clima é efeito não previsto do capitalismo

Todas as sociedades humanas evitam inesperados. Suas rotinas fabricam hábitos e costumes que, inutilmente, pretendem controlar o imprevisto entre o cultural e o natural irredutível — a cabeça e o pé, o lado direito e o esquerdo, o negro da noite e a claridade do dia, o Sol e a Lua, as enchentes, os terremotos, as tempestades e, acima de tudo, o silêncio da morte e a paz enternecedora do esquecimento.

Não há sociedade sem ideias sobre nascer, morrer, sobre a injustiça e as causas dos acidentes e doenças que subvertem as classificações. Tudo o que vivemos como básico ou essencial — aquilo que elege os populistas — é alvo de um mitológico e religioso reconhecimento em toda coletividade humana. Todas têm protocolos para a sovinice, o poder e, principalmente, para os inesperados — para o que atravessa as classificações que ordenam o Universo. Para os eventos individuais ou coletivos, incidentais e inesperados, que ameaçam — como ensinaram Durkheim e Mauss — a ordem estabelecida, a estrutura.

Robert Merton publicou em 1936, na American Sociological Review, um artigo essencial sobre as consequências não previstas de atos sociais programados. Eu quero ficar rico e compro ações que perdem o valor. Depois de diagnosticar toda a população de Itaguaí como louca, o douto alienista descobre o óbvio. O maluco era ele, e sua doidice o faz libertar os habitantes e, numa inversão inesperada, interna-se no manicômio. A ignorância, a ambiguidade ou a inocência, como mostra a literatura, são uma dimensão intrigante da vida social. Ela compete e está ligada às “racionalidades”.

Tais surpreendentes desenganos são a matéria-prima de gente como Balzac, Borges, Maupassant e outros mestres dos inesperados, como Allan Poe, O. Henry, Lobato, Machado de Assis, Tchekhov e Jorge Amado, entre outros...

Uma das fontes do mal-estar do mundo atual resulta da imperiosa programação do capitalismo ocidental. Ela multiplicou oportunidades, criou confortos inimagináveis e acelerou um estilo de vida baseado no progressismo e na quantidade, mas o efeito inesperado desse programa afeta o clima e o equilíbrio do planeta. As mais brilhantes previsões geopolíticas são forçadas a realizar um tradicional “ouça, pare e olhe” para a dinâmica da Terra enquanto palco que reage a um drama incongruente.

A grande contradição não seria a que Marx anunciou — a classe trabalhadora explorada contra os malvados capitalistas encartolados —, mas o não previsto desgaste irracional de uma Terra explorada racionalmente. O imenso e incomensurável inesperado é a ameaça climática que invade nossas vidas como um palco que, surpreendentemente, se torna ator.

No ensaio “Raça e História”, Lévi-Strauss adverte:

— A exclusiva fatalidade, a única tara que pode afligir um grupo humano e impedi-lo de realizar plenamente sua natureza, é estar só.

Publicado em 1952, o ensaio não tinha como prever que o mundo trocaria um milenar e parcimonioso isolamento de línguas e culturas pelo avassalador progressismo movido a cobiça, decorrente das consequências não previstas de um modo de produção global, voltado para a quantidade.

A modéstia e a parcimônia de milênios de evolução deram lugar a uma enxurrada de mensagens expressivas da maldade, do desejo de confundir e da hipocrisia decorrentes do exagerado poder de comunicação que a Humanidade conquistou.

Ao lado das perversas fake news, temos a vergonha de descobrir que a hipocrisia, a maldade e o autoritarismo não são as marcas de um período histórico ou cultural. São parte constitutiva de nossa índole que os meios digitais ampliam. Operam seguindo as intenções dos seus donos — os Musks e os Trumps deste mundo —, mas, eis o inesperado, têm vida própria. E mostram que os tais “países desenvolvidos” à direta e à esquerda são, surpreendentemente, muito mais parecidos com o nosso “Brasil subdesenvolvido” do que imaginávamos.

Valha-nos Deus!

Elogio da dúvida

Vamos brindar – à dúvida!
E você, trate com simpatia e respeito
o homem que escuta o que você fala
como quem testa uma moeda suspeita.
Seja esperto. Não dê sua palavra
com tanta certeza assim.

Leia livros de história. Leia sobre
a fuga em pânico de tantos exércitos invencíveis.
Para onde quer que você olhe
há fortalezas inexpugnáveis desmoronando,
e mesmo que a Armada fosse incalculável
quando deixou o porto,
era sempre possível contar
quantos navios voltaram.

Sempre há um dia em que
um homem pousa o pé no pico inatingível,
e um navio chega ao limite
do infinito mar.

Como é belo ver cabeças que discordam
diante da indiscutível verdade!
Bravo! – para o médico que curou
o paciente desenganado.

Mas a mais bela das dúvidas
é quando os explorados e os ofendidos
erguem a cabeça,
e param de pensar que seu opressor
não pode ser derrotado.

Bertolt Brecht

General preso não faz democracia

Há uma parede na sede do Correio Braziliense onde estão as páginas mais criativas e expressivas já publicadas pelo jornal. Neste domingo, a primeira página com a palavra "Preso" acima da foto do general Braga Netto merece ir para esse panteão de manchetes. Em uma palavra, todo um discurso: "as instituições civis são capazes de prender um general quatro estrelas que conspirava contra a democracia". O discurso e a manchete seriam ainda mais fortes se tivessem colocado a foto do general fardado. Ao escolher a foto com traje civil, o Correio teve o cuidado de não expor as Forças Armadas. O mesmo cuidado os democratas devem ter ao comemorar o fato de um militar golpista estar preso, sabendo que um general preso não faz a democracia.


Para tanto, é preciso que a instituição militar, toda a tropa, e que a política, todos políticos, sejam comprometidos com a ética no comportamento e nas prioridades. A democracia tem razões para sentir otimismo com a prisão de um general golpista, mas deve entender que generais presos não fazem tropa democrática. É preciso promover nova mentalidade entre os militares; e que os políticos civis sejam comprometidos com a causa pública, sensíveis aos interesses da população e íntegros no exercício dos cargos. Sem isso, ameaçam a democracia apodrecendo-a por dentro.

Apesar do farto noticiário sobre o inusitado de um general golpista preso, nenhuma pesquisa apurou ainda qual a reação da tropa à prisão. Sabe-se que os comandos estão respeitando a decisão da justiça e o trabalho da polícia, mas não se sabe se a caserna está mais indignada com a postura dos golpistas querendo impedir a posse dos vitoriosos, e até com intenção de assassiná-los, ou se estão indignados com a incompetência para levar adiante o plano. O Ministério da Defesa não parece saber ou estaria escondendo se a tropa considera Braga Netto e sua turma como criminosos golpistas traidores da Constituição e da pátria ou se patriotas incompetentes para vencer uma batalha pelo futuro do país livre do que os militares consideram corruptos civis. Não há manifestação de repúdio da tropa aos golpistas, mas há descontentamento com a falta de respeito de Braga Netto aos colegas que ele teria chamado de covardes por serem legalistas.

Em quase meio século de democracia, nenhum dos presidentes enfrentou a questão militar no Brasil: adotar formação legalista, comportamento hierárquico e não apenas protocolar em relação ao poder civil eleito, consciência democrática, respeito às instituições. Nenhum presidente expôs aos militares de hoje o conhecimento pleno dos crimes nos 21 anos de ditadura, tortura, assassinatos, covas anônimas, censura; não tentou punir os culpados. Aceita-se a permanência de um sistema que põe as armas com poder moderador sobre as urnas, contra o que julgam incompetência, corrupção ou simplesmente ideias exóticas. Sobretudo, todos os oito presidentes civis se comportam assustados e temerosos diante do poder militar.

Os políticos democratas precisam entender que os golpes ocorrem mais pelo apodrecimento interno da democracia dos civis do que por reação golpista de militares. Lembrar que parte substancial da população apoiou o golpe em 1964 e que, em 2022, apenas um milhão de eleitores barrou o presidente golpista nas urnas. O eleitorado prefere a democracia, mas não está satisfeito com o Brasil construído nos últimos 40 anos: sente que diminuiu a penúria, mas a pobreza continua, a concentração de renda se mantém e a desigualdade se transformou em apartheid social; os privilégios e benefícios foram ampliados; a produtividade não aumentou; a economia não sai de uma renda média baixa; a corrupção se espalhou e ficou normal; a violência chegou ao nível de uma guerra civil; o número de analfabetos adultos não diminuiu; o número de crianças matriculadas aumentou, mas não cresceu a percentagem dos que concluem educação de base com qualidade; o presente pode até parecer melhor, mas os anos de democracia não estão acenando para um país eficiente, sem privilégios e sem corrupção, sem pobreza, com renda bem distribuída, com juventude esperançosa e motivada.

Feliz a democracia em que um juiz legalista tem poder para prender um general golpista, mas nenhum juiz empoderado ou general preso constrói a democracia; é preciso que os políticos civis sejam respeitados e usem o sistema democrático para abolir a corrupção no comportamento e nas prioridades, atendam aos sonhos da população, enfrentem a secular questão militar do Brasil, ao ponto que a ideia de golpe não faça mais parte do imaginário dos militares.

Ler pouco, crescer pouco

A redução da pobreza e da extrema pobreza no Brasil para os níveis mais baixos já aferidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) deveria instilar-nos algum otimismo, de que tanto carecemos nestes tempos. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, entre 2022 e 2023, 8,7 milhões de brasileiros deixaram a linha de pobreza, outros 3,1 milhões saíram da condição de miséria e a proporção da população considerada pobre diminuiu de 31,6% para 27,4%. O aquecimento do mercado de trabalho e o pagamento de benefícios sociais, como os vinculados ao Bolsa Família, são apontados como fatores decisivos para a melhora, o que mostra a importância desses programas.

Muito lentamente, as condições de vida estão melhorando para a população mais sacrificada nos tempos de dificuldades e nem sempre suficientemente recompensada nos períodos de prosperidade. Mas persiste um quadro social inquietante, dominado por um imenso contingente de pobres. Ainda há 59 milhões de brasileiros sobrevivendo com menos de R$ 22,17 por dia. Mais de um quarto da população é muito pobre.

As piores consequências da deformada distribuição de renda no País têm sido atenuadas por programas sociais e de serviços públicos, especialmente na saúde. Mais eficácia poderia ser alcançada com medidas no campo tributário, mas, por conhecidas dificuldades no seu relacionamento com um Congresso de nítido perfil conservador, o governo não mostrou disposição de avançar nesse rumo.


São, reconheça-se, caminhos alternativos. O central é óbvio: oferecer a todos as condições para progredir por meio de uma educação inclusiva e formadora de cidadãos aptos a desempenhar com competência e consciência seu papel econômico, social e político.


Não há motivos para animar os que se preocupam com o futuro. No campo da educação, parece que decidimos parar ou caminhar para trás. É entristecedor saber que o País, onde se lê pouco, perdeu 6,7 milhões de leitores em cinco anos. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (feita pelo Instituto Pró-Livro, Ipec e Itaú Cultural) constatou pela primeira vez que a maioria dos brasileiros não lê livros.

Falta de tempo, mais dedicação à internet, televisão e outros motivos foram apontados para a queda no número de leitores. Quaisquer que sejam as razões, é um fato preocupante. Baixo índice de leitura significa menor compreensão do mundo em que se vive, mais dificuldades no acesso a melhores postos de trabalho e nas demais atividades da vida em sociedade.

O problema é mais profundo. Mesmo quem lê entende mal o que lê, como aponta há tempos o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), estudo comparativo realizado a cada três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No último relatório, relativo a 2022 e divulgado no ano passado, o Brasil manteve os resultados alcançados em 2018 em matemática, leitura e ciências.

Com otimismo, pode-se dizer que o Brasil mostrou resistência na pandemia da covid19. Não piorou. Mas isso pouco significa. Em 16 países que fazem parte da OCDE, a média em 2018 foi de 487 pontos em proficiência em leitura; estudantes brasileiros de 15 anos registraram média de 413 pontos. Esses números mostram que os estudantes brasileiros não aprenderam a interpretar o que leem (quando leem, pois o índice de leitura está em queda, como vimos acima) e não estão habituados a ler outras obras além dos livros didáticos ou as exigidas pela escola.

É claro que os resultados variam de acordo com a situação econômica e social das famílias. Desigualdades sociais estão por trás de resultados desiguais alcançados por estudantes pertencentes a famíforum@estadao.com lias de diferentes situações econômicas. Uma pesquisa do Insper sobre a democratização da educação profissional e tecnológica constatou que estudantes de nível econômico e social mais baixo têm menor acesso a esse tipo de ensino. E esse grupo social é justamente o que mais poderia se beneficiar com o acesso à educação profissional e tecnológica.

Critérios para a ação do Ministério da Educação anunciados pelo ministro Camilo Santana apontam o caminho correto, com prioridade para alfabetização na idade certa, educação em tempo integral, permanência do jovem na escola e melhoria na formação inicial e continuada dos professores.

Talvez devêssemos concentrar atenção no último item. Causa desassossego ter de concordar com o editorial Professores que não sabem ensinar publicado pelo Estadão (13/12). Não se trata de inculpar o professor, mas de defendê-lo. Ele é vítima de um círculo vicioso, formado por salários inadequados, falta de reconhecimento social de seu papel vital na formação das pessoas, desrespeito nos locais de trabalho, desestímulo ao bom preparo didático e ao aperfeiçoamento, baixa qualidade do ensino, alunos mal preparados e baixos salários. Esse círculo precisa ser rompido, e com urgência.

Jorge J. Okubaro

Às vésperas de completar 40 anos, a democracia inspira cuidados

Deve-se louvar o golpista ou o indiferente ao Estado de Direito que sinceramente converteu-se à democracia. O Estado de Direito é aquele que assegura que nenhum indivíduo está “acima da lei”.

Mas ao golpista ou ao indiferente ao Estado de Direito, não basta converter-se. Ao golpista, para que sua conversão seja reconhecida como verdadeira, há que se cobrar explicações.

Pelo menos duas: por que antes foi golpista? E o que o fez mudar de posição? Há também que se cobrar um pedido público de desculpas se suas ações pretéritas causaram danos ao país.

A mesma receita deveria ser aplicada às instituições. Quantos Papas já não pediram desculpas e autorizaram o pagamento de indenizações a fiéis abusados sexualmente por sacerdotes?

Não se pode dizer da Igreja Católica que ela, em algum momento, tenha estimulado o abuso. Mas pode-se dizer, sim, que ela por séculos tolerou o abuso que provocou tanto mal aos seus servos.

O Estado alemão, até hoje, se penitencia pelo mal que o nazismo infligiu à Humanidade, especialmente aos 6 milhões de judeus, ciganos e outras minorias mortos em câmaras de gás.

O ministro José Múcio Monteiro, da Defesa, prega que é preciso diferenciar o CPF do CNPJ das Forças Armadas quando se discute o comportamento dos militares em relação a golpes.

CPF é o Cadastro de Pessoa Física, CNPJ, o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica. O que José Múcio quer dizer: as Forças Armadas não são golpistas; mas há militares que são ou que foram.

É uma sacada engenhosa do ministro para preservar a imagem da instituição, as Forças Armadas, mas se lida à luz da história, não corresponde à realidade; é apenas uma sacada oportuna.

Só pelo prazer de argumentar: dou de barato que CPFs tramaram o golpe de dezembro de 2022 para impedir a posse de Lula, e o de janeiro de 2023 para interromper seu governo mal iniciado.

Mas não foram CPFs que acolheram em diversas partes do país os golpistas acampados à porta de quarteis; ali, área de segurança nacional, sem o endosso do CNPJ, ninguém acampa.

Sem endosso do CNPJ, CPF não movimenta tropas e armamento pesado para retardar a prisão de golpistas como aconteceu na noite do 8 de janeiro, nem sugere uma operação para restaurar a ordem.

Foi um golpe militar que derrubou a monarquia e proclamou a República entre nós. Foi um golpe militar que levou Getúlio Vargas ao poder em 1930 e que o retirou de lá em 1945.

Getúlio voltou em 1950, desta vez pelo povo popular, matando-se com um tiro no peito quatro anos depois para não ser derrubado por outro golpe. Sua morte postergou em 10 anos a ditadura de 64.

A anistia de 1976, dita ampla, geral e irrestrita, perdoou os crimes dos militares que torturaram e mataram adversários do regime; esses, pagaram seus crimes com o próprio sangue.

Uma anistia de araque, portanto, que serviu mais a um lado do que ao outro; uma anistia que dispensou as Forças Armadas de ao menos pedirem desculpa e de revisarem sua formação.

Às vésperas de completar 40 anos, a democracia brasileira ainda coxeia, sente-se ameaçada e inspira cuidados.
Ricardo Noblat

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Os pilares do seu corpo

Imagine-se morando com pessoas queridas num prédio com nove pilares. Se um fica comprometido você se preocupa, mas espera que os engenheiros tenham feito os cálculos com boa margem de segurança. Em seguida vem a notícia, derivada de estudos confiáveis e testados, de que não é um, são seis ou sete os pilares comprometidos (areia inadequada na construção, ferragem enferrujada, vazamentos de água e líquidos tóxicos…).

Qual sua reação? Foge do prédio? Para onde, se você não tem outro pouso? Fica quieto? Banca avestruz e diz que os especialistas estão errados? Ou age em defesa dos interesses seus e dos seus filhos/as e netos/as? Como agir, dado o enorme diferencial entre o seu poder e o daqueles que minimizam ou postergam o enfrentamento das causas do problema? E fazem-no por se saberem culpados, em razão de suas ações passadas e presentes, e por estarem cientes de que, por justiça, deveriam arcar com os custos da correção dos danos! E se os poderosos culpados não agem e você não tem outro pouso, fazer o quê?

Agir implica riscos e não agir resulta, mais dia menos dia, no desabamento do prédio, pois o processo de degradação dos pilares continua.

Podemos substituir a imagem dos pilares do prédio pelos do corpo de uma filha sua, ou seja, seus sistemas vitais. Imagine que as ações de certas pessoas já comprometeram, com maior ou menor severidade, o sistema circulatório dela, o muscular, o digestório, o endócrino e o urinário… Restam poucas chances de uma boa vida futura para sua querida filha, não? E você faz o quê com os responsáveis pelo comprometimento dos sistemas vitais dela? Como disse Gonzaguinha: “Você deve estampar um ar de alegria e dizer tudo tem melhorado”???!!!



Digamos que sua filha se chama Gaia, nome da deusa grega tida como a mãe-terra. Assim como sua filha, a outra Gaia, este único planeta habitável, tem sistemas vitais (atmosfera, hidrosfera, criosfera, geosfera e a biosfera) comprometidos. Todos eles, com maior ou menor severidade, degradados pela insensata marcha da civilização industrial, cuja dinâmica, em seus cerca de três séculos, conseguiu danificar os sistemas vitais do planeta, alguns além da capacidade de regeneração e, parece, prestes a explodirem. Mas essa mesma (dita) civilização não foi capaz de dar à 80% dos humanos vida digna; essa parcela de humanos “não vive, apena aguenta”!

Para salvarmos nossas filhas e netas temos que buscar maneiras de substituir os processos de degradação por outros, de recuperação; os mecanismos de competição pelos de cooperação; o foco na acumulação pela prioridade à distribuição; a busca do (indefinido) “desenvolvimento” pela qualidade de vida, já; o poder das armas pela força das ideias, da cultura e da solidariedade. Tudo o mais é promessa de políticos e seus aliados para se darem bem, cegos à violência contra as Gaias, sua filha e o planeta.

Embora possam parecer, as regras que regem a dinâmica das sociedades humanas não são eternas; algumas duram séculos, outras apenas décadas. Mudar a dinâmica atual na direção indicada acima é, pois, possível, essencial e urgente!

Pensar o país

Pensar o meu país. De repente toda a gente se pôs a um canto a meditar o país. Nunca o tínhamos pensado, pensáramos apenas os que o governavam sem pensar. E de súbito foi isto. Mas para se chegar ao país tem de se atravessar o espesso nevoeiro da mediocralhada que o infestou. Será que a democracia exige a mediocridade? Mas os povos civilizados dizem que não. Nós é que temos um estilo de ser medíocres. Não é questão de se ser ignorante, incompetente e tudo o mais que se pode acrescentar ao estado em bruto. Não é questão de se ser estúpido. Temos saber, temos inteligência. A questão é só a do equilíbrio e harmonia, a questão é a do bom senso. Há um modo profundo de se ser que fica vivo por baixo de todas as cataplasmas de verniz que se lhe aplicarem. Há um modo de se ser grosseiro, sem ao menos se ter o rasgo de assumir a grosseria. E o resultado é o ridículo, a fífia, a «fuga do pé para o chinelo». O Espanhol é um «bárbaro», mas assume a barbaridade. Nós somos uns campónios com a obsessão de parecermos civilizados. O Francês é um ser artificioso, mas que vive dentro do artifício. O Alemão é uma broca ou um parafuso, mas que tem o feitio de uma broca ou de um parafuso. O Italiano é um histérico, mas que se investe da sua condição no parlapatar barato, na gritaria. O Inglês é um sujeito grave de coco, mas que assume a gravidade e o ridículo que vier nela. Nós somos sobretudo ridículos porque o não queremos parecer. A politiqueirada portuguesa é uma gentalha execranda, parlapatona, intriguista, charlatã, exibicionista, fanfarrona, de um empertigamento patarreco — e tocante de candura. Deus. É pois isto a democracia?
Vergílio Ferreira, "Conta-Corrente 2"

Um buraco à espreita da América

Kurt Gödel, de origem austro-húngara, foi um dos maiores matemáticos do mundo moderno. Demonstrou a incompletude dos sistemas axiomáticos, inclusive da própria matemática, que comportaria falhas. De sua atribulada história pessoal consta o episódio conhecido como "buraco de Gödel": na solenidade de sua naturalização americana, ele quis apontar um buraco lógico na Constituição dos EUA que abriria caminho para uma ditadura. Foi contido pelo padrinho Einstein e pelo juiz, que o teria mandado calar-se. Nunca mais voltou ao assunto, jamais se soube onde estaria o furo.


A realidade é que essa Carta resulta de um país fundado por intelectuais como Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Alexander Hamilton, John Adams e outros citados como "founding fathers". Segunda proclamada no mundo, em 1787, é também a menor existente, com cinco capítulos e 27 emendas. Uma simplicidade aparente, pois é a mais difícil de acolher emendas, o que explicaria a persistência de vieses antidemocráticos. Feita em nome da liberdade, passou ao largo da abolição da escravatura. Seu principal cuidado é o equilíbrio entre o poder central e o dos estados, cerceando eventuais inclinações autocráticas por um sistema de contrapesos,

Uma coisa é o formalismo de um sistema, outra a sua inserção numa forma de vida. No fluxo vital é que as palavras ganham pleno sentido e aparece a diversidade radical dos indivíduos em meio à sua aparente semelhança. Isso era significativo quando a união constitucional não destoava dos discursos civis nem de como a mídia figurava a cidadania americana.

Tudo começou a mudar desde os anos 60 com a crescente percepção de ameaça identitária por parte de grupos sociais. Após forte onda imigratória e profundo rearranjo partidário, os republicanos consolidaram-se como bunker paranoico dos cristãos brancos, da supremacia racial e da reação aos costumes. A intensidade das mudanças, inclusive as demográficas, contribui para a percepção de fenecimento do mito da "verdadeira América".

Trump é fruto maduro dessa transformação. Em qualidades humanas, um fruto podre, ou "brain rot", a expressão do ano. Posto na balança, é uma derivação de presidentes como Reagan, Nixon, Bush, só que com aberrações pessoais expostas. No governo, não assassinou com drones tanta gente como o liberal e simpático Obama.

Nenhum desses brucutus parece ter sequer sonhado em violar a Constituição apregoada pela razão liberal como a mais sólida do mundo. Mas a razão também sonha, diz Goya, e assim "produz monstros". O pesadelo de uma brecha racional para a monstruosidade da ditadura poderia ser o "buraco de Gödel".

Talvez não se precise de furo lógico. Um buraco real já pode estar aberto na civilidade que sustenta a Constituição. A Suprema Corte parece feita de supremos cortesões. E Trump, disposto a testar a resiliência do sistema, aparelha o seu secretariado com o top de linha do sórdido em termos civis e gerenciais. "O horror, o horror", exclama o coronel Kurtz em "Coração das Trevas" e "Apocalypse Now". E trevas justificam a Lei de Murphy: o que é ruim tende a piorar.

Filho golpista não tem pai

Filho feio não tem pai. As Forças Armadas hoje procuram afastar os laços com Braga Netto, considerando-o traidor da farda e, ao lado de Bolsonaro, arquiteto do golpe de 2022. Nem sempre foi assim.

Em 2018, quando a popularidade da caserna atingia o auge, os políticos tradicionais eram demonizados e Bolsonaro já ocupava o segundo lugar nas pesquisas eleitorais para presidente, Braga Netto foi escolhido para chefiar a intervenção federal no Rio. A operação foi um desastre digno do governo Temer, não mudou o quadro de insegurança, deixou um rastro de casos de corrupção e os milicianos aproveitaram para matar Marielle. Mas o caminho para a entrada dos generais no poder estava aberto.

Quatro estrelas no ombro, Braga Netto era um deles. Construiu a imagem de discreto, o perfil técnico que iria moderar os arroubos do capitão. Dizia-se nos bastidores que detestava política. Como ministro da Casa Civil, decidiu sobre a compra ou não de vacinas, abafou a crise de oxigênio em Manaus, aprovou a importação e a fabricação de cloroquina. Em 2020, durante a pandemia, chegou a receber quase R$ 1 milhão de salário. Deve ter sido aí que passou a gostar de política.

Candidato a vice-presidente derrotado na chapa de Bolsonaro, partiu para o terror, combinando em sua própria casa a eliminação de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes. É difícil imaginar que Braga Netto tenha pensado em tudo sozinho. Outras cabeças estão livres. Por enquanto.

Braga Netto usou à vontade a estrutura do PL para montar um QG do golpe e ainda deixou documentos impressos como prova. Ao conspirar contra a democracia na sede da sigla, fica evidente que o filho feio não pertence apenas ao Exército. Valdemar Costa Neto assumiu a criança com orgulho. O partido só desistiu de lançar a candidatura do general a prefeito do Rio quando ele se tornou inelegível. Alexandre Ramagem, não à toa também indiciado pela Polícia Federal na trama golpista, era o plano B.

Mauro Cid disse que Braga Netto recebeu dinheiro do "pessoal do agronegócio", repassando-o em sacolas de vinho aos kids pretos. Nunca se viu um rebento com tantos progenitores.
Alvaro Costa e Silva

A lealdade do general Braga Netto a Bolsonaro não é retribuída

Uma vez que a política é como uma nuvem que muda de forma a cada momento, não cobre acertos em demasia a quem é obrigado a observá-la e a escrever a respeito. O “Repórter Esso”, o primeiro noticiário de radiojornalismo do Brasil, se dizia “testemunha ocular da história” entre os anos 1940 e final dos anos 1960.

Mas isso era força de expressão acima de tudo. “Testemunha ocular” é quem presencia diretamente um fato ou evento, podendo relatar em detalhes o que viu, ouviu ou percebeu. Raramente, e não só aqui, assistimos de fato o que acontece. Ouvimos muito sobre o que aconteceu depois do acontecido, e aí registramos.


Feita a ressalva… Em off, sempre em off, parte dos que se oferecem como porta-vozes informais do meio militar diz que por ali reina paz apesar da prisão de um general de quatro estrelas, da detenção de oito altos oficiais e do indiciamento de outros 25 por suspeita de terem tramado a derrubada do Estado Democrático de Direito.

Outra parte dos porta-vozes informais do meio militar, contudo, em off, sempre em off, diz que não é bem assim. Reina muito nervosismo entre militares da ativa e da caserna, e tanto mais porque espera-se, em breve, o indiciamento de novos oficiais de alta patente, inclusive generais, implicados no golpe que fracassou.

O atual comando do Exército e da Aeronáutica é legalista; o da Marinha, há poucas semanas, revelou-se menos ao postar em suas redes um vídeo que exaltava a vida dura dos militares em contraste com a aparente boa vida dos paisanos. Lula ficou furioso e cobrou explicações. Aguarda um pedido de desculpas do comandante.

Quem também aguarda é José Múcio Monteiro, ministro da Defesa, conhecido entre os colegas como “ministro-do-deixa disso”. Múcio foi pego de surpresa pelo vídeo. Desde que tomou posse, Lula já almoçou ou jantou com os comandantes quatro vezes – uma única, na casa de um deles, justamente o da Marinha.

Presidente da República não pede desculpas. Se não quiser ser substituído, então que o comandante da Marinha peça desculpas. Não é humilhação admitir que errou. Múcio já substituiu um comandante do Exército antes que Lula exigisse sua demissão. Lula sabe ser bonzinho quando quer, ou mau como um pica-pau.

Bolsonaro é useiro e vezeiro em abandonar quem lhe fez companhia e acabou mais tarde caindo em desgraça. Deu sinais de que continuará se comportando assim ao saber da prisão de Braga Netto, seu ex-ministro da Casa Civil e da Defesa, e candidato a vice-presidente em sua chapa nas eleições de 2022.

Levou 12 horas para dizer algo. E quando disse, não foi para defender o general, mas para reclamar da Polícia Federal que o teria indiciado depois do encerramento do inquérito. Braga Netto notou a diferença. Se condenado, os crimes que lhe são atribuídos poderão render uma pena de prisão superior a 30 anos.

Um trecho da nota de defesa do general dá uma pista de como ele poderá reagir ao abandono anunciado por Bolsonaro. Eis o trecho:

– Durante o governo passado, [o general] foi um dos poucos, entre civis e militares, que manteve lealdade ao presidente Bolsonaro até o final do governo, em dezembro de 2022, e a mantém até os dias atuais, por crença nos mesmos valores e princípios inegociáveis.

Que valores e princípios inegociáveis são esses? A lealdade é um dos valores mais cultuados pelos militares. A obediência é outro valor. Soldado algum obedece à ordem de ir à guerra e arrisca-se a morrer se seu superior não for leal a ele, e vice-versa. Não se abandonam feridos e mortos em campos de batalha.

Como tudo isso acabará um dia? Não faço ideia. Torço para que acabe bem, com a punição dos culpados e o fortalecimento da democracia. Mas aprendi há muito tempo que não posso confundir o que desejo que aconteça com o que irá acontecer. Daí porque sigo observando a nuvem com meu olho já cansado.