segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Lula e eu estamos na idade da queda

Lula caiu no banheiro, cortou a cabeça e, em algumas horas, já estava apto para as tarefas cotidianas. Ele pratica musculação, caminha com regularidade, e sua dieta deve ser orientada por nutricionista. Nem todos os idosos, no entanto, têm a mesma sorte quando sofrem um acidente doméstico.

Estou lendo um belo livro da escritora portuguesa Lídia Jorge. Chama-se “Misericórdia” e se passa dentro de uma casa de repouso, chamada Hotel Paraíso. São precisamente 70 internos. Quando morre um, há nova admissão.

A narradora, que usa cadeira de rodas, ficou chocada quando uma recém-admitida descreveu sua queda. Era idêntica à que sofrera:

— Era demasiado semelhante ao que havia me acontecido três anos atrás, quando caí junto da porta de entrada e lá estive várias horas deitada de bruços, e o vizinho da Villa Sol me foi levantar do chão.

Havia sido como se os pulsos feridos tivessem aberto a decadência:

— Duas portas por onde a derrocada se infiltrava sem regresso.


O que é descrito no romance de Lídia Jorge costuma acontecer na realidade. Muitas vezes, a queda, dependendo da gravidade, pode ser o ponto de partida para uma decadência irreversível.

No meu tempo de redação, designaria um repórter para pesquisar a queda em idosos e aproveitaria a história do presidente para tornar o tema um pouco mais popular. Mas por que não fazer eu mesmo o trabalho? Lembro-me de que há uns dez anos sofri uma queda no banheiro de um hotel em Porto Velho. Não reparei no degrau e caí de costas. Senti dores incríveis por muitas noites e trabalhei no sacrifício, a câmera parecia uma peça de chumbo.

Os idosos muitas vezes têm problemas de equilíbrio, déficit de visão. Nesse caso, a casa torna-se uma perigosa armadilha. Precisa ser revista em todos os cômodos: tapetes enrolados, cadeiras sem braço, móveis ameaçadores. O banheiro, então, é um espaço escorregadio, e é preciso instalar barras para que se apoiem.

Segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), 40% das pessoas com mais de 80 anos sofrem quedas. A situação é um pouco melhor entre os de 70 anos, mas não muito: 32% sofrem quedas.

Quando se olham os números mais amplos do SUS, observa-se que o custo de internação de idosos por queda é bastante alto. Pouco mais de 1,5 milhão de casos no país custaram quase R$ 2,5 bilhões ao sistema.

É um problema mundial, como mostra o próprio relatório da OMS. É preciso atacar os fatores ambientais, como os que mencionei, a casa como uma espécie de armadilha, mas também os fatores comportamentais, como exercícios leves, boa nutrição e sono, além da supressão de tabaco e álcool.

A queda é considerada a terceira causa de morte entre os idosos. No Brasil, o número de óbitos praticamente dobrou entre 2013 e 2022. Eram 4.816, passaram para 9.592. Esse aumento acontece porque a população está envelhecendo, mas também porque a subnotificação caiu. Os fatores que determinam as quedas são os mesmos: perda da massa muscular, problemas de equilíbrio, visão precária. É preciso acrescentar que não há grande debate sobre políticas públicas que atenuem o problema.

A queda do presidente, pelo menos, ensejou uma crônica, mas quem sabe o Ministério da Saúde não aproveita a oportunidade para fazer uma campanha?

Na ausência de políticas públicas, a própria família precisa ampliar sua atenção. Quando as condições físicas decaem com as cognitivas, a situação torna-se mais delicada. Não só caímos da nossa própria altura, como podemos cair da cama. Poucos se dão conta das inúmeras possibilidades de queda, embora saibamos que, para cair, basta estar de pé.

Talvez o Brasil subestime esses temas porque sempre se considerou um país de jovens e não percebeu que a realidade já não permite mais essa ilusão.

A guerra


A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.
A guerra, como todo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.
Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.
Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.
A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.
A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.
Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

O grau menos zero da política

People Have the Power, cantava Patti Smith em 1988, altura em que não havia dúvida quanto a quem eram as pessoas e, sobretudo, a que se referia quando falava de poder.

Hoje começamos a ter fundadas dúvidas em relação a este “povo” e à sua capacidade de, no meio de tantas ações de marketing, informação, desinformação, Inteligência Artificial e outras manobras cibernéticas, ser quem mais ordena.

Quando Ray Bradbury escreveu Fahrenheit 451, mal sabia quão perto estava da realidade, ao falar da Tirania da Minoria.

A sua distopia parecia ser algo longínquo, quase improvável e no entanto assistimos nos últimos tempos a uma verdadeira manipulação das massas por minorias com agendas próprias, subordinadas a interesses económicos globais, ou, como no caso português mais à nossa escala, interesses meramente individuais ou corporativos quanto baste.


Assumir que é possível manipular eleições através das redes sociais, da contra informação ou até da IA, deveria deixar-nos aterrorizados porquanto o que pensávamos ser um objectivo alcançado – uma pessoa , um voto, uma vontade – é a utopia vigente.

Deveria obrigar-nos a repensar o modelo e o modo de nos organizarmos enquanto sociedade. Mas a realidade é que vivemos um tempo sem lideres!

Um tempo em que o poder acaba nas mãos de senhores da guerra, grupos económicos, religiosos que nada têm a ver com política, na verdadeira acessão do termo, na fórmula que Aristóteles enunciou.

Talvez tenhamos já remetido a noção de “política” e de “ políticos” para o reduto dos mitos, onde unicórnios não são mais cavalos alados mas grandes e novas empresas surgidas em tempo record.

Talvez sejamos apenas meia dúzia de velhos do Restelo a chamar a atenção para que a República vai completamente nua e nem o cabelo lhe tapa as “ vergonhas”. Antes as exibe como troféu.

Talvez…

Mas onde iremos parar com um Mundo sem estadistas, sem projectos humanistas e colectivos? Onde iremos parar quando se recrutam dirigentes ao mais alto nível nas fileiras das mocidades partidárias, transvestidas de agências de emprego garantido? Onde iremos parar sem vozes com peso, com um passado, com visão de futuro abrangente?

Temo bem que, no caso português e com a nossa tendência ancestral de importar as modas “ lá de fora” acabemos como os EUA.

A duas semanas das eleições mais importantes para o chamado Mundo Livre (?) e quando pensamos que já vimos tudo, eis que alguém tem a ideia fantástica de comprar, sem pejo ou subterfugio, o voto do eleitor comum.

Numa Roda da Sorte eleitoral, sorteia-se um milhão de dólares. É esse om preço da cidadania, da consciência política, do voto que custou sangue e lágrimas para se tornar universal. Um milhão de dólares é muito dinheiro! E se cada homem tem um preço, caso a moda pegue , por cá, e com a crise económica que vivemos desde os tempos de D. Afonso Henriques, a coisa é capaz de se fazer por cem mil euros e alguns trocos.

Está claro que dentro da cabinete de voto a decisão é de cada um e não é possível controlar se de facto o milhão foi ou não bem empegue.

Bem não é possível para já, pois há até quem, a um outro nível, considere legitimo o voto por e-mail e o voto electrónico, muito embora evite a grande abstenção, pode ser perigoso caso não seja firmemente controlado!

Acho sempre imensa graça aos nossos políticos quando afirmam publicamente que em política não vale tudo. Por norma são declarações feitas após tudo ter valido num jogo político qualquer.

Mas mesmo assim e como sempre, os EUA batem-nos aos pontos e colocam a Europa e o Mundo numa jogada praticamente de xeque mate internacional.

Não morro de amores pela Kamala e não considero que o mérito seja uma questão de género ou etnia. Mas entre dois males o menor, pois que Trump será, não tenho qualquer dúvida, o carrasco que decapitará uma Europa sem liderança, sem estadistas, sem rumo.

Com Trump não tenho qualquer dúvida que a guerra entre a Ucrânia e a Rússia acabará em 24 horas com a capitulação da primeira e a vitória e o alargamento territorial da segunda.

Como também não me surpreende que no Médio Oriente o conflito termine rapidamente e em força com Israel a ocupar toda a zona e a deixar uma faixa de no man’s land de forma a criar um perímetro de segurança.

Quanto à Europa que não se soube construir como alternativa e modelo de intervenção internacional, será cada vez mais irrelevante, como é já a outro nível a Organização das Nações Unidas.

O grau zero da política é aquilo a que um grande amigo meu, muito jovem, dizia há dias desgostoso e desiludido com tudo isto: Arrasar tudo e pôr galinhas.

Se calhar têm mais cérebro que alguns de nós que continuamos a picar o chão em busca duma minhoca gorda.

Por que ser máquina?

Resumos de resumos, resumos de resumos de resumos. Política? Uma coluna, duas frases, uma manchete! Depois, no ar, tudo se dissolve! A mente humana entra em turbilhão sob as mãos dos editores, exploradores, locutores de rádio, tão depressa que a centrífuga joga fora todo pensamento desnecessário, desperdiçador de tempo!

A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?

Ray Bradbury, "Fahrenheit 451"

A capa é verde, mesmo que digam que é vermelha

Uma professora de Filosofia está em frente a um anfiteatro cheio de universitários. Quando lhes mostra uma capa de cartolina e lhes pergunta de que cor é, todos respondem que é verde. A professora pede, então, aos alunos que, caso alguém chegue atrasado àquela aula e ela volte a perguntar a cor da capa, respondam que é vermelha. Pouco depois, entra um retardatário. A professora pergunta a vários alunos, um por um, de que cor é a capa. “Vermelha”, repetem, um após outro, perante o olhar incrédulo do estudante que chegou atrasado e se vai virando para trás, confuso com as respostas. Porém, quando chega a sua vez de responder, nem hesita: “É vermelha”, diz.

Na cena da série catalã Merlí, a professora usa a resposta para demonstrar a que ponto somos suscetíveis à pressão que exercem sobre nós as opiniões dos outros, “mesmo no que se refere à perceção física”. E explica como Nietzsche divide o mundo entre os que seguem os seus próprios desejos, impossíveis de dominar, e os que seguem os outros, fracos e sujeitos às vontades dos que os rodeiam.


“Não se preocupe. Este é o pão nosso de cada dia”, diz a mulher com um ar condescendente ao estudante embaraçado. “Somos muito submissos e acabamos por aceitar as ideias da maioria. Até na Alemanha, as pessoas foram capazes de acreditar no que repetia a propaganda nazi. Já dizia Kant, com toda a sua amargura, que o ser o humano é o único animal que precisa de um amo para viver”.

Na série, o aluno justifica-se, dizendo que a pergunta lhe pareceu um jogo e que se wlimitou a replicar a resposta que lhe parecia certa, tendo em conta o que tinham dito os outros. Na verdade, o maior perigo não está em quem repete, sem convicção, o que diz a maioria, embora esse seja um problema cada vez maior. O risco que enfrentamos está na forma como há cada vez mais pessoas capazes de acreditar convictamente que a capa de cartolina verde é vermelha.

O viés cognitivo é descrito como um erro de pensamento. Uma falha que ocorre quando o nosso cérebro segue um atalho, respondendo a um padrão conhecido. Vemos não o que lá está, mas o que nos parece provável que esteja, tendo em conta as nossas experiências passadas e crenças.

A forma como vemos o mundo é, em grande medida, construída a partir de vivências, mas também da valorização que fazemos dos relatos que ouvimos. Quem nos conta a história é uma parte importante de como a vamos ouvir. A autoridade que atribuímos às fontes tem também muito que ver com a forma como essas fontes validam ou não as nossas próprias conceções. E é aí que entra aquele que tem sido o maior catalisador da polarização das nossas sociedades: o insondável algoritmo.

O algoritmo traz até nós ideias com as quais acredita que vamos ter afinidade. Mas, como se move também pela capacidade de gerar reações, essas ideias são quase sempre envoltas num manto de emotividade capaz de acionar o grande motor de reação que é a indignação. E o problema é que a indignação é uma droga dura. Obriga a doses cada vez mais elevadas para gerar o mesmo efeito.

O resultado são grupos de pessoas unidas por emoções descontroladas, juntas em crenças que se vão reforçando mutuamente. Incapazes de pôr em causa a forma como pensam. Muitas vezes sem sequer ter acesso a ideias que ponham em causa a forma como pensam.

Como jornalista lido muitas vezes com isto. As pessoas assumem uma determinada versão. E eu insisto, uma e outra vez, acumulando dados, citando fontes, acrescentando descrições e imagens. É exasperantemente rara a vez em que alguém muda de opinião depois de confrontado com uma notícia escrita segundo as regras de contraditório e verificação, com fontes identificadas e elementos que a sustentam. No máximo, consigo um sorriso com reticências, que deixa no ar a dúvida e não é um sinal de adesão. E isto, claro, quando se consegue convencer um leitor a ir para lá do título, que essa é já em si uma vitória para quem escreve.

O meu trabalho é escrever que a capa de cartolina é verde. Não porque eu digo que é verde, mas porque o método jornalístico que sigo permite concluir que é verde. Não sei quantas pessoas acreditam ainda na importância de ter um jornalista a escrever que a capa de cartolina é verde. Não sei quantas estarão disponíveis para aceitar que é verde depois de ter sido induzidas a acreditar que era vermelha. Mas foi para isto que escolhi esta profissão.

Foram muitas as vezes em que escrevi que a capa de cartolina era verde e isso ajudou a aumentar o número de pessoas que a viam dessa cor. Noutras, falhei. Mas não vou desistir. A capa de cartolina é verde.

Tarcísio de Freitas, um governador inocente e sem malícia

Foi assim em 1989, na véspera do dia da primeira eleição direta para presidente em segundo turno (Collor x Lula) depois do fim da ditadura militar de 64: a polícia paulista informou que os sequestradores do empresário Abílio Diniz, recém-libertado, eram ligados ao PT, e que camisetas e cartazes do partido haviam sido encontrados no local onde Diniz esteve preso.

A notícia espalhou-se pelo país por meio de jornais e de emissoras de rádio. O ministro da Justiça desmentiu-a. Mas quanto a mentira custou a Lula em número de votos, não se sabe, nunca se soube. Como nunca se saberá quantos votos poderá ter perdido Guilherme Boulos (PSOL) com a notícia de que setores do crime organizado recomendaram o voto nele para prefeito de São Paulo.

O portador da notícia foi o governador Tarcísio de Freitas, bolsonarista de quatro costados que posa de direita civilizada. Segundo a Folha de São Paulo, ele não apresentou provas do que disse. Mas nem a Folha, nem outros veículos de comunicação, se negaram a publicá-la. A licença para ferir ou matar agora é assim: você escreve “sem apresentar provas”, e passa a notícia adiante.


Aconteceu em 2018 com o kit-gay que beneficiou Bolsonaro na reta final do segundo turno contra Fernando Haddad (PT). Não lembro de termos nos referido a ele como “suposto kit-gay”. Antes de publicar, cabe à imprensa, supostamente séria, investigar uma suposta mentira ou uma eventual verdade. O kit-gay foi uma mentira como tantas outras publicadas à época.

Deu-se crédito a supostos comunicados de facções criminosas só porque um governador de Estado os divulgou. Os ditos comunicados foram apreendidos em setembro. A justiça de São Paulo não foi informada a respeito, nem a Polícia Federal. Mas indagado sobre a existência dos comunicados sem assinatura, cuja autoria sua polícia sequer investigou, Tarcísio falou sobre eles.

O que pretendeu com isso? Favorecer seu candidato a prefeito de São Paulo e prejudicar Boulos? Ricardo Nunes (MDB), candidato à reeleição, não precisava de tal ajuda. Estava a poucas horas de ser reeleito, e Tarcísio sabia. Diante da má repercussão do seu gesto, Tarcísio disse que lhe faltou “malícia”, “experiência” e desculpou-se. Tadinho dele. Aprendendo com as lições que a vida lhe oferece.

O que fará a justiça? Nada, ora. Quanto aos habituais cúmplices de mentiras que caracterizam abuso de poder entre outros crimes, esses dirão, como já começaram a dizer desde ontem para salvar a própria face, que terá sido algo “muito grave” caso se confirme que a manobra sórdida de Tarcísio teve o claro propósito de influir nos resultados da eleição. Como se prova uma intenção?

Viva, pois, a democracia, a imprensa responsável, a justiça que se finge de cega quando lhe é conveniente e o direito à mentira assegurado pela Constituição.

domingo, 27 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Crimes de guerra em Gaza

Salvação

Quando as últimas moléculas de liberdade se escondiam na poesia, as pessoas sufocadas pela repressão procuravam-nas, encontravam-nas e respiravam-nas para sobreviver

Ana Blandiana, poeta premiada com o Princesa de Astúrias

A liberdade afetiva das escravizadas

A preta Umbelina não saía de casa fazia quase um ano. João, escravizado pelo padre Oliveira, alimentava pelas ruas da cidade gaúcha de Cachoeiro do Sul o boato de assassiná-la. Vingaria sua honra ferida, mesmo que sua vida findasse na forca. No dia 19 de dezembro de 1851, Umbelina foi buscar um barril de água na fonte. Embalava medo. Em frente à marcenaria deu-se o encontro. João a agrediu. Umbelina caiu atordoada. O homem fugiu.

O motivo da violência: Umbelina rejeitou João e terminou a relação. Tinha um novo amor. O escravizado amargurado tentou reconquistá-la com presentes e dinheiro. Nova recusa e uma acusação, a mulher deduziu que os regalos eram roubados. João contou para todos que Umbelina aceitou o dinheiro e juntou-se com outro. O conflito foi parar na Justiça.

Como se desenrolavam as relações amorosas entre escravizados? Nossa primeira resposta vem do artigo “Mulheres escravizadas e relacionamentos afetivos: pensando projetos amorosos e as masculinidades negras a partir da interseccionalidade”, de Marina Camilo Haack, doutora em História Social na USP, publicada na Revista Em tempo De Histórias, da Unb (Universidade de Brasília).

O tema gênero e escravidão vem ganhando cada vez mais espaço na pós-graduação. A intenção é desfazer estereótipos, preconceitos e dar nitidez às imagens das mulheres no período, enxergando resistências e acordos, sem jamais esquecer o contexto de violência e exploração de seus corpos.

Além dos serviços domésticos, algumas escravizadas tinham o direito à rua, fazendo compras ou trabalhando em quitandas, lavando as roupas nos rios. Essa certa mobilidade oferecia os perigos dos abusos sexuais e roubos, mas permitia a presença em diferentes espaços, “possibilitou firmar parcerias, laços de amizade e solidariedades que ultrapassavam os limites da propriedade, ter parceiros afetivos, sexuais e desenvolver relações mais “simétricas”. Assim, algumas mulheres conseguiam escolher seus parceiros. Assim, construiu-se o estereótipo supersexualizado da mulher negra, já que essa liberdade era inaceitável para a “honra” do branco europeu e seus casamentos arranjados entre famílias.

O trabalho de Haack utiliza processos criminais como fonte de pesquisa. Entre mortes e agressões em uma sociedade patriarcal, tenta encontrar pistas das teias afetivas dessas mulheres. Os crimes passionais entre escravizados estavam relacionados às rupturas de relacionamentos ou na defesa da vida da parceira(o).

Indignada com as ameaças a Umbelina, no dia 22 de dezembro de 1851 a escravizadora Inocência Maria Pacheco entregou uma petição ao delegado municipal de Cachoeiro do Sul. Por empatia ou sororidade? Pelo prejuízo. Por causa de João, não podia utilizar os serviços da preta adequadamente. A sentença foi de 100 açoites. Com a atuação de um advogado e do padre, a pena diminuiu para 20 açoites e um ferro atado ao pescoço por um mês.

Se ao menos ...

O que está acontecendo com os palestinos agora é nada menos que um Holocausto. E sim, estou usando a palavra deliberadamente — porque até mesmo os sobreviventes do Holocausto estão chamando assim. Pessoas que viveram as piores atrocidades do século XX estão olhando para o que está acontecendo em Gaza e vendo os mesmos horrores se desenrolarem. Anistia Internacional, Human Rights Watch, o Tribunal Penal Internacional — todos disseram a mesma coisa: isso é genocídio, pura e simplesmente. Mas as autoridades israelenses e seu coro de apoiadores continuam rejeitando esses termos — eles ainda insistem que este é um conflito local normal. A evidência está bem na nossa frente gritando que isso não é. Uma olhada no TikTok ou no Twitter, e você se depara com imagens de revirar o estômago das IDF e seus soldados, praticamente ostentando seus crimes.

Não vamos medir palavras aqui. A IDF foi acusada de crimes de guerra que parecem saídos de um pesadelo — prisioneiros estuprados até a morte, médicos deliberadamente alvejados com drones, jornalistas mortos por atiradores, campos de refugiados bombardeados até o esquecimento, hospitais e escolas destruídos, pessoas inocentes assassinadas. E só para torcer a faca, eles transformaram o Holocausto em uma arma, usando o sofrimento indizível dos judeus nas mãos dos nazistas como um escudo para silenciar qualquer um que ouse criticá-los. Você não pode inventar essas coisas. Agora, a ONU diz que Israel está ameaçando matar de fome o norte de Gaza. Passamos do manual de guerra para a definição de aniquilação em massa.

Mas aqui estamos nós, fingindo que isso é apenas mais um "conflito normal". Não é. A história não será gentil com aqueles que ficaram parados e não disseram nada. Isso é genocídio. Isso é um Holocausto.
Daniel Medina (EUA), cartunista autor da ilustração

'O Exterminador do Futuro' previu nossos medos sobre inteligência artificial

Em um episódio da série da HBO Silicon Valley, Thomas Middleditch (Richard Hendricks) está explicando sua plataforma de machine learning (aprendizado automatizado) Pied Piper para participantes de um grupo focal, quando um deles inevitavelmente a compara ao filme O Exterminador do Futuro, de James Cameron, de 1984.

"Não, não, não", insiste o exasperado Middleditch.

"Posso garantir que não há nenhuma situação do tipo Skynet aqui. Não, o Pied Piper não vai se tornar senciente e tentar dominar o mundo."

Tarde demais. Ele perdeu a atenção dos participantes.

Com robôs assassinos e um sistema de inteligência artificial (IA) rebelde, chamado Skynet, O Exterminador do Futuro se tornou sinônimo do espectro de uma IA que se volta contra seus criadores humanos.

Os editores de imagens ilustram rotineiramente artigos sobre inteligência artificial com a caveira cromada do ciborgue assassino T-800 do filme. O roboticista Ronald Arkin usou trechos do filme durante uma palestra de advertência de 2013 chamada "Como NÃO construir um Exterminador do Futuro".


Mas o filme divide opiniões. O filósofo Nick Bostrom, cujo livro Superinteligência, de 2014, popularizou o risco existencial da "IA desalinhada" (inteligência artificial que não está alinhada com os valores e bem-estar humanos), admitiu que sua esposa o "provoca em relação ao Exterminador do Futuro, e o exército de robôs".

Em seu livro The Road to Conscious Machines ("O Caminho para Máquinas Conscientes", em tradução livre), o pesquisador de IA Michael Woolridge dedica um capítulo inteiro a reclamar sobre "a narrativa do Exterminador do Futuro relacionada à IA".

Há filmes influentes mais recentes, e mais plausíveis, sobre inteligência artificial, incluindo Ex Machina e Ela, mas quando se trata dos perigos da tecnologia, O Exterminador do Futuro reina supremo 40 anos após seu lançamento.

"É quase, de uma forma engraçada, mais pertinente agora do que quando foi lançado", disse Cameron ao site The Ringer sobre o filme e sua sequência de 1991, "porque a IA agora é uma coisa real com a qual temos que lidar — e, na época, era uma fantasia."

Essa é uma grande conquista para um filme que, na verdade, não está particularmente interessado na inteligência artificial.

Antes de mais nada, é um thriller simples e sinistro sobre um "homem" imparável que persegue uma mulher assustada, mas habilidosa. O T-800 é um assassino implacável, nos moldes do personagem Michael Myers, de Halloween. Cameron o chamou de "filme de ficção científica de terror".

Em segundo lugar, é um filme de viagem no tempo sobre o tema "destino x livre arbítrio", como disse Cameron.

A premissa rapidamente resumida é que, em algum momento entre 1984 e 2029, os EUA confiaram todo o seu sistema de defesa à Skynet. Um dia, a Skynet ganhou superinteligência — uma mente própria —, e deu início a uma guerra nuclear global.

Os sobreviventes da humanidade travaram então uma rebelião de décadas contra o exército de ciborgues da Skynet.

Em 2029, a resistência humana está à beira da vitória graças à liderança de John Connor, e a Skynet envia um T-800 (Arnold Schwarzenegger) para o ano de 1984, com a missão de matar a futura mãe de John, Sarah (Linda Hamilton), antes que ela engravide.

A resistência responde com o envio de Kyle Reese (Michael Biehn) para deter o T-800 — e salvar Sarah. Em um desses paradoxos de loop temporal que os espectadores não devem prestar muita atenção, Kyle se envolve com Sarah, e acaba se tornando o pai de John. O futuro é salvo.

O Exterminador do Futuro é, então, um thriller, uma história de amor, uma reflexão sobre o livre-arbítrio com viagem no tempo e uma sátira sobre nossa dependência da tecnologia. É anticorporativo, antiguerra, antiarmas e, em grande parte, antimáquina.

A tecnologia, de secretárias eletrônicas a walkmans, está envolvida quando as pessoas são mortas no filme. Mas tem muito pouco a dizer sobre a inteligência artificial propriamente dita.

O Exterminador do Futuro se tornaria um filme extremamente lucrativo, arrecadando US$ 78,4 milhões diante de um orçamento de US$ 6,4 milhões, mas Cameron não tinha expectativa de criar uma referência cultural.

Ele escreveu o roteiro em um hotel decadente em Roma, em 1982, após ser demitido do seu primeiro trabalho como diretor, em Piranha 2: Assassinas Voadoras; e sua produtora, Gale Ann Hurd, só conseguiu arrecadar um orçamento de US$ 6,4 milhões.

O ator principal, um ex-fisiculturista de talento duvidoso, não tinha grandes expectativas. Schwarzenegger contou a um amigo sobre "um filme de m... que estava fazendo, vai levar algumas semanas".

O próprio Cameron esperava que O Exterminador do Futuro fosse "massacrado" nas bilheterias pelos dois épicos de ficção científica daquele outono: Duna, de David Lynch, e 2010 - O Ano em Que Faremos Contato, de Peter Hyams, uma sequência logo esquecida de 2001 - Uma Odisseia no Espaço.

Há uma sincronicidade interessante aqui: não só O Exterminador do Futuro superou o desempenho de 2010 - O Ano em Que Faremos Contato, como a Skynet suplantou o computador assassino HAL 9000 de 2001 - Uma Odisseia no Espaço, como a imagem dominante da inteligência artificial ​​que se rebela.

Muito antes do campo da IA existir, seus perigos potenciais se manifestaram na forma do robô criado por Karel Čapek em sua peça RUR, de 1921, e foram popularizados pelo filme Metrópolis, de Fritz Lang, de 1927.

Em seu excelente livro sobre O Exterminador do Futuro, da série de Clássicos Modernos do Instituto de Cinema Britânico (BFI, na sigla em inglês), Sean French sugere que a cena mais memorável do filme — o T-800 saindo das chamas, com seu esqueleto metálico exposto, após seu revestimento de carne ter derretido — foi uma referência ao robô queimado em Metrópolis.

Na década de 1920, era óbvio que a inteligência artificial andaria e falaria, como o monstro de Frankenstein. A popularidade dos robôs letais levou o escritor de ficção científica Isaac Asimov a elaborar, em 1942, as "três leis da robótica": a primeira tentativa de definir a inteligência artificial ética.

No mundo real, o campo da inteligência artificial começou oficialmente em 1956, durante um curso de verão na Universidade de Dartmouth, organizado pelos cientistas da computação John McCarthy (que cunhou o termo) e Marvin Minsky.

A ambição deles era desenvolver máquinas que pudessem pensar como seres humanos, mas isso se mostrou muito mais difícil do que eles imaginavam.

A história da inteligência artificial ​​é marcada por altos e baixos, as chamadas "primaveras" e "invernos" da IA. As promessas alucinantes atraem atenção, financiamento e talentos; mas sua falha em se concretizar faz com que todos esses três elementos entrem em colapso.

O boom da década de 1960, antes de a dimensão dos obstáculos técnicos se tornar aparente, é conhecido como a Era de Ouro da IA. O hype extravagante sobre "cérebros eletrônicos" entusiasmou o diretor Stanley Kubrick e o escritor Arthur C. Clarke, que incorporou a IA em 2001: Uma Odisseia no Espaço, de 1968, na forma de HAL 9000.

O nome (sigla em inglês para "Computador Algorítmico Heuristicamente Programado") foi dado pelo próprio Minsky, contratado como consultor por Kubrick. Os olhos vermelhos do T-800 são, sem dúvida, uma homenagem a HAL — ter assistido a 2001: Uma Odisseia no Espaço na infância, colocou Cameron na trajetória para se tornar cineasta.

Daniel Crevier, um historiador especializado em IA, comparou a situação de HAL (computador mal programado que dá errado) com a do Colossus (computador que se torna uma nova forma de vida semelhante a um deus), do livro homônimo de DF Jones, de 1966.

No romance de Jones, o governo dos EUA confia de forma imprudente todo seu maquinário de defesa ao supercomputador. O Colossus adquire senciência, une forças com sua contraparte soviética e chantageia a humanidade para que se submeta a uma ditadura tecnológica: renda-se ou enfrente a aniquilação nuclear. O Colossus é um protótipo da Skynet.

Nem HAL nem Colossus tinham — ou precisavam — de corpos. A brilhante inovação de Cameron foi combinar o computador fora de controle (Skynet) com o ciborgue assassino (T-800).

O T-800 é uma forma de IA com propósito único que é capaz de aprender com seu ambiente, resolver problemas, executar tarefas físicas sofisticadas e imitar vozes, mas tem dificuldade para manter uma conversa. A Skynet, ao que parece, pode fazer tudo, menos se mover.

A Skynet foi um produto da segunda primavera da IA. Enquanto Cameron escrevia o roteiro, o cientista da computação britânico-canadense Geoffrey Hinton estava repensando e revitalizando a pesquisa sobre a abordagem de rede neural para IA: modelar a inteligência da máquina com base nos neurônios do cérebro humano. A Skynet é uma IA de rede neural.

Hinton, que acaba de ganhar o Prêmio Nobel de Física, recentemente se tornou um pessimista em relação à IA ("Minha intuição é: estamos fritos. Este é o verdadeiro fim da história"), mas, de acordo com um perfil preparado pela revista New Yorker, ele gostou de O Exterminador do Futuro em 1984: "Não o incomodava que a Skynet... fosse uma rede neural; ele ficou satisfeito em ver a tecnologia retratada como promissora".

O nome Skynet também pode ter sido uma alusão ao programa Guerra nas Estrelas, o sonho fracassado do presidente americano Ronald Reagan de criar um escudo antinuclear ao redor dos EUA com lasers baseados no espaço. Felizmente para o futuro da franquia, também ecoou inadvertidamente a internet — palavra que existia em 1984, mas só começou a ser amplamente usada a partir da década de 1990.

Os nomes amalgamados de novas startups ambiciosas, como IntelliCorp, Syntelligence e TeKnowledge, possivelmente inspiraram Cameron a transformar o nome original da criadora da Skynet, Cyber Dynamics Corporation, em Cyberdyne Systems.

Ao assistir novamente ao filme O Exterminador do Futuro, é surpreendente descobrir que a palavra Skynet é pronunciada apenas duas vezes.

De acordo com o personagem Kyle Reese, ela era: "Nova. Poderosa. Conectada a tudo, confiável para executar tudo. Dizem que ficou inteligente... uma nova ordem de inteligência. Então, viu todas as pessoas como uma ameaça, não apenas as do outro lado. Decidiu nosso destino em um microssegundo... extermínio".

O interesse do filme em relação à IA para por aí. Como Cameron sempre disse, os filmes de O Exterminador do Futuro são, na verdade, sobre pessoas, e não sobre máquinas.

A sequência de sucesso O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final, de 1991, preencheu um pouco a história. Ela surge de outro paradoxo temporal: a unidade central de processamento e o braço direito do Exterminador original sobreviveram à sua destruição, e permitiram que o cientista Miles Bennett Dyson (Joe Morton), da Cyberdyne, desenvolvesse a Skynet.

A missão dos heróis agora não é apenas salvar John Connor, de 10 anos, do ciborgue T-1000 que viaja no tempo, mas destruir a Skynet em seu berço digital.

Em O Exterminador do Futuro 2, um ciborgue T-800 na forma de Schwarzenegger é o protetor, em vez de caçador — e, portanto, o portador da seguinte explicação:

"O sistema entra em operação em 4 de agosto de 1997. Decisões humanas são removidas da defesa estratégica. A Skynet começa a aprender, a uma taxa geométrica. Ela se torna autoconsciente às 2h14, horário do leste (nos EUA), em 29 de agosto. Em pânico, eles tentam desligá-la."

A Skynet revida lançando mísseis nucleares na Rússia, sabendo que o contra-ataque vai devastar os EUA. Três bilhões de pessoas morrem em 24 horas: no Dia do Julgamento Final.

Este é um relato fundamentalmente diferente do de Reese. No primeiro filme, a Skynet interpreta sua programação de forma exagerada, considerando toda a humanidade uma ameaça. No segundo, ela está agindo por interesse próprio. A contradição não incomoda a maioria dos espectadores, mas ilustra uma divergência crucial sobre o risco existencial da IA.

É provável que um leigo imagine a IA desalinhada como rebelde e malévola. Mas especialistas como Nick Bostrom insistem que o perigo real está na programação descuidada.

Pense na vassoura do aprendiz de feiticeiro em Fantasia, da Disney: um dispositivo que segue obedientemente suas instruções a extremos desastrosos.

O segundo tipo de IA não é humano o suficiente, carece de bom senso e julgamento moral. O primeiro é humano demais — egoísta, ressentido, sedento de poder. Ambos poderiam, em teoria, ser genocidas.

O Exterminador do Futuro, portanto, tanto ajuda quanto atrapalha nosso entendimento da inteligência artificial: o que significa para uma máquina "pensar", e como isso pode dar terrivelmente errado.

Muitos pesquisadores de IA se ressentem da obsessão pelo filme O Exterminador do Futuro por exagerar o risco existencial da tecnologia ​​em detrimento de perigos mais imediatos, como desemprego em massa, desinformação e armas autônomas.

"Primeiramente, ele faz com que a gente se preocupe com coisas com as quais provavelmente não precisamos nos preocupar", escreve Michael Woolridge.

"Mas, em segundo lugar, desvia a atenção das questões levantadas pela IA com as quais deveríamos nos preocupar."

Cameron revelou à revista Empire que está planejando um novo filme do Exterminador do Futuro que vai descartar toda a bagagem narrativa da franquia, mas manter a ideia central de humanos “impotentes” contra a IA.

Se isso acontecer, será fascinante ver o que o diretor tem a dizer sobre a inteligência artificial, agora que é algo sobre o que conversamos — e nos preocupamos — todos os dias.

Talvez a mensagem mais útil de O Exterminador do Futuro para pesquisadores de IA seja a de "destino x livre arbítrio": as decisões humanas determinam os resultados. Nada é inevitável.

sábado, 26 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Sobre humanidade

Marjane Satrapi, iraniana refugiada em França, conta em quadrinhos sua juventude marcada pela revolução e pela guerra no Irã, na série “Persépolis”, saga que milhões de cópias e foi traduzida para mais de cem idiomas. Satrapi recebeu esta semana o Prêmio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades, em Oviedo (Espanha). Este foi o discurso de agradecimento;

Em primeiro lugar, queria expressar a minha profunda gratidão por este prémio extraordinário que me concederam.

E agora, já que é disso que estamos falando, vamos falar da humanidade.

Entre o que os biólogos chamam de animais autênticos, ou seja, mamíferos, o homem é o único que mata a sua fêmea. E qualificamos esse ato como bestial, já que nenhum outro animal, fora de nós, o comete. Isso é humanidade.

Mas também há humanos que perdem a vida às mãos dos seus torturadores para proteger os seus semelhantes, não para os denunciar, e sei muito bem do que estou a falar. Isso também é chamado de humanidade.


Há os membros da orquestra que tocam uma sinfonia e nos dão a forma mais pura de beleza, e há aqueles que orquestram guerras e que, por cada cem litros de sangue derramado, recebem uma nova medalha.

E aplaudimos uns aos outros com o mesmo fervor.

Com isso quero lhe dizer que não tenho uma visão idealizada da humanidade e que eu, em mim, vivencio essa dualidade. Aceito tanto a minha violência como a minha benevolência, esperando sempre que esta prevaleça sobre a primeira.

Durante muito tempo acreditei que a chave para qualquer ser humano viver com dignidade, para que nunca sofresse brutalidade ou humilhação por causa do seu sexo, da sua etnia ou da sua cor, era a educação. Mas Goebbels não tinha doutorado em filosofia? O Dr. Mengele não fez o Juramento de Hipócrates?

Estaremos errados quando definimos educação? Talvez antes de educar os nossos filhos para terem sucesso económico e social, devêssemos ensinar-lhes que o verdadeiro sucesso reside acima de tudo no humanismo.

Que o que permitiu ao homem colocar-se acima de todos os seres vivos foi ele ter criado sociedades; e uma sociedade só existe porque - ao contrário de um animal que está condenado a morrer quando quebra uma perna - nós cuidamos dos nossos semelhantes. Nós os carregamos em nossos ombros e os colocamos em segurança.

O homem sozinho não sobrevive na natureza. Só sobrevive juntando-se a outros e criando sociedades. E a condição sine qua non para conseguir isso é a empatia.

Talvez na educação, em vez de ensinarmos os nossos filhos a aprender tudo de cor e a recitar como papagaios, devêssemos ensinar-lhes ética, civilidade e, acima de tudo, compaixão e bondade. E garanto que não sou daqueles que dão a outra face. Por um tapa recebido eu devolveria dez, mas procuro nunca ser aquele que acerta o primeiro.

E, por fim, lerei para vocês um poema de Saadi, um grande poeta iraniano do século XIII:

O ser humano faz parte do mesmo corpo,
e tem a mesma origem.
Quando a vida causa dor a um membro
os outros não descansam.
Você que é indiferente ao sofrimento dos outros,
Você não merece ser chamado humano.

Obrigado por me ouvir e à humanidade em sua totalidade.

Israel perdeu a inocência

Ao contrário de vários escritos sobre a recente guerra no Médio-Oriente priorizando, por vezes algo doentiamente, ‘o estado ao que as coisas chegaram’, não é propósito neste artigo tecer considerandos críticos sobre a razia que vai ocorrendo contra povo palestiniano na Faixa de Gaza, por obra do Governo de Benjamin Netanyahu ( t.c.p. “Bibi”).

A tónica é avaliar a credibilidade ética de um Estado e, por tabela, de todo um estrato populacional (exceções aparte), ao qual historicamente se tem atribuído foros de ‘povo eleito’. Urge sublinhar a este respeito que semitismo diz respeito tanto a árabes como a judeus, pois, em termos bíblicos, ambos descendem de Abraão (os árabes – descendentes de Ismael, 1º filho de Abraão, nascido da escrava Agar, e os judeus – descendentes de Isaac, 2º filho de Abraão, nascido da esposa Sara).

A Resolução 181 do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CS/ONU) de 28 de novembro de 1947 intitula-se Plano de partilha de Palestina em um Estado Árabe e um Estado Judeu com união económica e regime especial para Jerusalém. Em apreço estava uma reivindicação anterior, bem ou mal assente na ideia-força de que o povo judaico tinha o direito a um espaço em terra palestina. Assim nasceram os alicerces do que hoje conhecemos como o Estado de Israel. O seu reconhecimento viria a ser impulsionado pela tragédia genocida dos cerca de 6 milhões de judeus no Holocausto levado a cabo pelo nazismo alemão. A sua vez, o previsto Estado palestiniano, ficaria a marcar passo, fruto de confluência de três circunstâncias diferenciadas: a oposição dos Estados Árabes à existência de um Estado Judaico, a firmeza do sionismo em sentido contrário e a inexistência de uma unidade palestina visando a constituição de um Estado próprio, o que só viria a conhecer a luz do dia em 1964 com a OLP (Organização de Libertação de Palestina) sob a liderança de Yasser Arafat.

De então para cá, a questão Israel-Palestina viria a conhecer uma vasta gama de acontecimentos, sendo de destacar os dois Acordos de Oslo (1993). Porém, o seu deturpado cumprimento veio a viabilizar a prática de Colonatos Israelitas, traduzidos na anexação de terrenos palestinianos e inerente expulsão dos habitantes destes. Deste procedimento resultaria um acréscimo territorial israelita superior a 22% quando comparado com os 56% da terra palestina que a Resolução havia alocado aos judeus. A Resolução 2334 do CS/ONU(2016) afirmou a ilegalidade dos colonatos (‘settlements’) israelitas em território palestiniano ocupado, incluindo os de Jerusalém Oriental tendo em conta as fronteiras de 1967.


Voltando à atualidade, não se pode dizer, por isso, que Israel esteja inocente de tudo quanto se está passar na Faixa de Gaza. Estivesse em funcionamento um Estado de Palestina e, porventura, no dizer do Professor Yuval Noah Harari na Universidade de Te-Aviv, “os israelitas (não) estariam a pagar o preço pelos seus anos de arrogância, durante os quais os seus governos e muitos israelitas comuns sentiram que eram muito mais fortes do que os palestinianos” (Público 12.10.2023, pgs 5).

É puramente quimérico estar-se a negar a existência do Estado de Israel de pleno direito. Fazê-lo seria um retrocesso da história, como estar a interrogar sobre as realidades existenciais dos EUA ou duma Austrália. A história não espera por nós, mas nós fazemos parte dela. É o avanço da civilização que o exige. Houve historicamente ocupações e usurpações de terras que a realidade consagrou como definitivas com o passar do tempo – uma espécie de usucapião histórico político. Foi a época de deslocação e fixação definitivas de povos dos séculos transatos. Mas se a história não retrocede, podem evitar-se os seus erros e abusos para o futuro. Daí que, no presente – 2º metade do seculo XX e XXI – a ocupação forçada de terras alheias qualifica-se, nem mais nem menos, como usurpação por falta de qualquer título de legitimidade. E qualquer ideia de facto consumado ou prescrição jurídica é afastada, dada a permanente contestação e repúdio a que a ONU vota tais colonatos. Neste domínio, e nesta parte, a lei internacional e a nacional regem-se pelos mesmos princípios.

Ora, é patente que os palestinianos não estão num processo de luta ou de guerra de libertação face ao Estado de Israel já que ninguém pode ser prisioneiro na sua própria casa. É tão simples quanto isto. Por isso, se não tem justificação o barbarismo do ato pratico pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, também certo é que nada pode justificar a barbárie cometida pelas Forças Armadas Israelitas, sob o comando do Governo de Benjamim Netanyahu. Neste quadro, não podem deixar de merecer o mais veemente e profundo repúdio a posição dos políticos americanos e europeus, que sob a cobertura das sua angélicas posturas políticas, acabam por patrocinar, fomentar e sustentar a continuação desta barbárie sob a capa de que estão a defender a liberdade e a democracia.

Não está em causa o direito ao exercício de autodefesa contra a investida do Hamas. A boa hermenêutica jurídica (nacional ou internacional) exige, porém, que a mesma seja exercida num imediatismo razoável e seja proporcional. Ora o que está a acontecer até ao presente, pelo menos até à data deste escrito, é uma deliberada e programada eliminação física de dezenas de milhares de palestinianos civis, a destruição de edifícios, hospitais e escolas do ativo, eliminação física de crianças e idosos em campo de refugiados e a deslocação territorial de mais de um milhão de pessoas carentes de alimentação e de saúde.

Posto isto, o que dizer de Israel? A razão apresentada para este procedimento é de que os combatentes do Hamas se escudam nos hospitais, nas escolas e misturam-se no meio da população. É …. vá daí, elimina-se tudo e todos. Certo, porém, é que a máscara caiu, o Kipá merece mais respeito e de pouco valem as “fantasias messiânicas”, as ortodoxias estéreis ou as lamentações junto ao muro, não o de apartheid da Cisjordânia, mas o de lamentações.

Israel é tido como um país bastante avançado e desenvolvido no contexto do Médio Oriente, dispondo de uns serviços secretos ultra-eficientes e havendo mesmo notícias que algumas das suas ações militares tem já dispositivo instrumental operado por Inteligência Artificial. Neste contexto, é pertinente a indignação quanto à grandiosidade de umas Forças Armadas que para desarticular um grupo armado demonstra não ter capacidade para os individualizar do resto da população tendo, para tanto, necessidade de dizimar mais de 40.000 civis para além de milhares de feridos! Neste afã de ataque e destruição não é de pôr de parte que estas forças possam ter atingido os 6 reféns israelitas.

Como se referiu, não está em causa o direito de autodefesa por parte de Israel. A legitima autodefesa pressupõe que a parte que a alega não crie situações de insustentabilidade que levem a parte contrária a reagir. Dito ‘alio modo’, o ‘auto-defendente’ não pode gerar contextos para depois, com base nestes, invocar este instituto. Nestes termos, a alegada autodefesa por Israel esgotou-se na resposta à intervenção de 7 de Outubro do Hamas pelo seu imediatismo e por tal ocorrer no seu território (não contemplando os excessos cometidos e que continuam a cometer-se em Gaza).

Mas, Israel parece estar a tentar contornar todo o contexto político, procurando estender a sua autodefesa a toda a problemática do conflito israelo-palestino em jeito de uma guerra. “Numa guerra, se um lado é mau, não significa que o outro seja bom……Basta ser guerra para não ter lados bons” (Eduardo Aqualusa – VISÃO 31 e Março de 2012, pgs 96). É aqui que perde toda a sua inocência e assinala a má-fé que rege o seu estofo ético histórico e político. Assumindo-se um Estado democrático, assente não numa Constituição escrita, mas em Leis Fundamentais avulsas, viu em 1 de setembro deste ano o seu Supremo Tribunal determinar a suspensão de uma greve geral “por motivos políticos” (ou seria, suspensão ‘por motivos políticos’ uma greve geral?)

A continuada política de colonatos ilegais por terras palestinianas, com a consequente expulsão dos donos das casas e das terras, sob a complacência das autoridades, nomeadamente dos tribunais, a conivência da população israelita neste processo e a perseguição de cidadãos palestinianos que rondam as dezenas de milhares – prática esta que tem vindo a ser condenada por n Resoluções das Nações Unidas, (organismo do qual Israel faz parte), mas que tem sido obstinadamente desrespeitadas demonstra ser a principal e basilar razão material deste conflito. Um tal comportamento poderia justificar a expulsão de Israel da ONU, porém a solução seria contraproducente, pois deixar o Estado de Israel ainda mais em roda livre, agravando o estatuto de “rogue-country” que já aparenta ser. Com qualificar um ‘leader’ político que tenta desacreditar a ONU, por o seu secretário-geral criticar veementemente Israel pela eliminação física e indiscriminada de uma população, já quase equiparada a um genocídio e desrespeita a decisão do Tribunal Internacional de Justiça de 19 de julho, por configurar a presença de Israel em território ocupado palestiniano como ilegal e apelando à imediata suspensão de construção de colonatos?

Dando o merecido crédito e respeito às recentes manifestações do povo israelita, a verdade é que Netanyahu foi eleito três vezes para primeiro-ministro, com a agravante de ser bem evidente que desta vez beneficiava do declarado apoio do setor ultraortodoxo do sionismo. Afere-se assim, que uma parte significativa do eleitor israelita tem a sua quota parte de responsabilidade no que esta a acontecer. A questão dos “reféns”, apesar da sua gravidade, assume neste âmbito a natureza de um “falso problema”, salvo se se entender que a vida de um refém israelita vale mais que a vida de 100 palestinianos!

Tudo leva a crer que a questão mediata se relaciona com o fanatismo e/ou chauvinismo doutrinário. A frase “religião é o ópio do povo” parece ter aqui toda a pertinência, de parte a parte, não no sentido da sua eliminação ou superação, mas como um ‘prius’, um agente intolerante de convivência entre povos e Nações, apelidando-se de “Estados religiosos”. A eliminação desta confusa mancomunação política/religião passa por uma abordagem conciliatória entre os responsáveis das religiões mais tradicionais. É de saudar por isso a Declaração Conjunta de Isteqlal de Jacarta – agosto 2024 – subscrita pelo Papa Francisco e o Grande Imã Nasaruddin Umar, ao reconhecer a existência de “valores comuns a todas as religiões para “derrotar a cultura de violência e de indiferença.

Numa altura em que, pelo mundo fora, se clama cada vez com mais ressonância por uma maior solidariedade e humanismo entre os povos e nesta dinâmica uma generalizada repulsa pelas atrocidades de que o povo palestiniano é vítima, eis que surge a deliberação da Assembleia Geral da ONU de 18 de setembro, votada por uma maioria de 2/3 dos seus membros (124, quando a ONU tem 193 membros), no sentido de exigir que Israel ponha termo à sua presença ilegal em Gaza, na Cisjordânia ocupada e Jerusalém Oriental, a cessação de novos colunatos, a restituição de terras e propriedades usurpadas e o regresso de palestinianos deslocados, no prazo de um ano.

Um prazo, diga-se de passagem, algo dilatado para Israel continuar com as suas investidas, havendo por isso quem interrogue pela não utilização do dispositivo de intervenção da Força Militar de Paz da ONU no caso presente, postura que contrasta com a prontidão com que agiu noutras paragens como o Ruanda, Kosovo e outros.

Os EUA foram um dos 14 países que votou contra a deliberação. Assumido que as constantes visitas de Anthony Blinken ao Médio Oriente não são de recreio, as mesmas mais se revestem de vendedor de promessas angélicas, permitindo incessantes adiamentos para a solução do conflito, sempre propícias para as Forças Armadas continuarem com as atrocidades (os tais 10% do acordo que ainda falta atingir) e a propulsão da indústria armamentista.

Do contexto gerado, há três situações desastrosas a temer e que despontam no horizonte: o sofrimento e dizimação do povo palestiniano, um crescente antissemitismo israelita e o alastramento de uma guerra generalizada pelo Médio Oriente.

Quo Vadis Israel?

Os munícipes que não reclamam

Na gestão em que se dedicaria a equilibrar as contas do município, enfrentar o desperdício e a ineficiência na administração, extinguir favores a compadres, pôr fim às extorsões que afligiam os mais pobres e, o mais inconveniente, relatar de forma clara e honesta o que fez e o que não conseguiu fazer durante o mandato, o prefeito de Palmeira dos Índios escreve, após o primeiro ano de trabalho: “Há descontentamento. Se a minha estada na prefeitura (...) dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos”.

O prefeito impopular, bem como o dono da autoavaliação seca, irônica e sobretudo literária, era Graciliano Ramos. O futuro romancista administrou Palmeira dos Índios, próxima a sua cidade natal, Quebrangulo, de janeiro de 1928 a abril de 1930, e no começo de cada ano escreveu relatórios de prestação de contas ao Conselho Municipal e ao governo de Alagoas. Desde aquela época os balanços da prefeitura chamaram a atenção da imprensa pela qualidade literária, e agora estão reunidos no livro O Prefeito Escritor: Dois Retratos de uma Administração (Record, 2024).


A leitura de texto tão burocrático, “com algarismos e prosa de guarda-livros”, interessa quase cem anos depois em primeiro lugar pelo que se pode antever do estilo do autor de Vidas Secas, já elogiado pelos contemporâneos dos relatórios. Em um trecho sobre os custos da administração, por exemplo, o prefeito escreve: “E lá se vão mais de trinta contos gastos sem uma varredela nas ruas, um golpe de picareta nas estradas, um professor, mesmo ruim, na Brecha ou no Anum”. Aos leitores atuais de Graciliano, interessa também o aspecto biográfico dos documentos, que ajudam a compreender o pensamento do homem que se tornaria preso político mais tarde. Por fim, para um público mais amplo, a leitura dos balanços interessa hoje porque muitos dos problemas que o prefeito escritor teve de lidar na Palmeira dos Índios do fim da década de 1920 o Brasil ainda enfrenta, como o patrimonialismo e o clientelismo.

No começo do mandato, diz um documento, o prefeito encontrou obstáculos dentro e fora da prefeitura: “Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro”. A dificuldade de arrecadação do município, o que o autor explica por serem todos, prefeitos e contribuintes, mais ou menos compadres, foi um dos desafios em que Graciliano teve sucesso durante a gestão, marcada pelo aumento da receita, mas também pela impopularidade.

Austero com uns, incluindo amigos e familiares, o prefeito registrou gastos com serviços públicos sanitários e de instrução, investiu nos subúrbios e aliviou a arrecadação dos mais pobres, estabelecendo “a equidade que torna o imposto suportável”. “Se eu deixasse em paz o proprietário que abre as cercas de um desgraçado agricultor e lhe transforma em pasto a lavoura, devia enforcarme.” Quanto aos prestadores de serviço da prefeitura, se não foram valorizados pelo gestor, ao menos constam nos relatórios exemplos de indignação com as remunerações pagas a eles (“uns pobres homens que se esfalfam para não perder salários miseráveis”).

O corte de gastos nem sempre era possível, como no contrato para o fornecimento de energia elétrica firmado em outra gestão, no qual a cidade pagava “até a luz da Lua”. “Apesar de ser o negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras”, graceja o prefeito. Se era obra importante mas prorrogável, ele adiava, a exemplo da construção do cemitério novo: “Os mortos esperarão mais um tempo. São os munícipes que não reclamam”. E enterrava os recursos na conservação.

“Aí está, em traços largos, o estado em que se encontra a Prefeitura de Palmeira do Índios”, conclui o prefeito no primeiro relatório. Do interior de Alagoas, os documentos chegaram até o editor Augusto Frederico Schmidt, no Rio de Janeiro, que imaginou que quem escreve um relatório de prestação de contas com tamanha graça deveria ter um romance na gaveta. E tinha mesmo. Caetés, o primeiro livro de Graciliano Ramos, foi escrito durante a gestão, e saiu pela editora de Schmidt em 1933. O romance, aliás, se passa em Palmeira dos Índios, e tem como protagonista um guarda-livros que deseja ser escritor e fazer parte da elite social da cidade.

Como uma obra literária inacabada, Graciliano não terminou o mandato, mas seus relatórios deixam reflexões sobre o papel do prefeito, esse cargo cada vez mais esquecido em relação às pautas de política nacional que dominam as conversas nos ônibus e padarias, mas fundamental para o lugar onde a vida acontece, ou seja, o município.

Matando-lhe “o bicho do ouvido”, as reclamações fizeram parte do começo ao fim da gestão do escritor, inclusive colaborando para a renúncia. Mas a indiferença da população à política local não ajudaria Graciliano a construir uma cidade mais próspera e justa. Pelo contrário, o prefeito escreve: “Bem comido, bem bebido, o pobre povo sofredor quer escolas, quer luz, quer estradas, quer higiene. É exigente e resmungão”. A apatia política, em vez disso, tende a buscar soluções tão fáceis quanto falsas, não se importando em destruir o que não afeta mais. É melhor que reclamem.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Não me gritem!

Os estudos poderiam querer enganar-nos, mas a realidade ainda somos nós quem a faz todos os dias. E certamente todos os dias há menos um espectador clássico de televisão, e no seu lugar nasce o programador da sua própria emissão, vista na plataforma que entende, às horas que quer, e como quer. Os estudos reconhecem-no, por piores que estas noticias sejam para os seus principais utilizadores, que constitui toda a gama de intermediários que nasce no produtor e acaba no consumidor. Nunca como hoje fomos tão donos das nossas escolhas – com dinheiro, sem dinheiro, em espaço público ou privado – o que deve dar dores de cabeça a quem tem por obrigação vender-nos “coisas” em massa. Costumo dizer que o único lugar onde ainda me apanham a ver publicidade num ecrã é mesmo nas Caixas Multibanco, porque sou forçado a esperar pelas instruções do bonequinho...

Ainda assim, deve haver uns “chatos” profissionais cuja missão consiste em atazanar a cabeça dos publicitários, dos compradores de espaço, dos negociadores dos canais de TV, e que ainda não perceberam quão prejudicial pode ser a publicidade martelada para quem só aguarda pacientemente pelo bloco de notícias seguinte.

Falo por mim. Escolho os raros programas que me interessam nas TV’s generalistas e de cabo, e opto por gravar e ver mais tarde, ou agarrar-me ao comando a puxar “a fita” para trás (tão anos 80, não é?). Mas confesso que ainda sou um “viciado” em noticias e, além de um dos 3 telejornais dos canais generalistas (vou alternando, sem grande critério...), acabo por “perder” mais alguns bocados da noite no clássico zapping por entre os canais informativos especializados (incluindo a CMTV, não me envergonha dizê-lo...). Imagino que, desorientados e sem margem de manobra, os negociadores de espaço, depois do “discurso oficial” sobre os media, que não estão a saber adaptar-se ao digital (como se eles tivessem no bolso a chave do tesouro...), cedam ou convençam ou se convençam que chegam lá pela insistência.

O resultado é trágico: além de desligar o som quando sou apanhado na curva por um bloco publicitário de longuíssimos minutos, tenho um top de marcas e produtos que, de tantas vezes me chamarem atrasado mental, martelando na mesma mensagem e no mesmo discurso, como se tivesse cinco anos, estão riscados da lista de potencial cliente, mesmo que “de borla”. A memória é manhosa, mas nunca me verão tomar Memofante; talvez pague os mais caros seguros do automóvel do mundo, mas não me passa pela cabeça ligar à Tele-seguro; o nome Trivago causa-me urticária; recuso-me a entrar na Worten; só a tiro de caçadeira abrirei conta no Bankinyter; e fujo a sete pés das promoções da marca Finish. Não adianta falar de automóveis e de promoções do mundo das telecomunicações, porque a confusão e a tentativa de canibalizar mercados chegou ao ponto de já não distinguir um BMW de um Renault. Este conjunto pequeno daquilo a que chamo “marcas-melga” está a afastar-nos até dos produtos de que potencialmente seríamos compradores e a que ainda nos prendia alguma publicidade: a imaginação, a criatividade, a surpresa, o momento bem escolhido para entrar “no ar”. No desespero de vender um pouco mais pela insistência, pela martelada, pela falsa ideia de que somos moscas atrás do néon iluminado, causa repulsa e só consegue incomodar.

Nos (escassos) casos contrários, uma marca consegue criar empatia até com aqueles que a podem dispensar, por fazer efectivamente parte dos seus dias. Recordo agora – e é recente - a campanha que assinalou os 90 anos da cerveja Superbock. Os filmes históricos. Os vídeos virais. As edições com receitas antigas. As garrafas e os rótulos. Sem incomodar em demasia. Escolhendo os espaços e horários adequados.

É um excelente exemplo para responder a esta espécie de esquizofrenia que tomou conta dos bocadinhos em que ainda “nos apanham” a ver televisão. Ninguém quer pensar nisto? Ou preferem continuar a perder tempo a dizer que os media estão perdidos e, nestas circunstancias, o melhor é assobiar para o ar e subir o volume do som quando gritamos, como a Mafaldinha, “não me gritem!”.

Nota – Todas as referências a marcas, produtos, e a escolha final dos anúncios, é pessoal, sem qualquer interferência de empresas de qualquer espécie, e inteiramente assumida como integrante de uma filosofia de vida onde a publicidade faz parte da comunicação e da informação. Aliás, nenhuma destas marcas foi sequer por mim contactada (ou me contactou) no âmbito desta ou de outra matéria. Infelizmente, no hipermercado da blogoesfera é preciso fazer estes tipo de "disclaimer"...
Pedro Rolo Duarte

'Nossa terra': colonos judeus querem ocupar Faixa de Gaza

A poucos quilômetros da Faixa de Gaza, no meio do nada, um grupo de colonos israelenses dança, pula e canta em círculo; ao fundo, a artilharia israelense ressoa dentro do devastado território palestino, para onde os judeus ultranacionalistas exigem retornar sob a alegação de que a terra pertence a eles.

"Viemos aqui para dizer ao mundo que precisamos estar em Gaza e permanecer lá para sempre. Ela nos pertence e nós voltaremos para viver lá. É a única maneira de acabar com o Hamas", disse à agência de notícias EFE Yair Maoz, um colono que vive com a esposa e cinco filhos em um assentamento em Hebron, na Cisjordânia ocupada.

Assim como Maoz, muitas outras famílias de colonos e ultradireitistas israelenses não quiseram perder esse evento organizado na segunda-feira pela organização radical Nachala, liderada por Daniella Weiss, que promove a expansão dos assentamentos – ilegais de acordo com a lei internacional –, agora também em Gaza.
Daniella Weiss (centro) exibe mapa com plano de assentamentos em Gaza

A manifestação sob o lema "Retornando a Gaza" teve entre seus participantes membros do Likud, o partido do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, assim como integrantes de partidos e organizações que são a favor da colonização.

Um porta-voz do Likud deixou claro que o evento não era do Likud, mas sim uma "iniciativa local", como parte do festival religioso de Sukkot, ou Festa dos Tabernáculos.

O festival de peregrinação de uma semana comemora o êxodo bíblico do Egito. Uma das barracas temporárias erguidas para marcar o dia da festa trazia o nome do partido Likud.

"Vou dizer em alto e bom som: os palestinos perderam o direito de permanecer em Gaza depois do que fizeram conosco em 7 de outubro. Nenhum deles permanecerá na Faixa, estamos prontos para voltar o mais rápido possível", grita Weiss eufórica para uma plateia, formada em sua maioria por judeus ortodoxos, que aplaude cada palavra sua.

Muitos participantes carregam adesivos com o slogan "Gaza é nossa para a eternidade". A camiseta de um ativista trazia a frase "Gaza faz parte do Estado de Israel".

Weiss, ex-prefeita do assentamento de Kedumim, defende o retorno dos israelenses a Gaza com o argumento de que isso beneficiará os EUA e a Europa, pois, segundo ela, isso significará o fim do "demônio do Hamas na Faixa de Gaza" e "o fim do Hamas na Faixa de Gaza o mais rápido possível".

"Espero que todos vocês possam aproveitar as praias de Gaza muito em breve", acrescenta Weiss, que foi presa várias vezes por agredir a polícia israelense durante protestos.

Israel desmantelou 21 assentamentos israelenses dentro da Faixa de Gaza em 2005, a maioria deles em frente à praia, e forçou a saída de cerca de 8 mil residentes após o plano de retirada unilateral do então primeiro-ministro Ariel Sharon, que pôs fim a uma ocupação direta desde a Guerra dos Seis Dias de 1967.

O projeto que está sendo promovido pelo grupo de Weiss prevê a criação de seis assentamentos em diferentes pontos da Faixa de Gaza, que hoje abriga mais de 2 milhões de palestinos, a maioria deles deslocados após mais de um ano de guerra.

No mapa que a judia ultraortodoxa Orit Rosenfelder, de 23 anos, mostra à EFE, estão marcados esses seis assentamentos. "No norte, em Jabalia, meu primo está lutando contra o Hamas, e o que estamos vendo é que, enquanto continuarmos a permitir que os palestinos vivam lá, haverá mais terrorismo porque a maioria não quer a paz", diz.

"Estamos prontos para voltar a viver em Gaza assim que recebermos o sinal verde do Exército e eles nos disserem que é um lugar seguro. Voltaremos à nossa terra", afirma.

O próprio Netanyahu rejeita o retorno de civis judeus ao território palestino, mas alguns ministros radicais de seu governo não descartam essa possibilidade.

Em janeiro, em uma reunião em Jerusalém com a presença de até 12 ministros israelenses, os colonos declararam publicamente seus dois principais objetivos, repetidos nesta segunda-feira pelo ministro israelense de Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, líder do partido ultranacionalista Otzma Yehudit e um dos oradores da manifestação.

"Incentivar a imigração e os assentamentos judaicos em Gaza está em nossas mãos", disse Gvir no comício de segunda-feira, ele que é antiárabe e já foi condenado no passado por incitar o racismo e o vandalismo. "A verdade é que essa é a solução mais ética e mais correta”, disse ele, enquanto insiste que os palestinos não devem ser forçados a deixar a Faixa de Gaza.

"Sem os assentamentos não há segurança. Vamos nos estabelecer e fazer Gaza prosperar porque é a nossa terra", reiterou no pódio o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, líder da legenda de ultradireita Sionismo Religioso.

De acordo com o deputado do mesmo partido, Tzvi Sukkot, "retornar" a Gaza significa "fazer com que o Hamas pague um alto preço ideológico pela guerra que desencadeou contra nós".

"Eles devem entender que, nessa guerra, também perderão a Faixa de Gaza", disse ele à agência de notícias AFP.

Nem todos concordam. Ayala Metzger, uma das líderes dos protestos antigovernamentais e cujos sogros são reféns em Gaza, acredita que os discursos a favor da colonização do território "reduzem as chances de libertação" dos 97 reféns que ainda estão lá.

Outros, como Rohi Baruch, que ainda não recuperou o corpo de seu irmão Uriel, dizem que é preciso "retomar a Faixa de Gaza e preparar a instalação de civis" para trazer de volta os reféns.

A guerra em Gaza foi provocada pelo ataque sem precedentes do Hamas no sul de Israel em 7 de outubro de 2023, que resultou na morte de 1.206 pessoas, em sua maioria civis, segundo um levantamento baseado em cifras oficiais israelenses e que inclui os reféns mortos em cativeiro em Gaza.

Das 251 pessoas sequestradas durante o ataque, 97 permanecem em Gaza, das quais 34 foram declaradas mortas pelo Exército.

O ataque desencadeou a guerra em Gaza, que matou mais de 42,6 mil pessoas, em sua maioria civis. Os dados, embora tenham sejam fornecidos pelo Ministério da Saúde do território controlado pelo Hamas, são considerados pela ONU como confiáveis.
Deutsche Welle

Falsa democracia


Na falsa democracia mundial, o cidadão está à deriva, sem a oportunidade de intervir politicamente e mudar o mundo. Atualmente, somos seres impotentes diante de instituições democráticas das quais não conseguimos nem chegar perto
José Saramago, "As palavras de Saramago"

Globalização ou guerra

A globalização em seu formato atual é uma confirmação do provérbio “Se queres a paz, prepara-te para a guerra”. A frase do romano Flavius Vegetius, século IV D.C., encontra aplicação no braço forte militar e no soft power diplomático. Faz mais sentido ainda quando se trata da integração econômica global vigente (e suas vertentes cultural e política).

Acontece que a amplitude e a profundidade do cenário que hoje conhecemos como globalização foram pavimentadas pelo esforço militar norte americano, para se contrapor à expansão da União Soviética após a Segunda Guerra Mundial, no período chamado de Guerra Fria.

É o que afirma o estrategista geopolítico Peter Zeihan em “O Fim do Mundo É Só o Começo – Mapeando o Colapso da Globalização” (2024).

Ou seja, ao se prepararem militarmente para projetar poder em alcance global, os EUA construíram alianças nos cinco continentes, inclusive com seus ex-inimigos Alemanha e Japão. Para isso, usaram a onipresença dissuasória de sua marinha, alinhavando uma razoável paz mundial e a segurança do comércio em escala planetária.

O transporte oceânico de manufaturas e matérias primas existe há 500 anos, desde que os ibéricos inauguraram a navegação em águas profundas. Segundo Zeihan, que é consultor da CIA e das Forças Armadas dos Estados Unidos, a globalização prosperou plena enquanto o interesse norte americano na ‘pacificação’ dos mercados esteve elevado. Por tabela, metade da população mundial que se encontrava fora do jogo econômico também passou, bem ou mal, a ter acesso a empregos, bens, serviços e… paz.

Porém, ao final da Guerra Fria, com uma trégua nas tensões e a consolidação da supremacia norte americana, nota-se uma tendência de redução daquela presença direta das forças ianques em todos os cenários regionais.

Ao mesmo tempo, a capacidade industrial americana, somada às recentes descobertas de petróleo e gás de xisto na América do Norte, trouxe uma tranquilidade ao Tio Sam com relação ao que se pode chamar de Espaço Vital da nação. Inclua-se aí a disponibilidade de terras habitáveis e agricultáveis, abundância de hidrovias fluviais, acesso a dois oceanos e a juventude da população estadunidense.

O resultado dessa autossuficiência (segundo Zeihan, uma exclusividade geográfica norte americana) seria uma queda na motivação de continuar bancando os custos do seu “Destino Manifesto”. Os EUA estão deixando (em algumas regiões do globo) esse papel de “polícia do mundo” para subpotências navais, como o Japão, a França, a Inglaterra, a Austrália ou a Índia.

Quem sabe, isso explique uma aparente leniência dos americanos com as crises na Ucrânia, no Oriente Médio, em Taiwan, Coreia e Venezuela, parecendo apostar na capacidade dos atores regionais de limitarem os estragos, desde que o desequilíbrio local não contamine a geopolítica global e não encareça os fluxos de mercadorias. O raciocínio vale, principalmente, para os mercados de petróleo, alimentos, minerais, fertilizantes e novas fontes de energia.

Isso nos traz questões gerais, do tipo: Até onde será consentido a Israel atacar vizinhos como o Irã (entenda-se, instalações de petróleo e energia nuclear)? Qual será o futuro da velha Europa empurrada pela OTAN contra a Rússia? É possível haver globalização em um mundo conflagrado? A paz é viável em um mundo desglobalizado?

Para o Brasil, outras questões seriam: Para que servirão os BRICS? Quem será o Brasil na América do Sul? Qual é o futuro do País no mercado de alimentos, petróleo e minérios? Teremos autonomia alimentar, industrial e energética? Como prosperar nesse cenário, agravado pelas mudanças climáticas?

Líbano: 'Vizinhança inteira destruída' em ataque aéreo israelense

Quando o ataque aéreo ocorreu na segunda-feira à noite, Fouad Hassan, 74, estava sentado em sua varanda no bairro de Jnah, no sul de Beirute, lendo seu telefone.

Nenhuma ordem de evacuação foi dada pelo exército israelense antes que o foguete atingisse a casa de seus filhos e netos, a uma curta caminhada de distância.

“Quando o bombardeio aconteceu, eu desmaiei”, diz Fouad. “Fui levado para receber oxigênio devido à fumaça do ataque. Quando melhorei, percebi que o bairro inteiro estava devastado.”


Agora, uma pilha de aço e alvenaria mutilados jaz onde vários prédios residenciais ficavam muito próximos uns dos outros. Onde os prédios ainda estão de pé, os pertences das pessoas podem ser vistos lá dentro através de buracos abertos nas paredes.

Um escavador e cerca de 40 homens locais estão fazendo o trabalho lento de escavar e procurar corpos sob os escombros.

“Olhe para a destruição — um bairro inteiro destruído, as pessoas aqui mortas”, diz Fouad, gesticulando sobre o local da bomba. “Minha neta morreu aqui, e meu neto ainda está em coma. Ambos tinham 23 anos.”

Fouad é uma figura bem conhecida na comunidade. Ator e comediante, ele apareceu na televisão libanesa e é conhecido pelo nome artístico Zaghloul. Enquanto andamos pelo local da bomba, os moradores vêm apertar a mão de Fouad e oferecer palavras de condolências.

Tirando o telefone do bolso, Fouad nos mostra uma foto de sua neta, Alaa. Ela parece confiante, posando para a câmera e usando um elegante vestido dourado.

“Ela estava felizmente noiva, ansiosa para se casar em três meses”, diz Fouad. “Ela se candidatou para ser Miss Líbano e foi despedaçada. Por quê? Por que o mundo permite isso?”

Desde que Israel começou a intensificar seus ataques aéreos contra o Hezbollah em setembro , foguetes atingiram todo o comprimento e largura do país. É uma campanha militar que os líderes de Israel sentem que lhes trouxe grandes vitórias até agora - tendo tirado as vidas da liderança sênior do Hezbollah.

No entanto, também é uma campanha que tirou muitas vidas inocentes, com inúmeros relatos de famílias inteiras sendo mortas em greves por todo o país.

Mais de 1.900 libaneses foram mortos, de acordo com números do governo, desde que Israel intensificou os ataques aéreos. As estatísticas não diferenciam entre combatentes do Hezbollah e civis.

Apesar de não ter emitido nenhuma ordem de evacuação aos moradores com antecedência na noite de segunda-feira, o exército israelense posteriormente declarou que estava mirando um “alvo terrorista do Hezbollah”, mas não deu mais detalhes.

Os primeiros relatos vindos do local sugeriram que o complexo do hospital Rafik Hariri, o maior hospital público da capital, havia sido atingido, o que o exército israelense negou.

Os danos ao hospital são superficiais, mas do outro lado da rua, repleta de carros estacionados com as janelas quebradas, fica um bairro pobre que foi atingido.

O filho de Fouad, Ahmed, se junta a nós. Ele nos mostra uma foto de seu filho que está em tratamento intensivo no hospital, com o rosto enfaixado e ensanguentado.

“Esta era minha casa; ela se foi agora, assim como todo o resto. Não temos para onde ir e nem roupas. Isto é um massacre. Não temos base aqui, nem Hezbollah, não há nada”, Ahmed nos conta.

Não está claro por que seu exército decide emitir ordens de evacuação antes de alguns ataques com mísseis e não de outros - mas quando Israel ataca sem aviso em uma área residencial densa, o custo humano pode ser indiscriminado e alto.

Fouad nos conta que brincou com as crianças do bairro que foram mortas na greve.

“Sempre que eu entrava no bairro, eles gritavam: 'Vovô, vovô! O que você trouxe para nós?' Eu dava a eles doces, salgadinhos e pipoca. A perda deles me enche de tristeza; todos eles morreram. A mãe deles ainda está presa sob os escombros com um dos filhos.”

Quando começamos a deixar o local, um silêncio cai sobre os reunidos e vemos uma maca carregando um corpo embrulhado sendo levado pela escavadeira.

Disseram-nos que uma mãe foi encontrada ao lado de uma criança.